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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Entre homens e deuses: aspectos da formação histórico-social e da produção cultural na Grécia antiga.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 21/09, 2011, p.01-11.


Considerados filhos de Heleno, os gregos constituíram historicamente sua grecidade, sua identidade cultural grega, a partir das contribuições de diversos povos cuja origem nem sempre se pode precisar.
Uma divisão didática da história da Grécia antiga, apesar de ser apenas estenográfica,  pode auxiliar na compreensão e caracterização dos seus diferentes períodos, bem como de suas produções culturais.
O período arcaico compreende o intervalo temporal de c. 800 ou 750 a 500 a.C., da fixação da geografia política da Península Grega e do litoral grego da Ásia Menor até o início das Guerras Médicas.
O período clássico abrange os séculos V e IV a.C, com as cidades-estado independentes, correspondendo à fase de aperfeiçoamento cultural, talvez com as maiores realizações da história cultural de todos os tempos.
O período helenístico inicia-se com Alexandre Magno e se encerra com a conquista romana sobre a região oriental do Mediterrâneo. É a fase de expansão da cultura grega para centros de efervescência cultural, como Alexandria e Antioquia.
O período romano encerra essa passagem da história grega. A presença romana impôs-se na Grécia a partir do III séc. a.C, mas o predomínio iniciou-se quando as tropas de Cleópatra foram derrotadas por Augusto (31 a.C.), tendo permanecido enquanto durou o Império Romano do Oriente.


Sobre mitos e concepções de mundo.
Segundo os mitos gregos antigos, os seres humanos teriam surgido do desejo de Zeus, o soberano entre os deuses, e da capacidade de criação de Epimeteu e Prometeu, que esculpiram o primeiro homem, e de Hefesto e Atena, que juntos criaram a primeira mulher.
Homem e mulher seriam semelhantes aos deuses, porém sem poderes sobrenaturais ou o dom da imortalidade. Trata-se de uma alegoria a indicar que os humanos foram criados pela inspiração divina, como obras de arte, tendo beleza e capacidades, mas também fraquezas.
As crenças também fundamentavam a organização social, econômica e política, pois a tradição grega atribuía aos deuses a criação dos aristoi (melhores), homens dotados de valores morais como honra, dever e heroísmo, atributos recebidos das divindades ou herdados no nascimento, e socialmente superiores, o que justificaria a existência de uma hierarquia dominante, do ponto de vista ético, social e econômico.  
Além dos aristoi, havia os heróis (héros = guardião), filhos de mortais e deuses, portanto alguns atributos divinos e capacidades sobre-humanas.
Segundo essa mesma concepção, coexistiam homens, sátiros, górgonas, quimeras, centauros, sereias, ninfas e musas.
Perpetuava-se, por meio das narrativas mitológicas, a crença na interferência do divino – pensada como reguladora das capacidades humanas – nas concepções sobre a existência do homem e suas relações sociais.


Sobre a formação sócio-histórico-cultural.
Por volta de 2.000 a.C. os pelasgos, povos que viviam na região, foram submetidos pelos aqueus (dos quais faziam parte os jônios e os eólios), povos de origem indo-europeia, vindos da região balcânica, que criaram a civilização micênica e impuseram a língua grega.
Os pelasgos estavam em um nível cultural rústico: usavam machados de pedra polida, viviam em cabanas de taipa e ramagens, cultuavam divindades agrícolas, enquanto os aqueus  a Idade do Bronze, produzindo armas de metais e recorrendo a estratégias militares mais eficazes.
Entre os séculos XVIII e XV a.C., os aqueus, já dominantes e inseridos na civilização micênica, entram em contato com a cultura cretense, contratando os artistas que produziam obras arte bastante refinadas.
A influência da cultura cretense sobre a micênica mostra-se na produção artesanal e arquitetônica, mas há diferenças significativas entre ambas: a arte cretense recorre aos aspectos decorativo e religioso, enquanto a micênica expressa a preferência pelas narrativas e cenas de caça; a arquitetura cretense é labiríntica, enquanto a micênica é fortificada.
Gradativamente, a civilização micênica dominou Creta e todo o mundo em torno do Mar Egeu, estabelecendo relações comerciais e culturais com a Sicília, a Síria e o Egito.
Os aqueus estavam originalmente organizados em clãs patriarcais, ou genos, cuja autoridade suprema concentrava-se no rei, o basileus. Essa estrutura associa-se ao relevo da região, com a sociedade organizada em famílias tradicionais, ditas nobres, e separadas em núcleos autônomos, o que mais tarde contribuiu para a formação de cidades-estado autônomas, que caracterizam a antiga organização política grega, a pólis.
A autonomia e as condições naturais determinavam a busca de recursos complementares e ligações econômicas com outras regiões, de modo que as cidades formaram-se voltadas para o mar e relações com outros povos, o que levou à riqueza e, também, às disputas políticas.
Por outro lado, os contatos culturais favoreceram a apropriação e produção de novos saberes.
A partir do século XIV a.C., os dórios, povos indo-europeus, em sucessivas levas invadiram a região e, com armas de ferro, instituíram seu domínio. Somente cerca de três séculos depois se estabeleceram na região do Peloponeso, na Grécia central, em Creta e na Ásia Menor.
Com essas invasões, eólios migraram para Lesbos e jônios para Mileto e Éfeso, formando vigorosos centros econômicos e culturais gregos.
Como os grupos estavam divididos em núcleos políticos dispersos, as cidades-estado foram constituindo uma nova forma que passaria a ser característica da pólis grega: a ágora, praça pública, para debates de interesse coletivo, e templos, para práticas religiosas.
Devido à violência das invasões dóricas outros povos afluíram para a região, em um longo período de mudanças nas estruturas sociais. Surgiu, então, uma sociedade monárquica, com rígida estrutura dominada pela aristocracia (aristoi = os bem nascidos + kratos = poder).
 Do ponto de vista cultural, devido às relações comerciais, os jônios entraram em contato com os fenícios, conheceram o seu alfabeto (aleph + bet = primeira e segunda letras fenícias)  e assimilaram certos requintes na conduta social.


