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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

sábado, 7 de maio de 2011

O paradigma do consenso e do conflito.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 07/05, 2011, p.01-06.

As abordagens clássicas da sociologia conduziram a visões distintas da escola, constituindo o chamado paradigma do consenso e do conflito.

A noção de paradigma envolve um modelo que serve a construção da ciência.

Neste sentido, ambos os paradigmas balizam a concepção de teorias e tendências pedagógicas e representam pontos de referência e lógicas de pensamento.



O paradigma do Consenso.
Representado por Durkheim, Comte e Spencer, para o paradigma do consenso, os valores em comum e a cooperação entre professores e alunos é essencial para que a escola funcione.
A palavra chave é integração.

Dentro desta concepção, além de ensinar conteúdos, a escola deveria moralizar e, para tal, punir as infrações as normas.

Pressuposto que gerou o “mito do controle coercitivo”, apoiado nos estudos de Metz, levado a efeito em 1979.

Segundo o autor, à medida que as sanções coercitivas são usadas consciente e rapidamente contra os transgressores das normas estabelecida, a simples ameaça de coerção, por si só, seria suficiente para manter a ordem.

Ao inverso, a sensação de impunidade geraria desordem.

Seguindo esta tendência, Parson concebeu a sala de aula como uma agência de socialização, por meio da qual as personalidades individuais são preparadas para o desempenho de funções sociais.

Alcançar níveis educacionais elevados e receber boas notas conferiria status ao sujeito, expressando méritos individuais.

A despeito de outros autores defenderem a idéia de que é impossível para maioria das pessoas, por mais que se esforcem, atingir status no âmbito educacional, devido à estrutura montada para que os indivíduos fracassem.

A escola vista como possibilidade de progresso e mobilidade social é tributária de uma visão liberalista, formada a partir do século XVIII, onde todos podem adquiri um lugar ao sol, desde que busquem atingir metas para evoluir.

Destarte, é interessante frisar que o paradigma do consenso, em concordância com o positivismo, o funcionalismo e o darwinismo social; busca a conservação da sociedade, a reprodução das estruturas existentes.

Neste sentido serve a manutenção do sistema capitalista.

Reside ai o grande defeito da tendência, pois o paradigma do consenso não considera os conflitos no interior dos sistemas educacionais.

Sendo estes, em muitos casos, geradores de soluções e aprimoramentos ao invés de problemas.




O paradigma do Conflito.
Representado por Marx, o paradigma do conflito enxerga a escola como uma instituição que impõem valores e que, portanto, gera conflitos entre professores e alunos.

Os ditos professores seriam representantes da cultura dominante e os educando da cultura local, desmotivando a aprendizagem, já que usam linguagens e possuem valores diferentes.

Em geral, ao adotarem a cultura erudita como referência e o padrão culto, os professores representam a ordem estabelecida, enquanto os educandos utilizam a cultura popular mesclada com códigos de linguagem próprios de grupos menores, com valores particularizados.

Diante dos inevitáveis conflitos, a escola necessita exercer controle sobre os jovens para efetivar o processo cognitivo.

No entanto, a tentativa de controle cria um conflito ainda maior que ameaça a existência da escola como instituição, originando um círculo, pois a anômia força o acirramento do controle coercitivo para garantir a ordem, ao passo que este gera mais conflitos.

Pensando nesta questão, em 1970, Levy chegou à conclusão de que a escola educa para o fracasso e, portanto, para a aceitação deste fato.

O que gera conflitos a partir da não aceitação dos indivíduos que tentam contornar esta situação, tanto professores como alunos.

Levando o desentendimento a outro nível, pois passam a existir conflitos no interior das categorias, entre professores ou entre alunos.

Além de conflitos das categorias e subcategorias com o sistema educacional e a sociedade.

É neste sentido que Shipman, em 1979, lembrou que a escola é socialmente complexa, com alunos e professores compartilhando situações conflitivas comuns que terminam unindo ao invés de separar.

Como lembrou McPherson, em 1973, o professor molda seus alunos, mas também é moldado por eles.

O que tanto gera conflitos como consenso.

É por isto que podemos afirmar que o paradigma do conflito é útil para revelar as tensões e oposições dentro da escola, contudo, tende a enxergar conflitos onde não existem.




