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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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terça-feira, 2 de julho de 2013

Aboios do passado: História do inicio da pecuária no Brasil.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 4, Volume jul., Série 02/07, 2013, p.01-06.



Prof. Jairo de Lucena Gonçalves.
Graduado no curso de Historia da Universidade de Pernambuco.





Este artigo tem como finalidade explanar pontos importantes da trajetória histórica do vaqueiro nordestino, como sendo um dos personagens de grande importância no processo de colonização dos sertões[i]. Buscando descrever fatos que passam despercebidos quando se estuda a História do Brasil em Especial a do nordeste.

O aparecimento dos marrueiros[ii] nas terras brasílicas.
O marrueiro surgiu no Brasil em tempos coloniais na primeira metade do século do século XVI. Com a introdução dos primeiros rebanhos bovinos pela capitania de São Vicente, no entanto a atividade pecuarista teve maior sucesso na capitania de Pernambuco e posteriormente se espalhou para varias regiões do nordeste.
Goulart (1965) citando Gilberto Freire, onde este explana que a maioria do gado que habitavam o nordeste provia de cabo verde (outra colônia de Portugal) e de são Vicente, Freire não descarta que o donatário de Pernambuco Duarte Coelho teria trazido algumas cabeças de gado quando veio residir no Brasil em 1535.
Inicialmente a pecuária se deu nos arredores dos engenhos nas regiões litorâneas.
Esse fato foi possível porque o numero de animais não era tão grande, e fica de certa maneira fácil cuidar deles.
Porém, com o crescimento dos rebanhos e a falta de cercas para proteger as plantações os bois começaram a invadir os canaviais e os mandiocais causando uma grande desavença entre criadores e agricultores.
Esse problema só foi resolvido em 1701 com o decreto do rei D. Pedro II proibindo a criação de rebanhos próxima dos engenhos ou dos roçados de qualquer tipo, á distancia mínima que os animais podiam ser criados era de dez léguas de distancia (cerca de 60 km).
Esse fato se explica porque a pecuária era apenas uma atividade de apoio que tinha importância secundaria perante o governo português, a grande “menina dos olhos” destes era a cana da qual se fabricava o açúcar que gerava tanta lucratividade para a metrópole.
Como destaca Goulart citando Caio Prado Jr. (1965:50):

Acultura da cana não permitiu que a (pecuária) se desenvolvesse nas férteis e favoráveis terrenos da beira-mar. relegou-a para o interior mesmo quando este apresentava os maiores inconvenientes a vida humana e suas atividades, como se dá em particular no sertão do nordeste.

Porém não podemos ofuscar a importância dos rebanhos na manutenção dos aglomerados humanos, já que esses animais serviam de alimento tanto para as pessoas dos engenhos e vilas quanto para os escravos.
O boi era utilizado também para o transporte de cargas mais pesadas que não pudesse ser carregado pelos escravos ou pelos cavalos.
Sabe-se que para se produzir o açúcar era necessário uma grande queima de madeira por esse motivo as matas que circundavam os engenhos foram gradativamente sendo dizimada.
Cabendo aos homens que domesticavam os bois buscarem as madeiras em lugares mais longínquos, era também trabalho dos bois levarem o açúcar para os portos quando os engenhos se situavam afastados destes, (essa afirmação não quer dizer que os bois foram os únicos animais a serem utilizados para transportar os produtos pesados, pois os equinos e os muares também foram de grande valia e não podiam ficar sem seus créditos).


O cotidiano dos sertões.
Os marrueiros eram os próprios lusitanos de inicio, entre tanto com a decisão do real em afastar os rebanhos para os sertões ouve uma necessidade de ensinar aos indígenas aliados as técnicas de criação de bovinos, acredito que tenha sido coerente para os portugueses o auxílio dos índios, pois estes já tinham um conhecimento geográfico das regiões para onde iam os bois. Salientando que isso não que dizer que os lusitanos não foram para os sertões; os índios apenas davam um suporte para os europeus.
Se a vida nas vilas coloniais já eram desconfortáveis como seria a vida nos sertões?
Onde ainda não tinha sido feito nenhuma melhoramento de infra-estruturar. Como assinala Priore e Venâncio (2006: 70):

“[...] A vida aí não era fácil. O cotidiano desenrolava-se sob sol causticante e solo árido [...], a falta d’água era tanta que, frequentemente muitos não tinham o que beber. Junto com a seca vinham as crises de abastecimento. Quase nada florescia, nem crescia. A regularidade das estiagens era apavorante.”

