Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Noticias e Eventos – Boletim 2.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 25/03, 2011.


A Atlântida pode ter sido descoberta na Espanha.
Segundo informação divulgada pela Revista Época (nº. 670), a lendária civilização da Atlântida pode realmente ter existido.
A cidade, descrita pelo filósofo Platão na antiguidade, referencia de avanço técnico e cultural para gerações que perpetuaram o mito, a qual estaria localizada em uma ilha, pode ter sido afundada por um tsunami, semelhante ao ocorrido no Japão recentemente.
Baseados nos textos de Platão, estudiosos já haviam especulado que a Atlântida seria na verdade parte do continente Americano, enquanto outros diziam que era uma ilha no meio do oceano Atlântico ou do mar Mediterrâneo.
Acontece que uma equipe de pesquisadores, formada por profissionais de diversas nações, anunciou na semana passada que localizou a ilha, usando imagens de satélites obtidas por cientistas alemães.
Segundo o professor Richard Freund, da Universidade de Hartford (EUA), a mitológica Atlântida está a noventa e seis quilômetros da costa espanhola, no mar Mediterrâneo, onde hoje é o Parque Nacional de Doñana, na região de Cádiz sul da Espanha.
A principal evidencia da concreta existência da civilização são estruturas geométricas sob a água, semelhantes aquelas descritas por Platão.
Arqueólogos da equipe de pesquisadores afirmam que a ilha de Atlântida fazia parte de tartessos, uma civilização ibérica, anterior ao domínio romano sobre a região, sobre a qual existem provas arqueológicas incontestáveis da existência e elevado grau de avanço cultural.




Em 2014, o Brasil terá uma nova universidade voltada à integração Latino-Americana.
Será construído em Foz do Iguaçu, no Paraná, o campus da Universidade Federal da Integração Latino-America (Unila), um conjunto de 144.000 metros quadrados, com edifícios projetados por Oscar Niemeyer.
A idéia é abrigar 10 mil alunos e 500 professores de toda a América Latina, com cursos ministrados em português e espanhol.
O governo brasileiro pensa em reservar um numero de vagas fixas para alunos de cada nacionalidade, inicialmente, dos países pertencentes ao MERCOSUL, atraindo pessoas de diversas nacionalidades e fazendo o diploma brasileiro ser legalmente reconhecido nas nações parceiras.
O problema é que o projeto está causando polemica antes mesmo de sair do papel, pois o custo das obras seria de 550 milhões de reais, dos quais 2,5% estariam destinados a remunerar Niemeyer.
O pior de tudo é que o projeto já estaria aprovado, não tendo passado por licitação publica, a justificativa é o fato de Niemeyer ser considerado um profissional de “notória especialidade”.
O que legalmente dispensaria um concurso publico para escolher o melhor projeto.
Legal... Talvez realmente seja, resta saber se é ético.
Isto não importa, quem liga para ética no Brasil afinal?
Quem sabe o que significa conceitualmente ética afinal?
(Fonte: Revista Época nº. 670)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Considerações sobre a disciplinarização da infância no Brasil: menos palmadas para nossas crianças e mais escolas.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 24/03, 2011, p.01-10.


Há pelo menos duzentos anos, autoridades tentam redefinir o estatuto da criança.
Por volta de 1900, ela foi elevada ao papel central: amparada pela pediatria, puericultura e pedagogia, tornou-se o "reizinho da família".
Nessa mesma época, começou o combate ao trabalho infantil e ao abandono de crianças pelas ruas: coisa nada "civilizada"!

A reação oficial veio na forma da fundação de instituições de proteção à infância desamparada, assim como das primeiras escolas de ensino profissionalizante.

No início do século 20, "ser civilizado" significava tornar-se um trabalhador produtivo.
E a proteção à infância, uma forma de controlar os rebeldes e improdutivos.
Está na ordem do dia a "lei da palmada".
A sociedade reagiu: de acordo com sondagens, 54% são contra.
O governo contra atacou.
Ele, apenas, deseja que o Brasil esteja entre 30 países "civilizados", onde não existe castigo físico contra a criança e os Direitos Humanos são respeitados.
Mas acontece que a questão é mais complexa, as regras da vida coletiva estão em migalhas e a constatação é só uma: a pobreza afetiva e material de muitos não mudou.
Vivemos hoje no Brasil apenas uma continuidade, uma herança herdada desde o período colonial.