O Paradigma do Consenso no Brasil.
O paradigma do consenso influenciou fortemente a educação no Brasil, sobretudo a parir da década de 1930, representado pelas idéias de Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira.

A tendência começou a penetrar no Brasil graças à industrialização, iniciada em 1920, quando a necessidade de preparar o desenvolvimento do país levou um grupo de intelectuais brasileiros a se interessar pela educação.

Vista então como elemento central para remodelar a realidade.
Em 1932, durante o governo Vargas, um grupo de vinte e seis intelectuais se reuniram para redigir “O manifesto dos pioneiros da Educação Nova”.

O qual defendia a educação como função essencialmente pública, gratuita, obrigatória, laica e única.


Isto do jardim da infância a universidade, dos quatro aos dezoito anos de idade.

Junto com Cecília Meireles, Darcy Ribeiro e Florestan Fernandes, estiveram entre estes intelectuais Anísio Teixeira e Fernando de Azevedo, o último foi, inclusive, o redator do manifesto.

Apesar das boas intenções, a verdade é que o manifesto não fez mais que fomentar o tradicionalismo, ajudando a criar um ensino dualista: de um lado a educação publica e sem qualidade e de outro as escolas particulares cobrando pelo serviço prestado.



As idéias de Fernando de Azevedo.
Seguidor e principal representante de Durkheim no Brasil, o sociólogo funcionalista Fernando de Azevedo, autor de “Sociologia da Educação” (1951), enxergava a escola como uma miniatura da sociedade.

A complexidade da sociedade exigiria coesão sócia, imposta por valores transmitidos pela escola.
Neste sentido, à medida que o individuo percorre o sistema educativo da base ao topo, passaria da educação comum, de natureza coercitiva, para as experiências diversificadas, através da especialização, possibilitando a manutenção da ordem capitalista.

Assim, deveria ser função da escola estabelecer uma articulação com o meio social, coordenando, disciplinando e consolidando experiências fragmentárias colhidas no ambiente da criança, servindo como modelo para a sociedade.


No entanto, a escola teria um papel limitado diante do poder coercitivo de outra instituição, a família, responsável pela formação de grande parte dos padrões sociais.

Embora a escola tenha um papel limitado, um elemento pertencente a instituição seria de fundamental importância na formação de padrões sociais, justamente o educador.

Para Fernando de Azevedo, o educador por oficio seria um agente social, importante elemento dentro do organismo vivo e flexível que é a sociedade.

Ele deveria servir de exemplo e contribuir em sinergia de esforços, com várias instituições, como por exemplo a religião, para organizar a sociedade.




As idéias de Anísio Teixeira.
Jurista e pedagogo, Anísio Teixeira tinha idéias bem diferentes de Fernando de Azevedo.

Embora seja considerado um funcionalista e concordasse com as idéias dos pioneiros da Educação Nova, possuía objetivos distintos.

Ele defendia a reestruturação da educação para propagar e aperfeiçoar a democracia, propondo trabalhar conteúdos de forma a discutir benefícios para a coletividade.
Tentando colocar em prática suas idéias, ocupou o cargo de inspetor-geral do ensino na Bahia (1922-1924), o que hoje seria equivalente a secretario da educação.

Depois foi diretor de instrução pública no Rio de Janeiro (1931-1935).

Exatamente por suas idéias, o educador foi perseguido durante o governo Vargas e pela ditadura de 1964.


Ficou exilado nos Estados Unidos da America, onde lecionou em universidades.

Acabou falecendo em 1971, no Brasil, quando foi encontrado morto no poço de um elevador, em circunstancias estranhas e até hoje não esclarecidas.

Autor de “Educação no Brasil”, onde revelou que se considerava um seguidor de Durkheim, Anísio Teixeira também foi influenciado por Dewey.

Tal como o ultimo, considerava a educação uma constante reconstrução da experiência e as verdades apenas provisórias, inserindo-se na corrente pragmatista.

A partir desta concepção, Anísio Teixeira propôs o aprendizado pela ação, defendendo quatro premissas básicas:

1. Educar em vez de instruir.
2. Formar homens livres em vez de homens dóceis.
3. Preparar para o futuro incerto em vez de transmitir um passado claro.
4. Ensinar a viver com mais inteligência, tolerância e felicidade, desprezando a memorização e valorizando o senso crítico.

