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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A banalidade da preocupação estética contemporânea: reflexões contra a massificação da busca pela felicidade no corpo perfeito.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume abr., Série 13/04, 2011, p.01-07.


À velha questão filosófica “Quem sou? De onde venho? Para onde vou?”, alguém respondeu, “Sou fulano. Venho de casa. Vou para casa”.
Entre frívola e cruel, a ironia, dá no que pensar, não fosse seu sentido etimológico: - do grego eironeia - interrogação, questionamento sobre si mesmo, a vida, a sociedade e a ordem do mundo.
Penso na coisa quando leio os jornais.
Longe de qualquer interpretação metafísica, fico mesmo é com a sensação concreta de que estamos reduzidos a um movimento pendular, movimento que é defesa contra o sofrimento e saída frente ao espetáculo das ruas.
O mundo contemporâneo, no entanto, não pensa com esta profundidade, estamos mergulhados na frivolidade da estética.
Talvez, por isto, pensemos mais na beleza do que na feiúra, sem nos preocupar com o que de fato poderia conduzir a felicidade.


A feiúra está presente entre nós?
A feiúra é universal, onipresente.
Ninguém ousou escrever sua história, nem aquela da solidão e da dor que são suas conseqüências mais imediatas.
Há séculos, os feios servem de bode expiatório às sociedades muito seguras de suas verdades ou do discurso de suas elites, sempre dispostas a determinar o modelo ideal de “patricinhas & mauricinhos”, “peruas & marombeiros”.
Com a supremacia da imagem na vida do homem moderno, os anos 90 continuam a instaurar a tirania da perfeição física.
Hoje, todos querem ser sadios, magros, jovens.
Grassa uma verdadeira lipofobia.
Todos parecem querer participar da sinfonia do corpo magnífico quase que atualizando as intolerantes teses estéticas dos nazistas.
Na outra ponta, criaturas como madre Teresa de Calcutá conheciam de perto os horrores do sofrimento físico.
Em uma entrevista, ela dizia que o trágico da “feiúra” de um leproso, era a sua solidão, o fato de ser indesejável, não amado, rejeitado.
Que se podia fazer tudo por um corpo em sofrimento, mas nada por esse “outro” sofrimento feito de negação.
Anônimos, os que não são belos, simplesmente recusam seus corpos.
Tanto mais quanto vivemos hoje a supremacia da aparência.


A massificação da estética.
A fotografia, o filme, a televisão e o espelho das academias dão ao homem moderno o conhecimento objetivo de sua própria imagem.
Mas, também, a forma subjetiva que ele deve ter aos olhos de seus semelhantes.
Em uma sociedade de consumo, a estética aparece como motor do bom desenvolvimento da existência.
O hábito não faz o monge, mas quase...
A feiúra é vivida como um drama.
Daí a multiplicação de fábricas de “beleza” cujo pior fruto é a clínica de cirurgia plástica milagrosa.
Os pagamentos a perder de vista, com “pequenos juros de mercado”, parecem garantir, graças às próteses, a constituição de um novo corpo: formal, mecânico, teatral.
Corpo que é a efígie do desejo moderno, desejo derrisório de uma perpétua troca das peças que envelhecem: de nádegas às coxas e panturrilhas.
 Essa relação com o corpo implica em opiniões contraditórias.
Os adversários da cirurgia estética recusam-se em acordar ao corpo uma importância que valha a pena modificar.
O que conta é a alma ou o espírito.
O desejo de modificação torna-se para alguns até mesmo suspeito.
Os partidários, por sua vez, acreditam que a forma corporal é uma realidade cujo papel na vida cotidiana está longe de ser pequeno.
A cirurgia, aqui, é um elemento importante para o equilíbrio psicológico e seus desdobramentos: o casamento feliz, o sucesso profissional!
As pessoas pouco percebem que a chave de um bom relacionamento com a vida, passa por certa dose de inteligência, carinho e alegria.
Pelo menos é o que afirmam os especialistas!
O tal equilíbrio passa, também, por uma constatação à qual é dada pouca atenção: o culto a beleza, e exclusivamente a ela, é perigoso.
Estando intimamente ligado aquele da juventude e do efêmero, torna-se um desafio ao tempo, e mais dramático, ao homem ele mesmo.
Pior é quando um modelo de beleza nosso, mestiço, passa a ser ameaçado pelo que vem de fora.
Entre nós, aumenta assustadoramente o número de mulheres que opta pela imagem da “Barbie” americana, dona de volumosos seios de plástico, cabeleiras louras falsas e lábios de Pato-Donald.
No outro extremo encontramos a androginia mais absoluta, onde cada um quer ter as formas do outro, com todas as suas conseqüências.
Inclusive aquela terrível, de que quando nossas preocupações físicas tomam a frente, elas significam o medo e a recusa dos que não são como nós.
Mal se percebe que nossa sociedade valoriza não a identidade, mas a identificação.
Os pequenos defeitos, que outrora davam charme a uma mulher, estão em baixa.
Ora o Brasil é um país mestiço.
Nossos corpos são o resultado de uma longa história biológica onde se misturam índios, negros, brancos de vária procedência e amarelos.
O resultado foram ancas, cabelos crespos, a maneira ondulante de andar e o que Gilberto Freyre chamava de “morenidade”.
É preciso proteger e libertar nossa sociedade do que ela pode fazer com ela mesma.
É preciso proteger nela a sua integridade, a sua identidade subjetiva e genealógica, a dignidade de suas formas e das suas cores originais contra o materialismo e o desmantelamento do corpo.
Xô Barbies, próteses, anabolizantes, anoréxicas e oxigenadas!
Abaixo a insistência em fabricar mulheres sem marcas, nem diferenças capazes de individualizá-las.
Num país onde são tantas as variáveis corporais, onde graças e desgraças são distribuídas de acordo com as diversas heranças biológicas e sociais, a imposição de um modelo “perua” importada só é bom quando se trata de veículo de passeio sobre quatro rodas!


