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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Visões do Brasil holandês nas cartas tupi: a situação dos índios.



Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. nov., Série 12/11, 2012, p.01-13.

 

Fato singular na história brasileira a ocupação do Nordeste brasileiro pelos holandeses por 24 anos, tem suscitado pesquisas e debates dos mais diversos.

O período foi marcado pelas diferenças de posturas entre dois tipos de colonizadores: os portugueses, de religião católica e cuja empresa colonial baseava-se numa vida rural que dava pouca importância aos núcleos urbanos, e colonizadores holandeses, de religião calvinista, nitidamente urbanos, que tentaram comandar das cidades, as quais embelezaram e conferiram uma importância jamais imaginada pelos portugueses, a economia basicamente rural baseada no açúcar.

Religião, língua e costumes e interesses díspares minavam a pretensão holandesa no Nordeste.

Assentados a quase um século nas regiões açucareiras e constituindo a elite da sociedade instalada nessas regiões, os senhores de engenho portugueses não aceitavam o domínio holandês.

Schalkwijk (2007), alertando para essa animosidade, divide em seu artigo a história da ocupação holandesa em três períodos: sete anos de resistência portuguesa a invasão dos holandeses, resignação dos portugueses nos oito anos do governo de Nassau e os nove anos da guerra de restauração.

Buscando aliados contra os portugueses, fixados no Brasil há tanto tempo, os holandeses voltam-se para os índios, envolvendo-os numa guerra que tem um caráter tríplice: econômico, político e religioso. 

Vistos pelos índios como libertadores tanto o governo da Companhia, quanto a Igreja Reformada vão em busca dos nativos.

Tupis e tapuias passariam a empunhar suas armas ora de um lado ou de outro, buscando um arranjo que melhor atendesse aos seus interesses diante da guerra entre lusos e flamengos.

O documento utilizado neste trabalho remete a esse período da história e mostra que os índios tomaram como suas as questões que opunham portugueses e holandeses.

Descontentes com o trato que lhes era dispensado pelos portugueses, muitas tribos fizeram parte das forças holandesas que garantiram aos flamengos a posse do Nordeste por mais de duas décadas, e mesmo após expulsas as forças holandesas muitos índios travariam lutas contra Portugal em nome de sua Fé protestante.

 

AS CARTAS TUPI.

O documento de que trata este trabalho faz parte do conjunto de cartas chamado de Cartas Tupi (SCHALKWIJK 2004), trocadas entre os índios Pedro Poti e Felipe Camarão. Primos, esses indígenas se viam lutando em campos opostos durante a guerra para expulsar os holandeses do Brasil.

Escrita originalmente em tupi, a carta foi traduzida para o holandês e conservada na Col. Brieven en Papieren no vol. de 1645.

A carta foi transcrita pelo Dr. Pedro Souto Maior em seu artigo “Dois Índios Notáveis e Parentes Próximos”, publicado na Revista do Instituto Histórico do Ceará do ano de 1912, e é por meio deste artigo que tivemos acesso a esse documento.

A missiva é a resposta de Poty a Felipe Camarão, que lhe enviara insistentes pedidos para que, abandonando os holandeses, torne-se aliado dos portugueses. 

Na carta além de reafirmar sua lealdade a Holanda, Poty afirma-se cristão protestante e convida Camarão a vir juntar-se a ele e aos holandeses.

Por meio deste documento, este trabalho busca observar as diferenças de tratamento dispensadas aos índios por parte de portugueses e holandeses.

Os índios Poty e Camarão, chefes indígenas renomados, colocam-se em lados opostos e por meio de suas cartas buscam atrair-se mutuamente para sua causa, em seus argumentos expressam sua confiança na riqueza e força de seus partidos, na religião que professavam e acusam um ao outro de estarem a serviço dos invasores e daqueles que escravizam os índios.

É interessante notar que ambos não viram o fim da luta na qual se empenharam.

