Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Os arquétipos de Ártemis e Atena: da dualidade ao dualismo.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume nov., Série 07/11, 2011, p.01-11.


"Peço as bençãos de Ártemis e Atena
para que eu reúna o que se pensa que foi partido
Para que eu seja inspirada e seja guiada para as escolhas sábias
Para que eu traduza em palavras aquilo que minha alma pede em sensações
Para que eu faça o que precisa ser feito
com conteúdo, forma e tempo mais acertados
E que eu seja, mais uma vez, instrumento da boa vontade.
Está feito!
Gratidão."

- Patricia Fox
(Patricia S. Machado)


O artigo tem como intuito relacionar os arquétipos das deusas gregas Ártemis e Atena ao processo em que se deu o afastamento da dualidade e o advento do dualismo tão presentes na história da Filosofia (ou do pensamento ocidental), desde o seu nascimento na Grécia há 2500 anos e que se faz presente ainda nos dias de hoje.
A proposta é teorizar sobre como o dualismo afasta o ser humano de sua própria integridade e também dificulta sua relação com a Natureza e com a essência feminina, seja essa relação subjetiva ou objetiva.
Na mitologia clássica, Ártemis é uma Deusa ligada à natureza selvagem e que não se submete aos homens; já Atena é uma Deusa da Sabedoria e que também é patronesse do que é artificial (feito pelas mentes e mãos dos seres humanos) e adaptada ao mundo androcentrado; no entanto ambas descendem de uma outra figura arquetípica: A Grande Mãe.
Ao descrever os mitos e características arquetípicas de Ártemis e de Atena, poderemos encontrar as bases de como ocorreu o processo de desintegração ou separação entre os gêneros feminino e masculino, Pagus (campo) e Urbes (cidade, civilização);  Mente e Corpo; Mundo das Idéias e Mundo Sensível e também as relações deste processo com a teoria nietzscheana sobre o apolíneo e o dionisíaco, com o artificial e o natural, bem como, com as energias masculinas e femininas presentes em toda a existência.
A questão deste artigo é refletir sobre as relações entre mitologia e a instalação do dualismo na psique, Filosofia e pensamento ocidental.


Considerações iniciais.
A inspiração desse artigo se deu pelo meu envolvimento com a questão da ecoespiritualidade feminina, tema que pesquiso há anos. 
Penso que o afastamento da natureza e da dualidade que nos leva à integridade entre nossas facetas resultou no fato de que ser humano tenha perdido a capacidade de alcançar um dos grandes fins da Filosofia: a Felicidade.
Com base nos estudos de C.G. Jung, bem como vários de seus “discípulos”, do antropólogo Mircea Eliade, da tese sobre eco-feminismo de Françoise D’Eaubonne e de outros autores, procurarei argumentar sobre como o nascimento e desenvolvimento do pensamento ocidental saiu perdendo em desprezar a dualidade entre o feminino e masculino.
Isto inclui também a questão do gênero feminino, pois é notório que as mulheres foram colocadas à margem do conhecimento e a Filosofia desde o nascimento desta.
A razão de ter escolhido as deusas Ártemis e Atena para o meu argumento é que esses dois arquétipos representam os dois pólos extremos da fragmentação em que se deu na unidade multifacetada que é a Grande Mãe primitiva e, como conseqüência, a dicotomia Natureza e a supra-valorização da cultura.


Sobre a dualidade e o dualismo.
Para desenvolver esse artigo é necessário primeiramente conceituar de forma adequada a diferença entre a dualidade e dualismo.
Para tanto, recorremos primeiramente ao significado de cada uma das palavras. Para dualidade, temos:

s.f. Caráter ou propriedade do que é duplo ou do que contém em si duas naturezas, duas substâncias, dois princípios.[i]

Como significado de dualismo, encontramos:

s.m. Todo sistema religioso ou filosófico que admite dois princípios, como a matéria e o espírito, o corpo e a alma, o bem e o mal, e que se supõe estejam em luta eterna um contra o outro.
Qualidade de dual.
[ii]

Podemos ainda usar para diferenciar os dois conceitos, um trecho de Leonardo Boff, em seu livro “A Águia e a Galinha”:

O universo é, pois, o conjunto das relações dos sujeitos.  As dualidades antes referidas são dimensões da mesma e única realidade complexa. Formam uma dualidade, mas não um dualismo. Errôneo seria confundir dualidade com dualismo. O dualismo vê os pares como realidades justapostas, sem relação entre si. Separa aquilo que, no concreto, vem sempre junto. Assim, pensa o esquerdo ou o direito, o interior ou o exterior, o masculino ou o feminino.
A dualidade, ao contrário, coloca e onde o dualismo coloca ou. Enxerga os pares como os dois lados do mesmo corpo, como dimensões de uma mesma complexidade. Complexo é tudo aquilo que vem constituído pela articulação de muitas partes e pelo inter-retro-relacionamento de todos os seus elementos, dando origem a um sistema dinâmico sempre aberto a novas sínteses. (Boff, 1997)

Quando adentramos ao problema da fragmentação e do poderio patriarcal, identificamos que a cultura ocidental foi estruturada do ponto de vista androgênico, ou seja, do ponto de vista do gênero masculino.
Não há ao certo apenas um motivo para que isso tenha acontecido, mas cabe dizer que uma das motivações tenha sido a desconexão do ser humano de sua própria integridade, o que inclui o fazer parte da Natureza.
O ser humano chamado de “primitivo”[iii]  estava inserido aos processos da Mãe-Terra .
Para esse ser humano conectado, essa Natureza sempre foi vista como ambígua, ou seja, incerta, mas por isso mesmo pura em essência.
A figura da Deusa Mãe é, ao mesmo tempo, doadora da vida e senhora da morte[iv] e isso faz com que a ciclicidade e as relações entre o feminino e o masculino sejam partes de um processo contínuo e mutável, mas que por essa razão é eterno ou imortal.
O que quero dizer é que é necessário ir além da idéia de que feminino e masculino são duas partes separadas de uma unidade, procurando compreendê-las como nuances que se movimentam entre si e que são intrínsecas à uma unidade.
Sobre as descrições ou mesmo reflexões sobre a mitologia, cabe dizer que estas não podem se restringir às versões clássicas ou “olímpicas”, pois tanto Ártemis quanto Atena são deusas primitivas e anteriores ao período helênico e os seus mitos de nascimento mostram essa afirmação claramente.
Ambas têm ligação com a Deusa Mãe, sendo que Ártemis manteve a dualidade e Atena se tornou a grande inspiradora do dualismo.


