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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Brasil como purgatório dos vivos: o confronto cultural entre índios e portugueses no século XVI e XVII.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jul., Série 18/07, 2011, p.01-07.

A representação do desconhecido sempre estimulou a imaginação do homem.

Especificamente, em se tratando dos europeus quinhentistas, a descoberta de novas e desconhecidas terras pelos portugueses, primeiro ao longo da costa da África e depois na Ásia e América, ao invés de representar uma volta a um niilismo libertador, passou a constituir uma realidade que devia ser adaptada à dicotomia cristã.
Os lusos estavam inseridos na dicotomia paraíso ou inferno, em uma realidade maniqueísta, onde tudo deveria ser necessariamente bom ou mau, dentro de um cotidiano marcado pela cruzada contra os infiéis e a exaustiva caça às bruxas,
Este contexto influenciou decisivamente as relações estabelecidas com os nativos das terras que seriam chamadas de Brasil.
Em certo sentido dificultando o entendimento cultural e em outro facilitando a penetração, ajudando a construir aquela que seria a colônia mais prospera do Império português no século XVII.


 

A representação das novas terras no imaginário.
A começar pela representação cartográfica das novas terras vislumbradas, apesar do relativo grau de evolução da composição dos mapas, podemos notar que, além de guiar os navegantes, a alegoria destes pretendia chamar a atenção para a exótica fauna e flora.



Ao mesmo tempo, tencionava atrair, por meio da cobiça do indício de ouro, uma mão de obra mais do que necessária no século XVI no território brasileiro.


Uma vez que neste período a maioria da arraia miúda tinha sua atenção voltada para a busca de riqueza na Carreira da Índia, através do comércio, legal ou não, dos produtos Orientais, tal como as especiarias da Índia ou a seda da China.
Dentro deste contexto de abandono e desinteresse pelas terras brasileiras, povoar as novas terras descobertas na América era imprescindível.
Isto, não porque houvesse um grande interesse econômico envolvido, e sim, sobretudo no inicio, porque a Terra de Santa Cruz representava um excelente ponto de apoio logístico à Carreira da Índia, rota que realmente interessava a Coroa portuguesa e a seus súditos.
Na América não havia nada estabelecido, suas terras, como assinalou Pero Vaz de Caminha, eram de uma fertilidade tal que “querendo a aproveitar dar se a neela tudo”[i].
Porém, com a Índia ao alcance das naus de Portugal, onde era suficiente controlar alguns pontos estratégicos para ter o domínio sobre um comercio já estabelecido e sustentado por uma produção que não dependia da força de trabalho portuguesa, tentar cultivar às novas terras na América parecia muito dispendioso.
Era muito mais fácil, no século XVI, quando os lusos ainda eram senhores do Atlântico e do Índico, obter lucro através da intermediação comercial de especiarias Orientais do que produzi-las e ao mesmo tempo comercializa-las.
Neste sentido, para além do deslumbramento, ao contrário de Colombo[ii], os portugueses, mais conscientes de que aquelas terras não eram e nem poderiam ser Orientais, mesmo não compreendendo o outro, considerando a América como uma excelente “pousada pera esta navegaçom de Calecut”[iii].
Na visão lusitana, a deficiência de abastecimento das embarcações em alto mar, pensando na recém aberta rota da Índia e no apoio logístico que seria necessário para mante-la, poderia ser solucionado com a posse do Brasil.
Foi por isto que resolveram pintar às novas terras com ares de paraíso a fim de atrair a necessária mão de obra.




O Brasil entre o paraíso e o inferno.
Enquanto os cronistas e viajantes se encarregaram de relatar o que viam e ouviam a respeito da Terra de Santa Cruz, chamada efetivamente, ao menos na cartografia, de Brasil somente a partir de 1502 - conforme atesta o “Mapa de Cantino”, primeira carta em que aparece o este nome - difundiram-se em mapas e livros alegorias e estampas destinadas à divulgar junto ao grosso da população iletrada a imagem de um Brasil identificado com o paraíso.


No entanto, o antagonismo cristão não deixou de associar às novas terras também o inferno.


A tais alegorias, oscilando sempre entre a retratação do paraíso ou do inferno, nem mesmo os manuais técnicos escaparam.

É significativo o frontispício do manuscrito de autoria de Manuel Gaspar, datado em 1594, intitulado Libro Universal de derrotas alturas, longetudes, e conheçenças[iv].
A função do livro era tão somente servir de manual técnico aos pilotos portugueses, portanto, nada além disto deveria figurar.
A alegoria presente no mesmo é composta por um rosto de um homem barbado, bem acima da página, com dois grandes pares de cornos presos por um largo laço cruzado, ao ouvido do qual dois querubins sopram os designos contidos em pergaminhos, tendo cada qual ao seu lado, respectivamente, esquerdo, um ramo vegetal, e direito, uma pena; ao pé da página é retratado um carneiro a representar o cordeiro de Deus.
Assim, o Novo Mundo - expressão cunhada por Pietro Martire D’Anghiera, em 1510, na sua obra De Orbe Novo[v] - mesmo que sob influência do demônio, mais especificamente de uma espécie de Pã medieval, associado a voracidade sexual do bode, poderia ser mantido sob controle pelos anjos celestes.
Estes seriam representantes na terra dos portugueses; de modo que, se inferno, a América deveria ser mantida sob a tutela dos cristãos para que o cordeiro de Deus também lá reinasse.
Quando os portugueses chegaram à Terra de Santa Cruz, os nativos, imersos em crenças mágicas - embora os europeus também estivessem mergulhados em um universo mágico, porém, diferente - receberam os lusos como deuses, embora com desconfiança, o que facilitou a penetração portuguesa.



A diabolização dos nativos do Brasil.
O achamento da América, para além das implicações econômicas e sociais, teve um grande impacto sobre o imaginário europeu.
Colocados diante das crenças indígenas, os portugueses terminaram por se apropriarem delas adaptando-as a dicotomia cristã bom/mau, Deus/Diabo.
Desta forma, da incompreensão da fauna e da flora, assim como do outro, transposto o diabo do reino para o Brasil, a identificação dos nativos com o inimigo conduziu a sua diabolização.

