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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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sábado, 21 de agosto de 2010

Intelectuais, pensamento social e educação.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume ago., Série 21/08, 2010, p.01-10.

O papel do intelectual.

Quando falamos em intelectuais, formamos uma imagem mental de sujeitos que se debruçam sobre livros, lendo e refletindo sobre teorias.

Pensamos em almofadinhas de óculos agarrados às letras que deixam de vivenciar a pratica.

Uma imagem bastante distante, por exemplo, do conceito de intelectual de Gramsci, para quem o intelectual era aquele que, mesmo não dominando a cultura erudita, toma consciência da dominação da elite e lidera sua classe rumo a emancipação.

O verdadeiro intelectual é aquele que pensa a realidade, tal como propunha Gramsci, mas que tem simultaneamente o domínio da cultura erudita, observando dados concretos para identificar problemáticas e propor soluções que possibilitem o aprimoramento próprio e do outro a sua volta.

Pesando em nossos dias, poderíamos mesmo dizer que o verdadeiro intelectual movimenta-se também, de certa forma, pela cultura popular e de massa para pensar a realidade.

Aliás, etimologicamente, pensar significa avaliar o peso de alguma coisa.

O pensamento pode ser caracterizado como um processo mental que permite aos homens planejar e externar desejos de concretizar idéias.

Alguém disse certa vez que o pensamento confere ao homem "asas" para mover-se no mundo e "raízes" para aprofundar-se na realidade.

Neste sentido, o pensamento social, vinculado a educação, poderia ser definido como um conjunto de idéias pensadas por intelectuais, externando desejos de aprimorar as relações entre os indivíduos e o contexto vivenciado pela coletividade, visando melhorar o ser humano e seu meio, garantindo progresso material e mental.

Para tentar entender como os intelectuais contribuíram para a construção de um pensamento social que teve como centro a educação, tentaremos retomar o contexto do nascimento da intelectualidade, praticamente no mesmo momento em que as Universidades começavam a surgir, examinado o papel do pensamento luterano na transição para uma era de racionalidade, quando finalmente a educação começou a ser desvinculada da religião, atingindo o ápice da tentativa de converter a educação em uma ciência, com o positivismo.

Passagens que são essenciais para o entendimento do pensamento social dos intelectuais brasileiros em momentos distintos da educação em nosso país.

Neste sentido, dentro do âmbito da história, da historiografia e das idéias educacionais, pensar na temática “intelectuais, pensamento social e educação” é primordial para o entendimento de assuntos correlatos e do papel da educação frente às necessidades da sociedade contemporânea.

O assunto foi recentemente objeto de um eixo temático do “IV Congresso Brasileiro de História da Educação”, em 2006; pertence ao campo de estudos definido Georges Duby, como história cultural, responsável pela pesquisa em torno dos mecanismos de produção dos objetos culturais, sobretudo a partir da década de 1970, quando foi redescoberta, já que é herdeira de uma tradição historiográfica nascida no século XVIII de vertente hegeliana.

A temática poderia ser enquadrada também dentro da história das mentalidades, a qual pretendia estudar modos de pensar e sentir, sendo atravessada pelo conceito de imagem, base comum e constitutiva da cultura.

Estando presente na França desde o século XIX, mas, diante do que o grande historiador brasileiro Ronaldo Vainfas chamou de nó da era Braudel (1956-1969), hoje marginalizada, terminando por rivalizar com a história cultural.

Na realidade, a temática faz parte de um campo interdisciplinar, comportando inúmeras abordagens a partir de suas múltiplas dimensões, podendo, teoricamente, ser pensada enquanto entendimento da realidade contemporânea permeada pela matriz cultural, da qual fazem parte os intelectuais, o pensamento social e a educação.

Neste sentido pertence ao que o Roger Chartier convencionou chamar de história das representações.

Chartier é um historiador francês que poderia ser enquadrado como pertencente à geração contemporânea ao declínio das mentalidades na França.

Ele define as representações como algo que permite ver uma coisa ausente e que, portanto, seria mais abrangente que o conceito de mentalidades, uma vez que o ausente em si não poderia mais ser visitado.

Representar seria, fundamentalmente, estar no lugar de, seria a presentificação de um ausente, um apresentar de novo, que possibilitaria ver uma ausência.

A idéia central seria a da substituição, o recolocamento de uma ausência que tornaria sensível uma presença.

O objetivo central do conceito de representação seria trazer para o presente o ausente vivido e, dessa forma, poder interpretá-lo; tornando a apropriação, segundo Chartier, um “construir uma história social das interpretações, remetidas para suas determinações fundamentais” que são o social, o institucional e, sobretudo, o cultural.