Os marrueiros levavam uma vida seminômade, pois precisavam se deslocar todas as vezes que o gado buscava novas pastagens, provavelmente eles viviam em cabanas improvisadas com peles ou tecidos.
Como defende Darcy Ribeiro (2006), o boi foi uma mercadoria que se conduziu por se mesma, o vaqueiro e a apenas seguindo seus rastros.
Outro fato a ser observado no dia-a-dia doa marrueiros era o grande risco de morte que estes corriam, por diversos motivos não apenas no oficio do seu trabalho mais também por causa dos ladrões que vinham das vilas para roubarem o gado; é de se imaginar que era muito fácil roubar uma rês nas condições que estas viviam, longe dos aglomerados humanos, o gado se espalhava na imensidão da caatinga facilitando a pratica do furto, já que os vaqueiros não podiam observar todo o rebanho simultaneamente.
As feras das terras praticamente intocável pelos homens brancos igualmente proporcionavam muitos perigos para os marrueiros, pois eles deveriam ter um cuidado redobrado com as crias novas que fossem aparecendo no rebanho, já que estes eram presas fáceis para os carnívoros principalmente a onça parda.
Mas nenhum dos conflitos foi tão grande e sangrento quanto dos marrueiros contra os indígenas, verdadeiras guerras foram travadas nos sertões; já que a expansão do território era algo vital para o crescimento dos rebanhos.

Desde o século XVI, o movimento de ocupação do sertão norte do Brasil confrontou o colonizador com povos indígenas que habitavam estas regiões destinadas a criação do gado. [...] a acentuação do movimento de expansão da pecuária, conflitos antes limitados tornaram-se cada vez mais frequentes, de modo que em breve uma situação de conflagração geral surgiria as vistas das autoridades coloniais, sendo denominada “Guerra dos Bárbaros”. (Puntoni,apud, Priore e Venâncio,2006, p71).

Muitas tribos indígenas foram “deserdadas” da terra que era deles; onde estes enterravam seus entes queridos e cultuavam seus deuses.
Entre tanto não podemos imaginar que os índios não lutaram por eu território; pois os índios atacavam os rebanhos matando desde reses a vaqueiros e cavalos, é de se imaginar como os aborígines brasileiros tinham hábitos antropomorfos que muitos dos marrueiros tenham virado alimento em um cerimonial. 

Goulart (1965: 27) relata sobre essa questão:

Mas em 1687, os Janduís à frente, ecôa o grito de guerra das tribos inconformadas: é quando inicia-se a correia dos nativos, de fachos em punho e setas em riste, incendiando fazendas, matando gados e flechando vaqueiros, dizimando o que de branco lhes embargasse os passos.


Observa-se que na questão levantada nesta elocução, que os indígenas dos sertões resistiram bravamente até quando puderam para retomar o seu território nas mãos dos invasores.


Curral de criar gente.
É do antropólogo Darcy Ribeiro (2006: 312) essas palavras “Assim é que é que os currais se fizeram criatórios de gado [...] e de gente” a elocução do autor pode ser justificável, pois como já foi relatado anteriormente os marrueiros viviam em provavelmente em cabanas já que precisavam se deslocar constantemente, impossibilitando este de fixar moradias.
Periodicamente era necessário levar um determinado numero de animais para serem abatidos ou para prestarem serviços de transporte nas vilas.
Esse fato demandava um grande trabalho por parte do vaqueiro que precisavam captura os animais que eram praticamente selvagens, eles amarravam os animais, porém muitos se libertavam e voltavam par o mato fechado.
Era necessário se criar um espaço onde os animais pudessem ser aprisionados antes de ser levado para as vilas.
Primeiramente os materiais utilizados para construir os primeiros currais foram as madeira das caatingas, os “currais de varas” não foram muito eficientes, pois os animais escapavam com facilidade e, além disso, precisavam de manutenção constante, pois os bois quebravam muitas varas quando fugiam.
Logo o material foi trocado por outro também encontrado com abundancia na natureza a pedra; os currais de pedra eram muito difícil de construir, mas sua durabilidade era muito maior (em varias regiões do nordeste  ainda podem ser vistos vários currais em pé).
Com o aparecimento dos currais os familiares dos marrueiros puderam se fixa nos arredores destes, todo o cotidiano da família se passava próximos aos currais e aos rebanhos, nesse período meados do século XVII os indivíduos sobreviviam com o que retiravam do gado.
Pessoas acostumadas à vida simples longe dos padrões das cidades litorâneas. Estes não buscaram construir uma nova Europa no Brasil (ou pelo menos com o passar dos anos esse sentimento foram se perdendo).
Barroso (2003) enfatiza que as populações que habitam os sertões nordestinos são em sua maior parte miscigenações de europeus com indígenas. Isso explica porque estes de certo pontos estiveram por logo tempo desconectados culturalmente dos costumes litorâneos.
Á distancia do “mundo civilizado’ também foi um fator que propiciou a criação de uma cultura própria dos povos sertanejos.


