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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Brincar na Escola.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Volume fev., Série 07/02, 2012, p.01-12.

O presente artigo faz parte da Monografia de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/Universidade Cruzeiro do Sul, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Gostaria de começar o artigo, lembrando sobre os reais objetivos da Educação Infantil .
Estes objetivos devem ser pensados em longo prazo e dentro de uma perspectiva do desenvolvimento da criança.
Os objetivos serão divididos com relação a três pontos:
I - Em relação aos professores: Que as crianças desenvolvessem sua autonomia através de relacionamentos seguros, no qual o poder do adulto seja reduzido o máximo possível.
II - Em relação aos companheiros: Que as crianças desenvolvessem sua habilidade de descentrar e coordenar diferentes pontos de vista.
III - Em relação ao aprendizado: Que as crianças fossem alertas, curiosas, críticas e confiantes na sua capacidade de imaginar coisas e dizer o que realmente pensam. E que elas tivessem iniciativas, elaborassem ideias, perguntas e problemas interessantes e relacionassem as coisas uma às outras (KAMII, 1991, p.15).

“Soubessemos nós adultos preservar o brilho e o frescor da brincadeira infantil , teríamos uma humanidade plena de amor e fraternidade . Resta-nos , então , aprender com as crianças” (Deheinzelin).

A brincadeira é uma linguagem natural da criança e é importante que esteja presente na escola desde a educação infantil para que o aluno possa se colocar e se expressar através de atividade lúdica - considerando se como lúdicas as brincadeiras, os jogos, a música, a arte, a expressão corporal, ou seja, atividades que mantenham a espontaneidade das crianças.
As brincadeiras são linguagens não verbais, nas quais a criança expressa e passa mensagens, mostrando como ela interpreta e enxerga o mundo.
Brincar é um direito de todas as crianças do mundo, garantido no Princípio VII da Declaração Universal dos Direitos da Criança da UNICEF.
É uma atividade de grande importância para a criança, pois se torna ativa, criativa, e lhe dá oportunidade de relacionar se com os outros; também a faz feliz e, por isso, mais propensa a ser bondosa, a amar o próximo, a ser solidária.
A brincadeira é uma situação privilegiadade aprendizagem infantil pode alcançar níveis mais complexos por causa das possibilidades da interação entre os pares numa situação imaginária e pela negociação de regras de convivência e de conteúdos temáticos.

A experiência na brincadeira permite às crianças:
I - decidir incessantemente e assumir papéis a serem representados.
II - atribuir significados diferentes aos objetos transformando os em brinquedos.
III - levantar hipóteses, resolver problemas e pensar/sentir sobre seu mundo e o mundo mais amplo ao qual não teriam acesso no seu cotidiano infantil.

É por essa razão que Vygotsky (1984) considera que a brincadeira cria para as crianças uma “zona de desenvolvimento proximal”, que não é outra coisa senão a distância entre o nível atual do desenvolvimento, determinado pela capacidade de resolver independente um problema, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado pela resolução de um problema sob a orientação de um adulto ou com a colaboração de um adulto ou com a colaboração de um companheiro mais capaz.
Ainda segundo esse autor, a brincadeira possui três características: a imaginação, a imitação, e a regra.
Essas características estão presentes em todos os tipos de brincadeiras infantis, sejam elas tradicionais, de faz de conta, de regras, e podem aparecer também no desenho, como atividade lúdica.
Cada uma dessas características pode aparecer de forma mais evidente ou em um tipo ou outro de brincadeira, tendo em vista a idade e a função especifica que desempenha junto às crianças.
Para Oliveira (1990), as atividades lúdicas é a essência da infância.
Por isso, ao abordar este tema não podemos deixar de nos referir também à criança.
Ao retornar a história e a evolução do homem na sociedade, vamos perceber que a criança nem sempre foi considerada como é hoje.
Antigamente, ela não tinha existência social, era considerada miniatura do adulto, ou quase adulto, ou adulto em miniatura.
Seu valor era relativo, nas classes altas era educada para o futuro e nas classes baixas o valor da criança iniciava quando ela podia ser útil ao trabalho, colaborando na geração da renda familiar.
A criança não é um adulto que ainda não cresceu.
Ela tem características próprias e para se tornar um adulto, ela precisa percorrer todas as etapas de seu desenvolvimento físico, cognitivo, social e emocional. 
Seu primeiro apoio nesse desenvolvimento é a família, posteriormente, esse grupo se amplia com os colegas de brincadeiras e a escola.
Segundo Almeida (2004), cada época e cada cultura têm uma visão diferente de infância, mas a que mais predomina foi a da criança como ser inocente, inacabado, incompleto, um ser em miniatura, dando à criança uma visão negativa.
Entretanto, já no século XVIII, Rousseau se preocupava no inicio do século XX, quando psicólogos e pedagogos começaram a considerar a criança como uma criatura especial, com especificidades, características e necessidades próprias.
Foi preciso que houvesse uma profunda mudança da imagem da criança na sociedade para que se pudesse associar uma visão positiva a suas atividades espontâneas, surgindo como decorrência à valorização dos jogos e brinquedos.
O aparecimento do jogo e do brinquedo como fator do desenvolvimento infantil proporcionou um campo amplo de estudos e pesquisas e hoje é questão de consenso a importância do lúdico.

Dentre as contribuições mais importantes destes estudos segundo Negrine (1994, p. 41) podemos destacar:
I - as atividades lúdicas possibilitam fomentar a ‘’ resiliência ‘’, pois permitem a formação do autoconceito positivo;
II - As atividades lúdicas possibilitamo desenvolvimento integral da criança, já que através destas atividades a criança se desenvolve afetivamente, convive socialmente e opera mentalmente;
III - O brinquedo e o jogo são produtos de cultura e seus usos permitem a inserção da criança na sociedade;
IV - Brincar é uma necessidade básica assim como é a nutrição, a saúde, a habitação e a educação;
V - Brincar ajuda a criança no seu desenvolvimento físico, afetivo, intelectual e social, pois, através das atividades lúdicas, a criança forma conceitos, relaciona ideias, estabelece relações lógicas, desenvolve a expressão oral e corporal, reforça habilidades sociais, reduz a agressividade, integra se na sociedade e constrói seu próprio conhecimento;
VI - Brincando a criança desenvolve potencialidades; ela compara, analisa, nomeia, mede, associa, calcula, classifica, compõe, conceitua e cria. O brinquedo e a traduzem omundo para a realidade infantil, possibilitando a criança a desenvolver a sua inteligência, sua sensibilidade, habilidades e criatividades, além de aprender e socializar se com outras crianças.


A brincadeira é uma linguagem infantil.
No ato de brincar, os sinais, os gestos, os objetos e os espaços valem e significa outra coisa daquilo que aparentam ser.
Ao brincar as crianças recriam e repensam os acontecimentos que lhes deram origem, sabendo que estão brincando.
O principal indicador da brincadeira, entre as crianças, é o papel que assumem enquanto brincam.
Nas brincadeiras, as crianças transformam os conhecimentos que já possuíam anteriormente em conceitos gerais com os quais brinca.
O brincar contribui, assim, para a interiorização de determinados modelos de adulto.
Os conhecimentos da criança provem da: imitação de alguém ou de algo conhecido, de uma experiência vivida na família ou em outros ambientes, do relato, de um colega ou de um adulto, de cenas assistidas na televisão no cinema ou narradas em livros, etc.
A linguagem oral e gestual que oferecem vários níveis de organização a serem utilizados para brincar; os conteúdos sociais, como papéis, situações, valores e atitudes que se referem à forma como o universo social se constroem.

O brincar pode de acordo com vários estudiosos e pesquisadores do tema ser dividido em duas grandes categorias:
I - O brincar social: reflete o grau na quais as crianças interagem umas com as outras.
II - O brincar cognitivo: revela o nível de desenvolvimento mental da criança.

Estas categorias de experiências podem ser agrupadas em quatro modalidades básicas de brincar:
*O brincar tradicional.
*O brincar de faz de conta.
*O brincar de construção.
* O brincar educativo.

As crianças na idade de educação infantil vivenciam experiências lúdicas sociais.

Um estudo feito por PARTEN (1932) citado por PAPALIA (2000) revela que no brincar das crianças pequenas, podemos identificar seis tipos de atividades lúdicas sociais e não sociais:
*Comportamento desocupado.
*Comportamento observador.
*Atividade independente (solitária).
*Atividade paralela.
*Atividade associativa.
*Atividade cooperativa.
*Atividade cooperativa ou organizada suplementar.

É importante saber que existem cinco grandes pilares básicos nas ações lúdicas das crianças em seus jogos, brinquedos e brincadeiras, estes pilares são:
I - a imitação.
II - o espaço.
III - a fantasia.
IV - as regras.
V- os valores.