Pensando assim, o trabalho do historiador, ao analisar a temática “Intelectuais, pensamento social e educação”, parafraseando Peter Burke, seria localizar diferentes tradições que terminaram influenciando a concepção de educação e a configuração dos sistemas educacionais institucionalizados.

O que torna evidente, por exemplo, a necessidade do estudo da temática para a compreensão de questões ligadas às políticas educacionais e a formação dos sistemas escolares, ou ainda em torno da história da escola e cultura escolar, ou da circulação e apropriação de modelos pedagógicos, entre outros assuntos e temas correlatos.





O nascimento da intelectualidade e a discussão em tono da educação.

A despeito da discussão em torno da educação entre os filósofos na antiguidade, envolvendo, por exemplo, Aristóteles e Platão, dentre outros; ou ainda da contribuição dos grandes humanistas no renascimento; pensada em sentido amplo, a educação passou a ser tema de debate entre os intelectuais, somente a partir do século XIII. Foi quando surgiu o conceito de Universidade e o que se entende por intelectual propriamente.

Embora alguns lingüistas defendam a hipótese de que a palavra intelectual, em si, só tenha surgido no final do século XIX, circunscrita a França, para nomear as pessoas que trabalhavam com o intelecto, em oposição ao trabalho braçal.

Seja a palavra contemporânea ou não, o fato é que, conceitualmente, o intelectual apareceu no cenário europeu junto com as primeiras Universidades.

Diferente da Academia na antiguidade, uma instituição que era voltada para o ensino e as atividades artísticas, literárias, filosóficas e físicas, tal e qual pensada por Platão; a Universidade foi criada com o intuito de não só transmitir os conhecimentos acumulados pela humanidade, como também desenvolver estes conhecimentos, ajudando a sociedade a se estruturar e voltar-se para o progresso, o que terminou, inclusive, remetendo ao desenvolvimento do conceito de ciência, a investigação racional e sistematizada.

O contexto das mudanças registradas no final do século XI e inicio do XII, explica em grande medida o porquê a intelectualidade surge no século XIII.

Este período foi caracterizado por um processo de mudança nas relações sociais.

A Europa deixou de ser predominantemente rural para dar lugar ao ressurgimento e proliferação dos grandes centros urbanos, com novas profissões, desvinculadas do trabalho exclusivamente braçal.

Não exigia mais apenas força, mas sim, também, um conhecimento teórico necessário à execução da prática.

Conhecimento da matemática, por exemplo, para operacionalizar a construção de casas e edifícios, ou ainda o conhecimento dos rudimentos da astronomia para deslocar-se com mercadorias de um ponto a outro para comercializá-las.

Em outra vertente, a disputa entre o papado e os príncipes pelo poder temporal, também estimulou a fundação de Universidades por um lado e outro, na tentativa de consolidar argumentos teóricos que possibilitassem sustentar as razões de exercer controle sobre a sociedade.

Tanto os papas como os príncipes, passaram a sustentar os grandes mestres das Universidades, custeando seus estudos, originando o nascimento da intelectualidade que iria voltar sua atenção para a educação e, posteriormente, para o seu vinculo com as questões sociais.



Sendo esta uma das problemáticas, dentre outras, muito bem trabalhada pelo historiador francês Jacques Le Goff, o grande medievalista que pertenceu à terceira geração de Annales, autor de Uma longa Idade Média e Em busca da Idade Média, dentre outras obras de fundamental importância para entender o contexto do surgimento das Universidades e da intelectualidade, assim como a transição da Idade Média para a Moderna, o que em outra obra, Le Goff chamou de As raízes medievais da Europa.

Seja como for, já no século XIII, dois grandes intelectuais surgiram no ceio das cidades, inserindo-se no contexto das Universidades, para definir o papel da categoria na racionalização da educação, inclusive discutindo as conseqüências da institucionalização do ensino, eu falo de: Tomás de Aquino e Boaventura.

Tentando conciliar as sagradas escrituras com o conhecimento aristotélico, o dominicano Tomás de Aquino, chegou a discutir se realmente seria possível a um homem ensinar ao outro, ou se isto era apenas uma prerrogativa divina. Terminou concluindo que o conhecimento pré-existe no educando como potência, ao passo que quando o individuo o adquiri por si, a isto chamamos “descoberta”, já quando é adquirido através de ajuda externa, chamamos de ensino.

Onde entra Deus ai? Foi ele quem deu a razão aos homens que possibilita conhecer pela descoberta e pelo ensino.

