Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os arquétipos de Ártemis e Atena: da dualidade ao dualismo.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume nov., Série 07/11, 2011, p.01-11.


"Peço as bençãos de Ártemis e Atena
para que eu reúna o que se pensa que foi partido
Para que eu seja inspirada e seja guiada para as escolhas sábias
Para que eu traduza em palavras aquilo que minha alma pede em sensações
Para que eu faça o que precisa ser feito
com conteúdo, forma e tempo mais acertados
E que eu seja, mais uma vez, instrumento da boa vontade.
Está feito!
Gratidão."

- Patricia Fox
(Patricia S. Machado)


O artigo tem como intuito relacionar os arquétipos das deusas gregas Ártemis e Atena ao processo em que se deu o afastamento da dualidade e o advento do dualismo tão presentes na história da Filosofia (ou do pensamento ocidental), desde o seu nascimento na Grécia há 2500 anos e que se faz presente ainda nos dias de hoje.
A proposta é teorizar sobre como o dualismo afasta o ser humano de sua própria integridade e também dificulta sua relação com a Natureza e com a essência feminina, seja essa relação subjetiva ou objetiva.
Na mitologia clássica, Ártemis é uma Deusa ligada à natureza selvagem e que não se submete aos homens; já Atena é uma Deusa da Sabedoria e que também é patronesse do que é artificial (feito pelas mentes e mãos dos seres humanos) e adaptada ao mundo androcentrado; no entanto ambas descendem de uma outra figura arquetípica: A Grande Mãe.
Ao descrever os mitos e características arquetípicas de Ártemis e de Atena, poderemos encontrar as bases de como ocorreu o processo de desintegração ou separação entre os gêneros feminino e masculino, Pagus (campo) e Urbes (cidade, civilização);  Mente e Corpo; Mundo das Idéias e Mundo Sensível e também as relações deste processo com a teoria nietzscheana sobre o apolíneo e o dionisíaco, com o artificial e o natural, bem como, com as energias masculinas e femininas presentes em toda a existência.
A questão deste artigo é refletir sobre as relações entre mitologia e a instalação do dualismo na psique, Filosofia e pensamento ocidental.


Considerações iniciais.
A inspiração desse artigo se deu pelo meu envolvimento com a questão da ecoespiritualidade feminina, tema que pesquiso há anos. 
Penso que o afastamento da natureza e da dualidade que nos leva à integridade entre nossas facetas resultou no fato de que ser humano tenha perdido a capacidade de alcançar um dos grandes fins da Filosofia: a Felicidade.
Com base nos estudos de C.G. Jung, bem como vários de seus “discípulos”, do antropólogo Mircea Eliade, da tese sobre eco-feminismo de Françoise D’Eaubonne e de outros autores, procurarei argumentar sobre como o nascimento e desenvolvimento do pensamento ocidental saiu perdendo em desprezar a dualidade entre o feminino e masculino.
Isto inclui também a questão do gênero feminino, pois é notório que as mulheres foram colocadas à margem do conhecimento e a Filosofia desde o nascimento desta.
A razão de ter escolhido as deusas Ártemis e Atena para o meu argumento é que esses dois arquétipos representam os dois pólos extremos da fragmentação em que se deu na unidade multifacetada que é a Grande Mãe primitiva e, como conseqüência, a dicotomia Natureza e a supra-valorização da cultura.


Sobre a dualidade e o dualismo.
Para desenvolver esse artigo é necessário primeiramente conceituar de forma adequada a diferença entre a dualidade e dualismo.
Para tanto, recorremos primeiramente ao significado de cada uma das palavras. Para dualidade, temos:

s.f. Caráter ou propriedade do que é duplo ou do que contém em si duas naturezas, duas substâncias, dois princípios.[i]

Como significado de dualismo, encontramos:

s.m. Todo sistema religioso ou filosófico que admite dois princípios, como a matéria e o espírito, o corpo e a alma, o bem e o mal, e que se supõe estejam em luta eterna um contra o outro.
Qualidade de dual.
[ii]

