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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
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Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
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terça-feira, 7 de junho de 2011

Farias Brito pelo Prof. Luis Alberto Cerqueira.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jun., Série 07/06, 2011, p.01-07.

 
Discutir sobre o pensamento de Raimundo de Farias Brito é lembrar que influenciou o Tomismo no Brasil, é falar sobre anti-modernismo, realismo, tradicionalismo, espiritualismo, senso-comum, e valorização da religiosidade e do espírito.
O filósofo tinha a intenção de construir uma Filosofia do espírito, no seu sentido e significado mais profundo.
Falar em espírito para Farias Brito é lembrar que através da consciência emana o ser, que surge a energia vital e a capacidade de pensar, sentir e agir.
Portanto, este princípio que exerce o poder de criação, de ação, é ativo e vivo, é objeto de ciência.
E com característica que lhe são peculiares, esta ciência do espírito é real e segue em frente com seus métodos próprios.

O parágrafo em estudo foi extraído do artigo do prof. Luis Alberto Cerqueira, sob o título: Maturidade da Filosofia Brasileira-Filosofia e Psicologia.

“Cerqueira discorre sobre o surgimento da filosofia brasileira desde Gonçalves de Magalhães a Farias Brito, e o esforço da afirmação desta, em função do conhecimento de si como problema, a fim de achar as respostas para a explicação sobre o espírito.
O filósofo continua explicando que a filosofia vem de tempos remotos e todos os pressupostos filosóficos giram em torno da busca pelo conhecimento de si, como o ponto nevrálgico das indagações.
Pois antes mesmo de nascer à filosofia, o homem já se voltava as suas buscas intimas, havia movimentos que evidenciavam uma busca espiritual profunda, por respostas aos anseios da vida.
Na religiosidade e nas manifestações artísticas já se revelava o desejo latente por uma introspecção mais íntima do ser.
O existencialismo parece se cruzar entre o ser que pensa o divino, e aquele que pensa o humano.
O encontro íntimo do ser se volta para si mesmo, e se descobre como ser que interroga, e busca na subjetividade, o elo que une o Criador e a criatura.
Esta busca depende da vontade livre e da liberdade de pensamento, a fim de poder se livrar de conceitos pré-concebidos e ouvir a voz que vem da consciência.
Mas apesar do homem saber como elevar-se em espírito, ele não sabia ainda impor uma disciplina mais rígida, a fim de coordenar e usufruir os resultados a fim de guiá-lo seguramente na verdade, justiça e beleza.
A relação entre vontade e introspecção é o elemento fundamental da filosofia de Farias Brito”.


Liberdade.
Liberdade sempre foi um assunto muito discutido e delicado na história do pensamento humano.
Quer seja uma reflexão mais abrangente sobre o futuro e destino do ser humano, quer seja sobre as especulações e interpretações no sentido da ação deste ser, tais reflexões sempre se fizeram necessárias, o tema sempre foi motivo de especulações a partir da Modernidade.
Provocou e continua ainda a instigar o pensamento das várias áreas do conhecimento, incluindo a filosofia.
O ser humano somente pode exercer dinamidade a liberdade, quando realmente se sente livre.
Pensar filosofia é um esforço do espírito e da mente e o filósofo deve ter a liberdade de poder balizar suas idéias sem que seja influenciado por pressupostos pré-concebidos.
Sua consciência deve ter autonomia em suas ações e quanto mais se amplia e alarga seu conhecimento, mais nítida fica sua percepção em relação às coisas do espírito, que é uma força interna que cresce cada vez mais, uma energia latente, e justa medida da busca de si mesmo.
Pois é a partir da noção de conhecimento e através do conceito de liberdade, que o ser humano se torna livre e apto a exercer sua influência nas diversas áreas, e em especial na ciência.
Filosofia gera conhecimento e investigação, e por conseguinte, como relata a afirmação de Cerqueira
“A filosofia é anterior à ciência e tem por isso mesmo, um caráter pré-científico”.
Não é somente conhecimento abstrato, mas força e vitalidade que vem de dentro do ser, exercendo influências, quebrando paradigmas e gerando pressupostos á partir de problematizações sobre/dentro da sociedade.
Da filosofia nasce o verdadeiro sentimento moral de um povo e nação.
Lembrando Magalhães ao falar sobre a liberdade, “ó tem liberdade nesse mundo quem é inteligente, só tem inteligência quem é livre, e obra por si mesmo”, de tal maneira que quem tem inteligência e liberdade tem consciência de si mesmo, é de necessidade um ente moral (MAGALHÃES, 2004, p.355).