Para entender o universo lúdico é fundamental compreender o que é brincar e para isso, é importante compreender o que é brincar e para isso, é importante conceituar palavras como jogo, brincadeira e brinquedo, permitindo assim aos professores de educação infantil e do ensino fundamental, trabalhar melhor as atividades lúdicas.
Estas tarefas nem sempre é fácil exatamente pelo fato dos autores compreenderem os termos do Brasil, outros países que se preocupam em pesquisar o tema, também tem dificuldades quanto a conceituações.


O que é brincar?
Essa questão é discutida tanto por Brougére (1993), quanto por Henriot (1989).
Em sua recente obra SOUS COULEUR DE JOVER, Henriot desenvolve a ideia de que o brincar está associado a uma imagem de criança que vem sendo construída em função do seu status social.
Para esse autor, o brincar passou por diversas concepções na História da Filosofia, da pedagogia e das demais áreas das ciências e das artes.
Tal diversidade só pode ser compreendida se tornamos o fato de que brincar é uma atividade mental, uma forma de interpretar e sentir determinados comportamentos humanos.
Nessa perspectiva, a noção de brincar pode e deve ser considerada como a representação e interpretação de determinadas atividades infantis, explicitadas pela linguagem num determinado contexto social.
Assim considerado, o brincar constitui um fato social e refere se a determinada imagem de criança e brincadeira de uma comunidade ou grupo de pessoas específico.
É uma atitude mental definida pelo que Brougeré denomina de metalinguagem ou linguagem de segundo grau, ou seja, a brincadeira compreende uma atitude mental e uma linguagem baseadas na atribuição de significados diferentes aos objetos e a linguagem, comunicados e expressos por um sistema próprio de signos e sinais.
Em sua obra mais recentes, Brougére representa todos os autores que escreveram sobre o brincar infantil, demonstrando o papel determinante da filosofia romântica na transformação de um pensar sobre a brincadeira assimilada à concepção de criança.
O brincar não tem valor em si, ele se opõe as atividades sérias e apresenta se como uma situação de algo que lhe toca , seja sob a forma de recreação, relaxamento necessário ao esforço intelectual, seja pelo faz de conta, forma de interpretação que permite à criança aprender.
Com o romantismo e sua nova concepção de infância, a brincadeira ganha uma seriedade de interior de um sistema de inversão de valores proposto por esta corrente de pensamentos e pode aparecer como espaço de uma educação “inaturali” (1993, p.219).
Para Brougère, ainda essa concepção desenvolve se, inicialmente, sob forma da literária no pensamento romântico para só mais tarde , encontrar sua tradução prática nos trabalhos desenvolvidos por Frobel.
Em seguida, a Ciência do século XIX irá recuperar a idéia determinista e inatista de aprendizagem contida nas concepções de criança e brinquedo evocadas pela filosofia, transformando a brincadeira na atividade que possibilita a recapitulação da humanidade pela criança , ou do pré-exercício da vida adulta.
Brougère afirma também que as relações encontradas entre brincadeiras e educação no decorrer da história contemporânea.
No fim do século XIX, o psicólogo e filósofo Francês Henri Wallon (1879 - 1962) , o biólogo suíço Jean Piaget (1896 - 1980) e o psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896 - 1934) buscaram compreender como os pequenos se relacionavam com o mundo e como produziam cultura.
Até então, a concepção dominante era de que eles não faziam isso, investigando essa faceta do universo infantil, eles concluíram que boa parte da comunicação das crianças com o ambiente se dá por meio da brincadeira e que é dessa maneira que elas se expressam culturalmente.
Wallon foi o primeiro a quebrar a paradigmas da época ao dizer que a aprendizagem não depende apenas do ensino de conteúdos: para que ela ocorra, são necessários afeto e movimento também.
Ele afirmava que é preciso ficar atento aos interesses dos pequenos e deixa-los se deslocar livremente para que façam descobertas.
Levando em conta que as escolas davam muita importância à inteligência e ao desempenho, propôs que considerassem o ser humano de modo integral.
Já Piaget, focado no que os pequenos pensam sobre tempo, espaço e movimento, estudou como diferem as características do brincar de acordo com as faixas etárias.
Ele descobriu que, enquanto os menores fazem descobertas com experimentações e atividades repetitivas, os maiores lidam com o desafio de compreender o outro e traçar regras comuns para as brincadeiras.
As pesquisas de Vygotsky apontaram que a produção de cultura depende de processos interpessoais.
Ou seja, não cabe apenas ao desenvolvimento de um individuo, mas às relações dentro de um grupo.
Por isso, destacou a importância do professor como mediador e responsável por ampliar o repertório cultural das crianças. Conscientes de que elas se comunicam pelo brincar, Vygotsky considerou uma intervenção positiva a apresentação de novas brincadeiras e de instrumentos para enriquecê-las.
Ele afirmava que um importante papel da escola é desenvolver a autonomia da turma.
E para ele, esse processo depende de intervenções que coloquem elementos desafiadores nas atividades, possibilitando aos pequenos desenvolver essa habilidade.
Brincar é a linguagem que as crianças usam para se manifestar, descobrir o mundo e interagir com o outro.
Quando ela é incentivada, a turma adquire novas habilidades e desenvolve a imaginação e a autonomia.
É possível brincar sem ter nada nas mãos.
Como ocorre durante o pega-pega e a ciranda, por exemplo.
Mas o brinquedo tem o papel fundamental no desenvolvimento infantil.
Para que eles cumpram bem essa função, não basta deixar o acervo da pré-escola ao alcance dos pequenos, imaginado que, eles por já brincarem sozinhos em casa, eles saberão o que fazer.
É essencial oferecer objetos industrializados e artesanais, organizar momentos em que o grupo construa seus próprios brinquedos e ampliar as experiências dos alunos.
Tudo isso sempre equilibrando quantidade, qualidade e variedade, o que significa exemplares variados, seguros, resistentes e com aspectos estéticos.


O que é brinquedo?
Um brinquedo é um objeto ou uma atividade lúdica, voltada única e especialmente para o lazer, e geralmente associada a crianças, também usado por vezes para descrever objetos com a mesma finalidade, voltados para adultos.
Na pedagogia, um brinquedo é qualquer objeto que a criança possa usar no ato de brincar. Alguns brinquedos permitem às crianças divertirem se enquanto, ao mesmo tempo, as ensinam sobre um dado assunto.
Brinquedos muitas vezes ajudam não desenvolvimento da vida social da criança, especialmente aquelas usadas em jogos cooperativos.
Os brinquedos são de vital importância para o desenvolvimento e a educação da criança, por propiciar o desenvolvimento simbólico, estimular a sua imaginação, a sua capacidade de raciocínio e a sua autoestima.
Podem ser utilizados em tratamentos psicoterapêutico na ludoterapia, com crianças com problemas emocionais, causados por fatores variados, ou que apresentam distúrbios de comportamento ou baixo rendimento escolar.
O ato de brincar em si, geralmente não exige um brinquedo, que seja um objeto tangível, pode acontecer como jogos simbólicos (faz de contas).
Desde os tempos antigos que os brinquedos tiveram um importante papel na vida das crianças.
Por milhares de anos crianças brincavam com brinquedos dos mais variados tipos.
Bolinhas de gude foram usadas por crianças no continente africano há milhares de anos.
Na Grécia antiga e no Império Romano brinquedos comuns eram barquinhos e espadas de madeira, entre os meninos e bonecas entre as meninas.
Durante a idade média, os fantoches eram brinquedos muito comuns entre as crianças.
Os brinquedos chegaram ao Brasil pela família lusitana Rebelo.
O Sr Manoel Rebelo foi o pioneiro em lojas especializadas no Brasil, ao abrir no bairro do Jabaquara, em São Paulo, a loja que viria a ser no centro de referencia do assunto no Brasil.
A Rebelos Funhouse é hoje a loja mais visitada da América Latina e tem estoque e acervo invejável a qualquer loja na Europa e EUA.


O professor da educação infantil
Segundo Severino (1991) os profissionais das escolas infantis precisam manter um comportamento ético para com as crianças, não permitindo que estas sejam expostas ao ridículo ou que passem por situações constrangedoras.
Alguns adultos, na tentativa de fazer com que as crianças lhes sejam obedientes, deflagram nelas sentimentos de insegurança e desamparo, fazendo as se sentirem temerosas de perder o afeto, a proteção e a confiança dos adultos.
O professor precisa estar atento à idade e as capacidades de seus alunos para selecionar e deixar à disposição materiais adequados.
O material deve ser suficiente tanto quanto a quantidade, como pela diversidade, pelo interesse que despertam pelo material de que são feitos.
Lembrando sempre da importância de respeitar e propiciar elementos que favoreçam a criatividade das crianças.
Uma observação atenta pode indicar o professor que sua participação seria interessante para enriquecer a atividade desenvolvida, introduzindo novos personagens ou novas situações que tornem o jogo mais rico e interessante para as crianças, aumentando suas possibilidades de aprendizagem.