Podemos ainda usar para diferenciar os dois conceitos, um trecho de Leonardo Boff, em seu livro “A Águia e a Galinha”:

O universo é, pois, o conjunto das relações dos sujeitos.  As dualidades antes referidas são dimensões da mesma e única realidade complexa. Formam uma dualidade, mas não um dualismo. Errôneo seria confundir dualidade com dualismo. O dualismo vê os pares como realidades justapostas, sem relação entre si. Separa aquilo que, no concreto, vem sempre junto. Assim, pensa o esquerdo ou o direito, o interior ou o exterior, o masculino ou o feminino.
A dualidade, ao contrário, coloca e onde o dualismo coloca ou. Enxerga os pares como os dois lados do mesmo corpo, como dimensões de uma mesma complexidade. Complexo é tudo aquilo que vem constituído pela articulação de muitas partes e pelo inter-retro-relacionamento de todos os seus elementos, dando origem a um sistema dinâmico sempre aberto a novas sínteses. (Boff, 1997)

Quando adentramos ao problema da fragmentação e do poderio patriarcal, identificamos que a cultura ocidental foi estruturada do ponto de vista androgênico, ou seja, do ponto de vista do gênero masculino.
Não há ao certo apenas um motivo para que isso tenha acontecido, mas cabe dizer que uma das motivações tenha sido a desconexão do ser humano de sua própria integridade, o que inclui o fazer parte da Natureza.
O ser humano chamado de “primitivo”[iii]  estava inserido aos processos da Mãe-Terra .
Para esse ser humano conectado, essa Natureza sempre foi vista como ambígua, ou seja, incerta, mas por isso mesmo pura em essência.
A figura da Deusa Mãe é, ao mesmo tempo, doadora da vida e senhora da morte[iv] e isso faz com que a ciclicidade e as relações entre o feminino e o masculino sejam partes de um processo contínuo e mutável, mas que por essa razão é eterno ou imortal.
O que quero dizer é que é necessário ir além da idéia de que feminino e masculino são duas partes separadas de uma unidade, procurando compreendê-las como nuances que se movimentam entre si e que são intrínsecas à uma unidade.
Sobre as descrições ou mesmo reflexões sobre a mitologia, cabe dizer que estas não podem se restringir às versões clássicas ou “olímpicas”, pois tanto Ártemis quanto Atena são deusas primitivas e anteriores ao período helênico e os seus mitos de nascimento mostram essa afirmação claramente.
Ambas têm ligação com a Deusa Mãe, sendo que Ártemis manteve a dualidade e Atena se tornou a grande inspiradora do dualismo.


Sobre Ártemis
O arquétipo da deusa grega Ártemis apresenta características que a aproxima das culturas xamânicas[v].
Ela é uma deusa que tem o domínio sobre a vida e a morte, ou ainda, rege a ciclicidade, a chamada “vida-morte-vida” (Estés, 1999).  
Protetora da caça e dos caçadores, Ártemis é uma deusa que personifica o mundo da Natureza como nenhuma deusa ou deus olímpico.
Numa das versões de seu mito de nascimento diz que Leto engravidara de Zeus, porém Hera, sua esposa oficial, lança uma maldição sobre Leto: esta não poderia dar à luz onde houvesse terra firme.
Sobre isso, encontramos uma referência no texto de Junito de Souza Brandão:

Conta-se que, grávida de Zeus, e sentindo estar próxima a hora do nascimento dos filhos, Leto percorreu o mundo inteiro em busca de um local onde eles pudessem vir à luz. Hera, porém, enciumada com este novo amor de Zeus, proibiu a terra de acolher a parturiente. Temendo a cólera da rainha dos deuses, nenhuma região ousou recebê-la. Foi então que a estéril e flutuante Ilha de Ortígia, por não estar fixada em parte alguma, não pertencia à Terra e, portanto, não tendo o que temer da parte de Hera, abrigou a amante de Zeus. (Brandão, 1997)