Na terra de Santa Cruz, os lusos encontraram homens e mulheres que viviam nus e que, por isso, instigavam a sexualidade deles próprios, praticavam a poligamia e, o pior, consumiam carne humana em rituais sagrados.
Na Europa, as bruxas eram tidas como participantes de missas negras e Sabbats, onde nuas mantinham relações sexuais com o demônio, consumindo carne humana.
Parece obvio que os costumes indígenas não puderam deixar de ser associados a ritos demoníacos.
Um exemplo interessante da associação do não compreendido ao referencial mais próximo é a descrição do Padre João de Azpilcueta, que em uma carta datada em 1550.
 
Assim narrou ele uma cerimônia antropofágica:

“Vi seis o siete viejas que apenas se podían tener en pie dançando por el redor da panella y atizando la oguera, que parecían demonios en el infierno”[vi].
 
Embora o Padre João nunca tenha lido Shakespeare, já que o dramaturgo nasceu 14 anos depois deste relato ter sido escrito, a imagem do ritual é a mesma presente na cena de abertura de Macbeth[vii].
Não é nada mais que o estereotipo europeu da prática da bruxaria, o que demonstra que os índios chegaram até mesmo a ser identificados com as bruxas européias.
Imagem esta difundida também pela iconografia da época, onde os ameríndios foram retratados a devorar seres humanos, prática associada à bruxaria.
Diante de relatos como este, qual não foi a reação dos que no reino estavam a imaginar como seria a América.
A imagem do ameríndio foi, assim, sendo diabolizada, o que certamente contribuiu para afugentar os voluntários da Carreira do Brasil, aproximando-os da Carreira da Índia, cujos relatos dos viajantes, ao contrário do verificado na Terra de Santa Cruz, ao menos em boa parte do século XVI, davam conta mais de maravilhas do que de tormentos.


 

A América vista como purgatório.
Não obstante, devemos notar que a mesma diabolização dos indígenas, que afugentou os lusos, curiosamente, serviu de pretexto a escravização e extermínio dos nativos, facilitando a ocupação do território brasileiro no século XVII.
 
Na verdade, no século XVI, para o português que estava no Reino a decidir se partia rumo ao Oriente ou para o Brasil, isto quando havia a possibilidade de escolha, as duas imagens, paraíso e inferno, estavam sobrepostas.

Por um lado, “a visão idílica com que as novas terras e suas gentes desnudas foram reveladas aos europeus”, que de qualquer modo “longe de resultar de uma observação direta e objetiva” era “fruto de uma filtragem do real contemplado através do ideal sonhado”[viii].
Identificado com o paraíso terreal, a imagem positiva agia como forte estimulador da migração rumo ao Brasil.
Na outra vertente, a América como um todo se tornou um inferno.
Principalmente depois que “os países lendários e as humanidades monstruosas foram sendo empurradas para regiões cada vez mais distantes e periféricas, ainda indevessadas pelos homens do ocidente”[ix] e, portanto, depois que o Novo Mundo assumiu o papel de berço do inferno, uma vez que “conhecido o Índico e desmistificado o seu universo fantástico” este foi substituído pelo Atlântico.
O fez o homem de quinhentos se sentir muito mais impelido a migrar rumo ao Oriente, onde além da possibilidade de alcançar a sonhada riqueza não teria que conviver com os monstros criados pelo imaginário a povoar o Brasil.
A América era simultaneamente paraíso e inferno, não sendo ao mesmo tempo nem um e nem outro, logo, era vista quase sempre como purgatório, conforme testemunha a iconografia da época, embora muito mais próxima do inferno que do paraíso.
Em carta, datada em julho de 1552, ao Padre Simão Rodrigues, em Lisboa, D. Pedro Fernandes, “Bispo do Salvador da Baía”, que anteriormente fora Vigário Geral de Goa, retrata o Brasil como um lugar onde pervertessem os brancos, enquanto, por sua vez, os clérigos estavam preocupados com a catequese dos índios e negros[x]. 
Apesar de muitos clérigos presentes no Brasil terem retratado seu território, sua fauna, sua flora e sua gente como pertencentes ao paraíso, esta opinião não era unanime, cabe mesmo perguntar se esta não teria sido apenas uma estratégia de conversão dos índios.
Para D. Pedro Fernandes, o Brasil era uma terra de potencial, mas também era uma terra de perdição e martírio, de um calvário a ser vencido, e que depois de tal deveria ter como recompensa o retorno ao reino.
Onde realmente se poderia estar mais próximo do paraíso.
Quanto à Índia, se não há cita como paraíso, cita como exemplo que deve ser seguido pelo Brasil, e que estaria portanto muito mais próxima de uma imagem paradisíaca do que o Brasil.
Os relatos dos clérigos e viajantes que passaram pelo Brasil construíram uma imagem de purgatório intensamente difundida no século XVI.
Como D. Pedro Fernandes, apenas para citar um dos muitos que assim também procederam, o Padre Diego Laynes, que nunca esteve na Terra de Santa Cruz, provavelmente impregnado pela opinião geral que circulava em sua época, também enxergou no Brasil um lugar de martírio e provações.
 
Em carta escrita em Roma, dirigida aos padres e irmãos do Brasil e da Índia, datada em 1.º de Dezembro de 1558, falando sobre a conversão dos gentios no Brasil por seus irmãos da Companhia de Jesus, afirma:

“El privilegio de los operarios se vey, porque os es dado a vosotros muy specialmente, no sólo hazer mucho bien, pero aun el padezer mucho mal y trabajo por Christo nuestro Senhor, poniendo, ultra de la industria, também la vida, en tan continuos peligros por su servicio, y en modo muy especial, imitando en el exercito y mérito sus santos apóstoles y discípulos, trayendo su nombre y conocimento a las gentes, y vivendo y moriendo entre ellas, por su gloria y ayada de sus muy amadas ánimas”[xi]. 
 