Sobre Ártemis
O arquétipo da deusa grega Ártemis apresenta características que a aproxima das culturas xamânicas[v].
Ela é uma deusa que tem o domínio sobre a vida e a morte, ou ainda, rege a ciclicidade, a chamada “vida-morte-vida” (Estés, 1999).  
Protetora da caça e dos caçadores, Ártemis é uma deusa que personifica o mundo da Natureza como nenhuma deusa ou deus olímpico.
Numa das versões de seu mito de nascimento diz que Leto engravidara de Zeus, porém Hera, sua esposa oficial, lança uma maldição sobre Leto: esta não poderia dar à luz onde houvesse terra firme.
Sobre isso, encontramos uma referência no texto de Junito de Souza Brandão:

Conta-se que, grávida de Zeus, e sentindo estar próxima a hora do nascimento dos filhos, Leto percorreu o mundo inteiro em busca de um local onde eles pudessem vir à luz. Hera, porém, enciumada com este novo amor de Zeus, proibiu a terra de acolher a parturiente. Temendo a cólera da rainha dos deuses, nenhuma região ousou recebê-la. Foi então que a estéril e flutuante Ilha de Ortígia, por não estar fixada em parte alguma, não pertencia à Terra e, portanto, não tendo o que temer da parte de Hera, abrigou a amante de Zeus. (Brandão, 1997)

Nesse trecho podemos identificar o mito ilustrando uma questão moral no mundo grego e também perceber o dualismo entre a moral representada por Hera e o desejo simbolizado por Leto.
Aqui se fazem necessário alguns esclarecimentos sobre o Zeus e a Hera “morais”. 
Primitivamente encontramos na relação dessas duas divindades a dinâmica do “hierosgamos”, ou seja, do casamento sagrado.
O arquétipo da deusa Hera “olímpica” é identificado com a preservação da tradição e da moral e a proteção do patriarcado, mas isso é quase um contra-senso, pois a Hera primitiva é uma divindade que também está relacionada aos ciclos da Terra e às Grandes Mães das culturas agrícolas matrilineares.[vi]
No entanto, na medida em que o homem[vii] grego vai se distanciando da idéia de dualidade, Hera perde o status de soberana e se torna a “esposa domesticada”, subjugada às regras impostas por um Zeus que também perde o status de consorte.
Zeus representa a dita “magnitude” do mundo androgênico e o distanciamento do ser humano da natureza, ou ainda, dos ciclos da Terra.
Ele é um deus que rege os raios e os céus, seu reino é o Olimpo, ou seja, o mundo acima da Natureza e, além disso, é considerado o “Pai de Todos os Deuses”.
Nesse sentido, o mito de Zeus vai de encontro com inúmeras outras divindades patriarcais, como o próprio Jeová das culturas judaico-cristãs.
Sobre este problema, cito a pesquisa de Erich Neumann, Ph.D. em Filosofia e um dos principais discípulos de C. G. Jung:

Em oposição aos mistérios femininos, temos os mistérios da transformação do caráter de agressão do Grande Masculino que em como fator decisivo os arroubos e as mudanças repentinas e radicais. Por isso, o raio é seu símbolo característico.

Retornando ao mito de nascimento de Ártemis, o fato de Leto não poder dar à luz em terra firme e ser recolhida em uma ilha “não fixada em parte alguma” já demonstra a marginalidade envolvida. Não é de se espantar que o reino de Ártemis seja o mundo das matas, das florestas, à margem do mundo urbano.
Ártemis é a grande representante da Natureza Selvagem e livre das regras impostas pela moral ou cultura. Exemplo disto é seu séquito de ninfas.
Ele é formado exclusivamente por mulheres “virgens” – ela mesma uma deusa virgem.
O conceito de virgem nesse caso é completamente distinto ao do senso-comum.
Uma mulher virgem no mundo antigo se caracterizava como uma mulher não casada, ou seja, independente, dona de seu corpo e suas escolhas.
Até mesmo arquetipicamente, o termo é usado para designar as divindades que expressem essas qualidades.
Nesse ponto, o arquétipo de Ártemis é semelhante ao de Atena, pois esta última também é considerada uma deusa virgem, no entanto, esta seria aquela que se tornaria a filha predileta de Zeus e guardiã do mundo de seu pai; a conseqüência é que a virgindade Atena é moral e isolada de paixão.
Atena é a Deusa da Sabedoria, da Estratégia e do Artesanato; sua mãe é Métis, a primeira esposa de Zeus.
Há algumas versões sobre as origens de Atena, porém a mais aceita é a que segue:

Encontra-se na Teogonia de Hesíodo o mais antigo relato conhecido sobre o nascimento de Atena, apresentado em duas variantes. Na primeira Atena seria fruto da união de Métis e Zeus. Métis, uma personificação da prudência e do bom conselho e a mais sábia dos imortais, foi a primeira esposa de Zeus, o rei dos deuses. Entretanto, sendo avisado por Gaia, a terra, e Urano, o céu, de que o filho que haveria de nascer de Métis após Atena seria mais poderoso que o pai, e ele por conseguinte corria o risco de ser destronado, assim como ele destronara seu próprio pai Cronos; Zeus, através de um estratagema, enganou Métis e a engoliu. Não obstante, ela gerou Atena no ventre de Zeus, que a deu à luz a partir de sua cabeça às margens do rio Tritão, já completamente adulta e armada.[viii]

Aqui cabe salientar que Ártemis e Atena possuem mães que são deusas titãs (Grandes Mães), ou seja, divindades que representam forças da natureza e que não se alinham às questões morais antropocêntricas também relacionadas ao mundo helênico.
No entanto, no caso de Atena, esta desconhece sua mãe, que é engolida por Zeus.
Mas quais seriam as relações de Atena com a Grande Mãe?
Sobre as origens de Atena e sua conexão com deusas primitivas, podemos citar:

Diversos pesquisadores têm tentado traçar as origens de seu culto, mas nada pôde ser provado conclusivamente; ele pode ter derivado da adoração da Deusa Serpente ou da Deusa do Escudo da civilização minoica, ou da Grande Mãe dos povos indo-europeus, ou ser uma importação diretamente oriental, a partir da identificação de alguns de seus principais atributos primitivos, a guerra e a proteção das cidades, com os de várias outras deusas cultuadas no Oriente Próximo desde a pré-história. Sua história entre os gregos até o fim da Idade das Trevas é de difícil reconstrução, mas é certo que quando surgem as primeiras descrições literárias sobre Atena, no século VIII a.C., seu culto já estava firmemente estabelecido não só em Atenas, mas em muitos outros pontos da Grécia, como Argos, Esparta, Lindos, Lárissa e Ílion, geralmente lhe atribuindo uma função de protetora das cidades e especificamente das cidadelas, tendo um templo no centro das cidadelas muradas, sendo por extensão uma deusa guerreira[ix].