A educação ontem e hoje.
Na Colônia, Padre Anchieta já recomendava "castigar vícios, com açoites".
Para moralistas como o baiano Nuno Pereira, palmadas eram uma forma de "não deixar a perder os filhos".
No século 18, durante as Aulas Régias, embrião de escolas públicas, a palmatória era o instrumento de correção.
Seu uso perdurou até o final do século 19.
E ainda no Primeiro Congresso à Infância, realizado em 1922, havia quem defendesse o castigo corporal: "a criança ligará a idéia do bem ao que lhe é permitido, e de mal ao que lhe é vedado, e na linguagem familiar será bonita, se não desagradar, e feia no caso contrário."
Se há duzentos anos as autoridades tivessem compreendido que "civilizar-se" não era questão de castigar ou não crianças, mas de dar-lhes educação, boas escolas, professores bem formados, bem pagos e valorizados pela sociedade, não estaríamos discutindo, hoje, a "lei da palmada".


Novos ou velhos valores?
Monstro é a mãe que mata o filho.
E isto desde a noite dos tempos.
Dizem que nas penitenciárias femininas tais mulheres não podem ficar entre as demais detentas.
São maltratadas, quando não, mortas.

Tal crime é intolerável mesmo entre as mais bárbaras!

O infanticídio é imperdoável.

Como pode quem dá a luz, trazer o sono eterno?

O fato é que o gesto de tirar a vida de uma criança é velho como a História.
No século XVIII não foram poucos os manuais de confessores - livrinhos que o padre usava para se orientar na confissão dos fiéis - que recomendavam às mulheres não "afogar suas crias" na cama.
O recado era simples.
Não durmam com seus filhos para rolar sobre eles à noite, fingindo um acidente.
Outra sugestão: não deixe a criança pequena perto do fogo ou do fogão, para que se queime.
Não a deixe próxima de poços.
A lista do padre revela, contudo, o cotidiano de milhares de mulheres, de suas atribulações e das condições em que crianças indesejadas desapareciam.
Ficou famoso em São Paulo de outrora o lixão que existia ao lado do convento de Santa Teresa, na atual praça da Sé.
Não foram poucas as autoridades que, de passagem pela cidade, alojadas na instituição religiosa, descobriam, ao abrir a janela de manhã, restos de crianças entre restos de comida.
A revolta era grande.
Os sermões dominicais vinham carregados de ameaças.
Mas o silêncio também era grande e as crianças continuaram como pasto para porcos e cachorros por muito tempo.
Antigamente existia a "roda dos expostos".

O enjeitado era colocado num funil de madeira, cravado no muro da Santa Casa de Misericórdia.

A mãe tocava uma sineta e a mão da caridade recolhia a criança do outro lado. Houve aquelas que deixavam um bilhetinho.

Uma nota explicando as condições do abandono: pobreza extrema, doença dos pais, adultério.
Outras deixavam um enxoval, uma medalhinha, um nome escrito num pedaço de papel.
Eram nomes complicados: Napoleão, Heródoto, Caio Graco.
A intenção era poder recuperar, um dia, o filho de volta.
Com um nome destes, ninguém se enganaria.
Mãe e filho com nome esquisito se reencontrariam num abraço apertado.
Tinha, também, os que eram abandonados nas portas de casas de família.
Recolhidos "por amor de Deus", cresciam e se tornavam filhos de criação.
Às vezes com o mesmo carinho dos filhos de sangue.
Às vezes servindo de escravos disfarçados, pagando com serviços a vida que lhes foi poupada.
No campo, eram rapidamente inseridos na família.
Afinal, ganhava-se um braço para o trabalho na lavoura.
Isto tudo para chegar no abandono e morte de mais crianças indefesas.
Os jornais protestam.
Os radialistas se perguntam que febre é esta que transforma a mãe em monstro.
Alguns associam infanticídio e dificuldades para abortar.
Mulheres ricas - explicam - abortam no sigilo e segurança de clínicas privadas.
As pobres jogam seus filhos nos rios, lagos e outras profundezas. Discordo.
No passado, o aborto era tão difícil para ricas quanto para pobres.
Os riscos eram os mesmos: condenação social, doença e morte.
E abortos já conviviam com infanticídios.
Um não excluía o outro.
A explicação é sempre a mesma: miséria, doença dos pais, vergonha, desamor.
A diferença é que, nos tempos antigos, nossa sociedade acreditava em fazer o bem.
A caridade era parte integrante dos valores das famílias, independentemente do seu credo, origem e cor.
Tinha até a Misericórdia.
Ajudar, ser útil, dar a mão, era o bê-á-bá.
As crianças indesejadas acabavam por encontrar seu espaço em algum lar.
Uma mãe adotiva, a do coração, em algum lugar.
Hoje, ninguém tem mais tempo para isto.