Felipe Camarão morreria após a batalha de Guararapes enquanto Pedro Poty, feito prisioneiro dos portugueses, negou-se a abjurar da religião calvinista, foi enviado a Portugal, para ser julgado pelo Tribunal do Santo Ofício e faleceu durante a viagem.

 

HOLANDA, PORTUGAL E O BRASIL: O AÇUCAR, RELIGIÃO E GUERRA. 

Entre 1630 e 1654 a Holanda por meio de sua Companhia das Índias Ocidentais dominou o Nordeste do Brasil.

A invasão e a conseqüente dominação holandesa dessa parte do Brasil de acordo com o historiador Ronaldo Vainfas (2009) teve como motivação principal interesses econômicos e políticos. 

Em 1580 as coroas portuguesa e espanhola foram unificadas sob o reinado do espanhol Felipe II.

A União Ibérica acabaria por envolver o Brasil nos conflitos de Castela (SCHALKWIJK 2004).

Os holandeses, que até aquele momento eram os grandes beneficiários do comércio açucareiro, viram-se privados do açúcar brasileiro.

Desde sua independência, em 1568, a Holanda estava em guerra com a Espanha, e esta fechou seus portos e o de suas colônias ao comércio flamengo, buscando enfraquecer comercialmente seus inimigos dos Países Baixos.

A invasão afigurou-se como a única forma de reaver o lucrativo comércio do açúcar. Travar-se-ia no Nordeste brasileiro uma “guerra pelo açúcar” no dizer de Evaldo Cabral de Melo Neto (APUD VAINFAS 2009), onde holandeses, espanhóis, portugueses, índios e negros lutaram pelo controle da rica região produtora de açúcar.

Buscando isolar a Espanha de suas colônias e das riquezas nelas produzidas as companhias de comércio holandesas traçam planos de conquistas das possessões portuguesas na Ásia e América por considerarem-nas os pontos mais vulneráveis das colônias espanholas (VAINFAS, 2009).

É nesta estratégia que se insere a ocupação holandesa do Nordeste.

Um empreendimento colonial levado a cabo por companhias comerciais que enfraquecia a Espanha e projetava a Holanda como potência européia.

 

Além dessa motivação econômica e política Vainfas (2009:147) completa:

Uma terceira motivação se destacou desde o início: o proselitismo religioso, uma vez que a bandeira do calvinismo, a “verdadeira religião cristã”, no dizer dos reformados, era traço definidor da identidade do Estado, uma confederação de províncias governada pela Casa de Orange que, apesar de conhecida por sua tolerância religiosa, não deixava de ser um Estado confessional, a exemplo dos demais Estados europeus do Ocidente.

 

Vainfas (2009) esclarece que, mesmo antes da invasão da Bahia a direção da Companhia colocava que um de seus deveres era a expansão da religião protestante, não só iriam privar a Espanha de suas riquezas, como também combater os papistas.

De acordo com Schalkwijk (2004) a história da Igreja Cristã Reformada, a Igreja oficial do Estado holandês, que se estabeleceu no Nordeste com a conquista e foi expulsa com os holandeses é um capítulo pouco conhecido da história.

Existiram 22 igrejas em todo o Nordeste, sendo a maior a do Recife.

A missão da Igreja Reformada em terras americanas, ciente do ódio que lhe devotava as populações católicas portuguesas como a religião dos invasores, optou por realizar seu trabalho entre os indígenas. Schalkwijk (2004) explica que “para os holandeses, as tribos aculturadas constituíam os brasilianos e as não subjugadas os tapuias”.

Tanto Schalkwijk (2004), quanto Vainfas (2009) concordam com Souto Maior (1912) no fato que o primeiro contato dos holandeses com os brasilianos foi logo após a expulsão dos holandeses da Bahia, quando a frota holandesa em fuga aportou na baía da traição e ao seguir viagem levou para Holanda seis índios. Um desses índios seria Pedro Poty.

Estes índios retornaram ao Brasil quando da ocupação holandesa e prestaram serviços valiosos aos holandeses na luta contra os portugueses e em conquistar novos aliados indígenas a causa flamenga.