Essa relação de deusas primitivas com a guerra é bastante comum em diversas culturas.
A diferença que podemos apontar entre Atena grega e outras divindades femininas ligadas à guerra é que essas últimas tinham também relação com fertilidade[x] – característica não encontrada na filha predileta de Zeus.
Atena foi e é até nossos dias um dos arquétipos gregos mais presentes no mundo civilizado e, se Zeus é considerado o “Grande Pai” do mundo patriarcal, Atena seria sua anima ou ainda seu aspecto criativo[xi] e esta tem poderes que podem ser igualados ao de seu pai.
Ela é sua fiel companheira e defensora.
O fato de ter nascido da sua cabeça já nos esclarece a questão de que a própria deusa da Sabedoria torna-se, ao ser engolida e retirada da cabeça de Zeus, um produto adequado ao imaginário patriarcal.  
Ela se torna a guardiã da Cultura.
Isso nos leva a uma das problemáticas de minha argumentação sobre o pensamento ocidental nascido “nesta” Grécia: a deusa mais cultuada no berço da Filosofia é uma deusa idealizada e que não pode mais ser considerada uma faceta da Grande Mãe, pois já não faz parte da natureza, não possui “corpo”, não sente e abandona as características femininas.
Importante que se diga que de maneira nenhuma ao apontar essa questão, intenciono demonizar ou culpar Atena, inspiradora do pensamento e da capacidade humana intelectual e criativa. Isto seria um contra-senso e invalidaria meu argumento que é o da dualidade.
Atena é uma divindade ligada ao equilíbrio, porém por demasiada valorização de um de seus aspectos arquetípicos – a mente ou razão – gerou uma sombra e lembra muito a mais grave falha para os gregos: a hybris,  que significa a presunção ou ambição em se igualar aos deuses.


A questão da natureza versus cultura.
Como já foi dito, Ártemis não tinha lugar no mundo civilizado, em especial no mundo ateniense, principal cidade do mundo grego e também berço da Filosofia.
Porém, além de refletir sobre a questão urbes/pagus (cidade/campo) é interessante pensarmos na questão dos gêneros e no papel das mulheres na Grécia antiga e também na dicotomia natureza x cultura.
Para isso, coloquemos as diferenças entre as cidades-estado de Atenas e Esparta.
Sobre as mulheres na cidade de Atenas:

Entre os atenienses, mesmo sendo esses os criadores da democracia, percebemos que a atuação da mulher era reduzida. Educada para ser dócil e reservada ao mundo doméstico, as mulheres atenienses eram subjugadas pelo pai até ele escolher qual homem poderia com ela se casar. Após o matrimônio, a subserviência feminina era destinada ao marido. Mesmo após as reformas políticas, as mulheres não participavam das questões políticas por serem consideradas inaptas para esse tipo de tarefa.[xii]

Vê-se claramente que o ponto de vista masculino impera e de forma bastante radical.
Aqui vale lembrar que a patronese da cidade de Atenas é a deusa Atena.
Todas as manifestações culturais, intelectuais ou mesmo sociais tinham como referência a filha preferida de Zeus.
Sobre as relações da deusa Atena com a construção de um mundo civilizado e artificial, temos:

Assim como na guerra, também na paz é a inventividade prática que ela (Atena) mais inspira. Em Atenas, ela tornou-se a padroeira dos tecelões, dos artífices metalúrgicos e dos carpinteiros – na realidade de todos os artesãos. À medida que a cidade e seus domínios e colônias iam se tornando mais poderosos, Atena passou a ser cada vez mais uma força espiritual, ao lado de seu pai Zeus, por trás da expansão dos primórdios da civilização grega. (Woolger, 1997)

A cidade de Esparta era consagrada a Ártemis e Héracles (o arquétipo do herói).
Eis a descrição apresentada abaixo sobre o papel das mulheres e homens espartanos:

No mundo espartano essa posição era bem diferente. Reforçando o seu caráter militar, os espartanos acreditavam que a mulher deveria ser fisicamente preparada para que pudesse dar origem a indivíduos aptos para compor o exército daquela cidade. Por isso, era comum que essas mulheres se dedicassem à disputa de jogos e outros tipos de atividade esportiva. Além disso, podiam controlar as finanças domésticas e participar das reuniões públicas ligadas à vida política espartana.[xiii]

Uma reflexão: o que teria acontecido para que os atenienses e se afastassem tanto de sua origem pagã e dual?
Para desenvolver as possibilidades desta questão, falaremos do isolamento de Ártemis, o arquétipo da dualidade presente nesse trabalho e para tanto é essencial lembrarmos de outro título do qual a deusa dos bosques e guardiã dos nascimento e mortes possui: Deusa da Lua.
As deusas lunares têm como características a ligação com a vida-morte-renascimento, com o movimento de ascensão, crescimento e declínio, com as marés, com as cavernas, útero e ventre, com o ciclo menstrual feminino e também com o lado inconsciente do ser humano. Mitos recorrentes as ligam com a alma, a imortalidade e a ancestralidade.[xiv]
O que pretendo aqui é mostrar que o feminino tem sua complexidade própria e que as culturas matrifocais não pretenderam ser uma “ditadura do feminino”, tal qual a rígida cultura patriarcal, mas sim, que a visão de mundo que inclui o feminino e o masculino com seus ciclos próprios[xv], possibilitam uma forma de organização sócio-cultural-psicológica que envolve a unidade com suas múltiplas facetas e nuances. [xvi]
Ainda sobre a lua é necessário que se cite os aspectos espirituais intrínsecos à natureza feminina e que não possui dicotomia e que como a abstração patriarcal nos levou ao “dualismo unilateral”:

O aspecto espiritual-lunar do matriarcado não se refere ao “espírito invisível e imaterial”, de que se gaba o patriarcado: “Enquanto a feminilidade, por sua própria natureza não é capaz de se despojar da materialidade, o homem se afasta completamente dela e se eleva a imaterialidade da luz solar”. Para esse aspecto patriarcal, segundo o qual “a vitória do homem reside no princípio espiritual”, a lua é “apenas” a forma mais elevada de uma evolução material e telúrica, que se opõe a um aspecto “puramente espiritual”, o qual, em sua forma platônico-apolínea e judeu-cristã, levou à conceituação abstrata da consciência moderna. (Neumann, 2003)

Isto nos leva ao nascimento da filosofia socrático-platônica.
Platão foi o fundador do que se conhece como pensamento ocidental e alinhado com o contexto histórico em que viveu, institucionalizou a Filosofia que nasceu dualista, misógina e que menospreza a natureza (mundo sensível) em favor da cultura e da contemplação da capacidade da mente humana (mundo das idéias).
Novamente podemos relacionar os dois mundos platônicos com cada uma das deusas: menospreza-se a “Mãe natureza” material[xvii] e se vangloria a “Mãe cultural” ou ainda abstrata.
O problema aqui é a distinção e isolamento de cada uma das facetas. Citando novamente Neumann, este que se baseia nas idéias de Bachofen:

Essa consciência moderna, ameaça, porém, a existência da humanidade ocidental, pois a unilateralidade da evolução masculina levou a hipertrofia da consciência, às custas da totalidade do homem. Por isso, o conhecimento destilado, abstraído pela consciência coletiva da humanidade – como conhecimento da matéria, por exemplo – repousa nas mãos dos representantes terrestres da masculinidade que, como humanos, não se mostram, em hipótese alguma, capazes de encarnar o “espírito solar, imaterial e puro”. Por outro lado, o caráter de luz e sabedoria que cabe ao Grande Feminino não deveria ser caracterizado simplesmente por “só anímico”. (Neumann, 2003)