Vida nas fazendas.
Segundo Sampaio (1987) o surgimento das primeiras fazendas esta compreendida entre o final dos séculos XVII e meados do século XVIII.
Nesse período a grande preocupação dos marrueiros não era somente com os rebanhos, mas também com água (era importante que os latifúndios fossem pelo menos cortado por um rio).
Era função do vaqueiro cavar barreiros em regiões que ficassem muito afastadas dos rios;  estes recebiam o auxílio de outros empregados das fazendas, mais os marrueiros eram os grandes responsáveis pelo serviços.
O trabalho era algo comum no cotidiano das fazendas, Mary Del Priore e Renato Venâncio (2006), em uma pesquisa documental, observam que as fontes oficiais relatavam com normalidade o trabalho dos “pequenos vaqueiros” nas fazendas campeando o gado.
Quando a seca era prolongada a única opção para saciar a sede não somente dos animais mais também dos homens era a cavação de cacimbas dos leitos dos rios secos.
Nas fazendas as moradias dos marrueiros e dos fazendeiros eram bem diferentes, as dos primeiros era feita de taipas (Barro e varas) chão de terra batida.
Residências pequenas e baixas quase sem moveis; na sala um tronco de árvore vazia a vez de sofá, seus utensílios de trabalho (gibão, arreios, espingardas) eram penduradas nas paredes.
Em seus quartos não aviam camas, segundo Priore (2011) a cama era um artigo de luxo só que possuíam era indivíduos que tinham um grande poder econômico.
Estes dormiam em esteiras ou em redes, nos quartos as roupas eram guardadas em varais.
Na cozinha um fogão de lenha sempre aceso, paredes presas tingidas pela fumaça produzida pela queima da lenha da caatinga.
O marrueiro era um abio caçador; era um cenário comum nas conzinhas se encontrar carne de caça defumada pela fumaça dos fogões, (no período das chuvas), no verão as carnes e os peixes eram salgados e colocados para secar no sol. Isso fazia que os alimentos durassem mais tempo, ou seja, não entrasse em estado de putrefação.
As residências dos fazendeiros eram de alvenaria, construções altas, que mantinham traços europeus, residências caracterizadas por muitas salas e quartos demonstrado que as residências das fazendas era âmbito de encontros destes informais até mesmo políticos (que os fazendeiros mantinham uma grande influência na política regional).
Pernambuco tem muitas cidades que nasceram das primeiras fazendas Sampaio (1988) relata algumas destas entre elas; Caruaru, Salgueiro, Buique, Gravatá,entre outras tantas. Priore e Venâncio (2006: 71) fazem uma elocução sobre essa questão: “alguns arraiais e vilas nasciam no centro dessas fazendas, dando origem a muitas das atuais cidades nordestinas.”
Esse processo se deu pelo grande comercio de gado dos séculos XVIII e XIX. Que incentivou a muitos indivíduos se transferir das cidades litorâneas e seguissem para os sertões em busca de melhores condições de fida nas imensidões dos latifúndios ou em seus arredores.
Com o aparecimento dessas cidades no interior os marrueiros poderão encontrar outra fonte de renda.
Já que estes possuíam “juntas de bois mansos”[iii], estes eram utilizados para carregarem mercadorias das cidades Pólos para as cidades e vilas menores e destas para as budeguinhas[iv] da zona rural.
A agricultura também foi praticada pelo marrueiro, apesar de que geralmente as roças eram cuidadas por suas esposas e filhos.
Que também tratavam do seu pequeno rebanho, enquanto seus maridos e pais cuidavam dos rebanhos dos patrões.
Foi também no inicio do século XIX que foi se iniciando um “novo capitulo” na História da trajetória dos marrueiros; eles começaram a comprar pequenas porções de terras e deixavam de ser apenas empregados e se tornavam proprietários de seus próprios destinos.