Vista como a religião dos invasores, a população portuguesa na colônia permaneceu fiel ao catolicismo.

A Igreja Reformada pouco se empenhou em trabalhar com essa população e decidiu atuar junto aos índios utilizando o mesmo sistema de aldeamentos que os missionários católicos haviam utilizado com sucesso.

O trabalho dos missionários protestantes voltou-se aos brasilianos, e de acordo com Vainfas (2009), atuava em duas frentes, “de um lado, combater os resíduos da cultura tradicional entre os índios brasilianos... de outro lado, reorientar a cristianização dos índios”, segundo o calvinismo, uma vez que a conversão dos mesmos havia sido feita por missionários católicos.

Estabeleceu-se o paradoxo do trabalho da igreja reformada: destruir a obra jesuíta entre os índios e edificar-se sobre as bases inacianas. Vainfas (2009) chama a atenção para o fato de que em 1635, quando por meio do Acordo da Paraíba, concedeu aos católicos que desejassem viver sob domínio da Holanda, a liberdade religiosa, a Companhia permitiu que párocos e religiosos permanecessem em suas capitanias com exceção dos jesuítas, expulsos justamente por sua ação missionária junto aos índios.

É nesse contexto de expulsão dos jesuítas que aparece um importante personagem, Manoel de Morais. Mameluco, natural de São Paulo, estudou no Colégio Inaciano da Bahia, onde destacou-se como excelente aluno e expert na língua geral.

Devido a isso, Manoel foi indicado ao cargo de superior de um dos aldeamentos pernambucanos por volta de 1623 a frente do qual permaneceu até 1634.

Foi então que Manoel, cercado pelas tropas holandesas lideradas por Artichewski na Paraíba, rendeu-se ao conquistador, e ainda, forneceu importantes informações da localização de aldeamentos.

O jesuíta tornou-se calvinista, mudou-se para a Holanda, casou-se e teve filhos “serviu a WIC como funcionário remunerado, obteve grau de Teologia na Universidade de Leinden, foi processado à revelia pela Inquisição, queimado em estátua no ano de 1642” (VAINFAS 2009).

Antes de embarcar para Amsterdã, Manoel de Morais fornece aos holandeses dados sobre a população indígena.

Eram informações preciosas sobre os aldeamentos existentes nas capitanias conquistadas e por conquistar, permitindo-lhes melhorar e corrigir as informações que possuíam.

Quando se estabelece em Amsterdã passa a atuar como consultor da WIC para os assuntos indígenas brasileiros.

Sua participação foi efetiva na elaboração das estratégias de evangelização dos índios pelos holandeses.

O Plano para o Bom Tratamento dos Índios, escrito pelo ex-jesuíta, previa tratos diferentes para índios e negros. Deveria ser mantido o status quo para os negros, enquanto aos índios deveriam ter ampla liberdade.

Tais prerrogativas eram de grande alcance político.

Ao passo que defendia a manutenção da escravidão dos negros, garantindo adesão dos senhores de engenhos, visando a manutenção da produção do açúcar, por outro lado, ganhava a simpatia dos índios, levando-os a combater ao lado dos holandeses. 

O plano recomendava, também, que os holandeses reconhecessem as lideranças indígenas de cada aldeamento.

Segundo Vainfas, esse projeto de evangelização previa que os invasores aprendessem a língua dos índios, destacando que a catequese deveria concentrar suas ações nas crianças.

Mas, Manoel de Morais admitia que seu plano só lograria existo caso os jesuítas fossem expulsos do Brasil. Homem de grande perspicácia política, Manoel de Morais entendia que a religião era um meio essencial para que os holandeses consolidassem seu domínio e a sua aliança com os índios brasileiros.

