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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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segunda-feira, 4 de junho de 2012

A privação dos cuidados maternos e o desempenho escolar prejudicado.

 


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. jun., Série 04/06, 2012, p.01-21.



O artigo faz parte da Monografia de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/Universidade Cruzeiro do Sul, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.





Este trabalho constitui-se de pesquisa bibliográfica sobre as consequências da privação materna em crianças.

O trabalho foi feito com base em pesquisas cientificas realizadas por autores especializados em desenvolvimento emocional infantil durante a década de cinquenta.

O artigo mostra a importância das primeiras relações infantis, bem como os cuidados maternos adequados com qualidade que garantem o desenvolvimento sadio da criança, enfatizando que uma situação contrária a esta, pode influenciar negativamente na área educacional.

Inicialmente o trabalho procura evidenciar e diferenciar as variantes do termo “privação” e apresentar suas consequências negativas, relacionadas às respectivas idades em que são vivenciadas, em seguida estabelece uma comparação entre algumas áreas de desenvolvimento infantil afetadas pela privação.






Sendo a escola um espaço social fechado, a mesma, acaba oferecendo condições propicias para a avaliação emocional das crianças e dos adolescentes.

É na escola que os alunos podem ser comparados estaticamente com seus pares e com seu grupo etário e social.

É na escola também que o professor dispõe de maior oportunidade para observar e detectar problemas no desenvolvimento da criança.

Dentro da sala de aula ocorrem situações significativas que envolvem a psique emocional da criança, nas quais os professores podem atuar beneficamente, ajudando a sanar o problema do aluno, ou podem piorá-los ainda mais.

Os alunos podem trazer consigo um conjunto de problemas emocionais que podem ser próprios de suas personalidades ou que podem ser conseqüências de experiências vividas socialmente e com suas famílias.

Entre os problemas psíquicos que fazem parte da própria personalidade da pessoa, incluem-se alguns como o Transtorno Obsessivo Compulsivo, o Autismo, a Deficiência Mental, a Psicose, o Transtorno de Conduta, etc.

Alguns professores podem cometer o erro de considerar que todas as crianças devem agir e reagir da mesma maneira diante de determinadas situações, e que as expondo às situações ridículas ou constrangedoras, possam se corrigir e parar com “maus comportamentos”.

No entanto, condutas deste tipo agravam o sentimento de inferioridade da criança que passa a não gostar mais da escola e a não querer mais freqüentá-la.

Requer-se do professor que faça uma auto-avaliação e, caso seja descartada a hipótese do problema estar em seu trabalho, observar mais atenciosamente o “aluno problema” que pode ser reflexo de algum transtorno emocional, muitas vezes advindo de relações extrínsecas à estrutura de sua personalidade.

Dentre os exemplos de questões externas à personalidade da criança, que são capazes de traduzirem em problemas emocionais, o trabalho enfatiza a privação materna, uma vez que este assunto acha-se cada vez mais crescente e comprovado no campo da psicologia e reflete-se no campo da educação, porem com poucas pesquisas na área educacional sobre distúrbios e problemas de aprendizagem causados pela privação.

A qualidade dos cuidados parentais que uma criança recebe nos seus primeiros anos de vida é de importância vital para o bom desenvolvimento de sua personalidade e para a sua saúde mental futura.

Conhecer um pouco mais sobre o que significa a privação materna e que tipos de complicações ela traz para dentro do meio escolar, pode mudar a visão do professor sobre o “aluno-problema”, podendo sensibilizá-lo a mudanças significativas de postura e de trabalho com este aluno.

Este tema tem grande importância para a área educacional, já que não são raros os casos de alunos que não vivem com suas mães naturais ou com a família original.

Acredita-se que o essencial à saúde mental é que o bebê e a criança pequena tenham a vivência de uma relação calorosa, intima e continua com a mãe (ou mãe substituta permanente), na qual ambos encontrem satisfação e prazer.

É nesta relação amorosa entre mãe e filho nos primeiros anos, enriquecida pelas outras relações com o pai e irmãos, que é a base para o bom desenvolvimento da personalidade.

A situação na qual a criança não encontra esse tipo de relação chama-se “privação materna”, que abrange um grande número de situações diferentes e tem efeitos variados de acordo com o grau da mesma.

Além da privação, existem outras formas de separação ou rejeição, pelas quais a relação mãe-filho torna-se pouco saudável.

Estudos realizados e comprovados deixam claro que, quando uma criança é privada dos cuidados maternos, seu desenvolvimento é quase sempre retardado-físico, intelectual, social e emocionalmente – e que podem aparecer sintomas de doenças físicas e mentais.

Existem três aspectos que influenciam nos danos que uma criança pode sofrer: a idade em que ela perde os cuidados maternos, o tempo em que ela ficou privada destes cuidados, e o grau em que eles lhe faltaram.

Mas com certeza, todas as crianças com menos de sete anos de idade estão sujeitas a este risco, e os efeitos da privação podem ser claramente perceptíveis já nas primeiras semanas de vida.

Em alguns casos a privação materna pode causar danos irreversíveis e os sintomas podem levar a problemas escolares variados, principalmente a incapacidade de abstração, atraso e problemas da fala e da noção de tempo, que podem ser de difícil diagnóstico para o professor que não conhece este assunto.





O que se entende por Privação de Cuidados Maternos.


Uma relação normal entre mãe e filho é aquela onde ambos encontram prazer e satisfação nas trocas de carinho, de contato físico, de brincadeiras e de amor.



Podemos ter como exemplo sobre como seria uma relação “normal”, o conceito deste autor:



“... uma criança é um indivíduo ativo, de aparência sadia, que dá a impressão de ser feliz e dá pouca preocupação aos pais. Como bem, dorme bem; seu peso, assim como seu tamanho, aumenta normalmente, e a cada mês torna-se mais inteligente e mais ativa – e, cada vez mais, um ser humano. Emocionalmente, ela dá satisfação aos pais e parentes e, por sua vez, recebe deles cada vez mais satisfação.” (SPITZ, 1998, p.205)



Uma criança que apresenta estas características passa por boas relações afetivas e emocionais com sua mãe.

A mãe é a pessoa mais importante nos primeiros anos de vida da criança.

Não que os pais não tenham importância, mas a criança está ligada emocionalmente à mãe desde a gestação, e no caso das mães substitutas, são sempre elas que estão presentes nos momentos de limpar e trocar, alimentar, de fazer dormir, de amamentar e outros cuidados que um bebê e uma criança pequena precisam.

Enfim, é sempre à mãe que a criança recorre em seus momentos de angústia.

A relação sadia entre mãe e filho ‘e uma relação íntima, onde a criança recebe o conforto do colo materno,da amamentação, do respeito e carinho à sua fragilidade, onde aprende a cada dia que tem valor próprio e que é especial para sua família.

Uma mãe carinhosa e maternal se alegra com qualquer atitude de seu bebê e divide com ele essa alegria; esta interação de afeto relacionada a atitudes é uma das primeiras formas de aprendizagem que influenciará no bom desenvolvimento do bebê.