Educarnão se limita a repassar informações ou mostrar apenas um caminho, aquele caminho que o professor considera o mais correto, mas é ajudar a pessoa e saber aceitar os outros. É oferecer várias ferramentas para que a pessoa possa escolher entre muitos caminhos, aquele que for compatível com seus valores, sua visão de mundo e com as circunstâncias adversas que cada um irá encontrar. Educar É preparar para a vida”.  (KAMII , 1991, p.125).

As maiores aquisições de uma criança são conseguidas no brinquedo, aquisições básicas de ação real e moralidade (Vygotsky).
Piaget (1988) diz que a atividade lúdica é o berço obrigatório das atividades intelectuais da criança, sendo por isso, indispensável á pratica educativa.


Papel do professor na educação lúdica
“A esperança de uma criança, ao caminhar para a escola é encontrar um amigo, um guia, um animador, um líder - alguém muito consciente e que se preocupe com ela e que a faça pensar, tomar consciência de si de do mundo e que seja capaz de dar - lhe as mãos para construir com ela uma nova história e uma sociedade melhor” (ALMEIDA, 1987, p.195).
Para ter dentro de instituições infantis o desenvolvimento de atividades lúdicas educativas, é de fundamental importância garantir a formação do professor e condições de atuação.
Somente assim será possível o resgate do espaço de brincar da criança no dia-a-dia da escola.

A formação do educador infantil, ganha em qualidade se, em sua sustentação, estiverem presentes três pilares:
I . Formação teórica.
II . Formação pedagógica.
III. Formação lúdica.

A decisão de se permitir envolver no mundo mágico infantil seria o primeiro passo que o professor deveria dar.
Explorar o universo infantil exige do professor conhecimento teórico, prático, capacidade de observação, amor e vontade de ser parceiro da criança neste processo.
Nós professores podemos através das experiências lúdicas infantis obtermos informações importantes no brincar espontâneo ou no brincar orientado. Estasdescobertas podem definir critérios tais como:
I . A duração do envolvimento em um determinado jogo;
II . As competências dos jogadores envolvidos;
III . O grau de iniciativa, criatividade, autonomia e criticidade que o jogo proporciona ao participante;
IV . A verbalização e linguagem que o acompanham o jogo;
V. O grau de interesse, motivação, satisfação, tensão aparente durante o jogo (emoções, afetividade);
VI . Construção do conhecimento (raciocínio, argumentação, etc);
VII. A aplicação de jogos, brincadeiras e brinquedos em diferentes situações educacionais podem ser um meio para estimular, analisar e avaliar aprendizagens especifica, competências e potencialidades das crianças das crianças envolvidas.

No brincar espontâneo podemos registrar as ações lúdicas a partir da: observação, registro, análise e tratamento.
Com isso, podemos criar para cada ação lúdica um banco de dados sobre o mesmo, subsidiando de forma mais eficiente e cientifica os resultados das ações.
É possível também fazer o mapeamento da criança em sua trajetória lúdica durante sua vivência dentro de um jogo ou de uma brincadeira, buscando dessa forma entender e compreender melhor suas ações e fazer intervenções e diagnostico mais seguros ajudando o individuo ou o coletivo.

As informações obtidas pelo brincar espontâneo permitem diagnosticar:
I. Ideais, valores interessantes e necessidades do coletivo ou do individuo;
II. Estágio de desenvolvimento da criança;
III. Comportamento dos envolvidos nos diferentes ambientes lúdicos;
IV. Conflitos, problemas, valores, etc;

Com isso podemos definir, a partir de uma escolha criteriosa, as ações lúdicas mais adequadas para cada criança envolvida, respeitando, assim o principio básico de individualidade de cada ser humano.
Já no brincar dirigido se pode propor desafios a partir da escolha dos jogos, brinquedos ou brincadeiras determinadas por um adulto ou responsável.

Segundo o professor ALMEIDA (1987) a educação lúdica pode ter duas consequências, dependendo de ser bem ou mal utilizada:
I. A educação lúdica pode ser uma arma na mão do professor;
II. Despreparado, arma capaz de mutilar, não só o verdadeiro sentido da proposta, mas servir de negação do próprio ato de educar;
III. A educação lúdica pode ser para o professor competente um instrumento de unificação, de libertação e de transformação das reais condições em que se encontra o educando. É uma prática desafiadora, inovadora, possível de ser aplicada.

Sobre este tema do papel do educador como facilitador dos jogos, das brincadeiras, da utilização dos brinquedos e principalmente da organização dos espaços lúdicos para criança de 0 a 6 anos muito poderia ser dito, mas gostaríamos de chamar atenção sobre alguns aspectos considerados importantes para facilitar a relação da criança e do professor nas atividades lúdicas.


Concluindo.
Para finalizar, é preciso reiterar que a brincadeira, como qualquer atividade humana, é uma ação que é aprendida pelas crianças, desde a mais tenra idade, nas relações que estabelecem com parceiros mais experientes quando bebês, parceiros da mesma idade ou mais velhos quando mais crescidas.
O contato, manipulação e uso dos brinquedos, por seu lado, possibilita às crianças uma aprendizagem multidisciplinar das formas de ser e pensar da sociedade.
Portanto, a brincadeira é uma situação privilegiada de aprendizagem infantil.
Ao brincar, o desenvolvimento infantil pode alcançar níveis mais complexos por causa das possibilidades de interação entre os pares numa situação imaginária e pela negociação de regras de convivência e de conteúdos temáticos.
Na escola é possível o professor se soltar e trabalhar os jogos como forma de difundir os conteúdos.
Para isso, entendo ser necessários a vivência, a percepção e o sentido, ou seja, o educador precisa selecionar situações importantes dentro da vivencia em sala de aula; perceber o que sentiu como sentiu e de que forma isso influencia o processo de aprendizagem; além de compreender que no vivenciar; no brincar, a criança é mais espontânea.
Sem dúvida , os conteúdos podem ser trabalhados com o uso do jogo.
A criança pode trabalhar ou fixar um conteúdo com atividade lúdica.
Mas, para isso, o jogo é uma das estratégias e não a única.
Entendo ainda que o primeiro passo para se trazer o lúdico, a brincadeira para dentro da escola, é o resgate da infância dos próprios educadores, a memória.
Do que brincavam, como brincavam, lembrar-se de uma figura especial.
É um momento de humanizar as relações, de resgatar o sentimento e lembrar como eles eram e o que sentiam quando viviam o momento que as crianças, seus alunos, estão vivendo agora.
Todo mundo foi criança e teve essa vivência.
Penso que atualmente, o problema da utilização do jogo na escola, está no fato dele ser usado apenas como instrumento pedagógico e não como uma linguagem através da qual o professor pode ter informações da criança.
No Referencial Curricular Nacional de Educação Infantil “está incluída na lei a importância de brincar e levar a arte para dentro da educação infantil”.
Há o movimento pela formação dos professores, que precisam ser capacitados e se soltar dentro do lúdico.


Para saber mais sobre o assunto. 
ALMEIDA, M. T. P. Jogos divertidos e brinquedos criativos. Petrópolis: Vozes, 2004.

BRASIL. Lei no 9.394, de 23 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto, 1996.

CARVALHO, R. E. A. Nova LDB e a Educação Especial. Rio de Janeiro: WVA, 1997.

FERNANDES, A. O Saber em Jogo. Porto Alegre: Artmed, 2001.

FREITAS, A. L. S. de. Pedagogia da conscientização: Um legado de Paulo Freire a formação de professores. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001.

HUIZINGA, J. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 1999.

KAMII, C.; DEVRIES, R. Jogos em Grupo na Educação Infantil: implicações na teoria de Piaget. São Paulo: Trajetória Cultural, 1991.

KAMI, C.; DEURIES, R. Piaget para educação pré-escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

LÜCK, H. Pedagogia Interdisciplinar: Fundamentos teóricos metodológicos. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2002.

NEGRINE, A. Aprendizagem e desenvolvimento infantil. Porto Alegre: Prodil, 1994.

PIAGET, J. A psicologia da criança. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,1998. 

SEVERINO, A. J. “A formação profissional do educador: pressupostos filosóficos e implicações curriculares” In: ANDE, Ano 10, n° 17, 1991.

VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

FAZENDA, I. (org). Metodologia da Pesquisa Educacional. São Paulo: Cortez, 1999.


Texto: Profa. Cintia Gonçalves Landulfo Beviani.
Pós-Graduanda em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/UNICSUL.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A importância da ludicidade no ensino da matemática nas séries iniciais.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Volume fev., Série 06/02, 2012, p.01-12.