Nesse trecho podemos identificar o mito ilustrando uma questão moral no mundo grego e também perceber o dualismo entre a moral representada por Hera e o desejo simbolizado por Leto.
Aqui se fazem necessário alguns esclarecimentos sobre o Zeus e a Hera “morais”. 
Primitivamente encontramos na relação dessas duas divindades a dinâmica do “hierosgamos”, ou seja, do casamento sagrado.
O arquétipo da deusa Hera “olímpica” é identificado com a preservação da tradição e da moral e a proteção do patriarcado, mas isso é quase um contra-senso, pois a Hera primitiva é uma divindade que também está relacionada aos ciclos da Terra e às Grandes Mães das culturas agrícolas matrilineares.[vi]
No entanto, na medida em que o homem[vii] grego vai se distanciando da idéia de dualidade, Hera perde o status de soberana e se torna a “esposa domesticada”, subjugada às regras impostas por um Zeus que também perde o status de consorte.
Zeus representa a dita “magnitude” do mundo androgênico e o distanciamento do ser humano da natureza, ou ainda, dos ciclos da Terra.
Ele é um deus que rege os raios e os céus, seu reino é o Olimpo, ou seja, o mundo acima da Natureza e, além disso, é considerado o “Pai de Todos os Deuses”.
Nesse sentido, o mito de Zeus vai de encontro com inúmeras outras divindades patriarcais, como o próprio Jeová das culturas judaico-cristãs.
Sobre este problema, cito a pesquisa de Erich Neumann, Ph.D. em Filosofia e um dos principais discípulos de C. G. Jung:

Em oposição aos mistérios femininos, temos os mistérios da transformação do caráter de agressão do Grande Masculino que em como fator decisivo os arroubos e as mudanças repentinas e radicais. Por isso, o raio é seu símbolo característico.

Retornando ao mito de nascimento de Ártemis, o fato de Leto não poder dar à luz em terra firme e ser recolhida em uma ilha “não fixada em parte alguma” já demonstra a marginalidade envolvida. Não é de se espantar que o reino de Ártemis seja o mundo das matas, das florestas, à margem do mundo urbano.
Ártemis é a grande representante da Natureza Selvagem e livre das regras impostas pela moral ou cultura. Exemplo disto é seu séquito de ninfas.
Ele é formado exclusivamente por mulheres “virgens” – ela mesma uma deusa virgem.
O conceito de virgem nesse caso é completamente distinto ao do senso-comum.
Uma mulher virgem no mundo antigo se caracterizava como uma mulher não casada, ou seja, independente, dona de seu corpo e suas escolhas.
Até mesmo arquetipicamente, o termo é usado para designar as divindades que expressem essas qualidades.
Nesse ponto, o arquétipo de Ártemis é semelhante ao de Atena, pois esta última também é considerada uma deusa virgem, no entanto, esta seria aquela que se tornaria a filha predileta de Zeus e guardiã do mundo de seu pai; a conseqüência é que a virgindade Atena é moral e isolada de paixão.
Atena é a Deusa da Sabedoria, da Estratégia e do Artesanato; sua mãe é Métis, a primeira esposa de Zeus.
Há algumas versões sobre as origens de Atena, porém a mais aceita é a que segue:

Encontra-se na Teogonia de Hesíodo o mais antigo relato conhecido sobre o nascimento de Atena, apresentado em duas variantes. Na primeira Atena seria fruto da união de Métis e Zeus. Métis, uma personificação da prudência e do bom conselho e a mais sábia dos imortais, foi a primeira esposa de Zeus, o rei dos deuses. Entretanto, sendo avisado por Gaia, a terra, e Urano, o céu, de que o filho que haveria de nascer de Métis após Atena seria mais poderoso que o pai, e ele por conseguinte corria o risco de ser destronado, assim como ele destronara seu próprio pai Cronos; Zeus, através de um estratagema, enganou Métis e a engoliu. Não obstante, ela gerou Atena no ventre de Zeus, que a deu à luz a partir de sua cabeça às margens do rio Tritão, já completamente adulta e armada.[viii]