Concluindo.
As narrativas da vida dos homens que foram “obrigados” a desbravar os sertões seguindo o gado são cheio de detalhes que pode apaixonar a qualquer estudioso que busca se debruçar sobre esta questão.
O grande objetivo deste artigo não foi de forma alguma explanar todos os detalhes do cotidiano dos vaqueiros; ele teve como finalidade principal apenas aguçar a curiosidade do leitor para as Histórias dos sertões e dos seus homens.
Que são contadas de varias formas (música, versos, cordéis, etnografias, documentos históricos, e pela memória dos indivíduos mais velhos).
Uma História caracterizada pelas dificuldades, porém muito bela de ser vislumbrada.


Para saber mais sobre o assunto.
BARROSO, Gustavo. Terra de Sol. Fortaleza: Edição Demócrito Rocha, 2003.
MAURICIO, de Albuquerque, Mª Laura. Cantos de aboio. João Pessoa: Ed. Sal da Terra, 2007.
PRIORE,Del, Mary. ; VENÂNCIO, Renato. Uma História da Vida rural no Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
PRIORE, DEL, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011.
FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 18. ed. SP : Ed. Nacional, 1989.
GULART, José Alípio. Brasil de boi e do couro. Rio de Janeiro: edição GRD, 1964.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. SP, companhia de letras, 2006.
SAMPAIO, Francisco, Coelho. Estudos sociais: Pernambuco. SP: Ed. Do Brasil, 1988.




[i] Como eram chamadas as regiões que não eram banhadas pelo mar, ou seja, os interiores do território.
[ii] Forma que os primeiros vaqueiros eram chamados.
[iii] Dupla de bois domesticados que são utilizados para puxar carros de madeira os chamados “carros de boi”.
[iv] Pequenos estabelecimentos comerciais; um misto de mercado e bar, ainda muito comum de ser encontrada atualmente na zona rural.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Santo Agostinho e a legitimação da fé cristã.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 4, Volume jul., Série 01/07, 2013, p.01-06.

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em história social - USP.
MBA em Gestão de Pessoas - UNIA.
Licenciado em história - CEUCLAR.
Licenciado em filosofia - FE/USP.
Bacharel em filosofia - FFLCH/USP.


Introdução.
O cristianismo nasceu como uma seita que se destacava entre muitas outras oriundas do Oriente.
Começou humildemente, com um grupo de discípulos que haviam presenciado a vida terrena de seu mestre espiritual, Jesus Cristo, relatando o supostamente observado.
Os seguidores desta época eram pessoas humildes, cujos ensinamentos cristãos vinham ao encontro dos desejos e necessidades.
O gênio e a energia do apóstolo Paulo transformaram o cristianismo em uma liga de sociedades bem organizadas, espalhadas por todo o Oriente e que conseguiu abrir caminho até a Itália.
Partindo dos ensinamentos de Cristo, Paulo preparou as bases da teologia e escatologia cristã, construindo os fundamentos de uma Igreja Católica Universal.
Apesar da relativa penetração entre as camadas sociais mais pobres, tratando-se de convencer os letrados, a nova fé não obteve o mesmo sucesso.
Exatamente por esta razão, as comunidades cristãs entraram em choque com o poder civil da época, notadamente com funcionários que representavam o imperador romano.
Fazia-se necessário legitimar a fé cristã racionalmente.
Para atender a demanda, um dos pioneiros foi Orígenes, que estabeleceu uma conexão permanente entre religião e filosofia.
Seguido depois por Santo Agostinho, o grande responsável pela releitura da filosofia grega dentro do âmbito cristão.