O presente artigo faz parte da Monografia de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/Universidade Cruzeiro do Sul, orientada pelo Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.


Este artigo surgiu da necessidade de demonstrar a importância do lúdico no ensino da matemática para alunos do 1° ao 3° ano do ensino fundamental, por ser nesta faixa etária que os alunos, por sua natureza se mostram mais receptivos àquilo que pode ser concreto e visual.
Pensando nos alunos que recebemos hoje na escola, tão dinâmicos e cheios de informações, vindas de diferentes realidades, surge entre nós professores a ânsia de progredir com estes conhecimentos, aprimorando-os para que encontrem sua eficácia no dia a dia destes pequenos.
Como estão na fase de alfabetização, muitos alunos, antes mesmo de “ decifrarem”  o mundo escrito que os rodeiam, já convivem com a matemática em várias situações de seu cotidiano.
O ensino da matemática, por ser uma ciência exata, nos remete ao erro de pensarmos em uma única maneira de chegarmos a uma resposta, quando na verdade as possibilidades e caminhos para isso são inúmeras.
Para as crianças, nos primeiros anos de escolaridade, entender o que é a matemática e suas funções na vida diária é muito abstrato e neste momento o lúdico se faz presente, pois este sim, faz parte do contexto de infância da criança, afinal, brincar faz sentido para ela.
Em contraponto estão os professores, que se empenham em ensinar os conteúdos pré estabelecidos por um currículo, pouco flexível, tendo como seu único instrumento, o conhecimento da sua época escolar.
Conhecimento este, muitas vezes não atualizado com o passar dos anos e que não acompanham esta turminha do século XXI.
Desta forma acontecem os conflitos sobre o que e como ele (o professor) aprendeu matemática, as novas idéias sobre este ensino, o conhecimento que os alunos trazem e dentro disso como transmitir o conteúdo curricular.
Assim neste artigo procurei desvendar um pouco mais o mistério que envolve a matemática e fazer-nos pensar em como deixá-la mais branda, mas não menos eficaz, buscando sua funcionalidade no cotidiano das crianças.


A importância do lúdico através dos tempos.
Para entendermos melhor a importância do lúdico através dos tempos, voltaremos o olhar aos pensadores e defensores do lúdico da antiguidade.
A ludicidade sempre fez parte da vida dos seres humanos desde os povos primitivos, porém esta não era tida como forma de prazer , mas sim parte de suas obrigações diárias.

Eis alguns filósofos e pensadores e suas idéias sobre o lúdico:
Platão ( 427- 348) apud. Paulo Nunes de Almeida- 1998, afirmava que os primeiros anos da criança deveriam ser ocupados com jogos educativos, praticados em comum pelos dois sexos, sob vigilância e em jardins da infância.
Platão introduziu também, uma prática matemática lúdica. Ele aplicava exercícios de cálculos ligados a problemas concretos da vida e dos negócios.
Montaigne (1533 - 1592): Fazia a criança ter a curiosidade pelas coisas ao seu redor;
Comênio (1592- 1671): Tinha três idéias que foram a base da nova didática: naturalidade, intuição e auto-atividade;
Rosseau: (1712 - 1778): Demonstrou que a criança não aprende nada senão por uma conquista ativa.
Pestalozzi (1746 - 1827): Defende que o jogo é um fator decisivo que enriquece a responsabilidade e fortifica as normas de cooperação.
Froebel (1782 - 1852): Estabelece que a pedagogia deve considerar a criança como atividade criadora e despertar, mediante estímulos, suas faculdades próprias, para criação produtiva.
Com Froebel se fortalecem os métodos lúdicos na educação.
Dewey (1859 - 1952): Para ele o jogo faz o ambiente natural da criança e as referencias abstratas não correspondem ao interesse da criança.
Maria Montessori (1870 - 1952): Remonta as necessidades dos jogos educativos de Froebel para educação de cada um dos sentidos. Os jogos “sensoriais”.
Jean Piaget: Piaget acredita que os jogos não são somente forma de distração para as crianças, mas sim meios que enriquecem o desenvolvimento intelectual.
Conclui: “Os métodos de educação das crianças exigem que se forneçam a elas um material conveniente, afim de que jogando, elas cheguem a assimilar as realidades intelectuais que sem isso permanecem exteriores à inteligência infantil” (Op.cit. p.158 ).
Georges Snyders: Caracteriza o jogo como uma atividade séria que exige esforço, porém sem perder o prazer de brincar.
Paulo Freire: Considera  o conceito do trabalho – jogo e segue o pensamento de Makarenko e Snyder, tendo como princípio que apesar de penoso ou trabalhoso que o aprendizado possa parecer deve-se ter prazer e alegria em fazê-lo.

Como vemos a ludicidade esteve presente desde muito tempo e por diferentes pontos de alguns pensadores.
O lúdico traz ao cotidiano das crianças, o prazer de ser criança, de realizar fantasias e se divertir, sendo então de suma importância em seu desenvolvimento mental e social.

“O jogo é tão importante na vida da criança como o trabalho para o adulto” (MAKARENKO, 1981,  p.47)


A didática da matemática nos dias de hoje.
Como vimos muitos foram os pensadores que colocaram em discussão a importância do lúdico através dos tempos, mas foi depois de Piaget (1896 - 1980) e Vygotsky (1896 - 1934) com a psicologia do desenvolvimento e da abordagem socioconstrutivista, que essas discussões se intensificaram.
No Brasil e no mundo,surgiu uma grande preocupação com o baixo rendimento dos estudantes em matemática, e em busca de soluções para as dificuldades dos alunos novas propostas e estudos foram construídos, daí surge a didática da Matemática ou Educação Matemática, como é mais conhecida no Brasil.
O professor neste contexto, passou de simples transmissor de conteúdos, para mediador do conhecimento entre os alunos.
Já não é mais o único a manter o saber absoluto e agora tem o papel de desafiar seus alunos para que com suas próprias construções sejam capazes de progredir em seus aprendizados.
No livro Didática da Matemática, Roland Charnay afirma: "O aluno deve ser capaz não só de repetir ou refazer, mas também de resignificar diante de novas situações, adaptando e transferindo seus conhecimentos para resolver desafios".
Dentro das novas perspectivas no ensino da matemática muitos autores enfatizaram a importância dos jogos neste novo processo. Constance Kamii, natural de Genebra , filha de pais japoneses e seguidora de Piaget, trata das questões da natureza do número, princípios de ensino, a prática pedagógica dos professores entre outros assuntos.
Enfatiza a importância do conceito de quantidade e as suas múltiplas aplicações na vida das nossas crianças, com todas as consequências pedagógicas.Parte da afirmação de Piaget "O jogo é um tipo de atividade particularmente poderosa para o exercício da vida social e da atividade construtiva da criança".
Assim pontua nos seus trabalhos os jogos em grupo, como fator de importância para o desenvolvimento da capacidade cognitiva e interpessoal, sendo mais eficiente e prazeroso, do que folhas de exercícios e atividades similares.
"A crescente capacidade de jogar em grupo é uma conquista cognitiva e social de grande importância…que deve ser encorajada antes dos cinco anos e estimulada depois dessa idade".
Vê a "autonomia" como finalidade da educação. (http://www.wook.pt/authors/detail/id/10556)