Platão defende que a Verdade e o Bem são encontrados no imutável  mundo das idéias e que o mundo sensível é pura ilusão e “apenas” uma projeção da realidade.
Ora, o interessante é pensar que o pensador tenha levado sua teoria a cabo até mesmo quando disserta sobre o papel da mulher na sociedade grega em duas de suas obras, A República e das Leis (Barros, 2002).
No primeiro livro, obra clássica da Filosofia Antiga e mesmo pelo autor considerado uma utopia, Platão chega a ter um discurso que poderia ser inclusive considerado feminista quando vê a possibilidade de uma mulher se tornar uma guardiã e até mesmo ser instruída da mesma forma que o homem.
Porém, em das Leis, apresentado por Platão como a segunda melhor forma de cidade, ele se contradiz: o livro, dedicado aos conceitos morais, possui uma carga machista (e dualista).
Nessa obra, a mulher ideal é a doméstica[xviii], ou seja, a que atende as expectativas do sistema patriarcal.
Mesmo que consideremos a contextualização histórica, o que é preocupante é que esse pensamento não sofreu alterações durante a história da civilização ocidental.
Aristóteles, discípulo direto de Platão, afirma que O silêncio dá graça as mulheres, embora isto em  nada se aplique ao homem” (Política,  1260 a-c).
Não é irônico pensar que a musa inspiradora da intelectualidade ocidental seja uma deusa que rege a justiça e o equilíbrio?
E que, no entanto, essa inspiração não seja adequada às mulheres e que somente tenha a possibilidade de ser acessada pelos homens?[xix]

No decorrer da história da Filosofia, isso não muda muito.
A demonização das mulheres e do corpo na idade média nos leva novamente ao arquétipo de Ártemis.

E quando pensamos sobre a possibilidade de um feminino, nos remeteremos à musa idealizada e etérica (e porque não, histérica) de uma Virgem Maria, que dá a luz, mas que não tem corpo, útero ou ciclos.[xx]

Sobre a idade da Razão, seu grande representante, “apesar de dizer que as mulheres eram mais aptas para a filosofia que os homens, a herança da filosofia de Descartes moldou a subordinação da natureza e da mulher à vontade do homem.” (Fernandes, 2008)
Apesar de ser apontado como machista por alguns, Friedrich Nietzsche teve um papel fundamental na eminente desconstrução do dualismo, e, sim, é possível afirmar que ele tenha contribuído mesmo que indiretamente para que houvesse uma revisão sobre o papel do feminino e da mulher na reflexão sobre a vida no ocidente.
É notório que ele tenha sido o principal algoz da postura dualista dentro da Filosofia e que fez críticas pesadas à respeito da teoria dialética de Platão.
A subjetividade presente nas idéias nietzscheanas resgata o indivíduo dentro da Filosofia.
O bem e o mal não estão somente fora, mas também dentro de cada ser.
É como se houvesse um reconhecimento de nossas várias naturezas e isso nos remete às culturas ancestrais onde a vida é processo, movimento e fluidez contínua.
Sobre a natureza artemísica[xxi] e a cultura atenica[xxii], minha tese alinha-se com e foi bastante inspirada na teoria de Friedrich Nietzsche a respeito da dicotomia entre o apolíneo e o dionisíaco, porém a presente reflexão pretende nos levar às possíveis origens da questão, ou seja, até que ponto a dissociação entre Ártemis e Atena – o corpo e a mente, o palpável e o etéreo, natureza e cultura  – poderia representar a essência da infelicidade e vazio que assola a existência humana?


Concluindo.
O arquétipo da Grande Mãe em sua plenitude, ou seja, a união entre Ártemis e Atena, aqui pretendeu ser apresentado como possibilidade de cura da dicotomia que talvez venha impedindo que o ser humano, no decorrer da história, se perceba íntegro e integrado à sua própria natureza (microcosmos).
Esta que também é a Natureza (macrocosmos).
Para concluir esse trabalho, cito a antropóloga e pesquisadora das questões femininas, Anne Barring:

Quando o masculino e o feminino se encontram em equilíbrio, há fluidez de relacionamento - um fluxo de energia, de unidade, de totalidade. Esta fluidez e este equilíbrio talvez sejam melhor ilustrados na imagem Taoísta da indissolúvel relação de complementaridade entre o Yin e o Yang. Em termos mais amplos, o feminino possui um padrão contido de energia: receptivo, acessível, mantendo a unidade entre as coisas; já o masculino possui um padrão expansivo de energia: a busca daquilo que está além. De modo mais específico, o feminino reflete a matriz instintiva e os valores conscientes do sentimento (coração), enquanto que o masculino reflete as qualidades da consciência de busca, definição de metas e ordenação, geralmente associadas à mente ou intelecto. Por milênios, as mulheres viveram mais próximas do primeiro padrão, e os homens do segundo. Atualmente, contudo, existe um forte impulso para que os equilibremos em nosso interior e de nossa cultura. Há uma necessidade premente de se temperar a atual ênfase excessiva dos valores masculinos com um esforço consciente de se reintegrar aos valores femininos.  (Baring, 1999)



Para saber mais sobre o assunto.
Baring, A. (s.d.). Reequilibrando o Masculino e o Feminino (Parte 1 de 2). Acesso em 10 de outubro de 2011, disponível em Feminino Essencial: http://www.femininoessencial.com.br
Barros, G. N. Rainha Filosofo na Republica de Platão. São Paulo, SP, 2002.
Boff, L. A Águia e a Galinha". São Paulo: Vozes, 1997.
Bolen, J. S. As Deusas e a Mulher. São Paulo: Paulus, 2007.
Bolen, J. S. Os Deuses e o Homem. Sao Paulo: Paulus, 2005.
Brandão, J. d. Mitologia Grega - Vol. II. São Paulo: Vozes, 1997.
Cashford, A. B. The Myth of the Goddess. Londres: Penguin / Arkana, 1993.
d'Eaubonne, F.  As Mulheres antes do Patriarcado. Lisboa: Vega Universidade, 1977.
Eliade, M. O Xamanismo e as Técnicas Arcaicas do Êxtase. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
Estés, C. P. Mulheres que Correm com os Lobos. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
FERNANDES, A. C. (2008 йил 13-março). Retrieved 2011 йил 01-outubro from Para Ler e Pensar: http://www.paralerepensar.com.br/antoniocf_amulher_naoticapedagogica.htm
Getty, A. A Deusa. Madrid: Edições del Padro, 1997.
Granier, J. Nietzsche. Porto Alegre: L&PM, 2009.
Jung, C. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2000.
Junior, O. G. Nietzsche. São Paulo: Publifolha, 2000.
Koss, M. V. Feminino + Masculino. São Paulo: Escrituras, 2000.
Leonard, L. S. A Mulher Ferida. São Paulo: Summus, 1997.
Monaghan, P. The Goddess Path. St. Paul: Llewellyn, 1999.
Monaghan, P. The New Book of Goddesses and Heroines. St. Paul: Llewellyn, 2000.
Neumann, E. A Grande Mãe. São Paulo: Pensamento, 2003.
Nietzsche, F. W. A Filosofia na Era Trágica do Gregos. Porto Alegre: L&PM, 2011.
Nietzsche, F. W. Ecce Homo. Porto Alegre: L&PM, 2003.
Nussbaum, M. C. A Fragilidade da Bondade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.
organizadora, S. N., & Eisler, R. O Novo Despertar da Deusa. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
Sicuteri, R. Lilith - A Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
Souza, R. d. (2011). Acesso em 01 de out de 2011, disponível em Brasil Escola: http://www.brasilescola.com/historiag/atenas-esparta-as-mulheres.htm


Texto: Patricia Santos Machado.
Concluinte do Curso de Graduação Licenciatura em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano – SP.