O Brasil foi comparado a um lugar para onde se dirigem os religiosos europeus a fim de converterem os índios, salvando-os da danação eterna e, ao mesmo tempo, onde sofreriam os mesmos martírios dos apóstolos e santos, purificando suas próprias almas.



Concluindo.
O século XVI foi o período no qual foram enviados ao Brasil - terra do desconhecido e dos monstros - levas e mais levas de degredados.
Na visão da Coroa o degredo assumiu o papel de purificador do caráter moral, uma vez que “as colônias portuguesas passavam a ser vistas como terras nas quais se iam cumprir penas, mas das quais se podia voltar, uma vez purgadas as culpas”[xii].
Simultaneamente, enquanto os voluntários abundavam na Carreira da Índia, o degredo passou a constituir uma excelente saída à necessidade de povoar o território a fim de prestar apoio logístico às embarcações lusitanas que se dirigiam ao Oriente.
Entretanto, ao longo do século, estes degredados terminaram prosperando e os que haviam optado pela Índia se perderam em meio aos constantes naufrágios, a dureza dos meses a fio no mar, do descaso da Coroa para com seus súditos, e da exploração da nobreza[xiii].
É curioso notar que no plano do concreto o que ocorreu foi exatamente o oposto do imaginado.
Os camponeses que migraram para a Índia, terra da abundância, visando construir lá uma sociedade com maior mobilidade social, terminaram por ser inseridos em um contexto que refletia a realidade vivida no reino.
Os degredados que foram compelidos a migrarem para o Brasil, acabaram se deparando com oportunidades que lhes facilitaram a mobilidade social e sua reinserção como nobres da nova terra.
Foram enviados à Terra de Santa Cruz assassinos e sediciosos, gente da pior espécie, enviados ao purgatório, que curiosamente atingiram o paraíso tornando-se opulentos em sua maioria.
Sendo assim, se criminosos conseguiram prosperar, mesmo que a duras penas, o que não se poderia esperar dos homens honestos.
A partir da segunda metade do século XVII, os voluntários para a Carreira da Índia começam a escassear, enquanto estes abundam na Carreira do Brasil.
Tudo se inverteu, na rota do Oriente cresceu, por força da necessidade, o uso indiscriminado de degredados, a mão de obra voluntária migrou em massa para o Brasil.
Só então, o que era purgatório passou a constituir um paraíso, e o que era paraíso se tornou inferno.
O degredo para o Brasil passou a ser considerado como uma pena leve, enquanto o degredo para a África ou a Índia passou a eqüivaler à pena de morte, e de fato, dada a precária posição portuguesa no Oriente, realmente o era.


 

Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e Obstáculos enfrentados pelas Armadas da Índia Portuguesa: 1497-1653. São Paulo: Humanitas, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2004.
RAMOS, Fábio Pestana. Por Mares Nunca Dantes Navegados. São Paulo: Contexto, 2008.
 

Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.


[i] “Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, 1o. de março de 1500” In: CINTRA, Assis (org. e compilação).  Nossa primeira história. São Paulo: Melhoramentos, 1921,  p.37.
[ii] COLOMBO, Cristóvão. Diários da descoberta da América: as quatro viagens e o testamento. Tradução do espanhol de Milton Persson, Introdução de Marcos Faerman e Notas de Eduardo Bueno, Porto Alegre: L&PM, 1984.
[iii] “Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel, 1o. de março de 1500” In: CINTRA, Assis (org. e compilação). Op. Cit., p.38.
[iv] GASPAR, Manuel. Libro Universal de derrotas alturas, longetudes, e conheçenças. De todas as navegaçois, destes reinos de Portugal e Castela, Indias Orientais e Ocidentais, o mais copioso e claro que pode ser, en serviço dos navegantes. Ordenado por pilotos consumados, nesta sciençia e vertudes, de aproveitar en serviço de Deos, en Lixboa. A primeiro de março de 1594. Manuscrito datado em 1594, Códice 1507 da Biblioteca Nacional de Lisboa.
[v] DREYER-EIMBCKE, Oswald. O descobrimento da Terra: História e histórias da aventura cartográfica. Tradução do alemão de Alfred Josef Keller, São Paulo: Melhoramentos/Edusp, 1992, p.151.
[vi] “Carta do Padre João de Azpilcueta aos Padres e Irmãos de Coimbra, escrita na Baía, datada em 28 de março de 1550” In: SERAFIM LEITE. Cartas dos primeiros Jesuítas do Brasil. São Paulo: Comissão do IV centenário da cidade de São Paulo, 1954, volume I, p.183.
[vii] SHAKESPEARE, William. Macbeth. Notes and comments by Henry Norman Hudson, Israel Gollanoz and C. H. Herford; New York: Grosset Dunlap, 1909.
[viii] COELHO, Nelly Novaes. “Colombo e Caminha: os primeiros cronistas” In: BESSONE & QUEIROZ (orgs). América Latina: imagens, imaginação e imaginário. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura; São Paulo: Edusp, 1997 (América 500 anos: volume 8), p.529.
[ix] SOUZA, Laura de Mello e.  O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no  Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1994 , p.26.
[x] “Carta de D. Pedro Fernandes ao P. Simão em Lisboa, escrita na Baía, datada em julho de 1552” In: SERAFIM LEITE. Op. Cit., volume I, p.364.
[xi] “Carta do P. Diego Laynes aos padres e irmãos do Brasil e da Índia, escrita em Roma, datada em 01 de dezembro de 1558” In: SERAFIM LEITE. Op. Cit., volume III, p.08.
[xii] SOUZA, Laura de Mello e. Inferno Atlântico: demonologia e colonização - séculos XVI-XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p.89.
[xiii] RAMOS, Fábio Pestana. “Os problemas enfrentados no cotidiano das navegações portuguesas da Carreira da Índia: fator de abandono gradual da rota das especiarias” In: Revista de História, número 137. São Paulo: Publicação do Dep. de Hist. da Universidade de São Paulo (USP), Segundo Semestre de 1997, p.75-94.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O conceito de Cultura: um produto social e historicamente construído.

