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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tecnologia Educacional: cenário atual e desafios.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume dez., Série 14/11, 2011, p.01-09.





Neste processo muitos são os desafios e os quesitos didáticos.

A valorização do ser humano deve ser considerada para que o processo não perca o seu princípio básico educacional.

O processo de ensino-aprendizagem é complexo e exige muito da formação de seus docentes e o comprometimento de seus discentes para o sucesso.

Dessa forma, o tema abordado por este trabalho será uma análise bibliográfica da educação, educadores e o uso tecnológico como ferramenta de ensino, colaboração e aprendizado para docentes e discentes.

No final deste artigo pretendemos concluir sobre os benefícios e desafios dessa evolução tecnológica no processo de ensino-aprendizagem.





Introdução ao tema.


Além desse conceito é necessário que nesse processo os alunos encontrem sua identidade, no seu caminho pessoal, profissional e seu projeto de vida e de desenvolvimento das suas habilidades emocionais, de compreensão e comunicação que lhes sejam permitidos encontrar sua colocação pessoal, social e profissional se tornando cidadão realizados e produtivos.

A experiência pedagógica em sala de aula, orientações e publicações nos fazem refletir sobre a prática pedagógica e o cenário tecnológico atual em que estão presentes os computadores em sala de aula com interfaces específicas para a educação, onde é possível romper as barreiras de espaço e tempo escolar, inter-relacionando a escola para o mundo.

Segundo Lévy (2001) romper as barreiras de território da escola de seu contexto concreto pela descentralização da informação e expansão das interações entre todos que a compõem, aprimora o contato das diferentes manifestações culturais e abre novas perspectivas de ser e estar em determinado tempo e lugar.

A mediação das tecnologias nos processos educativos evidencia os novos processos de ensino-aprendizagem diferentes dos espaços convencionais.

Para que esse processo seja efetivo além da aprendizagem formal e a formação ao longo da vida, é importante ir além da disponibilidade de acesso aos diferentes objetos produzidos pelos meios de produção da sociedade, mas sim o acesso aos meios de colaboração de conhecimento.


Tal processo é um primeiro passo para transformação da prática educativa em espaços efetivos, prazerosos e qualificados, onde o processo seja desenvolvido por meio da construção do conhecimento sobre os conteúdos mínimos a serem trabalhados em cada nível educacional através da utilização de diversos recursos tecnológicos.

Esse artigo define alguns métodos tecnológicos que visam auxiliar a estratégia para um processo de ensino-aprendizagem mais efetivo e próximo ao aluno.

Também são trabalhados os conceitos que envolvem a prática utilizada ao ensino à distância EAD.

Sendo assim, o trabalho visa analisar as diversas formas de aplicação da tecnologia na como intermediação do processo de ensino-aprendizagem.

Pretendemos após este estudo consolidar a avaliação da eficiência dos métodos tecnológicos como prática de ensino.



Educação e Tecnologia


A tecnologia é um conceito amplo que varia de autor para autor e do seu devido contexto.

Para Reis (1995) a tecnologia é como um estudo de ferramentas, aparelhos, máquinas, dispositivos, materiais, objetivando uma ação deliberada e a análise de seus efeitos, envolvendo o uso de uma ou mais técnicas para atingir determinado resultado, o que inclui as crenças e os valores subjacentes às ações e se inter-relaciona com o desenvolvimento da humanidade.

Lévy (2001) reforça que toda a técnica faz parte sistema sócio-técnico global, onde o homem é responsável pela construção, utilização, planejamento dessa técnica, transformando-se nesse processo e provocando as transformações tecnológicas.

Nessa visão, as tecnologias são produtos sociais e culturais de uma determinada sociedade não existindo relação de causa e efeito entre tecnologia, cultura e sociedade e sim um movimento cíclico entre estes. (MORIN, 1996).

Já Damásio (2007, p. 45 e 46) aborda a definição que a tecnologia engloba os objetos de suas aplicações e contextos segundo as lógicas organizacionais e sociais.

Nessa definição as tecnologias de sistemas de informação se desenvolvem com resultado das áreas que a compõem, constituindo sistemas organizados em “camadas”.

A primeira camada é formada pela infra-estrutura de hardware, composta pela segunda, responsável pela inserção, processamento, transformação e distribuição de informações e valores sociais.

Já a terceira camada possui origem social e organizacional, a qual estrutura e condiciona as outras duas camadas.

Dessa forma a maneira mais completa que concluímos é o uso da tecnologia como fruto da integração dos elementos tecnológicos, fatores sociais e organizacionais estabelecidas na interação com o sistema constituído por esses elementos, o que propicia e fortalece a realização de experiências ativas.

Quando analisamos o contexto educativo temos que atentar para a concepção da educação como prática técnica, social e política, pois “envolve a interação complexa de todos os fatores implicados na existência humana” (GATTI, 2002, p.13), com a inserção de pessoas e o universo de experiências que a compõem.

O processo educacional se viabiliza na prática docente pedagógica onde o professor está aberto a ouvir o aluno compreendendo sua visão de mundo, instigando-lhe a curiosidade, identificando e trabalhando com dilemas e conhecimento do senso comum (FREIRE, 1996).

O professor não indica diretamente os caminhos, mas orienta o discente a transformar os conhecimentos adquiridos no dia a dia em conceitos científicos (VYGOTSKY, 1984), para que o mesmo, através de reflexão sobre suas atitudes na busca em compreendê-la (PIAGET, 1978) permita encontrar as soluções para os desafios encontrados em seu contexto, fazendo as rupturas com a visão determinista, trabalhando com o histórico como possibilidade (FREIRE, 2001).

O professor promove a utilização das tecnologias em sala de aula para que o aluno consiga conhecer e desenvolver seu próprio conhecimento através das ferramentas tecnológicas para seu próprio conhecimento social e acadêmico.

A fluência tecnológica aproxima-se do conceito acadêmico no sentido de apropriação e uso na prática social (SOARES, 2002) e não um simples aprendizado de um código ou tecnologia.

