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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Movimentos da Alfabetização: algumas considerações.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume fev., Série 05/02, 2011, p.01-08.

Embora pareça, à primeira vista, um assunto simples, a alfabetização e o letramento é um tema complexo que se desdobra em subtemas que vão muito além de técnicas e métodos, suscitando múltiplas discussões.
Neste momento tentaremos adentrar os chamados movimentos da alfabetização, ações teóricas que debateram os processos de aquisição da linguagem escrita por crianças, jovens e adultos, bem como aspectos sociais, políticos e econômicos da alfabetização.
O que implica também em penetrar na questão da alfabetização e letramento como fator de inclusão social.
Antes, porém, cabe perguntar o que devemos entender por alfabetização e letramento: seriam sinônimos ou encontramos diferenças?


Alfabetização x Letramento.
Apesar pareçam sinônimos, conceitualmente, alfabetização e letramento são distintos.
A alfabetização consiste no aprendizado do alfabeto, a utilização de um código de comunicação pelo qual o individuo constrói a gramática e suas variações.
Um processo que não se resume apenas a aquisição de uma habilidade mecânica de codificação e decodificação do ato de ler e escrever, envolve a capacidade de interpretar, compreender, criticar e produzir conhecimento.
Neste sentido, a alfabetização é também um meio de socialização, pois possibilita a comunicação com o outro e a consciência de si mesmo.
Não é a toa que o termo alfabetização esta presente na língua portuguesa desde seus primórdios, já que expressa um fenômeno e um desejo existente desde o inicio das primeiras civilizações, caracterizadas justamente pelo registro escrito e sua vinculação com a manipulação do outro e do meio.
O letramento é um fenômeno mais complexo e recente.
A palavra só surgiu no fim do século XIX.
A expressão se tornou necessária para definir novas idéias.
Na realidade, à medida que o analfabetismo foi sendo superado na Europa, quando a sociedade foi se tornando mais centrada na escrita, um novo fenômeno surgiu.
Não bastava mais saber ler e escrever, passou necessário ser letrado.
O letramento envolve, justamente, o convívio com práticas de leitura e escrita.
O letrado não lê e escreve simplesmente ou compreende um texto, ele tem capacidade de interpretar e interagir com a leitura e escrita de numerosas e variadas maneiras.
Portanto, o letrado é aquele que possui erudição suficiente para fazer uso competente e freqüente da leitura e escrita.
Tanto que o letrado evidencia o convívio com a língua escrita através da mudança de sua pratica oral, usando estruturas e vocabulários mais ricos que o alfabetizado.
Talvez por este motivo, embora a palavra letramento tenha surgido em inglês e Frances no século XIX, em português apareceu pela primeira vez em 1986, a partir da tradução do inglês literacy.
Apareceu na obra de Mary Kato: No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística.
Sendo popularizada a partir de 1988, com a obra Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso de Leda Verdiani Tfouni; e banalizada depois de 1995, com as obras Os significados do letramento e Alfabetização e letramento, ambas de autoria de Ângela Kleiman.


Alfabetizado x Letrado.
Como diferenciar o alfabetizado do letrado?
Embora pareça fácil, é difícil responder esta pergunta, porque os dois fenômenos envolvem leitura e escrita em níveis múltiplos.
Isto porque a imprecisão do conceito de alfabetização conduz grupos e pessoas a defini-lo de formas diferentes, conforme o contexto.
Até a década de 1940, por exemplo, o censo do IBGE definia o individuo alfabetizado como aquele que sabia assinar o nome; enquanto a Justiça Eleitoral exigia do candidato alfabetizado saber ler, interpretar e preencher os formulários necessários a sua habilitação a candidatura.
Já a partir da década de 1940, o censo do IBGE passou a considerar como alfabetizado aquele que consegue ler e escrever um bilhete simples; já a Justiça Eleitoral, dependendo da interpretação do juiz, passou a considerar alfabetizado quem sabe ler textos simples e pelo menos escrever o próprio nome.
A confusão aumentou ainda mais, devido ao fato do letramento ser um fenômeno relativamente recente, constantemente confundido com o chamado analfabetismo funcional.
Na verdade, esta ultima expressão indica aquele que possui um nível de alfabetização rudimentar: lê e escreve, mas não entende necessariamente o significado.
O que, segundo dados de 2008, corresponde a 68% da população brasileira.
 Apenas para comparar, na Suíça, menos de 10% dos habitantes são analfabetos funcionais.
No entanto, a relação entre alfabetização e letramento é muito mais estreita do que se poderia imaginar.
É bom lembrar que para ser letrado, antes é necessário passar pelo processo de alfabetização que, por sua vez, a partir de uma série de fatores, conduz ou não ao letramento.