A legitimação racional do cristianismo.
A única maneira encontrada pelos cristãos de tornar a sua doutrina inteligível, acessível e aceitável para as camadas mais abastadas da população foi legitimar a teologia através da antiga filosofia grega, esta conhecida e aceita, encaixando-se na intenção de persuadir e convencer racionalmente.
É dentro deste contexto que emergiu a figura de Aurélio Agostinho, mais conhecido como Santo Agostinho, o grande filosofo e doutor da Igreja Católica Ocidental.
Ela havia lido clássicos como Hortênsio, de Cicero (obra hoje perdida), centrada na profundidade do sentir e no poder compreensivo, inspirando a fundir o caráter especulativo grego com a praticidade latina.
Agostinho considerava a filosofia como solucionadora do problema da vida, ao qual só o cristianismo poderia fornecer uma solução integral.
Seu interesse estava, portanto, circunscrito aos problemas de Deus e da alma, visto serem os mais importantes e imediatos para a solução integral da questão da alma.
Partindo desta premissa, procurou legitimar a fé por meio da filosofia platônica.
Iniciou a superação do ceticismo mediante a doutrina grega, começando por conquistar uma certeza: a própria existência espiritual.
A partir deste pressuposto, chegou a uma verdade superior e imutável, condição e origem de toda vida particular.
Embora desvalorizando o sensível em relação ao intelectual, admitiu que os sentidos, como o intelecto, seriam a fonte do conhecimento.
Sendo necessário para visão sensível, além do olho e do que chamou de coisa, a luz física, do mesmo modo que a luz espiritual seria necessária para o conhecimento intelectual.
A luz espiritual proveria de Deus, sendo ele próprio manifestado através do verbo, para o qual transferiu as ideias platônicas.
No verbo de Deus existiriam as verdades eternas, as ideias, as espécies e os princípios formais das coisas.
Seriam modelos dos seres criados, o conhecimento das verdades eternas e as ideias das coisas reais que apreendemos através da luz intelectual que vêm do verbo de Deus.
Portanto, a percepção de tudo estaria vinculada com o inatismo, a reminiscência platônica.
Diferente de Platão, para Agostinho, o verdadeiro conhecimento não estaria somente nas ideias; mas sim também nas forças naturais do espírito vinculadas com a iluminação de Deus.
Este seria inteiramente intangível e transposto ao mundo puramente intelectual, o que criou a questão de como provar a existência de um Deus não palpável.

A existência de Deus e da alma.
Agostinho prova a existência de Deus através da fundamentação a priori, já que no espírito humano haveria uma existência deste ser.
Ao lado desta prova, não nega as relações a posteriori da existência de Deus, afirmando que a imperfeição e sua transformação seriam efeitos da relação com o espiritual.
A natureza de Deus seria o poder racional e infinito, visto que não poderia se medido; portanto, eterno e mutável, caracterizando o livre criador.
Uma hipótese antes excluída pelo pensamento grego, onde existia um dualismo metafísico, pois algo não poderia ser ao mesmo tempo racional e infinito, tampouco eterno e mutável.
Este dualismo só permanece na argumentação moral de Agostinho, especificamente na doutrina do livre arbítrio que pode conduzir ao pecado, fazendo o homem insurgir orgulhosamente contra Deus.
No cristianismo, o mal é, metafisicamente, negação da vontade de Deus.
Agostinho harmoniza este preceito com o platonismo, uma vez que não sendo o corpo mau por natureza, a matéria não pode ser essencialmente má, pois foi criada por Deus, que fez todas as coisas boas.
A união do corpo com a alma é acidental, nasce com o individuo enquanto criação divina.
Neste sentido, embora o copo seja mutável, a alma é eterna, sendo de natureza simples e parte da complexidade de Deus.

O livre arbítrio.
Segundo Agostinho, a vontade é livre, e pode querer o mal, pois é um ser limitado, podendo agir desordenadamente, imoralmente, contra a vontade de Deus.
Neste caso, a vontade humana é má; é única coisa má no mundo criado por Deus.
Portanto, não é causa eficiente da ação viciosa, uma vez que o mal não tem realidade metafísica.
O pecado tem em si mesmo a pena da desordem, já que a criatura não podendo lesar Deus, prejudica a si mesma, determinando e dilacerando sua natureza.
A vontade humana é impotente sem a graça de Deus, conciliando a causalidade com o livre arbítrio do homem.
Neste sentido, por exemplo, a escravidão não seria um direito natural, mas consequência do pecado original, que perturbou a natureza humana a partir da escolha pelo mal advinda do livre arbítrio.
A corrupção da natureza humana, no entanto, poderia ser superada pela transformação racional operada pela fé cristã.