Crenças e práticas culturais.
Entre os séculos X e VIII a.C., surgiu na Grécia uma produção literária que incorporava os mitos e lendas dos eólios e jônios, acrescidas de um sentido heroico e fabuloso presente nas narrativas do Oriente Próximo.
No século VIII a.C., em Teogonia  (theo = deus + genea = origem), ou a Genealogia dos Deuses, ou ainda Cosmogonia, Hesíodo registrou as explicações míticas sobre a origem dos deuses e da vida.

No final do período arcaico registram-se,  os cantos e as sagas, com os poetas e suas epopeias, dos quais as produções mais famosas, e únicas preservadas, são Ilíada e Odisseia, de Homero.

As epopeias são consideradas as primeiras manifestações literárias do Ocidente. Eram cantadas pelos aedos, os poetas, que iam de cidade em cidade declamando os versos que narravam as fabulosas sagas do povo grego, suas disputas e vitórias.
Nos textos homéricos há relatos sobre a organização política, fatos do cotidiano, viagens fantásticas e, sobretudo, os mitos, constituindo uma rica produção cuja origem remonta a períodos imemoriais.
Atravessando tempos e espaços, esses registros chegaram aos dias atuais como referências documentais sobre as práticas e a mentalidade gregas.
Interessante ressaltar que os textos de Homero, mesmo mais tarde sendo contestados pelos filósofos gregos – em busca pela “verdade” – foram objetos de estudos já na Antiguidade, tendo feito parte do acervo da Biblioteca de Alexandria.
Os deuses retratados em Odisseia são descritos sob forma e sentimentos humanos, numa espécie de humanização do divino, mas com poderes extraordinários, interferindo de modo enigmático na vida terrena, nos destinos humanos, nas guerras entre os povos.
Uma passagem de Homero ilustra essa concepção:
“Pode ser que os deuses o tenham detido no caminho, porque de modo algum está morto sobre a terra o divino Odisseu, mas estará retido em algum lugar do mar, em alguma ilha cercada de corrente, onde o têm homens cruéis e selvagens que o sujeitam contra sua vontade”
De acordo com a mitologia grega, para que os homens pudessem desenvolver suas potencialidades, os deuses geraram as Musas, seres divinizados, filhas de Zeus e Mnemosine, a deusa da Memória: Clio, a história; Terpsícore, a dança; Calíope, a poesia épica e a eloquência; Polínia, a poesia lírica; Erato, a poesia erótica e a elegia; Euterpe, a música; Melpóneme, a tragédia; Tália, a comédia; Urano: a astronomia.
As Musas seriam responsáveis pelos conhecimentos e inspirações que permitem as criações, ou produções culturais, bem como por elevar o espírito humano, dotando-o de sensibilidade, saberes e talentos.


Aperfeiçoamento das produções culturais.
Os gregos desenvolveram diversos aspectos culturais associados a suas crenças.
Os Jogos Olímpicos, por exemplo, eram realizados em homenagem aos deuses, na cidade de Olimpíada, no Peloponeso.
As olimpíadas envolviam os cidadãos gregos que buscavam demonstrar força, agilidade e capacidades sobre-humanas, sendo coroados de louros após vencer tais competições.

Ao se organizarem como sociedade sexista, os jogos eram praticados pelos homens, com a coroação dos vencedores feita pelas mulheres.

Com o tempo, os jogos foram se tornando bastante conhecidos e passaram a contar com um público numeroso, razão pela qual começaram a ser realizados em espaços especialmente destinados a esse fim. Era a criação do teatro (thêo = ver + atrôn = lugar).

Como os espetáculos e cerimônias duravam dias, outros elementos culturais foram sendo inseridos: leitura de poesias, apresentação de danças e encenação de peças.