A estética como fuga da realidade cotidiana.
Que vivemos nossas guerras particulares não há dúvida.
Que nossas cidades estão em farrapos, tampouco.
Todos conhecemos o rol das violências pequenas, médias e grandes nas quais vamos nos enterrando, ao ir e vir de casa.
Regressar, física e psicologicamente ileso, já é um milagre.
Mas volto à resposta acima para pensar que frente às grandes questões que atravessam nossa sociedade, esta tem retrucado com ironia: ou seja, com o sentimento de abdicar da realidade em favor de uma piada, de alguma coisa invisível, de um profundo relativismo.
Sempre que se aproximam as eleições, as grandes questões vão voltam a constituir plataforma eleitoral.
É tempo de ouvir falar de combate à violência, à corrupção, aos menores cheirando cola, aos seqüestros, à miséria.
Mas a interrogação colocada pela ironia é: o que vou fazer, além de me chamar fulano e de ir e vir de casa?
As pessoas se preocupam mais com sua aparência física do que com as questões que realmente importam.
Houve um tempo em que a sociedade brasileira esteve extremamente mobilizada.
Nos anos 60, o arrocho salarial uniu, na mesma frente, os sindicatos e a classe média.
Entre 1979 e 1985, diferentes setores se organizaram, exigindo a redemocratização do país.
Organizações de bairro, movimentos populares, associações e comitês, na cidade e no campo, pressionaram muitas vezes, com sucesso, por tarifas sociais de água e esgoto.
Saúde e ensino estavam no centro do debate, lógico.
Clubes de Mães, Pastorais e Grupos de Mulheres Trabalhadoras denunciaram a precariedade ou ausência dos serviços coletivos municipais.
Sem falar dos cara-pintadas e do impeachment de Collor.
Hoje, contudo, ficamos na ironia.
Talvez, como remédio para a decepção ou como antídoto ao desencantamento.
Ficamos no “faz parte”.
Só que isto não basta.
É preciso transformar a ironia em consciência, deixar de lado o eu para se preocupar com o nós.
Nem que seja para constatar que do jeito que estamos, somos nada.
O que implica abandonar as questões estéticas.
Mas, fazendo isto, é possível ser feliz?


É possível ser feliz sem se preocupar com a beleza?
A felicidade é possível?
Para o filósofo Aristóteles, ela era o “soberano bem”.
O iluminista Voltaire retrucava, dizendo que tanto “o soberano bem quanto o soberano mal eram quimeras”.
O cristianismo promete o bem para depois: no além.
Aqui, só a caridade pode servir como garantia para um duplo benefício: o prazer imediato e a salvação eterna.
O pessimista Arthur Schopenhauer, autor do opúsculo consagrado à Arte de ser feliz, chorou o suicídio de seus irmãos e assistiu a própria mãe tomar o partido do amante contra ele.
Ainda assim, preferiu deixar “cinqüenta regras de vida” suscetíveis de tornar o mundo um lugar menos difícil.
Seu conselho?
Não alimentar ilusões e gerir a vida evitando sofrimentos aos outros e a si próprio.
A regra número dois aconselhava a fugir da inveja como o diabo da cruz.
A quarenta e oito, bastar-se a si mesmo.
Resumindo o que nos diz esse que foi uma os maiores pensadores da primeira metade do século XIX, a arte de ser feliz repousa numa lição bem simples: contentar-se com o que se tem, rejeitar os desejos inúteis e satisfazer-se com as coisas simples da vida.
Em suma, o que hoje poderíamos tomar como abandonar a busca pela perfeição estética, concentrar-se na vida.
Um raio de sol inundando o quarto pela manhã, por exemplo, fazia a felicidade de um dos conhecidos personagens da escritora Virgínia Woolf.
A pergunta de Schopenhauer está na moda.
As editoras não têm mãos a medir com títulos como A arte da felicidade ou Platão, Prozac não.
Elas, contudo, não nos fazem pensar em como essa idéia de felicidade deixou para traz o gosto da simplicidade, a temperança, os pequenos “nada” que fazem a vida cotidiana.
Um banho de olhos fechados, a fruta no pé, o barulho da chuva.
Nossa cultura, hoje, vive outro modelo.
Um modelo baseado na realização a qualquer preço, na busca ilimitada de prazeres, na exaltação dos sentidos.
A felicidade tem forma, cor e cheiro de tudo que é veloz, raro e trepidante.
Segundo filósofos como Michel Onfray, o modelo hedonista da felicidade individual e material possui várias versões.
Uma versão erótica do tipo os prazeres da carne, da cama à mesa.
Uma versão aventureira e esportiva do tipo “a escalada do Everest de patins”, uma romanesca do gênero, “sua vida é uma novela”, enfim, vale tudo para viver a euforia perpétua e o dever de ser feliz!
Outra tradução do hedonismo moderno, segundo o autor, é o utilitarismo: o bem estar material, o conforto, a expansão contínua de coisas, o cuidado de si.
Nada de “bem aventurados os pobres, pois deles será o reino de Deus”.  