Filosofia e Ciência.
De acordo com o grande filósofo Farias Brito, o ser humano é um ser em constante processo de se produzir, está sempre tentando se superar em relação a si mesmo, mas a natureza lhe impõe certas contradições e muitas vezes o que era hoje, já não o será amanhã, pela própria imprevisibilidade das coisas.
A ciência é bem organizada, catalogada, experimentada e a filosofia se dá pela via do conhecimento, da especulação e está sempre se formando e transformando cada dia.
Neste sentido, pode-se afirmar que a razão humana também está em processo de formação, adquiri formas diferentes no correr dos tempos, dependendo de como o homem se relaciona com o mundo.
A razão é histórica e aos poucos vai sendo tecida na trama da existência humana.
A razão cuida da apreensão do mundo e a razão processa os dados e faz a pré-reflexão das idéias e imagens que foram geradas na mente.
A razão transforma-o em um conceito e à medida que é refletida mais vezes, vai se tornando cada vez mais complexo geral e abstrato. 
A partir desta entrada de assunto, pode-se falar sobre a abordagem do mundo a partir do homem comum, de maneira casual, baseada no bom senso assim como no caráter científico.
Estas duas abordagens desafiam a lei da física, e ocupam o mesmo espaço no mesmo tempo e lugar.
A ciência é o conhecimento organizado e verificado.
A filosofia é o conhecimento em via de formação.
Em outros termos: a filosofia é a organização do conhecimento científico; é a investigação do desconhecido; é a atividade mesma do espírito, elaborando o conhecimento e produzindo a ciência.
É uma atividade permanente, ou seja, é produto dessa mesma atividade.

Todo o conhecimento elaborado é ciência.
Aí descansa o espírito na posse da verdade.
Mas toda ciência é apenas um ponto determinado no seio do desconhecido, o que equivale a dizer, no seio do infinito.
Partindo desse ponto e em torno desse ponto para todos os lados se estende o desconhecido em proporções infinitas.
De maneira que jamais poderá o conhecimento elaborado ou a ciência esgotar a esfera do desconhecido.
Pelo contrário com o desenvolvimento das ciências parece que o desconhecido cresce; circunstância que tem a sua explicação neste fato: que o espírito galgando uma posição mais eminente descortina horizontes mais largos e deste modo descobre novas e estranhas perspectivas.
É por isto que toda a vez que o espírito descansa na posse de uma verdade, chega ao ponto terminal numa série de investigações; mas este ponto terminal é apenas o ponto de partida para uma nova série.
A palavra filosofia significa amor da ciência, ou amor a sabedoria.
E este amor somente pode nascer no espírito.
Portanto, se conclui que a filosofia é uma atividade da mente e do espírito, sendo que a ciência é o resultado no processo.
Além do que, amor é energia, força, vitalidade.
Logo, se a ciência ama a filosofia, é ela que a nutre a ciência, da força, é princípio gerador. Nosso espírito tem necessidade de questionamentos e buscas, faz parte da querer saber, conhecer.
A atividade do espírito é buscar conhecer e ao mesmo tempo, elaborar conhecimentos.
O espírito é inquieto e está sempre analisando, investigando, questionando e trazendo resultados que geraram ciência.
"A filosofia é a concepção do problema científico; a ciência é a sua solução".
A filosofia é uma atividade que tem por função própria produzir a ciência.
É o que se pode chamar a função teórica da filosofia.
A filosofia não é, pois, somente conhecimento abstrato; é também força social, força viva, capaz de exercer influência sobre a sociedade.
Esta influência é real e decisiva, pois é da filosofia que nasce o sentimento moral.
Para Farias Brito, a filosofia pertencia a uma esfera diversa da esfera das ciências, a estas cabia o conhecimento das formalidades externas, àquela a busca de um sentido e de uma regra para a ação humana.
A função prática e ética foi o que primeiramente surgiu espontaneamente no espírito do homem.
Desta forma, Farias Brito diz que, sendo assim, logo que o homem começou a pensar, é que nasceu a filosofia.
Para ele, a filosofia somente deve ter crédito se puder nortear e regular a ação, esta no sentido ético, é tudo o que o homem faz no exercício de sua atividade e toda deliberação seguida de execução.
Já com relação ao Espírito, “o trabalho do espírito é, pois, permanente, contínuo”.
No entender do filosofo “o que é mais importante é que a filosofia, elaborando o conhecimento, não somente vai fundando as ciências, o que quer dizer, alargando e consolidando o conhecimento científico (função teórica), como ao mesmo tempo abrange, por disposição natural, o conjunto da universal existência, e deste modo vai sempre fornecendo os elementos necessários para uma concepção do mundo”.
Portanto, “deste modo não somente continuamente se esforça por dar uma explicação da verdadeira significação racional da existência, como ao mesmo tempo procura definir a posição do homem no seio do Universo”.
Reunindo seu entendimento ético da filosofia e sua visão naturalista, se prende a uma perspectiva gniosológica realista e tradicional.