O Teatro e as expressões moralizantes.
O teatro foi uma das grandes produções dos antigos gregos, com as suas duas formas clássicas: a tragédia e a comédia.
A comédia (komoidía, de kômos = festa + oidós, cantor) apresentava situações ridículas, absurdas e ofensivas nas quais os estereótipos tinham a função de crítica social e política, tendo uma função moralizante e de correção das condutas.
Ao utilizar recursos como o imprevisto e a surpresa, os comediantes provocavam o riso, ridicularizando as atitudes que não eram consideradas éticas para a vida em sociedade.
As comédias eram apresentadas com cânticos, primeiramente, nas festividades em homenagem a Dionísio, tendo, portanto, uma relação com o sagrado. Mas, com o passar do tempo, foram se dessacralizando e se tornaram um subgênero teatral, com a presença da música, do coro e das máscaras disformes.
Os textos trágicos expressavam a diferenciação entre deuses e homens.
A palavra tragédia (tragos = bode + ode = canto) tem um significado associado às práticas culturais e às representações do povo grego.
Nas cerimônias religiosas, ou cultos cívicos, os gregos ofereciam esses animais em sacrifício aos deuses. Uma vez escolhido, o animal seria necessariamente sacrificado, momento em que emitiria um som de dor, como um canto triste. Assim a palavra tragédia está ligada à ideia de um fim inevitavelmente aniquilador, “trágico”.
As tragédias gregas foram e ainda são objetos de estudos literários, artísticos, jurídicos e psicanalíticos, como é o caso de Édipo Rei, de Sófocles, que narra a história de um jovem cujo destino foi anunciado pelo oráculo antes do seu nascimento.
Os oráculos eram comuns na antiga Grécia, sendo mais famoso o da cidade de Delfos. De acordo com os registros deixados pelos gregos, a predição dos acontecimentos era possível quando sacerdotes iniciados entravam em um transe sagrado e revelavam o futuro.
Outra tragédia exemplar é a que se passa em meio à Guerra de Tróia. Segundo as narrativas, Príamo, rei de Tróia, assim como o pai de Édipo, procurou o oráculo para obter notícias sobre o filho que esperava. Tendo-lhe sido revelado que o filho seria portador de tragédias para Tróia, Príamo decidiu desfazer-se da criança.
Ao nascer, o menino chamado Páris, foi afastado de Tróia e criado por outra família, que lhe cuidou com valores morais, de tal modo que quando adulto, era considerado, além de belo, um homem de bom senso.
A face trágica desse mito liga-se às vaidades e disputas entre divindades femininas. Em certa ocasião Discórdia não foi convidada para uma festividade e, portanto, usando sua invisibilidade resolveu vingar-se lançando um fruto dourado com a inscrição “para a mais bela”: era o “pomo da discórdia”.
Afrodite, Hera e Atena entraram em disputa, colocando o Monte Olimpo em desarmonia. Zeus, então, escolheu Páris para arbitrar o conflito.
Por fim, Páris foi seduzido pela promessa de Afrodite, a deusa do amor, de que se ele a escolhesse seria presenteado com o afeto da mais bela mortal. Assim seu destino estava definitivamente marcado.
Hera, a rainha dos céus, e Atena, a deusa da justiça e da guerra, inconformadas com a decisão de Páris, lançam sobre ele a maldição de realizar seu desejo, pois a mais bela mulher era Helena, esposa de  Menelau, rei da  Grécia.
Em viagem à Grécia, Páris e Helena se conhecem e se apaixonam, fugindo posteriormente para Tróia, sendo responsáveis pela cruel e duradoura guerra, pela aniquilação da família de Príamo e pelo fim do seu reinado, juntamente com a grandeza e glória de Tróia. Era a concretização da profecia do oráculo.
Esse é o conteúdo da tragédia e sua finalidade moralizante.


A Poesia e as narrativas.
Como a mitologia estava presente desde tempos imemoriais na sociedade grega, influenciou na organização social e política, na Literatura, na Arte, na Arquitetura e mesmo na Filosofia.
A Arte grega é avaliada como um conjunto de expressões muito sofisticadas, em que se buscava representar as formas e sons com a máxima perfeição, uma vez que os artistas eram entendidos como aqueles que receberam a inspiração das Musas e deuses.
Os poetas eram considerados como iniciados nos conhecimentos de Mnemosine, a deusa da Memória, e sua fala tida como reveladora da beleza sagrada e, com consentimento divino, também da verdade.
Nos versos de Hesíodo encontramos:
“Por cetro deram-me um ramo, a um loureiro viçoso / colhendo-o admirável, e inspiraram-me um canto / divino para que eu glorie o futuro e o passado / impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos / e a elas primeiro e por último sempre cantar".
Assim, o aedo, é um iniciado que cultua a Memória, tanto no sentido religioso como no sentido prático, fato que o eleva acima dos reis e outros senhores gregos. Seu canto e sua palavra são veículos de saberes inspirados por Mnemosine e pelas Musas. Portanto, é considerado um propagador da arte e da sabedoria.
A palavra poesia (poiesis = criação) tem um sentido muito próximo ao de arte, em grego techné (também criação). Mas esse sentido para os gregos era mais amplo, não representando apenas a elaboração de um poema (texto produzido em versos), mas a capacidade criadora, em sentido amplo.
Os poemas eram apresentados publicamente. Em tais apresentações, os versos eram cantados com o acompanhamento da lira e, às vezes, passos de dança.
Além de retratar deuses e a vida da elite, há outras produções, como Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo, narrando o cotidiano camponês e apresentando o trabalho como virtude.
A partir da obra de Hesíodo podemos saber que os trabalhadores do campo organizavam suas tarefas de acordo com as épocas do ano: em novembro e dezembro eles aravam a terra; em fevereiro e março, ceifavam as vinhas; em maio e junho faziam colheita; em julho e agosto, a separação dos grãos; em setembro fabricavam o vinho; em outubro podavam as árvores.
Na Grécia antiga, poesia, canto, música e dança se manifestavam juntas, e assim permaneceu por muito tempo. Somente a partir da Idade Moderna é que foram se separando, pensados como formas autônomas de arte.


