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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Os estudos de Bourdieu, Passeron, Bowles e Gintis.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 16/05, 2011, p.01-06.





Pertencentes ao conjunto teórico neomarxista, que une pressupostos marxistas com outros referenciais, Bourdieu, Passeron, Bowles e Gintis realizam grande contribuição para a sociologia da educação.

Bourdieu e Passeron concentraram sua atenção sobre a mesma questão trabalhada por Althusser: o entendimento da reprodução da estrutura social e do sistema de poder no âmbito capitalista.

Bowles e Gintis adotaram outro caminho, utilizando amplamente métodos quantitativos para entender as relações entre trabalho, educação e o desenvolvimento do Q.I.





Bourdieu e Passeron.

Pierre Bourdieu (1930-2002), filósofo francês de origem camponesa, foi professor universitário no “Collége de France”, tradicional e conceituada universidade localizada em Paris.

Atuou nas mais renomadas universidades do mundo, como Harvard, Chicago e Frankfurt.

É autor de mais de trezentos trabalhos abordando o tema reprodução do sistema capitalista.

Jean-Claude Passeron, também francês, foi professor de sociologia na “Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais”.

É considerado um discípulo de Bourdieu, com quem escreveu “Os herdeiros” (1964) e “A reprodução” (1974).

Os autores são considerados neomarxistas, mesclando o marxismo com o estruturalismo construtivista, uma tendência que considera o mundo social dirigido pelas estruturas objetivas, coagindo a ação dos indivíduos.





Violência Simbólica e Capital Cultural.

Para Bourdieu e Passeron, a escola seria a principal estrutura objetiva que molda mentalidades e comportamentos.

Neste sentido, o ensino superior transmitiria privilégios, alocando respeito pelo status conferido, hierarquizando relações sociais.

Ao invés da escola representar a possibilidade da passagem da heteronomia para a autonomia, efetivamente faria justamente o contrário, manipulando o educando e ocultando uma violência simbólica.

A violência estaria no fato da escola se revestir de uma aparência de neutralidade, quando na realidade condiciona o educando de acordo com os interesses das elites que controlam o sistema educacional.

Esta violência seria simbólica devido ao seu caráter não material, circunscrito a esfera mental.

Dentro deste contexto, insere-se o capital cultural, a competência cultural e lingüística herdada, sobretudo, da família, facilitador do bom desempenho escolar.

Usando uma linguagem e cultura pertencente à elite, o padrão culto, a escola cometeria uma violência simbólica ao impor, ao conjunto da sociedade, valores que pertencem a um único grupo, impedindo o acesso daqueles que não possuem o necessário capital cultural.

Ao invés da escola democratizar, seria sua função reproduzir hábitos de classe, a maneira de se comportar e pensar de um grupo social, representado pelo capital cultural.

Portanto, dentro desta visão, a escolarização condena aqueles que carecem de capital cultural ao fracasso social.

Embora possa não existir sincronia entre o mercado de trabalho e o processo educacional, o capital cultural é semelhante a uma moeda de troca, por meio do qual o individuo seu sucesso ou fracasso escolar.

Assim, o capital cultural funcionaria como uma moeda de troca para que as pessoas comprem uma posição na estrutura social.

A sociedade seria hierarquizada conforme o sucesso ou fracasso escolar, determinado pelo capital cultural.

Estudando a sociedade francesa depois da 2º. Guerra Mundial, Bourdieu e Passeron chegaram à conclusão de que adquirir capital cultural tornou-se importante para a classe média.

O capital cultural foi convertido em meio de acesso a boas posições sociais, fato que explica os investimentos da categoria em educação.

Ao mesmo tempo, para fazer frente aos investimentos em capital cultural pela classe média, a elite também investe em educação para manter seu status, já que o nível de escolaridade também confere status.





A crítica as idéias de Bourdieu e Passeron.

Apesar da importância das idéias de Bourdieu e Passeron, eles sofreram pesadas críticas, acusados de funcionalistas e weberianos.

O motivo foi a não aceitação dos marxistas do viés estruturalista da sociedade aplicado ao entendimento do processo de escolarização.

Alguns autores marxistas, tal como Laval e Swartz, criticaram as teorias de Bourdieu e Passeron, afirmando que ignoram o poder da ideologia proletária.

Alem disto, a questão do capital cultural foi vista pelos críticos como muito especifica e contextualizada, já que Bourdieu e Passeron usaram a França após a 2º. Guerra Mundial como amostragem, não permitindo a generalização da teoria.

