Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A Igreja Católica contra Protestantismo.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 09/08, 2011, p.01-25.




Este artigo tem como objetivo estabelecer um debate sobre as práticas realizadas pela Igreja Católica durante a Contra-Reforma, cuja ação foi iniciada como reação ao desencadear da Reforma Protestante promovida por Martinho Lutero no início do século XVI. 

Repensando os antecedentes históricos que vieram a compor as motivações reformistas do Movimento Protestante, analisamos a postura assumida pela a Igreja Católica durante a Contra-Reforma, que é uma tentativa de conter os crescentes avanços protestantes na Europa, ainda predominantemente católica.

Buscaremos demonstrar qual foi a importância do trabalho realizado pelas instituições criadas e recriadas no Concílio de Trento para combater o Protestantismo. 

Em especifico, analisaremos a Inquisição remodelada, a Companhia de Jesus e o Index Librorum Prohibitorum.





O Nascimento da Reforma.

Sola scriptura, Sola fide,

Solus Christus,

Sola gratia, Soli Deo gloria[i]



A Reforma Protestante representou o rompimento da unidade da Igreja Católica no século XVI, mas suas raízes são implantadas ainda no século XIV com a diligência de Wicliff[ii] (1320-1384) na Inglaterra e Ian Huss[iii] na Boêmia (1369-1415).

Estes movimentos foram vistos como heréticos e sofreram dura repressão pela Inquisição (TESTAS; TESTAS, 1968: p.53-54).

A principal herança deixada por estes pré - reformadores, sem sombra de dúvida, foi a mística, esta forma de pensamento religioso consiste na crença da aptidão do homem para entrar em contato direto com Deus, esta influenciará Santo Inácio de Loiola no desenvolvimento dos seus exercícios espirituais (GUILLERMOU: 1973: p.62-64), além de Lutero e Calvino. Para Marques, Beirutte e Faria:

Importa, inicialmente, verificar que dentro da própria Igreja católica já faziam ouvir vozes reformistas desde o período medieval.

No entanto essas vozes não conseguiam sensibilizar os elementos da cúpula da hierarquia católica, o que aprofundava cada vez mais a crise (2005: p.103).

Dessa forma o Movimento da Reforma Protestante teve origem em inúmeros fatores, entres estes podemos citareconômicos vção medeelo ccou abrir novos caminhos para a fte as heresias e vigilia foi concretizado pelo concilio de tren: os sócio-econômicos como o interesse pelas posses da Igreja; os religiosos: pelo despreparo do clero, pela venda de indulgências, relíquias e cargos; os políticos: pela disputa de poder entre o Estado e a Igreja; ideológicos: fruto do pensamento do burguês, individualista e “imediatista”.

O Movimento Protestante inicia-se, em 1517, quando Lutero se mostra contrário à venda de indulgências[iv].

As críticas e angústias de Martinho Lutero deram forma as suas 95 teses, onde pregou a livre interpretação das escrituras e mostrou-se contrário aos abusos cometidos em Roma pelo papado.

Depois de escrever suas teses Lutero passou a ser perseguido pelo Imperador Carlos V. E Roma respondeu ao seu ataque, por meio da bula “Exsurge Domine” promulgada pelo Papa Leão X, ameaçando Lutero de excomunhão caso este não se retratasse.

Na dieta de Worms, Lutero é condenado, porque não aceitou renegar os seus escritos. Assim, ele defendeu-os e desejou a Reforma Católica, sendo excomungado por Roma em 1521.

Como conseqüência do avanço Protestante, foi estabelecida a Dieta de Spira, em 1526, assim, os cidadãos deviam seguir a religião de seu chefe de Estado.

Em 1929, esta decisão foi revogada pelos príncipes católicos junto ao Imperador Carlos V. Com isso, os príncipes luteranos protestaram, foi este protesto que deu nome ao movimento. Frente a estes acontecimentos, o Imperador Carlos V ordenou a apresentação de uma exposição dos príncipes de confissão protestante.

Dessa maneira, foi apresenta a Dieta de Augsburg, esta passou a reger os luteranos, este concretizou a Reforma Protestante, por meio, da separação total de Roma.



Para Caperochipi (1986: p.05-06):

“La Confesión de Ausburgo (1530), primera formulación de la fe protestante, afirma que dos principios son la base de la Reforma. La sola Escritura afirma la supremacía de la palabra de Dios (el Evangelio) sobre la organización jerárquica de la Iglesia; el principio de fe sola significa la redención gratuita del hombre por la Cruz de su Salvador, sin atribuir a sus propios méritos la liberación del pecado2. Las demás cuestiones, especialmente la noción de sacerdocio universal y laestructura de la Iglesia, son consecuencia y desarrollo de estos dos principios primeros.”



O resultado imediato da Reforma Protestante foi a Contra-Reforma Católica, concretizada pelo Concílio de Trento, no qual a Inquisição medieval foi reformada, assumindo uma postura de combate às heresias e de vigia quanto ao culto católico. Houve assim o estabelecimento uma nova ordem religiosa: a Companhia de Jesus que buscou abrir novos caminhos para a fé católica; e a criação do Index Librorum Prohibitorum, que atacou a produção intelectual contrária à Igreja, “proibindo” a sua leitura e circulação nos reinos católicos.

Para Bossy, as mudanças mais perceptíveis realizadas pelo Concílio de Trento encontram-se nas atividades delegadas aos Bispos que deviam “fazer cumprir a conformidade paroquial”.

Agora, o fiel deveria ir à missa, comungar, confessar, criando assim um vínculo com a Igreja que só cessaria com a extrema unção e sua morte.

Nasce, assim, um desejo de proximidade. Segundo Bossy, a figura do pároco e sua ligação com o seu rebanho (povo) é o elemento chave do processo de constituição da Contra-Reforma (apud MULETT, 1985: p.08).


A fé católica e suas dúvidas.
O pensamento “cristão” surge da fusão do pensamento pagão ligado ao culto à natureza e o judaísmo.
A Igreja Católica, no medievo, tornou-se guardiã da ordem e da coerência, combatendo toda é qualquer manifestação contrária.

Neste momento, a fé está atrelada à racionalidade pelo domínio do conhecimento exercido pela Igreja, e qualquer manifestação contrária é vista como demoníaca.

Mesmo que durante o processo formador da fé católica, esta tenha se apropriado da “irracionalidade” existente nos rituais de origem pagão (BAIGENT; LEIGH, 2001: p.141).



Quando útil, a Igreja Católica soube muito bem apropriar-se de festa e datas comemorativas pagãs, dando a estas uma nova roupagem que atendessem às suas necessidades.

Algumas dessas festas foram mantidas como um momento de descontração e quebra das barreiras sociais (como é o caso do carnaval).

Até os dias atuais existem imagens bem conhecidas que nos trazem esta batalha da religião católica contra o paganismo, um caso exemplar é a imagem de São Jorge que enfrenta um dragão que é um dos símbolos mais antigos do mal.



A figura do dragão aparece na bíblia (Apocalipse 12: 7):

“Então houve guerra no céu: Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão. E o dragão e os seus anjos batalhavam, mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou no céu. E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele”.



Durante este período os cristãos assustados com medo da morte e do inferno procuravam proteção contra seu mundo de incertezas na Igreja. 

Nos século XIII a XV, a Europa foi devastada por catástrofes climáticas, guerras[v] e pela peste[vi], assim o homem medieval via-se cercado pela morte. Segundo Le Goff, o ocidente medieval era a morada de fome, da calamidade e da catástrofe (1985: p.14).

O medo da morte estava presente no imaginário popular.

Um exemplo desta presença é a “Dança Morte”, que surgiu por volta do século XIV, esta representação era formada por textos ou imagens que tinham como personagem principal a Morte personificada por meio de esqueletos (DELUMEAU: 1994).

Segundo a historiadora Elsa Malvido, neste período: “la muerte real se apodera de las calles y casas, la imagen de la muerte sale de su escondite y exige su culto” (APUD MERGRUEN, 2007:  p.07). 

Na poesia que compreende a La Danza Macabra del Cementerio de los Santos Inocentes de Paris[vii], a Morte (personificada) deixa sua mensagem: “Yo so la Muerte cierta a todas las criaturas que son y serán en el mundo durante” (MERGRUEN, 2007: p.14), a morte é certa, mas a salvação não.

As Peregrinações que ocorreram durante todo o medievo, também representam esta necessidade em busca da fé do homem medieval, que estava atormentado pela fome, peste e guerra.



Segundo Vauchez:

Assim, o seu imenso apetite pelo Divino procurava satisfazer-se em manifestações com forte carga emocional, cujo conteúdo teológico permanecia, em geral, bastante fraco” (1995: p.160).



O espírito religioso estava intimamente ligado ao desejo de salvação em busca de uma aproximação com Deus, por meio de ritos e peregrinações.

Todas estas formas de busca pela fé demonstram o distanciamento ente Igreja e seus fieis, que estavam incapazes de encontrar conforto a sua existência atormentada.

Buscavam então alcançar a salvação por meio de indulgências, relíquias e peregrinações, para assim atingir o tão desejado contato com Deus.

A culpa pesava nos ombros dos fieis atormentados, pelas calamidades e desgraças, e temerosos queriam a salvação a qualquer preço (LUIZETTO, 1989: p.18).

Para Delemeau (1989:60), a Reforma foi uma resposta às angústias, os indivíduos sentiam-se pecadores e, por isso, portadores da desgraça.

Nesta condição temerosa buscava-se o abrigo sob “o grande manto” da Virgem e tentam segurar-se contra a danação e, para isso, compravam indulgências.

Indulgências essas que eram dadas como prêmios (pensar os aspectos do espírito cruzado pela luta em manutenção da fé).

A tentação diabólica a cada esquina a luta entre o bem e o mal, se acirra.

Estes medos populares já começavam a caracterizar o desejo de mudança, segundo Pernound

Ao mesmo tempo, acentuam o movimento de reforma, já desenhado por duas vezes com os monges negros de Cluny e os monges brancos de Clairvaux e de Citeaux.

Assim, a própria Igreja sentira os perigos a que a expunha o seu lugar no mundo medieval e remediava-os, continuando a fazer face às necessidades novas que se apresentavam: aos perigos incorridos pelos Lugares Santos, às dificuldades sentidas pelos peregrinos que os visitam, opõe o auxílio guerreiro dos Templários e o auxílio caritativo dos Hospitalários (1985: p.85).

Depois de ter queimado personagens tão santos como João Huss; (1415) e Savonarola[viii] (1498) ao recusar-se a ouvir os apelos de renovação.

A Igreja teve de enfrentar em piores condições.

O embate em Wittenberg porque Lutero (I483-1546) juntava à tendência teológica de Wyclif a veemência de João Huss.

“Em 1434, Eugênio IV escrevia ao Concilio da Basiléia: Das solas dos pés a cocuruto da cabeça, não há no corpo Igreja uma parte sã” (DELUMEAU, 1994: p.124).

As dúvidas sobre a fé têm suas origens nos séculos XIII e XIV, um período marcado por guerras, epidemias e escassez, a esta soma deve ser acrescentada a fragmentação da igreja Católica devido ao grande cisma do Ocidente, que ocorreu entre 1378 e 1417.