A Dança e a religiosidade.
De acordo com a mitologia grega, a criação das Musas introduz as linguagens artísticas como manifestações divinas, pois os deuses teriam pedido a Zeus a criação de divindades que pudessem narrar seus grandes feitos e manter viva essa memória.
Terpsícore era a Musa criadora da dança, mas de acordo com a Teogonia, todas as musas dançavam e cantavam em volta da fonte de água inesgotável e do altar de Zeus.
Como seres invisíveis, durante a noite cantam e dançam, evocando, relembrando e reforçando os poderes dos deuses das diferentes gerações.
Para os gregos antigos a dança era a expressão da alegria e da celebração religiosa, como nas festas denominadas “dionisíacas”, pela fertilidade e em homenagem ao deus Dionísio que a representava.
Nos cultos religiosos a dança e o canto exercem uma função extática, colocando o iniciado em contato com a divindade.
Segundo as narrativas homéricas, as danças eram realizadas por homens e mulheres e comuns em diferentes ocasiões, inclusive nas cerimônias de casamento, em que a fertilidade e a prosperidade eram evocadas.
Com o passar do tempo, as danças começaram a ser acompanhadas por cânticos dos coros e passos ritmados, expressando sempre a alegria e a religiosidade.


A Escultura e as experiências estéticas.
A escultura grega é expressão estética que sobrevive como mostra da perfeição tanto das formas representadas, quando da técnica usada pelo artista.
Em uma passagem da narrativa de Ovídio, poeta romano, esse senso é relatado. Pigmalião, rei de Chipre e um renomado escultor, cria Galatea (palavra de origem controversa, podendo significar “como leite” ou “elegância”), estátua de mármore branco, com tamanha perfeição que se apaixona por ela, pedindo à Afrodite que a transforme em ser humano.
No mito, o diário de Pigmalião relata:
“A obra está avançando admiravelmente, ainda que a custo de muita concentração. Durante cinco dias estive entregue à tarefa de dotar a minha estátua de um rosto superior a todos os outros. Não tenho tido tempo nem ânimo para desviar os olhos da minha obra. [...] Não sei exatamente como explicar; há nele um encanto que combina o ar sonhador oriental com o ar de ponderada reflexão das mulheres mais sábias da minha terra. Não fosse o rosto de uma estátua, diria que estou apaixonado por ele”.
Nessa passagem, explicita-se o sentido da experiência estética: a contemplação da extrema beleza, que leva o ser humano a sentimentos profundos.
A escultura grega pode ser representada pela obra de Fídias, famoso escultor do século V a.C., contratado por Péricles, governante ateniense, para realizar as mais belas obras em homenagem aos deuses do panteão grego, e que esculpiu a magnífica estátua de Palas Atenas, já desaparecida, cuja réplica encontra-se no Museu do Louvre, em Paris.
A arquitetura também buscou a beleza, a perfeição, a proporção e harmonia das formas, especialmente nas construções dos templos e edifícios públicos, com suas colunas, capitéis e frontões triangulares, que ainda na Antiguidade foram incorporados pelos romanos; na Idade Moderna, pelo estilo renascentista; na Idade Contemporânea pelos movimentos neoclássico e art nouveau; e, nos dias atuais, ainda presentes em construções de caráter público ou privado.


Filosofia e História.
A civilização representou uma evolução em termos culturais, com a criação da Filosofia, da Democracia e o redimensionamento da cultura e da arte, que passam a ser valores do povo grego, ou sinônimo de grecidade e, posteriormente, valores da civilização ocidental.
Dentre as mais significativas criações da Grécia Clássica destaca-se a Filosofia, com sua busca incessante de conhecimento sobre a realidade material ou imaterial, e a concepção de História como um campo do saber, ambas a partir do distanciamento das concepções mitológicas.
A palavra história (o que procura saber, derivada de  histor = testemunha) ganhou o sentido de investigação com bases em fatos concretos e identificáveis, por meio de estudos e documentos.

Tratava-se de uma tentativa de superar as explicações contidas nas narrativas tradicionais do povo grego.
Dos expoentes dessas investigações destacam-se Tucídides, Hecateu de Mileto e Heródoto, que publicou suas Histórias, investigações, em um conjunto de capítulos intitulados com os nomes das nove Musas, nos quais relata as ações de gregos e persas. Vejamos o trecho de abertura das Histórias de Heródoto:
Heródoto de Túrio expõe aqui suas investigações, para impedir que o que fizeram os homens, com o tempo, se apague da memória e que as grandes e maravilhosas realizações, levadas a cabo tanto pelos bárbaros, quanto pelos gregos, cessem de ser renovadas, em particular, o que foi a causa de que gregos e bárbaros entrassem em guerra uns com os outros. [...]
Tratava-se de uma clara distinção entre as crenças, os mitos, e as práticas sociais, especialmente em uma tentativa de superação da narrativa homérica, mas, ainda assim, referia-se à memória e as musas.
Muitos estudiosos consideram que talvez não tenha existido um poeta chamado Homero, e que Ilíada e Odisseia seriam apenas compilações das narrativas dos inúmeros aedos que viviam na região. Outros apontam os textos como compilações das pesquisas feitas por Hecateu de Mileto. Outros, entretanto, afirmam que Homero provavelmente nasceu na Ilha de Quios, e que quanto se tornou conhecido estava em idade avançada e já não enxergava.
Mas, o fato é que por meio desses textos pode-se conhecer o modo de vida dos gregos em uma parte de sua história, assim como muitas de suas concepções de mundo e existência.
Por outro lado, concretizou-se o projeto de Heródoto, pois seu modelo de narrativa histórica perpetuou-se ao longo dos séculos, sendo reproduzido, questionado, negado ou atualizado.
A Filosofia e seus ramos de investigação na Grécia antiga são referenciais para a problematização e compreensão do mundo e da existência humana, perpetuando-se em múltiplas menções em todos os campos do saber.