Diz o filósofo:


“Segundo a lógica tradicional e confirmado pelo senso comum e pelo assentimento universal do espírito, chama-se verdade a perfeita conformidade entre a representação e a coisa.
Para ele os instrumentos fundamentais do conhecimento consideram a função conceptualizadora da razão, e a analogia.
Como critério de verdade, ele somente aceita os testemunhos da consciência e do senso-comum.
Ele afirma: Nós sabemos que não há outro critério de verdade fora o testemunho normal e permanente da consciência.
E ainda, o senso comum algumas vezes erra, mas quando as teorias se afastam do senso comum, são artificiais e falsas”.


Concluindo.
É necessário entender o contexto que Farias Brito vivia na época.
A igreja católica passava por uma fase melindrosa, a crise religiosa tendia a crescer mais, os católicos procuravam algo mais coerente às circunstâncias de suas vidas e de seus valores.
Havia um confronto entre as normas e dogmas da igreja e os valores liberais da maçonaria. 
A religião se misturava à prática da cultura política, e tais acontecimentos conduziam ao desgaste à condição do transcendente divino.
A cultura se impunha, encostando os católicos contra a parede, mudando sua forma de comportamento e quebrando paradigmas.
O secularismo avançava de forma vertiginosa, a modernização atraia as pessoas ao consumismo e ao conforto, não havia ambições em relação a ideologias e nem havia nenhuma novidade nesta área.
Positivismo e tradicionalismo religioso sofriam embates, mas ambos eram de postura racionalista, que não coincidia com a realidade do momento.
A elite começa a se sobressair, e as diferenças entre dois tipos de Brasil começa a ficar cada vez mais evidentes, ou seja, um ideal e outro real.
Poder temporais e espirituais se digladiava entre si. 
Farias Brito, se opondo ao positivismo, elaborou então sua reflexão que protegeria a autonomia da consciência, dando-lhe assim uma autonomia sobre o mundo e a realidade objetiva.
O cientificismo positivista começou a ser combatido, este estava trazendo desânimo e inquietação à sociedade da época.
O materialismo continuava a sufocar o lado espiritual e psíquico das pessoas.
Como, do ponto de vista pragmático, a religião coincide com parte das idéias do positivismo, detentora de uma moral tradicionalista e rígida, por não desejarem serem vistas como baderneiras, administram o conflito e os conservadores assumem a situação no país.
É nesse ponto que Farias Brito se fez como igreja, tendo como concepção religiosa a consciência, o pensamento e a vida em espírito.
A concepção de suas idéias combinava com o momento e procurava se ajustar a ele.
Mas eram tempos difíceis e sua religião era de ordem prática, da ação e da moral.
Raimundo de Farias Brito era um homem notável, inteligente, observador, era um homem espiritual e se preocupava com a ciência, com o rumo dos pensamentos e com a consciência.
Resistiu a fome e a peste do sertão cearense, a perda de seu primeiro filho, aos embates de inteligência, a perda de sua primeira esposa, a perda de seu amigo Euclides da Cunha, morto em confronto com o amante da esposa e tantos outros infortúnios, que o homem comum não resistiria.
Mas uma cabeça privilegiada como de Farias conseguiu superar as tormentas da vida, e tinha um único pensamento, amar e ajudar o próximo.
Embora tenha vivido varias tragédias, pois era de uma capacidade extrema em sofrer, reagir e vencer as dificuldades que a vida lhe reservara, ele ainda conseguiu tirar lições em meio as angustias, deixando que formasse uma forragem sólida para a construção de suas teses e idéias.
Era um homem espiritual e se preocupava com a ciência, com o rumo dos pensamentos e com a consciência.
Não sei se o prof. Luis Alberto Cerqueira ou outros comentaristas da nossa época julgou-o digno ou indigno, errado ou correto frente as suas especulações de natureza psíquica, espiritual, científicos e de senso comum.
O que sei é que me sinto um tanto pequena perante suas lutas e não me considero apta a julgá-lo ou não.
Sua capacidade de sofrer era tremenda, ele viveu a escravidão, o império, a República, a época da rudeza excessiva e dos grandes nomes imortais: Rui Barbosa, Silvio Romero e tantos outros.
A preocupação dele com a vida de espírito, baseada em uma moral ilibada, uma consciência equilibrada, e uma razão que transcende ao nosso tempo, é o suficiente para mim.