Este se inicia devido à mudança do Papa Avignon, ocorrida devido a pressões políticas. Durante este período, houve Papado em Pisa, Avignon (os Papas eleitos fora de Roma eram vistos com Anti-papas) e Roma, havendo, com isso, três Papas.

Estas contradições só tiveram fim com o Concilio de Constância (1414-1418), que estabeleceu como seu objetivo principal a abdicação dos três Papas para a eleição de um novo, ocorrendo assim a eleição do Papa Martinho V. Segundo Delumean:



“O Concílio de Constância nação se reunira apenas para por fim ao cisma: tivera também o objetivo de condenar as doutrinas hussitas e. mais ainda, de realizar desejo, já há tanto tempo expresso, de reformar a Igreja na sua cabeça e nos seus membros. Ora a impotência pontifical e a anarquia que reinava na Cristandade davam, precisamente, uma oportunidade ao movimento conciliar, que era herdeiro das doutrinas de Jean de Jandun e de Marsílio de Pádua, as quais subordinavam a autoridade do papa ao livre consentimento do povo cristão”. (1994: p.122)

                                  

Após a reunificação do poder ocorre uma série de concílios que tentam estabelecer uma reforma efetiva das estruturas da Igreja, mas, que acabaram por não sair do papel.

Mas, estas reformas não aconteceram nas mãos dos Papas, até a revolta de Lutero (DELUMEAU, 1994: p.124).

A Igreja teve por muito tempo a “chave do céu” em suas mãos vendendo e negociando indulgências, Martinho Lutero estabelecerá uma forte crítica a esta postura.

Durante este período a salvação do homem dependia da boa vontade do Papa.



Segundo Varetto:

“Papa Bonifacio VIII cuando ofrece[ix], como si fuesen suyas, las coronas reales de Roma y Constantinopla a un príncipe francés; declara feudos papales a Hungría, a Polonia, Escocia, y publica la bula Unam Sanctam en la que decía: Declaramos que por la necesidad de la salvación toda criatura humana está sujeta al Papa de Roma”. (VARETTO, 1938: p.03)



Para pensar o poder do Papa, podemos buscar os princípios básicos do protestantismo, que segundo Delemeau, são três: a justificação pela fé, o sacerdócio universal e a infalibilidade, apenas das escrituras.

Esta última representa uma enorme ruptura porque ataca diretamente o poder do papado de Roma.

Para Lutero, o Papa só poderia remitir os pecados de alguém, por meio, da intercessão (LUTERO apud TAVARES, 1973: p.73).



Mas, esta não garantia uma presença no céu, na sua tese número 82, ele questiona o poder do papa e as indulgências:



“[...] por que o Papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas - o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica - que é uma causa tão insignificante?” (LUTERO apud TAVARES, 1973: p.81).



 Além desta critica direta ao poder papal e suas ações, as teses de Lutero vão estabelecer que a única riqueza desejável que a Igreja deveria ter seria a Bíblia.

Segundo Vauchez, “na Idade Media, a Bíblia não era um livro como os outros, mas, o livro por excelência, onde se encontrava a chave de todos os mistérios” (1995: p.170).

Lutero, bem sabia disto, quando na sua tese n° 55, disse: “o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias”. [...] O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus [tese 62] (apud TAVARES, 1973: p.78-79).

A justificação da fé pelas escrituras parecia uma tendência deste do séc. XII, tendo em vista a afirmação Vacheuz que “era sobre a Bíblia que se prestavam os juramentos solenes” (1995: p.172).

Mesmo assim, esta leitura era restrita. Muitas vezes, nem o próprio clero tinha o conhecimento da obra completa, o que mudaria com a tradução da bíblia para vernáculo, realizada por Lutero, que foi impressa em 1534. Para Itay (1973:19), os desejos de Lutero demonstrados em seus escritos não eram tão novos, pois na Alemanha há muito tempo já havia se demonstrado contrária ao domínio realizado por Roma (quanto à fé e a influencia política).

Além disso, ele leva em conta as habilidades de orador de Lutero, pai do movimento, e a sua disposição em utilizar da língua vernácula, no culto, garantiu-lhe apoio popular.

O enfraquecimento do poder papal faz-se evidente quando a Inglaterra adotou o anglicanismo no intuito de centralizar o poder o rei Henrique VIII[x], e rompe com Roma.

O Parlamento inglês o apóia em 1534, aprovando o Ato de Supremacia mantendo a autoridade religiosa sob o julgo real, nascendo uma Igreja de caráter nacional que, anteriormente, havia sido desejada por Huss e Wycliff.

Os escritos de Lutero ecoaram por toda Europa, quando estes começavam a perder força, surgiu à doutrina da predestinação divina de Calvino[xi][1], que deu origem ao calvinismo.

Segundo Luizetto, o fiel calvinista, “[...] deve considerar-se um “escolhido”, se ele vacila nesse ponto, é porque falta-lhe auto-confiança deve-se a sua falta de fé; e a falta de fé e o resultado da graça imperfeita”(1989: p.51).

O calvinismo evidenciou a fraqueza da crença medieval cristão, na qual, o medo e a insegurança imperavam, onde o indivíduo esta, constantemente, buscando demonstrar-se merecedor da graça divina.

Analisando, o contexto social do surgimento do Protestantismo, Von Martin (1973: p.15) afirma, que as formas de organização medieval ruíram devido ao surgimento de novos padrões sociais que se estabeleceram com a chegada, no poder, da burguesia.

As tendências democráticas, impostas nesse momento, foram as responsáveis pela decadência do sistema medieval.

Em suas palavras: “se destronan a dios y a la sangre es decir, a los antiguos poderes. Siguen éstos, es cierto, desempeñando un papel, pero no ya desde antiguo trono”.




As formas de Combate à heresia protestante.
“O verdadeiro não pode contradizer o verdadeiro” (São Tomas de Aquino).



O movimento protestante crescia e as novas demandas sociais e política estavam inerentes ao Renascimento.

Sendo assim, o Movimento Protestante foi fruto das mudanças que estavam se manifestando, e em conseqüência disso, '' as regiões mais ricas no século XVI, quando mal começava a reforma, eram católicas, dois séculos depois, as regiões mais ricas eram predominantemente protestantes'' (FALCON: 2000).


Este crescimento vertiginoso da Reforma, não destruiu o desejo de contra-ataque da Igreja católica.



Esta se defendeu mesmo, ferida, com certeza não derrotada.


A sua nova força afirmou durante o papado Paulo III (l534-1549), que aprovou os estatutos da Companhia de Jesus (1540), e estabeleceu o Santo Oficio (1542), e chamou o Concílio de Trento (1545).



“[...] O concilio, apesar de uma existência difícil, estendeu-se por dezoito anos e foi dissolvido duas vezes, mas, realizou uma obra considerável. Clarificou a doutrina, conservou as boas obras, ou seja, a liberdade-na obra da salvação, conservou os sete sacramentos. Afirmou com força a presença real na eucaristia, iniciou a redação do catecismo. Obrigou os bispos a residir e os padres a pregar e decidiu a criação de seminários” (DELEMEAU, 1994: p.126).



As mudanças trazidas à tona pelo movimento reformado possuíam raízes sociais profundas, eram mudanças desejadas.

Pertencentes a uma população que seguia uma fé que não atendia as suas necessidades há um bom tempo. Para Luizetto, o movimento “trata-se da desordem moral” e do “desmoronamento dos valores sociais e espirituais” (1989: p.17).

Assim desencadeando o movimento da Contra Reforma no seio da Igreja católica, o principal marco foi o Concílio de Trento.

O conclave foi aberto com uma tentativa reconhecidamente tíbia nos setores mais influentes de conciliar e acomodar o protestantismo.

Logo se tornou visível, porém, que qualquer tentativa nesse sentido estava condenada.

Daí em diante, os eclesiásticos reunidos trataram dos meios de brigar com os protestantes e, a fim de melhor faze-lo, adaptar sua própria Igreja para a luta.

O Concílio proclamou, por exemplo, “a igual autoridade da escritura e da tradição” (BAIGENT; LEIGH, 2001: p.162).

O Concílio de Trento que se realizou em três etapas que ocorreram entre 1545 a 1563.

Na primeira parte (1545-1547) foram discutidas as mudanças desejadas pelos protestantes, dedicando-se a negá-las.

A segunda (1551-1552) concentrou-se na questão dos sete sacramentos.

No período final (1561-1563) foram tratadas condições disciplinarias, frisando o problema da residência episcopal, considerado unanimamente um assunto chave para a execução da Reforma.

O concílio proclamou a ''igual autoridade da escritura e da tradição'', sendo contrária a posição protestante que só reconhecia a autoridade da bíblia, repudiou a insistência de Lutero na justificação pela fé. O poder do Papa sai fortalecido aumentando, assim, o seu poder centralizador, sendo ele ''o primeiro entre os iguais''.



Segundo Baigent e Leigh:

“O Concílio de Trento ia formular uma planta que determinaria o status, a máquina administrativa, a orientação e hierarquia de prioridades do Papado para os próximos três séculos e um quarto. E para a recém unificada Igreja, a preocupação dominante era, necessariamente, a cruzada contra a heresia do protestantismo” (2001: p.60).



O concílio entregou “nas mãos” das novas ordens religiosas a tarefa da renovação da vida e doutrina intelectual, assumindo o objetivo de educar e difundir o catolicismo.

Assumindo a tarefa de refutar o avanço protestante e recuperar as áreas conquistadas.

A autoridade dos bispos foi reforçada assim como seus deveres e responsabilidades, ganhando dessa maneira novas atribuições, como promover a formação dos sacerdotes e gerenciar estas atividades (LUIZETTO, 1989: p.64-65), foi o Concílio de Trento que criou as poderosas instituições centralizadoras, e consolidou a reestruturação da Inquisição.

Segundo Mullet, o bispado teve um trabalho de suma importância no período posterior ao Concílio de Trento, graças a este, a centralização do poder do papado foi retomada.

O bispado assumiu a responsabilidade administrar o processo da Contra-Reforma.

Assim, possibilitando a criação de um vínculo de paróquia em paróquia com Roma, a partir visitas e inspeções dos bispos.

Os papas reformadores: Pio V, Gregório XIII e Sisto V, que revitalizaram (quanto, a política, a fé e a cultura) Roma como centro religioso do mundo cristão (1985: p.16).

Segundo Küng, a Contra-Reforma traz um selo de restauração do selo católico medieval, havendo, assim, uma retomada do pensamento escolástico, para o combate aos protestantes, estabelecendo um processo “re-catolização” na Europa (2002: p.84).





A Companhia de Jesus.

A fim de conter o avanço protestante a Igreja Católica constituiu a Contra-Reforma, começou reformando suas estruturas revigorando e qualificando a formação do clero.

Esta tinha como objetivo eliminar o protestantismo, e os meios utilizados foram desde a força militar, conversão, fundação de escolas e universidade, além da vasta gama de pressões políticas realizadas por Roma, por meio, das suas relações com os estados católicos (LUIZETTO, 1989: p.54).

Assim, para o seu sucesso, a Igreja necessitava de um clero intelectualizado e bem formado capaz de fazer frente aos protestantes, estas características foram encontradas na Companhia de Jesus de Santo Inácio de Loyola, que tinha um modelo hierárquico rígido que seguia uma disciplina quase militar que junto com o Santo Oficio foram às pontas de lança da Contra-Reforma (BAIGENT; LEIGH, 2001: p.60).