Entretanto, as teorias da violência simbólica e do capital cultural tem se mostrado aplicáveis em diferentes situações ao longo das décadas.

No caso do Brasil mostraram-se perfeitamente aplicáveis, permitindo entender a realidade educacional.

O que conduz a uma questão, pensada pelos autores: por que os professores não rompem com o sistema?

Pensando nisto, Bourdieu e Passeron chegaram a fazer um apelo para que os professores, ao entenderem os mecanismos de reprodução do sistema capitalista, adotem uma ação pedagógica que fuja da política, quebrando com o reprodutivismo.





Bowles e Gintis e o uso dos métodos quantitativos.

Representantes contemporâneos do neomarxismo, os norte-americanos Bowles e Gintis iniciaram, na década de 1970, a discussão em torno da correspondência entre hierarquia no trabalho e sistemas de relações sociais na educação.

Esta discussão levou a um debate em volta do Q.I. e de sua relação com o sucesso econômico e social dos indivíduos.

Uma reflexão que foi alvo de inúmeras críticas.

Samuel Bowles é economista, com formação em matemática, filho de um rico publicitário norte-americano, que foi embaixador na União Soviética, onde o autor estabeleceu seu primeiro contato com o marxismo.

Herbert Gintis também é economista, mas de origem mais humilde, seus pais pertenciam à classe média norte americana.

Ele esteve envolvido com o movimento hipp na década de 1970 e estabeleceu uma estreita parceria com Bowles.

Ainda vivos, Bowles e Gintis mesclam o marxismo com o estruturalismo e o método quantitativo.

Fazem amplo uso da estatística, levantando e tabulando dados para comprovar suas teses, embora sejam acusados de funcionalistas.

A principal preocupação dos autores está centrada na correspondência entre as relações sociais de produção com a educação.

Tentam entender até ponto as desigualdades econômicas distorcem o desenvolvimento pessoal, discussão iniciada na obra “Escola na América Capitalista” (1977).





As idéias de Bowles e Gintis.

O interesse de Bowles e Gintis pelo papel da escola no sucesso profissional e social dos indivíduos nasceu a partir da guerra do Vietnã.

Quando a imensa maioria dos alistados pertencia à etnia negra e latina, fato que conduziu os autores a investigar a realidade das escolas de periferia nos Estados Unidos da América, de onde os alistados eram egressos.

Estudando este conceito, Bowles e Gintis chegaram à conclusão que o sistema capitalista conduziu a hierarquização social.

Valendo-se do processo de escolarização para alienar e produzir pessoas passivas, criando personalidades adequadas às necessidades do mundo do trabalho.

A escola ensina pontualidade e organização, características necessárias ao funcionamento das estruturas capitalistas, servindo ao reprodutivismo do sistema.

Pensando no fato da sociedade ser estratificada, os autores concluíram que a escola termina criando padrões diferenciados de socialização para preencher colocações sociais.

Existiriam varias escolas, com padrões diferenciados de ensino, cada qual destinada a formar um tipo de mão de obra diferente.

As pessoas seriam educadas de acordo com funções e papeis sociais que vedem ocupar depois de formados, compondo a chamada sociedade da meritocracia.

O sistema capitalista se encarregaria de convencer os educandos que a escola seleciona para o mundo do trabalho, adotando como critério o mérito individual.

Na realidade um falso critério utilizado para alienar.

Os autores defenderam a idéia de que o mérito possui critérios falsamente objetivos, como Q.I. e notas, servindo apenas a legitimação da ordem, pois na realidade o principal fator que conduz ao sucesso profissional é a classe social.

Bowles e Gintis não encontraram correspondência entre Q.I. e notas, comprovando isto estatisticamente.

Por outro lado, provaram que também não existe relação entre Q.I e notas com o sucesso profissional.

Demonstraram que existia grande numero de indivíduos com alto Q.I. e bom desempenho escolar que tinham fracassado profissionalmente.

Inversamente, os indivíduos bem sucedidos economicamente e socialmente não possuíam, necessariamente, um alto Q.I. ou tinham sido bons alunos na escola.

 Esta visão conduziu a chamada teoria da correspondência, segundo a qual alguns grupos são preparados para comandar a superestrutura, enquanto outras categorias sociais devem permanecer na infraestrutura.

A escola seria o grande filtro, socializando os indivíduos de modo diferenciado.

Em uma mesma sala de aula, o tratamento diferenciada do professor produz a elite e o proletariado.