Cabendo ao professor ensinar e estimular descobertas, para que o homem possa verdadeiramente conhecer Deus.

Já o franciscano Giovanni Findanza, o qual adotou o nome de Boaventura após ser curado, segundo ele próprio, através de orações feitas a São Francisco de Assis; concebeu a intelectualidade como um trabalho como outro qualquer a ser executado com dedicação.

Para ele, o conhecimento seria produzido através dos sentidos, da memória e da experiência, permitindo entender à realidade, chegando a partir daí até Deus.

Em seu sentido mais amplo, tanto Tomás de Aquino como Boaventura, ao discutirem a essência da educação, pretendiam aprimorar o homem e as relações sociais, torná-las mais harmoniosas por intermédio de Deus.

Aliás, o componente divino seria recorrente no pensamento intelectual até pelo menos o século XVIII.


A contribuição do pensamento luterano.

Agora, falando do século XVI, cabe ressaltar a importante contribuição de Martin Lutero.

Inserido na contestação dos dogmas católicos que originou o protestantismo, atrasando a unificação da Alemanha até o século XIX, conduzindo a guerra dos Trinta Anos, que foi uma disputa entre protestantes e católicos pelo poder; Lutero pensou a educação voltada à formação do ser humano integral.

Para Lutero, caberia a educação humanizar o ser, desenvolvendo um individuo temente a Deus, responsável e ético, pensando na ética enquanto preceito cristão obviamente, capaz de viver em harmonia com a sociedade, vivenciando sua liberdade com responsabilidade.

Possibilitando aos homens relacionarem-se pela razão, abandonando o uso da força.

Cabe lembra que para os luteranos era essencial saber ler e escrever para poder se relacionar diretamente com o divino.

Foi Lutero o primeiro a traduzir a bíblia para uma língua corrente, no caso o alemão, iniciando igualmente a celebração de missas em alemão ao invés de latim.

Neste sentido, a educação deveria ser difundida, possibilitada a todos. Lutero não chegou a afirmar que deveria ser publica, universal e gratuita, como pretenderiam, posteriormente, os iluministas, mas deu a entender que deveria ser assim, ao defender que fosse criada, custeada e organizada pelo poder publico sempre que possível.

É verdade que para Lutero a educação, primordialmente, deveria ser uma responsabilidade da família, mas, em sua concepção, era necessário institucionalizá-la para servir ao crescimento das cidades e a necessária especialização de tarefas suscitada pela urbanização.

Sendo interesse das cidades institucionalizar a educação, para Lutero, não sendo possível ao Estado manter escolas, as comunidades deveriam se unir para custear a educação indistintamente.

Exatamente, por isto, muitos consideram Lutero como um dos pais da Escola Comunitária.

Pensando a educação assim, é curioso notar que na mesma medida em que as religiões protestantes se difundiram na Alemanha, quando ao luteranismo já se somava o calvinismo, o número de alfabetizados também cresceu por toda a Europa.

Em uma população que contava com 50 milhões de europeus, o número de alfabetizados cresceu de 8 milhões para 17 milhões em poucas décadas após as reformas protestantes.

Uma questão que ainda está mal estuda, segundo Evaldo Pauly.

Seja como for, o pensamento de Lutero marcou um período de transição, fomentando um conceito de educação emancipatória que iria influenciar o iluminismo.


A Era da Razão e a educação.

No século XVIII, a Revolução Francesa, com seu ideal de igualdade, liberdade e fraternidade, através do iluminismo, inaugurou a era da razão; quando os intelectuais deixaram de ver a educação como um meio para chegar a Deus, concebendo a educação simplesmente como um esclarecimento necessário para utopicamente melhorar o homem e o mundo, desvinculado do componente divino.



Ou seja, o aprimoramento humano por meio do próprio homem e não mais de Deus.

Como defendeu Rousseau, o homem era o bom selvagem corrompido pelo convívio social, mas que a luz da educação poderia libertar-se de seus vícios. Uma problemática que Rousseau tentou resolver na obra Emílio ou da Educação, considerado como o primeiro tratado sobre filosofia da educação do mundo ocidental.

Ele romanceou a história do jovem Emílio, para ilustrar como deveria ser educado o cidadão ideal.

Uma obra que foi queimada em praça pública durante o Antigo Regime e que, posteriormente, foi adotada pelos revolucionários como modelo de educação, convertendo-se em um dos livros mais lidos da Europa em sua época.