Os estudos de Bourdieu e Passeron.
Bourdieu e Passeron concentraram sua atenção sobre o entendimento da estrutura social e o sistema de poder no âmbito capitalista.
Estudos que deram origem a conceitos ligados a alfabetização e letramento.
Pierre Bourdieu (1930-2002), filosofo francês de origem camponesa, foi professor universitário no Collége de France, tendo atuado nas mais renomadas universidades do mundo - como Havard, Chicago e Frankfurt -, é autor de mais de 300 trabalhos abordando o tema reprodução do sistema capitalista.
Jean Claude Passeron, também francês, foi professor de sociologia na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, é considerado um discípulo de Bourdieu, com quem escreveu Os herdeiros (1964) e A reprodução (1970).
Para Bourdieu e Passeron, a escola seria a principal estrutura objetiva que molda mentalidades e comportamentos.
Neste sentido, o ensino transmitiria privilégios, alocando respeito pelo status conferido ao alfabetizado e letrado, hierarquizando as relações sociais.
Para os autores, ao invés da escola representar a possibilidade de autonomia, efetivamente faria o inverso, manipulando o educando e ocultando uma violência simbólica.
A violência estaria no fato da escola se revestir de uma aparência de neutralidade, quando na realidade condiciona o educando de acordo com os interesses das elites; sendo simbólica devido ao seu caráter não material, circunscrito a esfera mental.

Dentro deste contexto, insere-se o capital cultural, a competência cultural e lingüística herdada, sobretudo pela família, facilitando a alfabetização e o letramento.

Usando uma linguagem e cultura pertencente à elite, o padrão erudito, a escola cometeria uma violência simbólica ao impor, ao conjunto da sociedade, valores pertencentes a um grupo, legitimando seu domínio, impedindo o acesso daqueles que não possuem o necessário capital cultural a níveis mais altos de escolarização e melhores colocações profissionais.
A idéia é que pais alfabetizados, mas não letrados, produziriam filhos que dominam a escrita e leitura, porém não possuem a erudição necessária a sua evolução social.
Já famílias letradas, costumam produzir indivíduos que, dominando a cultura erudita, conseguem se sair melhor na escola, destacando-se na vida.
O que aconteceria porque, ao invés da escola democratizar, seria sua função reproduzir hábitos de classe, representados pelo capital cultural, nada mais que valores e comportamentos copiados da família, constituindo uma espécie de moeda de troca para garantir o sucesso escolar.
Famílias com membros alfabetizados e letrados introduzem a criança no universo da leitura e escrita antes do processo de escolarização, compondo um capital cultural que facilita a alfabetização e letramento.


A psicogênese da escrita.
Os estudos de Piaget originaram, a partir da década de 1970, uma nova tendência construtivista, baseado em princípios psicopedagogicos: a psicogênese da escrita, cujo foco central é a natureza psicológica do processo de alfabetização.

Foi a psicopedagoga argentina Emilia Ferreira, discípula de Piaget e então radicada no México, em conjunto com a pedagoga espanhola Ana Teberosky, que criou a nova tendência, revolucionando o processo de alfabetização no mundo todo.

O resultado das pesquisas chegou ao Brasil na década de 1980, depois da publicação em língua portuguesa, em 1984, da principal obra de Emilia Ferreira: Psicogênese da língua escrita (1979).
A principal preocupação da tendência envolve as dificuldades enfrentadas por crianças com problemas de aprendizagem, principalmente, nos setores marginalizados da América Latina.
A psicogênese da escrita estabeleceu uma critica a concepção tradicional de educação, ao ensino de fora para dentro, partindo do pressuposto de que o insucesso decorre da ineficiência do método, material didático ou inadequação do professor, e não da criança.
Enquanto o ensino tradicional valoriza o uso da cartilha, julgando a capacidade de aprendizagem por meio da avaliação da percepção e da motricidade, valorizando o aspecto exterior da escrita, o saber desenhar as letras.
A psicogênese da escrita valoriza a natureza conceitual, encarando a escrita como código social, portanto, procura unir o conteúdo da escrita com o processo de alfabetização.
Para a tendência, aprender a palavra é aprender o seu significado social, o seu contexto, o que é realizada através da valorização de textos do cotidiano como meio de alfabetizar.
Para Emilia Ferreiro, tendo sido a invenção da escrita resultado de um longo processo histórico, recriar este processo se torna uma tarefa grandiosa para a criança, exigindo enorme esforço e levantando uma questão epistemológica:
Qual é a natureza da relação entre o real e o representado?
A escrita realmente representa e simboliza para a criança o que pretende?
A criança reinventa a escrita, interpretando os sinais que a rodeiam, isto ainda antes do processo de alfabetização, passando por etapas, com avanços e recuos, até dominar o código lingüístico.