 

O plano teve boa repercussão entre os dirigentes da Companhia das Índias:

(...) os diretores da WIC acolheram com entusiasmo o Plano de Manoel de Morais, sobretudo Joanes de Laet, padrinho do ex - jesuíta em sua nova vida. Joanes de Laet recomendou ao concelho politico a adoção do Plano, acrescentando que Manoel de Morais era 'homem muito experiente' mas matérias relacionadas ao 'governo dos índios tupi'. Considerou seu projeto 'mui útil' e ensinou que o próprio ex-padre poderia pô-lo em prática com sucesso. (VAINFAS 2009)

 
O plano foi de fato foi posto em pratica, no entanto, a sugestão de liderança de ex-jesuíta não foi aceita pelos demais dirigentes da companhia.

Diversos pontos essenciais foram levados em consideração pelos pastores holandeses, Vainfas destaca a “preparação de tradutores; a preservação da liberdade indígena; a ênfase na doutrinação dos africanos, ainda que na condição de cativos; o foco na catequese das crianças indígenas; a exclusão total dos jesuítas para abrir caminho livre aos predicantes calvinistas”.

 

Vainfas chama atenção para ratificação dos direitos dos índios sobre o domínio holandês no nordeste do Brasil:

Nas atas da assembleia foram confirmados importantes direitos dos índios fiéis, sancionados pelos diretores da Companhia da Índias (os Dezenove Senhores): liberdade dos índios, impedida a escravização deles; manutenção de mestres – escolas e pastores, nas aldeias, para doutrina da 'verdadeira religião cristã'(calvinista);

 
No fim, a evangelização calvinista dos brasilianos, significava, para a WIC, principalmente um instrumento de aliança política com fins militares, ao passo que os sínodos e consistórios priorizavam francamente os objetivos religiosos e missionários em si mesmos (VAINFAS 2009).

A verdade é que a atuação de Manoel de Morais, em 1635, é fundamental para a tratamento que o holandês mantinha com os índios brasileiros. Sua importância é inegável, ele é determinante para entender o porquê da utilização do modelo inaciano como modelo de evangelização dos holandeses reformados.

Embora aliados a Brasilianos e Tapuias, os holandeses não os tratavam e os viam da mesma forma.

O artigo de Chicangana-Bayona (2008) explica que os tapuias, tradicionais inimigos dos portugueses, foram valorosos aliados dos holandeses, mas diferente do que ocorria aos brasilianos, os holandeses pouco intentaram sua conversão.

Para eles os tapuias eram “relutantes à civilização, ou seja, ‘um mal necessário’ para os holandeses por ser aliados na guerra contra os Ibéricos”.

Cronistas da época citados pelos autores abordados afirmam que o ódio que os tapuias devotavam aos portugueses é que aproximou esses povos dos holandeses, no entanto os tapuias não aceitavam ser subjugados mesmo a esses aliados europeus, vivendo afastados do litoral, sem deixar de praticar seus costumes e nem se permitindo adotar costumes europeus.

Uma questão interessante levantada por Schalkwijk (2004) era a liberdade dos indígenas.

De acordo com este autor, desde o início de sua chegada os holandeses estabeleceram como princípio que os índios, aculturados ou não, deveriam ser livres e essa liberdade era um dos capítulos fundamentais da constituição do Brasil holandês e foi reafirmada nos Regulamentos de 1629, 1636 e 1645. 

De acordo com esses documentos oficiais a terra pertencia aos brasilianos, devendo os mesmos, portanto, ser tratados com respeito, não sendo escravizados e, se tivessem que ser utilizados em trabalhos quaisquer, deveriam receber pagamento pelo serviço. Schalkwijk (2004) complementa que não era apenas a necessidade de apoio na guerra, mas também uma empatia por se verem oprimidos pelos ibéricos que aproximavam holandeses e índios.

O autor relata ainda que índios que serviam como escravos dos portugueses foram libertados e levados para os aldeamentos organizados pela Igreja Reformada.

Em artigo posterior Schalkwijk (2007) afirma que no período de ocupação holandesa “os indígenas gozavam de todos os direitos humanos da época”.

Esta postura holandesa é defendida por trabalhos mais recentes como o de Schalkwijk (2004) e Vainfas (2009) e contradiz historiadores anteriores que afirmavam que não havia diferenças no trato e na situação dos índios sob a dominação de holandeses e portugueses.

