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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Memória e Patrimônio Histórico: uma luta pela nossa história.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume abr., Série 20/04, 2011, p.01-04.
 

“Memória” é a faculdade de lembrar e conservar estados de consciência passados.
Para santo Agostinho, a coisa começa com uma frase: « eu me lembro de mim mesmo ».

Penso na relação entre memória e identidade para falar das igrejas mineiras incendiadas e nem sempre cuidadas adequadamente.

Para lembrar que estamos perdendo a memória e que precisamos cuidar melhor do patrimônio histórico brasileiro.


A questão da memória.
Sabemos que a memória é vida.
Vida sempre carregada pelos grupos humanos e nesse sentido, em permanente evolução.
Se a história é a reconstrução incompleta do que “não é mais”, a memória é um fenômeno sempre atual, enraizado num gesto, num perfume, num som.
Lugares de memória, por sua vez, são aqueles onde se cruzam as memórias pessoais e familiares com as da nação: uma bandeira, um monumento, uma igreja, uma imagem.
Reconstrói-se, graças a eles, a representação que um povo faz de si mesmo.
Diferentes de nós, que ainda não sabemos guardar nossa memória, há sociedades que não sabem mais o que conservar.
Elas acabam embarcando num processo de acumulação pela acumulação.
É o que se vê em certos museus americanos onde a obsessão de consumo se traduz no acúmulo de peças díspares.
More and more é o lema de alguns deles, onde a figura de cera de Leonardo da Vinci ombreia com o Mickey.
Onde se mistura a ficção e o real.
Esta bulimia de acumulação sem sentido dá nos parques temáticos, nas Disneys da vida...
Estamos longe das teses que nos ensinam a desenvolver afeto por aquilo que é herança do passado.
Esquecemos aí o lema “quanto melhor conheço, mais gosto”.


Patrimônio histórico.
Apesar dos desastres e do descaso governamental, um movimento comemorativo parece nos envolver: centenários, novas rotas turísticas, festas e manifestações locais enchem a agenda.
É a utilização comercial do patrimônio histórico, ainda muito insipiente e subvalorizada entre nós brasileiros.
Essa « comemoratividade » caminha ao lado de um fenômeno sem precedentes.
Em todas as regiões se multiplicam os museus, conserva-se todo o tipo de objeto, recolhe-se um documento aos arquivos.
Destruir passou a ser proibido.
Luta-se para conservar não apenas os grandes monumentos, mas testemunhos antes não valorizados de nosso passado: receitas de bolo, flores de papel, um ponto de bordado.
O lema devia ser “não toquem no meu passado”.
O ser humano tem instinto de colecionismo.
Todos temos uma “canastra da Emília dentro de nós”, canastra, diga-se, capaz de permitir a evocação de sentimentos.
Canastra que é parte da luta contra o esquecimento e a morte.
Nosso patrimônio – ou que sobrou dele - dá lógica e sentido a tudo isto.
Para que ele seja memória viva e não memória do além, é bom começar a protestar contra o seu desaparecimento.


Concluindo.
A terra onde canta o sabiá, será cordial, como descreve o poeta?
Não. Somos uma sociedade em guerra.
Não nos damos conta, mas certa mobilização nos assoma a cada vez que saímos de casa. Vamos para um combate; uma luta em diferentes níveis.
Não é a mesma que tem seu palco na Palestina ou na Macedônia.
Mas, ainda assim, uma luta... precisamos lutar pela preservação do nosso passado.
É preciso votar pensando em quem tiver plataformas voltadas para o passado e não para o futuro.
Para dirimir nossas guerras internas que acontecem agora, antes é necessário entender quem somos.
Para dirimir o caos, antes de olhar para o futuro, precisamos preservar nosso patrimônio histórico, ele é nossa memória.
Talvez assim possamos ouvir novamente cantar o sabiá.



Para saber mais sobre o assunto.
DEL PRIORE, Mary. “A Biblioteca Jesuitica 'Les Fontaines': Um Paraiso A Beira da Floresta” In: Revista de História, n. 136. São Paulo: USP, 1997, p. 169-171.
DEL PRIORE, Mary. “A Bibliotheque Nationale de Paris” In: Revista de História, n. 127. São Paulo: USP, 1992, p. 235-238.
DEL PRIORE, Mary (Org.). Catálogo Estampas do Rio - A cidade nas décadas de 1940 a 1960. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2001.
DEL PRIORE, Mary. “Culture materielle et quotidien dans le journal d'un maitre de moulin a sucre (Les stratégies du métissage)” In: Bernard Lavellé. (Org.). Transgressions et stratégies du métissage en Amérique Coloniale. Paris: Presses Universitaires de France, 2000, v. 1, p. 75-95.
DEL PRIORE, Mary & NEVES, M. F. Documentos Para A Historia do Brasil. de Cabral Aos Nossos Dias. São Paulo: Scipione, 1996.
DEL PRIORE, Mary. “Memória e História de Mulheres: uma biblioteca feminista” In: Revista de História, n. 138. São Paulo: USP, 1998, p. 175-177.


Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Repensando os fatos políticos e econômicos que conduziram a experiência parlamentarista no Brasil: de Vargas até Goulart.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume abr., Série 18/04, 2011, p.01-11.

Os esforços para a industrialização do Brasil quase sempre se chocaram com os interesses estrangeiros, empenhados em manter o mercado nacional como reserva de consumo.
O conflito se intensificou depois da chamada Revolução de 1930, conduzindo a uma cadeia de fatos cujos efeitos se estenderam até a década de 1960.

Um longo processo foi iniciado com o Estado Novo de Getúlio Vargas, passando pelos governos populistas, até chegar à ascensão a presidência de João Goulart.
Uma cadeia de eventos que conduziu a uma breve e frustrada experiência parlamentarista e, por sua vez, arrastou o Brasil a ditadura militar.


O Estado Novo.
A ditadura de Vargas refletiu uma estratégia de compromisso, atrelando o proletariado urbano, comprado com direitos trabalhistas e uma legislação controladora e protecionista, com uma fração da burguesia empresarial ligada ao mercado interno.
Desde o inicio, o Estado Novo passou a interferir diretamente na economia, tanto para regular as relações de trabalho como para romper o bloqueio imposto pelos cartéis internacionais.
Uma postura que fez o Brasil flertar com a Alemanha Nazista, antes da segunda guerra mundial, e com os Estados Unidos da América em busca de incrementar setores básicos da produção.
Foi assim que a indústria de base foi criada, garantindo matéria prima para fomentar o desenvolvimento industrial brasileiro.
A exploração das contradições imperialistas da época, garantiu a implantação da primeira usina siderúrgica, em Volta Redonda, fornecendo aço, recurso essencial para novas indústrias aparecessem no Brasil.
Entretanto, questões ideológicas terminaram depondo Vargas em 1945.
O eixo perdeu a segunda guerra mundial, fazendo o Brasil parte da facção aliada, então vitoriosa.
O que fez Vargas cair, já que o Estado Novo era uma ditadura, perfil não condizente com a imagem de mundo democrático, vendida pelos norte-americanos.
O Estado Novo, iniciado em 1930, chegou ao seu fim por meio de um golpe que contou com o aval de Washington.
O novo governo não deu continuidade ao projeto de industrialização de Vargas, as razões eram obvias, estavam na contramão dos interesses norte-americanos.
Para os Estados Unidos da América interessava manter o Brasil como amplo mercado consumidor de produtos manufaturados, ao mesmo tempo, fornecedor de matérias primas e produtos agrícolas.
 O interessante era a população brasileira consumir os produtos industrializados norte-americanos, gerando empregos lá nos Estados Unidos da América e não no próprio Brasil.
No entanto, Vargas retornou ao poder em 1951, através do voto, retomando a orientação nacionalista que o governo do Marechal Eurico Dutra havia interrompido.

O retorno de Vargas ao poder e seu suicídio.
A partir de 1951, de volta o poder, Getúlio Vargas instituiu o monopólio estatal do petróleo e eletricidade, através da Petrobrás e Eletrobrás, ambos voltados à criação de demandas industriais.
Simultaneamente, o governo brasileiro negociou com cientistas alemães a compra de tecnologia nuclear, pensada em torno da questão energética.
A idéia era fornecer suporte à industrialização, já que a energia era estratégica neste segmento e, pela altura, deficiente no Brasil.
Também dentro desta política de fomento a indústria, as importações de bens de capital foram artificialmente encarecidas, junto com uma tentativa de controle sobre remessas de lucros das multinacionais para o exterior.
Tais iniciativas, objetivando equalizar os problemas de energia, induzir a fabricação de máquinas e equipamentos, contendo a evasão de capitais; afetaram naturalmente os interesses de monopólios de poderosos cartéis.
Em sua maioria, as empresas de capital estrangeiro, sentiram-se acuadas, investindo contra o governo para derrubá-lo.
Uma tendência que contou com o apoio da burguesia comercial, beneficiária dos negócios de importação e exportação.
A campanha, ativada pelo jornalista Carlos Lacerda e pelos oficiais da chamada “Cruzada Democrática”, resultou no suposto suicídio de Vargas em 24 de agosto de 1954.
Suposto porque até hoje o episódio não foi esclarecido, sem que restasse duvidas, algumas teorias conspiratórias afirmam que Vargas teria sido assassinado pela CIA, o serviço secreto norte-americano.
Um capítulo da história do Brasil que terá que esperar a abertura dos arquivos secretos da CIA para ser definitivamente encerrado.
De qualquer forma, o impacto político da morte de Vargas desencadeou uma reação popular de enorme magnitude.
Havia um golpe militar sendo articulado pouco antes do suposto suicídio do presidente, com a mobilização de grande parte das forças armadas, mas o golpe foi desarticulado pelo clamor popular em torno do luto por Vargas.
Os militares brasileiros já estavam sendo orientados por conselheiros políticos norte-americanos desde esta data, o que conduziria ao golpe de 1964.
Prova é que, pouco mais de um ano depois da morte de Vargas, graças às intervenções militares de 11 e 21 de novembro de 1955, a posse de Juscelino Kubitschek foi garantida pela direita em pleno amadurecimento.