 

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jul., Série 13/07, 2011, p.01-06.


Em um sentido histórico-antropológico contemporâneo, considera-se que, seja por obra do “espírito universal” ou para produzir as condições materiais de vida, o Homem mantém, aperfeiçoa, modifica, traduz, recria sua existência produzindo cultura.
A relação entre História e Cultura foi estabelecida teoricamente na obra de Georg Hegel, quando afirmou que a razão humana se manifesta por meio das instituições religiosas, artísticas, científicas, sociais, políticas etc.
Segundo ele, em cada tempo e lugar, essa razão se apresenta de uma forma específica, modificando-se em um processo contínuo, de acordo com as determinações do “espírito universal”.
Karl Marx também discutiu o tema, mas contrapondo-se a Hegel. Para Marx, a relação entre história e cultura dá-se não pelas escolhas dos homens, mas devido a condições concretas e pré-determinadas, estabelecidas no processo de produção da sobrevivência.
Assim, as próprias instituições sociais e intelectuais seriam organizadas pela forma como, em cada época, estrutura-se a economia, e não pelas determinações do “espírito”, como propôs Hegel.
Não obstante as controvérsias teórico-filosóficas, ambos situaram a relação lógica e dialética entre tempo histórico e produção cultural, indicando que compreender a cultura é essencial para compreender o mundo.


Cultura e cultura erudita.
De modo geral, quando se afirma que alguém possui “cultura”, isso quer dizer que esse alguém tem um “conhecimento maior” do que o possuído por outras pessoas, que “estudou muito”, que teve acesso a uma “educação formal”.
As definições habituais de cultura estão associadas, por um lado, ao senso comum, que tradicionalmente atribui à palavra o sentido de cultura erudita, letrada, e por outro, à própria História da humanidade, na qual a educação escolar constituiu-se como privilégio social para aqueles que puderam desfrutar de maiores recursos e, consequentemente, tiveram maior acesso ao saber elitizado.
Como a educação foi quase sempre um privilégio de classe, ao longo dos séculos as sociedades têm alimentado a ideia de que há uma cultura superior, que é a erudita, e as outras formas, tidas como inferiores ou nem mesmo consideradas como tal, como é o caso da cultura popular e da cultura de massa.
Mas, a formação do senso comum também faz parte dos processos culturais, pois as sociedades vão desenvolvendo percepções, criando sentidos para os vários aspectos da realidade e, por meio da linguagem e da produção material, procurando traduzir seus significados.
Um pensamento de Leonardo Boff talvez possa elucidar essas muitas possibilidades de interpretação da realidade e compreensão do mundo, assim como da relação entre o modo como um indivíduo entende e explica sua realidade exterior e interior e o seu lugar social:

“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde seus pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual sua visão do mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde seus pés pisam. Para compreender é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer, como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças os animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação”.


Cultura e poder.
Do ponto de vista das organizações sociais, é possível identificar na relação entre cultura e lugar social uma correspondência com as concepções de mundo que vão sendo elaboradas, pois em diferentes tempos os sujeitos sociais que adquiriram a cultura letrada ocuparam postos de comando e controle.
Por essa razão é possível estabelecer uma analogia entre cultura e poder.
A própria ideia de que existe uma cultura superior e formas inferiores de cultura demonstra essa analogia.
Desde a época de institucionalização das primeiras escolas, as edubas da antiga Mesopotâmia, somente os filhos das famílias mais abastadas frequentavam as aulas, visto que nem todos podiam abrir mão do trabalho dos seus filhos, ou arcar com os custos para mantê-los durante anos em regime integral de aprendizado.
Os alunos eram os aprendizes de escriba e sacerdote e, quando formados, seriam destinados ao ofício religioso, ao magistério os as funções políticas e econômicas mais importantes.
No antigo Egito, os filhos dos escribas estudavam em uma escola especialmente destinada a eles.
Esperava-se que os saberes do escriba ficassem reservados às mesmas famílias, assim como o poder que iriam exercer.
O conhecimento aprendido ou produzido nessas escolas não deveria ser comum a todos os membros da sociedade, permanecendo restrito ou secreto.
Aliás, a palavra secreto, do latim secretus, significa o que está escondido ou colocado à parte; esta palavra deriva de secerne, separar.
Por sua vez, a palavra sagrado, do latim sacer, também significa o que está à parte, separado do mundo comum, está associada ao conhecimento religioso, destinado aos iniciados, tanto que as antigas inscrições egípcias eram denominadas hieróglifos, que significa gravura sagrada (hieros = sagrado + glifo = gravura). 
Os escribas, mesmo não sendo nobres, iriam prestar serviços nos palácios e viver sob as benesses do faraó, o grande chefe político.
Como bem demonstra um documento egípcio escrito por Duaf ao seu filho Pepi, em uma carta com instruções para que permanecesse na Escola dos Livros, destinada aos filhos dos escribas:

“Olha, deves entregar-te de coração aos livros. Olha os escribas, como são livres de trabalhos pesados; acredita, nada ganha aos livros. Lê o final do Kemit e encontrarás esta máxima:  - O escriba está em toda a parte da corte, e dos escribas nenhum é pobre. Mas o que atua mediante a inteligência de outrem (o ignorante) não obtém êxitos [...]. Repara: não há profissão que não tenha um superior, a não ser a de escriba, pois ele próprio é um superior [...] Meskenet, deusa dos nascimentos, preparou o êxito para o escriba: ele é posto à cabeça dos funcionários e o seu pai e a sua mãe agradecem a Deus”.

