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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Reflexões acerca da história social presente na ironia sagaz machadiana em pai contra mãe.



Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume jul., Série 03/07, 2014, p.01-05.




Profª. Janete de Jesus Neves.

Licenciada em Pedagogia pela Faculdade de Ciência e Tecnologia Albert Einstein - FACTAE.
Especialista em Estudos Linguísticos e Literários pela Universidade Federal da Bahia – UFBA.
Professora das séries iniciais na rede pública de ensino em Cruz das Almas/ BA.
 
 
O presente artigo trata-se de análise literária realizada no âmbito da disciplina Literatura Brasileira do curso de pós-graduação em Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Federal da Bahia (UFBA).  Este trabalho teve como principal objetivo avaliar a partir do contexto histórico representado a ironia machadiana presente no conto “Pai contra mãe”.
Para tanto, foram retomados alguns trechos do conto citado, os quais são simultaneamente acompanhados de reflexões sobre a temática abordada, neste caso, “a escravidão”.     

Reflexões.
Uma crítica sumária a sociedade da época, em que se entendia poder abortar qualquer desonra e/ou pecado de escravos, através do mando e desmando, assim como, do uso irrestrito de “trancas e cadeados”, o conto machadiano “Pai contra Mãe”, tem como personagem central Cândido Neves (ou Candinho, conforme nos aponta o narrador – notadamente em terceira pessoa).
Candinho, homem de propósitos medíocres, lança mão de vários ofícios até se achar enredado numa vida de “Capitão do mato”, em tempos de poucos escravos fujões.
De forma elucidativa e ao mesmo tempo irônica, Machado inicia o conto discorrendo sobre a escravidão e suas mazelas, assim como dos ofícios e aparelhos que ela (a escravidão) levou consigo.
Texto forte e notório por representar fidedignamente o Realismo, e caracterizar o “fenômeno abominável” do período escravista no Brasil antes de sua total extinção (abolição), a ironia sagaz machadiana se apresenta explicitamente no texto, como se pode verificar neste trecho, onde o narrador discorre sobre a máscara utilizada nos escravos para impedir que fizessem uso de bebidas,
 
“Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel...”.
Observa-se que Machado de Assis apresenta tal fato de forma simplista, que chega em certos momentos, a apresentar-se como “algo normal”.
Apesar deste conto ter sido escrito mais ou menos uma década após a abolição, a visão que o autor coloca na superfície do texto sobre o quanto miseravelmente vale uma vida humana é notado em vários momentos, como se percebe no seguinte passagem:
“Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse...”.
Em outros momentos parece haver certo humor satírico e estereotipado ao apontar acontecimentos ocorridos, como é o caso dos anúncios de escravos fujões presentes nos jornais:
“Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara no ombro, e na ponta uma trouxa...”.
Uma passagem que, não fosse o histórico massacrante que, permeia a realidade da época retratada, poderia fazer rir o leitor mais sereno, ao imaginar a cena.
 
Candinho, caçador de escravos, apaixona-se pela moça Clara, menina órfã, que convive com a tia Mônica e que assim como o rapaz, não tem lá muitos propósitos de vida, apesar de subtender-se no texto, ambições em melhorar, de ambas as partes.
Nesse trecho do conto, o autor tende um pouco ao romantismo, dado aos amantes, ponto que pode ser notado em:
“O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu Cândido Neves, sentiu que era este o possível marido, o marido verdadeiro e único”.
 