Concluindo.
Pelo grande valor histórico e artístico, muitas produções gregas foram preservadas e podem ser admiradas nos museus mais importantes do mundo, como no Louvre,  o baixo relevo denominado Procissão das Panateneias (445-438 a.C.), feito em mármore, encontrado ao pé do Parthenon na acrópole de Atenas, representando as túnicas que compunham a vestimenta característica da época; ou a estátua denominada Vênus de Milo (fins do séc. II a.C.), encontrada na Ilha de Milo, nos arredores do teatro, apresentando uma figura feminina com busto desnudo e grande sensualidade, uma mostra da sofisticação e do estilo artístico desenvolvidos no final do período helenístico.
O Renascimento foi um período em que as tradições greco-romanas retornaram como inspiração e temática de grandes artistas, de modo que na pintura, escultura e arquitetura, do final da Idade Média e início da Idade Moderna, produziram-se obras que relembravam a mitologia e os valores do mundo grego antigo, como vistos nas obras de Botticelli (Primavera, O Nascimento de Vênus, Vênus e Marte), Ticiano (Baco e Ariadne), Velásquez (Os Bêbados ou o Triunfo de Baco, A forja de Vulcano, Vênus ao Espelho), Antonio del Pallaiolo (Apolo e Dafne), Lucas Cranach (Vênus e Cupido), Peter Paul Rubens (O Julgamento de Páris), Pietro Perugino (Apolo e Mársias), Lambert Sustris (Vênus e o Amor), e tantas outras de inestimável significado.
Os gregos influenciaram os romanos, formando a cultura greco-romana; e os persas, formando a cultura helenística; os romanos dominaram e influenciaram os europeus, difundindo seu padrão cultural; os europeus, por sua vez, buscaram meios para transplantar seus valores para a América, contribuindo para a introdução de um novo molde civilizatório, no qual o padrão grego – associado aos valores medievais e modernos e acrescidos da influência de ameríndios e africanos – constituíram um novo processo de formação histórico-social.


Para saber mais sobre o assunto:
AYMARD,  A. e AUBOYER, J.  O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977.
BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da mitologia: (a idade da fábula): histórias de deuses e heróis. São Paulo: Ediouro, 2000.
COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. eBookBrasil, 2006. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/cidadeantiga.pdf.
DEL DEBBIO, Marcelo. Enciclopédia de Mitologia. São Paulo: Daemon, 2008.
FINLEY, M. I. Os gregos antigos. Lisboa: Edições 70, 1963.
FRANCHINI, A. S. e SEGANFREDO, C. As 100 melhores histórias da mitologia. Deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. 6ª ed. São Paulo L&PM, 2003.
GRILLO, José Geraldo Costa. O sacrifício de Políxena nos vasos áticos dos séculos VI-V a.C. 2009. Disponível em: http://www.nea.uerj.br/publica/e-books/mediterraneo1/DOC/Jose%20Geraldo%20Costa%20Grillo.pdf.
HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Estudo e tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1995.
HOMERO. Odisea. eBookBrasil, 2003. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/odisea.pdf


Texto: Profª Drª Marilda Aparecida Soares.
Doutora em História Social – FFLCH/USP.
Professora das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires – FIRP.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Reestruturando o espaço da sala referência – uma proposta que privilegie o direito a infância.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 20/09, 2011, p.01-05.


Contemporaneamente torna-se, cada vez, mais necessário discutir o espaço sala de aula como referência que privilegie o direito da criança a uma educação de qualidade e, simultaneamente, lugar de viver a infância.
“A organização do espaço da escola é o resultado dos nossos saberes sobre a infância, por isso, reflete a cultura de quem o organiza, expressa o que pensamos sobre a criança e a infância” (MELLO, 2003).
O curso de pós-graduação em educação infantil (USP 2010/2011) nos trouxe novos saberes e o espaço da sala de aula, ou melhor, sala referência já que na educação infantil não damos aulas e não temos alunos e sim crianças.
Os espaços que foram organizados na imensa maioria se não totalidade das EMEBs de educação infantil, dentro do âmbito do período parcial das redes municipais, não serve mais.
Não contempla a nova concepção de criança, infância, escola e educação, que temos agora, diante de novos conhecimentos, pautados na teoria histórica-social de Vygostky.


Novos e velhos espaços.
O velho espaço, organizado com mesas e cadeiras (de quatro em quatro) para todos, para que fiquem sentados, passivamente, realizando as mesmas atividades, não juntos, mais ao mesmo tempo, esperando as comandas do educador, chega a incomodar.
Agora sabemos e temos clareza que “... a bandeira do direito das crianças à creche e à pré-escola, ou seja, o direito das crianças ao cuidado e à educação em espaços coletivos intencionalmente organizados pelos adultos para garantir que as crianças se apropriem das máximas qualidades humanas criadas pelos homens e mulheres que nos antecederam ao longo da historia” (MELLO, 2003).
“A defesa da educação coletiva das crianças pequenas fundamenta-se na compreensão de que, no convívio com outras crianças, quando atribuem significado ao mundo da cultura e da natureza que vão conhecendo, as crianças produzem uma cultura própria da infância: a cultura infantil” (MELLO, 2003).
Apresentar esta cultura é o grande papel da educação infantil.
Quando dizemos apresentar, não se trata de apenas mostrar e sim deixar manusear, vivenciar, explorar, entortar, subir, procurar possibilidades...
Mas como se explora a cultura?
Através de seus objetos, da maneira para qual foi criado.
Assim, se apropria da panela, brincando de casinha, da escrita, brincando de escrever com seus objetos, lápis e papel, mas não preenchendo folhas de forma mecânica e repetitiva.
Aprender envolve explorar, fazendo de conta que se escreve em momentos onde a escrita é utilizada no mundo.
Escrevendo uma lista de compras (brincando de casinha), a receita do médico (brincando de médico)...
É desta maneira que segundo Vygostky se desenvolve a inteligência, na “busca pela máxima formação das qualidades humanas, através das funções psicológicas superiores, memoria, linguagem, pensamento, atenção, percepção” (MELLO, 2003).
Formar para a inteligência, é esta, ou deveria ser, a função máxima da escola.