Concluindo.
Depois da Segunda Guerra, o sonho era ter um carro, filhos formados e churrasqueira na casinha de campo.
Nos anos 70, tudo isso parecia repetitivo e excessivamente burguês.
O melhor seria a vida libertária, a evasão, o “peace and love”.
Trinta anos depois, os sonhos coletivos de revolução social desapareceram, dando lugar a sede de viver: culto ao corpo, ao sexo, ao lazer.
O sistema integrou tais valores em modelos de consumo enquanto a mídia bombardeia a mensagem ditatorial: sejam felizes.
A ordem cobre de críticas quem não o é.
Depois disso tudo, o século XXI vai ter que reinventar a felicidade.
Ou ficar com a conclusão de Schopenhauer: “não temam a felicidade. Ela não existe”.  


Para saber mais sobre o assunto.
DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo, Condição Feminina, Maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. São Paulo: UNESP, 2009.
DEL PRIORE, Mary. Corpo a corpo com a mulher: uma pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: SENAC, 2001.
DEL PRIORE, Mary. “Cultura, representações e práticas sociais: a revolução do espírito” In: José Jobson Arruda & Luís Adão da Fonseca. (Org.). Brasil-Portugal: História, agenda para o milênio. São Paulo: Fapesp / EDUSC / ICCTI Portugal, 2001, p. 509-522.
DEL PRIORE, Mary. História do amor. São Paulo: Contexto: 2006.
DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.
DEL PRIORE, Mary (org.). História do Esporte no Brasil do Império aos nossos dias. São Paulo: UNESP, 2009.
DEL PRIORE, Mary. L'Histoire de la vie privée dans le monde luso-americain: l'exercice d'une nouvelle approche? In : Cahiers de L'histoire Du Brésil. Paris : Sorbonne, 2000.


Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Max Weber e a Burocracia.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume abr., Série 11/04, 2011, p.01-04.


Junto com Comte, Durkheim e Marx; o alemão Max Weber (1864-1920) é uma referência na estruturação do pensamento sociológico.
Ele contribuiu ativamente para conferir uma reputação cientifica a sociologia, trabalhando a questão da burocracia, entre outros assuntos.
As concepções de Weber são tributarias de sua própria época e de uma série de teorias clássicas, através das quais acabou por compor suas próprias e originais hipóteses.
Tendo ocupado o posto de catedrático na Universidade de Heidelberg, entre 1906 e 1910, entrou em contato com importantes estudiosos da religião e do capitalismo.
O que levou a pesquisar sobre estes temas, relacionados com a questão cultural da burocracia na Alemanha.


As idéias que influenciaram Weber.
Em seu pensamento, Weber incorporou a influência de Kant, Nietzsche e Marx.
Compartilhava a premissa kantiana de que o ser humano é dotado de capacidade e vontade para assumir uma posição consciente diante do mundo.
Através de Nietzsche, assumiu uma visão pessimista e melancólica dos tempos modernos, em concordância com o conceito de anomia de Durkheim, defendendo uma nostalgia do passado.
A influencia marxista sobre as idéias de Weber, despertou seu interesse sobre a origem do capitalismo, conduzindo a concepção de inter-relação entre economia, política e cultura.
No entanto, diferente de Marx, para Weber, a economia não era o centro da realidade.