O governo Kubitschek.
Apesar do apoio da nascente e cada vez mais fortalecida direita, Juscelino Kubitschek chegou à presidência também com o apoio dos comunistas, talvez motivado por este segundo atrelamento político, ampliou o regime de liberdade.
Entretanto, sua grande contribuição ao incremento econômico do país foi à execução de um programa de desenvolvimento, o Plano de Metas, à custa de substanciais concessões aos capitais estrangeiros.
Uma clara demonstração do caráter direitista do governo Kubitschek e de seu comprometimento com o alinhamento prol norte-americano, em um período em que a Guerra Fria estava esquentando.
Porém, a semelhança do governo que o antecedeu, liderado por Café Filho, Kubitschek não teve condições de fazer a reforma cambial para liquidar a Petrobrás ou reprimir os movimentos trabalhistas.
Pensou-se sim em diminuir os direitos trabalhistas promulgados pelo Estado Novo, mas não houve força política para ousar fazê-lo.
No setor industrial, no entanto, o governo mudou a orientação da industrialização, em concordância com os interesses estrangeiros.
Os investimentos nos setores de base foram abandonados em favor do incentivo a produção de bens duráveis de consumo, tais como automóveis e eletrodomésticos.
Os interesses estrangeiros, não podendo mais deter o desenvolvimento industrial brasileiro, procuraram dirigir e ajustar a industrialização para proveito próprio, sobretudo dos Estados Unidos da América e seus aliados na luta contra o comunismo.
Neste contexto, expressando os anseios da burguesia cosmopolita, o regime econômico brasileiro uniu favores fiscais e a dificultação de importação de bens de consumo, atraindo investimentos estrangeiros.
Por um lado, havia um dispositivo de proteção às manufaturas com similar nacional, fomentando a produção destes bens no Brasil, fazendo o capital estrangeiro jorrar para não perder mercado.
Por outro, o governo começou a conceder vantagens, isenções e privilégios aos estrangeiros dispostos a investir no setor industrial brasileiro.
A ótica cruel e pouco nacionalista é que, ao mesmo tempo, Kubitschek permitiu a formação de monopólios e oligopólios controlados por multinacionais.
O principal instrumento desta política foi à lei de Tarifas, a qual permitia que estas empresas importassem máquinas e equipamentos obsoletos, valorizados como se fossem novos, sem cobertura cambial ou restrição de qualquer espécie.
As industriais brasileiras não gozavam deste privilégio e tampouco os equipamentos produzidos no Brasil, tornando o maquinário nacional mais caro do que o importado.
Estas medidas prejudicaram o crescimento da indústria nacional de bens de produção, tornando o país um grande importador de máquinas e equipamentos industriais a custo altíssimo.
Caso a opção tivesse sido a inversa, investir na industrialização brasileira, continuando a política de Vargas, o Brasil poderia substituir as importações e tornar-se um exportador de produtos industrializados com o tempo, satisfazendo a demanda interna sem a necessidade de importar.
É obvio que a política econômica de Kubitschek fez o controle acionário das empresas brasileiras, gradualmente, ser transferido para as corporações internacionais, um fenômeno conhecido como desnacionalização.
O nascente parque industrial brasileiro passou para as mãos dos estrangeiros, os quais reservavam a produção de bens, com alto valor agregado, que exigiam tecnologia mais avançada, para suas matrizes.
Ao Brasil ficava reservada a produção industrial que não exigia mão de obra altamente qualificada e com menor valor agregado.
Dentro deste âmbito, o governo Kubitschek pode gozar de imensa popularidade, acumulando dividendos com impostos que permitiram a construção de Brasília.
Não obstante, ao final deste período, os sinais da crise anunciada começaram a aparecer.
A expansão industrial, alimentada pela substituição das importações de bens de consumo duráveis, atingiu seu limite, em meio a vários conflitos sociais que passaram a se avolumar nos meios urbanos e rurais.
A ociosidade das fábricas atingiu números alarmantes, algo em torno de 30% a 60%, não havia mais quem comprasse que estavam produzindo e, com isto, iniciaram-se as demissões.
Quanto mais desempregados, maiores os conflitos sociais e menor o consumo, gerando mais desemprego.
Em 1959, a inflação atingiu um ritmo intenso, afetando ainda mais a baixa no consumo, comprometendo os lucros das multinacionais.
A despeito deste fato, a margem de lucros foi mantida a custo da redução de salários e elevação de preços dos bens produzidos, fazendo as remessas de lucros saltarem de 266 milhos de dólares, em 1958, para 410 milhões em 1960.
As enormes quantias de dinheiro saindo do país eram tributárias da transferência de recursos das multinacionais para suas matrizes, via de regra incrementadas por meios ilegais.
O que debilitou enormemente a economia brasileira, reduzindo a capacidade de importações e investimentos.
Eis o quadro político e econômico deixado por JK ao final de seu glorioso governo.