 
Casam-se, com honras e festas e vão morar com a tia Mônica numa casa pobre de aluguel.
Se analisarmos mais detidamente, veremos que a bem da verdade, o amor ora presente no texto através da figura do casal, cai por terra ao se confrontarem com a miséria que os espreita ao encontrar-se Clara grávida e, Cândido com seu ofício ameaçado, por conta dos poucos anúncios de escravos fugidos e da concorrência devido ao desemprego crescente.
O fato de Candinho ser um caçador de “escravos urbanos” dificultou em demasia seu ofício.
O desespero assolou, mal tinham o que comer, os alugueis foram se acumulando e, como não poderia deixar de ser (como na maioria das histórias) a “bruxa má” aqui, ora denominada tia Mônica (que não foi má em todos os momentos, talvez um tanto capitalista), traz a tona uma possibilidade de “conforto” para todos - levar o recém-nascido à Roda dos enjeitados.
Vejamos novamente aí, a sagacidade contundentemente machadiana.
Oras, se algo não me cai bem, livro-me dele (como de uma coisa qualquer)! Pergunta-se: Quanto vale uma vida?
Talvez tenha se perguntado Machado, somos meros objetos? Coisas que descartamos em qualquer lata de lixo de uma esquina de rua? E o leitor, o que pensará de tudo isso?
Inapto ao confronto, conforme o narrador nos revela no decorrer do conto, Cândido procura solução para o problema apresentado.
Nada solucionado nasce seu filho. Um menino!
A desesperança já impera em suas atitudes, se nega a entregar seu filho, mas não ver outro remédio.
Vê o anúncio de uma negra fujona, pela qual se dar por recompensa cem mil réis de gratificação, dinheiro que resolveria seus problemas, não necessitando assim, entregar seu filho como enjeitado.
Procura e não acha a negra. Deve entregar o pequeno.
O drama da pessoa humana, carne e sangue se se convergem  em migalhas de uma linhagem fraca de personalidade.
A vida de um, depende da vida do outro. Para que eu exista você tem que sumir, e assim por adiante.
Com o filho nos braços prestes a entregá-lo (e por sorte dele e azar dela), deu com a negra em uma rua escura. Consegue capturá-la com seu laço.
Arminda, assim se chamava a negra fujona, implora por caridade. É explicito o seu desespero no trecho a seguir,
“Estou grávida meu senhor! [...] Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte; eu serei sua escrava”.
A ironia apontada nesta passagem, põe em cheque o amor do pai pelo seu filho recém-nascido, e o da futura mãe pela sua criança ainda não nascida.
Essa é a relação que dá nome ao conto, a relação que muito possivelmente confunde a muitos leitores.
Agora pensemos! Se houvesse outro final para este conto, senão o dado a ele por Machado, ousaria Cândido dar seu filho como enjeitado e livrar àquela mulher do horror dos açoites que possivelmente a esperavam?
A ela e, futuramente ao seu filho? É um questionamento que Machado propõe implicitamente ao leitor, a título de instigar o confronto de ideias.
Candinho entrega a escrava ao seu dono, recebe os cem mil réis em duas notas de quinhentos e as guarda, e ali mesmo na sala do seu senhor, Arminda aborta.
O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as consequências do desastre.
Machado, apesar de resguardar a delicadeza do amor paterno, pois Cândido corre a Rua da Ajuda para buscar seu filho na farmácia, onde o havia deixado para caçar a negra Arminda, aponta a naturalidade com a qual nosso personagem central recebe o aborto da negra e a ainda denomina a cena, como um “espetáculo”, como se o episódio não passasse apenas de um passatempo burlesco.
“O pai recebeu o filho com a mesma fúria com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria diversa, naturalmente, fúria de amor”.
Uma vida, por outra vida! Sagazmente, através da narrativa melindrosa, a lei da selva se justifica, o mais forte vence.
Quem poderá condenar os “Candinhos” por amarem tanto a seus pequenos filhos e, fazerem qualquer coisa por eles?
Quem será pelas “Armindas” que veem seus filhos tirados de seus braços? Quem é réu e quem é juiz? Machado deixa a nosso critério decidir.
“Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas, verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do aborto”.
 