Matemática: será mesmo a vilã da história?
Será mesmo que o aprendizado da matemática tende a ser menos prazeroso e mais árduo que as outras disciplinas.
É natural ouvirmos pessoas dizerem que sua maior dificuldade é aprender matemática.
Cálculos, resolução de problemas, raciocínio lógico etc, são verdadeiros enigmas e desafios.
Vivemos um problema cultural no qual crescemos escutando os professores, em sua maioria, passar informações sobre cálculos e operações que na maioria das vezes não ultrapassava os muros da escola, pelo menos não dá forma como nos era transmitido.
Contas serviam para resolver os problemas passados na lousa, com o primeiro sendo exemplo. E os problemas me pareciam que serviam para treinar nosso poder de adivinhação em qual contas usar.
A matemática sempre nos foi ensinada como algo paralelo ao mundo real.
Durante muito tempo se acreditou que o aluno é uma tábua rasa, que só recebe informações, as vai acumulando, e no momento certo (geralmente a hora da prova), este aluno deve “despejar” tudo aquilo que aprendeu para que o professor (usando sua potente caneta vermelha) lhe concederá uma nota, depois de avaliar seus erros.
Este ponto de vista vêem cada vez mais sendo discutido e questionado por muitos pensadores da matemática, pois é cada vez mais claro que os alunos estão chegando à escola com muitos questionamentos e não aceitam a informação dada pela professora como única e correta, eles trazem em sua mochila escolar, muito mais que lápis e cadernos, trazem indagações e hipóteses do mundo em que vivem e pelo qual diariamente são desafiados, seja no jogo do celular, na internet ou em um simples canal da televisão.
Dentro deste contexto, visualizar os professores como únicos donos dos saberes já nos remete no pensamento aulas chatas, fora de sentido real e pouco estimulantes, o que provavelmente formará alunos que não gostem de matemática.
A ideia da contextualização no ensino da matemática vem oferecer o mundo real dentro da sala, com situações que oportunizem aos alunos falarem sobre seus conhecimentos prévios e aprimorar suas ideias pela intervenção do professor.
Lerner e Sadorsky (1996) - apud Ana Ruth Starepravo -, em estudo sobre a compreensão do sistema de numeração decimal por crianças em idade pré-escolar, constataram que as crianças elaboram critérios próprios para produzirem representações numéricas e que a construção das notações convencionais não segue a ordem da sequência.
Isso ocorre porque fora da escola as crianças convivem com números e estes não se apresentam em partes.
O número de sua casa, por exemplo pode ser bem maior que dez, então porque na escola a criança tem que aprender os números na sequência numérica convencional?
Será que tendo o número de sua casa 221, a criança na escola tem que saber até o 100 para só então descobrir o 200?
Quando a criança é levada a levantar hipóteses e poder observar as hipóteses dos colegas, encontra maiores possibilidades de confrontar seus conhecimentos e construir novos conceitos o que a leva para o caráter ativo da aprendizagem.
Para Piaget, conhecer é agir sobre um objeto, é modificar, transformar o objeto e entender o processo desta transformação (apud. Ana Ruth Starepravo).
O lúdico, neste contexto, se apresenta na matemática das séries iniciais como um importantíssimo instrumento para a criança colocar em jogo seus conhecimentos, visto que, de maneira informal, o aluno se sente mais a vontade para se expor seus pensamentos.
             

Quem são os alunos do século XXI?
Retomando a um passado já um pouco distante, quando falávamos em sala de aula, nos vem na memória carteiras enfileiradas, alunos uniformizados atentos à explicação de uma professora com olhar frio a sua lousa ou um livro.
Nesta lousa há um texto longo de ponta a ponta para ser copiado nos mínimos detalhes.
Neste ambiente, o silêncio impera e os questionamentos não existem.
O erro era encarado como falta de atenção ou respeito sendo motivos para diversas punições tanto físicas como vexatórias.
O professor imperava como único proprietário do saber e do conhecimento.
Com a evolução da espécie humana durante os anos, muitos foram os pensadores que começaram a questionar sobre a educação oferecida, e então estudar sobre o assunto.
Hoje ao entrarmos em uma sala de aula, na maioria da vezes, observamos crianças falantes e inquietas, geralmente pouco interessada em seus deveres, muito questionadoras e dinâmicas em seus pensamentos e associações.
O professor nesta sala, encontra-se, muitas vezes, desmotivado e sem animo para transformar ou agir sobre este novo perfil de criança, em seu conceito muito indisciplinadas e desatentas.
O professor por estar acostumado em ser o possuidor do conhecimento não identifica o que os alunos de hoje trazem em sua “bagagem pessoal”, aprendidos em casa, em socialização com os amigos ou através das novas tecnologias disponíveis em toda a sua volta.
Suas aulas, então, restringem-se a conceitos ultrapassados e formas de ensino que não são atrativas e se distanciam da realidade apresentadas pelos alunos.
Daí as tais “indisciplinas” são geradas e o desconforto se faz entre as partes.
Estamos em uma era de conflitos entre pais, filhos e professores.
Pais acreditam que é na escola o lugar para se ensinar bom comportamento, quando educação deve vir de casa.
Também não é de agrado destes pais, cadernos sem conteúdos e lousas vazias, mesmo que a nova proposta seja eficaz, falta conteúdo e para muito deles a professora está fazendo “corpo mole”.
Por parte dos professores, estão em sua maioria descontente com salários, e valorização de seu trabalho, quando o que deveria imperar seria o amor por sua profissão.
Claro que todo o resto é importante, porém àquela criança que lhe foi confiada, não tem culpa do sistema e tem direito a aprender.
Os alunos, por sua vez, encontram na escola um lugar para encontrar os amigos, merendar e ouvir aulas que para ele nada lhe acrescente em sua vida cotidiana, está ali para estudar quando tem prova e acertar o máximo de questões que ele lembrar ou que a sorte permitir.
Falta interesse de todos os lados.
A criança de hoje é esperta, dinâmica, questionadora, desafiadora e vive em um mundo virtual, onde a tecnologia está por todos os lados.
O aluno inquieto quer saber e não gosta de repetições.
Está dentro da sala de aula sempre testando o professor, os colegas e a si próprio, avaliando até onde pode ir com os seus conhecimentos.
Qual adulto hoje já não se perguntou: “Na minha época isso não existia”. ou ainda “A criança daqui à alguns anos nascerá falando!”.
A criança da era moderna é ativa, informatizada pela televisão, internet, celulares e etc.
Tem dentro de si um cartão de memória, funções e aplicativos próprios, que ultrapassam nosso entendimento.
E se não corrermos atrás das atualidades que nos cercam, ficaremos fora do olhar de admiração de um aluno.
Antigamente um aluno leria e copiaria dez vezes a frase: “O bebê baba.”.
Hoje as questões seriam várias: “Por que ele baba? “, “ O bebê é seu filho? “, “ Qual o nome do bebê?”. “Ele não tem um babador?”
Precisamos perceber que junto com a passagem do tempo, muitas mudanças no ensino também aconteceram, as crianças foram estudadas por muitos pensadores sobre o assunto, na sua forma de pensar e como aconteciam os mecanismos de aprendizado.
Dentro deste contexto o trabalho com o lúdico se torna um aliado importante e indispensável no aprendizado dos alunos, principalmente nas séries iniciais, momento pelo qual o interesse e a vontade de aprender, se acentuam sem deixar de ser a criança para ser somente o aluno.
O que nós professores temos que nos conscientizar é que nossos alunos das séries iniciais antes de tudo são crianças com desejos próprios da idade.
O lúdico na sala de aula traz a tona o estímulo necessário para o aprendizado do aluno, como o prazer em aprender conceitos dentro do seu próprio mundo, o que posteriormente será transmitido ao seu mundo adulto.
Resumindo a criança do século XXI, não é a mesma de alguns anos atrás, questiono então porque o aprendizado desta criança teria que ser igual?


Os jogos como aliados no processo da aprendizagem matemática.
Muitas são as brincadeiras que cercam o mundo da criança e que podem ser boas estratégias para o ensino da matemática, tais como: amarelinha, pular corda, etc.
Porém ressaltarei aqui, a ludicidade trazida pelos diferentes tipos de jogos.
Os jogos aparecem de várias formas: os jogos de estratégia, de sorte, rapidez, associação, raciocínio e etc, e todos eles podem ser aliados no ensino da matemática principalmente nas séries iniciais.
O lúdico dos jogos traz para as aulas, não somente a diversão, mas muitos outros aspectos são trabalhados como: atenção, socialização,cumprimento de regras e o aprendizado do próprio jogo.
Jogando os alunos são desafiados com a intenção da vitória e coloca seus conhecimentos à tona, aprimorando-o e modificando-os através de sua capacidade de reflexão quanto as jogadas feitas.
Além disso, os jogos por serem objetos reais e trazerem metas concretas e objetivos próprios colocam os alunos em verdadeiras situações de aprendizagem, utilizando a vivência real do que lhe é proposto.
Em outras palavras o jogo é uma realidade própria da criança e a proposta de trabalhar com eles e a matemática faz com que seus conteúdos saiam, por exemplo, da rotina de resolverem contas intermináveis e sem contexto em busca do resultado correto, e utilizem o procedimento de cálculo com o objetivo de vencer um desafio, neste caso o do jogo.
O mundo dos jogos é atrativo ao aluno, pois através dele, as crianças podem colocar suas aprendizagens e hipóteses, sem serem cobrados por isso.
Trazem suas dúvidas, questionamentos, fazem  tentativas, acertam, erram, se surpreendem, se frustram, raciocinam, mudam de estratégias, se arriscam e constroem novos conhecimentos a medida que vão evoluindo em seus aprendizados, se tornando assim, não mais receptores de conteúdos prontos e definidos mas construtores de seus próprios pontos de vista ,exercitando sua autonomia em busca de novos desafios.
Pesquisadores como Kamii e Devries (1991), Kamii e Joseph (1995), Kamii e Livington (1995), Kamii e Housman (2002) apresentam as vantagens significativas do uso de jogos no trabalho com a matemática nas séries iniciais (aput Jogando com a Matemática: números e operações: Ana Ruth Starepravo).
Entre outras questões, a autora Kamii, salienta que os jogos podem substituir atividades enfadonhas como folhas de intermináveis “contas” que acabam sendo bastante repetitivas, uma vez que basta aplicar uma técnica específica para resolvê-las.
Quando jogam, as crianças devem realizar cálculos mentais e eles não são aleatórios nem desvinculados de um contexto maior.
Há um objetivo para se realizar tais cálculos, objetivo este que nas folhas de intermináveis, cálculos não passam do mero treino dos algoritmos convencionais (apud: Ana Ruth Starepravo).
Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Matemática apontam como aspecto mais relevante no trabalho com jogos o fato de que provocam desafios genuínos nos alunos, gerando interesse e prazer e, por isso mesmo,recomendam que eles façam parte da cultura escolar. Assim, os jogos não devem ser atividades “extras”, usados apenas depois que o professor já “venceu o conteúdo proposto” (apud: Ana Ruth Starepravo).
Então devemos encarar a utilização dos jogos como mais um instrumento a ser usado para atingir a meta estabelecida, explorando seus desafios, avaliando as estratégias usadas pelos alunos e ampliando os conhecimentos adquiridos.