A ascensão de Jânio Quadros à presidência e sua renuncia.
Diante da crise construída pelo governo Kubitschek, começaram a ser delineadas algumas possibilidades de superação.
Alguns setores políticos de esquerda postularam a necessidade de reforma agrária e da limitação de remessas de lucros para o exterior.
Este segmento defendia um alinhamento comercial da América Latina e África com o Bloco Socialista liderado pela União Soviética, causando medo entre a elite brasileira.
Em contrapartida, a proposta da direita envolvia a liberação do câmbio, restrição de crédito e redução de salários, o mesmo programa adotado após a morte de Getúlio Vargas em 1954.
Neste efervescente caldeirão de tensões, havia ainda uma classe operária, fortalecida pelo crescimento industrial dos últimos anos, cujo peso político se tornou fundamental nas mãos dos políticos.
Foi quando apareceu no cenário Jânio Quadros, em meio a um contexto de lutas sociais, embates entre direita e esquerda, greves e invasões de terras.
O estado de anomia política e social contribuiu para eleger este político demagogo e populista como presidente da República, empossado em 31 de janeiro de 1961.
Ele teve sua candidatura sustentada pela oligarquia financeira e pelos mesmos personagens que levaram Vargas supostamente a se suicidar em 1954, mas durante a campanha apelou aos anseios populares de mudança, confundindo a massa com uma propaganda dúbia.
Assim, conseguiu esmagadora vitória sobre o Marechal Henrique Teixeira Lott, candidato da coligação PSD-PTB, contando com o respaldo de seis milhões de votos.
Uma vez no poder, Jânio Quadros, promulgou a Instrução 204, liberando o câmbio para atender os interesses dos exportadores, indo contra as pressões do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Para combater a inflação, reduziu salários e aumentou as taxas sobre o crédito, sacrificando a massa trabalhadora que o tinha eleito junto com a classe média urbana e alguns setores da elite brasileira.
As medidas elevaram o custo de vida, desgastando a popularidade do novo governo.
Mesmo assim, o presidente queria aprofundar as reformas, pois a Instrução 204 não estava dando conta de reverter à crise.
Foi quando Jânio percebeu que não poderia programar maiores mudanças dentro do âmbito de regime democrático.
A Constituição vigente, promulgada em 1946, continha vários elementos da crise, havia uma enorme contradição entre a legislação democrática e a execução autocrática, inerente ao regime presidencialista.
Neste momento, Jânio Quadros tentou revolver o impasse através de um golpe de Estado nada convencional, que lhe permitisse dirigir o país acima dos antagonismos sociais e dos partidos políticos.
Ele renunciou ao governo em 21 de agosto de 1961, esperando comover as massas para pedir seu retorno.
Esperava que as forças armadas, diante do medo de entregar o poder ao seu vice-presidente, João Goulart, tido como de esquerda, conduzisse ele, Jânio, de volta a presidência como ditador.
Para dar certo, ele deveria contar ainda com o apoio do Congresso que precisaria referendar o golpe e delegar poderes ao presidente.
O plano fracassou, ninguém pediu o retorno de Jânio Quadros ao poder, sua popularidade estava em baixa em todos os setores da sociedade e sua saída era até desejada.
Havia se delineado, desde a era Vargas, um quadro político e econômico que conduziria João Goulart a presidência e, assim o Brasil a uma ditadura militar.