Na antiga Grécia havia uma palavra para definir os diferentes status, que expressa a superioridade na escala social como algo ligado ao saber religioso e ao comando: hierarquia, resultado da junção entre hieros, sagrado, e arquia, governo ou autoridade, ou seja, governo sagrado.
E, como um conceito histórica e culturalmente constituído nas relações humanas, a palavra hierarquia foi mantida, designando a existência de papéis e lugares sociais distintos.
Quando os antigos romanos conquistaram a Grécia, no século I a.C., dentre as medidas para apropriação da cultura grega, professores e filósofos da Grécia foram levados, muitos na condição de escravos, para educar os filhos dos patrícios, sendo chamados de pedagogos, palavra grega formada por paidós, criança, e agodé, o que conduz, que ensina, ou seja, aquele que educa a criança.
Em pouco tempo os filhos da elite romana falavam também o grego, adicionando novos saberes aos já existentes e distanciando-se ainda mais do saber comum da plebe.
Esse sistema de status, de alocação social, em função da incorporação de conhecimentos não ficou restrito aos primeiros tempos históricos, podendo ser observado em todas as épocas e partes do mundo, nas sociedades tradicionais ou modernas, orientais ou ocidentais.
Assim, os indivíduos têm sido socialmente diferenciados também pelos saberes, eruditos ou não.
Nas sociedades tribais indígenas, por exemplo, aqueles que ocupam postos de comando, como os caciques, os chefes políticos, e os pajés, os chefes religiosos, conhecem as tradições – do latim traditio, transmissão, ou o trazer para o presente – com os seus rituais mágicos e religiosos, as fórmulas medicinais, transmitindo e preservando a memória coletiva.
Mas também as pinturas e os adornos corporais, as formas de organização social, politica, econômica, assim como as diferentes expressões, expõem saberes e valores, identificando, além das hierarquias, os ritos, as normas e os padrões comportamentais.
A associação entre cultura e poder perpassou sociedades e tempos históricos, estando ainda presente, pois tanto nas sociedades simples como nas complexas, há sempre inúmeras produções e expressões culturais, como reflexos dos conhecimentos adquiridos.
Apesar do senso comum que discrimina e hierarquiza as produções culturais, a cultura se manifesta em várias feições, como característica humana, como resultado das habilidades e potencialidades presentes em cada indivíduo que dotado de capacidade intelectual e criadora, observa e transforma a Natureza, manipula símbolos e abstrai significados, busca a compreensão de si mesmo.
Em outras palavras, o Homem, ao produzir cultura, torna-se realmente humano.


O estudo das produções culturais.
Para compreender esse processo, é importante lembrar a própria origem da palavra cultura.
Cultura, do ponto de vista etimológico, vem do latim colo, que significa cultivo. Primeiramente, a palavra representava o cultivo da terra, a prática da agricultura e o cuidado com seus frutos.
Posteriormente, foi recebendo outros sentidos e passou a significar aquilo que se cuida, que se preserva.
Quando surgiram as línguas modernas, a palavra e seus significados foram mantidos com um sentido basicamente comum, que é o de saber e preservar.
Saber e preservar são palavras que se referem à socialização da informação e do conhecimento, e ao exercício das várias modalidades da produção humana, ligadas à oralidade, à organização social, à fabricação de artefatos, às diferentes manifestações do pensamento.
Nesse sentido, é rico o exemplo fornecido por E. P. Thompson, que ao refletir sobre a articulação política dos trabalhadores ingleses da primeira metade do século XIX, quando boa parte não tinha acesso à instrução escolar, afirma:

[...] as vilas e até as aldeias ressoavam com a energia dos autodidatas. [...] os diaristas, artesãos, lojistas, escreventes, e mestres-escolas punham-se a aprender por conta própria, individualmente e em grupo [...] reuniriam pilhas de periódicos radicais e aprenderiam a usar as publicações oficiais do Parlamento; diaristas analfabetos nem por isso deixavam de ir todas as semanas, a um bar onde lia-se em voz alta e discutia-se o editorial de Cobbett”. 

Mas essa concepção apresentada por Thompson, de cultura como uma produção intelectual comum aos diferentes sujeitos sociais, incluindo os iletrados, é recente.
Somente a partir o final do século XIX, com o aprofundamento dos estudos históricos, sociológicos, antropológicos, arqueológicos, linguísticos, psicológicos  e museológicos a cultura foi convertida em objeto de estudo mais sistematizado, mas ainda pensada como filosofia, arte e ciência.
Apenas nas últimas décadas do século XX a cultura passou a ser definida como fenômeno resultante das relações entre os homens, o produto do conhecimento que deriva de um saber coletivo.
Com o avanço das pesquisas na área de Ciências Humanas, e em um tempo que se caracteriza pela mutação, as manifestações culturais tornaram-se objeto privilegiado de análise, recebendo classificações – erudita, popular e de massa ou material e imaterial – e definida também como fenômeno relacionado à construção das identidades dos povos nas sucessivas épocas históricas.
Por essa razão, uma forma interessante para observar as mudanças e permanências nas sociedades é analisar as produções culturais de diferentes grupos humanos ao longo do tempo.
A própria Museologia, antes condicionada por uma visão elitista do mundo, reorganiza seus paradigmas e apresenta uma nova forma de entender o processo de musealização, bem como os objetos que passam a integrar os acervos dos museus.
Trata-se de uma as repercussões da mudança do olhar e do conceito de cultura, relacionando-se, agora, ao sentido da diversidade das manifestações artísticas, científicas, intelectuais etc. de determinado tempo e lugar.


Concluindo.
A análise da produção cultural permite a identificação de valores, técnicas, gostos, padrões estéticos, formas comportamentais e princípios éticos.
Ou seja, a compreensão do mundo exige a compreensão das produções culturais em seus contextos históricos específicos.
Hoje não se aceita a afirmação de que somente os dotados de conhecimentos eruditos possuem cultura, pois todas as experiências humanas, letradas ou não, remetem os indivíduos à produção de saberes e à ampliação do intelecto.
Apresentando-se de forma erudita, popular ou massificada, o que a cultura expõe, preserva, transforma, traduz, é sempre o saber e o fazer humano criando o novo, preservando o antigo, recriando formas, transformando a existência.