Concluindo.
Santo Agostinho conciliou razão e fé, forjando uma racionalidade adequada para o convencimento dos intelectuais latinos.
Ao fazê-lo, resolveu o problema do mau, explicando-o como metafísico, negando sua realidade física, deslocada para o mundo espiritual.
Quanto ao mal físico, que atinge também a perfeição natural dos seres, procurou justifica-la mediante o contraste dos seres, o que contribuiria para a harmonia do conjunto.
Ele admite o mal moral, relegando sua causa a vontade do homem e não de Deus, caracterizado por privação do bem, resultante de uma escolha equivocada do livre arbítrio.
Seguindo este raciocínio, Agostinho exporia uma visão orgânica da história humana na obra A cidade de Deus.
A partir de uma visão grandiosa da história, propriamente teológica e não filosófica, traçaria uma doutrina cristã, unindo a religião com a filosofia antiga, revelando a interioridade racional do ser espiritual.

Para saber mais sobre o assunto.
AGOSTINHO. Os pensadores: volume Santo Agostinho. São Paulo: Abril, s.d.
ARIÈS, Philippe; DUBY, George (dir.). História da vida privada: volume 1. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
BOWDER, Diana. Quem foi quem na Roma antiga. São Paulo: Circulo do Livro, 1980.
PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA, Luís. História da filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1990.
ROSTOVTZEFF, M. História de Roma. Rio de Janeiro: Guanabara, 1983.

RESUMO: a parir de uma interpretação livre das obras de Santo Agostinho, pretende-se discutir a operacionalização da conciliação entre fé cristã e filosofia grega, considerando-se a questão da existência de Deus e da alma, além do problema do livre arbítrio.

Palavras-Chave: Santo Agostinho, Livre Arbítrio, Existência de Deus e da alma, Legitimação da fé cristã.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A massa ganhou vida: sobre as recentes manifestações de rua no Brasil.


Noticias e Eventos – Boletim 5.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 4, Volume jun., Série 21/06, 2013, p.01-03.

 


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Licenciado em História pelo CEUCLAR.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

 
 

Eliane Santos Moreira.

Socióloga.
 
Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais pela CEFSA.
Estudante do curso de graduação em direito da Unimonte.
 
 
 
A mídia, os políticos, o Estado e as elites não entenderam ou fingem não entender o real significado das recentes manifestações iniciadas pelo estopim representado pelo aumento no valor das passagens púbicas.

Alguns sociólogos, a todo momento apresentados pelos meios de comunicação de massa como especialistas, ratificaram esta postura, afirmando que as manifestações foram motivadas pela melhoria no padrão de vida da população mais pobre e o surgimento de uma nova classe média.

Dentro desta concepção, o governo teria propiciado a ascensão de milhares de indivíduos a um novo patamar de consumo e, então, agora esta seria uma nova etapa pedindo mais (escola, saúde, etc).

Outros, ainda no dia de hoje, dizem que tudo acabou, pois as reivindicações do “movimento passe livre” já foram atendidas, sendo revogado o aumento no valor das passagens nos transportes públicos.

Algumas emissoras de TV continuam a alardear que os casos de violência foram apenas atos de vandalismo.

O mesmo tipo de discurso construído durante outros momentos históricos em outros espaços, tal como pelo Antigo Regime (a nobreza) quando aconteceu a Revolução Francesa.

Vãs tentativas de ludibriar a população, as manifestações não tem liderança, representam um sentimento popular de revolta contra as mazelas brasileiras, por isto estão ganhando cada vez mais força e mais adeptos pelo Brasil inteiro, tornando-se mais violentas.

 

As reais causas dos protestos.

Vivemos em um país onde a desigualdade social é histórica e perdura há séculos, onde as elites ludibriam as massas com circo e nem sempre pão, contemporaneamente manipulando a opinião publica através do controle dos meios de comunicação.

Por esta razão, as elites e seus representantes, ainda não entenderam ou fingem não entender que o aumento no valor da passagem nos transportes públicos foi só o estopim, a gota da água que faltava para a passividade do brasileiro transbordar.

A despeito das manifestações serem compostas principalmente por jovens, o motivo da revolta envolve as mazelas que indignaram a população de todas as faixas etárias e segmentos sociais, excetuando é claro os beneficiados pelas falcatruas.

As elites pensaram que oferecendo o circo simbolizado por copa do mundo e olimpíadas a massa iria se conformar com a pobreza e a exploração.

Foram os romanos que inventaram a clássica formula: basta oferecer aos plebeus pão, o mínimo necessário para que não morram de fome, e circo, a luta de gladiadores onde o povo podia extravasar e canalizar a agressividade causada pela revolta de ser miserável; para controlar e manobrar a população para que as elites continuem no poder se beneficiando deste poder para ficar mais ricas.

A formula é antiga e, no Brasil, a massa parece que finalmente entendeu que estava sendo manipulada, ludibriada na cara dura.