Um novo conceito de família.
Depois da 2ª Guerra Mundial, o Brasil viveu um momento de ascensão da classe média.
O carro se popularizou, assim como a piscina de clubes, o cinema, as viagens.
Jovens podiam passar mais tempo juntos e a guarda dos pais baixou.
Filmes americanos seduziam brasileiros e não foram poucos os que aprenderam a beijar vendo Humphrey Bogart e Lauren Bacall, casal de amantes na vida real.
As revistas femininas tinham, então, um papel modelar no que dizia respeito à vida amorosa.
Querida, ou sessões femininas em O Cruzeiro, vendiam a idéia de que ser mãe e dona de casa era o destino natural das mulheres, enquanto a iniciativa, a participação no mercado de trabalho, a força e o espírito de aventura definiriam a masculinidade.
Não importavam os desejos, o que contava ainda eram as aparências, pois, segundo tais revistas, "mesmo se ele se divertir, não gostará que você fuja dos padrões e fará fofoca a seu respeito na roda de amigos".
Durante os chamados Anos Dourados, aquelas que permitissem liberdades acabavam sendo dispensadas e esquecidas, pois "o rapaz não se lembrará da moça, a não ser pelas liberdades concedidas".
Mantendo a velha regra da submissão feminina, eram os homens que escolhiam e, com certeza, preferiam as recatadas, capazes de se enquadrar nos padrões da "boa moral & boa família".
O bem-estar do marido era a medida da felicidade conjugal, e esta adviria de um marido satisfeito.
E qual era a fórmula?
Seu primeiro componente eram as "prendas domésticas".
Afinal, a mulher conquistava pelo coração e prendia pelo estômago.
Brigas entre o casal?
A razão era sempre do homem.
As mulheres deveriam resignar-se, em nome da felicidade conjugal.
Nada de enfrentamentos.
O "temperamento poligâmico" dos homens justificava tudo: "mantenha-se no seu lugar, evitando a todo o custo cenas desagradáveis, que só servirão para exacerbar a paixão de seu marido pela outra."
Afinal, no entender dessas conselheiras sentimentais, "o marido sempre volta".
Entre os anos 70 e 80, a pílula anticoncepcional, a migração campo-cidade e a explosão urbana ajudaram a mudar os papéis na família.


Começou-se a discutir o desejo de multiplicidade de parceiros sexuais, e a estabilidade sexual, necessária aos filhos, o lar e a carreira.

Graças à disseminação da pílula, as mulheres conquistaram espaço no mercado de trabalho.

Os álbuns de família ganharam novos atores: madrastas, padrastos, meio-irmãos e produções independentes.
Segundo cálculos do IBGE, na última década, 47% dos domicílios tiveram pais ausentes.
Muitos desses, caracterizam-se por ligações consensuais temporárias.
Os avós têm novo papel: criar e educar os netos, repartindo com pais biológicos responsabilidades, inclusive financeiras.
Os divórcios triplicam-se e há uma diminuição de 12% nos casamentos.
Uma mudança importante se dá para as minorias: os homossexuais começam a sair do armário.
É o começo do fim de uma sociedade que produzia sofrimento, graças ao jogo da repressão, do interdito, da miséria sexual.
O destino individual se sobrepõe ao familiar ou coletivo.
Condições econômicas, o crescimento da vida urbana e do individualismo autorizam tal transformação.
Começa a caminhada para uma nova definição de casal: "ser livre junto."
Para melhorar o quadro geral, o Viagra aterrissa aqui com estardalhaço.

Põe fim às dolorosas injeções, bombas a vácuo e simpatias curativas, usadas para afastar o medo de falhar.


Se até então a vergonha cobria o assunto, o tema passa a invadir a mídia.
Para a família, o aumento da participação feminina no mercado trouxe pelo menos duas mudanças: o homem perdeu o status de único provedor; a mulher, a resignação.
À medida em que ela se tornou financeiramente mais independente, ficou menos disposta a suportar uniões infelizes.
Agora parece buscar, sobretudo, qualidade na vida a dois.
Nas últimas décadas teve início um outro movimento, fruto de séculos de transformações: o que procurou separar a sexualidade, o casamento e o amor.
Foi o momento de transição - muito lenta - entre o amor idílico dos avós para a sexualidade obrigatória, dos netos.
Ninguém mais se casa, sem "se experimentar"; jovens consideradas por seus parceiros "frígidas" são descartadas dos jogos amorosos; as mulheres começam a falar sobre orgasmo.
O domínio da reprodução, graças à pílula, vai consolidar essa liberação.
A ciência vai se impondo sobre a idéia de pecado sexual.
As coisas mudaram.
Apesar dos riscos da AIDS, a sexualidade desembaraçou-se da mão da Igreja, separada da procriação, graças aos progressos médicos.
E mais: foi desculpabilizada pela psicanálise, e mesmo exaltada. Hoje, a grande ausência de desejo é que é culpada.
O casamento de papel passado não é mais obrigatório e escapa às estratégias religiosas ou familiares; o divórcio não é mais vergonhoso e os casais têm o mesmo tratamento perante à lei.
A realização pessoal coloca-se acima de tudo.
Mas tudo isso são conquistas ou armadilhas?
Os historiadores de amanhã o dirão.