É denominada “Privação Materna” a situação onde a criança não encontra uma relação afetiva estável e duradoura com sua mãe natural ou substituta, e à falta de cuidados que só a mãe proporciona nos primeiros anos de vida.



Uma criança pode ser privada dos cuidados maternos por alguns fatores como:

Quando não há um grupo familiar natural estabelecido, ou seja, ilegitimidade, criança concebida fora do casamento, filho de “pai desconhecido”, fruto de abuso sexual;

Geralmente as crianças ilegítimas são rejeitadas socialmente e sofrem algum tipo de privação materna por suas mães solteiras encontrarem dificuldades para o sustento de ambos;

Quando a criança vive no grupo familiar natural intacto, porém não atuando de maneira eficaz: situação de miséria, doença grave ou incapacidade de um dos pais, desequilíbrio mental e instabilidade emocional de um dos pais;

Quando a criança vive em grupo familiar não intacto e não funcional, portanto, de maneira eficaz: morte de um dos pais, hospitalização prolongada de um dos pais, prisão, separação, abandono de lar, mudança para outro país ou um lugar muito distante, trabalho fora de casa em período integral com pouco contato com a criança.



Essas três categorias que contribuem para que a criança, de certa forma, sofra alguma privação de cuidados, são influenciadas principalmente, por fatores sócio-econômicos onde os pais nãos têm possibilidade de sustento adequado e nem amparo de políticas públicas.

É importante destacar outras formas de privação de afeto como a negligência emocional por parte da mãe que também sofreu falta de cuidados e afeto em sua infância, a crueldade física sofrida e a falta de controle dos pais.

De qualquer forma, a criança que sofre privação materna nos primeiros anos de vida tem comprometimento de sua saúde mental.

 




Tipos e graus da privação.


Segundo Bowlby (1981), o termo “privação da mãe” pode ser aplicado a vários grupos de condições diferentes, que podem ter consequências semelhantes.

Se a criança vive com sua mãe natural ou uma mãe substituta permanente, mas os cuidados que ela recebe e a interação que mantém com ela,são insuficientes, neste caso, a privação consiste na insuficiência de interação entre mãe e filho.

Quando ocorre uma separação da criança de sua mãe, não implica necessariamente em privação de cuidados maternos e insuficiência de interação, desde que seja proporcionada à criança separada outra mãe permanente.

Contudo, uma separação entre mãe-filho é sempre uma experiência perturbadora para a criança, principalmente se esta mantinha uma ligação afetiva suficiente e não a encontra da mesma maneira, posteriormente com a substituta ou se fica sendo cuidada por várias outras pessoas de tempo em tempo.

Desta forma, a descontinuidade na relação mãe-filho, traz efeitos prejudiciais no desenvolvimento infantil.

Outro conjunto de condições que emprega o termo “privação da mãe” refere-se ao tipo de relação entre o par que acontece de maneira prejudicial, ou seja, de maneira distorcida, como: rejeição, hostilidade, crueldade, falta de afeto, repressão e controle excessivo.

A insuficiência, a descontinuidade e distorção da relação mãe e filho, são três definições utilizadas para ajudar a distinguir e compreender as condições de privação materna que levam a efeitos prejudiciais variados.

Tais efeitos prejudiciais não variam quanto à natureza, mas quanto ao grau em que foram sentidos, incluindo a idade da criança na época da privação.

A criança que sofre privação por uma relação insuficiente ou que passou pela descontinuidade e já recebe, no momento atual, cuidados de uma mãe substituta (estranha), são casos de privação parcial, pois são situações em que a não dispõe de uma única pessoa que cuide dela de forma pessoal, são exemplos de instituições e creches de período integral.

No caso da privação total, a criança ficou totalmente privada de afeto e cuidados, sendo abandonada emocionalmente.

A privação parcial causa angústia, exagerada necessidade de amor, fortes sentimentos de vingança e, como conseqüência, culpa e depressão.

A privação total traz efeitos mais negativos ao desenvolvimento emocional, que já se tornou prejudicado desde as primeiras semanas de vida.





Reações em diferentes idades.


Como já fora mencionado, alguns fatores importantes contribuem para os efeitos prejudiciais da privação: o tempo a idade em que a criança o em que a criança ficou privada dos cuidados e o grau em que eles lhe faltaram.

Outro fator para tais efeitos é a idade em que a criança sofre a privação.



“Um estudo muito cuidadoso do choro e do balbucio dos bebês mostrou que os que se achavam num orfanato, desde o nascimento até os seis meses de idade, vocalizavam sempre menos do que os que viviam com famílias, podendo-se notar claramente a diferença já antes dos dois meses de idade. Este atraso na “fala” é especialmente característico da criança em instituição, em qualquer idade.” (BOLWBY, 1981, p.22-23)



Todas as crianças com menos de sete anos estão sujeitas ao risco de efeitos prejudiciais da privação, e alguns destes efeitos podem ser discerníveis já nas primeiras semanas de vida do bebê.

Eles afetam o desenvolvimento infantil física, intelectual, emocional e socialmente.

Um grande número de pesquisadores estudou detalhadamente os efeitos da privação materna em crianças, desde que eram bebês, principalmente naqueles que viviam em instituições.

Tais pesquisas chegaram ao consenso de que o desenvolvimento de crianças que vivem em instituições está abaixo da média, já nos primeiros meses de vida:

Entre os sintomas observados, constatou-se que o bebê que sofre de privação pode deixar de sorrir para um rosto humano ou de reagir quando alguém brinca com ele ou apesar de bem nutrido, pode não engordar, pode dormir mal e não demonstrar iniciativa.



Os bebês entre seis e doze meses separados de suas mães, sem receberem uma mãe substituta adequada, apresentam diversas características típicas de um adulto depressivo:



“A criança se afasta de tudo ao seu redor, não há qualquer tentativa de contato com um estranho, e nenhuma reação positiva se este estranho a toca. Há um atraso nas atividades e a criança freqüentemente fica sentada ou deitada inerte, em profundo estupor. A falta de sono é bastante comum e todas têm falta de apetite. A criança perde peso e apanha infecções facilmente. Há uma queda acentuada em seu desenvolvimento geral.” (BOWLBY, 1981, p.26)



Se for proporcionada à criança uma mãe substituta única e presente, durante seu primeiro ano de vida, as conseqüências negativas podem ser evitadas.

No entanto, especialistas acreditam que, embora a recuperação da criança seja rápida com o retorno da mãe, ela pode ser dificultada e incompleta depois de três meses de privação.

Sptiz (1998) estudou e detalhou mais especificamente, patologias do desenvolvimento infantil no primeiro ano de vida, causado por distúrbios da personalidade materna, que se refletem nas perturbações da criança.