Esta manipulação deslavada é uma das causas que geraram as manifestações e que, a medida que sofrem a repressão do braço armado do Estado e das elites (a policia) tendem a se intensificar e tornarem-se mais violentas.

Também é muito antigo a máxima que diz que violência gera violência, o que vale também para a repressão policial violenta do Estado perante manifestações que reivindicam causas justas e acumuladas durante séculos no Brasil.

Desde o inicio deste país o contraste social é um problema, existe um imenso abismo entre pobres e ricos, mesmo a classe média na realidade também esta inserida neste contexto.

Qual outro país do mundo divide a classe média entre baixa, média e alta?

Somente no Brasil, justamente por que o que existe aqui é uma maioria absoluta de pobres contraposta a uma minoria de ricos que só são ricos porque tiram do resto da população a parcela que lhes cabe da riqueza nacional.

Este abismo entre ricos e pobres é que tem motivado os saques durante as manifestações, visto que miseráveis, que não tem condições de consumir eletrodomésticos e outros bens de consumo, percebem no tumulto a oportunidade de ter aquele objeto do desejo tão almejado de forma rápida e fácil.

Na mente destes a ocasião faz o ladrão, diante de um contexto em que a justiça, o poder público, não pune aqueles que roubaram milhões ou bilhões do próprio povo.

Mesmo quando a justiça condena estes corruptos e corruptores, mediante a pressão popular, a punição é branda ou nunca chega, muitos são até mesmo reconduzidos ao poder para continuar praticando as mesmas mazelas pelas quais foram condenados.

As leis são feitas pelas elites para elites, com brechas que somente podem ser exploradas por aqueles que controlam a máquina judiciária.

Ocorre que os valores roubados pelos corruptos fazem parte do dinheiro publico, originado a partir dos elevados impostos.

Estes impostos que extorquem a população são um dos mais elevados do mundo se não os mais elevados.

No entanto, muito pouco do dinheiro pago em impostos retorna em benefícios para quem pagou, escorre quase tudo pelos diversos buracos representados pela corrupção e elevados gastos do poder publico para manter a própria máquina do Estado, principalmente com salários de marajá.

Gerando mais cobranças indevidas que extorquem o povo e reduzem o poder de consumo, empobrecendo ainda mais os pobres.

No sistema Ecovias, por exemplo, formado pela Anchieta e Imigrantes, o usuário, o trabalhador que já paga IPVA e outros impostos que deveriam ser dirigidos à manutenção de um sistema viário de primeiro mundo, são obrigados a pagar 21,20 reais para transitar por uma via pública.

O trabalhador que mora na Grande São Paulo e trabalha no litoral, é forçado a gastar 42,40 reis diariamente, ao passo que já paga impostos justamente para poder ter seu direito de ir e vir do trabalho garantido.

Durante o período eleitoral, todos os partidos políticos sem exceção se valem de discursos demagógicos e inflamados a fim de captar atenção, argumentam a respeito das varias soluções para os problemas que envolvem a sociedade, tais como educação, saúde, segurança, habitação e tantos outros.

O fato é que, depois que ocupam as posições almejadas, tornam-se negligentes a respeito das necessidades de quem os elegeu, necessidades essas que os fez chegar ao poder, e dessa forma começam a praticar um tipo de violência, uma violência que explora, que oprime e que nega direitos.

Os movimentos sociais sempre atuaram de forma fragmentada para a cobrança e respostas de suas reinvindicações, ou seja, cada um defendendo a sua causa estando alheio a tantas outras.

O que possibilita a classe politica se valer do artificio de não atender a todos os setores da sociedade, fingindo atender, satisfazendo apenas os interesses das elites.

Podemos dizer então que a massa popular, que sai às ruas, trata-se da unificação destes vários movimentos sociais, que saíram do discurso e da diplomacia para uma ação mais objetiva?

Não, a massa que protesta não representa nenhum partido, nem no sentido de senso comum, tampouco no weberiano.

A massa não tem cara, faz-se notar por constituir um aglomerado de indivíduos encurralando pelo Estado e pelas elites contra a parede, que passou a exigir o que lhe é de direito.

As cenas de vandalismo, tão enfatizadas pela mídia elitista, nada mais são que a violência retribuída, ou melhor, devolvida para os símbolos de poder opressor, prefeituras, câmaras, congresso nacional e até mesmo bancos e tudo aquilo que representa a exclusão social.