Para saber mais sobre o assunto.
GALEFFI, Gina Magnavita (org.). A Verdade como regra das ações: Farias Brito (1862-1917). BRASIL: GRD-INL/MEC, 1979.


Texto: Marisa Gonçalves de Almeida Santos.
Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de Campinas.
Artista Plástica e aluna do 3º. do curso de licenciatura em filosofia do Claretiano.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A história dos excluídos a bordo das caravelas e naus dos descobrimentos: grumetes, órfãos e degredados.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jun., Série 06/06, 2011, p.01-08.


Reconstituir o cotidiano dos excluídos a bordo das caravelas e naus do século XVI e XVII não é tarefa fácil.
Eles mal aparecem na documentação do período, ficavam nas entrelinhas, mas estavam lá.

Os grumetes, em geral crianças entre nove e dezesseis anos, sofriam constantemente maus tratos e abusos sexuais por parte dos marinheiros e oficiais.

Órfãos eram embarcados compulsoriamente e obrigados a migrar rumo às colônias de além-mar.
Prostitutas eram encerradas nos orfanatos de Lisboa e Porto para depois serem também obrigadas a migrar para o Novo Mundo como se fossem órfãs, sendo obrigadas a casar-se com elementos da pequena nobreza no Brasil e na Índia.
Ciganos e judeus eram condenados a servirem nos navios como degredados unicamente pelo crime de pertencerem às minorias.


O contexto.
O incremento da epopéia marítima portuguesa, a partir de 1497, quando Vasco da Gama abriu a rota da Índia, fez crescer também a demanda de mão de obra para construir e tripular as naus lusitanas.
É interessante lembrar que a descoberta do Brasil não teve grande importância econômica, constituindo mero ponto de passagem para os navios da Carreira da Índia.

Destarte, no inicio abundaram homens a se oferecerem para imigrar às novas possessões da Coroa no Oriente.

A seu ver constituía uma excelente oportunidade de enriquecimento rápido e fácil que no Reino nunca poderia ser alcançado.      

Em contrapartida, a carência de mão de obra se fez sentir agudamente nos escassos navios que começaram a rumar à Terra de Santa Cruz, obrigando a Coroa a adotar soluções paliativas.
Há muito, nos grandes centros urbanos de Portugal, vagabundos e crianças abandonadas perambulavam pelas ruas, constituindo um grande problema.
Um fato agravado por um crescente êxodo rural, sendo que a imensa maioria dos adultos havia migrado para as cidades, exatamente em busca da oportunidade de servirem na rota da Índia.
Isto, justamente em um momento em que os postos de trabalho abertos nas cidades não podiam absorver toda a mão de obra desocupada.
Ao mesmo tempo, o número de crianças abandonadas só tendia a aumentar proporcionalmente ao número de camponeses empobrecidos a rumarem para as cidades.