Pensando em aplicar suas idéias, facilitando o acesso a escola única e democrática, depois de viajar pela Europa e EUA, entre 1925 e 1929, observando vários sistemas educacionais, ele fundou a Escola Parque em Salvador, em 1950.

Esta, mais tarde, inspirou os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPS) no Rio de Janeiro.

A Escola Parque propunha educação gratuita em tempo integral, onde o educando deveria ser preparado para a cidadania, desde o cuidado com os conteúdos até higiene, saúde, lazer, etc.

Para Anísio Teixeira, além de integral, pública, laica e obrigatória; a educação deveria ser municipalizada para atender os interessados, articulando uma rede que precisaria se estender até a universidade.

O educador propôs a criação de fundos financeiros para custear uma educação publica de qualidade, inspirando o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF).

Porém, os recursos se mostraram insuficientes para colocar em prática a proposta, não conseguindo romper com o dualismo educacional que estava se formando.




Concluindo.
Quando discutimos o paradigma do consenso e do conflito como norteadores das ações educativas, existe uma tendência responsabilizar a escola pelos sucessos e os professores e alunos pelos fracassos.

Consenso ou conflito, caberia perguntar se um ou outro são gerados a partir da relação professor/aluno ou virtude da natureza do sistema educacional?

Ou ainda se os problemas recorrentes em sala de aula não tem origem fora dela, na família, política, cultura ou sociedade?

Embora devamos considerar a hipótese que as questões educacionais possuem, em muitos casos, reflexos gerados pela prática didático-pedagógica.




Para saber mais sobre o assunto.

"Anísio Teixeira: O defensor da escola pública na teoria e na prática" Revista Nova Escola, n. 178, dez. 2004, p.26-28.

AZEVEDO, Fernando. "A nova concepção do papel da escola na sociedade" In: Novos caminhos, novos fins. 3 ed. São Paulo: Melhoramentos, s/d. p. 109-111.

AZEVEDO, Fernando. Novos caminhos e novos fins. São Paulo: Melhoramentos, s/d.

CORTELLA, Mário Sérgio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. São Paulo: Cortez, 1998.

COSTA, Maria Cristina. Sociologia: introdução a ciência da educação. São Paulo: Moderna, 2004.

GOMES, Candido Alberto. A educação em perspectiva. São Paulo: EPU, 1994.

KRUPPA, Sonia. Sociologia da educação. São Paulo: Cortez, 2002.

MARTINS, Calos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 2004.

MEKSENAS, Paulo. Sociologia da educação: introdução ao estudo da escola no processo de transformação social. São Paulo: Loyola, 2005.

NÓVOA, Antônio. Relação escola e sociedade; novas propostas para um velho problema. São Paulo: Cadernos de Formação, 1994.
 
TEIXEIRA, Anísio. Educação não é privilégio. São Paulo: Editora Nacional, 1971. 
 
TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia da educação. São Paulo: Atual, 1997.



 
Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Família e Casamento.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 04/05, 2011, p.01-04.



Casamento, hoje?

“Até que a vida os separe”, responde o psicanalista.

As estatísticas não o deixam mentir.

Desde a década de 80, os números de casamentos vêm declinando e o de divórcios, aumentando.

Quem contabiliza é o IBGE. Golpes e mais golpes fustigam a família.

Será que desagregação familiar não passa também pela falência do casamento?




O conceito de família.

Como poderíamos definir a família hoje?

Menos sensível às sansões religiosas, menos atenta às tradições, ela já é chamada por cientistas sociais na Europa de “família pós-familial”.

Segundo estudiosos, a família só continua a existir na imaginação ou na memória.

A culpa?

É do casamento que não resistiu às mudanças.

A revolução tecnológica permitiu a emancipação econômica dos indivíduos desobrigando-os da vida familiar.

Até recentemente a família era uma proteção contra as ameaças do mundo, lá fora.

A Amélia - que se encarregava de lavar e passar para o marido - foi substituída pelo micro-ondas.

A pílula e a emancipação da mulher alteraram definitivamente as relações dentro da família.