Para saber mais sobre o assunto.
BOFF, Leonardo. A águia e a galinha. 14 ed. Petrópolis: Vozes, 1998.
CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Tradução Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
CHAUÍ, Marilena. Filosofia. São Paulo: Ática, 2002.

Escosteguy, Ana Carolina. Os Estudos Culturais. Disponível em: http://www.pucrs.br/famecos/pos/cartografias/artigos/estudos_culturais_ana.pdf

FALCON, Francisco José Calazans. História cultural e história da educação. In: Revista Brasileira de Educação, vol.11, nº 32, Rio de Janeiro, maio/ago. 2006.

GIORDANI, Mário Curtis. História da Antiguidade Oriental. 12 ed. Petrópolis: Vozes, 1992.

KRAMER, Samuel Noah. Os Sumérios. Lisboa: Bertrand, 1977.

LUZURIAGA, Lorenzo. História da educação e da pedagogia. 19 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2001.

THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa: a força dos trabalhadores. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. Vol. III.

 

 

Texto: Profª Drª Marilda Aparecida Soares.
Doutora em História Social – FFLCH USP.
Professora das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires.

terça-feira, 12 de julho de 2011

O Imperialismo Europeu no continente africano e suas conseqüências.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jul., Série 12/07, 2011, p.01-08.


O presente trabalho pretende fazer uma breve discussão a cerca do processo de colonização e dominação da África no século XIX promovido pelas nações européias durante a corrida imperialista e a segunda fase da industrialização.




A historiografia definiu este fenômeno como imperialismo ou mesmo neocolonialismo, todavia, o termo “roedura” utilizado por Leila Leite Hernandez serve para designar esta exploração do continente africano que segundo a mesma autora se inicia já no século XV com a expansão marítima européia na Península Ibérica.
A questão do imperialismo europeu no continente africano reflete a mentalidade de lucro e de exploração que permeou o Ocidente com o desenvolvimento do capitalismo.
A busca do lucro a todo e qualquer custo gerou profundas mazelas e conflitos em todo o cenário mundial.
Apesar de durante muito tempo, a historiografia ainda pautada em um pensamento positivista, tenha ignorado a importância da África no contexto da história universal, elementos como o próprio imperialismo nos permitem entender a importância deste continente na dinâmica do desenvolvimento da história humana.
Não podemos pensar a África apenas como um continente explorado onde só imperava o atraso ou outros elementos negativos, a região no seu todo possui um grande legado para a cultura universal, a visão pejorativa deste continente se formou justamente com a corrida imperialista no século XIX e perdura até os nossos dias.
O estudo da história da África requer, portanto um exercício de desconstrução e uma nova concepção de história.

           
A ideologia do Imperialismo europeu.
Por volta do século XIX, construiu-se um arquétipo sobre a África, definindo-a continente como um local atrasado, habitado por povos bárbaros e selvagens.

Esta visão pejorativa a respeito do território africano fora sem dúvida fruto de um paradigma positivista que organizava as diversas sociedades a partir de uma escala evolutiva, no que chamamos de Darwinismo social.

O século XIX é sem dúvida o século do furor cientificista da Europa, as novas descobertas e o rompimento com a religião levaram os europeus a formularem as mais variadas teorias para explicar alguns elementos presentes na humanidade.
Já Karl Marx em sua explicação sobre a formação do capitalismo, entendia que os povos do Oriente estariam abaixo da Europa em uma escala evolutiva, uma vez que todas as sociedades conseqüentemente chegariam ao capitalismo, neste sentido a África estaria na base desta pirâmide evolutiva.
Outro elemento foram as teorias sobre as chamadas “raças”, a idéia de eugenia, muito difundida em centros de pesquisa ou mesmo universidades, afirmava que algumas “raças” seriam inferiores a outras, neste sentido, os “brancos” que viviam na Europa estariam no topo da mesma pirâmide de uma escala evolutiva.
Os estudos feitos a partir do crânio de seres humanos, afirmavam, portanto que os negros seriam uma “raça” inferior, isto explicaria o “atraso” e a barbárie dos povos africanos.
O discurso eurocêntrico a cerca da África serviu para justificar o processo de colonização ocorrido também no século XIX a partir da Conferência de Berlim.
Devido ao furor industrial na Europa, as nações do Velho Mundo com a necessidade cada vez maior de obter matérias-primas, mercados consumidores e mão-de-obra barata se lançaram sobre os continentes da África e da Ásia, dando início a uma violenta dominação e exploração destes povos.
Todavia, o mesmo discurso eurocêntrico que concebia os diversos povos a partir de uma hierarquia em uma escala evolutiva, fora largamente difundido pelos europeus.
Ora, por que dominar a África?
Uma vez o continente sendo uma terra selvagem habitada por bárbaros ou até mesmo esquecida por Deus, caberia aos europeus a missão de civilizar e cristianizar os povos que lá viviam, levando desta forma o progresso, o desenvolvimento e a verdadeira religião que neste caso seria o cristianismo.
O discurso da Missão Civilizadora num primeiro momento nos parece louvável, todavia, com a presença de missionários e cientistas e posteriormente com os exploradores, os povos africanos conheceram a verdadeira barbárie por parte dos europeus em virtude de um capitalismo ainda nascente.
Assim como os operários ingleses sofreram com os primeiros anos da industrialização, os povos africanos sofreram com a busca incessante por lucro, desta forma, o que se observou do século XIX até a primeira metade do século XX com a Segunda Grande Guerra fora uma exploração, muitas vezes pautada na violência gratuita.