Aos dois ou três anos, as mães substitutas são completamente rejeitadas, o que agrava a recuperação da criança separada de sua mãe:



“... ficando a criança inconsolável por vários dias, uma semana ou mesmo mais, sem interrupção. Na maior parte deste tempo, ela fica num estado de desespero agitado, gritando ou gemendo. Recusa tanto o alimento quanto a ajuda. Apenas a exaustão a leva ao sono. Depois de alguns dias, a criança fica mais quieta e pode cair em apatia, da qual vai emergindo lentamente para começar a se interessar pelo ambiente estranho. Contudo, durante semanas, ou mesmo meses, ela poderá apresentar uma regressão a comportamentos de bebê. Poderá molhar a cama, masturba-se, parar de falar e insistir em ser carregada ao colo, de tal forma que uma atendente menos experiente pode julgá-lo mentalmente deficiente.” (BOWLBY,1981, p.270).



Crianças de três, quatro anos separadas e privadas de suas mães, tornam-se claramente hostis.

A mãe, por sua ausência, passa a ser uma pessoa odiada.

A hostilidade pode ser manifestada de várias formas: birras, violências, fantasias contra seus pais.

Todo este ódio é fruto do sentimento de abandono pela mãe ou ambos os pais, levando a criança a um conflito de ambivalência, de amor e ódio.

Este sentimento conflitante produz angústia e depressão e provoca um comportamento agressivo e delinqüente.

Em casos extremos, também pode levar ao suicídio como alternativa de assassinato dos pais.

O fato de a criança estabelecer relações e posteriormente perde-las, causa o medo de ser ferido de novo, levando-a a se afastar do contato humano, a se fechar em si mesma e evitar maiores frustrações.

Como consequência, acaba perdendo a capacidade de estabelecer relações afetivas, sem perder o seu desejo de amar, que fica reprimido.

A repressão deste desejo de amor é que leva a comportamentos como relações sexuais promíscuas, frutos e sentimentos de vingança.

Crianças que sofreram privação total, não apresentarão as mesmas características, pois já têm o seu desenvolvimento emocional prejudicado, ou seja, não formaram vínculos afetivos.

Seus sintomas são considerados mais graves, se relacionam com outras pessoas de forma superficial, não demonstrando sentimentos verdadeiros, são incapazes de se interessarem ou estabelecerem laços de amizade profunda, não apresenta reações emocionais, não demonstram afeto e nem preocupação.

Geralmente são falsas, furtam, mentem constantemente, são agressivas e apresenta sexualidade precoce, promiscuidade, baixo nível de inteligência, baixa capacidade de abstração e de raciocínio lógico, além de déficit no desenvolvimento da fala.

Em longo prazo, as crianças que sofreram privação total, podem desenvolver personalidade delinquente, psicopata e incapaz de afeição (BOWLBY, 1981).

Aos cinco ou seis anos, os danos que a privação causa tornam-se mais leves e diminuem.

Nesta fase, a criança já é capaz de entender melhor as situações que levaram à falta da mãe.

Porém, é mais comum nesta idade a idéia de punição, ou seja, a criança acredita que ficou sem a mãe como castigo por ter sido má ou que foi separada de sua família por sua culpa.

É uma interpretação errônea que nem sempre é expressa pela criança.

Por carregar a culpa pela separação de sua mãe ou família, torna-se maior sua lealdade, que é esta ligação profunda da criança com seus pais, por mais terríveis e maus que tenham sido.

Mesmo a privação sendo causada pela relação distorcida, ainda assim, a criança é fiel aos pais.

Inúmeros são os estudos de psiquiatras e psicanalistas que buscam explicar a distúrbio mental relacionada a uma perda, seja esta pelo luto ou pela separação, sentida pelo adulto, jovem ou criança.

O fato é que perder uma pessoa amada é uma das experiências mais intensamente dolorosas que o ser humano pode sofrer e, quando pensamos que esta experiência pode também atingir uma criança, voltamos nossa atenção a esta fase que significa a base para o bom desenvolvimento do individuo: a infância.

Estudiosos ou não, todas as pessoas se preocupam com os infortúnios que uma criança possa passar, principalmente porque ela é um ser humano totalmente, frágil, sensível e tão cedo já se depara com espinhos da vida.

Mas nem sempre os adultos preferem enxergar esse tão doloroso sofrimento da perda ou privação, vivenciada pela criança.

Preferem acreditar que a criança se esquecera da mãe, ou que não sabe o que está acontecendo, como se ela fosse uma lousa onde tudo que vivenciou pudesse ser apagado e escrito uma nova vida.

Embora esta fosse a vontade de muitos, observações mostram que o desejo de retorna da mãe persiste na criança e que esta persistência vem carregada de uma hostilidade; também revelam que até as crianças pequenas tem capacidade de reter na memória seu modelo de mãe ausente e se lembram dela durante a permanência com pessoas estranhas.

Os efeitos da privação podem ser variados, de acordo com a idade que a criança se encontra ao ter inicio esta privação.

Estas variáveis determinam quais os processos no desenvolvimento infantil que serão afetados negativamente.

Dentre os processos intelectuais, a linguagem e abstração ficam mais vulneráveis e dentre os processos da personalidade, a capacidade de estabelecer e manter relações interpessoais profundas e significativas, juntamente com a capacidade de controlar os impulsos, parece que são os mais atingidos.

Ao entendermos que para a aquisição da aprendizagem faz-se necessário um ambiente adequado e estimulador, podemos supor então, o quanto ela se tornará difícil para estas crianças que foram privadas de suas mães ou não tiveram a intenção e estimulação satisfatória com seu ambiente inicial.

Segundo teorias psicanalíticas, a privação precoce da mãe faz com que a criança crie defesas contra novas frustrações, decorrentes da interação com novos ambientes que venha a conhecer, ou seja, a criança pode se tornar isolada e resistente a mudanças, afetando assim a aprendizagem de algo novo.

Uma reversão só seria possível com o máximo de esforços de um novo ambiente para romper estas defesas e, com certeza, a educação também tem que cumprir a sua parte nesta tarefa.






Interesses e preferências da mãe são influencias para o desenvolvimento infantil.

Não só influenciam como também incentivam determinados tipos e níveis do desenvolvimento, ou seja, a criança parece concentrar-se e desenvolver-se melhor naqueles níveis que recebem mais diretamente o amor e aprovação materna e o prazer da mãe nos feitos dos filhos.

Contrariamente, parece negligenciar os níveis do desenvolvimento que não recebem esta aprovação (FREUD. A. 1971).

Isto que dizer que as atividades aclamadas pela mãe são repetidas com mais frequência, tornando-se libidinizadas e, por tanto, são estimuladas em sua evolução.

Tudo isto significa que quando há um desequilíbrio em algumas etapas do desenvolvimento infantil como um todo, eles podem ter sido criados por situações externas; especificamente para este estudo, pela privação afetiva da mãe.

As etapas pelas quais passa a criança pequena desde a sua completa dependência corporal e emocional até a sua autoconfiança e amadurecimento sexual seguem uma linha gradual de desenvolvimento, que vai fornecer a base para o que é normal ou anormal, em relação ao emocional do individuo.