O contexto do pensamento weberiano.
A estruturação do pensamento weberiano ocorreu em um período em que Alemanha começou a se industrializar, mas com características distintas da industrialização inglesa, pois conservava uma cultura medieval.
Diante do antagonismo entre os latifundiários prussianos, os “Junkers”, e os interesses dos industriais, o Estado alemão havia criado uma forte estrutura de controle, baseada em um amplo universo burocrático.
O que despertou o interesse de Weber pela questão.
Segundo sua concepção, o iluminismo teria rompido com os costumes e as superstições em favor da ciência e da tecnologia, conduzindo a barbárie.
A burocracia seria uma tentativa de racionalizar a ascensão do capitalismo, organizando as pessoas e o crescimento econômico, político e social.
Este conceito faz parte da idéia de sociologia defendida por Weber.
Para ele, a sociologia deveria ser uma ciência neutra, concebida para oferecer seus serviços para qualquer comprador público ou privado.
Neste sentido, Weber considerava o individuo e sua ação como chave da investigação sociológica, negando a primazia das instituições sociais ou do grupo.
Seria necessário compreender as intenções e motivações dos indivíduos, examinando sua influência sobre o contexto social.
O que levou Weber a rejeição da proposta positivista de utilização da metodologia das ciências naturais.
Contrariando o positivismo, ele achava que o pesquisador não deveria ser apenas um registrador de informações, tendo um papel ativo na elaboração do conhecimento.
Não se tratava apenas de desvendar as leis de funcionamento da vida social, mas sim de ajudar a humanidade a construir novos conhecimentos.
Um elemento importante nesta perspectiva sociológica foi à idéia de tipo ideal, um modelo conceitual ou analítico que poderia ser usado para compreender o mundo.
O tipo ideal seria uma construção hipotética, servindo de ponto de referência para comparar com a realidade.
O que não significa que serviria como concepção desejável, somente significando a forma pura de um fenômeno.


Religião, capitalismo e burocracia.
Pensando no desenvolvimento do capitalismo, na obra A ética protestante e o espírito do capitalismo, publicada em 1905, Weber estudou os fenômenos da vida religiosa.
Na ocasião, chegou à conclusão de que vários preceitos do cristianismo protestante estão presentes no sistema capitalista.
As religiões protestantes terminaram contribuindo para a ascensão do capitalismo.
As convicções religiosas que consideram o êxito econômico como sinal de benção de Deus, um dos conceitos centrais da ética protestante, foram assimiladas pela mentalidade capitalista.
O que inverteu a maneira de pensar do mundo Ocidental, pois para o catolicismo o lucro era pecado, condenável à medida que representava a exploração do próximo, sendo a pobreza uma das chaves para entrar no céu.
Em concordância com a ótica protestante, Weber, ao contrário de Marx, não considerava o capitalismo um sistema injusto, irracional ou anárquico.
No entanto, semelhante a Marx, considerava a sociedade capitalista caracterizada por conflitos gerados pela estratificação social, moldada pelas classes, através de dois aspectos: status e partido.
O status refere-se ao prestigio, enquanto o partido poderia ser definido como um conjunto de indivíduos que trabalham juntos por objetivos e interesses em comum.
Pensando no componente partido, raiz da organização das instituições, Weber pensou a burocracia como organizadora de larga escala.
A burocracia ideal envolveria:
1. Hierarquia.
2. Regras escritas de conduta.
3. Remuneração assalariada e plano de carreira.
4. Separação de tarefas e da esfera profissional da pessoal.
5. O afastamento do controle dos funcionários dos meios de produção (os funcionários deveriam não ser donos do material utilizado no trabalho).


Concluindo.
A palavra burocracia foi cunhada por De Gournay, em 1745, a partir do verbo grego “dominar”, significando “escritório”.
Era então, originalmente, aplicada ao domínio dos funcionários no escritório.
Depois foi transposta aos funcionários públicos e, gradualmente, a todas as organizações.
Refletindo sobre este significado, Weber enxergou na burocracia a racionalização da ordem capitalista.
Em sua concepção, a única forma de lidar com a especialização das tarefas e sua maior complexidade, tornando necessária a implantação de um sistema de controle eficiente.


Para saber mais sobre o assunto.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
MAGEE, Bryan. História da filosofia. São Paulo: Loyola, 2000.
MARTINS, Carlos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1985.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
WEBER, Max. A gênese do capitalismo moderno. São Paulo: Ática, 2007.
WEBER, Max. A objetividade do conhecimento nas ciências sociais. São Paulo: Ática, 2007.
WEBER, Max. Conceitos sociológicos fundamentais. São Paulo: Edições 70, 2009.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Os Astecas e os sacrifícios humanos.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume abr., Série 06/04, 2011, p.01-12.


Em pleno século XVI, durante o processo de conquista europeia na América, os soldados espanhóis organizavam marchas em direção ao interior do continente.
Partindo das ilhas do Caribe, diversas expedições adentravam as matas do Novo Mundo em busca de ouro e riquezas e, na medida em que avançavam, iniciavam contatos com diferentes povos, de diversas culturas e idiomas.

Estas expedições encontraram os as astecas, um povo que praticava sacrifícios humanos.
Os espanhóis se horrorizaram diante das noticias destes sacrifícios, enxergando tudo pela ótica cristã.