Garantindo uma boa aula com jogos.
Quando falamos em jogar com os alunos em sala de aula, já imaginamos crianças inquietas, andando de um lado para o outro, brigando entre si, com peças espalhadas pelo chão e enfim uma bagunça generalizada, onde a função do jogo não acontece como o planejado.
Porém algumas preocupações devem acontecer no planejamento do professor, quando se refere ao trabalho com jogos.
Primeiramente o professor deve ter em mente que o jogo será realizado como estratégia de ensino de um determinado conteúdo e por isso deve oferecer um desafio possível aos alunos, isto é, o desafio não pode ser muito fácil para não desestimular os alunos, nem tão difícil ao ponto de não conseguirem ser resolvidos.
Para identificar este meio termo o professor deve fazer uma sondagem antecipada sobre o que seus alunos já sabem sobre o conteúdo a ser proposto e o que ele quer que seus alunos aprendam ou aprofundem.
Posteriormente o professor deve conversar com a sala e estabelecer combinados para os momentos dos jogos, tais como: respeito à vez dos colegas, respeito às regras, organização ao chamar o professor e etc.
No momento do jogo as regras do mesmo devem ser passadas de forma simples e deve-se certificar que todos os alunos entenderam sobre as mesmas.
Durante a atividade o professor deve andar pelos grupos ou duplas e acompanhar o processo pelo qual os alunos formam suas estratégias e fazem suas jogadas, quando achar necessário deve fazer intervenções e questionamentos , não a fim de avaliar o aluno, mas sim colocar em “xeque” o que ele sabe ou o que pode ampliar em seu conhecimento.
Lembrando que é na instabilidade que o aluno progride, se seus conhecimentos assim permitirem.
Para avaliar a produtividade do jogo os alunos podem fazer registros escritos ou através de desenhos dependendo do deu grau de maturidade, e ainda o professor pode propor questões que os alunos possam responder com base no que aprenderam.
Situações do próprio jogo são ótimas estratégias de verificação.
Desta forma os jogos devem ser escolhidos por seus conteúdos e desafios condizentes com os objetivos do professor.
Os jogos podem e devem ter vencedores, mas esta não deve ser a principal função de se jogar, por outro lado a competição não deve ser desprezada, pois é através dela que acontecem os estímulos para que o jogo aconteça de forma prazerosa.
Com toda esta carga de responsabilidade sobre os jogos, não devemos esquecer que antes de serem instrumentos de aprendizagem, são fontes de alegria e diversão, por isso deixar os jogos só para o aprendizado também não será uma boa escolha, pois este se tornará cansativo e exaustivo.
Dentro do cronograma escolar o professor deve deixar um tempo para que os alunos brinquem por brincarem, pois este ato também faz parte da infância e traz benefícios mentais tão eficazes quanto o aprendizado em si.


Sugestões de jogos matemáticos.

BORBOLETA *
Este jogo pode ser usado para que os alunos aprendam a fazer cálculo mental, a resolver problemas envolvendo adição e fazer comparação de quantidades.
Organização da sala: em grupos de quatro alunos
Recursos necessários: todas as cartas de um baralho, exceto reis, damas e valetes.
Meta: conseguir formar o maior número de conjuntos de cartas com uma dada soma.
Anos: 2°, 3° e 4°

Regras:
  1. Cada jogador recebe três cartas que devem ficar viradas para cima, à sua frente durante toda a partida.
  2. Outras sete cartas são também colocadas com face para cima, em uma fileira no centro da mesa, e as demais ficam em um monte para reposição.
  3. Na sua vez, o jogador deve pegar as cartas do meio que forem necessárias para que consiga chegar ao mesmo total que o de suas três cartas.
  4. Quando ele não mais conseguir formar conjuntos com a sua soma, deve repor as cartas que usou do meio com outras do monte e passar a vez ao próximo.
  5. Ao final do jogo, quem obtiver mais conjuntos de cartas com as suas somas será o vencedor.

Problematizações possíveis:
¨      As cartas de Lucas são 3, 5, 9. Qual é a soma dele durante o jogo?
¨      Paula tem sempre que formar 17. As cartas na mesa na sua vez de jogar são 3, 5, 6, 9, 1, 10, 4. Quais cartas ela pode pegar para conseguir sua soma?

Variações:
  1. Pode ser jogado com quatro cartas para cada jogador e nove cartas no centro da mesa.
  2. Em vez de adição pode-se fazer uma multiplicação com o valor das três cartas. Nesta versão o jogo é mais indicado ao 4° ano.

UM EXATO *
Este jogo auxilia a reconhecer e nomear números naturais, a justificar respostas e o processo de resolução de um problema e efetuar adições e subtrações mentalmente.
Organização da sala: em duplas
Recursos necessários: quadro de centena numerado, três dados e 15 marcadores de cores diferentes para cada jogador.
Meta: conseguir chegar exatamente ao 1.
Anos: 2°e 3°

Regras:
  1. Cada jogador coloca o seu marcador na casa de número 100 do quadro de centena.
  2. Os jogadores revezam-se lançando os três dados e somando ou subtraindo os resultados, conforme acharem melhor.
  3. Se um jogador obtém 20, por exemplo, com a soma dos três dados, subtrai esse valor mentalmente de 100 e coloca um dos seus marcadores no 80 e não tira mais o marcador de lá.
  4. O mesmo procedimento é realizado pelo próximo jogador, mas se ele também obtiver o valor 20 não poderá colocar o seu marcador no 80 pois já tem um marcador do oponente. Nesse caso ele terá que passar a vez e continuar onde estava antes da jogada. Isso significa que o jogador antes de dizer o resultado da conta feita com seus dados precisa cuidar para não chegar ao valor de uma casa já marcada.
  5. Se o jogador avaliar que não é possível chegar a uma casa de menor valor que aquela que ele estava e que não estava marcada, passa a vez.
  6. O objetivo do jogo é seguir até o 1, exatamente. Se o jogador não conseguir chegar a 1, a partida continua até que alguém o atinja exatamente.

DOMINÓ DE FRAÇÕES*
Esse jogo favorece a compreensão das diferentes representações de frações.
Organização da sala: quartetos
Recursos necessários: as peças do dominó de frações.
Meta: ser o primeiro a descartar todas as peças
Anos:  3° e 4° ano.

Regras:
  1. Os jogadores decidem a ordem e quem começa a jogar.
  2. embaralham as cartas e distribuem igualmente entre os jogadores
  3. O primeiro jogador coloca um de seus dominós sobre a mesa.
  4. O segundo jogador deve colocar uma peça que tenha uma das “pontas” igual a das peças já colocadas na mesa. Se não tiver uma, passa a vez.
  5. Vence o jogo aquele jogador que conseguir bater, ou seja, colocar todos os seus dominós na mesa em 1° lugar.