Como se não bastasse, envolvimentos extraconjugais fascinam uns e outros, enquanto cresce na sociedade industrializada o número de pessoas que querem viver sozinhas.




O casamento hoje: falta conversa.

A auto-felicidade vem na frente dos cuidados entre os cônjuges e daqueles com os membros da família.

Hoje, sou “eu”,depois o “tu”, e bem mais longe, “eles”.

Enfim, a modernidade parece querer dispensar o casamento e a família de sua função histórica básica: garantir a nossa sobrevivência.

Se posso acrescentar uma modesta idéia à lista concebida por especialistas do mundo todo, diria que o casamento está morrendo porque as pessoas vêem televisão demais e conversam de menos.

Essa “arte de ser feliz junto” como já disse um filósofo sobre a conversação, vêm sendo ameaçada pelo lixo que a telinha joga para dentro de nossas casas à noite.

Todos sabemos que o prazer é coisa misteriosa e que, aquele que extraímos de uma boa conversa deve a bem pouca coisa: um clima de conivência, certa confissão inesperada, um sorriso velado entre uma e outra frase.

Parece pouco, mas é muito.

Que maravilha deixar-se levar pela vagabundagem da palavra, saindo de si e se aventurando na terra do outro, pondo um fim à discussão com um beijo.

E o que dizer da conversa que fica em segundo plano feita de tudo o que não ousamos dizer, de nossos medos, de nossas crenças e esperanças.




Concluindo.

Para restaurar o equilíbrio do casamento e da família, a conversação não deve ser só ócio e abandono, mas uma porta para a verdade, a felicidade, a amizade e a sociabilidade.

Um espaço de ironia e seriedade, riso e gravidade, cólera e medida.

Não aquilo em que se transformou: algo de útil e eficaz.

Uma boa conversa permite aproximação, incentiva compromisso, encontra um vocabulário comum.

Nela, haverá sempre um tempo para falar e outro para escutar.

Afinal, conversar é também saber calar.

Pois não se trata de ter a última palavra, mas de construir junto essa coisa preciosa e cada vez mais rara: o momento compartilhado.

“Enfim sós”?

Sim e, de preferência, para conversar...




Para saber mais sobre o assunto.

DEL PRIORE, Mary. A Família no Brasil Colonial. São Paulo: Editora Moderna, 1999.
DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo, Condição Feminina, Maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. UNESP: São Paulo, 2009.
DEL PRIORE, Mary. “A vida cotidiana no Rio de Janeiro” In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 436, 2007, p. 313-333.
DEL PRIORE, Mary. A História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999.
DEL PRIORE, Mary. “Crianças e adolescentes de ontem e de hoje “ In: Helena Bocayuva e Sílvia A. Nunes. (Org.). Juventude, subjetivações e violências. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009, p.11-24.
DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.
DEL PRIORE, Mary. L'Histoire de la vie privée dans le monde luso-americain: l'exercice d'une nouvelle approche? In : Cahiers de L'histoire Du Brésil, Sorbonne - Paris, 2000.




Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ditadura eis a questão?


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 03/05, 2011, p.01-05.



Frente aos eventos que vem ocorrendo no oriente, o conceito de ditadura ganhou destaque nestes últimos meses na mídia mundial.

Diante destes acontecimentos surgem muitas dúvidas ligadas ao conceito de ditadura.


Muitos dos que questionam os conflitos que ocorreram no Egito e na Líbia, nem sequer, tinham conhecimento que nestes países viviam em um regime ditatorial.


Assim, o professor que esta na sala de aula deve aproveitar o momento para melhor desenvolver o conceito de ditadura.

Para boa utilização dos conceitos, o professor tem de contextualizá-los junto com os alunos, tendo em vista que as concepções são construídas de forma pragmática e que assumem inúmeras variáveis ao longo da história.

Esta construção ocorre quanto o professor quebra os antigos paradigmas oriundos da escola moderna: onde a função da docência se resumia a transmissão e irradiação do conhecimento.

Para quebrar com estes paradigmas o professor deve perceber que a escola moderna encontra-se em um processo de reconstrução, rumo à escola contemporânea.

Para que esta escola contemporânea se torne realidade, o professor deve assumir o papel de produtor/mediador do conhecimento junto aos alunos.