[iii] Termos como: “primitivo”, “bárbaro”, “arcaico”, “ancestral” e “pré-histórico” são usados constantemente como pejorativos e isso demonstra a força de nosso argumento nesse artigo, pois todos eles partem do ponto de vista grego clássico, que teve como uma de suas fortes características desprezar culturas que não a própria. Essa questão se arrasta ao longo da história ocidental e, infelizmente, gerou a cultura do “povo escolhido” contra os outros não escolhidos, o que obviamente alinha-se ao preconceito e busca de uma padronização.
[iv] Alguns exemplos podem ser encontrados na cultura indiana. Deusas como Saravasti, Lakshmi e Kali, que representam respectivamente, criação, manutenção e destruição, mas que, no entanto, tem um princípio em comum: são as faces femininas de deus. Esse deus também é multifacetado (Brahma, Vishnu e Shiva). Encontramos essa mesma característica nas culturas celtas e, é importante que se diga, são contemporâneas à Grécia onde floresce a Filosofia.
[v] Como xamanismo deve-se compreender algo que tem como principal característica a relação simbiótica com a Natureza e que é tido como a primeira manifestação espiritual humana.
[vi] A Hera arquetípica nos mostra claramente a adaptação que essas divindades tectônicas sofreram, sendo que a alternativa quando da não adaptação às expectativas patriarcais era a marginalidade ou ainda a “demonização” (termo esse tardio e que se aplica mais pontualmente à Idade Média.)
[vii] O fato de em toda a história da Filosofia nossa espécie ser denominada como “o homem” e não “ser humano” já esclarece o argumento da misoginia e unilateralidade.
[viii] http://pt.wikipedia.org/wiki/Atena
[ix] http://pt.wikipedia.org/wiki/Atena
[x] Cito a Morrighan dos povos celtas, Freya na cultura nórdica e a conhecida como grega, Afrodite. Esta última que tem sua origem na Anatólia, atual Turquia, e que aparece como deusa da guerra e do amor carnal em essência. Estabelece-se aqui mais vez a relação “vida-morte-vida”. Posteriormente Afrodite é “importada” pela cultura grega e também se torna uma deusa fragmentada ou ainda isolada de sua complexidade. Afrodite se torna simplesmente a Deusa da Beleza e do Amor.
[xi]  Woolger, A Deusa Interior, p. 45
[xiv] Nas culturas ameríndias do norte, a lua é chamada de “A Avó”.
[xv] O sol para as culturas primitivas possui também  um caráter cíclico facilmente identificado nas festividades relacionadas à roda das estações do ano. Essa questão foi assimilada pelo cristianismo e possui fortes semelhanças com o mito mitraico (de Mitras) e também com deus grego Dionísio – ambos “crianças divinas” que se tornam consortes e depois  “reis sacrificiais”.
[xvi] Sugiro a leitura do capitulo II do livro “Pais e Mães”, E. Neumann, org. James Hillman
[xvii] Lembrando que a raiz etimológica de matéria é mater , o que nos leva a seguir a mãe.
[xviii] Ou o arquétipo de Hera.
[xix] Por hora não entrarei na questão social entre o pobre e o rico, nobreza e escravo. Porém é algo que não pode ser descartado numa reflexão como essa.
[xx] Importante citar que Maria tem também raízes míticas relacionadas com as deusas primitivas, tais como: Ísis, Hera e Cibele, no entanto também sofreu uma adequação aos interesses patriarcais.
[xxi] Da natureza de Ártemis.
[xxii] Da natureza de Atena.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A prevenção das deficiências e a integração do portador de deficiência à escola.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume nov., Série 04/11, 2011, p.01-08.


A ausência de investimentos nas medidas preventivas primárias e secundárias a deficiência, segundo dados do IBGE divulgados no ano 2000, conduziram o país a possuir uma população formada por cerca 15% de pessoas com algum tipo de deficiência, tornando necessário discutir a questão.
Um dado significativo, já que 14 entre cada 100 brasileiros são portadores de deficiência.
Questão solucionada por meio da minimização do problema através de medidas paliativas que envolvem o moderno conceito de inclusão social, com a inserção do portador de deficiência nas escolas normais e no mercado de trabalho.
A legislação evoluiu para garantir acesso a uma vida dita normal ao portador de deficiência, uma resposta necessária diante da amplitude da população afetada por deficiências, mas que possui uma ótica invertida, pois deixa ao relento as medidas preventivas que poderiam reduzir a menos de 4% o numero de brasileiros portadores de deficiência até o final do século XXI.
Na verdade, seria necessário continuar a aprimorar a política de inclusão não só da pessoa portadora de deficiência, como também do pobre, do negro, do índio, do asiático, do muçulmano, etc.
Entretanto, investimentos mais adequados e melhor aproveitados na prevenção de deficiências deveriam acompanhar a construção deste novo cenário de respeito à diversidade, oferecendo à possibilidade de uma vida mais próxima da normalidade as crianças com algum grau de disposição ao desenvolvimento de deficiência.