Concluindo.
Não se tem aqui a pretensão de realizar resumos ou de estabelecer premissas quanto ao que levou Machado a escrever tal conto e deixar essa lacuna quanto ao julgamento do personagem, porém o que mais chama atenção nestes escritos é a aproximação e ao mesmo tempo o afastamento que a narrativa machadiana apresenta ao leitor, quando nas entrelinhas do texto ele nos pergunta sobre qual seria nossa atitude diante de tal situação.
Ele nos convida a atirar a primeira pedra, se formos capazes de fazê-lo.
Se nos detivermos um pouco mais sobre o texto veremos aí, o nosso personagem central descrito sagazmente, como algoz e como vítima de um mesmo sistema.
A frieza, característica capitalista e a esperança nitidamente resultante do amor marital e, antes de tudo paternal, são pontas opostas de um mesmo cordão, o que torna tudo tão dicotômico e nos aproxima mais do personagem.
Pois não é a vida uma grande dicotomia? Não vivemos entre altos e baixos? Entre o bem e o mal? Quem ousaria em sã consciência atirar essa pedra que pende pesada, em nossas mãos? Ou melhor, que ousaria não fazê-lo?
O tema escravidão por sua vez, traz a tona, as amarras com as quais até hoje convivemos.
A escravidão, como instituição social quase deflagrada na época representada, ainda assim, é associada aos cadeados e trancas de uma vida sem liberdade.
Então, Machado se utiliza de um jogo retórico e, contradizendo a falta de liberdade associada  à escravidão, tão detalhadamente caracterizada no início do conto aqui em mote, dá “liberdade” ao leitor, através de sua narrativa, de julgar a seu bel prazer o personagem.
 
Para saber mais sobre o assunto.
ASSIS, M. de. Pai contra mãe. In: . Contos: uma antologia. Seleção, introdução e notas John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v.2, p.483-94.
PESAVENTO, Sandra Jutahy. História e Literatura: uma velha-nova história. In: Nuevo Mundo Mundos Nuevos. História Cultural do Brasil. (Debates). Jan/2006.
QUANTO vale ou é por quilo? Direção de Sérgio Bianchi, 2005. 108 min, color., son. DVD.

 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

RESENHA: COUTO, Ronaldo. Os jesuítas na América portuguesa [livro eletrônico]: a expansão da fé e a consolidação econômica no Rio de Janeiro: Séc. XVI e XVII / Ronaldo Couto. -- Rio de Janeiro, RJ: Ed. do Autor, 2013.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume jul., Série 02/07, 2014, p.01-03.
 
 
Prof. Fábio Liberato de Faria Tavares.
Graduado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Mestrando em Educação Tecnológica pelo Centro Federal de Educação
Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG).




O autor já explicita que não se propõe a fazer uma história definitiva sobre o tema.
O livro se inicia nas origens do cristianismo, com destaque para a primeira figura missionária da religião, Paulo.

Paulo, por ter levado o cristianismo para várias localidades, teria sido uma inspiração para os empreendimentos posteriores.

A ligação Igreja-Estado começou no Império Romano.
Se por um lado era benéfica para a Igreja, por ter proteção e garantia de fiéis, muitas vezes ela foi submetida a interesses dos governantes.

As universidades que foram surgindo através da problematização e da sistematização do conhecimento passam a ser vistas como importantes instrumentos para capacitação e expansão da fé cristã.
A Cia. De Jesus se encaixa no quadro da Contra-Reforma. Ignácio de Loyola era de família nobre.

Feriu gravemente na perna em luta contra a França e ficou com sequela.
No período de recuperação foi se apaixonado pelo cristianismo lendo entre outros autores, Jacobus de Varagine.

Brigas foram comuns, para se decidir nas mãos de quem ficaria a administração da Cia.

O predomínio foi de itálicos.
Os inacianos sabiam como usar as lendas locais a seu favor. Faziam distorções para aproximá-las do cristianismo.

Um caso é o de Sumé.
Os únicos a quem os jesuítas deviam obediência era ao Papa.

No Brasil Colonial, por exemplo, os jesuítas aceitavam quer um índio adulto que não soubesse a língua portuguesa confessasse para uma criança e esta repassaria ao padre.
Mesmo com as críticas, continuaram com a prática.

Eles proibiam também que bispos entrassem nos aldeamentos para não atrapalharem a catequização.
Acolhiam na ordem os considerados “infames” (libertos, desterrados, cristão novos, excomungados, etc.).