O recrutamento de crianças para os navios da rota do Brasil.
Durante o século XV, o recrutamento de forçados havia se mostrado útil ao preenchimento de navios para os quais ninguém queria se oferecer para servir como marinheiro.
No período temia-se o confronto com o desconhecido oferecido dia-a-dia aos navios que se aventuravam cada vez mais ao sul.

Assim, a resolução da questão da falta da mão de obra na rota do Brasil pode ser facilmente contornada, através do emprego daqueles que haviam sido excluídos pelas circunstâncias da Carreira da Índia.

Inicialmente, o emprego de crianças a bordo foi restrito, isto porque ainda não se fazia necessário.
O rapto de vagabundos e o uso de degredados dava conta de suprir a carência de braços.
Fazendo-se sentir a falta de marinheiros, conforme a necessidade, os privilégios eram quebrados e “vadios e desobrigados” eram compulsoriamente embarcados nos navios que deles necessitassem.
Vagabundos e ciganos eram pura e simplesmente raptados ou presos sob algum pretexto, ao passo que as cadeias eram esvaziadas.
Os criminosos ficavam obrigados, através de degredo, a migrarem para o Brasil ou servirem por determinado período em embarcações da Coroa e ou de particulares.
Não obstante, com o crescimento da demanda de navios e homens na Carreira da Índia, já pela altura da terceira década do século XVI, cada vez mais o uso de degredados e desocupados, estes últimos a tornarem-se escassos, precisou ser canalizado para os estaleiros portugueses e para os navios das rotas Orientais.
Ao que um índice de mortalidade alto na Índia, exigia um envio constante de mais e mais homens, tornando difícil novamente suprir os navios que participavam do caminho do Brasil com marinheiros.
O problema foi solucionado através do recrutamento dos excluídos, daqueles cuja presença não era desejada nos centros urbanos ou que representavam custos para o Estado.
Portanto, a questão da falta de mão de obra nos navios do Brasil foi resolvida por meio da utilização daqueles que hoje chamaríamos de crianças de rua como grumetes.


Mentalidade e afetividade.
Apesar de muitos considerarem os ibéricos como possuidores de uma grande afetividade para com seus pequenos, o quadro das sensibilidades quinhentista era bem diferente.
Na verdade, entre portugueses ou outros povos da Europa a alta taxa de mortalidade infantil, verificada ao longo de toda a Idade Média e mesmo em épocas posteriores, interferiu na relação dos adultos com as crianças.
A expectativa de vida das crianças portuguesas entre os séculos XIV e XVIII rondava quatorze anos, enquanto cerca de metade dos nascidos vivos morria antes de completar sete anos.
Isto fazia com que, principalmente entre os estamentos mais baixos, as crianças fossem consideradas como pouco mais que animais, cuja força de trabalho deveria ser aproveitada ao máximo enquanto durassem suas pequenas vidas.
Um conto infantil português do século XVI, recolhido da tradição oral, classifica os “dois filhos”, recém-nascidos, de um rei como um “macho e outro fêmea”.
Esta forma de referir-se às crianças permite deduzir que, dentro do quadro das sensibilidades, as crianças não passavam de animais, sendo categorizadas do mesmo modo que o seriam os africanos escravizados, vistos então como meros “instrumentos vocais”.
Este sentimento de desvalorização da vida infantil incentivou a Coroa a recrutar crianças como mão de obra, em um momento em que os homens adultos eram cada vez mais escassos e os poucos existentes procuravam de toda maneira fugir a vida no mar.
Pois se sabia que a mortalidade era alta e as privações cotidianas a bordo dos navios, apesar da rota do Brasil ter uma realidade mais amena devido ao menor tempo de percurso entre Lisboa e Salvador.
Assim, compulsoriamente, a Coroa procurou alistar meninos de nove a dezesseis anos, procurando-os em meio às famílias pobres das áreas urbanas.
Uma vez que neste meio eram muitos os órfãos de pai falecido na Índia e de mãe decorrente das mais variadas doenças.
A alta a taxa de mortalidade e o envelhecimento precoce de mulheres conduzia a muitos óbitos nos centros urbanos, ao passo que as crianças camponesas não podiam ser utilizadas por serem necessárias na faina agrícola.