A condução de João Goulart ao poder.
A reação a renuncia de Jânio Quadros foi tranqüila por parte da população e do Congresso Nacional, mas os militares ficaram receosos.
Veio dos Estados Unidos da América um alerta e uma recomendação diretamente do Departamento de Estado, do Pentágono e da CIA.
Para os norte-americanos era necessário impedir a posse de João Goulart a qualquer custo.
Pela altura, Goulart estava em missão oficial na República Popular da China, o que levou os ministros militares brasileiros a atribuírem ao fato um ato planejado, vinculado com um possível golpe comunista.
Porém, esta opinião não era consenso nas forças armadas, embora alguns setores tenham começado a articular um golpe para não deixar que Goulart assumisse a presidência.
Diante deste cenário, Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, apoiado pela população de seu Estado, mobilizou a 3º. Exército, o mais bem equipado e numeroso do Brasil.
Brizola conseguiu a adesão dos generais Oromar Osório, Peri Beviláquia e Machado Lopes para defender a democracia contra o golpe que estava sendo articulado.
No Rio de Janeiro, São Paulo e outros Estados, oficiais subalternos se rebelaram contra seus comandantes, os quais estavam envolvidos no golpe que queria impedir a posse de Goulart.
O governador de Goiás, Mauro Borges, mobilizou civis para lutar contra a insurreição militar enquanto foram iniciadas greves nas principais e maiores cidades brasileiras.
A Casa Branca em Washington, contrariando as orientações anteriores, emitiu uma manifestação do presidente John Kennedy, afirmando que os Estados Unidos da América suspenderia o apoio financeiro ao Brasil em caso de golpe militar.
Tratava-se uma postura contrária as rupturas da legalidade na América Latina já declarada na Conferência de Punta Del Este.
Assim, os militares golpistas, cercados por todos os lados tiveram que recuar, sendo forçados a aceitar a investidura de Goulart, o golpe fracassou antes mesmo de começar.
Entretanto, a pressão exercida pela possibilidade de uma guerra civil, fez os parlamentares brasileiros promulgarem uma emenda constitucional que estabelecia o parlamentarismo, transferindo os poderes do presidente para um primeiro ministro.
O então deputado Tancredo Neves, do PSD, foi quem encaminhou a negociação do acordo para acalmar os militares, combatida pela maioria do PTB.
Na ocasião, o deputado Almino Afonso escreveu a Goulart:
“O parlamentarismo, agora, é golpe branco das forças reacionárias; é o mesmo golpe, em termos civis, que os militares tentaram dar. É eminentemente reacionário. Não significa apenas um veto ao seu nome. É o veto a todos que se propõem a defender as teses que correspondem hoje aos interesses do povo”.
Na opinião de Almino Afonso, o parlamentarismo não iria solucionar a crise política e só iria adiar um conflito com os militares.
Uma postura partilhada por Leonel Brizola, que também se opôs ao regime parlamentar, afirmando que a sua aceitação equivalia a perder na mesa de negociações a vitória conquistada nas praças públicas e quartéis.
Brizola achava que o 3º. Exército deveria marchar contra Brasília para entregar o poder a Goulart, fechando o Congresso por violar a legalidade, convocando uma nova Constituição dentro de sessenta dias.
Pensando nestas opiniões e no respaldo que estas figuras tinham, Goulart agregava condições para liderar uma Revolução, tal como ele próprio admitiu, pois dispunha do apoio de setores do exército, das milícias estaduais e da maior parte da população brasileira.
No entanto, ao contrário de Jânio Quadros, não queria se tornar um ditador, era pela democracia, acatando a imposição do parlamentarismo.

Concluindo.
Fruto de um longo processo iniciado na década de 1930, a experiência parlamentarista no Brasil durou pouco, vigou apenas entre setembro de 1961 e janeiro de 1963, o povo não referendou a tentativa de transformar o presidente João Goulart em figura quase decorativa.
Após o antagonismo de forças criadas pela industrialização iniciada por Vargas, com o fortalecimento de uma classe proletária em oposição a uma burguesia ligada ao capital internacional, o país foi se tornando um barril de pólvora prestes a explodir, cheio de contradições cada vez mais gritantes e conflitos sociais.
Através do parlamentarismo, Tancredo Neves tornou-se o primeiro-ministro, nomeado pelo Congresso, mas a emenda constitucional numero quatro exigia um plebiscito popular que referendasse a mudança de regime político ao final do mandato de Goulart.
Em meio a uma intensa crise econômica, a pressão popular fez o plebiscito ser antecipado para o dia 23 de janeiro de 1963.
A imensa maioria da população votante disse não ao parlamentarismo, optando pela volta do regime presidencialista.
Foi quando Goulart realmente ascendeu ao poder, enfrentando uma inflação anual que chagava a 50%, enquanto o Produto Nacional Bruto (PNB) tendia a diminuir.
A indústria baseada na substituição de importações havia chegado ao seu limite, principalmente por conta da redução de demanda devido à perda do poder de consumo da população.
O desemprego crescente, somada a inflação alta que empobrecia os assalariados fazia estourarem greves e agitações lideradas pelos sindicatos e partidos de esquerda.
Os trabalhadores que estavam empregados tentavam defender os seus salários da inflação, sem sucesso, a qual terminava por beneficiar especuladores e setores da elite.
Na zona rural, também sofrendo os reflexos da crise, os camponeses começavam a se articular para lutar pelo direito a posse de terras, formando sindicatos e ligas.
Eis a situação encontrada por Goulart ao assumir de fato o governo do Brasil.
Para tentar contornar a crise, ele elaborou um plano de reformas de base, dentre as quais a mais importante a reforma agrária.
A idéia era aumentar o nível de renda e ampliar o mercado consumidor interno através da redistribuição de terras aos trabalhadores rurais.
Latifúndios improdutivos seriam desapropriados, com indenização aos proprietários.
Destarte, Goulart tendia a seguir uma linha nacionalista, pretendendo diminuir a remessa de lucros das multinacionais.
Uma questão que fez multiplicar os choques com os Estados Unidos da América, que não mais sob o governo Kennedy, assassinado em 22 de novembro de 1963, havia mudado sua orientação, agora a favor da implantação de ditaduras de direita na América Latina como forma de combate ao alastramento do comunismo.
Internamente, as classes dominantes estavam preocupadas com os planos do novo governo e com a força dos movimentos de esquerda.
Dois fatores que, somados a outros, implicaram no golpe militar de 1964, o qual iniciou um regime ditatorial no Brasil que duraria até 1985.