Em suma, o Estado e as demais formas de poder e opressão se acostumaram a violentar o povo todos os dias durante anos, logo é totalmente plausível o descontrole e a fúria do povo, que tem sede de destruição de tudo aquilo que nunca os representou.

 

Quem são os manifestantes.

Observando a massa de manifestantes em todos os pontos do país, salta aos olhos a quantidade expressiva de jovens, estudantes e trabalhadores na faixa dos 16 aos 20 e poucos anos.

Mas porque os jovens, justamente aqueles com perspectivas de futuro mais nebuloso e mais distante, iniciaram as manifestações?

O inconformismo é natural da idade, mas é a ausência da possibilidade de um futuro melhor em longo prazo a motivação principal.

Ao mesmo tempo, a juventude está há alguns anos diante de novos valores éticos cultivados por um grupo pequeno e heroico de professores, que continuam na profissão por puro idealismo, visto a desvalorização e desrespeito para com a categoria por parte do Estado.

As elites sempre manipularam a educação para deixar a população alienada, sucateando a educação publica básica e confundindo os pais, forçando a procurarem o ensino privado pensando falsamente em oferecer aos filhos conteúdo de qualidade, quando na realidade também este setor foi segmentado para atender de forma dualista ricos e pobres através da legislação educacional.

Althusser ressaltou que existem mecanismo de controle social desenvolvidos pelas elites capitalistas para ludibriar as massas, dentre os quais os Aparelhos de Ideológicos de Estado, tal como a escola, montada para convencer as pessoas de que a culpa pela pobreza é delas próprias.

Apesar disto, lutando contra as engrenagens da máquina do Estado elitista neoliberal, professores tomaram como sua missão de vida abrir os olhos das gerações futuras, fazendo um trabalho de formiguinha que agora aparece, depois de anos, materializado na figura dos jovens que manifestam a insatisfação apartidária.

A ideologia destes jovens é simplesmente o ideal ético de busca da felicidade coletiva, de ver a verdadeira justiça acontecer, aquela que faz um sujeito querer para os demais o que quer para si mesmo.

Não são desocupados, vagabundos ou baderneiros que estão se manifestando, são sim jovens trabalhadores que buscam um futuro melhor para todos, pois os atos começam apenas depois do expediente de trabalho.

Tantas manifestações realizadas durantes mais de cinco horas cada uma, exige muita disposição física e mental, o que não significa que somente os jovens são aptos a elas, mesmo por que a classe trabalhadora mais madura se faz presente e de forma igualmente eficiente.

O que explica os horários de encontro das manifestações que começa variavelmente às 17 horas.

O papel das redes sociais provou ser uma das principais ferramentas de mobilização e alcance social da juventude, refletindo um pouco mais a utilização da internet tornou-se mais legitimo e digno do que a comunicação das outras mídias de massa, sejam elas televisiva, impressa ou radialista, que em grande parte trata os protesto como uma espécie de “doença civil” ou estado de anomia, conforme o modelo teórico de Durkheim.

A doença esta presente entre as elites e segmentos que continuam sendo manipulados, dentre os quais aquele que em nome da religião e de um Deus de amor, pregam a intolerância a orientação sexual.

A massa que manifesta é contra, justamente, os rótulos colocados pelas elites nas pessoas, rótulos que desrespeitam a vontade de cada um e o que faz cada individuo feliz sem ferir de forma alguma o espaço ou a busca da felicidade do outro.

A juventude respeita a diversidade e entende que é salutar a convivência entre diferentes, caso contrário caminharíamos novamente para trás, veríamos Estados totalitários de direita renascendo, tal como o nazismo hitlerista.

 

Concluindo.

Em meio às manifestações as autoridades se calam, nada dizem e somente jogam a policia, a tropa de choque com balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio, para reprimir a massa.

Os meios de comunicação de massa fingem não entender o que acontece ou usam de sensacionalismo, gerando a irá de manifestantes que queimam automóveis de emissoras de TV em demonstração da insatisfação com a maquiagem fantasiosa que marra os fatos de forma distorcida.

Esperemos que a juventude que tomou a frente nas recentes manifestações contra as mazelas do Brasil mude a cara deste país.

A massa amorfa finalmente acordou e ganhou vida como um corpo único e orgânico, apartidário e sem liderança, mas com uma ideologia que prima pela ética e representa todo o povo brasileiro.
 
 
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