Crianças judias.
Não tardou para que mesmo os órfãos se fizessem escassos nos centros urbanos, forçando a Coroa a buscar preencher as vagas de grumetes com crianças cujos pais ainda estavam vivos.
As autoridades foram buscar mão de obra para os navios em meio às famílias lusitanas pobres e judeus, estes últimos tidos como dispensáveis pelo poder régio.
Para os pais das crianças pobres elas eram consideradas um meio eficaz de engordar a renda da família, constituindo seu alistamento sempre um bom negócio.
Mesmo que os filhos viessem a perecer no além-mar, os pais podiam receber os soldos de seus miúdos.
Por outro lado, para os pais das crianças judias, em geral arrancadas à força do lar, constituía uma grande perda afetiva, pois as implicações econômicas, neste caso, eram descartadas em vista da maioria esmagadora dos judeus ser possuidora de recursos consideráveis.
Para a Coroa, o rapto significava, simultaneamente, um meio de obter mão de obra barata e manter sob controle o crescimento da população judaica em Portugal,


Crianças tripulando os navios.
Às crianças era imputada a tarefa de servir a bordo das naus como grumetes ou pajens.
Aos grumetes cabiam os mesmos serviços prestados pelos marinheiros, enquanto os pajens, por sua proximidade junto aos oficiais, desfrutavam de vários privilégios, realizando trabalhos leves, assemelhando-se a pequenos “mandaretes”.

Uma lista dos soldos pagos aos tripulantes de uma nau portuguesa permite observar que, em meio a uma tripulação composta por cento e seis homens, vinte eram grumetes.

Exatamente a metade do número de marinheiros a servirem na embarcação.

A população composta pelos mesmos girava em torno de 18% do total de tripulantes.
Assim, em uma nau composta por cento e cinqüenta tripulantes - média de homens empregados nas naus portuguesas do século XVI e XVII - pelo menos vinte e sete crianças estariam servindo como grumetes.
Número que comprova a importância da presença infantil na aventura transoceânica.
Ainda a respeito da presença desses pequenos marujos, cabe notar que a partir da segunda metade do século XVII e, principalmente, de meados do XVIII, o número de grumetes nos navios lusitanos chegou a ser o mesmo que o número de marinheiros, algumas vezes até superior, devido à falta cada vez maior de profissionais adultos.
Estes últimos tornaram-se mais escassos do que já o eram, pois as “elevadas taxas de mortalidade” no Reino e nas possessões ultramarinas - ocasionadas pelas “deficientes condições sanitárias e econômicas”, quando não “eram as epidemias e as fomes que matavam mais gente”.
O que causou uma drástica redução da população adulta.
Enquanto os ingleses procuraram suprir a falta de mão de obra adulta livre em seus navios através da utilização de escravos negros alforriados, os portugueses optaram pela utilização de crianças.