A expedição de Córtes.
Entre todas as expedições espanholas no continente americano, certamente a mais conhecida foi a do capitão espanhol Hernán Cortés.
Ela partiu do litoral de Cuba em 1519, rumo à capital asteca de México-Tenochtitlán, com o intuito de conquistar a chamada Confederação Mexica.
Então formada ainda pelas cidades de Tacoplan e Texcoco e comandadas pelo líder indígena Montezuma.
Depois de percorrerem os mais inóspitos caminhos, com vales e montanhas, frio, chuva e calor, Cortés e seus homens, ao se aproximarem de seu destino, começaram a receber as primeiras notícias da capital mexica.
No dia 8 de novembro de 1519, os espanhóis finalmente se dirigiram à gigantesca cidade de México-Tenochtitlán.
Os europeus, súditos de um grande monarca, fiéis do único e verdadeiro Deus cristão, se deparariam com uma sociedade indígena altamente complexa em todos os seus níveis.
Além disso, a civilização até então considerada inferior, se mostrou em toda sua grandiosidade, habitadas por cerca de um milhão de habitantes, ao passo que as maiores cidades espanholas não tinham mais do que cem mil pessoas.
Este certamente foi um dos maiores encontros históricos registrados.
Os europeus conheciam os africanos e o Oriente e com eles havia estabelecido e construído uma longa história, desde a Antiguidade.
No entanto, as populações nativas da América não eram conhecidas pelos outros continentes e, mais do que um encontro de pessoas, espanhóis e astecas também começariam a escrever uma história inédita.


As primeiras impressões dos europeus sobre os astecas.
Os registros das primeiras visões sobre a cidade asteca demonstram o encantamento e o discurso do maravilhoso que foi construído a respeito do que viam os espanhóis.
O discurso das maravilhas é comum nas crônicas de viagens, em que o espectador cronista descreve algo que para ele é curioso, singular, diferente, que causa espanto e admiração.
Tudo se passa como se estivesse em ação o seguinte postulado: nesses países distantes não pode deixar de existir maravilhas e curiosidades.
De outro modo, o discurso do maravilhoso é uma das transcrições possíveis das diferenças culturais.


Hernán Cortés, em suas cartas endereçadas ao rei Carlos V e Bernal Dias de Castilho, soldado que participou da campanha, são certamente as principais testemunhas oculares desses episódios.
Seus textos nos deixaram suas impressões iniciais a respeito do mundo indígena.
Cortés relatou:

“Esta grande cidade de Tenochtitlán está fundada em uma lagoa salgada. Ela tem quatro entradas, todas de calçada e feitas à mão. As ruas estão metade na água e metade na terra pela qual os índios andam em canoas. Tem esta cidade muitas praças onde há um continuo mercado, de negócios, compra e venda, onde cotidianamente existem cerca de sessenta mil pessoas e onde há todos os gêneros de mercadorias”.

Do mesmo modo, Bernal Dias deixou seu testemunho:

“(...) por uma parte havia grandes cidades em terra firme e na lagoa muitas outras vilas e víamos tudo cheio de canoas e na calçada havia muitas pontes, de trecho a trecho, e adiante estava a grande cidade do México”.

Essa cidade talvez tenha sido a maior do mundo no século XVI e sobre ela os conquistadores fizeram maravilhosas descrições.
Cortés tentou transmitir uma imagem fascinante do mundo novo que havia encontrado e começou por situar o maravilhoso cenário que o rodeava.

O enorme vale, cercado por ásperas serras, os dois lagos, o menor de água doce e o maior de água salgada e que eram comunicados por um estreito.


Os vulcões, as canoas, as ruas da cidade, a abundância e a organização dos mercados, como o de Tlatelolco, os templos, os sacerdotes, as torres e as imensas pirâmides.
Além disso, os cronistas destacam a limpeza das casas, os amplos aposentos, as flores que decoravam as ruas, a organização política, o aparato militar e até mesmo a existência de um jardim zoológico.
Coisas nunca vistas foram ressaltadas nos relatos dos espanhóis, com tanques para os peixes e jaulas enormes para as aves, além da exposição exótica de índios albinos e pessoas deformadas.
Na Europa, nada disso existia e quase tudo causava espanto e admiração.
Os espanhóis, por exemplo, ficaram muito surpresos ao ver os braseiros que eram colocados sob as refeições para que se mantivessem quentes os alimentos e o hábito indígena de lavar as mãos antes e depois dos banquetes.
Cortés certamente nunca tinha visto nada igual e ele mesmo gastou várias folhas, em suas epístolas, para tentar descrever em detalhes tudo o que via e tudo o que chamava sua atenção.
Naturalmente, os relatos de Cortés e Bernal Dias de Castilho corresponderam à visão particular desses autores acerca do mundo indígena que, ao longo da viagem, encontraram.
Aquilo que destacaram e valorizaram, para contar em seus registros, também foi fruto de uma seleção feita a partir dos seus valores.
Mais do que uma descrição fiel da realidade, trata-se de uma exposição eurocêntrica do mundo asteca em que vemos a valorização das ruas, dos prédios, da técnica, do controle sobre a natureza, do comércio.
Portanto, o que foi destacado dialogava diretamente com a Europa daquele período.
Mas é preciso saber que mundo era esse e de que modo ele estava organizado e, principalmente, como havia chegado nesse grau de desenvolvimento, pois esse viria a ser o cenário principal em que Cortés atuaria nos próximos dois anos.
Ele mesmo se tornou conhecido e entrou para a história ao entrar em contato com este novo mundo, visto que o nome do explorador espanhol estará para sempre associado a esse conjunto de elementos que compuseram o espaço do México indígena.