As etapas do desenvolvimento recebem a contribuição do id e do ego em formação.

A disposição da criança para enfrentar acontecimentos que geram angustia e ansiedades, como por exemplo, o nascimento de um irmão, hospitalização, entrada na escola, etc., é vista como resultado direto do progresso em todas as linhas de seu desenvolvimento.

Se os níveis adequados foram atingidos, os acontecimentos poderão ser benéficos para a criança, caso contrário, os esforços por parte dos pais, enfermeiras e professores não impedirão sentimentos de aflição, fracasso, e infelicidade por deixar temporariamente seu ambiente familiar e a presença constante da mãe.

Até a maturidade emocional sadia do individuo adulto há um longo caminho a percorrer, cheio de níveis pertinentes passados na infância, aos quais a Psicologia e Psicanálise se encarregam de estudar.

No entanto, há diretrizes básicas no desenvolvimento infantil que merecem receber atenção por se tratarem especificamente de diretrizes que sofrem influencias negativas diretas, e conseqüentemente, tornam-se prejudicadas pela falta da mãe, como foram mencionadas anteriormente; a interação social, a capacidade de abstração e o desenvolvimento da linguagem.






Quando nasce, a criança é muito indefesa; sua sobrevivência dependerá da ajuda prestada pelo grupo social onde ela vive.

Ao mesmo tempo, ela possui uma grande capacidade para a aprendizagem, já que o sistema perceptivo herdado geneticamente encontra-se organizado, colocando-a em contato com o meio através dos sentidos, e servindo para estabelecer relações entre organismo e meio, sobretudo às características do meio que possam ter conseqüências positivas ou negativas.



De acordo com Spitz:



“O primeiro ano de vida é o período mais plácido no desenvolvimento humano. O homem nasce com um mínimo de padrões de comportamento pré-formados e deve adquiris incontáveis habilidades no decorrer do seu primeiro ano de vida. Nunca mais na vida tanto será aprendido em tão pouco tempo.” (SPITZ, 198, p. 109)



Além da capacidade de percepção, a criança esta constantemente sendo estimulada a perceber o meio que a cerca.

Ela sente-se mais atraída pelos estímulos de origem social, como o rosto humano.

Sem dúvida, o estimulo mais relevante para o bebê é aquela pessoa que cuida dele: a mãe.

O rosto humano é dotado de características que atraem o bebê, como o brilho dos olhos, o contraste entre o cabelo e a fronte, o contraste entre os olhos e a boca, cor, movimento, expressões faciais e um outro estimulo sonoro que a criança gosta: a voz humana que sai da boca.

Tanto sua capacidade de aprendizagem quanto, sua atração por estímulos sociais, fazem com que a criança esteja em condições ideais para iniciar o processo de assimilação de valores, normas e formas de agir que seu grupo social irá transmitir-lhe.

A transição cultural que envolve regras, valores, costume, atribuição de papeis, ensino da linguagem, habilidades e conteúdos escolares, é realizada através de determinados grupos sociais encarregados de incorporar a criança á sociedade.

Entre estes agentes sociais estão a mãe,pai, os irmãos, outros familiares, amigos, professores e outros como os meios de comunicação.



De acordo com Coll (1995), os processos de socialização pelo qual passa a criança são basicamente três mais importantes:



- Os processos mentais de socialização: aquisição de conhecimentos;

- Os processos afetivos de socialização: formação de vínculos;

- Os processos condutais de socialização: conformação social da conduta.



Os vínculos afetivos que a criança estabelece com a família e amigos são à base de seu desenvolvimento social, pois uma vez estabelecidos, unem a criança aos demais e a sua manutenção transforma-se em um dos motivos fundamentais da sua própria conduta social, como ter empatia pelo outro, colocando-se em seu lugar; o apego emocional; a formação de amizades profundas, etc.

Os processos mentais de socialização como: conhecimento de valores, normas, aprendizagem da linguagem, conhecimentos adquiridos na escola e outras fontes, fazem com que a criança conheça como é sua sociedade, comunique-se com os demais membros e comporte-se de acordo com o que é esperado dela.

A socialização envolve também a aquisição de condutas que são consideradas desejáveis, bem como a se evitar aquelas que são consideradas anti-sociais.

Para isto não basta que a criança saiba o que é certo ou errado, mas que saiba ter controle sobre sua conduta e sinta-se na moral, no raciocínio sobre a utilidade social de determinados comportamentos, bem como suas conseqüências, o medo do castigo e o medo de perder o amor e favores que recebe dos demais.

Se a criança vincula-se afetivamente a determinados adultos, se adquire o conhecimento de que a sociedade é o que espera dela, e se tem um comportamento adequado a estas expectativas, estará bem socializada.

Há uma sociedade estabelecida dentro do par mãe-filho, onde as trocas estão em fluxo contínuo, cada um deles é o complemento do outro, enquanto a mãe fornece o que o bebê precisa e o bebê por sua vez, fornece o que a mãe precisa para sentir-se bem.

A partir do inicio da vida, a mãe é o parceiro do filho que serve de mediador a toda percepção, toda ação, todo conhecimento.

Quando os olhos do bebê seguem cada movimento da mãe, quando ele consegue fixar-se no rosto da mãe de forma preferencial às outras coisas externas, devido às trocas afetivas continuas, este rosto materno assumira cada vez mais um significado maior.

Esta seleção faz parte de um processo de aprendizagem, onde são de extrema importância os sentimentos das mães em relação ao seu filho.

A mãe oferece um clima emocional favorável e uma variedade de experiências vitais: o que tona estas experiências tão importantes para a criança é o fato de que elas são enriquecidas e caracterizadas pelo afeto materno.

A existência da mãe, sua simples presença, age como um estímulo para as respostas do bebê; sua menor ação por mais insignificante que seja, mesmo quando não está relacionada com o bebê, age como estímulo.

Seus afetos, seu prazer, suas próprias ações, conscientes ou inconscientes, facilitam inúmeras e varias ações do filho.

Pode-se dizer que “o maior grau de facilitação para ações do bebê é propiciado, não pelas ações conscientes da mãe, mas por suas atitudes inconscientes” (SPITZ, 1998).

Os fatores relevantes para a socialização são: de um lado, a mãe com sua individualidade, e de outro lado, a criança cujo desenvolvimento se estabelece progressivamente, através de continua inter-relação, com a ajuda de outros membros do meio familiar.






Como se desenvolve a personalidade e os processos de abstração do individuo em processo de interação e adaptação ao meio, enquanto que para tal depende dos cuidados maternos?

À medida que a personalidade se desenvolve, o individuo torna-se cada vez mais apto a escolher e criar seu ambiente, e passa a planejar para conseguir o que quer.

Isto significa que ele aprende a pensar de forma abstrata, aprende a usar a imaginação e fazer considerações sobre seus desejos imediatos e objetivos almejados.