Por exemplo, Sergio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, também fala das tentativas de atrair os indígenas para a fé reformada, mas completa que os holandeses escravizavam e vendiam índios brasileiros nas Antilhas.

Tema para uma pesquisa mais ampla, que ultrapassa os objetivos deste trabalho, a questão da condição do índio no Brasil holandês parece ser a chave para compreender o porquê das poucas deserções entre os índios que lutavam em ambos os lados: mesmo quando capturados esses índios iam até as últimas consequências em defesa de seus aliados.

Quanto aos negros a posição da companhia era pela manutenção de sua escravidão.

Alencastro (2008) informa que Nassau em seu primeiro relatório para a Companhia afirma que necessariamente deve haver escravos no Brasil e que todos os meios devem ser empregados para dominar o tráfico de escravos na Costa da África.

A menção dessa necessidade pelo governador, talvez esteja relacionada a resistência de alguns setores da sociedade calvinista a qualquer tipo de escravidão (SANTOS 2010).

Vencida essa resistência, o próprio Nassau envia do Recife as expedições que tomam dos portugueses as zonas fornecedoras do tráfico negreiro.

Antonio Paraupaba, outro capitão índio aliado aos holandeses escrevendo aos diretores da Companhia fala da participação dos índios brasileiros na expedição de 1641 “...E daí em diante constantemente juntaram as suas armas com as de V.as Ex.as para a destruição dos Portugueses, também fora do Brasil, até mesmo na África, na conquista de Angola, sob os estandartes de V.as Ex.as...” (HULSMAN 2006:56).

Pelas cartas trocadas entre Pedro Poty e seu primo Felipe Camarão, observa-se que, entre os dois, as posições religiosas e a questão do tratamento dispensado pelos europeus aos índios se torna o argumento principal de ambas as partes para permanecerem em posições opostas no conflito.

 

POTI, CAMARÃO E SUAS CARTAS.

Poty começa sua carta dizendo-se envergonhado por receber as missivas de outros índios e de Felipe Camarão, que lhe pediam para passar para o lado dos portugueses.

Aqui ele se coloca como fiel aos holandeses e afirma que lutando com os holandeses nada lhe falta e mais, que ele é mais livre do que os índios que estão entre os portugueses.

Tomando a defesa dos holandeses, o índio estabelece uma sutil diferença entre o trato os índios por parte dos lusitanos e por parte dos flamengos: que estes não escravizam, nem maltratam e nem assassinam os índios.

Segundo Poty os holandeses “nos chamam e vivem conosco como irmãos” e complementa “portanto, com elles queremos viver e morrer.”

Poty havia vivido na Holanda desde a expulsão dos holandeses da Bahia, quando junto com outros cinco índios, foi levado pela esquadra holandesa em fuga.

Conhecia a Constituição do Brasil holandês que determinava a liberdade de todos os índios escravizados pelos portugueses depois da partida da esquadra holandesa e devia ter sabido da libertação dos índios, que em Recife, permaneciam como escravos dos portugueses e que foram libertos por ordem do governo holandês em 1638.

Tais fatos explicam sua confiança na disposição holandesa quanto a liberdade indígena.

Relembra o episódio da baía da Traição, onde os índios, que haviam auxiliado a frota holandesa em fuga da Bahia, foram massacrados pelos portugueses.

Pedro Poty diz que esse é o comportamento padrão português e que após apossarem-se do país, todos os índios, tanto os que foram seus aliados, quanto todos os demais serão escravizados.

Neste ponto Poty parece certo: Schaljwik (2007), afirma que mesmo tendo os índios incluídos no perdão geral concedido na rendição, foram depois exterminados por expedições punitivas portuguesas, conhecidas como a guerra dos bárbaros, voltada segundo o autor para extirpar os remanescentes calvinistas entre os índios tapuias e brasilianos espalhados pelos sertões.

Passando a ofensiva, Poty faz então o pedido para que Felipe Camarão passe para o lado dos holandeses.