As tensões deste período conturbado afetaram o próprio Santo Inácio de Loyola, que foi preso na cidade de Alcalá, onde, ele estudava acusado de ser “alumbrado[xii]”.

Após ser solto, mudou de universidade e foi estudar em Salamanca onde foi preso sobre a acusação de erasmismo[xiii], depois destas prisões, ele foi estudar em Paris (GUILLERMOU, 1973: p.41).

O período inicial da companhia de Jesus se mostrou difícil, quando começou a suas atividades em Roma foi acusada de possuir características luteranas, esta acusação gerou um processo junto a Roma, contra a Companhia de Jesus que foi absorvida.

O grupo que, inicialmente, formou a Companhia de Jesus tinha como objetivo ir à Palestina para converter, os pagãos, à fé cristã.

Em 1539, Santo Inácio de Loyola redigiu a Formula Instituti, esta só, foi retificada em 1940, data da Bula Militantis Eclésia, promulgada pelo Papa Paulo III, que oficializou a ordem. (GUILLERMOU, 1973: p.42).

A Companhia de Jesus assume o papel de formadora e promulgadora da fé católica e o Santo Oficio (o Papa Paulo III, restabeleceu a Inquisição, agora, como Santo Oficio, em 1942) deve garantir a manutenção da fé católica e do poder papal. 

A Companhia de Jesus tem uma formação hierárquica militar com uma disciplina rígida, onde a autoridade papal, jamais, deveria ser questionada. 

Enquanto Lutero se baseou nas escrituras para estabelecer sua doutrina, Santo Inácio de Loyola não questionou o poder daqueles que estavam representando Deus na terra, aceitando, assim, as suas imposições.

Segundo Guillhermou (1973: p.52), “obedecer com um cadáver, (...) obedecer com um bastão na ao do ancião, tal é a sorte que Santo Inácio reservava a seus discípulos”.

O ingresso nesta Ordem era difícil porque os jesuítas tinham um período de noviciado de dois anos, enquanto as outras ordens era um ano.

Durante este período o noviço deveria prestar serviços em um hospital e fazer uma peregrinação.

Quando concluído este fazia três votos pobreza, castidade e obediência, e deveria ingressar no ensino superior (LUIZETTO, 1989: p.58).



Segundo Luizetto:

“Os jesuítas serviram de modelo: não eram apenas religiosos apenas austeros, disciplinados, instruídos, devotos, também eram bons educadores, confessores, professores e evangelizadores. Uma elite sacerdotal muito bem preparada” (1989: p.60).



Os Jesuítas ficaram com a responsabilidade de difundir a fé católica nas novas colônias, fundando missões para o ensino dos indígenas, trabalharam, também, nas universidades na Europa, para assim, dificultar à difusão do protestantismo. Baigent e Leigh afirmam que: “Loyola e os jesuítas foram uma grande influência na criação de uma Inquisição recauchutada, ou Santo Ofício.” (2001: p.61).



Caperochipi diz que para Lutero: “el hombre se relaciona directa e individualmente con Dios, y la Iglesia católica, regida por castas sacerdotales, es la Babilonia del pueblo de Dios, que aprisiona y esclaviza al creyente.” (1983: p.10).



Considerando esta afirmação, podemos dizer que, os Jesuítas e os agentes do Santo Ofício, foram os soldados do Império e tinham a responsabilidade de “recapturar os escravos fujões e a capturar novos escravos”.

Mullet ressalta que foi pela Companhia de Jesus que a Contra-Reforma teve seu maior impulso, devido as funções exercidas pelos jesuítas dentro das escolas, das universidades e como confessores do reis, formando, assim, as classes dominantes (1985: p.10).

A Companhia seguiu perfeitamente as palavras de Santo Inácio de Loyola: “trabalha como se tudo dependesse de ti; e reza como se tudo dependesse de deus” (apud MULLETI, 1985: p.19).

Este quadro só alterou-se com a expulsão dos jesuítas por Portugal (1759) e Espanha (1767).





Surge o Santo Oficio.

A Inquisição[xiv] medieval, como órgão repressivo da Igreja, começa a ser estruturada no 3° concilio de Latrão, em 1179, no Papado de Alexandre III, tendo como objetivo combater os hereges e os inimigos da igreja.

A Inquisição foi criada com intuído de restaurar a verdadeira fé no coração daqueles que dela desencaminharam-se.

A Santa Inquisição foi fundada pelo Papa Gregório IX, pela bula Excommunicamus, publicada em 1231.

O tribunal da inquisição não tinha como objetivo a sentença de morte aos seus réus, por que quando esta ocorria era executada pelo Estado, e não pela Igreja, a entregado do réu ao estado significava a desistência da sua salvação.

Normalmente, a pena de morte era aplicada aos reincidentes, aos que voltaram a cair no pecado da heresia, do cisma ou apostasia (TESTA e TESTA, 1968: p.09) Gonzaga argumenta que a constituição da doutrina católica se desenvolveu durante doze séculos, por meio, de concílios, de pontífices e de pensadores.

Esta evolução possibilitou que surgisse a ortodoxia que, portanto tempo, garantiu a unidade religiosa e “política[xv]” (1994: p.118) na Europa medieval.

Durante o século XII, os seus principais inimigos da Inquisição foram os Cátaros[xvi]e Albigenses[xvii].

Durante todo medievo foi dado, a inquisição, o trabalho de criar o arquétipo perfeito do mal.

Mas uma grande dificuldade foi encontrada (pela diversidade de deuses existentes nos cultos pagãos), sabendo tinha muitas formas, as vezes,  o inquieto Pã (deus grego dos bosques, considerado responsável pelos medos noturnos) ou Lúcifer a forma sedutora do demônio com sua astuta habilidade de manipular o homem, que foi responsável pela expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden (BAIGENT; LEIGH 2001: p.139).

Este ser provido de uma racionalidade superior tenta o homem, questionando a fé, fazendo com que o homem duvide da fé, a heresia seria fruto desta tentação.

O conceito de heresia, trás na sua definição que é “o que escolhe” (NOVINSKY, 2007: p.12).

Logo, esta escolha desencadeará a oposição da Igreja, “[...] opor à Igreja é opor-se a Cristo (At 9,4) e ficar no erro” (GONZAGA, 1994: p.106).

Para evitar o possível surgimento de heresias em 1229, o Papa Gregório IX, proibiu a leitura da Bíblia pelos fieis, a leitura sem controle era um perigo combatido pelo clero (LOPES, 1993: p.23).

Um exemplo desta leitura livre da Bíblia em vulgata e a realizada por Menocchio, personagem do principal, do livro, O Queijo e os Vermes de Carlo Ginzburg.

Menocchio é um moleiro que viveu em Friuli (localidade sob a jurisdição de Veneza), na metade do século XVI, ele criou uma cosmovisão própria oriunda de uma série de leituras (dentre estas a Bíblia) realizadas.

Segundo, as suas afirmações o mundo surgiu da putrefação entre queijos e vermes.

Neste período de mudanças tão significativas, Menocchio representa e expressa as dúvidas e contra-sensos populares neste período de transição entre Idade Média e a Idade Moderna.



Ginzburg destaca que: “A primeira vista parece evidente que por trás disso tudo estava o grande golpe desferido contra o princípio de autoridade, no campo não só religioso, como também no político e social, pela Reforma Protestante” (2006: p.52).



O Santo Oficio julgou Menocchio e o condenou como herege, devido à intervenção pessoal e direta do Papa Clemente VIII (1536-1605), devemos considerar que este era incidente, sendo queimado na fogueira, com 67 anos de idade, em 1599.

Lopes relembra que “no evangelho de S. João, Cristo disse que aquilo que não permanecesse nele seria arremessado fora e lançado ao fogo para arder. [...] os hereges matam a alma dos homens, as autoridades matam, apenas, o corpo” (1993: p.24).

No século XV, período de advento do Movimento Protestante os inimigos, não eram os mesmo que no medievo, tendo em vista os grandes intelectuais que deram forma a este movimento.

Neste momento, torna-se impossível a debilitada intelectualidade católica contra-atacar devido ao declínio intelectual da formação do clero, que se arrastava desde a cruzada Albigense, onde a formação intelectual dos Monges Dominicanos havia garantindo-lhes a capacidade de enfrentar os intelectuais heréticos de igual para igual (BAIGENT; LEIGH, 2001: p.142-143).

Este mesmo combate intelectual no Renascimento não era possível frente a figuras intelectuais tão fortes que organizavam o Movimento Protestante, a Igreja Católica encontrava-se desarmada, mas não vencida.

Varetto salienta que, durante o medievo, as escrituras sagradas foram lidas e comentadas, para a utilização em sermões para os fieis.

Mas, com o passar do tempo, estes comentários tomaram o lugar das escrituras nos rituais, e a leitura da bíblia foi abandonada.

Este autor traz o testemunho de Tomás Linacer, um eclesiástico do século XV, que afirmou que nunca ter lido Novo Testamento, e quanto este teve acesso a estes escritos, duvidou da sua própria cristandade (VARETTO, 1938: p.04).

Durante toda a Idade Média, a Igreja era o centro irradiador de toda a cultura, sendo responsável pela catequização e “educação” da população, detendo para si o monopólio do saber, que disponibilizava ao povo “as migalhas”.

Não foi só o saber monopolizado pela Igreja, ela também enriqueceu durante este período.

Esta riqueza devia inevitavelmente arrastar uma decadência e um relaxamento nos costumes, dos quais a Igreja se defendeu através de reformas sucessivas” (PERNOUND, 1985: p.84).

Em contraponto, também, podemos pensar a situação da nobreza que reduziria em número depois da peste que passou a acumular riquezas.



Como destaca Verdon citando o cronista florentino Malteo Villani:

“Cuando terminó la peste, los pocos hombres que quedaron, enriquecidos de bienes materiales gracias a las herencias y las sucesiones, olvidando los hechos pasados como si no se hubieran producido, comenzaron a llevar una vida más escandalosa y desordenada que antes” (apud VERDON: p.17).



Este mesmo pensamento que contaminou a população em geral, no período posterior às calamidades que devastaram o Ocidente, também se refletiu na formação clero que se desviou do caminho da fé.

A luxúria e imoralidade da vida clerical chamaram a atenção dos seus próprios membros, como são os casos de Erasmo de Roterdã e Lutero.

Assim, a própria Igreja sentira os perigos a que a expunha o seu lugar no mundo medieval e remediava-os, continuando a fazer face às necessidades novas que se apresentavam: aos perigos incorridos pelos Lugares Santos, às dificuldades sentidas pelos peregrinos que os visitam, opõe o auxílio guerreiro dos Templários e o auxílio caritativo dos Hospitalários (PERNOUND, 1985: p.85).

Com o crescente do movimento da Reforma ocorre uma explosão do conhecimento, impulsionada pela invenção da imprensa, junto à tradução e publicação da bíblia em vernáculo, agora, a fé e as escrituras tornaram se acessíveis ao povo, que não necessita, mais, do intermédio da Igreja (BAIGENT; LEIGH, 2001: p.141).