A criança passaria por quatro fases até conseguir relacionar a fala com a escrita:
1. Pré-silábica: marcada pelo fato da criança não conseguir relacionar as letras com os sons.
2. Silábica: quando interpreta a letra a sua maneira, atribuindo valor de silaba a cada letra.
3. Silábica-alfabética: quando a lógica da fase anterior se mistura com a identificação de algumas silabas.
4. Alfabética: marcada pelo domínio do valor das letras e silabas.

A passagem de uma fase a outra seria um processo particularizado, fazendo cada criança ter seu próprio ritmo.
Caberia ao professor a função de observar e interpretar atentamente as interpretações da criança para interagir com ela.


Métodos de alfabetização.
Existem vários métodos de alfabetização, alguns ligados a tendências pedagógicas mais abrangentes, mais três são os mais citados e utilizados:

1. Método fônico ou sintético:
 Defende que a aquisição da linguagem é um processo mecânico, ou seja, a criança aprenderia repetindo sons, imitando o modelo sonoro.
Assim a escrita serviria apenas para representar graficamente a fala, pouco importando o significado da palavra.

2. Método global ou analítico:
Opondo-se ao anterior, defende a idéia de que a criança só sente-se estimulada a aprender quando descobre o que está escrito.
Portanto, a técnica parte de frases para ensinar a juntar letras, formando palavras.
Seus adeptos costumam dizer que quando se mostra a uma criança um casaco, primeiro ela vê o todo e não os botões ou a gola, o que conduz a alfabetização, pela lógica, a ser iniciada pelo contexto geral para depois ir aos detalhes.

3. Método Paulo Freire:
Consiste em uma proposta de alfabetização desenvolvida originalmente para adultos, que critica o uso da cartilha como ferramenta central, bem como a repetição de frases ou palavras soltas.
Defende a idéia de que o educador deve levantar palavras usadas no universo cultural do educando, as chamadas palavras geradoras, entre dezoito e vinte e três, estudadas através da divisão silábica, para depois compor novas palavras.


Concluindo.
Os índices de alfabetização já avançaram muito no Brasil nas últimas décadas, mas o letramento continua baixo.
Embora não existam estatísticas confiáveis sobre o assunto, temos indícios concretos desta realidade.
A alfabetização e o letramento são, sem duvida, fatores de inclusão social, possibilitando aos indivíduos alcançar capacidade de mobilidade econômica.
O grande problema é que a questão nunca foi tratada de forma adequada pelo sistema político que, eleição após eleição, implementa medidas paliativas ou que ganham a simpatia da população, sem, no entanto, modificar de fato o panorama educacional.
Ao invés de fortalecer o ensino fundamental, ampliando a qualidade da alfabetização e letramento, o Estado brasileiro enfraquece o ensino superior, diminuindo as exigências qualitativas para ampliar o acesso.
O que, a reboque, reforça o quadro de formação docente deficitária, gerando reflexos no ensino básico, criando um círculo vicioso sem fim.
Onde o quadro educacional, alardeado como em constante progresso, na realidade faz decair a qualidade da formação das crianças.
Somente aumentando o abismo entre àqueles que têm acesso a um capital cultural adequado e os que estão condenados a serem iludidos com a perspectiva de uma real inclusão social através da educação.


Para saber mais sobre o assunto.
FERREIRA, Emilia. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez, 1990.
GHIRALDELLI JUNIOR, Paulo. História da educação. São Paulo: Cortez, 1992.
HERKENHOFF, João Baptista. Dilemas da educação: dos apelos populares a constituição. São Paulo: [s.n.], 1989.
KLEIMAN, Angela B. Os significados do letramento. Campinas: Mercado de Letras, 2004.
LOPES, Eliane Marta Teixeira Et. Ali. (org.). 500 anos de educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
PAIVA, Vanilda Pereira. Educação popular e educação de adultos: contribuição a historia da educação brasileira. São Paulo: Edições Loyola, 1973.
PILETTI, Nelson & PILLETI,Cláudio. História da educação no Brasil. São Paulo: Ática, 1990.
RAMOS, Fábio Pestana. “A constituição afetiva da infância e da família no período colonial? O nascimento da profissão docente no Brasil” In: ALMEIDA, Jane Soares de (org.). Profissão docente e cultura escolar. São Paulo: Intersubjetiva, 2004, p.13-40.
ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da educação no Brasil (1930/1973). Petrópolis: Vozes, 2001.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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