Apesar de tentar se colocar como uma instituição mundial, os jesuítas esbarravam nas rivalidades continentais.
Um exemplo foi o atrito entre portugueses e espanhóis durante a União Ibérica.

A briga de nacionalidades ficou clara nas “guerras Guaraníticas” entre 1754 e 1756 quando os Sete Povos das Missões se rebelaram quando a região saiu do domínio espanhol e foi para mãos portuguesas.
Os jesuítas espanhóis incentivaram a luta. Pela lógica, só estaria havendo a troca de jesuítas espanhóis para portugueses.

Os jesuítas contribuíram para a educação não só na América como na Europa.
René Descartes estudou em colégio da ordem na França.

A universidade de Évora teve sua origem em colégio jesuíta.

Os jesuítas não condenavam os conhecimentos da medicina, contrariando a maioria dos religiosos da época.
Padre José de Anchieta teria tido certo conhecimento de medicina.

Os tratamentos que ele ministrou ajudou na conquista de novos fiéis, pois acabava desacreditando os pajés.
Em Goa eles abriram cursos na área médica que acabaram dando origem ao curso em 1842.

Em Goa e Pequim, os jesuítas driblaram as proibições do Santo Ofício e compravam ou publicavam livros proibidos.
Entretanto na América Portuguesa as restrições eram fortes.

Na América Espanhola havia censura, mas em menor grau, além disso, poderia haver impressão de livros.
Os jesuítas forma importantes também não só por levarem a fé católica, mas também ajudaram na colonização.

Muitas vezes agiram como negociadores de apoio indígena, seja para ajudarem os portugueses as submeterem povos hostis, seja para expulsar estrangeiros, como os franceses na baía de Guanabara.
Mas também tiveram ganhos com isso. Conseguiram ampliar seu poderio econômico e terras como no RJ (regiões do Engenho Novo, Velho, Tijuca, entre outras).

Mais de 1000 habitantes da América Portuguesa ajudaram na reconquista de Luanda.
Era de suma importância para os fazendeiros (principalmente fluminenses) a manutenção do tráfico.

E para os jesuítas também, pois assim aliviaria a escravidão indígena.

Os jesuítas faziam uso intenso de suas terras.
Plantavam cana de açúcar, hortaliças, criavam gado entre outras atividades lucrativas.

Eles até emprestavam a juros.
Eles não dependiam muito de doações, viraram atores relevantes no comércio da colônia.

Tinham o costume de “bancarem os coitados”, para conseguirem benesses do governo lusitano.
Graças aos pedidos, conseguiam terras, esmolas, e alimentos da Coroa.

A bem sucedida cristianização dos indígenas fez com que a ordem aumentasse seu poder econômico e político.

A obra é uma leitura valiosa para os que querem iniciar os conhecimentos sobre a participação dos jesuítas na história brasileira e entender o porquê de eles terem deixado marcas de seus trabalhos até a atualidade.

 
Para saber mais sobre o assunto.
COUTO, Ronaldo. Os jesuítas na América portuguesa [livro eletrônico]: a expansão da fé e a consolidação econômica no Rio de Janeiro: Séc. XVI e XVII / Ronaldo Couto. -- Rio de Janeiro, RJ: Ed. do Autor, 2013.



terça-feira, 1 de julho de 2014

A metafísica de Aristóteles e a ciência do ser.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 5, Volume jul., Série 01/07, 2014, p.01-08.



Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em história social - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em história - CEUCLAR.
Licenciado em filosofia - FE/USP.
Bacharel em filosofia - FFLCH/USP.
 
 
 
Aristóteles foi um pensador polivalente, inventou a análise do silogismo, um método destinado a permitir que um discurso ou discussão possa ser determinado rigorosamente como válido e verdadeiro.
 