Contra a difusão cultural, intelectual, e religiosa, da Reforma e do Renascimento, a Igreja não tinha como lutar.

Para poder enfrentar este inimigo, a Inquisição medieval foi remodelada, agora, recebendo o nome de Santo Oficio, sendo este a solução encontrada pelo papado, a fim de manter o seu poder.

No período da Contra-Reforma o inimigo a ser combatido não era mais a irracionalidade oriunda dos rituais pagãos, e sim a intelectualidade protestante e laica.

As ações realizadas pela Igreja tinham como objetivo combater “o perigo luterano e calvinista que atemorizava a inquisição” (TESTA; TESTA, 1968: p.86).

O Santo Oficio mudou os seus alvos, atacando, assim, os homens que ocupavam grandes postos (seculares e até mesmo religiosos), pois, a punição destes garantiria a salvação das classes abaixo deles.

Assim, que se criou o Santo Ofício em 1542.

Caraffa foi nomeado o primeiro Inquisidor Geral da reconstituída instituição.

O Papa reservou para si o direito de perdão. Fora isso, a nova Inquisição papal, ou Santo Ofício, recebeu poderes praticamente irrestritos, incluindo o direito de delegar autoridade a outros eclesiásticos e invocar a ajuda do braço secular, se necessário (BAIGENT; LEIGH, 2001: p.161).

O Santo Oficio podia punir, mesmo que por suspeita, não havendo piedade.

Assumiu desta maneira, uma postura doutrinária ao lado do poder do estado absolutista, principalmente, na Espanha e em Portugal, reprimindo e controlando as possíveis formas dissidentes (FALCON: 2000: p.170).

Devemos pensar os anseios políticos, destes países, que era a unidade, pensando em um único rei, uma única língua e uma única fé. 

A Igreja sempre manteve uma postura ortodoxa quanto aos seus dogmas e preceitos.

Que foram atacados durante a Reforma Protestante, fazendo que a Igreja fortalecesse as suas estruturas, por meio, do Santo Oficio e da Companhia de Jesus.

Tendo, como base, para as suas ações, o pensamento de Santo Agostinho, as punições que foram lançadas sobre os hereges, tinham como objetivo fortalecer a fé, utilizando como arma a coerção, impelindo o medo, aos fraquejantes, que poderiam torna-se hereges, mais tarde, desta maneira salvando-os (DELUMEAU, 1994: p.118).

A Igreja caracterizou a presença do mal, do demônio, no Protestantismo e no “Renascimento[xviii]”.

De certo modo aceitável, pela contestação da ordem social e dos costumes causadas por estes, sabendo que há tanto tempo a Igreja era guardiã desta ordem.

O mal, sempre, foi associado à desordem e ao caos.

Tanto o Movimento Protestantismo como o Renascimento, como bem salienta Falcon, ocorreram devido às diferenças inerentes entre a cultura das elites e o choque a múltiplas formas da cultura popular e suas formas de pensar, devido, a emergência de novos atores sociais (2000: p.162).

O sucesso da Inquisição em conter o avanço protestante nos reinos católicos ocorreu devido, a ortodoxia do povo comum, que tinha medo desta nova fé, que representava para muitos a personificação do demônio.

No ocidente, o ódio se tornou. Francisco I deixou massacrar 3.000 valdenses do sul. Filipe II liquidou em cinco grandes autos de Fé todos os protestante e erasmizantes que a Espanha contava.

Perto de 30.000 reformados foram vitimas na França da Noite de São Bartolomeu e de suas seqüelas tanto em Paris como nas províncias.

Nos Países-Baixos, no outono de 1572, o duque de Alba mandou saquear Malines, que outrora a abrirá suas portas ao príncipe de Orange, e executar os Protestantes de Zutphen (DELEMEAU, 1994: p.163).

O combate ao protestantismo se intensificou devido ao rápido avanço das concepções protestantes.

Os poucos territórios que a doutrina protestante não conseguiu penetrar eram localizadas na península ibérica, que se manteve livre “do contágio herético”.

Na busca de conter os avanços Protestantes ocorreram vários conflitos entre as nações católicas e protestantes.

Estes conflitos geraram dificuldades para os contatos comerciais entre as nações, para impedir que a fé atrapalhasse nos negócios.

Em 1604 é assinado o Tratado de Londres, que colocou fim a Guerra Anglo-Espanhola[xix].

Este tratado impediu que os súditos do rei inglês fossem atacados devido a sua consciência religiosa, nas terras espanholas, posteriormente, este se estendeu a Holanda e Dinamarca (GONZAGA, 1994: p.213).

Com este tratado os protestantes de pararam de ser “perseguidos” dentro dos territórios destes países.

Mas isso não impediu que eles fossem presos pela a acusação de estarem pregam a religião protestante em solo católico.

Em toda a Europa os casos de condenações de protestantes pela inquisição, tiveram os seus números reduzidos, segundo Lopes (1993) e Bethencourt (2000).

Devemos considerar as diferenças entre a Europa e as colônias onde estes tratados podiam ser esquecidos pelos inquisidores.

“Os Inquisidores no Novo Mundo também podiam assar em suas fogueiras uma forma de petisco não facilmente acessível a seus colegas na Espanha isto é, os protestantes”. (BAIGENT, 2001: p.42).

As armas de Igreja para combater o protestantismo não se reduziam, apenas, ao ataque físico, por meio, de guerras (de 1562 a 1598, realizadas entre os estados católicos e protestantes) e pelas prisões realizadas pela inquisição.

A Contra-Reforma também lançou os seus olhares sobre a produção intelectual, a ferramenta usada foi o Index Librorum Prohibitorum.




O Index.

“A censura Intelectual, acoplada ao terror da Inquisição foi uma das mais características da vida mental  [...] a partir do século XVI” (FALCON, 2000: p.170).


 Com a impossibilidade de retomar as localidades perdidas pelo avanço do protestantismo, a Igreja criou novas estratégias para conter estes.

O primeiro golpe foi dado contra a cultura produzida no período da Reforma, criando a Index Librorum Prohibitorum, que proibia a leitura de textos heréticos e os considerados imorais pelo Santo Oficio.

A censura não se reduziu apenas à literatura esta estendeu-se as artes plásticas onde alguns pintores foram perseguidos.

As listas de proibição eram revistas, esporadicamente, e tinham novos textos adicionados.

As listas ''negras'' da Igreja foram abolidas oficialmente em 1966, alguns autores que fizeram parte desta lista são: Erasmo de Rotherdã, Martinho Lutero, Vitor Hugo, Descartes, Giordano Bruno Locke, Stuart Mill, Montaigne, Rousseau, Sthendall, Votaire, Zola, Sartre dentre outros nomes.

Mas, por que o Santo Oficio voltou seu olhar para a produção literária?

Simplesmente porque durante o período de difusão dos ideais protestantes a grande arma do movimento, foi à imprensa que era invenção de João Guntenberg, que em 1454, imprimia sua primeira Bíblia.

Rompendo neste momento com a supremacia do clero quanto à produção cultural, que esteve nas suas “mãos” durante todo o Medievo.

O grande diferencial do Movimento Protestante, e seu maior trunfo foi a tradução para o vernáculo da Bíblia, realizada, primeiramente, Lutero e posteriormente por Calvino.

A rápida difusão, tanto, da Bíblia traduzida por Lutero como suas famosas 95 teses e seus outros escritos, deve-se a imprensa.

A doutrina protestante do sacerdócio universal baseia-se na possibilidade da leitura individual da Bíblia o que seria impossível sem a imprensa sua produção massiva de livros e panfletos religiosos (GONZAGA, 1994: p.213).

No período, posterior a 1520, o número de obras de caráter religioso, publicadas era de 75% , de tudo que era impresso na Europa, este grande número de impressões de caráter religioso demonstra a carência da população quanto ao acesso à palavra, matava-se, assim a “sede” das escrituras, segundo Delemeau (1989: p.78).

A partir de 1521, o inquisidor-geral da Espanha, proibiu a posse circulação de livros protestantes e definiu a inspeção sistemática nas livrarias.

A Inquisição Portuguesa em 1547 criou a sua lista de livros proibidos.

Para estes serviços, tanto em Portugal como na Espanha, é criado um conselho de vistoriadores, os livros proibidos encontrados nas livrarias eram enviados ao Santo Ofício e destruídos.

Esta vistoria não ficava restrita as livrarias, pois, esta se estendia as bibliotecas das universidades, escolas, e aos inventários quanto às bibliotecas particulares.

Nos portos os navios também eram revisados a procura de livros heréticos ou imorais, posteriormente, houve a mudança de foco passando para livros de filosofia nos séculos XVII e XVIII, os livros encontrados eram retidos para investigação (BETHENCOURT, 2001: p.201-206).

Em Veneza e Milão em 1554, havia sido feitas listas dos livros proibidos, mas, estas foram oficializadas, apenas, em 1559, pelo Papa Paulo IV, com Index Librorum Prohibitorum.

Na Itália as vistorias e inspeções nas bibliotecas e livrarias aconteciam, mas, de forma reduzida, principalmente, em Roma, devido às características comerciais de alguns estados italianos.

Como é o de Veneza que rompeu com Roma, e, assim, possibilitou o livre comércio das obras proibidas nos seus territórios (BETHENCOURT, 2001: p.209).

Dentre as obras proibidas estavam livros tidos heréticos ou, simplesmente, imorais, entre as obras que foram banidas estão os textos de Erasmo de Roterdã, Lutero, Jan Huss, além dos livros voltados a assuntos ligados a magia, astronomia, alquimia.

Proibiu se o Talmude judaico, junto com trinta traduções da Bíblia em sua totalidade e onze do Novo Testamento.

Havia também uma lista de sessenta e dois impressores a serem evitados, a maioria deles na Basiléia protestante.

Em 1564, o Index de Caraffa foi oficialmente aprovado pelo Concílio de Trento e relançado com vários acréscimos.

Quando o Concílio de Trento terminou em 1563, o mundo já cultura secular e o protestantismo haviam se tornado fatos (BAIGENT, 2001: p.163).

Quanto o Concílio de Trento terminou em 1563, o mundo havia se modificado, Igreja o poder havia reduzido.

Para conter o avanço do protestantismo, a Igreja atacou também os intelectuais renascentistas, que com sua sede de conhecimento estabeleceram os alicerces para o pensamento moderno, suas ideias inovadoras abrangiam arte, ciências, teologia, filosofia, medicina, e outras áreas do conhecimento que colaboraram para o desenvolvimento.

No início das perseguições realizadas pelo Santo Ofício, muitos intelectuais conseguiram sair ilesos, mas, com a modernização da Inquisição, o cerco apertou e as punições ficaram cada vez mais rígidas.

Um destes intelectuais de destaque que foi perseguido e morto pela inquisição é Giordano Bruno.

Este intelectual é a materialização perfeita dos ''Magos do renascimento'', este foi filosofo poeta, teólogo, cientista, visionário.

Tornou público e defendeu a teoria heliocêntrica de Copérnico.  

Este acabou caindo nas mãos do Santo oficio pela sua exacerbada confiança, mas, defendeu suas ideias fugazmente, indo para a estaca em 1600.