Algumas considerações.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) assegura às crianças o direito a brincadeira, à atenção individual, à convivência em um ambiente aconchegante, seguro e estimulante.
O direito a desenvolver a sua curiosidade, imaginação e capacidade de expressão; o direito à proteção, ao afeto e à amizade; o direito ao movimento em espaços amplos; o direito a expressar seus sentimentos, a uma especial atenção durante seu período de adaptação à escola; a desenvolver sua identidade cultural; a uma alimentação sadia e ao contato com a natureza.
Como garantir tudo isto em um pequeno espaço, lotado de mesas e cadeiras que atrapalham a mobilidade dos adultos e crianças, com um grupo de 25, 28 crianças com três anos, tendo um adulto referência?
Mudar é essencial, começando pelo espaço.
Além da inteligência, “nossos pequenos estão formando sua Personalidade, através da formação da identidade, através do domínio da vontade, pelo controle da própria conduta e pela formação dos sentimentos, das emoções e dos valores”(MELLO, 2003).
Para se autocontrolar é necessário um mínimo grau de autonomia, afinal não é necessário autocontrole infantil em um ambiente já super controlado pelo adulto.
Controlar o quê, se tudo estiver sob controle?
Sabemos que “a criança aprende desde que nasce e porque aprende, forma para si as qualidades humanas – que não são naturais dos seres humanas, mas foram criadas pelas gerações que nos antecederam ao longa da historia e foram armazenadas nos objetos externos da cultura humana e que, por isso, devem ser aprendidas pelas novas gerações, num processo que costumamos chamar de desenvolvimento, mas que é efetivamente em processo de educação”. (LEONTIEV, 1978)
Segundo Vygostky, este processo de aprendizagem é sempre ativo por parte de quem aprende.
Seja imitando ou experimentando.
A atividade é essencial para a aprendizagem.


Concluindo.
Atividade, no sentido pleno palavra, implica em ser ativo corporal e cognitivamente e não apenas em fazer, reproduzir, seguir ordens.  
“O que torna o fazer uma atividade é o grau de envolvimento do sujeito que o realiza. O grau de envolvimento da criança tem relação direta com o sentido que a atividade tem para ela: quanto mais a atividade responde a uma necessidade ou desejo da criança, mais envolvida veremos a criança e maior a emoção positiva que ela demonstra ligada à atividade. Essa emoção é condição para a aprendizagem.” (MELLO, 2003)
Assim a intencionalidade do educador torna-se essencial para a formação das máximas qualidades humanas.
Esta intenção não começa no planejamento da atividade, é anterior a isso.
Inicia na organização do espaço.
Que tipo de interações eles suscitam?


Com o adulto, com outras crianças, com os objetos da cultura?
Que movimentações podem ocorrer?
As crianças podem reorganizá-lo? Participam desta organização?
São ouvidas, através da observação do educador?
Segundo Vygostky, a formação de todas as funções psicológicas superiores envolve sempre e inicialmente o exercício social e coletivo da função como uma ação externa que, pouco a pouco e pela experiência coletiva, vai sendo internalizada pela atividade da criança.
Para potencializar estes momentos sociais e não apenas coletivos a reestruturação do espaço é essencial.
Há de se convir: muitas mesas e cadeiras, em um pequeno espaço, onde colocar-se outros materiais é impossível (não sobra espaço), relações efetivamente sociais entre as crianças, como as que se tem no mundo, são no mínimos raras.
Se a escola “apresenta” a cultura construída pela humanidade para as crianças irem aprendendo, desenvolvendo as qualidades humanas, inteligência, personalidade... deve representar esta cultura.
E onde, nos espaços sociais humanos, se encontram salas com mesas e mesas, cadeiras e cadeiras, crianças e crianças e o educador?
Só na escola.


Para saber mais sobre o assunto.
MELLO, Suely Amaral. Algumas implicações pedagógicas da Escola de Vygotsky para a educação infantil. s.d.
MELLO, S.A. Linguagens infantis – Outras formas de leitura. d.d.
MELLO, S. A. “Queremos um diplodocus” In: Revista In-fan-cia. Barcelona: 2004.
MELLO, S.A. O espaço do escola e a imagem da crianço. UNESP/Marilia: s.d.
MELLO, S.A. Direito à Infância e Práticas de Educação Infantil. UNESP/Marilia: 2003.
MUKHINA, Valéria. Psicologia da idade pré-escolar. s.d.
VYGOSTKY. Lev Seminovich, O Problema do Meio. s.d.
ZACHLOD, Michelle G. Espaço para crescer in revista Educacional leadership. s.d.