A tecnologia possui caráter social e o sentido de avaliar de maneira crítica, atribuindo sentido às informações adquiridas de textos, imagens derivados da produção de diferentes tecnologias e mídias.

Cabe aos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem utilizar da maneira mais coerente e de acordo com projeto pedagógico da instituição em que a compõe a tecnologia para desenvolver o processo pedagógico e pessoa humana no sentido de garantir seu auto-desenvolvimento social e técnico.

 




Objetos de Aprendizagem Tecnológicos.


Um objeto de aprendizagem é compreendido como “uma entidade, digital ou não-digital, que pode ser usada, reusada ou referenciada durante o ensino com suporte tecnológico.

Exemplos de ensino com suporte tecnológico incluem sistemas de treinamento baseados no computador, ambientes de aprendizagem interativos, sistemas instrucionais auxiliados por computador, sistemas de ensino a distância e ambientes de aprendizagem colaborativa.

Exemplos de objetos de aprendizagem incluem conteúdo multimídia, conteúdos instrucionais, objetivos de ensino, software instrucional e software em geral e pessoas, organizações ou eventos referenciados durante um ensino com suporte tecnológico” (IEEE, 2011).


Nesta definição é considerado como objeto de aprendizagem componentes multimídia como sons, vídeos, e ferramentas com recursos digitais para fins educacionais.


Para Polsani (2003), o processo de construção de um objeto de aprendizagem deve ser planejado e metodicamente desenvolvido.

Para isto é preciso conhecer a temática desenvolvida, sua abordagem pedagógica utilizando as devidas ferramentas de autoria para construção e trabalhar com coerência com os princípios de projeto educacional.

A produção de conteúdo educacional é uma tarefa árdua e exige dedicação.

Assim a utilização de ferramentas tecnológicas de desenvolvimento como Flash ou mesmo PowerPoint promovem o aperfeiçoamento na formação de docentes, pois o trabalho e autoria caracterizam uma aprendizagem autônoma e significativa neste processo.





Tecnologias utilizadas no processo no processo de ensino-aprendizagem


Hoje, muitas empresas possuem a TI como uma parceira, a qual deixa de ser tratada isoladamente para ser incorporada na estratégia da empresa, que almeja alcançar seus objetivos.

Assim, a TI ganhou grande importância dentro da empresa, precisando começar a entender de negócios para poder participar junto do plano estratégico do meio corporativo não só para ajudar nas decisões, mas também para trazer resultados ao negócio (BON; VERHEIJEN, 2006).

Bon e Verheijen (2006) ainda mencionam que a dependência que as empresas têm dos serviços de TI se tornou tão grande que se chegou a um ponto em que, se tais serviços pararem, todas as outras operações da empresa também param.

Desse modo, a TI tem diversos papéis e desafios, como, por exemplo, minimizar custos por meio de uma melhor gestão por projetos, trazer retorno por meio de melhorias de processos administrativos e agregação de valor para o negócio, como outros.

Quando falamos no processo atual de ensino-aprendizagem com a utilização dos variados suportes tecnológicos utilizados ressalta-se que essa prática por si só não é eficaz.

Essa prática é adotada em função da necessidade do aumento da produtividade docente do que pelos fatores de ensino-aprendizagem.

No quesito da educação à distância - EAD, os modelos utilizados possuem ligação com a tecnologia da informação, sendo que a evolução dos modelos está ligada em grande para a evolução tecnológica Gomes (2003 e 2008). 

Segundo Gomes (2003 e 2008) o quadro abaixo mostra a relação entre a evolução das tecnologias e as alterações nos modelos e sistema de EAD mostrados nos quadros abaixo:



Quadro 1 – Principais características das gerações de inovação tecnológica na EAD.



       Fonte: Gomes (2003).



Após a classificação realizada temos a classificação em quatro dimensões quanto a: representação e distribuição de conteúdos; processos de comunicação entre aluno.

No quadro 2 temos uma abordagem mais completa com as dimensões de 1ª. a 6ª.geração para os elementos tecnológicos em EAD.



Quadro 2 – Síntese das principais características das diferentes gerações de ead.






     Fonte: Gomes (2008).

 




Os novos meios tecnológicos e os educadores


O cenário tecnológico é propício e vasto como opções pedagógicas e metodológicas para o processo de ensino-aprendizagem.

Neste cenário o docente deve aprender a dominar as formas de comunicação audiovisual e interpessoal, diversificando a sua forma de ministrar aula e avaliar utilizando-se dos recursos tecnológicos.

Segue abaixo alguns mecanismos que o mesmo pode se utilizar no meio virtual com ferramenta para o seu trabalho.

As políticas educacionais estão concentradas na expansão quantitativa de computadores disponíveis nas escolas com seus núcleos de tecnologia educacional, conexão com a internet e a educação a distância.

Nesse cenário é necessário a correta formação dos professores para compreensão das propriedades e características inerentes à tecnologia, principalmente nos quesitos relacionados a interatividade, conectividade e comunicação multidirecional, aprendendo a integrá-las de acordo com as necessidades do processo de ensino-aprendizagem.





Concluindo.


A utilização das tecnologias no processo de ensino-aprendizagem e na educação como um todo provoca transformações substanciais no mundo atual, na sociedade, trabalho e no desenvolvimento do conhecimento científico, exigindo um preparo maior dos profissionais e alunos que participam desse processo para lidar com um conhecimento dinâmico que é desenvolvido nas distintas camadas da atividade humana.

Nesse cenário é necessário reconhecer o papel das organizações educacionais no papel de transformação da realidade no processo de inclusão social e formação humana.

Neste artigo focamos o uso das tecnologias na educação e na formação dos professores que se utilizam dessa tecnologia no contexto tecnológico e pedagógico de ensino-aprendizagem.


Também foi avaliado o processo de utilização das tecnologias na prática pedagógica em sua contínua mudança na medida das necessidades, desafios e escolhas que surgem nas novas práticas pedagógicas e tecnologias emergentes.