Outro exemplo é Galileu Galilei, astrólogo que aprimorou o telescópio, demonstrou empiricamente a validade da teoria de Copérnico, quebrando assim, idéia de quem a terra era o centro do universo.

Em conseqüência, disto, foi preso e condenado pelo Santo oficio, por heresia, morreu preso, em 1642.

Buscando manter o seu controle sobre a produção intelectual e religiosa dentro dos países católicos, os agentes da Igreja tinham a responsabilidade de vistoriar as embarcações comerciais que atracavam nos portos destas cidades eram vistoriados.

Segundo Gonzaga, em 1535, o Santo Ofício desmantelou a uma grande rede de distribuição de livros luteranos em Barcelona.

O controle realizado buscava retirar de circulação os livros que se mostrassem ofensivos à Igreja, com o objetivo de impedir que a população estabeleça o contato com livros de características subversivas.

As proibições eram realizadas por autor censurando todas as suas obras, ou parcialmente, no caso dos autores não religiosos (1994: p.213). 

Alguns dos livros que fizeram parte do Index Librorum Prohibitorum eram relatos de prisioneiros da Inquisição que conseguiram escapar com vida do tribunal, um exemplo destes livros é o relato de Isaac Martin, que se intitula “O processo e os sofrimentos de Mr. Isaac Martin” publicado em 1723 e dedicado ao Rei George I. Isaac foi preso pela santa inquisição como herege, pela sua confissão ser protestante (MAX, 1991: p.189).


Concluindo.
O período que marcou o início da era moderna foi conturbado devido a uma série de fatores que devemos considerar como: a expulsão dos Mouros da península ibérica, a constituição dos estados nacionais, a descoberta da América e o crescente fluxo comercial.

Podemos perceber que é um período de mudanças e prosperidade para Europa.

O início do século XVI é um momento de questionamentos, também devido a uma série de descobertas científicas que abalaram os antigos valores medievais, a Igreja Católica até então, velha e “honrada”, guardião da saber e da moralidade, começa a mostrar suas falhas de caráter.

Os atos condenáveis da Igreja arrastaram-se por anos e seus críticos e opositores foram caçados e mortos na fogueira, colocando as mudanças necessárias para a modernização da Igreja, em um segundo plano.

O período final do Medievo é um momento de recuperação, lenta e medrosa, depois de um longo período de guerras, fomes e peste, neste período houve uma retomada dos antigos cultos pagãos em várias partes da Europa.

No início da Idade Moderna, ainda, estavam presentes os medos oriundos destes momentos difíceis e a procura pela fé e pela salvação era acentuada, a Igreja Católica vendia indulgências e bênçãos, possibilitando a compra de um lugar no céu, que era tão desejado.

A Reforma Protestante nada mais é que uma resposta para uma fé cambaleante, e de certo modo inacessível para muitos, e também questionada nos períodos de crise.

Os valores burgueses em ascendência, os desejos individualistas e imediatistas, serão contemplados pela Reforma protestante que possibilitará este contato direto com Deus, por meio, da oração e das escrituras.

Foi com o Renascimento que se tornou possível a ruptura com a concepção medieval de teológico-natural, estabelecendo a permeabilidade social como seu fim.

O antropocentrismo nascente pôs o homem à frente do seu destino, e o protestantismo o pôs a frente da sua fé. 

Mas, a Reforma também pode ser vista como uma reação contra à modernização da Igreja Católica que vendia as indulgências a fim de realizar a sua obras, aproveitando-se do momento de prosperidade comercial, as ligações econômicas do papado, com os homens de negócios.

A arte renascentista que passou a compor de forma integrante as Igrejas católicas foi atacada por Lutero, caracterizada como uma retomada da idolatria pagã (TAVARES, 1973: p.28-29).

Claro que estas considerações não excluem as características de ruptura do Movimento Protestante que foi desencadeado por Lutero, as características de individualização da fé, de sacerdócio universal e transposição do poder papal.

Foram responsáveis pela constituição de pensamento moderno quanto à fé, que será finalizado pela doutrina de predestinação divina elaborada por Calvino.

Os caminhos desenhados e desenvolvidos pela Reforma andam lado a lado, com as ambições do renascimento do nacionalismo, econômico, político e cultural da Idade Moderna, negando, assim a universalidade propiciada pela Igreja no medievo, deixando evidente o desejo de individualização dos estados e, especialmente, dos indivíduos.

A Igreja realizou tentativas para a manutenção das suas antigas estruturas, mas isso era impossível.

A Contra-Reforma serviu para modernizar a Igreja Católica e para combater os avanços do protestantismo.

As instituições criadas e reformuladas durante a Contra-Reforma garantiram a manutenção do poder da Igreja.

Além de serem responsáveis pela contenção da “ameaça” protestante, porém a Igreja jamais recuperou o poder que ela tinha durante todo o medievo.


Para saber mais sobre o assunto.
AGUILAR-AMAT, Pilar Azcárate. Hambres y guerras in Cuadernos de História 16. Peste y Catástrofes Medievales. nº 120, Madrid, 1985.
BAIGENT, Michael; LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições: Portugal Espanha e Itália. SP: Cia das Letras, 2000.

BÍBLIA Português: Novo Testamento (…) distribuidora Gideões, SP, 2002.

CAPEROCHIPI, José A. Reforma Protestante y Estado Moderno. Madrid: Civitas, 1986.

DELUMEAU, J. Nascimento e afirmação da Reforma. São Paulo, Editora Pioneira, 1989.

DELUMEAU, J.  A civilização do Renascimento. Lisboa: Editorial Estampa, 1994.

FALCON, Francisco J. C. Tempos modernos: ensaios de historia cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

GONZAGA, J. B. A Inquisição em Seu Mundo. Saraiva, 1994.
GUINZBURG, C. O queijo e os Vermes. SP: CIA das Letras, 2006.

GUILLERMOU, A. Santo Inácio de Loyola e a Companhia de Jesus. Rio de Janeiro: Agir, 1973.

LOYN, Henry R, (org.). Dicionário Ilustrado da Idade Média. Trad. CABRAL, A. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990.

LOPES, Luiz Roberto. História da Inquisição. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1993. 

LUIZETTO, Flávio. Reformas Religiosas (Repensando a História). São Paulo: Contexto, 1989.

LUTERO, M. 95 teses in TAVARES, José A. Giusti (Org.). Coletânea de Textos Históricos. História do Pensamento Humano Vol: I. São Leopoldo: Unisinos, 1973.

ITAY, D. Os Humanistas in TAVARES, José A. Giusti (Org.). Coletânea de Textos Históricos. História do Pensamento Humano Vol: I. São Leopoldo: Unisinos, 1973.

KUNG. H. La Iglesia católica. Barcelona. Ed. Mondadori, 2002.

MARQUES, A. M.; BERUTTI, F. C., FARIA, R. S. História Moderna Através de Textos – 11 ed. São Paulo: Contexto, 2005.

MAX, Frederic. Prisioneiros da Inquisição. Porto Alegre: LP&M, 1991.

MERGRUEN, E. La Danza General de La Muerte. Ciudad del México, Coleción la Guilhotina, 2007.

MULLET, Michael. A Contra-Reforma e a Reforma Católica nos Princípios da Idade Moderna Européia. Lisboa. Gradiva, 1985.

NOVISKY, Anita. A Inquisição. SP: Brasiliense, 2007.

PERNOUND, R. Luzes na Idade Média. Mem Martins: Europa-América, 1981.

TAVARES, José A. Giusti (Org.). Coletânea de Textos Históricos. História do Pensamento Humano Vol: I. São Leopoldo: Unisinos, 1973.

VAUCHEZ, A. A espiritualidade na Idade Média Ocidental: séculos VIII à XIII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

VARETTO, J. La Marcha del Cristianismo: La Reforma Religiosa del Siglo XVI. Argentina: Edit. Junta de Publicaciones de la Convención Evangélica Bautista, 1938.





Texto: Prof. Cássio Michel dos Santos Camargo.

Licenciado pelo Instituto Metodista IPA do Sul, Pós-graduando em História e Geografia pela UFRGS.

Professor de História do Pré-vestibular Esperança Popular POA/RS.




[i] Tradução: somente a fé, somente a Escritura, somente Cristo, somente a graça, glória somente a Deus.


[ii] Teólogo e reformador religioso inglês visto por alguns autores como precursor do protestantismo, foi baseada apenas na escritura argumentando que as crenças religiosas devem ser procuradas na mesma, não a tradição da igreja, sempre incerta e contraditória, começou a organizar a tradução da bíblia para o inglês. Wycliffe morreu em 31 de dezembro de 1384.  A igreja de Roma não podia retirar a sua vida, mas, continuou o odiando até depois da morte, em 1415, suas doutrinas forma condenadas pelo Concílio de Constança e seus restos mortais foram removidos da sepultura e jogados no rio que flui através de Lutterworth..


[iii] Reformador e teólogo de origem Boêmia, condenado no Concílio de Constâncio, morreu na fogueira como herege em 1415. (TESTAS e TESTAS, 1968: 53) A doutrina religiosa de Jan Huss de origem ao movimento hussita, que Foi organizado por cerca de 450 nobres da Boêmia para vingar a morte de Huss. Eles se dividiram em dois grupos. Os conservadores chegaram a um acordo com as autoridades da Igreja em 1433. Os radicais, que combatiam a Igreja, foram derrotados em 1434. Segundo Varetto, os hussitas exigiam direitos iguais para todos os cidadãos sem distinção de nascimento, riqueza, educação, profissão ou gênero. (1938:14)


[iv] As indulgências eram vendidas para os fíeis, sendo buscadas a fim garantir a salvação e a remissão dos pecados. O dinheiro arrecadado era revertido aos cofres de Roma com o intuito de realizar a uma serie de  “construções no vaticano”, que teve como um dos seus colaboradores, o  pintor Miguelangelo. A arrecadação esta sobre a responsabilidade da família de banqueiros Fuggers, de Augsburg, que as concediam em nome do Papa Leão X.


[v] A Guerra dos Cem ocorreu entre 1337 e 1453, foi a disputa entre francês e ingleses pela posse territorial na França. Este conflito e desencadeado após a morte do Rei Francês Carlos IV, existiam dois pretendentes diretos ao trono, Filipe de Valois que era neto de Filipe, o Belo e Eduardo III, rei da Inglaterra e neto também de Filipe por parte de Mãe. Este impasse foi resolvido a partir da Lei Sálica que determinava à proibição a ocupação do trono da França por linha materna.  A Inglaterra não aceitou devido ao seu interesse pela Região dos Flandres. Os produtores franceses queriam garantir a importação da lã inglesa sem tantas dificuldades. Então, os burgueses dessa região foram buscar apoio com Eduardo III, que tomou posse da região dos Flandres, baseando-se nos direitos sucessórios, visto ser neto do rei. Devido a esta ocupação a Guerra dos Cem anos se inicia, durante um século houveram conflitos intercalados com momentos de paz. Durante grande parte do período dos confrontos os ingleses derrotaram os francese, em 1415 dominaram a cidade de Paris e capturaram o rei Carlos VI. Depois desta derrota foi assinado o Tratado de Troyes que passou a parte norte da França aos britânicos. Em1429 surge Joana D’Arc, uma camponesa que liderando um pequeno exército organizado pelo monarca Carlos VII, conseguindo reconquistar a região de Orleans do domínio inglês e, posteriormente a região de Reims. Numa tentativa de conter as vitórias francesas, o duque de Borgonha captura Joana D’Arc a oferece aos tribunais eclesiásticos sob a acusação de bruxaria, sendo condenada à fogueira. Mas, invés de conter os franceses, isso, os mobiliza iniciando assim uma série de vitórias. Este conflito que se estendeu por 116 anos (1337-1453) A guerra terminou em 1453 e os ingleses foram expulsos dos territórios franceses, conservando apenas Calais. Dessa maneira a guerra causou milhares de perdas humanas dos dois lados, junto com uma enorme devastação dos territórios e das propriedades na França. As suas conseqüências políticas e sociais foram importantes para esse país. Podemos citar o início do desenvolvimento de uma idéia de nação, o fim das pretensões inglesas sobre territórios franceses e tornou possível a criação de instituições de governo centralizadas abrindo caminho para o desenvolvimento da monarquia absolutista. Além disso, esse conflito esteve vinculado a outras questões relativas às relações internacionais da Europa, tais como, a guerra civil castelhana, os confrontos na Sicília entre franceses e a Coroa de Aragão ou as atribulações do Papado de Avignon. Ver mais em: TEIXEIRA, Francisco M. P. A guerra dos cem anos. São Paulo: Ática, 1996.