Para saber mais sobre o assunto.
BANDEIRA, Moniz. O governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil – 1961-1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
BRANDÃO, Antonio Carlos & DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 1990.
DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1981.

Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A banalidade da preocupação estética contemporânea: reflexões contra a massificação da busca pela felicidade no corpo perfeito.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume abr., Série 13/04, 2011, p.01-07.


À velha questão filosófica “Quem sou? De onde venho? Para onde vou?”, alguém respondeu, “Sou fulano. Venho de casa. Vou para casa”.
Entre frívola e cruel, a ironia, dá no que pensar, não fosse seu sentido etimológico: - do grego eironeia - interrogação, questionamento sobre si mesmo, a vida, a sociedade e a ordem do mundo.
Penso na coisa quando leio os jornais.
Longe de qualquer interpretação metafísica, fico mesmo é com a sensação concreta de que estamos reduzidos a um movimento pendular, movimento que é defesa contra o sofrimento e saída frente ao espetáculo das ruas.
O mundo contemporâneo, no entanto, não pensa com esta profundidade, estamos mergulhados na frivolidade da estética.
Talvez, por isto, pensemos mais na beleza do que na feiúra, sem nos preocupar com o que de fato poderia conduzir a felicidade.


A feiúra está presente entre nós?
A feiúra é universal, onipresente.
Ninguém ousou escrever sua história, nem aquela da solidão e da dor que são suas conseqüências mais imediatas.
Há séculos, os feios servem de bode expiatório às sociedades muito seguras de suas verdades ou do discurso de suas elites, sempre dispostas a determinar o modelo ideal de “patricinhas & mauricinhos”, “peruas & marombeiros”.
Com a supremacia da imagem na vida do homem moderno, os anos 90 continuam a instaurar a tirania da perfeição física.
Hoje, todos querem ser sadios, magros, jovens.
Grassa uma verdadeira lipofobia.
Todos parecem querer participar da sinfonia do corpo magnífico quase que atualizando as intolerantes teses estéticas dos nazistas.
Na outra ponta, criaturas como madre Teresa de Calcutá conheciam de perto os horrores do sofrimento físico.
Em uma entrevista, ela dizia que o trágico da “feiúra” de um leproso, era a sua solidão, o fato de ser indesejável, não amado, rejeitado.
Que se podia fazer tudo por um corpo em sofrimento, mas nada por esse “outro” sofrimento feito de negação.
Anônimos, os que não são belos, simplesmente recusam seus corpos.
Tanto mais quanto vivemos hoje a supremacia da aparência.