O professor, sem perceber, sendo também produto do sistema, estratifica a sala de aula e, com isto, contribui para reproduzir a ordem capitalista.

Em 2002, pensando no caso brasileiro da eleição do presidente Lula, de origem humilde, Bowles e Gintis reformularam suas teorias.

Foram obrigados a admitir que a classe social não é o único fator que garante o sucesso social, uma fez que, para além da herança cultural, os traços individuais da personalidade também exerceriam forte influencia no lugar a ser ocupado pelo individuo na sociedade.

Sendo assim, vários fatores exerceriam influencia no sucesso social e econômico, pois a formação da personalidade está relacionada com as relações sociais do individuo com pessoas de gerações anteriores, incluindo as relações estabelecidas entre professores e alunos.

Em outras palavras, com quem o individuo se relaciona, a sua rede de contatos, influencia no sucesso ou fracasso profissional.





As critica as idéias de Bowles e Gintis.

Antes da reformulação teórica de 2002, Bowles e Gintis receberam algumas criticas.

Os sociólogos norte-americanos Karabel e Halsey, na obra “Poder e ideologia na educação” (1978), chamaram a atenção para o fato da sociedade pós-fordista ser mais complexa do que enxergaram Bowles e Gintis.

Karabel e Halsey acusaram os colegas de terem realizado um trabalho distorcido pelo marxismo, pois as raízes da desigualdade estariam além do capitalismo, tal como demonstrado no caso da URSS.

Em “Teoria social e educação” (1995), Murrow e Torres foram ainda mais longe, acusando Bowles e Gintis de defenderem uma visão determinista, deixando de lado as lições aprendidas com o colapso da URSS.

O qual demonstrou como as personalidades individuais podem ser influenciadas pelas necessidades coletivas.

As pessoas não seriam reflexo da classe social da qual são originarias, mas sim das necessidades coletivas da sociedade.

Todos seriamos aquilo que a sociedade faz de nós, conforme a necessidade que a sociedade tem para funcionar, independente do sistema capitalista.





Concluindo.

Bourdieu e Passeron demonstraram como a escola é um elemento que comete diariamente uma violência simbólica, enquanto o capital cultural garante um desempenho educacional melhor.

Unindo as teorias de Bowles e Gintis com as criticas as suas concepções, podemos perceber que a escola é um espaço de contradições.

O sistema educacional reproduz as desigualdades, mas é também um elemento que ajuda construir uma sociedade mais justa.





Para saber mais sobre o assunto.

COSTA, Maria Cristina. Sociologia: introdução a ciência da educação. São Paulo: Moderna, 2004.

GOMES, Candido Alberto. A educação em perspectiva. São Paulo: EPU, 1994.

KRUPPA, Sonia. Sociologia da educação. São Paulo: Cortez, 2002.

MARTINS, Calos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 2004.

MEKSENAS, Paulo. Sociologia da educação: introdução ao estudo da escola no processo de transformação social. São Paulo: Loyola, 2005.

NÓVOA, Antônio. Relação escola e sociedade; novas propostas para um velho problema. São Paulo: Cadernos de Formação, 1994.

TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia da educação. São Paulo: Atual, 1997.





Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

Doutor em História Social pela FFLCH/USP.

Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.

sábado, 14 de maio de 2011

A teoria técnico-funcional da educação e os estudos de Althusser.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 14/05, 2011, p.01-05.



Quando pensamos a educação pelo prisma da sociologia, duas tendências de analise fornecem importante contribuição: a teoria técnico-funcional e os estudos de Althusser.
São visões distintas que se complementam, pois enquanto uma se encaixa no paradigma do consenso, a outra está vinculada ao paradigma do conflito e a tendência marxista.
A teoria técnico-funcional da educação é um desdobramento da teoria funcional de Durkheim, estando dentro, portanto, do paradigma do consenso.
Já os estudos de Althusser pertencem a um conjunto teórico conhecido como neomarxismo, ambientado pelo paradigma do conflito.
Ambos estabelecem criticas ao sistema educacional formalizado, explicando muitos dos problemas registrados nas escolas.