No Emílio, abordando temas filosóficos referentes à relação do individuo com a sociedade; Rousseau, defendia a idéia de que a bondade humana só poderia conviver com a corrupção da sociedade se fosse estimulado o interesse natural do educando, abandonando o saber livresco para estimular a criança a conviver com a liberdade, enfatizando os aspectos emocionais e instintivos.

Em outras palavras, a criança deveria ser tratada como tal e não como um adulto em miniatura, como era praxe até então, tendo sua educação centrada na formação da cidadania.

Dentro deste mesmo contexto, surgiram no seio do pensamento alemão, as idéias de Kant e de Hegel.

Inaugurando o que Renato Gross chamou de pedagogia do esclarecimento, com uma educação concebida para incentivar os valores morais e éticos necessários ao progresso da humanidade.

Tanto Kant como Hegel pensaram a educação como libertadora, estabelecendo uma relação entre conhecimento e poder.


O positivismo e o darwinismo social.

Herdeiros de toda esta tradição, colocando-se em oposição aos iluministas, no século XIX, os positivistas, liderados pelo francês August Comte, conceberam uma visão teórica que pretendia reconhecer as leis imutáveis da vida social.

O que Comte nomeou na época de “física social”, dado sua intenção de transpor os procedimentos das ciências naturais para a investigação social, fazendo uso da observação, experimentação e comparação.

Para os positivistas, daí inclusive o nome da tendência teórica, os iluministas seriam chamados pejorativamente de doutores da guilhotina, porque tudo que eles sabiam fazer era cortar cabeças, sendo classificados como representantes da filosofia negativa, justamente por proporem a derrubada das instituições.

O centro do positivismo tinha como pressuposto básico a positividade, a crença na importância das instituições sociais como reguladoras da ordem, à medida que criadoras ou servindo a consolidação de crenças comuns a todos os homens.

De onde vem o lema do positivismo, não por acaso presente na bandeira do Brasil: ordem e progresso.

O positivismo, tal como concebido por Comte, mesclado ao darwinismo social de Herbert Spencer, considerado por alguns como representante do positivismo na Inglaterra; originou uma critica ao que então era considerado o ensino clássico, baseado nas humanidades: literatura, artes, mitologia, história, filosofia, etc.

O darwinismo social tentava aplicar as leis de seleção natural das espécies, a lei do mais forte ao contexto social, defendendo a idéia de que só sobreviviam ao capitalismo, ou só eram bem sucedidos, aqueles que além de pré-dispostos geneticamente, tinham suas potencialidades físicas e mentais desenvolvidas pela educação.

Para Spencer, era impossível retomar todo o conhecimento acumulado pela humanidade de maneira satisfatória, devendo a escola concentrar-se em conhecimentos úteis, aqueles necessários para formar homens de negócio e organizar uma vida civilizada, englobando a saúde humana e os bons costumes.

Educar corpos e mentes era seu intuito ao pregar a introdução da educação física e centralizar as disciplinas enfatizando as ciências exatas e biológicas.



Não por acaso, um tipo de educação que serviria ao Imperialismo Britânico no século XIX, militarizando a sociedade.

Um modelo de educação que foi assimilado pelo sistema educacional brasileiro já durante o período Imperial, quando Rui Barbosa passou a defender a idéia que caberia a educação, sobretudo, disciplinar e formar para o trabalho, quando foi instituída nas escolas a educação moral e cívica.


Os intelectuais e a educação no Brasil.

A despeito da influencia de Rui Barbosa sobre o sistema educacional no Brasil Império, Maria Zélia Maia de Souza, da Unirio, identificou uma preocupação com a instrução das crianças pobres, no período, por parte das autoridades constituídas e da sociedade, ao examinar Almanaques da época.

O rol das personalidades envolvia militares, oficiais da corte e da Guarda Nacional, a nobreza e profissionais liberais de diversos ramos de atividade, além de um grande número de sociedades e associações que, entre 1844 e 1889, discutiram e reivindicaram uma educação aberta aos pobres.

Retrocedendo no tempo, já nos primórdios do período colonial, os jesuítas tinham sido os primeiros a se preocuparem em oferecer educação gratuita àqueles que não tinham como pagar, mas, neste período, como na Europa, também no Brasil a educação era apenas um meio de chegar a Deus.

A despeito da influencia do iluminismo sobre os movimentos emancipatórios e nativistas no Brasil, como a Inconfidência Mineira, por exemplo, os ideais da Revolução Francesa só foram incorporados ao pensamento educacional depois da proclamação da República, mesclando-se ao positivismo e ao darwinismo social.