[vi] A Peste Bubônica ou Peste Negra foi responsável pela morte de cerca de um terço da população européia.  A população como um todo se contaminou desde Reis e príncipes até servos e padres. A contaminação ocorreu, por meio, de ratos contaminados, que vieram dos estepes mongóis pelos navios mercantes italianos, com a bactéria Pasteurella Pestis, as pulgas destes roedores transmitiam a bactéria aos homens através da picada.


[vii] A representação mais antiga desta arte encontra-se na Église des St. Innocents (Igreja dos Santos Inocentes, em Paris no ano de 1424).


[viii] Monge dominicano italiano Jerônimo Savonarola (1452-1498), um dos precursores da Reforma do século XVI, viveu na cidade de Florença.  Criticou a imoralidade dos monastérios, desejava uma vida virtuosa para os monges, e atacou os abusos da autoridade papal. Por ordem papal foi condenado a morte em 1498, sendo enforcado e queimado em praça pública.


[ix] Não devemos esquecer que o poder real durante o medievo era legitimado pela Igreja. Esta legitimação era um reconhecimento da representação secular no poder.


[x] O rei Henrique VIII era casado com a princesa espanhola Catarina de Aragão, da qual ele queria o divorcio, com ela teve uma filha para sucedê-lo no trono. O divorcio, foi motivado pelo interesse de um herdeiro masculino, pelo fato da Espanha ser inimiga da Inglaterra e porque o rei pretendia casar-se com Ana Bolena. Assim, em 1529 pediu ao Papa que anulasse seu matrimônio com Catarina de Aragão, mas deparou-se com a recusa do Sumo Pontífice. Com isso, Henrique VIII conseguiu que o alto clero inglês e o Parlamento reconhecessem a validade de suas intenções. E por fim, rompeu com Roma, graças, também ao apoio dos nobres que tinham interesse nas terras da Igreja, que foram desapropriadas devido ao rompimento.


[xi] Calvino nasceu em Noyon, na França, em uma família de pequena nobreza francesa intimamente ligada à nobreza. Estuda no colégio de Montaigu em Paris, estuda inicialmente, teologia, desistindo desta por interferencia familiar se forma bacharel em  direito.  Após sua conversão ao protestantismo foge França católica e se estabelece na Suiça em 1934. A doutrina calvinista tem um modelo ideal de homem, religioso e trabalhador, para o qual o sucesso econômico e a conquista de riquezas, simbolizavam um sinal da graça divina, de sua predestinação.


[xii] Este foi um movimento religioso espanhol, que surgiu em 1511, de características místicas, que foi perseguida por ser considerada herética, sendo, relacionada ao protestantismo. Sua crença era que o homem tinha a capacidade de realizar o contato direto com Deus.


[xiii] Erasmo de Roterdã, nasceu em 1466, foi teologo, filosofo e pensador humanista estabelecu uma forte critica a formas de vida dos religiosos católicos , estabelecendo a dúvida sobre a doutrina da Igreja católica, pregando a necessidade de uma reforma. Sua principal obra foi o livro “Elogio a Loucura”, no qual estabelece uma critica dura a doutrina tradicional e os exageros do clero.


[xiv] Do latim: Inquisitio Haereticae Pravitatis Sanctum Officium.


[xv] Esta unidade política deve ser pensada pela manutenção do poder da nobreza frente às minorias subjugadas.


[xvi] Segundo LOYN foi um “grupo de heréticos que desafiou seriamente os principais dogmas do Cristianismo ortodoxo. Suas crenças derivavam dos ensinamentos de um mestre religioso do século III na Mesopotâmia chamado Mani, que tentou conciliar o Cristianismo com antigas idéias persas e interpretou o mundo como o campo de batalha entre as duas poderosas forças do Bem e do Mal, a vida do espírito e a vida da carne. As atitudes resultantes, vagamente rotuladas de maniqueísmo, levaram à rejeição da teologia cristã básica referente ao papel de Deus na criação, à humanidade do Cristo na Encarnação e à Ressurreição do corpo. A desconfiança profunda dos cátaros em relação às coisas materiais, consideradas províncias do demônio, fez com que os mais convictos dentre eles renunciassem à atividade sexual, especialmente quando se tratava de procriar, praticassem uma forma austera de vegetarianismo e se recusassem a cumprir obrigações seculares, como aquelas que pediam a formulação de um juramento”. (1990:220).


[xvii] Seita herética baseada em crenças cátaras. Teve seu início por volta de 1144, perto da cidade de Albi, no sul da França, devendo seu êxito ao apoio da nobreza e à vida ascética levada pelos perfecti, a qual estava em contraste flagrante com o mundanismo do clero local. A seita era suficientemente poderosa para realizar em 1167 o seu próprio sínodo em Saint-Félix-de-Caraman, nos arredores de Toulouse” (LOYD, 1990).


[xviii] No Renascimento, leia-se a perseguição aos pensadores que desenvolveram pesquisas que eram contrárias aos dogmas da igreja católica, entre estes podemos citar Galileu, Giordano Bruno.


[xix] Este conflito estabeleceu-se entre reino Espanhol e Inglês, devido a causas economicas ligados ao comércio colonial e rotas comerciais dominadas pelos espanhois; religiosas devido ao fato Da rainha Elizabeth I, ser adepta do protestantismo anglicano e Filipe II, ser católico. A guerra inicia-se com  uma vitória inglesa em Cádiz em 1587 e outra contra a Armada Espanhola, vista por muitos como invencivel, em 1588, nos períodos posteriores a guerra ficou paralisada, até a assinatura do tratado.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Teoria do conhecimento e o criticismo kantiano.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 08/08, 2011, p.01-07.


Na sua maturidade, o filosofo alemão que viveu no século XVIII, Immanuel Kant dizia que toda filosofia tinha a finalidade de responder uma só questão:
“O que pode legitimamente a nossa razão?”
Em outras palavras, a filosofia se resumiria a teoria do conhecimento, ao questionamento da capacidade cognitiva da razão.
O que implicaria em rever toda a metafísica, conduzindo até a ética.
Já que ao responder “o que posso saber”, necessitaríamos abordar “o que devo fazer”, implicando em discussões conceituais em torno da ética.
Tudo para chegar ao questionamento do que “é permitido esperar”.
Preocupações que nasceram a partir da oposição entre racionalistas e empiristas, levando Kant a questionar a natureza do conhecimento humano e a possibilidade da existência de uma razão pura, independente da experiência.
Em outras palavras, seria o conhecimento aquilo que é apreendido pelos sentidos e a experiência ou pela razão?
Kant questionou o racionalismo e o empirismo, ao longo de vinte anos de pesquisas, originando o pensamento que ficaria conhecido como criticismo kantiano.
Uma critica tanto ao racionalismo como ao empirismo, daí chamado de criticismo, fortalecendo a base da ciência contra os ataques dos céticos.
O implica em afirmar que o criticismo também diz respeito à filosofia da ciência.


Immanuel Kant.
Immanuel Kant (1724-1804) nasceu em uma família simples de artesãos, em uma cidade portuária no mar Báltico, quando a Alemanha ainda nem existia como país, em território então pertencente à Prússia.
O pai fabricava correias para carroças, a mãe era muito religiosa e cuidava dos afazeres domésticos.
O casal teve doze filhos, dos quais seis morreram ainda crianças, um perdeu a mão com onze anos, enquanto duas meninas tornaram-se empregadas domésticas ao crescer.
A família era luterana, com rígida postura moral, pertencendo ao Pieteismo, um movimento puritano que afirmava que a fé brotava direto da leitura e interpretações literais da Bíblia.
Incentivado pela mãe, Kant estudou em um colégio local, destacando-se, sendo recomendado pelo diretor para cursar filosofia em Königsberg, onde também estudou teologia.
Época em que demonstrou grande interesse pela física, química e biologia.
É interessante ressaltar que ele entrou na universidade com apenas dezesseis anos de idade.
Entretanto, em 1747, com a morte do pai, foi obrigado a abandonar os estudos, vivendo anos de miséria, sendo obrigado a trabalhar como preceptor em casas de famílias da nobreza.
Apesar das dificuldades, já com duas obras publicadas, em 1755, voltou à universidade para concluir seus estudos.
Pouco depois, recebeu o titulo de doutor, o que garantiu o direito de oferecer cursos livres, pagos pelos alunos da universidade e não pela instituição.
Em 1770, aprovado em concurso publico, tornou-se professor titular na Universidade de Königsberg, lecionando matemática, lógica, metafísica, pedagogia, direito natural e geografia.
Ele fez carreira na universidade, onde chegou a reitor, na qual fez questão de permanecer apesar dos convites para lecionar em outros locais da Europa.
Nos últimos anos de vida ficou quase cego, renunciou a cátedra em 1796, perdeu a memória e a lucidez, ficando quase senil, falecendo em 1804 aos oitenta anos de idade.
Durante sua vida Kant escreveu obras de fundamental importância para a filosofia e outras áreas do conhecimento.

No chamado período pré-critico publicou as seguintes obras:
01. Pensamento sobre a verdadeira avaliação das forças da vida (1740-1747), onde tenta conciliar o pensamento de Descartes com de Leibniz.
02. História universal da natureza e teoria do céu (1755), uma explicação mecanicista da natureza, inspirada na física de Newton.
03. Um esboço sumário de algumas meditações sobre o fogo (1755).
04. Nova explicação dos primeiros princípios do conhecimento metafísico (1755), obra que deu a Kant o titulo de doutor.
05. Os terremotos (1756), livro sobre física e fenômenos da natureza.
06. Monodologia física (1756).
07. Sobre o otimismo (1759).
08. O único argumento possível para demonstrar a existência de Deus (1763).
09. Ensaios para introduzir em metafísica o conceito de grandeza negativa (1763).
10. Observações sobre o sentimento de belo e do sublime (1764).
11. Pesquisas sobre a evidência dos princípios da teologia natural e moral (1764).
12. Sonhos de um visionário esclarecido com os sonhos da metafísica (1766).
13. Sobre a forma e os princípios do mundo sensível e do mundo inteligível (1770).
14. Dissertação de 1770, publicada no referido ano.