A teoria técnico-funcional.
O conjunto teórico técnico-funcional poderia ser definido como uma tendência que enxerga no desenvolvimento técnico um fator que altera a organização social, remetendo ao conceito funcionalista de sociedade funcionando como organismo vivo.
Portanto, a sociedade seria semelhante a um organismo vivo, com papéis sociais bem definidos e necessários para o bom funcionamento da coletividade, porém, as estruturas sociais seriam definidas pelos avanças técnicos subordinados a educação.
A título de exemplo, grosso modo, uma função social relacionada a uma profissão, como operador de maquinas, poderia ser eliminada por uma maquina automática que não necessitasse de ninguém para operá-la.

Porém, neste caso, poderia criar outra função associada àquele que faria a manutenção da dita maquina ou que detém o conhecimento para produzi-la.

No âmbito da teoria técnico-funcional da educação, do funcionalismo e do paradigma do consenso, Clark (1962) e Kerr (1960) chegaram à conclusão que a importância da educação cresce na mesma medida que o conhecimento se expande e fica mais complexo.
A evolução tecnológica modifica o mercado de trabalho, exigindo da mão de obra maior qualificação educacional.
Para eles, a industrialização constrói sociedades democráticas e abertas, reguladas pela educação, meio efetivo de seleção e mobilidade social, baseado no mérito e status.
Segundo Collins (1971), as mudanças tecnológicas exigem mais habilidades para o trabalho, gerando maior demanda por educação, construindo sociedades baseadas no mérito.
Entretanto, ele salientou que a educação não aumenta necessariamente a produtividade no mundo do trabalho, nem garante a competência.
Outros fatores interferem no sucesso profissional, tal como o grupo étnico, o status socioeconômico, a influência da família ou a atitude.
Neste sentido, segundo Collins, a educação termina funcionando como critério de seleção, mas não fornece apoio real ao sucesso individual baseado no mérito.
Em outras palavras, o individuo precisa atingir determinado nível educacional para ingressar no mercado de trabalho, mas o fato de possuir o diploma ou mesmo o conhecimento não garante seu sucesso profissional.
Contrariando de certa forma a opinião de Collins, Blau e Duncan (1967), consideram o sucesso como sendo fortemente influenciado pelas origens familiares.
No entanto, este fator não seria inteiramente responsável pelo sucesso profissional, pois dependeria, além da educação ligada ao âmbito escolar e familiar, também da experiência.
Um indivíduo sem acesso a educação escolarizada, oriundo de uma família humilde, buscando se aprimorar empiricamente, poderia atingir um alto grau de sucesso no mundo do trabalho.
É o caso de autodidatas como o empresário Silvio Santos ou o ex-vice-presidente da República José de Alencar.
Porém, estudando as origens familiares de profissionais bem sucedidos, Karabel e Halsey (1978) não encontraram correlação entre sucesso e influencia da família, estabelecendo uma critica as afirmações de Collins, Blau e Duncan.
Para Karabel e Halsey, a partir de um estudo tendo como objeto soldados enviados a guerra do Vietnã, a escola seria essencial para conferir mérito profissional, tornando os indivíduos com maior grau de escolarização, melhor vistos pela sociedade e predispostos a serem reconhecidos como bem sucedidos na vida.
Hurn (1978) reexaminou a questão e chegou a uma conclusão diferente.
Para ele, apesar da origem familiar não garantir o sucesso, a escola também não garante mobilidade social, já que reproduz o nível de status do qual o individuo é originário.
Quando um indivíduo tem acesso a determinados níveis educacionais, ele só o tem graças a sua origem social.
Por outro lado, Folger e Nam (1964), comprovaram que, embora a escolaridade não garanta o sucesso profissional, garante maiores salários, comparativamente quando existe ausência de escolarização.




Os estudos de Althusser.
Louis Althusser (1918-1990), filosofo francês, uniu o marxismo com o estruturalismo, chegando a ser considerado um dos maiores representantes desta ultima tendência ao lado de Foucault e Lacan.
O autor pertence ao conjunto teórico conhecido como neomarximo, fazendo uso da dialética e do materialismo histórico, juntamente com outras bases teóricas.

Acabando por constituir um ecletismo que, muitas vezes, ao invés de rejeitar o capitalismo, parece querer aprimorá-lo.