O trabalho com os conceitos ganha valor pela instrumentalização dos educandos para a compreensão dos acontecimentos históricos.




O conceito de ditadura.

Em uma definição geral e ampla, a ditadura é todo o regime pelo qual ficam suprimidos os direitos democráticos, de um indivíduo, grupo, partido ou classe social.

Engessando o poder nas mãos de um único grupo.

Diferente de um regime democrático que se caracterizada pelo direito a participação ativa do povo no governo por meio do voto, que tem como seu principio básico a soberania do povo.





As formas de classificação.

As ditaduras se dividem em dois tipos: autoritárias e totalitárias.

As ditaduras totalitárias se caracterizam pelo repúdio à democracia formal, sua forma de imposição se dá pelo meio do discurso ideológico.

Este é divulgado pelos meios de comunicação em massa, sendo absorvido pela população que será a base para a construção de uma nova sociedade civil.

Forjada por esta ideologia, que está fora dos parâmetros da antiga e então vigente democracia formal.

Assim, os grupos políticos e socais que se mostram contra o regime são punidos.

Nesses casos se adotada um sistema político uni-partidário, não sendo nenhum outro grupo político reconhecido.

Nos regimes totalitários, o ditador é a personificação deste novo estado, sendo sua representação máxima.

As ditaduras autoritárias são regimes políticos ditatoriais onde os direitos individuais ficam à mercê de um confuso sistema de segurança nacional.

Nestes casos, o sistema político e formado por mais de um partido político, mas estes não têm poder de interferência nas decisões tomadas pelo governante ou grupo no poder,

Os partidos fazem sua escolha feita por voto indireto.

Estes regimes vivem de aparências, tentando passar a população uma visão deturpada da sua verdadeira imagem opressora.

Quando este tipo de governo está no poder, busca eliminar todas as formas de oposição e movimentos sociais que possam ameaçar a ordem.

Estes governos são normalmente manipulados pelos interesses das classes mais altas, deixando de lado qualquer desejo das classes inferiores.

Para conter o desagrado destas categorias desvaforecidas, o governo ditatorial constrói um forte aparto repressor usando os aparelhos de Estado (polícia, exército e judiciário).

Neste tipo de regime ocorre um controle quase que absoluto dos meios de comunicação, fazendo assim a desinformação o único tipo de informação necessária ao povo.

Coerção faz os grupos militares acabarem adquirindo grande força, já que é a principal arma contra a mobilização popular.

A repressão é feita para que os interesses das classes dominantes (empresários, comerciantes, militares, políticos, etc.), sejam garantidos.

 As formas de governo ditatoriais são expressão máxima da impugnação do direito público democrático, totalmente contrárias ao Estado de direito.

Opondo-se a todo e qualquer Estado que busca garantir o respeito às liberdades civis e direitos humanos.

Cerceam  as liberdades fundamentais, como o direito de ir e vir, livre expressão, dentre outros.




Concluindo

O trabalho realizado pelo professor, com a utilização de conceitos, possibilita aos alunos a aquisição das “ferramentas” para uma melhor compreensão do mundo em que vivem.

Capacitando o educando para vida em sociedade, sendo um dos desafios a ser vencidos por quem ensina história.

Os rastros do passado servirão como fonte para os debates, mas, para que isso ocorra, o professor deve desprender-se da antiga percepção de que ele é o irradiador do conhecimento, assumindo uma posição de mediador.

Os usos dos conceitos introduzidos pelo professor serão a base auxiliar para que os alunos possam compreender os fenômenos históricos.

Para boa utilização dos conceitos, o professor tem de contextualizá-los junto com os alunos, tendo em vista que o saber será construído de forma pragmática, assumindo inúmeras variáveis ao longo da história.

A conscientização sobre o passado é uma tarefa contínua do historiador/professor, a responsabilidade de reescrever e revisitar o passado deve ser vista como uma atividade coletiva que não é privativa dos acadêmicos.





Para saber mais sobre o assunto.

BITTENCOURT, Circe Maria. Educação na América Latina. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura. 1998.

BOBBIO, Norberto (Org.). Dicionário de política. Brasília: UNB, 1998.

CARDOSO, C. F &VAINFAS, R. (Orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. São Paulo: EDUSP, 1996.