No chamado período crítico, que marca a maturidade do pensamento kantiano, o filósofo escreveu as seguintes obras:
15. Critica da razão pura (1781), onde estabeleceu criticas ao racionalismo.
16. Prolegômenos a toda metafísica que se queira apresentar como ciência (1783), critica feroz aos conceitos metafísicos que se pretendem científicos.
17. Idéias de uma história universal do ponto de vista cosmopolita (1784).
18. Respostas à pergunta: o que é o esclarecimento? (1784).
19. Fundamentos da metafísica do costume (1785), obra abordando questões éticas.
20. Princípios metafísicas da ciência da natureza (1786).
21. Critica da razão prática (1788), uma critica ao empirismo que tenta resolver questões que ficaram abertas na “critica da razão pura”.
22. Critica da faculdade de julgar ou critica do juízo (1790).
23. A religião nos limites da simples razão (1793).
24. Pela paz perpétua (1795).
25. A metafísica dos costumes (1797).
26. A pedagogia (1803), obra publicada após a morte do autor.


O criticismo kantiano.
Embora no chamado período pré-critico, entre 1755 e 1770, Kant tenha comungado com o racionalismo, tentando reestruturar a metafísica metodicamente, em uma tentativa de revesti-la de uma roupagem cientifica.
Após se tornar professor titular, com a defesa da Dissertação de 1770, Kant atingiu a maturidade intelectual, superando o dogmatismo e iniciando uma nova fase que daria origem ao chamado criticismo.
Contemporâneo da Revolução Francesa e Industrial, em um momento que os filósofos se encontravam divididos entre o racionalismo francês e o empirismo inglês, Kant propôs um terceiro caminho, criticando as duas tendências.
A postura criticista propunha a investigação dos fundamentos do conhecimento, repensando a filosofia para perguntar pela fonte do conhecimento, analisando o dogmatismo racionalista e o ceticismo empirista.
Em certo sentido, o criticismo kantiano se insere no iluminismo, mas termina indo além, pois pretende demonstrar que: “não se pode aprender a filosofia, somente se pode aprender a filosofar”.
É intenção do criticismo reconstruir a filosofia como uma ciência racional que pudesse abordar todo o conhecimento humano.

Respondendo quatro questões básicas:
1. O que é possível saber?
2. O que devemos fazer?
3. O que devemos esperar?
4. O que é um ser humano ou o que somos nós?

Assim, embora muitas vezes classificado como iluminista, Kant pretendeu o inverso dos filósofos ilustrados.
Ao invés de subdividir a filosofia, tencionou fortalecer seu caráter totalizante como ciência primeira ou ciência geral e completa.
O que levou Kant a ir muito além da Teoria do Conhecimento, entrando em discussões também pertinentes a ética e a moral, entre outras temáticas.


A crítica da razão pura.
Os racionalistas haviam criado uma base de sustentação sólida para o conhecimento, fornecendo um método seguro para auxiliar na construção do saber.
Porém, a garantia do Cogito era sustentada pela metafísica, por idéias inatas e universais.

O que, na opinião de Kant, sob o olhar empirista, não pode ser comprovado pela experiência.

Por outro lado, o empirismo se quer fornecia uma base para a construção do conhecimento, caindo em um individualismo relativista e no ceticismo, inviabilizando qualquer segurança ao conhecer.
A solução, portanto, estaria em examinar a razão através da própria razão, reescrevendo sua base de sustentação.
Em primeiro lugar caberia demonstrar que é possível chegar a conhecimentos universais.
O que implicaria em questionar a origem do conhecer para além da experiência e, ao mesmo tempo, fugindo do inatismo.
Para Kant, um juízo, a relação entre conceitos pensados, decorre a partir de matéria e forma.
A matéria é composta pelas próprias coisas, é o objeto em si, percebido pelo juízo analítico ou a priori, independente da experiência, embora apreendido pelos sentidos, originando uma idéia universal.
Todo corpo é físico, independente do formato, o predicado do corpo é ser físico, concreto, palpável, transmitindo em si esta idéia universal captada pelos sentidos.
A forma encontra-se naquele que conhece, nas sensações do próprio sujeito que organiza a matéria no tempo e espaço.
Portanto, a forma é representação da matéria na mente de quem percebe, o que altera o objeto real, originando juízos sintéticos ou a posteriori.
Um exemplo é o fato do corpo ter peso, o que é conferido pela matéria, mas o quanto é pesado depende da forma, levando o sujeito a perceber o peso e compor um conceito particular e relativo à sua percepção que é o juízo sintético.
Neste sentido, o conhecimento é a relação do sujeito com o objeto.
Não podemos conhecer as coisas em si, mas aquilo que é permitido pela mente humana, constituindo conceitos universais.
Em certo sentido, ao fazer isto, conheço o que não é apenas para mim, mas para todos os seres humanos, ou seja, idéias universais, embora não inatas.
Assim, os sentidos percebem o mundo, mas é a razão que organiza o conhecimento.
Segundo Kant, o engano dos racionalistas foi afirmar que as idéias são inatas, já que na realidade dependem dos sentidos.
Entretanto, o engano dos empiristas foi supor que a razão é adquirida pela experiência, pois ela existe independe de vivenciar um fato, é uma síntese que é transmitida independentemente das experiências pessoais.
O conhecimento pode ser adquirido através da experiência de um sujeito que o transmite a outro que não necessariamente necessita viver a mesma experiência, embora quem apreende precise sempre recorrer aos sentidos para adquirir novos conhecimentos.
Neste ponto, Kant se depara com uma dificuldade insolúvel, uma vez que as questões metafísicas, tais como a existência de Deus, não podem ser conhecidas através dos sentidos.
A solução provisória é afirmar que estes conhecimentos metafísicos caem no Agnosticismo (a=não + gnosis=conhecimento), demarcando a impossibilidade de conhecer.
Em síntese, seriam possíveis apenas juízos a priori sobre a metafísica, sendo impossível balizar juízos sintéticos e, portanto, pensar na temática como uma ciência, constituindo apenas crenças.
Um problema que Kant iria procurar resolver na Critica da razão prática, chegando a uma solução muito parecida com a cartesiana, afirmando que para as questões metafísicas seria possível a existência de conceitos inatos.


Concluindo.
Estabelecida a razão como centro do conhecimento, Kant procurou demonstrar que é a necessidade prática que determina a vontade humana e não os sentidos.
Simultaneamente, afastou a pretensão da razão como condicionadora da ação moral.
Não seria a razão que determina a moral, o que é considerado bom ou mau, mas a necessidade coletiva que determina a moral e a racionalização do que é bom.
As necessidades práticas para a existência da vida em sociedade criam os chamados imperativos, prescrições, deveres que determinam a ação a priori, antes da experiência.
Em outras palavras, os imperativos determinariam como agir, antes de ter que decidir ou viver a situação, tornam o agir uma obrigação.

Segundo Kant, os imperativos seriam:
1. Hipotéticos: condicionando uma ação a algum fim, tal como no exemplo “estude para passar na prova”.
2. Categóricos: incondicional e absoluto, tomado como essencial para a existência da vida coletiva, tal como no exemplo “não matarás”.

Neste sentido, os imperativos terminam determinando as leis, ratificando o dever e o próprio conceito de liberdade, já que a minha liberdade é restringida pelos imperativos.


Para saber mais sobre o assunto.
DELEUZE, Gilles. Para ler Kant. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.
FIGUEIREDO, Vinicius de. Kant e a critica da razão pura. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Criança e sofrimento: algumas considerações.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 03/08, 2011, p.01-02.


A primeira cena é clássica: a criança abre o presente, sorri, está contente.
Mas a segunda cena, também: muxoxos, palavras condescendentes, troca de implicâncias entre os pais.
Seus corpos falam sem nada dizer.
A tensão aumenta.
A corrente elétrica se instala entre pólos contrários.
Eles se evitam, se procuram, se encostam, se irritam.
Uma pergunta aciona a descarga: “mas o que é que você tem?”.
A tal pergunta assinala o mal entendido, à distância entre o que cada um deseja, a falha na demanda nunca atendida.
As portas batem, os lábios se cerram, as lágrimas rolam, os insultos explodem contra a parede.
Eles se dizem coisas inomináveis.
E no interior dessa cena, onde cada um tem seu lugar, percebe-se furtivamente uma criança que chora, refém da tormenta entre seus pais.
É a criança a quem se pede que seja testemunha, que escolha um campo.
Começa, muitas vezes, assim, o duro aprendizado da separação.
Cada vez mais, crianças “vêem esse filme”.
Na vida real ou na virtual que lhes apresenta a televisão, lá está a briga, a violência, a disputa.
Natural e incorporada ao quotidiano, sua reprodução é tão mais perigosa quanto ela não dá espaço para que a criança se revolte e diga: basta!
Mas, há ainda outra cena na qual a criança ouve: “é para o seu bem”.
E em nome desse bem, quantas punições injustas, humilhações arbitrárias e violências cometidas.
Quantos pequenos corpos não trazem as marcas desse texto ilegível?
O pior é quando paira um silêncio suspeito na cena e a cortina cai.
Frente ao mutismo da criança, os pais concluem: “ela é difícil...”.
Vivendo numa sociedade açodada pela violência fora (nas ruas, na cidade, no mundo) poucos de nós se dá conta da violência dentro: no coração do social, na família.
Alguns especialistas tem chamado a atenção para a “surdez psíquica” dos adultos, surdez que os impede de ouvir a voz das crianças.
Afinal, não são elas que nos colocam as perguntas mais radicais ou espinhosas?
“Por que vocês brigam?”: é uma delas.
Muitos pais negam a violência por sua total incapacidade de elaborá-la ou porque preferem reproduzi-la “para educar”.
Não são poucos os que ainda não entenderam que a infância é lugar de alegria, sonho e felicidade.
Ou como dizia Cecília Meirelles: “nossa infância é o último esquecimento, derradeiro consolo e suprema poesia de nossa existência.
Tudo mais pode cobrir-se de sombras – nossa infância será um sol nítido – mesmo quando não haja sido tão brilhante, nem feliz”.
Boas palavras, as da educadora e poetisa, para serem, sempre, lembradas.


Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O educador prático.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 02/08, 2011, p.01-03.



A praticidade é o caminho pelo qual o educador da atualidade deve se guiar, pois o alunado presente é objetivo de suas necessidades e tem mais informação para ajudá-lo na compreensão das disciplinas exigidas do mesmo em sala de aula.
Por isso se faz necessário o dialogo que expõe o docente, seu modo de agir, sua personalidade, um educador que consiga envolver o aluno no seu pensamento intimo não o levando ao enfado.



Diálogo e forma de agir.
O docente pratica o dialoga quando se põe na mesma faixa do aprendiz, reconhecendo que não é infalível e longe disso é uma pessoa eivada de erros e com deficiências, podendo aprender com seus alunos, o aluno que menos souber pode trocar experiência com o docente.

Pois, Segundo GADOTTI (1999: 2), o educador para pôr em prática o diálogo, não deve colocar-se na posição de detentor do saber, deve antes, colocar-se na posição de quem não sabe tudo, reconhecendo que mesmo um analfabeto é portador do conhecimento mais importante: o da vida.