Antes dos espanhóis chegarem.
No século XVI, viviam na região do México diversas populações indígenas.
A região Sul, chamada pelos historiadores de Mesoamérica, era habitada por agricultores que viviam em povoados e cidades governados por um grande líder, chamado por eles de tlatoani, “aquele que fala”.
No Norte, região chamada de Aridamérica, se dedicavam à caça e à coleta de plantas silvestres ou praticavam uma agricultura menos intensa e não viviam em um lugar fixo nem tinham governo centralizado.
Na Mesoamérica viviam muitos povoados independentes.
Um deles, sem dúvida, era o mais poderoso, pois, ao longo de sua história, havia conquistado muitas outras sociedades.
Esta cidade era México-Tenochtitlán e seus habitantes eram chamados de mexicas ou astecas.
Os mexicas contavam que, em suas origens, haviam sido um pequeno grupo de nômades que partiu da distante região lendária de Aztlán, localizada no Norte do México atual, em busca de uma terra própria, onde pudessem se estabelecer.
Eles teriam sido guiados por seu grande deus Huitzilopochtli, que os conduziu até o Vale do México, lugar em que fundariam sua cidade.
Da palavra Aztlán surgiria o nome “asteca”, ou seja, aqueles que vieram de Aztlán.
Os mexicas, de acordo com a lenda, teriam sido guiados por um presságio divino.
Os indígenas só deveriam parar de peregrinar e se fixar quando fossem surpreendidos por uma visão.

Teriam que ver um cacto e em cima dele uma águia, devorando uma serpente.

Quando isso fosse visto, ali se fixariam e formariam um núcleo de povoamento.

Por ironia, essa visão, de acordo com a tradição asteca, apareceu exatamente em cima de um lago, o Texcoco e, ali mesmo, no meio dos pântanos seria erguida, no ano de 1325 d.C, uma grande cidade, chamada México-Tenochtitlán.
A denominação dupla México-Tenochtitlán levanta, de fato, algumas curiosidades.
O termo Tenochtitlán se explica sem dificuldade: é a terra do tenochtli, uma espécie de cacto, figueira-da-barbaria, de fruto duro, que designa a cidade por um cacto nascendo num rochedo.
A palavra México, por sua vez, apresenta duas origens.
A primeira parte do símbolo da cidade, em que a águia devorando uma serpente representava a divindade Mexitl, outra denominação para o deus do sol Huitzilopochtli.
A segunda explicação, mais difícil, parte da etimologia das palavras: metztli, “a Lua” e xictli, “umbigo” ou “centro”. México seria, então, a cidade que está no meio do lago bem acima da lua.
Na bandeira do México atual ainda é possível ver a reprodução fiel do glifo que designava a antiga cidade asteca.
Uma vez estabelecidos em sua cidade, os mexicas se dedicaram ao que melhor sabiam fazer: a guerra.
Eram tão grandes militares que em 1428 d.C derrotaram vários poderosos povos do Vale do México.
A partir de então se converteram nos novos dominadores da região, junto com Texcoco e Tacoplan, formando a chamada Confederação Mexica que, em seguida, venceu vários outros povos da região.
Logo conquistaram a quase todos os grupos indígenas do Altiplano Central, e regiões da costa do golfo, como Oaxaca e Chiapas.
Em 1519, quando Cortés chegou, os mexicas dominavam a maior confederação que já existiu na história da Mesoamérica e sua capital era a cidade mais povoada, temida e próspera da região.
Quando os mexicas conquistavam outro povoado qualquer, geralmente não trocavam seu rei nem interferiam em seu governo interno.
Somente exigiam que esse povoado, incorporado, pagasse impostos, ou seja, que lhes entregasse certa quantidade de milho, algodão, peles de animais, plumas de aves, ouro, prata e outros produtos valiosos.

Além é claro da exigência de que seus guerreiros os ajudassem nas conquistas militares posteriores.

O líder mexica, o tlatoani, era o mais rico e poderoso dos governantes indígenas e todos os habitantes da Mesoamérica o respeitavam.