Conforme a criança cresce, espera-se dela que pense antes de agir, que tenha capacidade de fazer abstrações do tempo e do espaço, a fim de poder considerar as coisas que quer no futuro e a perceber que para serem conseguidos, alguns desejos e vontades precisam ser sacrificados.

É através da percepção de coisas que agradam e desagradam às pessoas, que a criança passa a aprender e a ter consciência de seus atos, sendo que é a mãe quem agirá como esta consciência nos estágios iniciais do desenvolvimento infantil, até que ela atinja um grau de maturidade e se estabeleça como um indivíduo consciente e de personalidade própria.

As perturbações que a personalidade e consciência podem passar geralmente se devem a distúrbios sofridos em etapas importantes do desenvolvimento infantil como: a fase na qual o bebê está a caminho de estabelecer uma relação com uma pessoa que identifica claramente a mãe, por volta dos cinco ou seis meses; a fase na qual ele necessita da presença constante da mãe, geralmente até o seu terceiro aniversário; a fase na qual a criança começa a relação com a mãe mesmo quando ela está ausente.

São estes os processos que são prejudicados pela privação, impedindo que a personalidade e consciência se desenvolvam bem.

Se o comportamento da criança é impulsivo e descontrolado e ela não é capaz de ter objetivos em longo prazo porque cede aos prazeres momentâneos, se seus desejos são ou devem ser todos realizados, se não há um poder de se auto-contentar, é porque sua personalidade foi incapaz de aprender com a experiência, resultado este da falta da mãe que deveria agir como uma consciência da criança pequena.

Indivíduos que apresentam estas características têm reduzidas as capacidades para lidar com idéias ao invés de ficarem presos aos objetivos do momento.

Todas as crianças institucionalizadas, estudadas por Bowlby (1981), apresentam uma incapacidade grave e especifica para o raciocínio abstrato – o pensamento necessário à ação do eu, da consciência.

A criança pequena deve pensar antes de agir e deve abandonar a resposta automática a qualquer acontecimento, só então se tornará uma pessoa completa, por exemplo: espera-se que a criança não saia correndo em direção à rua, atrás de sua bola, sem tomar os cuidados necessários para atravessar, e isto acontece quando ela para pra pensar o que vai fazer.

É possível que quando o raciocínio abstrato não se desenvolve adequadamente, através da interação satisfatória com a mãe, a personalidade não possa amadurecer totalmente, ou seja, a pessoa torna-se um adulto cujo ego é enfraquecido.

Segundo a teoria psicanalítica, a probabilidade de uma criança permanecer mentalmente saudável está relacionada com a capacidade de seu ego para arcar com as ansiedades, isto é, o ego é mediador entre o eu e o meio ambiente, capaz de tolerar as frustrações.

Este ego só pode se desenvolver de forma saudável se a criança tem assegurada em sua infância a permanência da pessoa capaz de lhe proporcionar esta experiência: a mãe ou a mãe substituta.

Mas por que a criança que sofre privação tem prejudicada a sua capacidade de raciocínio abstrato?

Ora, a mãe é considerada nos primeiros anos de vida da criança, como sua personalidade e consciência.

A criança institucionalizada, geralmente, nunca teve esta experiência e conseqüentemente não pôde completar a primeira fase do desenvolvimento estabelecendo uma relação com a figura materna claramente definida.

A sucessão de substitutos ou de outros agentes disponíveis para seus cuidados, não lhe deu a continuidade no tempo, que faz parte da essência da personalidade.

Como as crianças de instituição nunca foram cuidadas por uma única e permanente pessoa, não tiveram oportunidade de aprender os processos de abstração e de organização do comportamento no tempo e no espaço.

Ao contrario daquelas que vivem com suas famílias, dentro deste grupo, a criança é encorajada a expressar-se tanto socialmente quanto nas brincadeiras; já se tornou um ser com características próprias para sua família, sabe das coisas que ela gosta e que não gosta e ela própria esta aprendendo a modificar seu ambiente, levando as pessoas a fazer o que ela quer.

Estas práticas são importantes para o desenvolvimento da personalidade e isto não ocorre dentro de uma instituição para crianças abandonadas e longe de suas famílias.

Se a criança sofre a privação na segunda fase, a qual ela precisa constantemente da figura da mãe para sentir-se segura, defronta-se com uma situação na qual se sente apavorada e frente a tarefas que sente como impossíveis.

Nesta situação, é possível que as capacidades já adquiridas sejam perdidas e a criança regrida às formas mais infantis de comportamento.






O ser humano é um aprendiz da língua praticamente desde os primeiros dias de vida até a idade adulta.

O domínio progressivo das habilidades do uso da linguagem é um fator decisivo no desenvolvimento psicológico geral.

A evolução da linguagem está relacionada ao meio social e à capacidade intelectual, ou seja, a experiência proporcionada pelo uso que os demais fazem da linguagem em suas interações e, especialmente, ao comunicar-se com a própria criança, oferecendo a ela sua principal fonte de informação sobre a linguagem.

A aquisição da fala é um processo complexo.

A vocalização do bebê, que no inicio servia para descarregar as tensões, agora passa por modificações e torna-se um jogo onde a criança repete e imita sons que ela mesma produziu.

A criança percebe sua vocalização por volta dos três meses, repete-os e, mais tarde, utiliza estas experiências ao imitar os sons que ouve de sua mãe.

Normalmente o meio social oferece um modelo de uso da linguagem, adaptado aos modos de vida e ao tipo de interações habituais nesse meio social.

Uma família que possui um bebê pode, por exemplo, utilizar um notável e comum modelo de fala, onde tende a simplificar a fala dirigida à criança pequena, adaptando-se à capacidade do bebê ou, mais exatamente, a uma melhor interpretação e de consequência otimizadora da capacidade do bebê: é a fala maternal, que dura até por volta dos dois anos.

Depois desta idade, a criança consegue regular, com o adulto, o diálogo sem se acomodar ao interlocutor infantil, e vai aproximando sua fala ao padrão.

A fala maternal usa procedimentos que facilitam a compreensão: ela é simples e repetitiva como, por exemplo, au-au para referir-se a cachorro, piu-piu para passarinho e mamá para mamadeira, além de ser enfática, com pronunciação lenta e rítmica, de acentuação e entonação muito marcadas e freqüentemente acompanhadas de gesticulação vocal.

A pronunciação das vogais é prolongada, busca a facilitação do significado com o apoio dos gestos e refere-se tão somente ao contexto linguístico acessível, ou seja, situa-se unicamente no presente.

É uma fala carregada de entonação suave e carinhosa.

A fala da criança de dois ou três anos compartilha muitas vezes destas características e somente começa a se assemelhar à fala convencional quando os adultos próximos abandonam o estilo maternal e proporcionam outras formas comunicativas usuais.

Portanto, uma das primeiras experiências de aprendizagem da aquisição da fala, se dá na inter-relação mãe-filho, que facilita e precede a aquisição da linguagem propriamente dita.