Aqui ele apela para a religião cristã, afirma ser melhor cristão que Camarão por não contaminar sua religião com a idolatria.

Poty completa ainda que sendo um bom cristão não se pode lutar ao lado dos portugueses por serem traiçoeiros e perjuros. A religião protestante fincou raízes profundas entre os índios brasilianos, Schalkjiwk (2007) relata que na Ibiapaba, após a expulsão dos holandeses, os padres relatavam que para os índios da região, os quais muitos haviam feito parte dos aldeamentos da Igreja reformada, a Igreja católica era uma igreja de moanga,uma igreja falsa e que “muitos deles eram tão calvinistas e luteranos como se houvesse nascido na Inglaterra ou Alemanha”.  

 

Vainfas (2009:160) também fala sobre os índios da Ibiapaba:

Anos mais tarde, ninguém menos do que padre Antônio Vieira ficaria estarrecido ao defrontar-se com índios tabajaras que, com a derrota holandesa, se haviam refugiado na serra de Ibiapaba, no Ceará. Ao constatar que os índios escarneciam das liturgias católicas, desprezavam a Virgem Maria e recusavam os sacramentos, a exemplo da confissão, Vieira não teve dúvida em dizer que aquele lugar era uma “Genebra dos sertões”.

 

Estes índios foram alvo de intenso trabalho missionário para que retornassem a Igreja católica, trabalho realizado pelos jesuítas estabelecidos nas missões da Ibiapaba.

Ainda de acordo com Schalkjiwk (2007), os poucos tapuias convertidos a fé reformada foram massacrados pelos portugueses na guerra dos bárbaros.

Educado na Holanda, faz questão de frisar para Felipe, que viveu na Holanda, podendo o mesmo concluir que Poty conhece a situação dos holandeses, passando a exaltar a sua força militar e dizendo que aguardavam uma grande frota de socorro aos holandeses que devia estar se aproximando de Pernambuco.

Nas palavras de Poty: “deveis reconhecer que o mar domina o Brasil.”

Poty demonstra conhecimento do que se passa no campo diplomático europeu, em que a Holanda contribuiu com sua frota para a manutenção de D. João de Bragança no trono português.

E se para manter a coroa teve que recorrer ao auxilio dos holandeses como poderia ter força para retomar as possessões na América e nas Índias?

Após discorrer sobre as recentes batalhas entre as duas forças beligerantes, ele torna a convidar Felipe a vir para seu lado e rispidamente diz que já na receberá mais cartas dele sobre o assunto de abandonar os holandeses.

Terminando a carta prometendo que seus encontros serão em campo de batalha.

A carta está datada de 31 de outubro de 1645. A carta seguinte de Felipe Camarão já não está mais dirigida a Poty, mas aos demais chefes indígenas aliados dos holandeses.

Nela o índio católico afirma não querer mais reconhecer a Poty “por este ter se tornado herege” (SOUTOMAIOR 1912).

A religião do conquistador europeu se impõe aos indígenas desfazendo mesmo as relações de parentesco.

 

CONCLUINDO.

Combatentes fervorosos os dois faleceram antes do fim da guerra de restauração.

Felipe Camarão faleceu em 1648 após a primeira batalha de Guararapes.

Em 1649, na segunda batalha dos Guararapes, Pedro Poty cairia prisioneiro dos portugueses. Schalkwijk (2004) relata que ele foi atirado em um poço de onde era retirado para que os padres tentassem fazê-lo abjurar da sua fé.

Seis meses depois ele foi enviado para o Santo Ofício em Lisboa, onde seria julgado por heresia, mas faleceria durante a viagem.

Longe de ser um caso isolado, Poty e seu martírio pela fé calvinista foi mais um dos casos frequentes naquela luta.

 

A devoção de Poty e de outros índios aos holandeses e a Fé reformada foi muito comum no Brasil e completa:

A guerra da restauração, sem dúvida, aproximou ainda mais os índios dos holandeses, e não é para menos que um dos motivos da persistência flamenga, encurralados durante nove anos, tenha sido o pacto com os brasilianos (SCHALKWIJK 2007:133).