Aqui cabe salientar que Ártemis e Atena possuem mães que são deusas titãs (Grandes Mães), ou seja, divindades que representam forças da natureza e que não se alinham às questões morais antropocêntricas também relacionadas ao mundo helênico.
No entanto, no caso de Atena, esta desconhece sua mãe, que é engolida por Zeus.
Mas quais seriam as relações de Atena com a Grande Mãe?
Sobre as origens de Atena e sua conexão com deusas primitivas, podemos citar:

Diversos pesquisadores têm tentado traçar as origens de seu culto, mas nada pôde ser provado conclusivamente; ele pode ter derivado da adoração da Deusa Serpente ou da Deusa do Escudo da civilização minoica, ou da Grande Mãe dos povos indo-europeus, ou ser uma importação diretamente oriental, a partir da identificação de alguns de seus principais atributos primitivos, a guerra e a proteção das cidades, com os de várias outras deusas cultuadas no Oriente Próximo desde a pré-história. Sua história entre os gregos até o fim da Idade das Trevas é de difícil reconstrução, mas é certo que quando surgem as primeiras descrições literárias sobre Atena, no século VIII a.C., seu culto já estava firmemente estabelecido não só em Atenas, mas em muitos outros pontos da Grécia, como Argos, Esparta, Lindos, Lárissa e Ílion, geralmente lhe atribuindo uma função de protetora das cidades e especificamente das cidadelas, tendo um templo no centro das cidadelas muradas, sendo por extensão uma deusa guerreira[ix].

Essa relação de deusas primitivas com a guerra é bastante comum em diversas culturas.
A diferença que podemos apontar entre Atena grega e outras divindades femininas ligadas à guerra é que essas últimas tinham também relação com fertilidade[x] – característica não encontrada na filha predileta de Zeus.
Atena foi e é até nossos dias um dos arquétipos gregos mais presentes no mundo civilizado e, se Zeus é considerado o “Grande Pai” do mundo patriarcal, Atena seria sua anima ou ainda seu aspecto criativo[xi] e esta tem poderes que podem ser igualados ao de seu pai.
Ela é sua fiel companheira e defensora.
O fato de ter nascido da sua cabeça já nos esclarece a questão de que a própria deusa da Sabedoria torna-se, ao ser engolida e retirada da cabeça de Zeus, um produto adequado ao imaginário patriarcal.  
Ela se torna a guardiã da Cultura.
Isso nos leva a uma das problemáticas de minha argumentação sobre o pensamento ocidental nascido “nesta” Grécia: a deusa mais cultuada no berço da Filosofia é uma deusa idealizada e que não pode mais ser considerada uma faceta da Grande Mãe, pois já não faz parte da natureza, não possui “corpo”, não sente e abandona as características femininas.
Importante que se diga que de maneira nenhuma ao apontar essa questão, intenciono demonizar ou culpar Atena, inspiradora do pensamento e da capacidade humana intelectual e criativa. Isto seria um contra-senso e invalidaria meu argumento que é o da dualidade.
Atena é uma divindade ligada ao equilíbrio, porém por demasiada valorização de um de seus aspectos arquetípicos – a mente ou razão – gerou uma sombra e lembra muito a mais grave falha para os gregos: a hybris,  que significa a presunção ou ambição em se igualar aos deuses.


A questão da natureza versus cultura.
Como já foi dito, Ártemis não tinha lugar no mundo civilizado, em especial no mundo ateniense, principal cidade do mundo grego e também berço da Filosofia.
Porém, além de refletir sobre a questão urbes/pagus (cidade/campo) é interessante pensarmos na questão dos gêneros e no papel das mulheres na Grécia antiga e também na dicotomia natureza x cultura.
Para isso, coloquemos as diferenças entre as cidades-estado de Atenas e Esparta.
Sobre as mulheres na cidade de Atenas:

Entre os atenienses, mesmo sendo esses os criadores da democracia, percebemos que a atuação da mulher era reduzida. Educada para ser dócil e reservada ao mundo doméstico, as mulheres atenienses eram subjugadas pelo pai até ele escolher qual homem poderia com ela se casar. Após o matrimônio, a subserviência feminina era destinada ao marido. Mesmo após as reformas políticas, as mulheres não participavam das questões políticas por serem consideradas inaptas para esse tipo de tarefa.[xii]