Conceituação dos tipos de prevenção às deficiências e níveis de investimento.
Segundo a Organização Mundial de Saúde podemos conceituar três tipos de prevenção às deficiências, que envolvem a tentativa de evitar, retardar ou minimizar as doenças que conduzem às ditas deficiências: primária, secundária e terciária.
A prevenção primária procura evitar as causas das deficiências e, segundo a Organização Mundial de Saúde poderiam evitar 70% dos casos.
Caracteriza-se por medidas de proteção à criança e à mãe contra doenças que provocam deficiência, tal como a recomendação para evitar casamentos consangüíneos ou o consumo de álcool e drogas pela mãe.
Neste sentido, a prevenção primária necessita do envolvimento da família, escola, serviços de saúde, meios de comunicação e da sociedade como um todo. Sendo essencial a adoção de uma política do Estado orientada para o estimulo e suporte ao pré-natal, melhoria de nutrição da mãe e criança e programas integrados de educação e saúde disponibilizados a população.
Para a Organização Mundial de Saúde, estas medidas só podem se tronar eficazes quando pensadas através da criação de condições pré, peri e pós-natal.
Os cuidados pré-natais vão além dos exames médicos, aconselhamento genético, acompanhamento da gestão ou diagnóstico; envolvem também o suporte do Estado por meio do oferecimento à população de condições adequadas de saneamento básico e cuidados especiais em regiões de risco radioativo.
Embora o Estado deva possibilitar, igualmente, orientações para o planejamento familiar, as pessoas também precisam estar abertas a seguir as recomendações, onde entra a questão educacional e a colaboração dos meios de comunicação na divulgação das informações.
As medidas perinatais deveriam ser garantidas pelo Estado, abarcando um atendimento médico-hospitalar de qualidade quando da situação do parto, assim como cuidados adequados ao recém-nascido, inclusive disponibilizando exames que possam fornecer um diagnostico precoce de possíveis doenças que podem conduzir a deficiências.
As medidas pós-natais adentram novamente a questão do saneamento básico, mas exigem campanhas de vacinação e prevenção de acidentes, com a conscientização da população sobre a importância de sua participação nestes programas preventivos.
A prevenção secundária de deficiências pretende retardar o progresso da doença e possibilitar um tratamento imediato, através de um diagnostico precoce.
Portanto, uma vez constatada a probabilidade de evolução de doenças para um quadro de deficiência, seria necessário tentar reduzir sua duração ou severidade.
Insere-se neste tipo de prevenção disponibilizar acesso a centros de diagnósticos e tratamento de crianças com risco de desenvolvimento de deficiência.
Implementando programas educacionais que permitam o pleno desenvolvimento destas crianças desde seu nascimento, buscando atingir padrões de normalidade, contando com o auxilio de profissionais da saúde e educação através de um trabalho interdisciplinar.
A prevenção terciária procura evitar a incapacidade total quando já existem alterações anatômicas e fisiológicas instaladas, minimizando a institucionalização do portador de deficiência.
Para isto, busca maximizar o potencial da pessoa, estimulando sua independência e melhorias na qualidade de vida.
Estes objetivos exigem também um trabalho de informação e conscientização da população para desfazer estereótipos, mudando a imagem do deficiente perante o senso comum e frente ao próprio sujeito, procurando desestimular comportamentos autolesivos e situações de acomodação.
O Brasil carece de investimentos governamentais nos três tipos de prevenção, a despeito da sociedade se organizar atualmente em torno de ONGs principalmente para atuar junto à prevenção terciária, como fornece exemplo as APAEs (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).
Um dos setores que mais necessitam de investimentos do Estado, a saúde, não recebe verbas adequadas para efetivar uma prevenção primária eficiente, tampouco a educação recebe a atenção que mereceria para conscientizar a população das medidas preventivas à deficiência.
A começar pelo saneamento básico, segundo dados do IBGE divulgados em 2008, cerca 34% da população brasileira ainda não tem acesso a rede de água e esgoto encanado[i]. Pelo menos 2.495 cidades não possuem esgoto sanitário, ou seja, cerca de 34 milhões de pessoas estão expostas ao risco de contrair doenças pela falta de saneamento básico, estando somente no nordeste concentradas 15 milhões de pessoas[ii].
No que diz respeito a disponibilização de centros de saúde e diagnostico, que poderiam fazer um trabalho no âmbito da prevenção primária e secundária das deficiências, o Estado não é capaz de atender a população, oferecendo um serviço público lento e de baixa qualidade.
Falta à sociedade brasileira exercer maior pressão sobre os políticos para exigir investimentos mássicos, por parte do Estado, na prevenção primária à deficiência, uma forma de evitar o desenvolvimento da maior parte dos casos de doenças que conduzem até o problema, poupando gastos futuros com a prevenção terciária.
Ao mesmo tempo, seria necessário priorizar também, em segundo lugar, os gastos com a prevenção secundária, reduzindo o numero de pessoas afetadas por deficiências e evitando gastos ainda maiores com a prevenção terciária, além de implicações sociais que afetam todo o conjunto da sociedade.
Inversamente, o Estado brasileiro procura hoje simplesmente integrar o portador de deficiência à sociedade através da legislação, quando grande parte destas pessoas poderiam ter uma vida próxima da normalidade caso os investimentos na prevenção primária e secundária tivesse sido conduzido com maior seriedade.
Parte desta política invertida legislou para incluir o portador de necessidades especiais nas escolas comuns, sem necessariamente fornecer o suporte interdisciplinar adequado para que uma verdadeira inclusão aconteça.
A inclusão tornou-se marca registrada da LDB, refletindo sobre a realidade educacional do portador de deficiência, contudo, o conceito de inclusão tornou-se esvaziado e demasiadamente amplo, sem ponderar quem são os alunos portadores de necessidades especiais e as especificidades exigidas por cada categoria, tal como o suporte físico ou a adequação da mão de obra docente através de treinamento voltado para atender cada tipo de necessidade.