Essa formação e utilização das tecnologias propiciam a interação, colaboração e o desenvolvimento dos profissionais docentes que atuam em diversos seguimentos, o que promove a esses profissionais assumirem uma postura comprometida com a capacitação profissional e a formação de cidadãos mais envolvidos com a transformação social e conscientes da situação de seres inacabados e inconclusos, visto que há sempre algo se melhorar no processo de ensino-aprendizagem.





Para saber mais sobre o assunto.

DAMÁSIO, M. J. Tecnologia E Educação. As tecnologias da informação e da

comunicação e o processo educativo. Lisboa, PT: Ed. Vega, 2007.

FREIRE, P. Conscientização teoria e prática da libertação: uma introdução ao

pensamento de Paulo Freire. 3. ed. São Paulo: Moraes, 1980.

FREIRE, P. “Pedagogia dos sonhos possíveis” In: Freire, A. M. (org.). São Paulo: Editora Unesp, 2001.

GATTI, B. A. A construção da pesquisa em educação no Brasil. Brasília: Plano Editora, 2002.

GOMES, M. J. “Gerações de inovação e tecnológica no ensino a distância” In: Revista Portuguesa de Educação, 16(1), p. 137-156 - CIEd – Universidade do Minho. 2003.

GOMES, M. J. “Na senda da inovação tecnológica na Educação a Distância” In: Revista Portuguesa de Pedagogia. ANO 42-2, 2008, p. 181-202.

LÉVY, P. As Tecnologias da Inteligência. O Futuro do Pensamento na Era da Informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2001.

MORAN, J.M. “Ensino e aprendizagem inovadores com tecnologias” In: Revista Informática na Educação: Teoria & Prática. vol. 3, n.1,2000, p. 137-144.

MORIN, E. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

PIAGET, J. Fazer e Compreender. São Paulo: Melhoramentos/Ed. da Universidade de São Paulo, 1978.

POLSANI, P.Use and Abuse of Reusable Learning Objects” In: Journal of Digital Information. S.l., v.3, n.164, fev. 2003.

REIS, M. F. Educação Tecnológica: a Montanha Pariu um Rato? Portugal: Porto Editora, 1995.

SOARES, M. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.



E-REFERÊNCIAS.


IEEE Learning Tecnology Standard Committee (LTSC). WG12 - Learning Object Metadata. Disponível em < http://ltsc.ieee.org/wg12/> . Acesso em: 1º dez. 2011.




Texto: Prof. Bruno Albuquerque Acrignoli.
Mestrando em Ciência da Computação pela UFSCAR.

Especialista em Docência do Ensino Superior pelo CEUCLAR.

Especialista em Programação Java com banco de Dados Oracle pelo CEUCLAR.

Atualmente é Analista de Aplicações no Citibank Group e
professor do colegiado de Ciência da Computação no Centro Universitário Claretiano.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Repensando o papel da mulher no mundo contemporâneo.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume dez., Série 07/12, 2011, p.01-03.


Por quê o dia Internacional da Mulher, instituído em 1975 pela ONU, para comemorar conquistas e combates femininos?

Resposta: essas lutas surgem, na segunda metade do século dezenove, momento em que as mulheres começam a participar mais ativamente da vida pública e em especial do mundo do trabalho.
Mas um mundo do trabalho cruel.
As indústrias que começavam a se proliferar, cuspindo fumaça por grandes chaminés, empregavam em alguns setores uma população majoritariamente feminina.
Em São Paulo, na última década do século XIX, por exemplo, elas eram 90% do contingente de trabalhadores.
E as mulheres trabalhavam nas mais rudes condições: dez a doze horas sem interrupção, em instalações sem higiene, sem condições de salubridade, açodadas sexualmente por capatazes e gerentes, e como hoje, recebendo salários bem mais baixos do que os dos homens.


O contexto histórico internacional do trabalho feminino.
No século XIX, muitas mulheres, ao voltar para casa, tinham que enfrentar o descontentamento dos maridos, pois estes eram tempos em que médicos e juristas acreditavam que o trabalho feminino fora de casa, destruía o lar, provocava a infelicidade dos filhos e tornava a mulher uma prostituta.
Nos EUA é o momento de grandes passeatas e alguns mitos: passeatas de mulheres em NY, onde se encontrava o grosso das indústrias têxteis.

E mitos como o de um incêndio na fábrica Cotton – não comprovado - que teria matado 127 operárias, as primeiras mártires do trabalho feminino.

A revolução russa, desencadeada em 1917, também vai contar com mobilização das mulheres operárias de São Petersburgo, para manifestar sua desaprovação com as terríveis condições em que viviam.

Por fim, os vários congressos socialistas e comunistas que começavam a se organizar, encontraram em militantes como a sindicalista alemã Clara Zetkin, porta-vozes contra a exploração de que eram vítimas as mulheres.
Tudo isto vai colaborar para que nos países industrialmente avançados, e sobretudo, nos meios socialistas, se comece a discutir a necessidade de um dia internacional da Mulher.


O trabalho feminino no Brasil.
No Brasil, lutava-se não só por melhores condições de trabalho, mas também para estudar e votar.
Alguns marcos desta luta: só em 1879, as mulheres têm autorização do governo para freqüentar instituições do ensino superior, pelo que foram ridicularizadas.

Em 1887, formou-se a primeira médica brasileira, Rita, Lobato Velho.

Em  1885, num romance intitulado Memórias de Marta, Júlia Lopes de Almeida denunciava pioneiramente a dificuldades da vida das mulheres pobres.

Em 1917, a professora Leolinda Daltro liderou uma passeata exigindo a extensão do voto às mulheres. Ano de 1922, fundada a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.
Em 1929 é eleita a primeira prefeita: Alzira de Souza, em Lages, Rio Grande do Norte.
Em 1931, criada a Cruzada Feminista Brasileira e em 32, no governo de Getúlio Vargas, o novo código eleitoral institui o voto feminino.
E só em 1945, uma Carta das Nações Unidas, reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres.