Em todo caso, Althusser foi membro do Partido Comunista francês, filiado em 1948, além de professor da École Normale Supérieure.
Em 1980, ele teve um surto psicótico e estrangulou a esposa, não sendo condenado pelo assassinato.
A justiça o considerou inimputável, não responsável pelo ato em virtude do surto.
Apesar de passar a não ser bem visto pelos colegas acadêmicos, cinco anos depois escreveu a obra“L´avenir dure longtemps”, onde refletiu sobre o fato e procurou justificar o ato.
Como Althusser faz largo uso do estruturalismo, antes de prosseguir é interessante explicar a tendência.
O termo estruturalismo surgiu no curso de lingüística geral, ministrado pelo francês Ferdinand Saussure, em 1916.
Conceitualmente pode ser definido como um método de estudos que propõem analisar sistemas, portanto, estruturas, como base da língua e da cultura.
A cultura e a língua seriam definidas segundo um conjunto de significados contextualizados em um espaço e tempo, influenciando a estrutura sócio-cultural e padronizando comportamentos.
Dentro deste contexto, a preocupação central de Althusser é tentar entender a estrutura do sistema capitalista.
Mais especificamente, tenta entender como as condições de produção, no âmbito capitalista, conseguem se reproduzir, já que o sistema seria injusto e prejudicial à maioria.
Pensando na questão, o autor chegou à conclusão que a dinâmica de trabalho, assegurada pelo salário, seria o principal fator a reproduzir o sistema, comprando a lealdade do individuo para com a ideologia capitalista.
Para sobreviver, o individuo precisa de capital, sendo necessário abrir mão de suas convicções pessoais para conseguir seu salário, essencial a sobrevivência no mundo capitalista.




Superestrutura, Infraestrutura e Aparelhos de Estado.
Para garantir a subordinação do individuo ao sistema capitalista, segundo Althusser, existiria uma relação recíproca entre superestrutura e infraestrutura.
A superestrutura constitui o conjunto de estruturas ou instituições e sua inter-relação e dependência.
Onde, por exemplo, o judiciário depende da polícia e ambos do sistema carcerário para efetivar suas funções.
A infraestrutura compõe as condições materiais, as instituições em si, que garantem o funcionamento da sociedade.

O Estado, como parte da superestrutura faria uso de infraestruturas especificas para exercer controle sobre a massa, usando os seguintes elementos:

1. Aparelhos de Estado, composto pelo gerenciamento dos demais parelhos, tal como governo, administração publica, etc.
2. Aparelhos Ideológicos de Estado, os meios que são usados para exercer controle ideológico, vender ou impor idéias, através de instituições como igreja, escolas, sindicatos, meios de comunicação e até livros didáticos; mascarando a realidade e impondo a vontade das elites.
3. Aparelhos Repressivos de Estado, instituições que exercem domínio por meio da violência, tal como policia, tribunais, prisões, forças armadas; segregando aqueles que não aceitam as idéias impostas pelas elites.

Pensando nestes três elementos, Althusser defendeu a tese de que o mais eficiente e utilizado pelas elites dominantes é o conjunto de Aparelhos Ideológicos, do qual a escola faz parte.
Embora no período pré-capitalista a igreja tenha sido de fundamental importância para exercer controle sobre a massa, a evolução do capitalismo tornou a escola um instrumento de reprodução do sistema.
A função da escola seria assegurar à existência e sobrevivência do capitalismo, condicionando os indivíduos a submissão, beneficiando uma minoria.
Daí o sistema ter criado mecanismo que exigem a escolarização e que torna a educação formalizada obrigatória.
O controle dos Aparelhos de Estado pela elite termina garantindo que o grupo controle também os Aparelhos Ideológicos e Repressivos, criando uma harmonia entre ambos.
Diante deste cenário, Althusser não conseguiu enxergar na escola uma via de modificação das infraestruturas e da superestrutura.
Chegou até mesmo a negar a possibilidade de mudança, sem, entretanto, apontar uma saída para o problema.
Um ponto de seu trabalho visto pelos críticos como uma grande debilidade.
Além disto, apesar de sua postura anticapitalista, sendo Althusser considerado por alguns como um marxista e não um neomarxista, devido a sua vinculação com o estruturalismo, ele foi acusado de idealista.
Outro marxista, Caio Prado Jr., por exemplo, afirmou que Althusser ficava apenas teorizando de forma subjetiva, que suas teorias só eram aplicáveis no mundo das idéias e não serviam para nada.
Destarte, hoje, as idéias de Althusser são essenciais para entender a escola, servindo de suporte a inúmeras outras teorias.