Texto: Cláudia Pestana Ramos de Alvarenga.
Pedagoga pela Fundação Santo André.
Pós-graduanda em Educação Infantil pela USP.
Professora da rede municipal de ensino de São Bernardo do Campo.
Professora no Colégio São José de São Bernardo do Campo.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Avaliação Institucional: o que é e para que serve?


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 19/09, 2011, p.01-06.


Hoje, a sociedade brasileira passa por um processo de reconhecimento da importância da educação como fator equalizador de oportunidades, uma possibilidade de solução para a desigualdade.
Ao mesmo tempo, apregoa-se o principio da autonomia, o direito da instituição educacional assumir sua própria gestão, com liberdade para criar mecanismos para servir melhor a comunidade que atende.
Tudo, obviamente, dentro dos limites permitidos pela legislação, a qual, por isto mesmo, possui uma tendência a tornar-se mais flexível, em nome da chamada gestão democrática.
Para que esta autonomia se efetive com a manutenção ou melhoria da qualidade, é exigido das instituições educacionais transparência, sendo necessário prestar contas a sociedade, revelando erros e acertos para direcionar práticas e estratégias.
A avaliação institucional insere-se, justamente, destro deste contexto, como elemento responsável para servir de parâmetro para que a sociedade possa balizar seu julgamento.


O que é avaliar?
Discutir o que avaliar é de fundamental importância para entender o que é e para que serve a avaliação institucional.
Ao pé da letra, avaliar significa determinar o valor, apreciar o merecimento ou estimar o juízo.
Aplicado as instituições educacionais, constitui uma ferramenta para auxiliar no planejamento e gestão compartilhada da escola, um processo sistemático de prestação de contas à sociedade.
O que implica em um processo contínuo de aperfeiçoamento do ensino, necessitando de um acompanhamento de perto, junto com uma interação integrada entre a equipe avaliadora e a instituição avaliada.
Teoricamente, portanto, a avaliação institucional deveria rever e aperfeiçoar o Projeto Político Pedagógico (PPP), promovendo melhorias na qualidade, atendendo quatro objetivos básicos:

1. Alimentar o interesse pela auto-avaliação de todos os envolvidos e interessados no processo (professores, funcionários, alunos, egressos, familiares, comunidade, etc).
2. Conhecer melhor as tarefas pedagógicas e administrativas para direcioná-las a função educacional.
3. Promover a sistematização das ações educacionais, propondo mudanças.
4. Divulgar os resultados para prestar contas a sociedade.

Este último ponto trás um problema, já que, sempre que se avalia, isto é feito em contraste com um paradigma ideal.
A avaliação tem como parâmetro um modelo utópico que serve de comparação com aquilo que se verifica em condições reais.
O que conduz a perguntar: qual é a metodologia mais eficiente para avaliar com justiça as instituições educacionais?


Algumas metodologias de avaliação.
Até recentemente, o Brasil não dispunha de uma metodologia unificada e sistematizada para avaliar a educação.
A partir da década de 1980, instituições publicas e privadas lançaram-se em busca de métodos e técnicas para balizar ponderações voltadas à melhoria da qualidade na educação.

O que fomentou a criação de diversos métodos de avaliação institucional em todas as instâncias e níveis.


Surgiram assim:

1. O SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica), implementado em 1990, depois de criado em 1988, coordenado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).
Trata-se de um levantamento e informações realizado a cada dois anos, o qual pretende fornecer uma amostra probabilística da educação fundamental em todo o Brasil, estendida ao ensino médio a partir de 1995.
Pretende avaliar o desempenho dos alunos, a infra-estrutura educacional, o perfil do diretor e da gestão, a prática docente e as características sócio-culturais do educando, incluindo seus hábitos escolares.
Assim, gera dados para serem usados pelos gestores e professores, por meio de um questionário de múltipla escolha.

2. IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), criado em 2007 pelo INEP, como parte do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação), para mapear as escolas e determinar investimentos, classificando as escolas em uma escala de zero a dez.
Trata-se do calculo do rendimento escolar (aprovação e evasão) e da análise do desempenho dos alunos com base no SAEB.

3. ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), instituído em 1998, com o objetivo de avaliar as competências e habilidades desenvolvidas pelo educando no ensino médio, sendo coordenado pelo MEC (Ministério da Educação).
É uma avaliação aplicada aos alunos ao término do ensino médio, em todo o Brasil, portanto unificada, cuja nota serve de parâmetro para o ingresso no ensino superior privado e boa parte das universidades públicas.
Além disto, possibilita participar de programas governamentais de bolsa de estudos, tal como o PROUNI (Programa Universidade para Todos).
Teoricamente, deveria oferecer uma referência para auto-avaliação do educando, auxiliando em suas escolhas futuras.
Na prática, serve para gerar dados balizadores de mudanças curriculares, avaliando escolas, sem peso de descredenciamento, compondo informalmente um ranking das instituições educacionais de nível médio.

4. O Exame Nacional de Cursos, o qual ficou conhecido como Provão, um exame aplicado aos formandos dos diversos cursos superiores que vigorou entre 1996 e 2003, sendo coordenado pelo MEC.
Um exame cuja média obtida pelo aluno servia de base, entre outros fatores, para o descredenciamento de cursos e instituições de ensino superior, compondo um ranking das universidades.