Concluindo.
Hoje, passadas as lutas mais renhidas, as mulheres são quase 10% da representação política em instituições como Senado, Câmara ou prefeituras.
E o quê elas, que se beneficiaram dos combates anteriores, estão construindo para suas filhas?
Muito pouco.
Tanto que no dia 8 de março mais se pensa em distribuição de rosas e música do Roberto Carlos, do que em agendas que de fato modifiquem a vida das mais desfavorecidas.
Para as que pensam que a atual trajetória das mulheres, transformou um passado de lutas em mais uma data comercial, fica a sugestão: criar também o Dia Internacional do Homem.


Para saber mais sobre o assunto.
DEL PRIORE, Mary. A Família no Brasil Colonial. São Paulo: Editora Moderna, 1999.
DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo, Condição Feminina, Maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. UNESP: São Paulo, 2009.
DEL PRIORE, Mary. “A vida cotidiana no Rio de Janeiro” In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 436, 2007, p. 313-333.
DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.
DEL PRIORE, Mary. L'Histoire de la vie privée dans le monde luso-americain: l'exercice d'une nouvelle approche? In : Cahiers de L'histoire Du Brésil, Sorbonne - Paris, 2000.


Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.

sábado, 3 de dezembro de 2011

A formação das monarquias ibéricas: Portugal e Espanha.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume dez., Série 03/12, 2011, p.01-13.


Portugal e Espanha possuem uma origem comum e vários pontos de sua história se encontram e estão entrelaçados.
Primeiro Portugal e depois a Espanha foram precursores na formação das monarquias absolutistas na Europa, os dois primeiros Estados Nacionais europeus.
É a partir do nascimento da nacionalidade portuguesa e espanhola que, por exemplo, os descobrimentos e a expansão ultramarina se tornaram possíveis, mudando a face do mundo conhecido e conduzindo a configuração contemporânea das relações econômicas, sociais e políticas.
Assim, para entender a história da Idade Moderna é essencial conhecer a formação das monarquias ibéricas, por sua vez, sendo necessário recuar no tempo até as origens mais remotas da cultura da região.


As origens da cultura ibérica.
O território que hoje constitui Portugal e Espanha, rico em recursos hídricos, desde a antiguidade possui a pequena extensão montanhosa do norte fértil e as grandes planícies do sul propícias somente ao cultivo de oliveiras (azeitonas) e videiras (uva).
Apesar de hoje a irrigação ter solucionado a falta de terras para o plantio e pastoreio, principalmente na Espanha, um dito anedótico português medieval simboliza ainda esta característica.
Afirma o dito que quando um boi é posto a pastar no campo, o excremento do animal cai nas terras do vizinho, tamanho o aspecto apertado das propriedades rurais, dificultando o cultivo dos cereais, tal como trigo, usado para fabricar pão, o principal produto de consumo ibérico até o século XIX.
A despeito desta característica, a península ibérica, com sua costa recortada, sempre foi um convite à pesca e a partida, mas igualmente exerceu forte atrativo ao desembarque de povos vindo do norte da África e outras regiões através do mar mediterrâneo.
Existem vestígios que comprovam do povoamento da península anterior a 1800 a.C, quando por lá passaram povos da mais diferentes origens, inclusive do longínquo Oriente.
No entanto, povos de origem celta, entre os quais os lusitanos, fizeram-se presentes, fixados em cidades fortificadas, chamadas Castros.
Eles dominaram a península, estabelecendo o comercio de sal e ouro, trabalhando unidos com os fenícios.
Neste período surgiu o reino de Tartessos, uma confederação de cidades fortificadas, assim chamada por Heródoto, na sua História, devido à mítica aventura de um mercador grego que teria feito comercio com Argantônio, cujo nome pode ser traduzido como “o homem da montanha de prata”.
Atraídos pelas ricas jazidas de ouro e prata, além dos fenícios, cartagineses e gregos terminaram estabelecendo feitorias no território, embora a península fosse considerada periférica na antiguidade.
Na Odisseia, Homero descreveu a região ibérica como situada além das colunas de Hércules, o estreito de Gibraltar, considerado o limite do mundo conhecido.
A cultura castreja, assim chamada devido ao nome das cidades fortificadas, os Castros, cultuava seus próprios deuses, apesar do contato com fenícios, cartagineses e gregos.
O centro destes cultos estava fixado na família patriarcal, nos antepassados e no falo, símbolo da fertilidade e virilidade masculina.
O reino de Tartessos durou entre 900 a.C até o século I.
Atraídos pelo ouro e prata, além da possibilidade de produzir vinho e azeite, os romanos invadiram a península em 219 a.C, enfrentando a oposição dos lusitanos, conseguindo estabelecer o domínio sobre os povos ibéricos depois de derrotar Viriato, rei dos lusitanos, durante o governo de Otaviano Augusto.
O primeiro imperador romano dividiu a península ibérica em três províncias: a Baetica, Torracanensis (ambos são hoje a Espanha) e a Lusitânia (no atual território de Portugal).
Os romanos trouxeram uma série de benefícios, construíram várias cidades, com termas e fóruns, ligadas entre si e com Roma de estradas pavimentadas e pontes, impondo o latim como língua oficial.
Por motivos desconhecidos, quando os romanos se converteram ao cristianismo, rapidamente os ibéricos adotaram a nova religião voluntariamente.
O estilo de vida romano também foi adotado, persistindo mesmo depois da queda do Império, quando as invasões bárbaras originaram vários reinos medievais.
Invadiram a península: suevos, alanos e vândalos; que mantiveram a estrutura administrativa romana, a despeito do fracionamento da divisão territorial.
Justamente, a partir do século V, começou a se intensificar a migração judaica para a região, sendo bem recebidos pelos reis bárbaros, passando a constituir uma casta de comerciantes e profissionais liberais que iriam financiar os guerreiros cristãos e seus reinos.
Atuando principalmente como médicos, já que lidar com sangue era considerado impuro pelos cristãos, advogados e comerciantes; os judeus se tornando intermediários culturais no cenário que surgiu em 711.
Foi quando a península ibérica foi invadida por muçulmanos vindos do norte da África, então atraídos pelos recursos hídricos.
Os mouros, como eram chamados, ocuparam o sul e empurraram os cristãos cada vez mais para o norte, embora tenham assimilado a população nativa e facultado a liberdade religiosa.
Após a invasão muçulmana, quase imediatamente começou o período da reconquista, em 718, a ponto de, em 914, um terço já ter sido tomado de volta pelos cristãos.
Através da reconquista, a cruzada contra o islã convocada pelo Papa¸ surgiria Portugal e Espanha, caracterizados por uma cultura miscigenada, mas com formas distintas de lidar com a influência diversificada.