* Os jogos aqui sugeridos foram retirados do livro: Smole, Kátia Stocco; Ignez Diniz, Maria; Candido, Patrícia; Caderno do Mathema. Jogos de Matemática de 1° a 5°ano. Artmed: 2007


Concluindo.
Retomando tempos passados e comparando com a realidade que nos cerca nos dias de hoje, pude concluir que o lúdico faz parte da vida dos seres humanos desde os tempos mais remotos.
Ora criticado, ora apoiado.
Ora somente como forma de prazer, ora como objeto de estudo e trabalho.
Sua importância se faz clara mediante as expectativas cada vez mais dinâmica de nossos alunos.
Este lúdico associado ao ensino da matemática traz ao aluno o desafio de colocar em prática seus pensamentos e hipóteses sem medo de ser reprimido ou corrigido.
No jogo o aluno sofre as conseqüências de sua escolha, cria novas estratégias, raciocina sobre o que lhe é passado.
Ao professor, quando bem utilizado, o lúdico auxilia-o em descobrir o que de fato o aluno sabe, criando subsídios para seu trabalho posterior, desperta o interesse deste aluno para o conteúdo trabalhado, fazendo-o utilizar a matemática como estratégia para solucionar problemas, cria condições de socialização entre os alunos, discute regras e propõem novas soluções, tudo isso sem que a aula seja temida ou frustrante.
O jogo traz autonomia aos alunos de forma que, cada vez mais, vai utilizando seu aprendizado para progredir em seus conhecimentos.
Acredito que a matemática pode ser bem melhor explorada através de contextos significativos, jogos e brincadeiras, pois trazendo o conteúdo que era meramente decorado, explicado e treinado, como algo que faz sentido e pode ser utilizado na vida prática, faz do aluno um ser pensante e atuante nos mais diferentes contextos.
Claro que nem todos os conteúdos matemáticos poderão ser transmitidos através de jogos e brincadeiras, mas cabe ao professor atuar como pesquisador e procurar aprender cada vez mais estratégias lúdicas para atingir seus objetivos, trazendo a sua aula mais dinâmica e verdade.
Por fim enfatizo o ensino da matemática utilizando o lúdico para alunos das séries iniciais, não somente por ter mais experiência com esta faixa etária e notar mais claramente a ansiedade dos alunos em aprender, mas também por acreditar que é nesta fase que as crianças se mostram mais curiosas e menos resistentes a “entrar na brincadeira”, por isso então iniciam seus aprendizados de matemática sem traumas e cobranças desnecessárias, afinal nós professores temos que lembrar a todo momento que o aluno não é uma caixa vazia onde acreditamos guardar todos os ensinamentos que julgamos válidos e importantes, mas sim uma cartola mágica, da qual não sabemos ao certo o que vai surgir, mas podemos usar o truque da magia para impressioná-los cada vez mais.  

“Como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha”.
“Não posso ensinar o que não sei.”
(FREIRE, 1996, p.95)


Para saber mais sobre o assunto.
Brasil MEC/SEF. Proposta Pedagógica e currículo em Educação Infantil. Brasília: 1998.
Brasil MEC/SEF. Referencial Curricular para Educação infantil. Brasília: 1998.
Brasil MEC/SEF. Ministério da Educação e do Desporto. 1998. Parecer CEB/CNE 022/98 Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. 1998.
Brasil MEC/SEF. Ministério da Educação e do Desporto. Parecer CEB/CNE 04/2000. Diretrizes  Operacionais para Educação Infantil. 2000
KAMII, Constana. A Criança e o número: Implicações Educacionais da Teoria de Piaget para a atuação junto a escolares de 4 a 6 anos. Campinas: Papirus, 1990.
KISHIMOTO, Tisuko M. (orgs). Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 2008.
LIMA, Reginaldo Naves de Souza; VILA, Maria do Carmo. Matemática. Contactos Matemáticos do Primeiro Grau. De risco a curva, desta a reta. De retas o plano. Cuiabá: EdUFMT, 2003.
MACEDO, L. A. A Importância dos Jogos para a Construção do Conhecimento na Escola. 1994 (mimeo)
MORI, Iracema. Viver e Aprender Matemática. 2ª série. São Paulo: Saraiva, 2004.
MOURA, M. “A Séria Busca no Jogo: do lúdico na matemática” In: KISHIMOTO, T. T. M. (Org.) Jogo, Brinquedo, Brincadeira e Educação. São Paulo: Cortez, 1977.
NACARATO, Adair Mendes. et al. A matemática nos anos iniciais do ensino fundamental. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: 1975.
SMOLE, Kátia Stocco. et al. Cadernos do Mathema, jogos de matemática de 1° a 5° ano. Porto Alegre: Artmed, 2007.
STAREPRAVO, Ana Ruth. Jogando com a matemática: números e operações. Curitiba: Aymará, 2009.

SITES:


Texto: Profa. Andréa Limones de Oliveira.
Pós-Graduanda em Psicopedagogia Institucional pelo INEC/UNICSUL.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A importância da ética para o profissional da Comunicação: reflexões sobre a formação acadêmica nos cursos de graduação.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Volume fev., Série 01/02, 2012, p.01-06.


Hoje a palavra ética é recorrente nos meios de comunicação, muito se fala de transgressões e quebra de preceitos éticos.
No entanto, os profissionais da comunicação quase sempre confundem ética com moral e direito, não conseguem discernir problemas específicos exatamente por carecerem de formação teórica.
Como formadores de opinião, estes profissionais terminam convertendo a ética em ideologia que aliena a massa e desvirtua o significado e função da ética.
É por isto que, tradicionalmente, a imagem do Brasil, perante os estrangeiros e os nacionais, situa a esfera ética confusamente, perpetuando, por exemplo, a inexistência de fronteiras entre o público e o privado, principalmente, quando se trata da organização do Estado.
Neste sentido; enquanto em outros países a separação do público e privado domina discussões na mídia e no seio da sociedade; no Brasil a junção é nítida, descambando na utilização de recursos públicos para gerir gastos pessoais, no nepotismo e em tantas outras mazelas.
Tudo, sem que as pessoas debatam estas situações adequadamente, fazendo imperar a impunidade, mesmo quando as são infringidas.
A transformação da sociedade, para dar conta de construir valores éticos que beneficiem a coletividade, passa pela mudança de mentalidade individual, onde os meios de comunicação se tornam essenciais para liderar debates e esclarecer educando o grande público.
Entretanto, antes, é necessário possibilitar aos profissionais da comunicação uma fuga do senso comum, penetrando além das aparências alienadoras, formando conceitos teóricos sólidos para informar corretamente a massa.
É óbvio que, para isto, faz-se necessário também abordar a ética enquanto constitutiva de uma prática profissional, padronizando e regulando comportamentos e posturas, organizadora de procedimentos.
O que, em simultâneo, poderia, junto com outros meios, como a educação, por exemplo, mudar significativamente a vida das pessoas para melhor e ajudando o Brasil a progredir.
Uma discussão que remete a formação acadêmica dos profissionais da comunicação, com conceitos e parâmetros adquiridos ainda durante os cursos de graduação.


A formação teórica dos profissionais da Comunicação.
Como integrante da coletividade, o profissional da comunicação é também um individuo polos rumos da sociedade, integra a massa e compartilha seu destino.
A despeito de, ao mesmo tempo, ser um formador de opinião, influindo na direção da coletividade, o que remete a responsabilidade social e a formação teórica.
 A responsabilidade social pode ser definida como a capacidade de colaborar com a sociedade, considerando seus valores, normas, expectativas e necessidades; atendendo uma obrigação imposta pelo chamado Pacto Social, que permite ao ser humano viver em grupo.
Isto porque a vida em sociedade só é possível a partir do respeito ao outro, da imposição de limitações que garantem a liberdade de todos e um ambiente de colaboração garantidor da sobrevivência da espécie frente às forças da natureza.
O âmago do Pacto Social é justamente este, caracterizado pelo fato do individuo abrir mão de sua liberdade plena em favor da garantia de proteção, representada pela coletividade e o Estado.
Diante deste panorama, a formação ética do profissional da comunicação torna-se essencial, atendendo uma necessidade coletiva que tem o Pacto Social no centro do processo educativo.
A circulação de informações através da mídia pode ajudar a solucionar os problemas enfrentados pela sociedade ou, ao inverso, agrava-los, prejudicando a coletividade e, indiretamente, os indivíduos responsáveis por sua divulgação ou criação.
A partir deste fato e de outros decorrem consequências práticas inerentes à presença da ética nos cursos de comunicação, tornando a disciplina indispensável.
O momento da formação profissional comporta uma construção epistemológica do conhecimento que guiará a conduta do individuo, fornecendo embasamento para responder a questão do que e como comunicar, assim como proceder na relação com o outro.
O que implica em perguntar o que deve ou não ser comunicado, além do questionamento dos limites e barreiras colocados diante da prática profissional; facultando um exercício virtuoso da profissão.
A grande questão é que não se ensina virtude, mas apenas preceitos, conceitos considerados corretos em determinado contexto e, portanto, relativos no tempo e espaço.
Assim, o que precisa ser abordado na formação do profissional da comunicação é a abordagem conceitual e os fundamentos axiomáticos, permitindo ao estudante discernir por si só o certo di errado, construindo seu caráter ético.
Cabe lembrar que, por definição, um axioma é uma verdade autoexplicativa, portanto universal e atemporal; servindo para a construção de teorias e para deduções por inferência.
A palavra axioma vem do grego e significa “considerar valido”, derivando de axios, cujo significado é válido, equilibrado ou valor.
Nos cursos de comunicação, para atingir esta intenção, é necessário discutir os fundamentos da ética, sua evolução conceitual e distinção com relação a moral e o direito.
Remetendo a teoria e práxis, a aplicação prática do conceito de ética e as possibilidades abertas pela postura tida como correta ou errada.
O que conduz aos fundamentos da moral, sua evolução, presença no Estado e sociedade, além do vinculo com a ética e a religião.
Munido destes referenciais, é possível adentrar a ética nas comunicações, penetrando na problemática da responsabilidade social, na legislação atualmente existente e na padronização e sistematização de condutas profissionais.
Não se trata de doutrinar o estudante, mas sim de instigar o questionamento e fornecer base teórica para uma discussão aprofundada sobre a ética na comunicação, dinamizando a relação do profissional com a sociedade.


