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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Leibniz e as dobras da alma.


 

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. ago., Série 01/08, 2012, p.01-05.

 

“Nas coisas tudo está regulado de uma vez por todas com tanta ordem e correspondência quanto possível, pois a suprema sabedoria e bondade só pode atuar com perfeita harmonia: o presente está gravido do futuro, o futuro se poderia ler no passado, o longínquo se expressa no próximo. Poderíamos conhecer a beleza do universo em cada alma se pudéssemos abrir todas as dobras, que só se desenvolvem sensivelmente no tempo. Mas como cada percepção distinta da alma compreende uma infinidade de percepções confusas que envolvem todo o universo, a própria alma só conhece as coisas que pode perceber na medida em que possui percepções distintas e destacadas e possui perfeição na medida em que possui percepções distintas”.

(Leibniz. Princípios da natureza e da graça fundados em razão. 13).

 

A razão da dobra, tal como Deleuze a utiliza, pressupõe uma exposição da filosofia de Leibniz em que fica claro pelo menos os conceitos de expressão, implicação, predicação, uno/múltiplo e decorrência analítica.

Para Leibniz, as almas estão em toda parte, um conceito hermético, vinculado com a dobra e seus correlatos.

O filosofo dá o nome de mônada à alma, encontrando esse nome ente os neoplatônicos, os quais se serviam dele para designar o estado Uno: a unidade que envolve a multiplicidade que, por sua vez, desenvolve o dito Uno à maneira de uma série.

Para ele, o múltiplo não é o que tem muitas partes, mas o que é dobrado de muitas maneiras.

A mônada é exatamente o inverso de Deus.

Enquanto a formula de Deus é o infinito dividido por um, a formula da mônada é um dividido pelo infinito, diversas percepções de um mesmo objeto.

Cada mônada expressa todo o mundo, no entanto comporta apenas uma parte.

Por sua vez, cada alma está repleta de dobras ao infinito, contendo todo um mundo, porém, um mundo constituído de dobras e redobras, que podem ser desdobradas em pequeno número no interior dela própria, deixando transparecer uma zona parcial.

Mas o que é uma dobra afinal?

 

 

A dobra e a mônada.

As dobras são pura virtualidade, pura potência, cujo ato consiste em hábitos ou disposições na alma, cujo ato acaba consistindo em uma ação interior da alma.

Dobrar e desdobrar não significa simplesmente tender e distender, contrair e dilatar, mas sim evolver e desenvolver, involuir e evoluir.

Quanto, por exemplo, um organismo morre, nem por isto é aniquilado, pois involui e redobra-se no germe, que, por sua vez, desdobra-se em planta.

Simplificando, poderíamos dizer que desdobrar é aumentar, crescer; dobrar é diminuir, reduzir.

A dobra infinita separa ou passa entre matéria e a alma, a fachada e o compartimento fechado, o exterior e o interior.

A matéria-fachada vai para baixo, ao passo que a alma-câmara sobre.

A dobra passa, portanto, entre dois andares.

Redobras da matéria sob a condição de exterioridades, dobras na alma sob a condição de clausura.

As ideias estão de tal modo dobradas na alma que nem sempre é possível desenvolvê-las, mesmo em Deus.

As noções são de tal modo dobradas, que deixam míope o entendimento infinito.

As forças derivativas da matéria remetem às forças primitivas, que são as da alma.

Cada mônada expressa o mundo inteiro e cada sujeito-mônada só pode distinguir-se dos demais por sua maneira interna de expressar o mundo.

É o famoso princípio dos indiscerníveis, não há dois sujeitos semelhantes.

Do mesmo modo não há duas mônadas semelhantes.

Cada individuo só expressa claramente apenas uma parte do mundo real, expressa claramente apenas a região determinada pelas suas singularidades constituintes, embora possua todo o mundo em seu interior.

 

 

A alma.

A alma é individual, porque circunscreve certo numero de singularidades que se distinguem, embora sejam todas prolongáveis.

Para Leibniz, a alma individualiza o corpo físico tomado na continuidade das espécies, estas são individualizantes porque propriamente matemáticas.

Duas figuras da mesma espécie são matematicamente um só e mesmo individuo.

Embora todo indivíduo distinga-se de qualquer outro pelas suas singularidades primitivas, nem por isto deixam de se prolongarem até as singularidades dos outros, de acordo com uma ordem espaço-temporal que faz com que a parte visível de um sujeito tenha continuidade na parte visível do próximo ou do seguinte, até o infinito.

A alma tira tudo de seu próprio fundo, faz seus próprios motivos, esses são sempre subjetivos.

Partimos sempre das pequenas inclinações que cada instante dobram nossa alma em todos os sentidos sob a ação da inquietude.

É o modelo do balanceiro, Unruhe, que substitui a balança.

A ação é voluntária quando a alma, em vez de sofrer o efeito das somas em que entram solicitações, dá a si tal amplitude que a faz dobrar-se inteira.

O ato voluntário é livre, porque ato livre é aquele que expressa toda alma em certo momento da duração, é aquele que expressa o eu.

 

 

Concluindo.

A inclinação é a dobra na alma, donde a formula de Leibniz está inclinada sem estar necessitada.

O motivo não é uma determinação, mas um inclinação; não é o efeito do passado, mas a expressão do presente.

Determinado fato estende-se no passado e no futuro, porque concerne inicialmente ao presente vivo.

Minha noção individual inclui o que faço neste momento, o que estou fazendo, tudo que levou a fazer e tudo o que disso decorrerá, até o infinito.

De modo que o presente está repleto do futuro e carregado do passado.

É a situação do Deus leitor em Leibniz, que lê, em cada um, o que se faz em toda parte e até mesmo o que se fez ou fará, que ê o futuro no passado, porque ele pode desdobrar todas as redobras que só se desenvolvem sensivelmente com o tempo.

Cada mônada é tão somente uma passagem de Deus, tem um ponto de vista, este é o resultado de uma leitura ou de um olhar, que passa por ela e com ela coincide.

A mônada é livre porque sua ação é o resultado daquilo que passa por ela e se passa nela.

A amplitude de uma alma racional é a região que ela expressa claramente, seu presente vivo.

O mundo só existe dobrado nas mônadas que expressam e que só desdobra-se virtualmente como o horizonte comum de todas as mônadas.

Em um sentido mais restrito, a mônada, quando chamada a viver, chamada à razão, desdobra em si própria essa região do mundo que corresponde a sua zona inclusa iluminada.

É chamada a desenvolver todas as suas percepções, sendo esta sua tarefa.

 

 

Para saber mais sobre o assunto.

BELAVAL, Y. Leibniz critique de Descartes. Paris: Gallimard, 1960.

DELEUZE. A dobra: Leibniz e o barroco. São Paulo: Papirus, s.d.

LALANDE, A. Vocabulário técnico e critico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

MORA, J. F. Dicionário de filosofia. Lisboa: Dom Quixote, 1982.

 

 

Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em História Social pela USP.

MBA em Gestão de Pessoas.

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

 

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