No ano da chegada de Hernán Cortés à região, o tlatoani mexica era Montezuma Xocoyotzin, cujo nome quer dizer “o senhor carrancudo” ou o “senhor sombrio”.
Esse líder certamente estabelecia um forte vínculo com a religiosidade indígena, seguindo e obedecendo aos sacerdotes e as ordens vindas diretamente dos deuses protetores da cidade.
Montezuma era o senhor da cidade de Tenochtitlán e foi contra essa cidade que Cortés lançou sua força de dominação.
Por isso, quando falamos em conquista do México, queremos dizer, na verdade, conquista dos mexicas, ou seja, dos habitantes de Tenochtitlán.
A generalização para o termo “conquista do México” ocorreu porque como os mexicas haviam dominado a muitas outras sociedades índias.
Sua derrota permitiria dominar também a todos os outros povos, de modo rápido durante o período de colonização, pois o líder que viesse a substituir Montezuma seria não apenas o novo senhor de México-Tenochtitlán, mas, sobretudo, exerceria domínio sobre outras sociedades indígenas.
Apesar da diferenças entre esses povos, muitos eram subjugados por um mesmo poder.
No entanto, no geral, a Mesoamérica, no século XVI, estava povoada por um grande número de povos que falavam mais de cem idiomas diferentes.
Cada um tinha sua própria identidade étnica, sua própria história e seus próprios governantes.
No Altiplano Central do México viviam povos que falavam náuatle, como os mexicas e os tlascaltecas, além de outros povos como os otomis.
Estes povos se consideravam muito distintos entre si, mas todos comiam os mesmo alimentos básicos, como o milho, o feijão, a pimenta, o tomate e compartilhavam uma religiosidade muito semelhante, caracterizada por violentos sacrifícios humanos.


Os sacrifícios humanos entre os astecas.
A religião e os ritos tinham uma importância fundamental na vida do povo mexica e entre estes se destacava o sacrifício humano, como oferenda máxima que se podia fazer aos deuses.
No centro da cidade de México-Tenochtitlán estendia-se um vasto centro de cerimônias organizado em torno de um importante santuário, o Templo Maior, composto por aproximadamente setenta edifícios.
Cerca de dez mil pessoas, entre sacerdotes e sacerdotisas, cantores, bailarinos, nobres e oficiais de todo tipo se reuniam ali para sacrificar, dançar e cantar.
Existem várias explicações míticas para a origem dos sacrifícios, mas todas se relacionam com os deuses e com a criação do mundo.
Os astecas tinham uma profunda relação com a observação dos astros e estes estavam diretamente relacionados com a religiosidade mexica, assim como no caso dos maias.
Os dois principais deuses da sociedade asteca eram justamente Tezcatlipoca e Huitzilopochtli.
O primeiro deles representava o céu noturno, se conectando com os deuses estrelares, com a Lua, com a morte, com a maldade e a destruição.
O seu nome significa “espelho fumegante” e era também o deus da providência, do destino.
Huitzilopochtli era o seu complemento, pois representava o céu diurno, o céu azul, a encarnação do sol, o jovem guerreiro que nascia todas as manhãs do ventre da velha deusa terra e morria todas as tardes para iluminar com sua luz o mundo dos mortos, o Mictlán.
De acordo com a lenda asteca, Coatlicue, a deusa terra, era a mãe da lua e das estrelas.
No entanto, a terra engravidou novamente e isso gerou muito ciúme de suas filhas que quando souberam da notícia se enfureceram até o ponto de decidir matar a mãe.

Coatlicue chorava, mas o seu filho, dentro de seu ventre, lhe consolava dizendo que a defenderia no momento que fosse preciso.


Quando as filhas enciumadas chegaram para sacrificar a mãe, saiu de dentro dela uma serpente de fogo, como um chicote, que violentamente cortou a cabeça da lua e fez com que as estrelas fugissem.
Assim, nasceu da velha mãe terra o deus Huitzilopochtli, que a partir de então travaria um combate eterno contra suas irmãs estrelas e Lua, no formato de uma serpente de fogo.
A imagem remete ao primeiro raio solar que nasce da terra, dando fim à noite.
Ao consumar sua vitória, ele, o Sol, era levado pelos ombros até o meio do céu pelas almas dos guerreiros mortos na guerra e pelas pessoas mortas nos sacrifícios humanos.
O seu triunfo sobre as irmãs noturnas significava um novo dia de vida aos homens, uma nova chance, em busca de alimentos e sobrevivência.
Todos os dias, portanto, os astecas acreditavam que esse combate divino era travado.
Para que triunfasse o Sol era preciso que ele estivesse forte e vigoroso e, por isso, o homem tinha que alimentá-lo.
Caso contrário, seria noite para sempre.
Por isso, os eclipses eram sinais de desgraça.
Mas como o Sol era um deus, ele só poderia ser alimentado da própria vida, a partir da substância mágica existente no sangue dos homens.
Essa é a origem religiosa dos sacrifícios humanos e a representação do sol, nascendo e morrendo, era sempre encenada em cada ritual em homenagem ao deus Huitzilopochtli.
O Sol desempenhava um importante papel, pois era ele quem fornecia a luz e o calor para que a vida existisse.
Havia um temor contínuo e coletivo de que este astro pudesse perder suas forças e deixar de sair todos os dias.
Os rituais em homenagem ao deus Tláloc, da chuva, também eram importantes, pois estavam diretamente relacionados ao sucesso das colheitas.
Na base de tudo estava a noção de dívida.
Uma criatura devia a vida e tudo o que fazia possível viver aos deuses.
Isso devia ser reconhecido e a dívida paga, mediante o oferecimento de incenso, tabaco, alimentos e, inclusive, do próprio sangue.
O principal foco era a alimentação dos deuses, para que fossem vitalizados, ainda que isto também pudesse ser feito com animais e outras comidas, além das ervas e das flores.