A reconquista.
A Europa medieval era um barril de pólvora, com gritante desigualdade, exploração dos camponeses ao extremo, nobres lutando entre si pelo poder e entrando em atrito com o papado, quando a igreja católica pensou na solução ideal: focalizar a atenção da população em um inimigo externo que pudesse unir todos em torno do cristianismo.
Dentro deste contexto, o Papa convocou a cristandade para livrar a península ibérica dos infiéis, fazendo levas e mais levas de peregrinos rumarem para lá, buscando conciliação com o divino e fortuna, incrementando os contingentes cristãos.
Entre os nobres, neste período, somente o primogênito se habilitava a herdar terras e títulos, aos outros filhos homens restava entrar para o clero ou buscar fortuna em terras distantes como cavaleiro.
Portanto, não só a plebe rumou para a península, mas também nobres, os quais enxergaram na reconquista a possibilidade de obter terras e títulos.
Não obstante, depois que Fernando Magno, rei de Castela, conquistou Coimbra, em 1058, a avanço cristão estagnou, até que o novo rei de Leão, D. Afonso VI, iniciou novamente o processo de expulsão dos infiéis, tomando Toledo em 1079, futura capital do reino.
Tudo poderia estar perdido, não fosse à chegada, no mesmo ano de 1079, de uma grande leva de peregrinos francos que reforçaram as tropas cristãs.
Entre os cruzados estavam os primos D. Raimundo e D. Henrique da Casa de Borgonha, vindos do que hoje é a França, ambos buscando fortuna por não serem primogênitos.
Pelo desempenho na guerra, ambos receberam as filhas de D. Afonso VI como recompensa.
D. Raimundo se casou com Dona Urraca, filha legitima do rei de Leão, recebendo como dote a Galiza e o condado Portucalense; D. Afonso se casou com Dona Tereza, a filha ilegítima, portanto, sem possibilidade de ascender à coroa.
Porém, apesar de D. Raimundo ser tido como um bom administrador, uma derrota militar fez com que perdesse a Galiza para D. Henrique, nascendo a partir da rivalidade entre os primos a futura desavença entre Portugal e Espanha.
D. Henrique tinha fama de um excelente guerreiro, um gênio militar, o que não pode lhe garantir a coroa, mas permitiu obter outras regalias.
Depois da morte do último conde Portucalense, o rei de Leão decidiu tornar D. Henrique o novo conde, enquanto a Galiza foi devolvida para D. Raimundo, então nomeado herdeiro do trono.
D. Raimundo e seus descendentes iriam fundar os reinos que originariam a Espanha, já o filho de D. Afonso iria fazer nascer à primeira monarquia nacional da Europa, Portugal.


O nascimento e consolidação do Estado Nacional português.
A despeito do território que seria Portugal originalmente ter pertencido ao que hoje é a Espanha, a formação da nação portuguesa é anterior à constituição do Estado espanhol.
O cruzado franco D. Henrique obteve grande sucesso na continuidade da reconquista, frustrando o plano do primo D. Raimundo de reaver o condado, isto apesar do primeiro ser vassalo do segundo.
Quando o filho de D. Henrique nasceu, em 1108, o infante D. Afonso Henriques, futuro primeiro rei de Portugal; foi iniciado o processo de centralização que daria origem a primeira monarquia nacional europeia.
D. Afonso Henriques, como seu pai. D. Henrique de Borgonha, foi intitulado, pelos seus méritos como guerreiro, “o melhor cavaleiro do mundo”, mantendo um estado permanente de tensão com os reis de Leão e Castela, além da continuidade da guerra com os mouros.

As provocações foram se avolumando, quando, por exemplo, o neto de D. Afonso VI, filho de D. Raimundo, foi coroado imperador de toda a Europa pelo Papa, um titulo mais honorifico que real, em 1135, D. Afonso Henriques não esteve presente, em uma atitude de desdém e desfio.