Portadores de necessidades educacionais especiais e portadores de deficiência.
A Política Nacional da Educação Especial, na perspectiva da educação inclusiva, define o portador de necessidades especiais como “àqueles que têm impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, que em interação com diversas barreiras podem ter restringida [a] participação plena e efetiva na escola e sociedade”[iii].
Porém, os alunos portadores de necessidades educacionais especiais não possuem todos as mesmas características e, portanto, precisam de suportes diferenciados de acordo com a deficiência que portam, exigindo cuidados diferentes e treinamento especifico para os educadores que irão atender este público.
Alias, o conceito de educando com necessidades especiais comporta não apenas portadores de deficiências, como também alunos com habilidades e potencial elevado, conhecidos popularmente como superdotados.
Outro perfil que a escola atual não possui capacidade de entender plenamente, impedindo o desenvolvimento de todo o potencial destas pessoas.
Ao mesmo tempo, este conceito de aluno portador de necessidades especiais também envolve pessoas dentro da normalidade física e mental que possuem transtornos funcionais específicos como dislexia, transtorno de atenção ou hiperatividade.
O que torna a questão ainda mais complexa, uma vez que o senso comum e muitos educadores assumem a definição de portadores de necessidades educacionais aplicada exclusivamente ao portador de deficiência.
Entretanto, pensando dentro do âmbito do conceito correto de portadores com necessidades educacionais especiais, os portadores de deficiência precisam não apenas de estímulos ou recursos didáticos adequados, como é o caso dos educandos com potencial elevado ou transtornos funcionais.
Nestas últimas modalidades à escola já discuti formas de fomentar o desenvolvimento pleno do aluno há várias décadas, em alguns casos oferecendo formação adequada aos professores em sua graduação.
No entanto, além da questão do treinamento para lidar com cada tipo de deficiência, em muitos casos, a estrutura física das instituições educacionais precisa se adequar a diferentes necessidades exigidas por cada tipo de deficiência.
O que remete a conceituação das deficiências, pois é essencial que o professor reconheça cada modalidade e que a escola repense sua adequação para receber o educando e possibilitar seu desenvolvimento pleno, aproximando-o da normalidade.
As deficiências podem ser classificadas em cinco modalidades básicas com subdivisões: mental ou intelectual, auditiva, visual, física e múltipla.
Cada qual exige cuidados especiais, recursos e materiais didáticos próprios.
A deficiência mental (DM) envolve um funcionamento intelectual abaixo da média, denotando algum grau de ausência de compreensão do mundo e de si mesmo, com a incapacidade de adaptação do individuo para responder as demandas exigidas pela sociedade no que tange a comunicação, cuidados pessoais, habilidades sociais, desempenho na família e na vida em grupo, locomoção independente individual, saúde, segurança, desempenho escolar, lazer e trabalho.
Este tipo de deficiência pode ser leve, moderada, grave ou profunda.
Depende do grau de capacidade de autonomia e classificação do coeficiente intelectual.
Independente da categorização, necessita de apoio nas áreas afetadas para minimizar dificuldades de comunicação, autocuidado, convivência familiar, relacionamento social, autonomia, etc.
O que, obviamente, exige um trabalho interdisciplinar, acompanhado por educadores e profissionais da saúde como médicos, psicólogos e fisioterapeutas.
Reside neste ponto um grande problema, pois, a despeito da legislação garantir o acesso do portador desta deficiência as escolas normas, não oferece o suporte interdisciplinar dentro da estrutura educacional regular.
Medidas preventivas poderiam reduzir o número de casos de DM, muitos dos quais relacionados a causas pré, peri e pós-natais, mas a ausência de investimentos e a ótica invertida para lidar com a questão tende a fazer os índices se manterem ou mesmo crescerem.
A deficiência auditiva tem ganhado maior espaço na mídia e foi, recentemente, fruto de intensos debates pela sociedade.
Pode ser conceituada como impedimento parcial ou total de detectar o som.
Pensando na história da educação dos surdos e nas abordagens que marcaram este processo, o bilingüismo e a língua de sinais, surgiu como uma língua natural dos surdos, pois a criança surda passou a contar com a língua de sinais vista como aquisição de forma espontânea, sem que seja preciso um treinamento específico, a despeito de considerada por muitos profissionais apenas como gestos simbólicos.
Até então, na sociedade não existia lugar para as diferenças, sendo os surdos usuários da língua de sinais desconsiderados no processo educacional.
Para os ouvintes, a língua oral é imperativa e, por conseqüência, caberia a todos que fazem parte dela se adequarem aos seus meios de comunicação, independentemente de suas possibilidades.
Qualquer outra forma de comunicação, como ocorre com a língua de sinais, era considerada inferior e impossível de ser comparada com as línguas orais.
É neste sentido que a oficialização da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) em abril de 2002 (Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002) começou a abrir novos caminhos, gerando polêmicas entre profissionais que trabalham com surdos e entre surdos oralizados, que não se sentiram parte de uma comunidade surda e não enxergaram mérito nessa vitória para a comunidade surda.
Entretanto, criança surda necessita de uma língua que possibilite a ela a integração ao seu meio, no qual ela seja capaz de compreender o que está ao seu redor, significar suas experiências, em vez de uma língua que a torne um ser apto para reproduzir um número restrito de palavras e frases feitas, que para ela não terão nenhum significado comunicativo, restringindo sua potencialidade para construir e utilizar a linguagem no processo dialógico.
Devemos lembrar que linguagem apresenta grande importância na formação da consciência, promovendo a ampliação da percepção de mundo, assegurando o processo de abstração e generalização, sendo o elo de transmissão de informação e cultura entre a criança e o mundo.
A criança construirá sua realidade social e descobrir a si própria pela comunicação, ou seja, por meio das interações ela passa a se perceber e se identificar com seus pares, estabelecendo, assim, as diferenças entre os indivíduos inseridos em seu meio, daí importância dos pressupostos defendidos pelo bilingüismo em oposição ao oralismo e a comunicação total.
A despeito dos avanços que a tecnologia trouxe para a detecção precoce da surdez e para a intervenção nesse processo, além do desenvolvimento da informática, com o aparecimento de grande quantidade de softwares que exploram a imagem visual, facilitando uma série de acessos aos educadores de surdos.
Devemos ter em mente que a conscientização de que toda esta tecnologia disponível não é de acesso a toda a população surda, especialmente considerando a realidade social, cultural e econômica brasileira.
Ainda que toda essa tecnologia fosse acessível, ela por si não garante o desenvolvimento lingüístico, a formação da identidade e cultural do sujeito surdo.
O bilingüismo possibilita ao surdo adquirir/aprender a língua que faz parte da comunidade surda.
O trabalho bilíngüe educacional respeita as particularidades da criança surda, estabelecendo suas capacidades como meio para essa criança realizar seu aprendizado.
Esta proposta também oferece o acesso à língua oral e aos conhecimentos sistematizados, priorizando que a educação deve ser construída a partir de uma primeira língua, a de sinais, para em seguida ocorrer à aquisição da segunda língua, o português oral e/ou escrito.
O Projeto de Educação Bilíngüe para os Surdos busca a aceitação da surdez sem almejar transformações culturais e de identificação do sujeito surdo.
Segundo essa proposta, o indivíduo ao adquirir uma língua natural é capaz de se desenvolver plenamente, vivenciando, aprendendo e se comunicando, além de se identificar com sua cultura.
Assim, a concepção bilíngüe lingüística e cultural luta para que o sujeito surdo tenha o direito de adquirir/aprender a libras e que esta o auxilie, não só na aquisição da segunda língua majoritária, mas que permita sua real integração na sociedade, pois ao adquirir uma língua estruturada o surdo pode criar concepções e oportunidades, participando ativamente do convívio em seu meio.
Um dos grandes benefícios do bilingüismo para o surdo é a oportunidade de utilizar concomitantemente os recursos das duas línguas adquiridas.
Decorrente desse fato podem surgir dificuldades quanto ao seu uso, o que não impossibilita a aquisição em alto nível da modalidade escrita.
Mas para que o indivíduo surdo seja aceito como bilíngüe é preciso que ocorra primeiro a aceitação das LIBRAS pela sociedade, na qual esta não é tida como língua, e sim como “gestos” e “mímicas”, desconhecendo-se sua estrutura lingüística, bem como seus constituintes fonológicos, morfológicos e sintáticos.
A questão é que as escolas normais não estão preparadas para lidar com o surdo, professores e alunos não dominam a linguagem de sinais, nenhum dos segmentos tem a oportunidade de aprender LIBRAS.
A surdez, em grande medida, ultrapassa causas congênitas, devendo-se a fatores a doenças e tratamentos inadequados, mais uma vez remetendo aos investimentos insuficientes na prevenção.
A exemplo da última, a deficiência visual é objeto de atenção da sociedade há mais tempo que outros modalidades, contando com o suporte de instituições especializadas em auxiliar na integração do cego a sociedade desde o século XIX, responsáveis pela tradução de livros e materiais didáticos em formato apropriado a leitura pelo tato, através do método Braille, inventado pelo francês Louis Braille no ano de 1827, em Paris.
A deficiência visual refere-se apenas aos casos de cegueira e visão subnormal, excluindo dificuldades de visão compensadas pelo uso de óculos.
A dita visão subnormal pode ser caracterizada pela alteração da capacidade de visão com significativo rebaixamento de acuidade visual e da sensibilidade de percepção de contrastes.
O cego necessita, além de materiais didáticos adequados, de uma estrutura física que facilite seu deslocamento e identificação pelo tato de elementos detectados normalmente pela visão.
Necessidade que as escolas normais quase nunca atendem, além do fato dos professores não possuírem o domínio da linguagem Braille.
Embora esta dificuldade seja contornada com traduções realizadas pelas instituições de apoio ao cego.
Já os portadores de visão subnormal que dispensam a necessidade de leitura em Braille, constantemente precisam do suporte de iluminação especial, também não disponível nas escolas normais.
Seja como for, apesar das causas da cegueira poder ser congênitas, grande parte dos deficientes visuais adquirem a cegueira a partir de doenças facilmente tratadas e que poderiam ter sido curadas ou controladas pelo oferecimento a população de um sistema de saúde mais ágil e de qualidade.
Mais uma vez, investimentos preventivos por parte do Estado poderiam evitar os elevados índices de portadores de deficiência visual.
Assim como os portadores de deficiência visual necessitam de uma estrutura arquitetônica apropriada nas escolas, outro grupo de portadores de deficiência é extremamente dependente da adequação das instituições educacionais, os portadores de deficiência física.
A deficiência física pode ser definida como uma alteração parcial ou completa em um ou mais segmentos do corpo humano, com o comprometimento da função física, caracterizada pela incapacidade de realizar movimentos normais.
Obviamente, este tipo de deficiência exige a adaptação da arquitetura e eliminação de barreiras, garantida pela lei 5.296 de dezembro de 2004, onde se insere a escola e todos os edifícios públicos e locais de transito como ruas e calçadas.
Acontece que o próprio Estado não respeita a lei, freqüentemente o portador de deficiência física tem sua capacidade de deslocamento prejudicada pelo caos urbanísticos, onde se inclui a escola.
Além disto, dependendo do tipo de deficiência física, o portador necessita não só do auxilio do educador como também de profissionais da saúde, quase nunca disponíveis em ambiente educacionais.
Muitas deficiências físicas poderiam ser evitadas por medidas preventivas, contudo, em diversos casos são provocadas por acidentes que poderiam ser evitados se houvesse uma educação preventiva e campanhas de conscientização.
Não bastasse às exigências especificas para cada tipo de deficiência descrita até o momento, um individuo pode possuir duas ou mais modalidades combinadas, caracterizando a chamada deficiência múltipla.
O que exige das escolas, dos educadores e do Estado o oferecimento das condições já descritas quanto à criação de oportunidades de desenvolvimento do sujeito portador e medidas preventivas.