Concluindo.
Enquanto a teoria técnico-funcional da educação discutiu o mérito da escola no sucesso dos indivíduos dentro do sistema capitalista.
Althusser tentou desmontar a estrutura do sistema capitalista, demonstrando como a educação está a serviço da reprodução social, mantendo a ordem estabelecida.
Contrapondo as duas tendências, podemos observar que nem sempre a escola garante possibilidades de mobilidade social, já que toda sua estrutura é pensada para ordenar a sociedade.
Porém, a questão é mais complexa, o que fez outros autores a retomarem a discussão, tal como Bourdieu, Passeron, Bowles e Gintis.
Uma coisa é certa, o acesso a educação formalizada de fato não garante o sucesso individual em uma sociedade consumista, sendo a própria escola um produto a ser consumido.
No entanto, sem acesso a educação de qualidade, as pessoas têm sua potencialidade de desenvolvimento diminuída.
Ruim com a escola, pior ainda sem ela.




Para saber mais sobre o assunto.
COSTA, Maria Cristina. Sociologia: introdução a ciência da educação. São Paulo: Moderna, 2004.
GOMES, Candido Alberto. A educação em perspectiva. São Paulo: EPU, 1994.
KRUPPA, Sonia. Sociologia da educação. São Paulo: Cortez, 2002.
MARTINS, Calos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 2004.
MEKSENAS, Paulo. Sociologia da educação: introdução ao estudo da escola no processo de transformação social. São Paulo: Loyola, 2005.
NÓVOA, Antônio. Relação escola e sociedade; novas propostas para um velho problema. São Paulo: Cadernos de Formação, 1994.
TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia da educação. São Paulo: Atual, 1997.




Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Uma reflexão sobre o dia das mães: o simbolismo do aleitamento materno.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 11/05, 2011, p.01-03.




Dia das mães? Não seria melhor, um dia do amor materno?

Dia que nos tirasse das práticas consumistas e que nos fizesse refletir sobre o que seja ser mãe nos dias de hoje?

Comecemos, pois, pela imagem inicial: o filho que se alimenta e a mãe que o come de beijos, em um círculo fechado e fundamental. 

Fundamental, pois esse gesto de amor básico irá condicionar a relação da criança, futuro adulto, com a vida.

A primeira aventura amorosa com a mãe que, simultaneamente, dá leite e mel, ajuda a crescer e repara, ou melhor, preenche todas as carências.

Seio e beijos são uma espécie de sinal verde para a vida.




O leite materno.

No passado, acreditava-se que o leite era sangue embranquecido.

A lactação era o mecanismo que permitia a transformação do sangue que se encontrava no útero, durante a gravidez, em leite que fluísse para os seios.

Da Vinci tem uma gravura que ilustra tal concepção: mostra as veias saindo da parte superior do útero, levando aos seios o sangue catamenial.

Daí a acepção “mãe de leite”.

As mães tinham, então, o domínio sobre o aleitamento e se tornavam nas suas comunidades figuras de grande força, associadas à alimentação e manutenção de pequenas vidas.

A importância do bom leite tinha também forte conotação como valor simbólico.

Aleitar trazia marcas culturais de segurança, de recompensa, de conservação da prole, presentes, aliás, nas representações sobre Nossa Senhora do Leite.

O seio gordo e cheio junto ao rosto do menino traduzindo o espelhamento simbólico do gesto de aleitar na imaginária do período.

A necessidade satisfeita, somada ao prazer dividido e à contemplação profunda entre mãe e filho configura, ontem e hoje, o quadro do aleitamento.




O debate em torno do aleitamento: criticas as amas de leite.

Ao amamentar, a mulher modela a criança à sua imagem e semelhança, e a intimidade nascida do aleitamento forja laços entre ela e seu rebento.

A importância da lactação fora percebida tanto por doutores quanto pela Igreja desde o século XVI.

Já se louvava na amamentação, o prazer de alimentar e acariciar a criança.

No século seguinte moveu-se um ataque cerrado às amas-de-leite por sua relação mercenária com o gesto duplo de alimentar-amar a criança.

Enquanto a amamentação passou a ser um meio de vida para mulheres pobres, mães revezavam-se em torno de fórmulas para conservar a beleza dos seios.

Desde o século XVIII, o aleitamento no seio da mãe é uma constante na literatura de pensadores, médicos e moralistas que combatem toda a forma de aleitamento artificial. 




Concluindo.

Uma existência pode ficar premida entre dois beijos e dois seios: aqueles que se deram e os que não se deram.

Gestos maternos de amamentar e beijar traduzem amor, mas, podem igualmente representar sofrimento.

Basta que sejam recusados.




Para saber mais sobre o assunto.

DEL PRIORE, Mary. A Família no Brasil Colonial. São Paulo: Editora Moderna, 1999.

DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo, Condição Feminina, Maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. UNESP: São Paulo, 2009.

DEL PRIORE, Mary. “A vida cotidiana no Rio de Janeiro” In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 436, 2007, p. 313-333.

DEL PRIORE, Mary. A História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999.

DEL PRIORE, Mary. “Crianças e adolescentes de ontem e de hoje “ In: Helena Bocayuva e Sílvia A. Nunes. (Org.). Juventude, subjetivações e violências. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009, p.11-24.

DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.

DEL PRIORE, Mary. L'Histoire de la vie privée dans le monde luso-americain: l'exercice d'une nouvelle approche? In : Cahiers de L'histoire Du Brésil, Sorbonne - Paris, 2000.




Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.

Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).

Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.

Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.

Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A diversidade filosófica e a busca da verdade: qual é o papel contemporâneo da filosofia afinal?

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 09/05, 2011, p.01-04.


Os filósofos costumam pensar em sua área como aquela em que se discutem problemas universais e eternos.
A filosofia vê a si mesma como tentativa de subscrever ou derrubar os conhecimentos elaborados pela ciência.
No entanto, o objetivo e os métodos da filosofia nem sempre tem a clareza unanimente reconhecida.
Neste sentido, o mérito contemporâneo da filosofia é chamar a atenção para refutações e discussões as mais diversas.
No entender de muitos, sua virtude está no fato de desempenhar um papel social, impedindo o homem de iludir a si próprio com a pretensão de obter verdades.
Será que a verdade existe?


Filosofia e Ciência.
A filosofia é hoje uma espécie de debate adjacente e implícito sobre as condições das diversas discussões presentes nas ciências.
Devemos sempre lembrar que, ao longo da história da construção do conhecimento humano, nunca existiu distinção entre filosofia e ciência.
Esta só apareceu depois de Kant, no século XVIII, quando a filosofia passou a ser considerada como área básica ou fundacional, ou seja, ciência primeira, no sentido mais elevado.
Iniciou-se então o tempo de deter edificações de sistemas e dos historiadores da filosofia passarem a se dedicar ao paciente trabalho de seleção e analise do pensamento filosófico já estruturado.
Uma operação que fez o conceito de filosofo e de historiador da filosofia muitas vezes se confundir.
Destarte, os debates propriamente filosóficos não cessaram de renascer, pois novas discussões surgiram.
A filosofia contemporânea dividiu-se em várias correntes diferenciadas.
Nasceram assim, de um lado, a filosofia analítica de língua inglesa e, do outro, o pensamento alemão e francês, representando a Europa Continental.
A filosofia que sempre fora européia, tornou-se ainda mais eurocêntrica, fazendo tudo que não fosse produzido na Europa ser colocado de lado, inclusive a filosofia brasileira.


O papel da filosofia diante da construção da ciência.
Depois da tendência contemporânea da filosofia, com o pensamento inglês que evoluiu até o positivismo lógico.
Assim como, após, a filosofia de língua alemã e francesa, relacionada com Nietzsche, Heidegger e Freud.
O ponto comum entre as tendências, apesar das diferenças, passou a ser a preocupação comum com a crítica da linguagem.
Dentro deste contexto, a lógica passou a ter um papel decisivo.
O que é facilmente compreensível, uma vez que a filosofia se inseriu na discussão sobre as condições do debate cientifico, analisando as argumentações.
A crítica da linguagem, com efeito, abordou a utilização da construção objetiva do discurso como instrumento de conhecimento nas ciências, tentando definir suas possibilidades e limites.
O papel da filosofia passou a ser mostrar os erros e ilusões da pretensão cientifica de alcançar a verdade.
Mas qual é o papel da linguagem na descrição verdadeira do mundo?


Linguagem e Ciência.
Pensando na linguagem como articuladora de teorias cientificas, a filosofia encontrou duas alternativas.
A primeira hipótese parte da premissa que as verdades cientificas são apenas representações vinculadas a um sujeito formulador da teoria, portanto, fruto também da sociedade em que estaria inserido e de sua época.
O que forneceria uma verdade aceita em dado momento e espaço, embora particularizada, articulada por uma linguagem que convenceu.
Remetendo a uma gênese que construiu um objeto pelo ângulo psicológico e histórico.
A segunda hipótese afirma que uma teoria tem um valor objetivo independente da história e das representações daquele que capta a realidade e transforma em ciência.
Uma definição que escapa da jurisdição da psicologia para tornar-se objeto de uma lógica renovada, admitindo a possibilidade alcançar a verdade.
Entretanto, neste caso, a teoria também carece do uso da linguagem para ser expressa e toda linguagem está vinculada com tempo e espaço.
Portanto, a verdade, mesmo cientifica, não existe, o máximo que pode ser alcançado são verdades provisórias.