Sendo o recém nascido um individuo ativo, preparado para receber o intercambio social na interação com o meio, busca estímulos e organiza a informação adquirida, mostrando condutas especificas relacionadas á linguagem humana.

O adulto é quem controla estes intercâmbios sociais; e estas interações iniciais que a mãe oferece ao bebê, dão origem a significados rudimentares, compartilhados pela criança e por quem cuida dela.

Um sabe o que esperar do outro enquanto resposta determinado comportamento.

No entanto, não basta apenas a afetividade, mas a comunicação que se estabelece nesta interação.

Através da comunicação, as interações podem tornar-se mais complexas, pois surge no contexto o mundo dos objetos externos aos jogos de mãe e filho.

Coll (1995), falou da relação entre estes jogos e a aquisição da linguagem.

Este autor emprega o nome de formato para descrever estas interações triangulares (mãe-filho-objeto).



Em suma, distingue:



- Formatos de ação conjunta: situações nas quais o adulto e a criança agem conjuntamente sobre um objeto, como: “jogo de dar e tomar”, “o jogo de tirar e colocar”;

- Formatos de atençãoconjunta: situações nas quais o adulto e a criança observam conjuntamente um objeto, como: jogos de indicação e jogo de leitura de livros e gravuras, etc.;

- Formatos mistos têm as características da ação e atenção conjunta, como o jogo do “cuco”, onde se esconde e faz-se reaparecer algo.



Nos três tipos de formatos, o adulto e a criança envolvem-se conjuntamente na elaboração de procedimentos, ou seja, ambos têm que negociar e estabelecer a conduta a ser seguida.

As relações sociais envolvidas estão no fato de que alguns jogos fazem com que adulto e crianças façam coisas para e com o outro, sendo a comunicação o instrumento fundamental.

As implicações educacionais das características inerentes ao processo da linguagem e comunicação são importantes.

Em primeiro lugar, o domínio das habilidades comunicativas é conseguido no contexto das relações individuais em situações variadas.

Em segundo lugar, as tarefas envolvidas precisam ser motivantes para a criança.

As palavras que a criança incorpora relacionam-se diretamente ao contexto que vivencia e são utilizadas neles.

As primeiras palavras são empregadas, em primeiro momento, de forma contextualizada, para posteriormente serem utilizadas referencialmente em outras situações, como é o caso da criança que aprendeu a palavra “acabou” e a utiliza tanto para referir-se a algo que realmente acabou, quanto para alguma ação que queira realizar.

Assim, da mesma forma que a criança vai estabelecendo o significado de suas primeiras palavras, vai compreendendo cada vês melhor o caráter instrumental da linguagem.

A criança passa a aumentar seu vocabulário a partir da necessidade de nomear a realidade que circunda, no contexto em que participa ou de expressar sua intenção neste contexto.

Através da interação com o meio, a aquisição da linguagem se processa de varias maneiras, onde todos os agentes envolvidos contribuem para o ensino desta á criança.

Porém, dando mais ênfase nesse processo relacionado á Psicanálise e a importância da interação que a criança tem com sua mãe.

Uma das explicações encontradas, diz respeito á incorporação de uma determinada palavra: o não.

Spitz (1998) refere-se á compreensão que a criança adquire sobre proibições, como um dos mais importantes requisitos para a comunicação humana.

A partir do momento que a criança aprende a andar e foge ao controle da mãe, ocorre uma mudança significativa na comunicação entre mãe e filho.

Há uma maior predominância da palavra não, de modo que a intervenção materna tem que basear cada vez mais em gestos e palavras.

Desde que a locomoção é adquirida, o cantarolar, os balbucios de antes e os contatos corporais freqüentes, que são diminuídos, se transformam em ordens, proibições e reprovações.

O que a mãe mais fala agora é ”Não! Não!” e dizendo isto também balança a cabeça e faz sinal com o dedo indicador, impedindo a criança de fazer o que estava pretendendo.

A criança entende as proibições da mãe através de um processo de identificação. Para a criança, este meneio de cabeça torna-se símbolo duradouro da ação frustradora da mãe.

A criança adotara este gesto, mesmo quando adulta, pois foi adquirido e reforçado durante o período mais arcaico da consciência, no inicio do estagio verbal.

Segundo o autor, o meneio negativo da cabeça e a palavra “Não”, são diferentes das outras palavras globais, como “mamá”, “papá”, etc., pois representam um conceito: o conceito de negação, de recusa.

Não é apenas um sinal, mas um signo da atitude da criança, consciente ou inconsciente.

Trata-se do primeiro conceito abstrato formado na mente da criança.

O meneio negativo de cabeça não é apenas imitação do gesto da mãe.

A criança é quem escolhe a situação em que vai usar o gesto e, depois a palavra.

Quando a criança recusa algo que a mãe deseja ou oferece, é como se ela fosse imitar, como se o gesto negativo da mãe tivesse sido registrado na memória da criança.

Entretanto, após registrar na memória a associação do meneio de cabeça com recusa, a criança, por sua vez, reproduz o gesto quando ela expressa recusa.

O principal fato intelectual necessário para tais abstrações e generalizações não é explicado apenas através da acumulação de traços de memória.

A psicologia da Gestalt diz que tarefas inacabadas são lembradas, enquanto que as tarefas acabadas são esquecidas, então, quando a mãe proíbe ou recusa alguma coisa, o seu “Não” impede a criança de completar a tarefa que pretendia realizar.

O fato de a criança não poder realizar a tarefa reforçará, assim, a sua recordação e lembrança do que significa a palavra “não”.

Segundo a teoria da psicanalítica, todo “Não” da mãe representa uma frustração emocional para a criança.

Há uma carga afetiva de desprazer que acompanha a frustração e que provoca um impulso afetivo do id.

Um traço de memória é registrado no ego da proibição e será investido com esta catexia agressiva.

A criança passa a viver no conflito entre a ligação libidinal, que a atrai para a mãe, e a agressão provocada pela frustração que esta mesma mãe lhe impõe.

Entre o desprazer de se opor á mãe, arriscando-se a perder o objeto, a criança recorre a um mecanismo de defesa, a “identificação com o agressor”, conforme foi descrita por Anna Freud (1971).

Esta identificação com o agressor será seguida, por um ataque contra o mundo exterior.

Na criança de quinze meses, este ataque assume a forma do ”Não” primeiro o gesto o depois a palavra que a criança obtém do objeto libidinal.

Devido a numerosas experiências de desprazer, o “Não” é investido co catexia agressiva.

Isto torna esta palavra apropriada para expressar agressão, e é por isso que o “Não” é usado no mecanismo de defesa de identificação com o agressor e é voltado contra o objeto libidinal.

Uma vez que este passo tenha sido completado, pode começar a famosa fase de teimosia, com a qual marca o período do segundo ano de vida.






É muito importante a avaliação global da criança ou do adolescente, considerando as diversas possibilidades de alterações que resultam nas Dificuldades de Aprendizagem, para que o tratamento seja o mais especifico e objetivo possível.