A massificação da estética.
A fotografia, o filme, a televisão e o espelho das academias dão ao homem moderno o conhecimento objetivo de sua própria imagem.
Mas, também, a forma subjetiva que ele deve ter aos olhos de seus semelhantes.
Em uma sociedade de consumo, a estética aparece como motor do bom desenvolvimento da existência.
O hábito não faz o monge, mas quase...
A feiúra é vivida como um drama.
Daí a multiplicação de fábricas de “beleza” cujo pior fruto é a clínica de cirurgia plástica milagrosa.
Os pagamentos a perder de vista, com “pequenos juros de mercado”, parecem garantir, graças às próteses, a constituição de um novo corpo: formal, mecânico, teatral.
Corpo que é a efígie do desejo moderno, desejo derrisório de uma perpétua troca das peças que envelhecem: de nádegas às coxas e panturrilhas.
 Essa relação com o corpo implica em opiniões contraditórias.
Os adversários da cirurgia estética recusam-se em acordar ao corpo uma importância que valha a pena modificar.
O que conta é a alma ou o espírito.
O desejo de modificação torna-se para alguns até mesmo suspeito.
Os partidários, por sua vez, acreditam que a forma corporal é uma realidade cujo papel na vida cotidiana está longe de ser pequeno.
A cirurgia, aqui, é um elemento importante para o equilíbrio psicológico e seus desdobramentos: o casamento feliz, o sucesso profissional!
As pessoas pouco percebem que a chave de um bom relacionamento com a vida, passa por certa dose de inteligência, carinho e alegria.
Pelo menos é o que afirmam os especialistas!
O tal equilíbrio passa, também, por uma constatação à qual é dada pouca atenção: o culto a beleza, e exclusivamente a ela, é perigoso.
Estando intimamente ligado aquele da juventude e do efêmero, torna-se um desafio ao tempo, e mais dramático, ao homem ele mesmo.
Pior é quando um modelo de beleza nosso, mestiço, passa a ser ameaçado pelo que vem de fora.
Entre nós, aumenta assustadoramente o número de mulheres que opta pela imagem da “Barbie” americana, dona de volumosos seios de plástico, cabeleiras louras falsas e lábios de Pato-Donald.
No outro extremo encontramos a androginia mais absoluta, onde cada um quer ter as formas do outro, com todas as suas conseqüências.
Inclusive aquela terrível, de que quando nossas preocupações físicas tomam a frente, elas significam o medo e a recusa dos que não são como nós.
Mal se percebe que nossa sociedade valoriza não a identidade, mas a identificação.
Os pequenos defeitos, que outrora davam charme a uma mulher, estão em baixa.
Ora o Brasil é um país mestiço.
Nossos corpos são o resultado de uma longa história biológica onde se misturam índios, negros, brancos de vária procedência e amarelos.
O resultado foram ancas, cabelos crespos, a maneira ondulante de andar e o que Gilberto Freyre chamava de “morenidade”.
É preciso proteger e libertar nossa sociedade do que ela pode fazer com ela mesma.
É preciso proteger nela a sua integridade, a sua identidade subjetiva e genealógica, a dignidade de suas formas e das suas cores originais contra o materialismo e o desmantelamento do corpo.
Xô Barbies, próteses, anabolizantes, anoréxicas e oxigenadas!
Abaixo a insistência em fabricar mulheres sem marcas, nem diferenças capazes de individualizá-las.
Num país onde são tantas as variáveis corporais, onde graças e desgraças são distribuídas de acordo com as diversas heranças biológicas e sociais, a imposição de um modelo “perua” importada só é bom quando se trata de veículo de passeio sobre quatro rodas!


A estética como fuga da realidade cotidiana.
Que vivemos nossas guerras particulares não há dúvida.
Que nossas cidades estão em farrapos, tampouco.
Todos conhecemos o rol das violências pequenas, médias e grandes nas quais vamos nos enterrando, ao ir e vir de casa.
Regressar, física e psicologicamente ileso, já é um milagre.
Mas volto à resposta acima para pensar que frente às grandes questões que atravessam nossa sociedade, esta tem retrucado com ironia: ou seja, com o sentimento de abdicar da realidade em favor de uma piada, de alguma coisa invisível, de um profundo relativismo.
Sempre que se aproximam as eleições, as grandes questões vão voltam a constituir plataforma eleitoral.
É tempo de ouvir falar de combate à violência, à corrupção, aos menores cheirando cola, aos seqüestros, à miséria.
Mas a interrogação colocada pela ironia é: o que vou fazer, além de me chamar fulano e de ir e vir de casa?
As pessoas se preocupam mais com sua aparência física do que com as questões que realmente importam.
Houve um tempo em que a sociedade brasileira esteve extremamente mobilizada.
Nos anos 60, o arrocho salarial uniu, na mesma frente, os sindicatos e a classe média.
Entre 1979 e 1985, diferentes setores se organizaram, exigindo a redemocratização do país.
Organizações de bairro, movimentos populares, associações e comitês, na cidade e no campo, pressionaram muitas vezes, com sucesso, por tarifas sociais de água e esgoto.
Saúde e ensino estavam no centro do debate, lógico.
Clubes de Mães, Pastorais e Grupos de Mulheres Trabalhadoras denunciaram a precariedade ou ausência dos serviços coletivos municipais.
Sem falar dos cara-pintadas e do impeachment de Collor.
Hoje, contudo, ficamos na ironia.
Talvez, como remédio para a decepção ou como antídoto ao desencantamento.
Ficamos no “faz parte”.
Só que isto não basta.
É preciso transformar a ironia em consciência, deixar de lado o eu para se preocupar com o nós.
Nem que seja para constatar que do jeito que estamos, somos nada.
O que implica abandonar as questões estéticas.
Mas, fazendo isto, é possível ser feliz?