Verifica-se que a forma como o educador expõe sua aula refletirá as características do profissional, sua formação, sua moral, seus objetivos e sua capacidade em lidar com seus educando e essa característica reverbera no conhecimento dos mesmos, assim como na sociedade.
Segundo, ABREU & MASETTO (1990: 115), afirma que “é o modo de agir do professor em sala de aula, mais do que suas características de personalidade que colabora para uma adequada aprendizagem dos alunos; fundamenta-se numa determinada concepção do papel do professor, que por sua vez reflete valores e padrões da sociedade”.


Desafios e sentimentos.
Constata-se que um bom educador consegue entrar no íntimo do seu aluno, fazendo-o amigo e colaborador em sua aula, e terá sua assistência sempre que solicite, embora exista a contradição de alguns não se comportarem dessa maneira e fato esse efeito do uso indiscriminado das novas formas de comunicação e de conflitos intra e interpessoal.

Segundo FREIRE (1996: 96):
“O bom professor é o que consegue, enquanto fala trazer o aluno até a intimidade do movimento do seu pensamento. Sua aula é assim um desafio e não uma cantiga de ninar. Seus alunos cansam, não dormem. Cansam porque acompanham as idas e vindas de seu pensamento, surpreendem suas pausas, suas dúvidas, suas incertezas”.


Observa-se que o educador não deve permitir a seus sentimentos impeçam o seu objetivo final, seu método, sua analogia e suas convicções de educador e contribuinte constante da modelagem da sociedade em toda época da humanidade.
Pois essa atitude influirá determinantemente na formação do discente que teve seu clivo de educador, observando que o aluno deve ser colocado como aprendiz independente de sua autodisciplina em sala de aula o que não deverá influenciar em seu desempenho anual, tendo o mesmo boa ou má disciplina.
Segundo, SIQUEIRA (2005: 01), afirma que os educadores não podem permitir que tais sentimentos interfiram no cumprimento ético de seu dever de professor.
Assim, situações diferenciadas adotadas com um determinado aluno (como melhorar a nota deste, para que ele não fique para recuperação), apenas norteadas pelo fator amizade ou empatia, não deveriam fazer parte das atitudes de um “formador de opiniões”.


Concluindo.
O educador em sala de aula é o compositor da sociedade, embora o meio externos possam interferir de modo singular em sua feitura.
A praticidade faz necessária para construção de uma sociedade mais ética e construtora de benesses sociais construída com o único elemento capaz de fazê-lo o professor.


Para saber mais sobre o assunto.
ABREU, Maria C. & MASETTO, M. T. O professor universitário em aula. São Paulo: Editores Associados, 1990.
GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da educação. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1999.
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
SIQUEIRA, Denise de Cássia Trevisan. Relação professor-aluno: uma revisão crítica. Disponível em: conteudoescola. Acesso em 17 de julho de 2011.


Texto: Prof. Dario Mandu Galdino.
Graduado em Geografia pela UFPE.
Professor em três colégios particulares em Recife PE.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Empirismo e Teoria do Conhecimento.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume ago., Série 01/08, 2011, p.01-05.


No século XVII, Descartes fundou o racionalismo, difundido pelo continente europeu, representado por Spinoza na Holanda e Leibniz na Alemanha.
Seguindo então o modelo das exatas, principalmente da matemática, defendendo idéias abstratas e o inatismo como ponto de sustentação da ciência e garantia da possibilidade concreta da construção do conhecimento.
Conceitos que, inclusive, forjaram uma ética que procederia do ser, seria inata, estando na essência do sujeito.
No mesmo período, em oposição, surgiu na Grã-Bretanha, sobretudo na Inglaterra, o empirismo, representado por John Locke, Thomas Hobbes, George Berkeley e David Hume.
O empirismo defendia a idéia de que o conhecimento só podia ser construído através dos sentidos, de experiências concretas, particularizadas.
Seria, portanto, impossível alcançar leis universais, como pretendiam os racionalistas.
Um embate que dominou a Idade Moderna, passando necessariamente pela Teoria do Conhecimento.


Concepções empiristas.
O modelo empirista de construção do conhecimento estava baseado nas chamadas Ciências Experimentais, tal como botânica, química, astronomia e mecânica.
Eram ciências contrárias ao inatismo e que negavam conceitos clássicos da filosofia, a exemplo de “essência” e “ser”, considerados puro nominalismo,
Este ultimo termo se refere a conceitos que não passam de nomes, estariam esvaziados, pois refletiriam sensações e não concepções racionais.
Neste sentido, os empiristas tencionavam alcançar a verdade tentando antecipar experiências, sobretudo, através da descoberta das leis da natureza.
O que fundou uma ética utilitarista e hedonista, baseada nos costumes úteis para tornar a convivência social possível e a vida mais feliz e prazerosa.


John Locke e o empirismo.
John Locke (1632-1704) nasceu na Inglaterra, em uma família burguesa abastada, conduzindo seus estudos para se preparar para a vida religiosa.
Estudou em Oxford, onde cursou medicina, interessando-se pela anatomia, fisiologia, química e física; onde obteve o titulo de mestre em filosofia e começou a lecionar em 1658.
É considerado um dos fundadores do liberalismo inglês e grande defensor da liberdade, tendo sido nomeado membro da Real Sociedade de Londres em 1668.
No entanto, em 1667, tornou-se médico particular do líder da oposição ao rei Carlos II, o qual foi acusado de traição e obrigado a fugir da Inglaterra em 1682.
Locke, devido a sua ligação com ele, também foi perseguido e obrigado a fugir para a Holanda em 1683.
Só voltou a Inglaterra depois do fim do absolutismo, com a Revolução Gloriosa de 1688.
Após seu retorno à pátria, em 1689, sua fama se espalhou por toda Europa, ocupando vários cargos públicos na Grã-Bretanha.
Recebeu honrarias e o oferecimento de postos administrativos e burocráticos em outros países, os quais recusou em nome de suas pesquisas.
A partir de 1689, publicou suas principais obras filosóficas, morrendo em 1704, aos 72 anos, sendo considerado o autor do texto que sintetiza o empirismo: “Ensaio acerca do entendimento humano” (1690).

Além desta obra, cabe destacar:
1. “Dois tratados sobre o governo civil” (1689).
2. “Alguns pensamentos referentes à educação” (1693).
3. “Racionalismo do cristianismo” (1695).
4. “Cartas acerca da tolerância” (1690).

No “Ensaio acerca do entendimento humano”, Locke demonstrou sua intenção de fixar a gênese, a natureza e o valor do conhecimento, estabelecendo seus limites e suas possibilidades.
Ele chegou à conclusão que a experiência é o limite, sendo os sentidos a origem de todos os tipos de idéias.


Teoria do Conhecimento.
Para Locke é impossível conhecer as substâncias, a essência das coisas, pois seria algo indistinto, impreciso e incognoscível.
A substância não poderia ser distinguida, precisada, assimilada, estando fora do alcance da experiência humana e, portanto, não poderia ser conhecida.
O que não significa que o conhecimento é inviável como um todo, mas sim que as idéias inatas não existem.
O que significaria dizer que a pretensão racionalista da construção de um conhecimento universal é impossível.
Locke pergunta como é possível existirem idéias inatas, já que conceitos morais e gostos são relativos.
Caso existissem idéias inatas, nascendo o homem com estes conceitos, todos deveríamos ter os mesmos costumes, independente da cultura e experiências individuais.
O que não acontece.
Assim, a origem do conhecimento estaria nos sentidos e na experiência.
Como Aristóteles, Locke defendeu a idéia de que o conhecimento da realidade depende da junção de graus.
No entanto, enxergava a mente humana como uma “tabula rasa”, um papel em branco que, só à medida que é preenchido pelos dados dos sentidos e da experiência, permite organizar o conjunto de páginas escritas, uma a uma, para tentar entender o mundo.

A realidade seria percebida pelos sentidos, produzindo:
1. Sensação: idéias externas que vem a partir dos sentidos, como cor, sabor, frio, quente, etc.
2. Reflexão: idéias internas, percebidas pela mente, como impressões, experiências internas.

Neste sentido, as idéias produzidas por estímulos externos e internos, pelo simples fato de terem sido produzidas pelos sentidos e a experiência, fornecem um indicio de que a realidade existe.
Entretanto, estas idéias não permitem obter certezas, apenas ajudam arriscar possibilidades, uma probabilidade de entendimento da realidade.
Alcançar a verdade, portanto, não é entender a realidade, mas estabelecer uma coerência entre as idéias possíveis, produzindo o que chamamos de ciência, a busca por verdades provisórias.


Concluindo.
Segundo Locke, as idéias seriam representações mentais da realidade e o conhecimento apenas a combinação das idéias pela mente.
O filosofo entendia idéias como a realidade percebida pelos sentidos, enquanto o conhecimento seria aquilo que percebemos combinado com outras percepções, representadas na mente pelas ditas idéias, produzindo algo novo.
Portanto, o conhecimento nada mais seria que a junção do que já conhecemos, o já percebido, com  novas percepções.
A exemplo do que ocorre com as figuras de gestalt, perceber o objeto dependeria da associação que fazemos com o já conhecido.

Ao realizar esta operação, a mente humana produz dois tipos de idéias:
1. Simples: derivadas de sensações ou reflexões simples, onde o intelecto seria passivo, refletindo pura e simplesmente a realidade percebida ou vivenciada pela experiência, comum a todo ser humano.
2. Complexas: derivadas da combinação das idéias simples, refletindo qualidades subjetivas, pois depende da combinação que cada sujeito estabelece.

O conceito de idéias complexas conduziu Locke a sustentar a opinião que o conhecimento é relativo e que, portanto, não é possível falar em idéias universais.
O que remete novamente a discussão da substância, já que a essência seria, teoricamente, universal e imutável, algo cuja existência seria impossível por não existirem idéias universais na concepção empirista.
Para Locke, as idéias universais não passam de nomes (nominalismo), são só uma convenção humana que não tem correspondência com a realidade, porque não podem ser sentidas ou experimentadas.
A conseqüência da negação da substância é a negação absoluta da metafísica.
O que traz em si uma negação indireta da existência de Deus.
Segundo Locke, o conhecimento só pode se dar pela sensação, intuição ou demonstração; como Deus não pode ser percebido pelos sentidos, combinado conceitualmente com uma idéia que confirme sua existência, ou demonstrado; a existência de Deus seria negada.
No entanto lembremos do contexto histórico da época do autor, a Inglaterra não era católica, desde 1534 havia passado a ser anglicana, quando Henrique VIII, irritado com a recusa do Papa em anular seu casamento com Catarina de Aragão, auto proclamou a si mesmo chefe da igreja na Grã-Bretanha.
Como bom cristão, Locke, embora não católico. precisou resolver este problema da existência de Deus.
O que fez através do argumento da “Fé como Probabilidade”.
Para ele, embora não tenhamos como provar a existência material de Deus, o simples fato de sentirmos que deve existir, garante que provavelmente existe.


Para saber mais sobre o assunto.
SANTOS, Jose Henrique. Do empirismo a fenomenologia. São Paulo: Loyola, 2010.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.