Não obstante haver transitado por diversos segmentos da filosofia, desenvolveu de forma rigorosa o que chamou de filosofia primeira, hoje conhecida como metafisica.
Ao propor uma nova cosmologia, acabou fundando a teologia, a moral e a politica, no sentido moderno, séculos antes que se quer fossem vislumbradas como esferas do conhecimento humano científico.
Isto porque foram suas concepções que despertaram na modernidade os pensadores a elaborar novos conceitos a partir do viés aristotélico.
Alguns defendem a tese que a influencia de Aristóteles se estendeu até mesmo a criação da psicologia no período contemporâneo, tamanho o impacto de suas ideias na construção do conhecimento humano.
A metafísica aristotélica é antes de tudo uma ciência do ser como ser, dos princípios e das causas e dos atributos essenciais do ser.
É neste sentido que Aristóteles pretendeu estabelecer uma filosofia primeira, sustentando todo o conhecimento humano à medida que estudo das essências, portanto de natureza ontológica.
No entanto, ao construir a metafisica terminou por desarticular outras propostas estabelecidas muito antes de sua filosofia primeira.
 
Aristóteles, o Liceu e a metafísica.
Enquanto os sucessores de Platão desenvolviam as teses do mestre na célebre Academia, Aristóteles fundou em Atenas uma escola rival em 355 a.C: o Liceu, também chamado Escola Peripatética (termo grego que significa aqueles que passeiam, denotando a ideia de itinerante).
O Liceu foi uma escola regular com aulas pela manhã e tarde, onde o professor educava a elite de Atenas através de discursos esotéricos, isto é, direcionados a um público interno mais restrito, com conhecimentos mais avançados sobre lógica, física, metafísica.
As aulas da tarde destinavam-se a um público mais amplo e ainda não iniciado nos segmentos a pouco mencionados, abordando temas mais acessíveis, como retórica, política e literatura.
Não era um espaço físico propriamente, pois Aristóteles transmitia seus conhecimentos dando passeios com os alunos, em um local que hoje fica próximo ao atual Parlamento grego, uma área de 3,6 hectares.
Dentro deste contexto, poucos sabem, mas as obras de Aristóteles constituem simplesmente notas de cursos ministrados por ele, algumas tidas como do próprio professor, mas outras reconhecidamente apenas anotações de alunos que assistiram às suas aulas.
Algumas versões dos textos aristotélicos que chegaram até nós não passam de anotações de um professor para ser desenvolvidas oralmente no Liceu, as quais possuem acréscimos a partir das discussões com alunos.
Outras versões são anotações de alunos a partir de sua própria percepção dos ensinamentos do professor com acréscimos que denotam, provavelmente, reflexões pessoais sobre a aula.
O que, por si só, constitui um desafio para o historiador da filosofia, visto que é difícil afirmar que tudo que consta nos textos tidos como sendo de autoria de Aristóteles é realmente de autoria dele.
Sendo notas de aulas, muitos especialistas preferem considerar as obras aristotélicas como produções coletivas.
Uma segunda dificuldade reside no fato de, em se tratando de apontamentos de aulas desenvolvidas oralmente, compreender integralmente o significado conceitual presente nos textos, sem deixar escapar a real intenção do autor em meio a uma escrita em muitos aspectos enxuta e obscura.
Lembremos que até mesmo o termo metafísica não foi uma criação de Aristóteles, mas uma palavra acrescentada posteriormente.
Foi um bibliotecário, no alvorecer do inicio da era cristã, que juntou textos independentes, nomeados de metafisica, para compor um único livro.
No ano 50 a.C, Andrônico de Rodes, ao classificar as obras de Aristóteles, cunhou a palavra, uniu o termo “meta” (depois de, após, acima de) com “física” (explicação racional da natureza).
A metafísica passou a significar aquilo que está acima das explicações racionais da natureza, o que Aristóteles chamava de filosofia primeira, o estudo do ser enquanto ser.
Algo que depois seria chamado ontologia, a tentativa de entendimento das coisas por trás das aparências, além de sua concretude.
Não bastassem estes dois grandes problemas, ainda existe uma terceira dificuldade de interpretação das obras de Aristóteles: diversas cópias de versões das obras dele, que poderiam servir de parâmetro de comparação foram destruídas no período cristão.
Vários textos só sobreviveram a partir de traduções para o árabe, possibilitando o resgate posterior.
Outros sobreviveram desde a antiguidade através da transmissão via manuscritos medievais coletados no Corpus Aristotelicum, tendo sofrido possiveis alterações para se adequar a teologia católica.
Acredita-se que a maior parte das obras de Aristóteles tenha se perdido e apenas um terço de seus trabalhos tenham sobrevivido, mesmo assim com consideraveis acrecimos aos originais.
 