É possível ser feliz sem se preocupar com a beleza?
A felicidade é possível?
Para o filósofo Aristóteles, ela era o “soberano bem”.
O iluminista Voltaire retrucava, dizendo que tanto “o soberano bem quanto o soberano mal eram quimeras”.
O cristianismo promete o bem para depois: no além.
Aqui, só a caridade pode servir como garantia para um duplo benefício: o prazer imediato e a salvação eterna.
O pessimista Arthur Schopenhauer, autor do opúsculo consagrado à Arte de ser feliz, chorou o suicídio de seus irmãos e assistiu a própria mãe tomar o partido do amante contra ele.
Ainda assim, preferiu deixar “cinqüenta regras de vida” suscetíveis de tornar o mundo um lugar menos difícil.
Seu conselho?
Não alimentar ilusões e gerir a vida evitando sofrimentos aos outros e a si próprio.
A regra número dois aconselhava a fugir da inveja como o diabo da cruz.
A quarenta e oito, bastar-se a si mesmo.
Resumindo o que nos diz esse que foi uma os maiores pensadores da primeira metade do século XIX, a arte de ser feliz repousa numa lição bem simples: contentar-se com o que se tem, rejeitar os desejos inúteis e satisfazer-se com as coisas simples da vida.
Em suma, o que hoje poderíamos tomar como abandonar a busca pela perfeição estética, concentrar-se na vida.
Um raio de sol inundando o quarto pela manhã, por exemplo, fazia a felicidade de um dos conhecidos personagens da escritora Virgínia Woolf.
A pergunta de Schopenhauer está na moda.
As editoras não têm mãos a medir com títulos como A arte da felicidade ou Platão, Prozac não.
Elas, contudo, não nos fazem pensar em como essa idéia de felicidade deixou para traz o gosto da simplicidade, a temperança, os pequenos “nada” que fazem a vida cotidiana.
Um banho de olhos fechados, a fruta no pé, o barulho da chuva.
Nossa cultura, hoje, vive outro modelo.
Um modelo baseado na realização a qualquer preço, na busca ilimitada de prazeres, na exaltação dos sentidos.
A felicidade tem forma, cor e cheiro de tudo que é veloz, raro e trepidante.
Segundo filósofos como Michel Onfray, o modelo hedonista da felicidade individual e material possui várias versões.
Uma versão erótica do tipo os prazeres da carne, da cama à mesa.
Uma versão aventureira e esportiva do tipo “a escalada do Everest de patins”, uma romanesca do gênero, “sua vida é uma novela”, enfim, vale tudo para viver a euforia perpétua e o dever de ser feliz!
Outra tradução do hedonismo moderno, segundo o autor, é o utilitarismo: o bem estar material, o conforto, a expansão contínua de coisas, o cuidado de si.
Nada de “bem aventurados os pobres, pois deles será o reino de Deus”.  


Concluindo.
Depois da Segunda Guerra, o sonho era ter um carro, filhos formados e churrasqueira na casinha de campo.
Nos anos 70, tudo isso parecia repetitivo e excessivamente burguês.
O melhor seria a vida libertária, a evasão, o “peace and love”.
Trinta anos depois, os sonhos coletivos de revolução social desapareceram, dando lugar a sede de viver: culto ao corpo, ao sexo, ao lazer.
O sistema integrou tais valores em modelos de consumo enquanto a mídia bombardeia a mensagem ditatorial: sejam felizes.
A ordem cobre de críticas quem não o é.
Depois disso tudo, o século XXI vai ter que reinventar a felicidade.
Ou ficar com a conclusão de Schopenhauer: “não temam a felicidade. Ela não existe”.  


Para saber mais sobre o assunto.
DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo, Condição Feminina, Maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. São Paulo: UNESP, 2009.
DEL PRIORE, Mary. Corpo a corpo com a mulher: uma pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil. São Paulo: SENAC, 2001.
DEL PRIORE, Mary. “Cultura, representações e práticas sociais: a revolução do espírito” In: José Jobson Arruda & Luís Adão da Fonseca. (Org.). Brasil-Portugal: História, agenda para o milênio. São Paulo: Fapesp / EDUSC / ICCTI Portugal, 2001, p. 509-522.
DEL PRIORE, Mary. História do amor. São Paulo: Contexto: 2006.
DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.
DEL PRIORE, Mary (org.). História do Esporte no Brasil do Império aos nossos dias. São Paulo: UNESP, 2009.
DEL PRIORE, Mary. L'Histoire de la vie privée dans le monde luso-americain: l'exercice d'une nouvelle approche? In : Cahiers de L'histoire Du Brésil. Paris : Sorbonne, 2000.


Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.