O cotidiano dos grumetes.
Entre os séculos XVI e XVIII, apesar dos grumetes não passarem de frágeis crianças realizavam a bordo todas as tarefas que normalmente eram desempenhadas por um homem.
Recebiam de soldo, contudo, menos da metade do que um marujo, pertencendo à posição mais baixa dentro da hierarquia da marinha.
Sofriam ainda inúmeros maus tratos e apesar de, pelas regras da Coroa, estar subordinados ao chamado guardião (cargo imediatamente abaixo do contramestre, ocupado em geral por um ex-marinheiro), tinham que prestar contas aos marinheiros e até mesmo aos pajens.
Embora também fossem crianças, os pajens costumavam explorar seus pares mais pobres para aliviar sua própria carga de trabalho.
Encarregar os pequenos grumetes dos trabalhos mais pesados e perigosos era um hábito corriqueiro e exemplos não faltam nos documentos de época.
A compilação de relatos de naufrágios realizada por Bernardo Gomes de Brito, no século XVIII, reunidos no seu História Trágico-Marítima, dá conta que em 1560, na nau São Paulo, que haveria de naufragar no ano seguinte, um grumete foi colocado de serviço na gávea.
Observando o mar de lá, o grumete caiu, “desfazendo a cabeça em pedaços” no convés, espalhando “os miolos” por todo canto.
Apesar de todos a bordo, inclusive os oficiais, terem plena consciência de que “os acontecimentos e perigos do mar” eram sempre “súbitos e estranhos” e de “que a todas as horas e momentos” estavam a eles “sujeitos”, não havia hesitação em colocar as pobres crianças para atuar nos trabalhos mais arriscados.
É verdade que o conceito de infância era diferente do contemporâneo, mas não deixa de emocionar.
Quando um dos habituais acidentes ocorreu, apesar do “muito temor e espanto” causado entre os tripulantes, tudo que os outros grumetes ouviram é que o morto era um “mancebo valente”.
Ao que se justificou sua escolha para vigia na gávea, por ter ele, apesar de criança, um corpo “grosso” e temperamento “bem disposto”, nem sendo tão criança assim, pois estava até “despojado de no[i]vo” no Reino.
De todos os embarcados, os grumetes eram os que tinham as piores condições de vida.
Enquanto cada marujo tinha ao menos direito a um catre - uma cama de viagem - e um baú para guardar seus pertences, os grumetes eram alojados a céu aberto no convés, próximo aos “amantilhos (cabo que sustenta às vergas) e às curvas d’ante a ré dos amantilhos”.
Ficavam expostos ao sol e a chuva, muitas vezes falecendo em decorrência da precariedade da acomodação, aliás, como outros tripulantes mais debilitados, vitimas de pneumonia e queimaduras do sol.
Condicionados ao mesmo tratamento dos tripulantes adultos, os grumetes tinham direito a uma ração de “uma libra e meio de biscoito por dia (...) e um pote de água, uma arroba de carne salgada por mês e alguns peixes secos, cebolas e manteiga”.
O alimento nas embarcações portuguesas era “distribuído igualmente a todos”, independente de idade ou gênero.
Os grumetes não recebiam, todavia, a ração diária de “um pote de vinho” que cabia aos marinheiros.
Em muitos casos, como, por exemplo, nas viagens de volta da Carreira da Índia, devido à falta de espaço causado pelo armazenamento de mercadorias, recebiam “senão biscoito e água”.
Embora a situação fosse um pouco mais amena na Carreira do Brasil, os miúdos eram sistematicamente acometidos de inanição e escorbuto. Esse último, chamado também de mal de Luanda, era provocado pela falta de vitamina C, resultando no apodrecimento das gengivas.
Como os médicos eram raros a bordo, as crianças eram entregues aos cuidados de barbeiros que serviam como cirurgiões nas embarcações.
Estes costumavam aplicar-lhes as temidas sangrias, método de cura para todo e qualquer mal, que na maior parte das vezes, terminava por exauri-los ou matá-los.
Visando enriquecer a dieta de bordo, os tripulantes tinham permissão para tentar pescar, mas estando sempre sobrecarregados pelos trabalhos diários e vigiados de perto pelo guardião, não sobrava tempo para que os grumetes participassem desta forma corriqueira de melhoria das refeições.
Recorrer então aos “muitos ratos” e “baratas” era a única saída que lhes restava.
Entregues a um cotidiano duro e cheio de privações, os grumetes viam-se obrigados a abandonar rapidamente o universo infantil para enfrentar a realidade de uma vida adulta.
Muitos marujos inescrupulosos, aproveitando-se da fragilidade física dos grumetes, sodomizavam-nos.
Porém, quando grumetes eram estuprados, quer por medo ou vergonha, dificilmente iam se queixar aos oficiais, até mesmo porque muitas vezes eram os próprios que praticavam a violência.