Em 1654 quando os holandeses se retiraram do Brasil, a Igreja Reformada também chegou ao fim.

Durante anos os índios que auxiliaram os holandeses na luta pela posse da terra seriam ainda caçados, mortos e escravizados pelos portugueses, que não perdoavam o que eles consideravam uma traição.

Antonio Paraopaba, último regedor dos brasilianos holandeses, tentou, após a rendição dos holandeses, que estes enviassem auxilio a estes índios, no entanto não obteve sucesso apesar de ter enviado aos Estados Gerais duas representações pedindo o socorro holandês aos brasilianos, Paraupaba faleceu em 1656, nos Países Baixos, um ano antes de seu segundo requerimento ser lido nos Estados Gerais (Hulsman 2006).

Ainda de acordo com Hulsman (2006) a esposa dele recebeu da Companhia, pelos serviços prestados por seu esposo a soma de 50 florins.

As sementes de outra fé, diferente do catolicismo, foram arrancadas pela intolerância religiosa das autoridades portuguesas, pela pregação dos jesuítas e pelo extermínio dos indígenas.

 

PARA SABER MAIS SOBRE O ASSUNTO.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Com quantos escravos se constrói um país? Revista de História 10/12/2008. Disponível em http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/com-quantos-escravos-se-constroi-um-pais. Acessado em 18/05/2012.

CHINCANGANA-BAYONA, Yobenj Aucardo. Os tupis e Tapuias de Eckhout: o declínio da imagem renascentista do índio. Revista Varia História, vol. 24, nº 40: p.591-612, Belo Horizonte, jul/dez 2008. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/vh/v24n40/16.pdf. Acessado em 18/05/2012.

HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª edição. Companhia das Letras. São Paulo. 1995.

HULSMAN, Lodewijk. Índios do Brasil na República dos Países Baixos: As representações de Antônio Paraupaba para os Estados Gerais em 1654  e 1656.  Lodewijk Hulsman / Revista de História 154 (1º - 2006), 37-69. Disponível em http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/rh/n154/a04n154.pdf. Acessado em 20/05/2012


SANTOS, Thiago Cavalcante dos. Os Negros no Brasil Holandês. Revista Diálogos & Saberes, Mandaguari, v. 6, n. 1, p. 89-98, 2010. Disponível em http://seer.fafiman.br/index.php/dialogosesaberes/article/view/125/45. Acessado em 20/05/2012.

SCHALKWIJK, Frans Leonard. Índios protestantes no Brasil Holandês. História Viva. Nº 04. Ed. Duetto. São Paulo. 2004. Disponível em http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/indios_protestantes_no_brasil_holandes.html. Acessado em 17/05/2012

SCHALKWIJK, Frans Leonard. Índios evangélicos no Brasil Holandês. In Viver e Morrer no Brasil Holandês. Org. Marcos Galindo. Fundaj, Ed. Massangana. Recife. 2007.

SOUTOMAIOR, Pedro. Dois índios notáveis e parentes próximos. Revista do Instituto Histórico do Ceará. Fortaleza, 1912. Dísponivel em http://www.institutodoceara.org.br/aspx/index.php?option=com_booklibrary&task=view&id=466&catid=573&Itemid=72. Acessado em 07/05/2012

VAINFAS, Ronaldo. O Plano para o Bom Governo dos Índios: um jesuíta a serviço da evangelização calvinista no Brasil holandês. Clio - Série Revista de Pesquisa Histórica - N. 27-2, Recife. 2009. Disponível em http://www.ufpe.br/revistaclio/index.php/revista/article/view/10. Acessado em 17/05/2012

 

 

TEXTO:

Wagner Pires da Silva.
Administrador pela Faculdade Farias Brito.
Graduando em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).


André Theóphilo Lima.
Graduando em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).


José Ribamar Ferreira Junior.
Graduando em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).

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