5. O Provão foi substituído por uma Auto-Avaliação Institucional em 2004 e pelo IGC (Índice Geral de Cursos) em 2008, coordenado pelo MEC.
Mais complexo, o IGC passou a considerar a nota do ENADE, o IDD e a nota Institucional, na qual se insere o cadastro dos professores e o conceito atribuído aos mesmos pelos alunos, além do currículo dos docentes cadastrados no Lattes (Plataforma do CNPQ).
Estes parâmetros somados (ENADE = 40% + IDD = 30% + Avaliação institucional = 30%) compõem uma nota de um a cinco, balizando um ranking.
O MEC vistoria as instituições com nota menor ou igual a dois, revendo o reconhecimento dos cursos mal colocados.
O conceito atribuído a Avaliação Instituição segue os parâmetros da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que cuida dos mestrados e doutorados, ponderando notas de um a sete.

No caso da graduação, como ressaltado, as notas vão de um a cinco, obedecendo à seguinte dinâmica:

Conceito 1 = 0 a 94 pontos.
Conceito 2 = 95 a 194 pontos.
Conceito 3 = 195 a 294 pontos.
Conceito 4 = 295 a 394 pontos.
Conceito 5 = 395 a 500 pontos.

6. O ENADE (Exame Nacional de Desempenho do Estudante), um processo em que são sorteados alunos de primeiro e ultimo ano de alguns cursos do ensino superior, selecionados anualmente, onde é aplicada uma avaliação contendo, em sua maior parte, questões de múltipla escolha, mas também questões dissertativas.
A avaliação mede a formação geral, com questões unificadas para todos os cursos, e a formação especifica.
As mesmas questões são aplicadas para os alunos do primeiro e ultimo ano, ao passo que as notas servem de parâmetro para o IDD.

7. O IDD (Índice de Diferença de Desempenho), constitui a média ponderada entre o desempenho dos alunos de ensino superior do primeiro e do ultimo ano de determinado curso, convertida em porcentagem de progresso e, depois, em pontuação.


Etapas do processo de avaliação institucional.
Exatamente porque a sociedade exige, cada vez mais, transparência e o governo cobra melhoria de desempenho de alunos e professores; é necessário pensar na auto-avaliação institucional.
Qualquer que seja o método e as técnicas escolhidas, algumas etapas são recomendadas para efetivar uma avaliação que espelhe a realidade, indicando caminhos seguros par melhorar a qualidade da educação no Brasil.

É preciso:

1. Sensibilizar.
Realizar encontros e reuniões para esclarecer professores, alunos, funcionários e a comunidade sobre as vantagens e perigos da avaliação, fornecendo textos para a discussão e convidando especialistas para debaterem idéias com todos.

2. Diagnosticar.
 Levantar dados sobre a organização curricular, as condições do corpo discente e docente, o perfil do educando ao ingressar e ao se formar, a adequação deste perfil com as necessidades da comunidade, a interdisciplinaridade, o sistema didático-pedagógico e de avaliação, os objetivos de cada disciplina e conteúdo, as condições técnicas e estruturais, a infra-estrutura física, o pessoal técnico-administrativo e outros fatores.

3. Submeter os resultados à avaliação externa.
Introduzir elementos externos à escola, da comunidade ou não, para analisar os dados, procurar falhas e propor melhorias.
Uma vez que, na maior parte dos casos, quem está de fora enxerga aquilo que os envolvidos com os problemas não conseguem ver.

Obviamente, as etapas de auto-avaliação são de fundamental importância para a composição do PPP, a despeito da maior parte dos gestores ignorarem este fato.


Concluindo.
Atualmente, o modelo de gestão mais adotado é a gestão democrática, uma forma de gerir as instituições de ensino visando possibilitar a participação de professores, educandos, funcionários e da comunidade na administração escolar.
Portanto, um modelo que deveria adotar a descentralização, transparência e democracia.
Neste sentido, além do Projeto Político Pedagógico (PPP) precisar ser construído com a colaboração de todos, teoricamente os cargos de chefia, tal como a direção, deveriam ser eleitos.
O que não acontece no Brasil, onde a Nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação - lei 9394/96), no seu artigo 14, restringi-se a garantir a existência de um conselho escolar como órgão consultivo, com a função de auxiliar na gestão escolar.
Ocorre que, sendo outorgada oficialmente à União a função de realizar a avaliação institucional, pelo artigo 9 da LDB, por outro lado, indiretamente, caberia a cada escola realizar uma auto-avaliação.
O artigo 12 da LDB afirma que “os estabelecimentos de ensino, respeitando as normas comuns e as do sistema de ensino, terão a incumbência de elaborar e executar sua proposta pedagógica”.
Justamente a elaboração de um PPP aprimorado necessita de dados coletados através de uma avaliação institucional eficiente.
O que implica na participação de todos, com gestores delegando poderes, responsabilidades e tarefas; remetendo ao conceito de gestão democrática.
Ou seja, a auto-avaliação institucional, praticamente, não pode ser efetivada sem a gestão democrática.
Ambos, avaliação e gestão são conceitos intrinsecamente vinculados.


Para saber mais sobre o assunto.
DIAS SOBRINHO, J. & BALZAN, N. C. Avaliação Institucional: teorias e experiências. São Paulo: Cortez, 1995.
LIBÂNEO, J. C. Organização e gestão da escola: teoria e prática. Goiânia: Alternativa, 2004.
LUCK, H. A gestão participativa na escola. Petrópolis: Vozes, 2006.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.