Embora tenha prometido fidelidade, segurança e auxilio ao seu suserano, como conde Portucalense, depois da união de Leão e Castela sob a égide de um mesmo rei, em 1137; D. Afonso Henriques proclamou a independência de Portugal em 1139, intitulando-se rei.
Após lutar com a Galiza, Leão e Castela, com o apoio do Papa, Portugal teve sua independência reconhecida em 1143, na Conferencia de Zamara.
Centralizado o poder em torno do rei, Portugal concentrou seus esforços na reconquista da península ibérica, lutado contra os mouros até 1248, configurando o atual território português em 1297, através de um tratado com Castela.
A despeito dos portugueses terem enfrentado várias tentativas de invasão espanhola.
Entretanto, a formação do absolutismo português não foi obra apenas de D. Afonso Henriques, contou com a participação de seus sucessores:
D. Sancho I (1185-1211), chamado “o Lavrador”, devido aos investimentos na agricultura;
D. Afonso II (1211-1223), cuja alcunha “o gordo” estava relacionada à prosperidade de seus súditos, obtida em um período de administração centralizada eficiente;
D. Sancho II (1223-1248), “o Capelo”, um rei fortemente ligado ao poder eclesiástico dos bispados, responsável pela construção de igrejas e catedrais, lembrado pelo seu ímpeto em expulsar os infiéis.
Igualmente, a consolidação do Estado Nacional foi um processo lento e gradual, envolvendo um período conturbado de três guerras contra Castela, entre 1369 e 1382.
Após o qual, o rei português, D. Fernando, filho de D. Pedro I (não confundir com D. Pedro I, imperador do Brasil independente, em Portugal ele é D. Pedro III), faleceu em 1383, criando um problema em torno da sucessão.
Pela tradição, deveria suceder D. Fernando, sua filha, a infanta Dona Beatriz; mas com apenas onze anos de idade, ela era casada com o rei de Castela, o que representava a volta do domínio espanhol sobre Portugal.
As clausulas do acordo matrimonial previam que, ao completar quatorze anos, o filho varão de Dona Beatriz deveria suceder seu pai no trono de Castela, sendo também herdeiro da Coroa portuguesa, uma tentativa de acabar com a guerra entre os dois territórios.
No entanto, a população portuguesa não aceitou a indicação de Dona Beatriz ao trono, revoltando-se contra a possibilidade de Portugal ficar sob a tutela de Castela.
O pai de D. Fernando, D. Pedro I havia tido uma tórrida história de amor com D. Inês de Castro, de família galega, portanto pertencente à nobreza castelhana, tendo gerado herdeiros ilegítimos ao trono, uma saída para sucessão.
D. Pedro havia casado em segredo, passando a viver junto com Inês.
Quando o pai dele descobriu, D. Afonso IV, mandou decapitar a esposa do filho para desimpedi-lo de contrair novo matrimonio, desta vez com uma mulher indicada por ele e que pudesse render dividendos políticos.
O episódio gerou guerra civil entre pai e filho, que terminou com a deposição do rei e a subida ao trono de D. Pedro.
Uma das primeiras medidas tomadas pelo novo soberano foi mandar construir um tumulo para Inês de Castro no mosteiro de Alcobaça, na nave principal, de frente a um reservado a ele, em uma posição que, no dia do juízo final, quando os mortos se levantariam, a primeira coisa que D. Pedro veria seria a amada.
Assassinada por ordem de D. Afonso IV, no dia sete de janeiro de 1355, Pedro vingou-se dos dois assassinos, arrancou-lhes o coração.
Quando se tornou rei, depois da morte da segunda esposa, Constança, mandou exumar o corpo de Inês e a corou rainha, obrigando a corte a ajoelhar-se diante dela e beijar a mão já decomposta, no episódio que ficou conhecido como a coroação da rainha morta.
Entretanto, antes de Inês de Castro ser assassinada, havia tido um filho com D. Pedro I, considerado um bastardo: D. João I, mestre da ordem militar de Avis, irmão de D. Fernando.
Quando Dona Leonor Teles, viúva de D. Fernando, tornou-se regente em nome da filha, Dona Beatriz; o povo miúdo se revoltou, exigindo o coroamento de D. João.
A revolução de Avis começou com o assassinato do conde de Andeiro, favorito de Dona Leonor em Lisboa.

Graças ao apoio da burguesia, D. João marchou para a capital, contando também com o apoio inglês, selado através de seu casamento com Dona Felipa de Lencastre, neta de Eduardo III, rei da Inglaterra.

Um detalhe interessante é que, romântico como o pai, o tumulo de D. João I e Dona Felipa está no mosteiro da Batalha, onde os corpos forma enterrados juntos, sob um lapide esculpida em tamanho natural, onde se pode observar a representação dos dois lado a lado de mãos dadas.
De qualquer forma, após várias batalhas travadas entre 1383 e 1385, o exército do rei de Castela, então apoiado pela cavalaria francesa, foi derrotado.
O apoio francês a Castela foi devido à ligação dos nobres da França com a dinastia de Borgonha, representando uma tentativa de impedir sua substituição pelos Avis.
A batalha de Aljubarrota, em quatorze de agosto de 1385, foi o marco que possibilitou a ascensão de Avis ao trono, embora combates esporádicos entre portugueses e castelhanos tenham sido registrados até 1411.
Coroado rei, D. João mandou construir o mosteiro da Batalha, no local do evento, para comemorar a vitória, um símbolo do poder da nova dinastia de Avis.
Isto porque surgiu, sob a coroa de D. João I, uma nova dinastia em Portugal, Avis, a qual substituiu a linhagem original de Borgonha.
O novo rei tratou de organizar o Estado português, enquanto D. Nuno Álvares Pereira comandou as tropas, tornando-se o maior proprietário de terras do reino e o homem mais poderoso depois de D. João.
Para a maioria dos historiadores, o coroamento de D. João I marcou o início da monarquia absolutista em Portugal e a consolidação da formação do Estado Nacional.
A despeito da manutenção de resquícios medievais, foi nesta ocasião que se iniciou o incentivo ao comércio, uma recompensa ao apoio da burguesia ao coroamento do Mestre de Avis.
O apoio burguês possibilitou definitivamente a centralização do poder em Portugal em torno do rei, quando se formou uma nova nobreza, com burgueses recendo títulos e sendo nomeados cavaleiros.
Revolvida definitivamente a questão da independência, ao menos até o episódio da União Ibérica em 1640, Portugal, o primeiro Estado Nacional absolutista europeu, lançou-se a empreitada marítima.
D. João I iniciou uma nova cruzada contra os mouros, encarregando seu próprio filho de organizar a expansão ultramarina: o infante D. Henrique, depois chamado “o navegador”.
A expansão marítima, simbolizada pela cruzada contra os infiéis, foi à saída encontrada para direcionar a belicosidade da nobreza de sangue, que havia ficado do lado de Castela, para fora de Portugal.
Uma opção que serviu também, obviamente, a busca de recursos e riquezas que o solo português não podia proporcionar.