Concluindo.
As medidas preventivas para evitar 70% dos casos de deficiência existem e são conhecidas, então porque não são colocadas em prática?
Mais que investimentos, falta vontade política, a pergunta talvez devesse ser: quem se beneficia com a proliferação de deficiências adquiridas?
Lobbys atuantes nos meios governamentais certamente lucram com as necessidades advindas do desenvolvimento de deficiências.
Além disto, a legislação parece garantir direitos às pessoas, que deveriam ser capazes de prevenir deficiências.
Acontece que as verbas nem sempre chegam aonde deveriam.
Como medida paliativa, a ótica e ordem lógica foi invertida pelo Estado, centralizando esforços na inclusão.
Questão importante, mas que é mais ampla do que aparenta.
A qual nunca poderá dar conta de solucionar um problema que não é apenas educacional, mas igualmente pertencente à saúde pública.
Enquanto a sociedade não se mobiliza para exigir que medidas preventivas recomendadas pela Organização Mundial de saúde sejam colocadas em prática, com reflexos que serão percebidos somente em longo prazo.
A escola e os educadores são responsabilizados por problemas criados pelo descaso do Estado, precisando se adequar para receber pessoas com necessidades educacionais especiais, notadamente no âmbito das deficiências.
Está a estrutura educacional preparada para isto?
Estão os professores preparados para lidar com os portadores de deficiência?
As respostas podem não ser positivas e as conseqüências desta ausência de preparo certamente serão sentidas pelo elo mais frágil da cadeia educativa: educadores e educandos.


Para saber mais sobre o assunto.
BRASIL. Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF.
BRASIL. Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: Ministério da Educação, 2007.
CÁRNIO, M. S.; COUTO, M. I. V.; LICHYIG, I. “Linguagem e surdez” In: LACERDA, C.B.F.; NAKAMURA, H.; LIMA, M. C. (Org.). Fonoaudiologia: surdez e abordagem bilíngüe. São Paulo: Plexus, 2000. p.42-53.
CASTEL, Robert. “As armadilhas da exclusão”. Desigualdade e a questão social. In: Castel, R; Wanderley, L.E; Wanderley-Belfiore, M. São Paulo, EDUC, 1997.
DEMO, Pedro. Desafios Modernos da Educação. Rio de Janeiro: Vozes,1999.
GREEN, Bill; BIGUM, Chris. “Alienígenas na sala de aula”. In SILVA, Tomás Tadeu da. (org.) Alienígenas na sala de aula. Uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis, Ed. Vozes, 1995.
GÓES, M. C. R. Linguagem, surdez e educação. Campinas: Autores Associados, 1999.
GÓES M. C. R.; LACERDA, C. B. F. (Org.). Surdez: processos educativos e subjetividade. São Paulo: Lovise, 2000.
GOLDFELD, M. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sócio-interacionista. São Paulo: Plexus, 1997.
GONZALEZ, J. A. T. Educacao e Diversidade: Bases Didaticas e Organizativas.  Porto Alegre: Artmed, 2002.
MOURA, M. C. O surdo: caminhos para uma nova identidade. Rio de Janeiro: Revinter, 2000.
QUADROS, R. M. Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
PEDROSO, C. C. A. (org.). Fundamentos da educação especial. Batatais: Claretiano, 2008.
SACKS, O. Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo: Cia das Letras, 1998.
SKLIAR, C. (Org.). Atualidades da educação bilíngüe para surdos. Porto Alegre: Mediação,1999.
SMITH, D. D. Introdução à educação especial: ensinar em tempos de inclusão. Porto Alegre: Artmed, 2008.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.


[i] Coordenação de População e Indicadores Sociais [2008], Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008 - Manual do Entrevistador, 1ª ed., p. 8 (172), Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
[ii] Coordenação de População e Indicadores Sociais [2010], Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008 - Publicação Completa, 1ª ed., p. 26-29 (219), Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. ISBN 978-85-240-4135-8.
[iii] BRASIL. Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: Ministério da Educação, 2007, p.15.