Vê-se claramente que o ponto de vista masculino impera e de forma bastante radical.
Aqui vale lembrar que a patronese da cidade de Atenas é a deusa Atena.
Todas as manifestações culturais, intelectuais ou mesmo sociais tinham como referência a filha preferida de Zeus.
Sobre as relações da deusa Atena com a construção de um mundo civilizado e artificial, temos:

Assim como na guerra, também na paz é a inventividade prática que ela (Atena) mais inspira. Em Atenas, ela tornou-se a padroeira dos tecelões, dos artífices metalúrgicos e dos carpinteiros – na realidade de todos os artesãos. À medida que a cidade e seus domínios e colônias iam se tornando mais poderosos, Atena passou a ser cada vez mais uma força espiritual, ao lado de seu pai Zeus, por trás da expansão dos primórdios da civilização grega. (Woolger, 1997)

A cidade de Esparta era consagrada a Ártemis e Héracles (o arquétipo do herói).
Eis a descrição apresentada abaixo sobre o papel das mulheres e homens espartanos:

No mundo espartano essa posição era bem diferente. Reforçando o seu caráter militar, os espartanos acreditavam que a mulher deveria ser fisicamente preparada para que pudesse dar origem a indivíduos aptos para compor o exército daquela cidade. Por isso, era comum que essas mulheres se dedicassem à disputa de jogos e outros tipos de atividade esportiva. Além disso, podiam controlar as finanças domésticas e participar das reuniões públicas ligadas à vida política espartana.[xiii]

Uma reflexão: o que teria acontecido para que os atenienses e se afastassem tanto de sua origem pagã e dual?
Para desenvolver as possibilidades desta questão, falaremos do isolamento de Ártemis, o arquétipo da dualidade presente nesse trabalho e para tanto é essencial lembrarmos de outro título do qual a deusa dos bosques e guardiã dos nascimento e mortes possui: Deusa da Lua.
As deusas lunares têm como características a ligação com a vida-morte-renascimento, com o movimento de ascensão, crescimento e declínio, com as marés, com as cavernas, útero e ventre, com o ciclo menstrual feminino e também com o lado inconsciente do ser humano. Mitos recorrentes as ligam com a alma, a imortalidade e a ancestralidade.[xiv]
O que pretendo aqui é mostrar que o feminino tem sua complexidade própria e que as culturas matrifocais não pretenderam ser uma “ditadura do feminino”, tal qual a rígida cultura patriarcal, mas sim, que a visão de mundo que inclui o feminino e o masculino com seus ciclos próprios[xv], possibilitam uma forma de organização sócio-cultural-psicológica que envolve a unidade com suas múltiplas facetas e nuances. [xvi]
Ainda sobre a lua é necessário que se cite os aspectos espirituais intrínsecos à natureza feminina e que não possui dicotomia e que como a abstração patriarcal nos levou ao “dualismo unilateral”:

O aspecto espiritual-lunar do matriarcado não se refere ao “espírito invisível e imaterial”, de que se gaba o patriarcado: “Enquanto a feminilidade, por sua própria natureza não é capaz de se despojar da materialidade, o homem se afasta completamente dela e se eleva a imaterialidade da luz solar”. Para esse aspecto patriarcal, segundo o qual “a vitória do homem reside no princípio espiritual”, a lua é “apenas” a forma mais elevada de uma evolução material e telúrica, que se opõe a um aspecto “puramente espiritual”, o qual, em sua forma platônico-apolínea e judeu-cristã, levou à conceituação abstrata da consciência moderna. (Neumann, 2003)

Isto nos leva ao nascimento da filosofia socrático-platônica.
Platão foi o fundador do que se conhece como pensamento ocidental e alinhado com o contexto histórico em que viveu, institucionalizou a Filosofia que nasceu dualista, misógina e que menospreza a natureza (mundo sensível) em favor da cultura e da contemplação da capacidade da mente humana (mundo das idéias).
Novamente podemos relacionar os dois mundos platônicos com cada uma das deusas: menospreza-se a “Mãe natureza” material[xvii] e se vangloria a “Mãe cultural” ou ainda abstrata.
O problema aqui é a distinção e isolamento de cada uma das facetas. Citando novamente Neumann, este que se baseia nas idéias de Bachofen:

Essa consciência moderna, ameaça, porém, a existência da humanidade ocidental, pois a unilateralidade da evolução masculina levou a hipertrofia da consciência, às custas da totalidade do homem. Por isso, o conhecimento destilado, abstraído pela consciência coletiva da humanidade – como conhecimento da matéria, por exemplo – repousa nas mãos dos representantes terrestres da masculinidade que, como humanos, não se mostram, em hipótese alguma, capazes de encarnar o “espírito solar, imaterial e puro”. Por outro lado, o caráter de luz e sabedoria que cabe ao Grande Feminino não deveria ser caracterizado simplesmente por “só anímico”. (Neumann, 2003)

Platão defende que a Verdade e o Bem são encontrados no imutável  mundo das idéias e que o mundo sensível é pura ilusão e “apenas” uma projeção da realidade.
Ora, o interessante é pensar que o pensador tenha levado sua teoria a cabo até mesmo quando disserta sobre o papel da mulher na sociedade grega em duas de suas obras, A República e das Leis (Barros, 2002).
No primeiro livro, obra clássica da Filosofia Antiga e mesmo pelo autor considerado uma utopia, Platão chega a ter um discurso que poderia ser inclusive considerado feminista quando vê a possibilidade de uma mulher se tornar uma guardiã e até mesmo ser instruída da mesma forma que o homem.
Porém, em das Leis, apresentado por Platão como a segunda melhor forma de cidade, ele se contradiz: o livro, dedicado aos conceitos morais, possui uma carga machista (e dualista).
Nessa obra, a mulher ideal é a doméstica[xviii], ou seja, a que atende as expectativas do sistema patriarcal.
Mesmo que consideremos a contextualização histórica, o que é preocupante é que esse pensamento não sofreu alterações durante a história da civilização ocidental.
Aristóteles, discípulo direto de Platão, afirma que O silêncio dá graça as mulheres, embora isto em  nada se aplique ao homem” (Política,  1260 a-c).
Não é irônico pensar que a musa inspiradora da intelectualidade ocidental seja uma deusa que rege a justiça e o equilíbrio?
E que, no entanto, essa inspiração não seja adequada às mulheres e que somente tenha a possibilidade de ser acessada pelos homens?[xix]

No decorrer da história da Filosofia, isso não muda muito.
A demonização das mulheres e do corpo na idade média nos leva novamente ao arquétipo de Ártemis.

E quando pensamos sobre a possibilidade de um feminino, nos remeteremos à musa idealizada e etérica (e porque não, histérica) de uma Virgem Maria, que dá a luz, mas que não tem corpo, útero ou ciclos.[xx]

Sobre a idade da Razão, seu grande representante, “apesar de dizer que as mulheres eram mais aptas para a filosofia que os homens, a herança da filosofia de Descartes moldou a subordinação da natureza e da mulher à vontade do homem.” (Fernandes, 2008)
Apesar de ser apontado como machista por alguns, Friedrich Nietzsche teve um papel fundamental na eminente desconstrução do dualismo, e, sim, é possível afirmar que ele tenha contribuído mesmo que indiretamente para que houvesse uma revisão sobre o papel do feminino e da mulher na reflexão sobre a vida no ocidente.
É notório que ele tenha sido o principal algoz da postura dualista dentro da Filosofia e que fez críticas pesadas à respeito da teoria dialética de Platão.
A subjetividade presente nas idéias nietzscheanas resgata o indivíduo dentro da Filosofia.
O bem e o mal não estão somente fora, mas também dentro de cada ser.
É como se houvesse um reconhecimento de nossas várias naturezas e isso nos remete às culturas ancestrais onde a vida é processo, movimento e fluidez contínua.
Sobre a natureza artemísica[xxi] e a cultura atenica[xxii], minha tese alinha-se com e foi bastante inspirada na teoria de Friedrich Nietzsche a respeito da dicotomia entre o apolíneo e o dionisíaco, porém a presente reflexão pretende nos levar às possíveis origens da questão, ou seja, até que ponto a dissociação entre Ártemis e Atena – o corpo e a mente, o palpável e o etéreo, natureza e cultura  – poderia representar a essência da infelicidade e vazio que assola a existência humana?