O nascimento e consolidação do Estado Nacional espanhol.
A formação da Espanha tem em comum com Portugal o passado vivido na antiguidade e em boa parte da Idade Média, contudo, existem diferenças significativas na consolidação do Estado Nacional espanhol.
Cabe lembrar que, durante o período do domínio romano, na antiguidade, o território que formaria a Espanha constituiu a província da Hispânia, palco da primeira guerra Púnica, entre 264 e 241 a.C.
Depois da queda de Roma e das invasões bárbaras, os visigodos terminaram construindo um Império ao dominar a província, através de um acordo costurado com os romanos para expulsar os suevos, alanos e vândalos, então já misturados à população local.
Entretanto, o reino visigodo nunca teve unidade política e cultural, sendo facilmente esfacelado pelos muçulmanos em 711, os quais constituíram um Emirado independente na península, dividido em Califados.
Diferente do que aconteceu em Portugal, o território que formaria a Espanha constituiu um amontoado de reinos cristãos que tiveram raros momentos de união contra os mouros, o que tornou o processo de unificação mais lento.
Os reis de Leão, Castela, Navarra e Aragão estiveram envolvidos em periódicas rebeliões da nobreza e das populações urbanas; tendo que lidar, simultaneamente com os interesses internos e ordens de cruzados que migraram buscando combater os infiéis, especialmente Templários e Hospitalares.
Dentro deste contexto, havia ainda uma série de pequenos condados na Catalunha, formados a partir de terras conquistadas aos mouros; e Aragão, um reino ligado à República de Pisa; ambos que, depois, originaram núcleos separatistas.
Os condados da Catalunha sempre tiveram uma cultura e língua distintos do resto da Espanha, assim como leis e regimentos próprios, mesmo depois da unificação do Estado Nacional.
Destarte, os reinos de Leão e Castela tentaram diversas vezes a unificação através de casamentos, voltando a ser divididos, igualmente, em varias ocasiões, até serem permanentemente unidos em 1230, sob o governo de um mesmo rei, herdeiro, ao mesmo tempo, dos dois reinos.
As diferenças jurídicas e administrativas foram rapidamente superadas em nome da criação de uma Castela mais forte, no século XIV, sob o governo de Afonso X e XI, responsáveis pela centralização do poder no reino.
O processo de unificação prosseguiu com o casamento, às escondidas e sem o consentimento dos pais, de Isabel de Castela (herdeira do trono) e Fernando de Aragão, em 1469.
Isabel só assumiu o trono em 1474, com a morte de seu irmão, envolta em circunstâncias estranhas.
O irmão de Isabel, Felipe, “o Impotente”, deixou uma filha, mas era tida como resultado de relações estabelecidas com uma cortesã, o que o estatuto do sangue puro castelhano fazia com que fosse inabilitada a assumir o trono.
Fernando assumiu o trono de Aragão em 1479, quando de fato aconteceu a unificação com Castela.
Unidos, Castela e Aragão retomaram com força a reconquista, tomando dos muçulmanos o reino de Granada em 1492, momento em que a viagem de Cristovão Colombo ao Novo Mundo foi financiada pelos reis católicos.
Um marco do surgimento do Estado espanhol, apesar da consolidação da unificação somente ser finalizada com a invasão do reino de Navarra em 1512.
A morte de Isabel, em 1504, fez pairar a ameaça do risco de todo processo retroceder, pois Fernando passou a governar novamente somente Aragão, casando-se novamente sem deixar herdeiros.
O que possibilitou ao herdeiro de Fernando e Isabel, Carlos V, receber o titulo de rei das Espanhas, do reino de Nápoles e da Sicilia, dos Países Baixos, do Franco Condado, Áustria e Hungria; reivindicando e recebendo o título de Imperador do Sacro Império Romano-Germânico.
O governo de Carlos V, graças ao capital obtido com possessões no norte da África e Américas, consolidando o sentimento de nação, formando um Estado Nacional absolutista fortemente centralizado na figura do rei.
Na Espanha, diferente de Portugal, o papel representado pela burguesia não foi decisivo, mas sim o apoio da alta nobreza, depois intimamente envolvida com a conquista militar dos povos nativos das Américas, com especial ênfase nos astecas, maias e incas, conferindo à empreitada a continuidade da cruzada contra os infiéis.


Adendo: reis de Portugal.
Segue uma breve descrição dos reis de Portugal, respectivas datas em que estiveram à frente do governo, alcunha e informações adicionais quando é o caso:

Dinastia de Borgonha.
01. D. Afonso Henriques – 1139-1185 – “o melhor cavaleiro do mundo”.
02. D. Sancho I – 1185-1211 – “o lavrador”.
03. D. Afonso II – 1211-1223 – “o gordo”.
04. D. Sancho II – 1223-1248 – “o capelo”, este rei foi deposto pelo Papa Inocêncio IV e exilado em Toledo.
05. D. Afonso III – 1248-1279 – “rei de Portugal e do Algarve”.
06. D. Dinis – 1279-1325 – “o virtuoso”.
07. D. Afonso IV – 1325-1357 – “o bravo”, deposto pelo filho.
08. D. Pedro I – 1357-1367 – “o justiceiro”.
09. D. Fernando I – 1367-1383 – “o belo”.





Dinastia de Avis.


10. D. João I – 1385-1433 – “mestre de Avis”.
11. D. Duarte – 1433-1438 – “o rei filosofo”.
12. D. Afonso V – 1438-1481 – “o africano”.
13. D João II – 1481-1495 – “o príncipe perfeito”.
14. D. Manuel – 1495-1521 – “o venturoso”.
15. D. João III – 1521-1557 – “o piedoso”.
16. D. Sebastião – 1557-1578 – “o encoberto”.
17. Cardeal D. Henrique – 1578-1580 – “o cardeal rei”.







Dinastia de Habsburgo.



18. D. Filipe I (II da Espanha) – 1580-1598 – “o prudente”.

19. D. Filipe II (III da Espanha) – 1598-1621 – “o piedoso”

20. D. Filipe III (IV da Espanha) – 1621-1640 – “o grande”, este rei foi deposto pela revolução da restauração da monarquia portuguesa.