O nascimento das discussões metafísicas.
A despeito de Aristóteles ser considerado o pai da metafísica, embora não tenha se quer sido o criador do termo, como objeto de discussão especulativa, a dita metafísica nasceu quando os gregos começaram a buscar explicações racionais para a origem do mundo ordenado, o cosmos.
A partir da cosmologia, a busca pelo principio ordenador da natureza, a força que provocava mudanças, chamada physis; iniciaram-se intensos debates para tentar explicar racionalmente o mundo, conduzindo a tentativa de estudar também aquilo que não era propriamente tangível e observável.
Inicialmente, o que viria a ser conhecido como metafísica se confundia com o que depois seria chamado de teoria do conhecimento, indagando sobre o que é a realidade, assim como esta realidade poderia ser conhecida.
O que originou a busca medieval pelo ser e o ente, sendo ambos de difícil definição, motivo de controvérsias entre os filósofos ao longo da história, visto possuir uma estrema abstração conceitual, confundindo-se em muitos casos.
No entanto, em resumo, o ser poderia ser definido como essência de tudo que existe, transpondo um novo problema, justamente definir o que é essência.
Já o ente seria os atributos do ser, incluindo o que não é concreto, trazendo consigo a questão da impossibilidade de definição da essência de cada objeto.
A busca pelo ente, a essência das coisas, antes de Aristóteles, já tinha sido objeto dos trabalhos de Parmênides.
Para ele, o devir, as mudanças, tornavam o pensar diferente do percebido, já que o percebido era pura aparência, enquanto o pensar expressaria o que é real.
Dentro desta concepção, aquilo que se pensa é real e não o que parece concreto e é fornecido pelos sentidos.
Anacronicamente, o imaginado seria real e não que percebemos.
Uma ideia também presente na filosofia de Platão, com sua distinção entre mundo sensível e inteligível, que seria retomada por Aristóteles e transformada de especulação em conhecimento concreto estruturado através da lógica.

Aristóteles e a paternidade da metafísica.
Muitos autores defendem a ideia de que Aristóteles deve ser considerado o pai da metafísica porque esta começa de fato a se separar da teoria do conhecimento apenas no momento em que ele compõe a sua filosofia primeira.
No entanto, a metafísica aristotélica está espalhada por todas as suas obra, mesclada com a ética, politica e lógica, carecendo de uma exposição mais detalhada.
É sem dúvida uma modificação da teoria das ideias de seu antigo professor Platão, uma tentativa de distinguir o universal e uma forma particular, estabelecendo uma distinção entre três substâncias diferentes que formariam a realidade cada uma com sua essência.
Aristóteles pretendia investigar não qualquer ser, mas o ser enquanto ser geral, o que pode ser afirmado sobre qualquer coisa que existe por causa de sua existência e não por algum atributo.
Diferente de seus antecessores buscava estudar o inteiro, o geral e não apenas as partes, abordando os diferentes tipos de causas, forma e matéria, a existência dos objetos matemáticos e de Deus, este ultimo entendido em um sentido amplo.
Para ele, à essência não estaria no intelecto, mas nas coisas físicas, transformando o intangível em tangível através de operações intelectuais que visavam entender a essência que estaria presente concretamente sem ser compreendida.
Existiria uma entidade superior a tudo e que, ao mesmo tempo, só seria concreta em um mundo separado do nosso, a qual Aristóteles chamou de ser divino.
O ser divino seria a realidade suprema e primeira, que originou a essência de todas as coisas e que, por isto mesmo, faz com que tudo queira imitá-lo para tentar se aproximar de sua perfeição.
Exatamente por isto, o ser divino seria o primeiro motor, o principio que move a realidade, transforma tudo, preservando sua essência.
Para Aristóteles, as coisas seriam compostas de matéria, forma e substância.
A matéria seria o elemento material; já a forma seria sua individualidade, suas particularidades.
A substância designaria características gerais, o que existe de comum entre coisas distintas.
Acontece que, para Aristóteles, as coisas possuem predicados que definem como podemos percebê-las, ou seja, características que decorrem de sua essência ou de acidentes.
Nesta acepção, a essência é o que a coisa é originalmente.
O que pode mudar por acidente, através de alterações da essência, está contido no ato, nas consequências que surgem.
Assim, a árvore seria o ato da semente e, por sua vez, a potência da semente seria poder tornar-se árvore.
O conceito de potência designa aquilo contido em matéria, a possibilidade de transformação, sua potencialidade.
Portanto, ao transformar o abstrato em concreto, Aristóteles assumiu para si a paternidade sobre a metafísica antes mesmo que fosse criada, cunhando conceitos que influenciaram fortemente os dogmas cristãos e o surgimento da teologia como ciência investigativa daquilo que não é tangível.
 