Dentro deste contexto, não se pode negar a contribuição de José Veríssimo Dias de Mattos nas primeiras décadas do período republicano.

Considerado um historiador, jornalista, educador e escritor, produziu contos, criticas literárias, impressões de viagem e artigos para os jornais Primeiras Páginas, Gazeta do Norte, Diário do Grão-Pará e Republica e as revistas Educação Nacional, Educação e Ensino e Pediatria e Educação, publicando também alguns livros; exercendo forte pressão sobre políticos e autoridades governamentais por reformas na educação.

Além disto, na província do Pará, criou o Colégio Americano, onde foi diretor e professor e tentou colocar em prática suas concepções pedagógicas. Tendo exercido também a direção do Colégio Nacional, no Rio de Janeiro, então capital da República, e dirigido a Revista Brasileira entre 1895 e 1899.

Típico representante da elite culta, o intelectual pensou a educação como meio de reformar o país, estabelecendo uma critica ao estado lastimável em que o sistema educacional brasileiro se encontrava então, sugerindo que os homens públicos abandonassem a retórica para colocar em prática os mirabolantes planos de desenvolvimento do Brasil.

A concepção pedagógica de José Veríssimo levava em conta o fato de que, inicialmente, os republicanos eram muito parecidos com os monarquistas, exigindo uma reforma na inteligência e na educação para alterar os indivíduos e as instituições e, só assim, promover uma verdadeira mudança social e política.

Para tal propunha a ampliação do acesso à educação, acompanhada do fomento ao amor a pátria, para compor um verdadeiro sentimento de nação, para ele ausente no Brasil.

O ensino institucionalizado deveria ser além de público, universal e gratuito, também obrigatório; formando o caráter dos jovens, primando pelos preceitos da moral e da ética; formando cidadãos úteis à grandeza nacional.

Onde se pode observar uma forte influencia iluminista, principalmente a partir da vertente kantiana e hegeliana, e, ao mesmo tempo, positivista.

Como José Veríssimo outros intelectuais exerceram forte pressão por mudanças na educação nas primeiras décadas da República, abrindo caminho para elas começarem a alterar o panorama educacional a partir da década de 1920; inaugurando o que Marcos Cezar de Freitas chamou de dois momentos distintos na trajetória intelectual que envolveu os educadores brasileiros.

No primeiro momento, na década de 1920 e 1930, os intelectuais acirraram as reivindicações para que o Estado interferisse diretamente e executasse mudanças.

Foi um tempo de entendimento da realidade nacional, no qual colaboraram Euclides da Cunha, Carlos Chagas, Miguel Pereira, Oswaldo Cruz e Cecília Meireles, dentre outros.

De certa maneira as reivindicações foram ampliadas após a Revolução de 1930 e a promulgação do Estado Novo.

Durante o governo Getúlio Vargas, em 1932, o “Manifesto dos pioneiros da Educação Nova”, assinado por 26 intelectuais, dentre os quais a mencionada Cecília Meireles, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo; representou um marco ao defender uma educação essencialmente publica, gratuita, obrigatória, laica e única.

Em um segundo momento, a partir da década de 1950, o vigor intelectual transformou as reivindicações em ações práticas.

Foi nesta década, por exemplo, que Anísio Teixeira fundou a Escola Parque em Salvador, propondo uma educação gratuita em tempo integral, voltada para a construção da cidadania.

Fruto desta intensa discussão intelectual, em 1961, surgiu à primeira LDB, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, atualizada em 1971 e reformada em 1996.

Entretanto, ao examinar o sistema educacional brasileiro, ainda hoje, podemos notar a forte influencia das mais diversas concepções intelectuais européias de educação desde o século XIII até o XIX; arcaicas, ultrapassadas e, mesmo assim, consideradas de ponta no Brasil, disfarçadas em meio a modelos pedagógicos importados e mal aplicados em nossas escolas.


Para saber mais sobre o assunto:

FREITAS, Marcos Cezar de & KUHLMANN, Moysés. (org.). Os intelectuais na história da infância. São Paulo: Cortez, 2002.

GANDINI, Raquel. Intelectuais, Estado e educação. Campinas: Unicamp, 1995.

ROMENY, Helena. Os intelectuais da educação. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

2 comentários:

  1. Interessante professor, bem colocado sobre a educação, sempre o poder comandando. Toda problemática, planos, mudanças; colocam primeiro na educação. Onde a maior parte da sociedade está inserida, desde a infância até adulta.
    Abraços,
    Angela.

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  2. Agradeço imensamente o comentário.
    Forte Abraço.

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Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

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