Concluindo.
O arquétipo da Grande Mãe em sua plenitude, ou seja, a união entre Ártemis e Atena, aqui pretendeu ser apresentado como possibilidade de cura da dicotomia que talvez venha impedindo que o ser humano, no decorrer da história, se perceba íntegro e integrado à sua própria natureza (microcosmos).
Esta que também é a Natureza (macrocosmos).
Para concluir esse trabalho, cito a antropóloga e pesquisadora das questões femininas, Anne Barring:

Quando o masculino e o feminino se encontram em equilíbrio, há fluidez de relacionamento - um fluxo de energia, de unidade, de totalidade. Esta fluidez e este equilíbrio talvez sejam melhor ilustrados na imagem Taoísta da indissolúvel relação de complementaridade entre o Yin e o Yang. Em termos mais amplos, o feminino possui um padrão contido de energia: receptivo, acessível, mantendo a unidade entre as coisas; já o masculino possui um padrão expansivo de energia: a busca daquilo que está além. De modo mais específico, o feminino reflete a matriz instintiva e os valores conscientes do sentimento (coração), enquanto que o masculino reflete as qualidades da consciência de busca, definição de metas e ordenação, geralmente associadas à mente ou intelecto. Por milênios, as mulheres viveram mais próximas do primeiro padrão, e os homens do segundo. Atualmente, contudo, existe um forte impulso para que os equilibremos em nosso interior e de nossa cultura. Há uma necessidade premente de se temperar a atual ênfase excessiva dos valores masculinos com um esforço consciente de se reintegrar aos valores femininos.  (Baring, 1999)



Para saber mais sobre o assunto.
Baring, A. (s.d.). Reequilibrando o Masculino e o Feminino (Parte 1 de 2). Acesso em 10 de outubro de 2011, disponível em Feminino Essencial: http://www.femininoessencial.com.br
Barros, G. N. Rainha Filosofo na Republica de Platão. São Paulo, SP, 2002.
Boff, L. A Águia e a Galinha". São Paulo: Vozes, 1997.
Bolen, J. S. As Deusas e a Mulher. São Paulo: Paulus, 2007.
Bolen, J. S. Os Deuses e o Homem. Sao Paulo: Paulus, 2005.
Brandão, J. d. Mitologia Grega - Vol. II. São Paulo: Vozes, 1997.
Cashford, A. B. The Myth of the Goddess. Londres: Penguin / Arkana, 1993.
d'Eaubonne, F.  As Mulheres antes do Patriarcado. Lisboa: Vega Universidade, 1977.
Eliade, M. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
Estés, C. P. Mulheres que Correm com os Lobos. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
FERNANDES, A. C. (2008 йил 13-março). Retrieved 2011 йил 01-outubro from Para Ler e Pensar: http://www.paralerepensar.com.br/antoniocf_amulher_naoticapedagogica.htm
Getty, A. A Deusa. Madrid: Edições del Padro, 1997.
Granier, J. Nietzsche. Porto Alegre: L&PM, 2009.
Jung, C. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2000.
Junior, O. G. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.
Koss, M. V. Feminino + Masculino. São Paulo: Escrituras, 2000.
Leonard, L. S. A Mulher Ferida. São Paulo: Summus, 1997.
Monaghan, P. The Goddess Path. St. Paul: Llewellyn, 1999.
Monaghan, P. The New Book of Goddesses and Heroines. St. Paul: Llewellyn, 2000.
Neumann, E. A Grande Mãe. São Paulo: Pensamento, 2003.
Nietzsche, F. W. A Filosofia na Era Trágica do Gregos. Porto Alegre: L&PM, 2011.
Nietzsche, F. W. Ecce Homo. Porto Alegre: L&PM, 2003.
Nussbaum, M. C. A Fragilidade da Bondade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
organizadora, S. N., & Eisler, R. O Novo Despertar da Deusa. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
Sicuteri, R. Lilith - A Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
Souza, R. d. (2011). Acesso em 01 de out de 2011, disponível em Brasil Escola: http://www.brasilescola.com/historiag/atenas-esparta-as-mulheres.htm


Texto: Patricia Santos Machado.
Concluinte do Curso de Graduação Licenciatura em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano – SP.