KARNAL, Leandro (org.). História na sala de aula. São Paulo: Contexto 2005.

RÜSEN, Jorn. História Viva Teoria III: formas de conhecimento histórico. Brasília: UNB, 2007.

SPINDEL, A. O que é ditadura. São Paulo: Brasiliense, 1985.



Texto: Cássio Michel dos Santos Camargo.
Licenciado pelo Instituto Metodista IPA do Sul, Pós-graduando em História e Geografia Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Educação, Escola, Família e Sociedade.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mai., Série 02/05, 2011, p.01-07.


Contemporaneamente, as questões em torno da função da educação remetem ao estudo da família, pois, cada vez mais, o senso comum atribui à escola a tarefa de educar, delegando responsabilidades aos professores que antes eram dos pais.
Mas será que a escola realmente pode chamar para si a tarefa de educar?

Talvez seja necessário fazer a sociedade entender o que é família, assim como o que é educação, antes de discutir o assunto.

Em todas as sociedades humanas, tanto hoje como no passado, a família sempre foi a unidade central da organização social, oscilando em tipos e formas variadas, assumindo funções sociais essenciais para a existência da vida coletiva.
O ser humano, como animal fisicamente frágil, desenvolveu a união de forças para sobrepujar a natureza.
A cooperação foi essencial para a sobrevivência da espécie, transformando o homem em um ser social.
A interação social, a capacidade de relacionar-se com o outro, integrar-se ao grupo, nasceu junto com a humanização.
Devemos lembrar que quando nasce, por um longo período, a criança precisa ser alimentada e protegida por um adulto.
Mais tarde, quando cresce, o novo ser precisa perpetuar a espécie e reproduzir, novamente, dependendo da interação social.
Assim, ao contrário de outros animais, o homem não pode depender somente do instinto para sobreviver, necessita da razão e da interação social, o que conduz diretamente ao conceito de família.


O conceito de família.
Embora, em geral, a família tenha origem em um fenômeno biológico de conservação e reprodução da espécie, o conceito envolve questões vinculadas a aspectos sociais que interferiram diretamente na evolução humana.
A família sofreu consideráveis modificações ao longo da história, regulando as interações sociais e cunhando preceitos morais e éticos, fomentando leis e normas.
No entanto, o conceito de família, independente de suas variações, é basicamente o mesmo desde os primórdios da humanidade.
Segundo Murdack, família é “um grupo social caracterizado pela residência em comum, com cooperação econômica e reprodução”, um conceito bastante elástico.
Para Mair, família é “um grupo doméstico no qual os pais e filhos vivem juntos”, uma concepção mais restrita e hoje colocada de lado pela maioria dos antropólogos.
Para Beals e Hoijer, família é “um grupo social cujos membros estão unidos por laços de parentescos”.
Outro conceito aparentemente estreito, mas que, diante da elasticidade do estabelecimento de graus de parentescos artificiais, admitidos como possíveis pela antropologia, esta concepção torna-se ampla.
Em outras palavras, qualquer que seja a linha teórica, a verdade é que todos os conceitos se encaixam na seguinte definição de família:

Família é todo conjunto de pessoas unidas por interações sociais com certo grau de coesão entre seus membros, com graus de parentesco artificiais ou concretos, declarados ou ocultos, com ou sem ligação genética.

Hoje, apesar de no passado já terem sido registrados casos semelhantes ao longo da história da humanidade, a família pode tanto ser constituída por pais e filhos, como por um conjunto de amigos, onde cada membro assume uma função social perante os demais.


Tipos de família.
Dentro do âmbito da amplitude do conceito de família, para a antropologia existem algumas classificações tipológicas que visam ajudar o estudo.
Assim, pensando nas diferentes maneiras como se organizam ou estruturam os grupos, variáveis no tempo e espaço, a família pode ser classificada em cinco tipos:

1. Elementar.
Também chamada de nuclear, natal-conjugal, simples, imediata ou primaria; é aquela formada por pai e mãe, homem e mulher ou aqueles que assumem a vida conjugal monogâmica, podendo ser um casal de dois homens ou duas mulheres.
Fazem parte deste tipo de família, além do casal, também os filhos, quer sejam gerados biologicamente ou agregados ao grupo.
A despeito de, até pouco tempo atrás, só ser considerado como pertencente a este tipo de modelo a família patriarcal tradicional com laços sanguíneos.
Não obstante, a família elementar, do ponto de vista antropológico, é considerada efêmera, pois à medida que os filhos crescem, constituindo novas famílias, o grupo diminui e, eventualmente, tende a desaparecer com a morte dos pais.
Sobrevive, com raras exceções, não mais que duas ou três gerações.