Algumas Dificuldades de Aprendizagem englobam, principalmente, as chamadas disfunções cerebrais, como Transtorno da Leitura, Transtorno da Matemática e Transtorno da Expressão Escrita, bem como os transtornos da linguagem falada.

Outras Dificuldades de Aprendizagem seriam conseqüentes a alterações biológicas especificas e bem estabelecidas e alterações comportamentais bem esclarecidas, sendo estas ultimas mais freqüentes em escolares.

Em relação ás alterações biológicas têm-se as lesões cerebrais, Paralisia Cerebral, Epilepsia e Deficiência Mental.

Ainda dentro das causas biológicas, há as situações de dificuldades de aprendizagem conseqüentes a outros problemas perceptivos que afetam a discriminação, síntese, memória e relação espacial e visualização.

Em relação aos problemas de comportamento, um dos fatores mais marcantes para o desenvolvimento de Dificuldade de Aprendizagem são os quadros classificados como Comportamento Disruptivo e, dentro deles, o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e o Transtorno Desafiador o Opositivo.

Quanto aos problemas emocionais que favorecem as Dificuldades de Aprendizagem, principal item abordado neste Artigo, aparecem a Depressão Infantil e do Adolescente, a Ansiedade de Separação na Infância e a Privação Materna.

Algumas inibições, sintomas e ansiedades surgem quando uma determinada fase do crescimento impõe exigências excessivas à personalidade da criança, ou seja, quando a criança ainda não está apta ou preparada para passar por determinadas situações; se tais sintomas não forem mal conduzidos pelos pais ou professores podem desaparecer logo que a adaptação ao nível do desenvolvimento tiver sido feita.

Geralmente, os sintomas patológicos não causam o sofrimento da criança, mas sim as ações restritivas dos pais.

Até a enurese e encoprese (ato de urinar e defecar na roupa) podem ser ignorados e não vistos como humilhantes pela criança aflita, mostrando que elas sofrem menos do que os adultos de suas psicopatologias, porém sofrem mais que eles de outras tensões a que são expostas: as crianças pequenas sofrem de todo e qualquer racionamento, demora e frustrações que imponha às suas necessidades corporais e derivadas de impulso; sofrem em virtude de separações de seus primeiros objetos de amor, seja qual for o motivo que eles ocorreram; em virtude de decepções reais ou imaginadas causadas por tais objetos; sofrem de ansiedades causadas pelo complexo de Édipo e complexo de castração, por culpas, fantasias, etc.

Até uma criança normal pode sentir-se infeliz por vários destes motivos, inclusive os fantasiosos, levando-a a reagir emocionalmente com variados comportamentos.

Em contrate, é a criança obediente, quieta e resignada que deve ser desconfiada pelos adultos de que processos anormais estão atuando nela.

As crianças tidas como boas e quietinhas, isto é, que aceitam sem protestar qualquer condição desfavorável, pode estar agindo assim porque sofrem de algum dano no desenvolvimento do ego e uma passividade do lado de seus impulsos (FRUD, A., 1971).

As crianças que separam com muita facilidade de seus pais podem assim proceder porque não formaram relações normais; não sentir aflição e ansiedade quando há ameaça de perda de amor não é sinal de saúde e forca numa criança, ao contrario, está longe de ser saudável, pois não protestar se aproxima “da primeira indicação de renuncia autístita ao mundo dos objetos” (FREUD, A., 1971, p.109).






A sintomatologia das crianças separadas de suas mães é similar aos sintomas conhecidos da depressão em adultos.

Este fato mostra que, desde muito novas, as crianças podem sofrer de depressão como consequência de uma privação e, se não diagnosticada e tratada desde o inicio, ela arrasta-se com o doente interferindo no seu di a dia.

Contudo, apesar de terem sintomas similares, a depressão no adulto e a depressão na criança passam por processos psíquicos diferentes.

O trabalho refere-se á Depressão Infantil, neste item, como uma consequência da carência afetiva, onde a criança foi privada dos cuidados maternos – o que não exclui a possibilidade de, mesmo quando presente, a mãe privar seu filho de afetos.

Embora na maioria das crianças, os sintomas de depressão sejam atípicos, algumas podem apresentar sintomas clássicos como tristeza, ansiedade, expectativa pessimista,mudanças no habito alimentar e no sono, ou por outro lado, problemas físicos como dores inespecíficas, fraqueza, tonturas, mal estar geral que não respondem ao tratamento médico habitual.

Em crianças e adolescentes a Depressão, em sua forma atípica, esconde verdadeiros sentimentos depressivos sob uma máscara de irritabilidade, hiperatividade e rebeldia.

As crianças mais novas, devido à falta de habilidade para a comunicação que demonstre seu verdadeiro estado emocional, também manifestam a Depressão atípica com hiperatividade.

A Depressão na criança e no adolescente pode ter inicio com perda de interesse pelas atividades que habitualmente eram interessantes, manifestando-se como uma espécie de aborrecimento constante diante dos jogos, brincadeiras, esportes, sair com amigos, etc., além de apatia e redução significativa da atividade.

Às vezes pode haver tristeza.

Ainda aparece diminuição da atenção e da concentração, perda de confiança em si mesmo, sentimento de inferioridade e baixa auto-estima, idéia de culpa e inutilidade, tendências e ideias ao suicídio.

Na criança e adolescente é comum a Depressão acompanhada também de sintomas físicos, tais como fadiga, perda de apetite, diminuição da atividade, queixas inespecíficas tais como cefaléias, lombalgia, dores nas pernas, náuseas, vômitos, cólicas intestinais, vista escura, tonturas, etc.

Quanto ao comportamento, a Depressão na Infância e Adolescência pode causar deterioração nas relações com os demais familiares e colegas, perda de interesse e isolamento.

As alterações cognitivas da Depressão Infantil, principalmente a relacionadas à atenção, raciocínio e memória, interferem fundamentalmente no rendimento escolar.

Tendo em vista o fato de ser possível que muitos sintomas relacionados apareçam naturalmente como parte das etapas normais de desenvolvimento da infância e adolescência, para estabelecer um diagnóstico provável de Depressão, é necessário avaliar sua situação familiar, existencial, seu nível de maturidade emocional e, principalmente, sua auto-estima e conduta.

Na fase pré-escolar as crianças podem somatizar o transtorno afetivo, o qual se manifesta através de dor abdominal, falta de peso, retardo no desenvolvimento físico esperado para a idade, além da fisionomia triste, irritabilidade, alteração do apetite, hiperatividade e medo inespecífico.

Na fase escolar, o cansaço, a dificuldade concentração, as alterações da memória, são as complicações da Depressão Infantil, que comprometem muito o rendimento escolar e a aprendizagem.





Concluindo.

O propósito deste trabalho foi chamar a atenção para um grave problema emocional que, da mesma forma que atinge os vários aspectos do desenvolvimento infantil, também se reflete negativamente na aprendizagem escolar.