Os ritos do sacrifício.
A maior parte das imolações de homens acontecia ao longo dos ciclos festivos dos meses do calendário solar e muitos dos dias eram as datas de aniversários dos deuses.
As festas do ano solar eram especialmente importantes porque nelas se recriavam diversos aspectos da cosmogonia mesoamericana: a criação da terra, o nascimento do milho, as migrações dos povos, os sacrifícios do Sol, da Lua, das estrelas e o mundo dos mortos.
Nessas celebrações morriam e nasciam novamente quase todos os deuses.
Havia muitas outras ocasiões que requeriam os sacrifícios humanos: guerras, batalhas, desajustes da ordem cósmica, como eclipses, fomes, inundações, roubo de objetos sagrados, fuga de prisioneiros.

No geral, as vítimas eram capturadas durante as guerras de conquista, mas muitas vezes havia voluntários e pessoas honradas a serem sacrificadas.

O sacrificado era vestido e tratado como se fosse a própria divindade por dias, meses e anos, dependendo da festividade.
Os sacrificadores eram no geral sacerdotes especializados e muito respeitados em Tenochtitlán.
Normalmente os sacrifícios seguiam uma sequência de rituais: na noite anterior o sacrificado tinha o corpo velado, era tratado como deus e às vezes tinha o corpo pintado de branco.
No dia seguinte, era levado aos centros cerimoniais e, em público, sacrificado.
O coração arrancado, a decapitação, as flechadas na garganta e o afogamento eram os métodos utilizados, sendo o primeiro deles o mais comum.
O sacrificado, deitado numa pedra, tinha seus membros segurados por quatro sacerdotes.
Um quinto homem responsável pela cerimônia pegava uma faca de obsidiana, pedra vulcânica comum na região, e abria o peito da vítima.
Em seguida, o coração arrancado era mostrado à multidão.
O corpo finalmente era lançado pelas escadarias do templo.
Para finalizar, de tarde, partes do corpo eram comidas num ritual antropofágico que era um evento religioso e social importante.
O morto divinizado era comido para que os fiéis se unissem com ele, mas também se tratava de uma ocasião para convidar e honrar familiares, para fazer relações com pessoas importantes, para ganhar prestígio.


Concluindo.
Os sacrifícios humanos também estavam presentes na chamada “Guerra Florida”.
Em muitas ocasiões, os mexicas marcavam um lugar sagrado e um período do dia específico para encenar, juntamente com outros povos rivais, um combate.
Neste, o principal objetivo não era matar ou conquistar, mas aprisionar o maior número possível de pessoas para serem entregues aos deuses, ou seja, uma noção de guerra completamente diferente da europeia.
Homens como Cortés não entediam esse tipo de prática, nem a religiosidade indígena e, na verdade, essas crenças eram tratadas como algo que precisava ser rapidamente eliminado.
Enxergar os sacrifícios humanos dos astecas como algo demoníaco e, portanto, a ser combatido pelos cavaleiros cristãos foi uma das justificativas religiosas para a conquista espanhola.
A partir de então, a invasão da América carregaria elementos do discurso das cruzadas e do combate aos infiéis.
Desde os primeiros dias em terras americanas, os espanhóis se depararam com corpos indígenas, vítimas de sacrifícios.
Esses cadáveres causavam muito temor não apenas nos europeus recém chegados, mas, sobretudo, nas próprias comunidades indígenas que eram submetidas ao poder de Montezuma.
Esse era, portanto, o mundo que aguardava Cortés, de portas abertas, quando ele passou pelo vale do México e atravessou os povoados de Estapalapa e Coioacán em novembro de 1519.
Uma imensa cidade, cheia de pessoas realizando um intenso comércio e os centros cerimoniais, cheios de vítimas e sangue esperavam a chegada dos espanhóis.


Para saber mais sobre o assunto.
CASO, Alfonso. El pueblo del sol. México: FCE, 1994.
CASTILLO, Bernal Díaz. Historia verdadera de la conquista de la Nueva España. México: Editorial Porrúa, 2007.
CORTES, Hernán. Cartas de Relación. Madrid: Dastin, 2007.
HARTOG, François. O espelho de Heródoto: ensaio sobre a representação do outro. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
LINARES, Federico Navarrete. La Conquista de México. México: Tercer Milenio, 2000.
SOUSTELLE, Jacques. Os astecas na véspera da conquista espanhola. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.


Texto: Prof. Ms. Marcus Vinícius de Morais.
Mestre em História Cultural pela Unicamp e autor do livro Eles Formaram o Brasil, co-autor do livro História dos EUA: das origens ao século XXI, ambos publicados pela Editora Contexto.
Membro do Conselho Editorial de “Para entender a história...”