2. Extensa.
Também chamada grande, é uma unidade formada por duas ou mais famílias de tipo elementar, com grau de parentescos mais complexos, envolvendo avós, tios, sobrinhos, primos, afilhados e até agregados.
No entanto, a unidade nuclear, com pai e mãe, ou aqueles que exercem a função, é bem definida e nítida, admitindo apenas relações monogâmicas entre cônjuges.

3. Composta.
Também chamada complexa ou conjunta, é uma unidade formada por três ou mais cônjuges e seus filhos, com estrutura poligâmica.
É um modelo oriental de família, existente desde os primórdios da humanidade e muito comum em sociedades matriarcais

4. Conjugada Fraterna.
Refere-se a uma unidade composta por membros que compartilham funções, não existindo a presença rígida de pai e mãe.
Ora um membro do grupo exerce o papel de pai, ora de irmão ou filho, tudo depende do contexto e do momento.
Um bom exemplo são as sociedade indígenas, onde a criança é de responsabilidade de toda a tribo, embora existam funções delimitadas por sexo e idade.
Nas sociedades modernas, diante da ausência do real ocupante da função exercendo a mesma, existe uma tendência a sempre alguém ocupar o lugar vago, mesmo que temporariamente.

5. Fantasma.
Consiste em uma unidade formada por apenas um elemento nuclear, pai ou mãe, e o chamado fantasma, além dos filhos.
Isto, mesmo no caso de pai ou mãe vivos, mas ausentes, pois quando a função não é desempenhada, pelo menos em um aspecto, o elemento torna-se um fantasma.


Funções da família.
Dentre as diversas funções da família, as quais tem variado através dos séculos, os estudiosos apontam quatro básicas e quatro subsidiárias.
As funções básicas, também chamadas de fundamentais, são encontradas em todos os grupos humanos, sendo elas:

1. Sexual.
Atende as necessidades sexuais permitidas por meio da institucionalização da união ou casamento.

2. Reprodução.
Visa perpetuar a espécie, mesmo em sociedades onde há liberdade sexual, a procriação é regulada com normas e sanções que legitimam a família.

3. Econômica.
Assegura o sustento e proteção do grupo, conduzindo a divisão de tarefas e a estratificação, com status diferenciados entre os membros.

4. Educacional.
O grupo, através da coesão, arca com a responsabilidade de transferir os conhecimentos acumulados pela humanidade de geração em geração, criando condições para que exista uma cooperação entre os membros.
O que torna, teoricamente, a vida em sociedade possível.

Portanto, as funções básicas da família podem ser desempenhada de várias maneiras, dentro dos mais diversos sistemas culturais, moldando as personalidades individuais.
Como agente educador, a família pode combinar duas funções especificas:

1. Socializadora.
Na medida em que transmite a herança cultural e social durante os primeiros anos de vida (linguagem, usos, costumes, valores e crenças), a família é peça essencial no processo de endoculturação, preparando a criança para o ingresso na sociedade.

2. Social.
Proporciona a conquista de diferentes status dentro da estratificação social, tal como o posicionamento étnico, nacional, religiosa, político, educacional e até de classe.

Além destas divisões, alguns autores classificam quatro funções subsidiárias, apesar de outros afirmarem que perderam sentido na sociedade moderna.
No entanto, cabe ressaltar que, diferente das funções básicas, as subsidiarias não existem em algumas sociedades.
Estas funções subsidiarias podem ser assim divididas:

1. Religiosa.
Une seus membros através de uma rede de direitos e proibições morais, estabelecendo laços afetivos e sentimentais.

2. Jurídica.
Impõem obrigações definidas entre os membros, mas também direitos.
O que garante a reprodução do sistema econômico e político vigente, assim como a manutenção do status individual.