A filosofia primeira.
Para Aristóteles, a metafísica não seria uma filosofia que viria depois de todas as outras, tal como pensado contemporaneamente, mas uma filosofia primeira e, portanto, anterior a todas as outras.
A sua metafísica é a ciência do ser como ser, por isto, tudo é dito ser; ou ainda dos princípios e das causas do ser e dos seus atributos essenciais.
Abrangendo o ser imóvel e incorpóreo, princípio dos movimentos e das formas do mundo; bem como do mundo mutável e material, em seus aspectos universais e necessários.
Dentro deste contexto, pode-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da filosofia primeira: potência e ato, matéria e forma, particular e universal, movido e motor.
O antagonismo entre potência e ato, assim como entre movido e motor, terminam abraçando todo o ser.
Ao passo que matéria e forma, particular e universal, estariam presentes em todo o ser.
A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica.
Potência significa possibilidade, capacidade de ser e não ser atual.
Ato significa realidade, perfeição, ser efetivo.
Todo ser que não seja ser perfeitíssimo é, portanto, uma síntese de potência e ato, em diversas proporções, conforme o grau de perfeição e de realidade dos vários seres.
Segundo Aristóteles, um ser desenvolve-se, aperfeiçoa-se, passando da potência ao ato.
A passagem seria a atualização de uma possibilidade, de uma potencialidade anterior.
Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada e desenvolvida na matéria e forma, que representam a potência e o ato no mundo, a natureza tangível em que vivemos.
 
Aristóteles conciliando e transformando seus antecessores.
Aristóteles une o vir a ser de Heráclito e o ser de Parmênides em uma síntese conclusiva, já iniciada e aperfeiçoada por Demócrito e Platão.
A mudança, que é intuitiva, pressupõe uma realidade imutável, que é de duas espécies.
Primeiro de substrato comum, elemento imutável da mudança, em que a mudança se realiza.
As determinações que se realizam neste substrato é a essência, a natureza que o ser assume.
A potência assume, na metafísica aristotélica, várias formas, constituindo a imperfeição.
A atualidade, por sua vez, é realizadora da matéria buscando alcançar a perfeição.
A síntese da matéria e da forma constitui a substância, substrato imutável, em que acontecem os acidentes.
A mudança, portanto, consistiria ou na sucessão de várias formas idênticas na matéria, ou na sucessão de várias qualidades acidentais na mesma essência.
O que seria forma concretizada na matéria, que constituiria precisamente a substância.
A matéria sem forma, ou pura matéria, chamada de matéria prima, seria um mero possível, não existindo por si, sendo um absoluto indeterminado, em que a forma introduziria as determinações.
No entanto, devemos notar que a matéria aristotélica não é o puro ser de Platão, mero princípio de decadência, pois é condição indispensável para concretizar a forma, ingrediente necessário para a existência da realidade material, causa de todos os seres reais.
Não existiria forma sem matéria, ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria.
Por sua vez, a forma seria princípio de ordem e finalidade racional.
Diversamente da ideia platônica, a forma aristotélica não é separada da matéria, é antes imanente e operante nela.
Ao contrário, a forma aristotélica é universal, imutável e eterna.
 