Dinastia de Bragança.
21. D. João IV – 1640-1656 – “o restaurador”.
22. D. Afonso VI – 1656-1667 – “o vitorioso”, este rei foi deposto.
23. D. Pedro II – 1667-1706 – “o pacífico”.
24. D. João V – 1706-1750 – “o magnífico”.
25. D. José I – 1750-1777 – “o reformador”, o governo efetivo foi exercido pelo primeiro ministro, o marques de Pombal.
26. D. Maria – 1777-1784 – chamada “a viradeira” em Portugal e “a louca” no Brasil.
26. D. João VI – 1784-1825 – “o clemente”.
27. D. Miguel – 1828-1834 – “o usurpador”, este rei foi deposto após uma guerra civil promovida pelo seu irmão, imperador do Brasil.
28. D. Pedro III (I do Brasil) – 1834 – “o rei soldado”.
29. D. Maria II – 1834-1853 – “a educada”, o governo efetivo foi exercido pelo seu marido, o rei D. Fernando II, alemão de nascimento.
30. D. Pedro V – 1853-1861 – “o muito amado”.
31. D. Luís I – 1861-1889 – “o popular”.
32. D. Carlos I – 1889-1908 – “o diplomata”.
33. D Manuel II – 1908-1910 – “o estudioso”, este rei foi deposto pela proclamação da República em Portugal.







Adendo: reis da Espanha.
Segue uma breve descrição dos reis da Espanha, respectivas datas em que estiveram à frente do governo, alcunha e informações adicionais quando é o caso:

Dinastia Habsburgo.

01. D. Carlos I – 1516-1556 – “de rei das Espanhas, do reino de Nápoles e da Sicilia, dos Países Baixos, do Franco Condado, Áustria e Hungria” e “Imperador do Sacro Império Romano-Germânico”.
02. D. Filipe II – 1556-1598 – “o prudente”.
03. D. Filipe III – 1598-1621 – “o pio”.
04. D. Filipe IV – 1621-1665 – “o grande”.
05. Carlos II – 1665-1700 – “o amaldiçoado”, não deixou herdeiros, o que provocou uma guerra pela sucessão.






Dinastia Bourbon.
06. D. Filipe V – 1700-1724 – abdicou.
07. D. Luís I – 1724 – morreu de varíola, sem deixar herdeiros.

08. D. Filipe V – 1724-1746 – voltou a reinar após a morte do antecessor.

09. D. Fernando VI – 1746-1759.

10. D. Carlos III – 1759-1788.

11. D. Carlos IV – 1788-1808 – abdicou.

12. D. Fernando VII – 1808 – deposto por Napoleão Bonaparte.








Dinastia Bonaparte.




13. D. José I – 1808-1813 – deposto pela guerra da independência.














Dinastia Bourbon.



14. D. Fernando VII – 1813-1833 – “o desejado”.


15. D. Isabel II – 1833-1868 – “a chata”.



















Dinastia de Sabóia.




16. D. Amadeu I – 1870-1873 – abdicou em virtude da implantação da primeira República espanhola.














Dinastia Bourbon.

17. D. Afonso XII – 1874-1885.

18. D. Afonso XIII – 1886-1931 – renunciou para a implantação da segunda República espanhola.

19. Juan Carlos I – 1975 até a presente data – assumiu após a morte de Francisco Franco, depois implantação o regime parlamentarista.













Concluindo.
O rei da França, Luis XIV, foi o autor da célebre afirmação: “O Estado sou eu”.
Ele simbolizou a autoridade suprema do rei absolutista, foi o perfeito monarca, caracterizando o Antigo Regime.
No entanto, muito antes da formação do Estado Nacional absolutista francês, o precursor do Estado Nacional foi Portugal, seguido pela Espanha.
O catolicismo foi o centro de apoio de ambos, Deus conferia poder divino aos reis, com autoridade ilimitada e incontestável, o que iria encerrar definitivamente a pretensão dos Papas ao poder temporal, a quem, a partir de então, passaria a restar apenas governar a espiritualidade.
A harmonia garantida do Estado absolutista, em Portugal seria garantida pela burguesia. O que permitiu aos reis legitimarem a formação do Estado Nacional e o sentimento de nacionalidade, uma construção coletiva que demorou séculos e não obra de apenas um homem.
Uma harmonia obtida na Espanha através do apoio da alta nobreza.
Nos dois casos, permitindo a expansão ultramarina, sustentáculo das monarquias ibéricas na Idade Moderna.


Para saber mais sobre o assunto.
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ANDERSON, Perry. Passagens da antigüidade ao feudalismo. São Paulo: Brasiliense, 1987.
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BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal Espanha e Itália. São Paulo: Cia das Letras, 2000.
BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
BRAUDEL, Fernand. O mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. Lisboa: Martins Fontes, 1984.
BURKE, Peter. A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luis XIV. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
CAPEROCHIPI, José A. Reforma Protestante y Estado Moderno. Madrid: Civitas, 1986.
DELUMEAU, Jean. A civilização do renascimento. Lisboa: Estampa, 1983.
DUFFY, Eaman. Santos e pecadores: história dos Papas. São Paulo: Casac & Naify, 1998.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
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RAMOS, Fábio Pestana. “A ascensão da monarquia absolutista na Inglaterra” In:
Para entender a história... Ano 1, Volume out., Série 04/10, 2010, p.01-10. Disponível em http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/10/ascensao-da-monarquia-absolutista-na.html
RAMOS, Fábio Pestana. “A Teoria do Estado Absolutista foi fruto de séculos de debates: sua origem mais remota está na antiguidade” In: Para entender a história... Ano 1, Volume out., Série 07/10, 2010, p.01-09. Disponível em http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/10/teoria-do-estado-absolutista-foi-fruto.html
RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e Obstáculos enfrentados pelas armadas da Índia Portuguesa: 1497-1653. Apresentação da Prof.a. Dra. Laura de Mello e Sousa e Prefácio da Prof.a. Dra. Mary Del Priore, São Paulo: Editora Humanitas/Departamento de História-FFLCH/USP, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2008.
RAMOS, Fábio Pestana. Por Mares Nunca Dantes Navegados. São Paulo: Contexto, 2008.
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SARAIVA, José Hermano. História concisa de Portugal. Lisboa: Publicações Europa-América, 1990.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.