Separar, seja qual for a razão, uma criança pequena de sua mãe, durante o período de unidade biológica entre ambas, representa uma interferência injustificada com as mais importantes necessidades que acompanham o bebê.

Como tal, a criança reage com aflição legítima, a qual só pode ser avaliada pelo regresso da mãe ou, a mais longo prazo, pelo estabelecimento de vínculos com uma mãe substituta.

Não devemos esperar que todas as crianças manifestem um padrão muito regular de crescimento e se mostrem mais avançadas ou atrasadas em determinadas fases de suas vidas do que em outras.

Estas desarmonias em etapas do desenvolvimento infantil só se convertem em patologias se houver um desequilíbrio grande na personalidade, necessitando para isto, uma avaliação psicológica.

Determinar os distúrbios de uma criança no presente, bem como opinar a respeito da probabilidade de saúde ou doença mental futura, depende não só dos detalhes da desordem infantil existente, mas também de certas características fazem parte da constituição do individuo, isto é, são inatas ou adquiridas sob as influencias das primeiras experiências do bebê, como o trabalho procurou mostrar no segundo capitulo sobre o desenvolvimento social.

Num primeiro momento, é a mãe que age como a personalidade da criança, e desta interação poderá ou não ocorrer a formação de distúrbios.

Na medida em que os distúrbios dessa ordem são devidos á influencia do meio ambiente, podem ser eliminados se métodos diferentes de assistência á criança forem empregados, desde o principio.

Porém, uma vez gerados, as consequências não podem ser removidas, nem mesmo que se façam mudanças benéficas na forma de tratamento.

O tratamento inconsiderado das primeiras necessidades infantis tem ainda outras repercussões no desenvolvimento patológico.

Em seu avanço para a independência e autoconfiança, a criança aceita a inicial atitude, gratificadora ou frustradora, da mãe como um modelo que imitará e recriará em seu próprio ego.

Quando a mãe compreende, respeita e satisfaz os desejos da criança, até onde for possível, há boas probabilidades de que o ego infantil mostre igual tolerância.

Quando a mãe protela, nega e negligencia desnecessariamente a satisfação de desejos da criança, o ego desta desenvolve a chamada “hostilidade contra o id”, istouma propensão para o conflito interno, que é um dos requisitos prévios do desenvolvimento neurótico.

O trabalho também procura mostrar que a relação que dá força e condições para tornar o homem um ser social, é a relação mãe-filho, e que todas as relações humanas posteriores com qualidade, relações de amor, de amizade e todas as relações interpessoais, têm origem nesta relação primeira, que capacita o ser humano.

É através deste relacionamento tão especial, que se consegue a canalização das pulsões direcionadas no objeto libidinal e se estabelece o modelo para todas as relações humanas posteriores, incluindo a identificação positiva com um professor.

A privação de relações afetivas impede o individuo de iniciar ou manter, com outros adultos da sociedade, relações interpessoais capazes de ir além dos limites do benefício econômico imediato.

Em nossa sociedade ocidental, por exemplo, mudanças de condições sociais, em conseqüência de transformações econômicas, ideológicas, tecnológicas e outras que foram impostas, modificam o quadro das relações mãe-filho.

Nos últimos séculos, fomos sujeitos a algumas transformações fundamentais como a rápida deterioração da relação mãe-filho, iniciada com o advento da industrialização da produção, onde as mães foram recrutadas para o trabalho nas fábricas, de tal forma que elas foram afastadas de sua família e de suas atividades domesticas.

Este tipo de separação preparou o cenário para uma rápida desintegração do modelo tradicional de família em nossa sociedade ocidental.

As consequências aparecem nos problemas cada vez mais graves de delinquência juvenil e no crescente número de neuroses e psicoses na sociedade adulta.

Este fator torna-se mais grave ainda quando tais problemas se perpetuam num circulo vicioso, onde filhos que sofreram falta de afeto crescem incapazes de cuidar e amar de maneira adequada seus próprios filhos.

O progresso do desenvolvimento suscitou novas soluções para os problemas enfrentados: surgiram mais instituições de abrigo, serviços de adoção, creches de período integral, clínicas de aconselhamento para crianças e adolescente, “baby sitters”, bem como um maior número de formação de psiquiatras, psicólogos e o surgimento da própria Psicopedagogia.

Sob o aspecto social, as relações objetais perturbadas no inicio da infância, sejam elas desviadas, impróprias ou insuficientes, têm consequências que colocam em risco a própria base da sociedade.

Sem um modelo, as vitimas de relações objetais perturbadas apresentarão consequentemente, deficiência na capacidade de se relacionar.

Não poderão adaptar-se a sociedade.

Tais indivíduos serão incapazes de compreender e, sobretudo, de descobrir e de partilhar os vínculos nas relações que nunca tiveram.

As relações que eles são capazes de formar mal alcançam o nível de identificação e dificilmente vão além disso.

Estas crianças se traduzirão na aridez das relações sociais do adolescente.

Privados do alimento afetivo que lhes era devido, o único recurso será a violência.

O único caminho que permanece aberto para eles é a destruição de uma ordem social na qual são vítimas. Que espaço sobra em seus corações para a escola, para o desejo de aprender?

E mesmo que o tenha, fica difícil aprender tendo uma personalidade prejudicada.

A criança com carência em todos os sentidos da palavra tem necessidade de um ambiente cujo objetivo seja o cuidado e o afeto e, por último, o ensino.

Em outras palavras, para a criança que sofre privação, a escola pode se apresentar para ela como um lugar de pouca importância, ou como um “abrigo”. “lar substituto”, “prisão”, e as varias conotações que cada um destes termos tem para suas fantasias inconscientes.

Por isso, os cuidados e o ensino de crianças carentes que sofrem de privação, não devem se restringir apenas aos professores, mas paralelamente, orientar-se com o trabalho de um profissional especializado.

O não aprender, para tais crianças, diz respeito aos afetos e vínculos formados com a mãe, ou a ausência desta.

Por tanto, o estudo deste trabalho torna-se pertinente à medida que crianças institucionalizadas, privadas de afeto materno e que não desfrutam de um convívio familiar original, ainda têm, pelo menos, garantido o direito a educação e o direito de aprender.



 


Para saber mais sobre o assunto.

BOWLBY, John. Cuidados maternos e saúde mental. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

BOWLBY, John. Apegoe perda: tristeza e depressão. V. 3. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes,1998.

COLL, César (Org.); PALACIOS, Jesus (Org.); MARCHESI, Álvaro (Org.). Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia evolutiva. V. 1. Porto Alegre: Art. Méd., 1995.

FERNANDEZ, Alícia. A inteligência aprisionada. 2ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

FREUD, Anna. Infância normal e patológica. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1971.

FREUD, Sigmund. Obras completas. v 2. Londres: Standart Edition, 1925.

PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. 3ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

SEGAL, Hanna. Introduçãoá obra de Melane Klein. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, 1975.





Texto: Profa. Alessandra Peixoto Lanini.

Pós-Graduanda em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/UNICSUL.

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