As pretensões da filosofia.
Apesar da filosofia criticar a pretensão da ciência alcançar a verdade, nem por isto deixa de também mostrar-se pretensiosa.
Para Richard Rorty, autor de “A filosofia e o espelho da natureza”, caso a filosofia persista na tentativa de harmonização entre descrição e justificação, pretendendo alcançar verdades dogmáticas através da construção de sistemas filosóficos, corre o risco de desaparecer.
Isto porque, quando busca conciliar moral com democracia, por exemplo, abordado a ética, acaba constituindo um novo quadro de verdades.
Segundo Rorty, almejar um fundamento único é abdicar a quaisquer redescrições posteriores, ignorando outras práticas existentes.
Em outras palavras, quanto mais cientifica tenta ser a filosofia, menos relacionada esta com o resto da cultura, tornando-se aparentemente mais absurda para o senso comum.
É por isto que, em sua opinião, a tradição fundacional da filosofia precisa ser abandonada, antes que a própria filosofia o seja.


Filosofia e Linguagem.
Ao afirmar que a ciência é apenas linguagem, a filosofia esquece que ela também é pura linguagem.
A filosofia tradicional busca, através de um fundamento único, a correta compreensão epistemológica da capacidade humana de representar, de modo exato, a natureza e a realidade.
Kant buscou um terreno como para servir de base para a remodelação da filosofia, mas este terreno não existe, pois só poderia ser definido como a linguagem.
No lugar do conhecimento único e seguro, sendo a filosofia linguagem, devemos procurar fatos dentro de um discurso, entre tantos outros possíveis.
O discurso deve ser encarado apenas como um encadeamento de palavras, estando estas ligadas umas as outras e não ao mundo.
Assim, a filosofia também não pode atingir a verdade.
Pensando assim, talvez devêssemos repensar, igualmente, o papel da filosofia na educação.


Filosofia e Educação.
A filosofia, não podendo atingir a verdade, poderia ajudar a repensar a educação, desde que tome consciência da subjetividade da área.
O espaço ocupado pela tradição humanista, com o ensino da história da filosofia, deveria ser ocupado por um sentido relativista.
O intuito da filosofia não deveria ser preencher mentes com conhecimento humanista, pois não existe uma verdade, mas sim edificar a construção do conhecimento.
Seu lema deveria ser modificar o homem por intermédio do debate, fomentando uma busca incessante de novos e melhores discursos.
Qual outra área melhor para ajudar na construção dos discursos do que a filosofia?
O verdadeiro discurso filosófico renuncia a qualquer representação, considerando que as palavras retiram seus significados de outras palavras.


Concluindo.
Não importa a posição que se adote, tampouco importa se a verdade é alcançável ou não.
O grande mérito da filosofia é questionar, derrubando a pretensão humana ao conhecimento pleno.
A diversidade filosófica deve ganhar uma nova dimensão e a verdade em si deve ser menos importante do que o processo de sua busca.
A principal tarefa da filosofia deve passar a ser garantir as condições de dialogo, tornando a discussão permanente e ininterrupta.
Abandonar a analise das funções do conhecimento, para abrir espaço à conversação, favorecerá o renascimento da filosofia.


Para saber mais sobre o assunto.
GELLNER, Ernest. “Sobre as opções de crença” In: Folha de São Paulo. São Paulo. 15 de maio de 1994.
HABERMAS. “A unidade da razão na multiplicidade das vozes” In: Pensadores Pós-Metafísicos. São Paulo: Tempo Brasileiro, s.d.
PRADO JR. Bento. “O relativismo como contraponto” In: Folha de São Paulo. São Paulo: 26 de julho de 1994.
PUTNAM, Hilary. Razão, verdade e história. Lisboa: Dom Quixote, s.d.
RORTY, Richard. A filosofia e o espelho da natureza. Lisboa: Dom Quixote, s.d.
RORTY, Richard. “Solidariedade ou objetividade?” In: Novos Estudos, no. 36. São Paulo: CEBRAP, 1993.
RORTY, Richard. “Visões do relativismo” In: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 26 de maio de 1994.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela USP.