Forma e Matéria: do individuo a Deus.
Para Aristóteles, os elementos constitutivos da realidade física seriam compostos por forma e matéria.
A realidade, porém, seria composta de indivíduos, substâncias compostas da síntese da matéria e forma.
Surge a partir desta combinação um terceiro princípio, a causa eficiente, a qual explica a realidade efetiva das coisas.
A causa eficiente tenta dar conta da síntese da forma e matéria, mas precisa do auxilio de uma quarta causa, a causa final, que dirige a causa eficiente para atualização da matéria mediante forma.
Aristóteles explica o individuo, a substância física, através da única realidade efetiva no mundo, a síntese da matéria e forma.
A essência, que é igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie, derivaria da forma, a individualidade pela qual toda substância é original e se diferencia, dependendo da matéria.
O individuo seria, portanto, potência realizada na matéria universal particularizada.
Neste sentido, Aristóteles estabelece uma critica o dualismo platônico, unindo mundo das ideias e mundo sensível.
Estabelecendo relações entre potência e ato, matéria e forma, a filosofia primeira faz surgir o movimento de mudança, o vir a ser, ao qual é submetido tudo que tem matéria e potência.
A mudança é a realização do possível, o que pode ser levado a efeito unicamente por um ser que já está em ato, que possui o que a coisa movida deve vir a ser, visto que o imperfeito não produz o perfeito.
Mesmo que um ser se mova a si mesmo, aquilo que é movido deve ser composto de um motor e de uma coisa movida.
O motor pode ser unicamente potência e matéria, fazendo surgir o vir a ser, uma das concepções mais fecundas da metafísica aristotélica, a doutrina do motor e da coisa movida.
Doutrina que culmina no motor primeiro, absolutamente imóvel, ato puro, isto é, Deus.
 
Concluindo.
A noção de ser foi expressa pelos pensadores gregos mediante a substantivação verbal to ón.
Ao tentar traduzir, os autores latinos clássicos notaram a dificuldade de tradução de um nome por meio de um verbo.
O que produziu no vocabulário medieval a diferença entre ente e ser.
Antes de Aristóteles, gregos como Parménides e Platão observaram que o ser geral não é mais elevado que outros gêneros.
A metafísica aristotélica concebeu o ser como a espécie de todas as espécies, transformando o conceito de ser em vir a ser, fazendo com que tudo seja dito ser, mesmo que seja para negar um determinado conceito.
Dentro deste contexto, existiriam três ordens de ser, cada um deles estudado por ciências distintas: física, matemática e metafísica.
Ordens que se dividem entre: os seres que possuem uma existência separada, mas sujeita a mudar; os seres que são imutáveis, mas só existem como aspecto separado da realidade concreta; e os seres que tanto possuem existência separada como imutável.
A metafísica seria o estudo do ser como ciência primeira, que é a origem de toda concepção de ser presente tanto na física como na matemática.
Brotou da concepção de ser na metafísica aristotélica vários conceitos ainda mais fecundos, originando, inclusive, a teologia.

Para saber mais sobre o assunto.
ARANHA, Maria Lucia Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.
 
ARISTÓTELES. Metafísica. Porto Alegre: Globo, 1969.
CHAUÍ, Marilena. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
LALANDE, André. Vocabulário técnico e crítico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, s.d.
MORA, José Ferrater. Dicionário de filosofia. Lisboa: Dom Quixote, s.d.
ROSS, D. Aristóteles. Lisboa: Dom Quixote, s.d.