O colonialismo europeu no continente africano.
A historiografia entende o imperialismo ou mesmo a exploração da África, a partir da Conferência de Berlim, todavia, como já fora apontado anteriormente, segundo Leila Leite Hernandez, o processo de “roedura” ou de exploração se inicia já no século XV.
Com o fim da Idade Média e a escassez de produtos agrícolas dentre outros recursos, os europeus, sobretudo, os portugueses se lançam a dominação do continente africano. Sabemos que o objetivo principal de Portugal era encontrar novas rotas comerciais para as Índias na busca de especiarias, entretanto, com a necessidade de contornar a consta da África, os portugueses fundaram feitorias e pequenas cidades próximas aos portos na parte ocidental do continente.
A primeira forma de colonização da África se deu no intuito de obter lucros por parte dos europeus, entretanto, Hernandez chama atenção que este primeiro contato entre europeus e africanos era de certa forma “pacifico”.
Na verdade não haveria o predomínio de uma relação dominador X dominado.
A existência de reinos e impérios extremamente complexos no território africano, fez com que os portugueses estabelecessem relações de troca comercial entre os reis que lá viviam.
Os reinos africanos, do século XVI, eram em sua maioria extremamente ricos, ostentando riquezas como ouro e outros metais preciosos.
Existem registros de que alguns dos monarcas fizeram viagens diplomáticas a países da Europa, além da presença de jovens, filhos destes mesmos monarcas estudando em universidades de Portugal.
Por volte de 1830, os missionários religiosos iniciaram a partilha da África em áreas de influencia das mais diversas denominações cristãs, primeiramente os anglicanos, metodistas, batistas e presbiterianos da Inglaterra, se concentraram nas regiões de Serra Leoa, Libéria, Costa do Ouro e na Nigéria.
Em seguida os luteranos da Alemanha além de calvinistas, por fim, as congregações religiosas católicas se dirigiram para a Tanzânia, Niger e Gabão, chama-nos atenção que num primeiro momento, a Igreja Católica não demonstrou grande preocupação em expandir o cristianismo na África.
Todavia, com a expansão do protestantismo no continente, o que se viu foi uma busca pela hegemonia religiosa no território africano, a região do Norte, por sua vez viu o “fracasso” das missões cristãs, uma vez que foram conquistadas pelos árabes já por volta do século X, tendo assim uma religiosidade predominantemente muçulmana.
Já no século XIX, muitos dos reinos africanos que existiam já haviam se fragmentado, outros acabaram dissolvidos pela dominação européia.
Diante da necessidade de recursos para suas indústrias, as nações do Ocidente se reuniram para dividir o continente africano como melhor lhes convinha, em 23 de fevereiro de 1885, fora assinada a Ata Geral da Conferência de Berlim que segundo Henandez tratava dos seguintes pontos: Assegurar a livre navegação e o livre comércio sobre os principais rios africanos que deságuam no Oceano Atlântico; regulamentar as novas ocupações do território africano, sobretudo na costa ocidental do continente.
Outro ponto tratado fora a liberdade religiosa e a proteção dos missionários, esta liberdade servia apenas para o cristianismo, outro ponto era também a extinção do comércio de escravos negros.
O ponto mais intrigante fora sem dúvida no aspecto que tratava de um acordo entre as nações européias na divisão do território africano como melhor convinha a cada país.
A Grã Bretanha e a França dividiram entre si parte da África do Norte, por outro lado a Inglaterra que ainda mantinha sua hegemonia industrial dominou a parte Sul do Continente.

A Bélgica, uma das maiores interessadas nos recursos do continente, em uma conferência funda a Associação Internacional Africana com sede em Bruxelas, promoveu a criação da “Confederação das Repúblicas Livres do Congo”.

Esta confederação consistia em estabelecer um estado “livre” no continente africano sob o domínio da Bélgica.
As “tribos” que viviam naquele território doravante estariam sob o domínio do Rei Belga Lepoldo II. Portugal teve sua influencia reconhecida nos territórios de Angola e Moçambique.
Desta forma, todo o continente africano estava sobre o domínio europeu, exceto os territórios da Libéria e Etiópia.
A Libéria tivera sua “independência” proclamada em 1847, com um estatuto que a colocava na condição de colônia dos EUA.
O processo de partilha da África, feito de forma arbitrária pelas nações européias, não levou em conta as peculiaridades dos diversos povos que lá habitavam.
Os europeus por sua vez, utilizaram da força para garantir o controle destes povos, tornando-se comum o uso de armas de fogo.
Na região da África do Norte, por se tratar de uma cultura de certa forma, homogênea (em virtude do Islã), em relação ao grande mosaico da região subsaariana, foi palco dos maiores levantes e resistências contra a esta dominação.
Outros modos de resistência foram promovidos na região abaixo do Saara, como suicídios ou mesmo ataques a missionários ou colonizadores europeus.
No intuito de obter o máximo de lucro em seus empreendimentos, os colonizadores exploraram de forma exaustiva os recursos naturais e humanos do continente, vários foram os europeus que enriqueceram com a exploração de metais em minas pelo continente, tornou-se comum a utilização de mão-obra africana em minas ou mesmo em plantations, o pagamento, por sua vez, na maioria das vezes era ínfimo o que levou a miséria de inúmeras sociedades.
A ganância européia teve uma de suas maiores expressões no Congo Belga, onde o governo ordenou a mutilação de indivíduos que não produzissem o que era exigido pela coroa para que os condenados servissem como exemplo.
A resistência a dominação européia fora intensa, todavia, os povos africanos, muitas vezes ficavam impotentes diante da ameaça com armas de fogo.
A exploração do continente não previa de forma alguma a divisão do lucro com os povos conquistados, desta forma, os recursos alimentícios, matérias primas, ou mesmo metais preciosos eram enviados em sua maioria para as nações da Europa, diferente do colonialismo do século XVI promovido pelas colônias ibéricas na América Latina onde a colônia se tratava de uma extensão da metrópole com as mesmas leis.
O neocolonialismo previa somente uma exploração desmedida do território africano.
Percebemos também que enquanto no século XV com a expansão ultramarina européia, como já fora dito, a relação entre europeus e africanos era baseada muito mais na troca, do que na violência, no século XIX o que se viu foi a violência gratuita dos europeus contra os africanos. 
As conseqüências desta divisão e exploração arbitrária do território africano foram as piores possíveis como veremos a seguir, seus reflexos são percebidos até os nossos dias.