3. Política.
Propicia proteção potencializando apoio emocional para a resolução de problemas e conflitos, podendo formar uma barreira defensiva contra agressões externas.
Neste sentido, reforça a saúde física e mental do individuo, constituindo um recurso para lidar com situações associadas à vida em comunidade.

4. Recreativa.
Constitui uma válvula de escape para as tensões fora do grupo, um elemento de fuga do stress.
Embora esta válvula de escape, desvinculada da função religiosa e associada a outros fatores, possa conduzir a violência domestica.


Casamento e família.
Freqüentemente associada ao casamento, para entender a família integralmente, é necessário discutir o união entre cônjuges.
Na sociedade, em geral, existem duas formas de relação, do ponto de vista antropológico, entre seres humanos: união e casamento.

Tradicionalmente, a união consiste no ajuntamento de indivíduos do sexo oposto sob influencia do impulso sexual.

Modernamente, a união também pode ser caracterizada pelo ajuntamento também entre indivíduos do mesmo sexo, contanto que exista influencia de impulso sexual.
De qualquer forma, a união não estabelece necessariamente direitos e obrigações e, do ponto de vista antropológico, não constitui obrigatoriamente uma família.
Para que isto aconteça é necessário o reconhecimento dos envolvidos e da sociedade.
Entretanto, a união pode conduzir ao matrimonio ou casamento, quer seja reconhecido ou não religiosamente ou pelo Estado.
O que caracteriza o casamento é, justamente, a união orientada para a constituição da família, implicando em costumes complexos e o estabelecimento de laços afetivos mais estreitos, quer dentro da monogamia ou da poligamia.
Assim, o casamento ou a união é a base para a construção da família e seu principal elemento agregador, podendo comportar múltiplas soluções e/ou problemas que afetam todos os seus membros.


Família e escola.
Existe, em quase todas as sociedades, uma tendência para que certos aspectos do adestramento das crianças sejam assumidos por agentes externos à família, tal como a escola.
O grande problema é que o saber escolar, muitas vezes, distancia-se da realidade, impedindo a assimilação democrática do conhecimento, excluindo e limitando o acesso ao saber.

A escola é uma instituição, como tal possui normas e padrões, impostos por aqueles que controlam o sistema educacional, dentro do âmbito do fordismo, acarretando em problemas como a questão da “violência simbólica”, discutida por Bourdieu e Passeron.
Portanto, embora a sociedade transfira, cada vez mais, responsabilidades da família para a escola, cabe lembrar que somente a primeira constitui um grupo primário.
A escola é um grupo secundário e nunca poderá substituir a família na educação das crianças.


Concluindo.
Seja qual for o problema, dentro da escola, a resolução não está apenas no tratamento do educando, mas sim na orientação familiar.
O vinculo dos sujeitos com a família é essencial para um desenvolvimento coerente.

O problema do individuo pode ser, na realidade, um problema de sua família, podendo, inclusive, agravar situações em um efeito em cascata transposto para a sociedade.

Por outro lado, trabalhar com a família, permite ao profissional da educação realizar verdadeiramente uma profilaxia, uma prevenção do agravamento de problemas já existentes.
Para solucionar as questões que diariamente se colocam aos educadores, dentro da escola, talvez devamos pensar em retomar alguns aspectos do ensino tradicional, só assim será possível auxiliar o educando na passagem da heteronomia para a autonomia.


Para saber mais sobre o assunto.
ABRAMOVAY, Miriam et ali. Violência nas escolas. Brasília: UNESCO, 2002.
ANDRADE, Marconi. Antropologia: uma introdução. São Paulo: Atlas, 2001.
BEYER, H. O fazer psicopedagógico: a abordagem a partir de Piaget e Vygotsky. Porto Alegre: Mediações, 1996.
CASTEL, Robert. “As armadilhas da exclusão”. In: Desigualdade e a questão social. São Paulo: EDUC, 1997.
FERNANDES, Alicia. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
GREEN, Bill & BIGUM, Chris. “Alienígenas na sala de aula” In: SILVA, Tomás Tadeu da. (org.) Alienígenas na sala de aula. Uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis: Vozes, 1995.
LINTON, Ralph. O homem: uma introdução à antropologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo.
Bacharel em Filosofia pela FFLCH/USP e Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Educação da USP, com MBA em Gestão de Pessoas pela UNIA.



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