[iii] Termos como: “primitivo”, “bárbaro”, “arcaico”, “ancestral” e “pré-histórico” são usados constantemente como pejorativos e isso demonstra a força de nosso argumento nesse artigo, pois todos eles partem do ponto de vista grego clássico, que teve como uma de suas fortes características desprezar culturas que não a própria. Essa questão se arrasta ao longo da história ocidental e, infelizmente, gerou a cultura do “povo escolhido” contra os outros não escolhidos, o que obviamente alinha-se ao preconceito e busca de uma padronização.
[iv] Alguns exemplos podem ser encontrados na cultura indiana. Deusas como Saravasti, Lakshmi e Kali, que representam respectivamente, criação, manutenção e destruição, mas que, no entanto, tem um princípio em comum: são as faces femininas de deus. Esse deus também é multifacetado (Brahma, Vishnu e Shiva). Encontramos essa mesma característica nas culturas celtas e, é importante que se diga, são contemporâneas à Grécia onde floresce a Filosofia.
[v] Como xamanismo deve-se compreender algo que tem como principal característica a relação simbiótica com a Natureza e que é tido como a primeira manifestação espiritual humana.
[vi] A Hera arquetípica nos mostra claramente a adaptação que essas divindades tectônicas sofreram, sendo que a alternativa quando da não adaptação às expectativas patriarcais era a marginalidade ou ainda a “demonização” (termo esse tardio e que se aplica mais pontualmente à Idade Média.)
[vii] O fato de em toda a história da Filosofia nossa espécie ser denominada como “o homem” e não “ser humano” já esclarece o argumento da misoginia e unilateralidade.
[viii] http://pt.wikipedia.org/wiki/Atena
[ix] http://pt.wikipedia.org/wiki/Atena
[x] Cito a Morrighan dos povos celtas, Freya na cultura nórdica e a conhecida como grega, Afrodite. Esta última que tem sua origem na Anatólia, atual Turquia, e que aparece como deusa da guerra e do amor carnal em essência. Estabelece-se aqui mais vez a relação “vida-morte-vida”. Posteriormente Afrodite é “importada” pela cultura grega e também se torna uma deusa fragmentada ou ainda isolada de sua complexidade. Afrodite se torna simplesmente a Deusa da Beleza e do Amor.
[xi]  Woolger, A Deusa Interior, p. 45
[xiv] Nas culturas ameríndias do norte, a lua é chamada de “A Avó”.
[xv] O sol para as culturas primitivas possui também  um caráter cíclico facilmente identificado nas festividades relacionadas à roda das estações do ano. Essa questão foi assimilada pelo cristianismo e possui fortes semelhanças com o mito mitraico (de Mitras) e também com deus grego Dionísio – ambos “crianças divinas” que se tornam consortes e depois  “reis sacrificiais”.
[xvi] Sugiro a leitura do capitulo II do livro “Pais e Mães”, E. Neumann, org. James Hillman
[xvii] Lembrando que a raiz etimológica de matéria é mater , o que nos leva a seguir a mãe.
[xviii] Ou o arquétipo de Hera.
[xix] Por hora não entrarei na questão social entre o pobre e o rico, nobreza e escravo. Porém é algo que não pode ser descartado numa reflexão como essa.
[xx] Importante citar que Maria tem também raízes míticas relacionadas com as deusas primitivas, tais como: Ísis, Hera e Cibele, no entanto também sofreu uma adequação aos interesses patriarcais.
[xxi] Da natureza de Ártemis.
[xxii] Da natureza de Atena.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Esteja a vontade para debater idéias e sugerir novos temas.
Forte abraço.
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.