Conseqüências do Imperialismo Europeu.
Diante do processo de colonização e partilha do continente africano, as conseqüências tanto para os povos que viviam no continente quanto para o mundo foram as mais variadas.
Sabemos que os conflitos da Primeira Guerra Mundial ocorreram em decorrência da corrida imperialista.
A Alemanha que teve sua unificação tardia tentou fazer parte da divisão do continente, reivindicando para si parte das colônias conquistadas pelos países europeus na Conferência de Berlim.
Os impactos desta dominação arbitrária foram mais violentos no próprio continente africano.
Devido às fronteiras criadas pelas nações européias que inicialmente inibiam as manifestações dos povos contra o domínio do Velho Mundo, após a Segunda Guerra Mundial com o processo de descolonização o que se viu foram contínuas guerras civis entre as sociedades que viviam nos territórios criados de forma artificial pelos europeus, uma vez que as peculiaridades entre os mesmos não foram levadas em conta.
As guerras civis utilizaram as mais variadas armas de destruição para dizimar centenas de populações que iam desde facões a minas terrestres como fora o caso da guerra civil em Angola, até finais a década de 90 muitos indivíduos foram mutilados com tais armas, além disso, neste período tornou-se comum recrutar meninos com idades entre os 6 aos 12 anos para o manuseio de armas de fogo, a fim de lutarem em milícias nas guerras civis, o que gerou um enorme infanticídio.
A crescente exploração dentro do continente levou a uma profunda miséria e mazelas nestes povos o que persiste até os nossos dias, o continente africano como sabemos ainda possui o maior índice de miséria do mundo, estes povos que hoje começam a se organizar politicamente encontram dificuldades para se estruturarem economicamente.
Além destes elementos citados, a dominação acabou por descaracterizar estes grupos que em muitos momentos não conseguiam perceber sua identidade, o discurso dos europeus em defini-los como bárbaros, ágrafos ou mesmo atrasados inibiu o desenvolvimento de uma identidade nacional após as emancipações.
Por outro lado, no caso específico da África do Sul, a presença inglesa na região e a predominância de uma mentalidade racista gerou conflitos violentos durante o apartheid, onde a segregação racial era institucionalizada.
A descolonização da África no século XX conheceu a violência extrema e também a formação de uma elite que passou a substituir os europeus no papel de exploradores.
No processo de emancipação e na organização política, os regimes ditatoriais emergiram no continente com líderes megalomaníacos e sanguinários que passaram a explorar e oprimir os povos nos Estados em formação.
O discurso de ajuda a África, adotado pelo ocidente que muitas vezes parece estar imbuído de uma ideologia humanitária encobre interesses econômicos pelos recursos do continente que ainda persistem desde a corrida imperialista, a ajuda de nações ocidentais a determinados países africanos passa pelos benefícios que estes podem oferecer para o enriquecimento de nações capitalistas.


Concluindo.
Diante do que fora tratado em nosso trabalho, poderíamos dizer que apesar do passar dos anos, a África ainda permanece uma terra “esquecida por Deus”, que sofre com as conseqüências da dominação européia.
Todavia, apesar de nossa abordagem parecer extremamente pessimista, o imperialismo nos mostra como este continente fora essencial para o desenvolvimento econômico do Ocidente.
Deixando de lado a economia, podemos afirmar que a África também contribuiu para a formação de muitas culturas no Novo Mundo como fora o caso do Brasil.
Entretanto, fugindo de um estudo a partir da lente eurocêntrica da história, devemos observar a África em sua essência e entender os povos e sua história livre de arquétipos, obviamente, trata-se de um exercício extremamente complexo, uma vez que os nossos manuais de história têm por base a construção científica criada no Velho Mundo.
No que diz respeito às conseqüências do imperialismo, tais mazelas que ainda hoje persistem no continente, antes de serem solucionadas pelas nações capitalistas, devem ser resolvidas entre os próprios povos africanos.
A África só será plenamente livre a partir do momento em que os povos que lá vivem adquirirem consciência de sua história e de sua identidade sem a influência do Ocidente.
Sabemos que a vida humana teve seu início no continente africano, todavia, em virtude de uma crescente exploração e a construção de uma visão extremamente pejorativa, os próprios indivíduos que fazem parte deste mosaico de culturas não têm ciência de suas origens e de sua importância.
A maioria das iniciativas de pesquisa sobre a história da África partem do próprio ocidente numa tentativa de fomentar a valorização da história e da identidade destes povos.
As rixas entre “tribos” e outros grupos ainda persistem, percebemos deste modo que a África ainda é uma região “imatura”, imatura não por causa dos povos que lá vivem, mas “imatura” devido a outras nações que não permitiram que este continente se desenvolvesse por si só, livre de um paradigma eleito como verdade absoluta, além de não respeitar as suas peculiaridades.
Mas a África começa a caminhar com suas próprias pernas e assim como o bebê que aprende a andar, devemos deixar que aprenda com suas quedas e suas conquistas para que assim venha esta “maturidade” e autoconfiança, para que finalmente o sentimento de liberdade seja verdadeiro.


Para saber mais sobre o assunto.
BOAHEN, Albert Adu (Ed). História Geral da África vol VII: África sob dominação colonial (1880-1935), Brasília: UNESCO, 2010.
HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à História contemporânea, São Paulo: Selo Negro, 2005.
KI-ZERBO, Joseph. Introdução geral, In; História Geral da África vol. I: Metodologia e pré-história da África, Brasília: UNESCO, 2010, vol. 1, p.30-56.
THORTON, John Kelly. A África e os africanos na formação do mundo atlântico (1400-1800), Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.


Texto: Prof. Victor Mariano Camacho
Licenciado em História pela Uniabeu- Centro Universitário.
Nilópolis – RJ.