O cotidiano dos pajens e órfãs.
Diferente dos grumetes, os pajens dificilmente eram importunados por marinheiros, sendo respeitados, principalmente porque eram originários de famílias da baixa nobreza ou relacionadas com estas.
A eles eram confiadas tarefas leves como arrumar as camas dos oficiais ou servir a mesa.
Além do que, para eles, a possibilidade de ascensão social dentro da hierarquia marítima era maior do que dos grumetes.
De qualquer modo, fosse pajem ou grumete, a vida no mar proporcionava um rude aprendizado a estas crianças.
Enquanto os meninos pobres, menores de dezesseis anos, eram embarcados como grumetes e pajens nas naus portuguesas, existia ainda a presença de alguns dos filhos dos oficiais, mesmo não sendo pajens.
Embarcavam simplesmente como acompanhantes de seus pais para aprender seu ofício.
No entanto, ainda existia outra categoria embarcada: as meninas órfãs de pai e pobres.
Elas eram arrancadas a força da família e embarcadas sob a categoria de “órfãs do Rei”, sendo destinadas a casar-se com elementos da baixa nobreza presente no Brasil e na Índia.
Muitas prostitutas e ciganas eram encerradas nos orfanatos de Lisboa e Porto como se órfãs fossem, mesmo na maior parte dos casos tendo pai ou mãe vivo, e, junto com órfãs verdadeiras, causavam verdadeiro alvoroço a bordo das embarcações.
Lembremos que predominavam homens nos navios, instigando caçadas por grupos de marinheiros mal intencionados.
Os marujos ficavam dias a espreita, esperando a oportunidade ideal, terminando por, freqüentemente, transformarem as órfãs em vitimas de estupros coletivos que garantiam a impunidade aos agressores.
Dificilmente as vítimas iam se queixar pelo medo de sofrerem retaliações.


Concluindo.
Em uma época em que meninas de quinze anos eram consideradas aptas para casar e meninos de nove anos plenamente capacitados para o trabalho pesado, o cotidiano infantil a bordo das embarcações portuguesas era extremamente penoso para os pequeninos.
Os meninos não eram ainda homens, mas eram tratados como se fossem e, ao mesmo tempo, considerados como pouco mais que animais cuja mão de obra deveria ser explorada enquanto durasse sua vida útil.
As meninas de doze a dezesseis anos não eram ainda mulheres, mas em idade considerado casadoura pela Igreja católica, eram caçadas e cobiçadas como se o fossem.
Em meio ao mundo adulto, o universo infantil não tinha espaço: as crianças eram obrigadas a se adaptar ou perecer.
Enquanto, por um lado, foram poucas as crianças embarcadas nas naus quinhentistas rumo ao Brasil, por outro, a mão de obra infantil, na falta de adultos, tornou-se indispensável à epopéia marítima.
Neste sentido, grumetes e pajens eram considerados crianças ou eram vistos como adultos em corpos infantis?
Ao que parece, embarcavam em Lisboa crianças, que ao longo de sua primeira viagem, antes de chegar ao Brasil, tornavam-se adultos calejados pela dor e pelo sofrimento.
Não obstante, poucas crianças, quer embarcadas como tripulantes ou passageiros, conseguiam resistir à insalubridade das embarcações portuguesas.
A inanição e doenças dizimavam a população infantil e um número ainda menor sobrevivia em caso de naufrágio.
O número de pequenos que chegavam vivos ao Brasil ou mesmo a Índia era menor ainda, e, com certeza, nenhum conseguia chegar ileso ao seu destino.
O menor mal que podia atingir o miúdo, após viver alguns meses no mar, quando tinha sorte, era o de sofrer um grande trauma e deixar de ser criança.
Ver seu universo de sonhos, esperanças e fantasias desmoronar diante da cruel realidade do cotidiano das naus do século XVI, perder sua inocência para nunca mais recuperá-la.
Os grumetes e pajens, órfãos ou não, juntamente com os degredados, vagabundos e desocupados, excluídos das rotas mais lucrativas e de uma participação ativa nos proveitos obtidos com o comércio da pimenta, constituíram o grosso da mão de obra empregada na rota do Brasil quinhentista.
A atenção dos adultos voluntários estava então voltada para a Carreira da Índia.
No entanto, a partir do inicio do século XVII, esta situação começaria a se inverter, e, depois da criação da Carreira do Brasil, na metade de seiscentos, mudaria quase completamente.
Embora crianças, bandidos e vadios tenham continuado a ser empregados na nova rota em número reduzido, a Carreira da Índia passou a ser então o principal destino dos excluídos, mas esta já é outra história.


Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e Obstáculos enfrentados pelas Armadas da Índia Portuguesa: 1497-1653. São Paulo: Humanitas, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2004.
RAMOS, Fábio Pestana. Por Mares Nunca Dantes Navegados. São Paulo: Contexto, 2008.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.