Ética na Comunicação.
A partir da década de 1990, o avanço da tecnologia e a globalização criaram novas mídias que complementaram o que podemos chamar de meios tradicionais.
Ao lado da mídia impressa – tal como jornais e revistas – e da mídia eletrônica – como radio e TV –; apareceu a internet, embrião da multimídia, composta por computadores, aparelhos portáteis de áudio e vídeo, celulares, tablets, etc.
No século XXI, a responsabilidade dos profissionais de comunicação tornou-se ainda maior, não por acaso, mais do que nunca, passou a constituir uma camada que controla o chamado quarto poder (os três primeiros seriam referentes ao Estado – Executivo, Legislativo e Judiciário).
A popularização do acesso às novas mídias transformou a sociedade da informação, criando novos espaços de circulação de conteúdos e formas de comunicação; dinamizando o relacionamento com o público, que passou também a contar com oportunidades oferecidas pela interatividade, fiscalizando e cobrando a responsabilidade por parte do profissional da comunicação.
Neste sentido, as empresas de comunicação e os profissionais de jornalismo, rádio e TV, audiovisuais e publicidade passaram a ter que lidar com os velhos dilemas éticos renovados e novos problemas que foram aparecendo.
Diante da facilidade de produção de informação e divulgação de ideias, a questão da privacidade, por exemplo, tornou-se um dos velhos temas renovados e, simultaneamente, um novo problema; com o argumento do respeito ao outro usado pelos defensores da não divulgação de informações e pelos adeptos da liberdade de expressão irrestrita.
Enquanto a divulgação responsável de informações pautou a defesa do respeito à privacidade, uma vez que poderia causar prejuízos aos envolvidos; em outra vertente, os defensores da quebra da privacidade usaram o argumento que todos têm direito ao acesso a informação, seja qual for.
Outra questão que se tornou importante foi dos direitos autorais, além do abuso da liberdade de expressão.
Problemáticas parcialmente contornadas através de legislação especifica e códigos de ética que tentam autoregulamentar os meios de comunicação e a prática de seus profissionais.
Destarte, o centro da conscientização para um exercício profissional responsável continua presente no momento da formação, onde está fixado o espaço adequado para testar, errar e reformular a postura de trabalho.
Isto porque um erro, durante a atividade profissional, pode ser prejudicial não só ao sujeito, mas principalmente ao outro, consequentemente, agredindo o conjunto da sociedade.


Ética, Liberdade e Responsabilidade.
Pensando nos meios de comunicação, em sentido amplo, somos lançados de volta aos dois elementos inerentes e indissociáveis da ética: liberdade e responsabilidade.
A facilidade de disseminação de informações, transmitidas on-line quase imediatamente, quando ocorrem os fatos ou são criadas novas ideias, acessível a qualquer um; garantiu uma liberdade irrestrita a participação nas novas mídias, que, inclusive, não estão restritas só a internet.
O que fez aflorar dois problemas que estão se tornando, cada vez mais, importantes e que precisam ser adequadamente abordados na formação dos profissionais de comunicação, remetendo novamente a relevância da ética:

1. O abuso da liberdade na divulgação de informações, em muitos casos não verdadeiros e nocivos à sociedade.
2. A facilidade e fomento ao plágio.

A sociedade capitalista nem sempre enxerga como imoral a empresa ou pessoa que inventa uma informação para obter lucro; ou aquele que comete plágio para promover sua própria imagem; mas, de uma forma ou outra, termina prejudicada direta ou indiretamente.
A problemática da liberdade conduz, portanto, a questão da responsabilidade, um olhar mais amplo do que o “eu”, para entender o “nós”.
Não se trata somente de agir em conformidade com a lei ou os preceitos estabelecidos por um grupo especifico que se autoregulamenta, é uma questão de coerência com o coletivo expresso em uma consciência interna sobre o certo e o errado.
O grande problema é que conceituar o correto passa por uma relativização que corresponde às necessidades pragmáticas do coletivo, transformando-se no decorrer do tempo, espaço e cultura.
A ética, dentro do âmbito da formação do profissional de comunicação, torna-se essencial para entender esta dinâmica e pautar definições justas e uteis ao “eu” e ao “nós” ao mesmo tempo, avançando até o “eles” e o respeito ao outro, mesmo quando diferente de nós e constituindo minorias.
Caso contrário corremos o risco de cometer os mesmos erros do passado que terminaram culminando com o nazismo e o fascismo europeu; ou ainda associados ao totalitarismo na América Latina, ao desrespeito aos direitos humanos; conduzindo até o fim da liberdade de expressão.
É uma situação paradoxal, pois o excesso de liberdade, ao deixar a ética de lado, trás em si a semente para colocar fim a qualquer forma de expressão.


Concluindo.
A problemática da ética e da liberdade na comunicação, imediatamente, conduz a uma questão de imensa importância filosófica, carecendo de uma discussão sobre o conceito de verdade.
Um debate complexo, porque, ao contrário do que se imagina, a verdade é relativa.
Pode significar simplesmente o que é verídico, tem verossimilhança; um conceito herdado dos romanos, de onde vem a palavra “veritas”, que nem sempre corresponde ao real ou a realidade.
A verdade pode ser também o que é garantido pelo argumento de alguém que é considerado confiável, hoje um papel assumido pelos meios de comunicação e seus profissionais.
Uma concepção herdade dos hebreus, para os quais a verdade era determinada pela autoridade de Deus, sendo revelada.
Embora, filosoficamente, a verdade deveria estar baseada no sentido grego; para os quais a verdade seria o que esta por trás das aparências.
Portanto, no sentido grego, nunca é verdadeiro o que é apresentado, já que a verdade carece de investigação e ponderações.
O que trás um enorme problema para qualquer mídia que comunica o que seja; visto o comunicado adquirir credibilidade perante o público.
Pensando especificamente no jornalismo, a questão da verdade adquire proporção e implicações éticas.
O jornalista pretende ser o bastião da divulgação da verdade, mas definir o que é verdadeiro não é tão fácil, depende de um tempo que o profissional não dispõe para investigar os fatos.
Por esta razão, o período de formação torna-se valioso para definir conceitos éticos que, depois, balizaram o exercício profissional, ajudando a discernir entre o certo e o errado, criando um compromisso com a verdade e o beneficio da sociedade.
Já pensando no audiovisual, ou mesmo na publicidade, a questão do plágio se coloca no centro do debate ético.
A imensa quantidade de ideias circulando pelo mundo, disponíveis a um clique nas novas mídias, torna quase impossível verificar o plágio, a não ser que o próprio autor ou outra pessoa tome conhecimento e denuncie.
A despeito da lei dos direitos autorais, no Brasil, prever e punir o plágio; é a ética que regula o comportamento, discernindo o certo do errado, evitando a infração do direito do outro e garantindo a eficácia da legislação.
Novamente, a liberdade remete a responsabilidade, a um agir coerente que pode ser categorizado como comportamento profissional.
Assim, caímos na questão do que é ser profissional; outro problema relativo e que se modifica conforme os valores construídos pelo grupo no transcorrer do tempo e espaço.
Uma problemática que conduz a formação do sujeito, pensada como mesclada entre teoria e prática, elaborada nos cursos de graduação em comunicação pelo estudo da ética.
Em todo caso, qualquer que seja a profissão, retorna ao principio básico da ética, definido como ação coerente consigo mesmo, internalizada para se fazer externa; exigindo comprometimento do sujeito com o mundo e seus semelhantes.
Agir certo é fazer a diferença para que o próprio indivíduo, o outro e a humanidade possam chegar mais próximos de alcançar a felicidade.
O problema é que agir certo também pode ser relativizado, sendo determinado, em muitos casos, pelas concepções morais.
Mais uma vez, remetendo a ética como racionalização das ações humanas e parte importante da formação acadêmica do profissional.


Para saber mais sobre o assunto.
BOFF, Leonardo. Ética e moral. 1ª ed. São Paulo: Vozes Ed., 2003.
CARDOSO, Onésimo de Oliveira. “Ética da comunicação do moralismo ao compromisso social” In: Comunicação e Sociedade. São Paulo: v. 7, 13, p. 53-58.
SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo. Ética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
VALLS, Alvaro Luiz Montenegro. O que é ética. São Paulo: Brasiliense, 1996.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.