Concluindo.
Na passagem para o século XX, nos colégios e instituições disciplinares, começou-se a discutir a substituição da disciplina violenta por aquela "inteligente", preocupada em construir cidadãos modernos.
Até o século XIX, a idéia era moldar o caráter, e não o físico infantil.
Lentamente, aposentou-se a palmatória e o banco do desprezo - onde se sentavam com letreiros os vadios, comilões e desordeiros.

Mas como fazer "cidadãos modernos" dentro de casa?


Ali, todas as crianças eram educadas sob "rédeas curtas" e a obediência era norma.
No caso de transgressão, castigos eram considerados normais.
Buscava-se imprimir nos pequenos um comportamento adulto - sobretudo entre pequenos trabalhadores do campo e das cidades.
Os pais não castigavam por maldade ou pelo prazer de cometer violências.
Havia, sim, uma preocupação pedagógica: era necessário fazer a criança ter responsabilidades.
"O castigo era para o seu bem", "para aprender a ser gente".
Tais expressões justificavam o processo de disciplinarização, usado para mantê-la dentro dos códigos de boa conduta e da ambicionada imagem de "civilidade".
Ora, o castigo pedagógico era uma tradição.
No entanto, diante da individualização afetiva, do narcisismo que conduz ao retorno do desapego afetivo dos pais para com os filhos, das novas definições de família, nem sempre bem delineadas; como manter esta tradição?
Existem boas razões para sustentar o direito dos pais em aplicar umas palmadinhas.
Simultaneamente há motivos de sobra para que a preocupação com possíveis excessos se justifique, diante de casos e mais casos de violências e assassinatos cometidos por familiares daqueles que, em tenra idade, não possuem ainda a capacidade de se defender sozinhos.
Menos palmada? Sim. Mas, sobretudo, mais e melhores escolas, por favor.


Para saber mais sobre o assunto.
DEL PRIORE, Mary. A Família no Brasil Colonial. São Paulo: Editora Moderna, 1999.
DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo, Condição Feminina, Maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. UNESP: São Paulo, 2009.
DEL PRIORE, Mary. “A vida cotidiana no Rio de Janeiro” In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 436, 2007, p. 313-333.
DEL PRIORE, Mary. A História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999.
DEL PRIORE, Mary. “Crianças e adolescentes de ontem e de hoje “ In: Helena Bocayuva e Sílvia A. Nunes. (Org.). Juventude, subjetivações e violências. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009, p.11-24.
DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.
DEL PRIORE, Mary. L'Histoire de la vie privée dans le monde luso-americain: l'exercice d'une nouvelle approche? In : Cahiers de L'histoire Du Brésil, Sorbonne - Paris, 2000.



Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Os estudos de Durkheim.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 21/03, 2011, p.01-07.


Apesar de Comte ser considerado o pai da sociologia, a participação de Émile Durkheim (1858-1917) não foi menor.
Ele foi responsável pela introdução da área nos currículos das universidades, quando se tornou de fato uma disciplina reconhecida como cientifica.
Escreveu várias obras e pesquisou temas diversos, incluindo o estudo sobre o suicídio, dentre as quais podemos destacar:
Da divisão social do trabalho.
As regras do método sociológico.
O suicídio.
Formas elementares da vida religiosa.
Educação e Sociologia.



Os fatos sociais.
Na obra As regras do método sociológico, Durkheim definiu o objeto de estudo da sociologia como os fatos sociais.
Um fato social, que não deve ser confundido com um padrão social, seria um acontecimento ou ação relevante para o funcionamento da sociedade.
O fato social seria determinado pela coerção social, fazendo os indivíduos se conformarem com as regras impostas pela sociedade, independente de sua vontade.
O grau de coerção dos fatos sociais seria determinado pelas sanções, os impedimentos que o individuo está sujeito quando tenta se rebelar contra a coerção.

Neste sentido, as sanções seriam legais ou espontâneas.

Sanções legais são aquelas impostas pela sociedade através das leis, colocando penalidades institucionalizadas aos infratores.
Quando um indivíduo comete um ato considerado criminoso, ele nada mais faz que infringir uma regra imposta pela sociedade e transformada em lei.
Sanções espontâneas são impostas pela estrutura do grupo ao qual o individuo pertence ou pela sociedade como um todo, isolando o individuo e conduzindo ao suicídio no seu extremo.
Neste caso, não precisam existir nem ao menos regras explicitas de convivência, basta que fique subentendido, por exemplo, que para pertencer a determinado grupo, o individuo deve se vestir de determinada maneira.
O simples fato de se vestir diferente ou não falar as mesmas gírias gera o isolamento do infrator.
Portanto, o fato social é o registro do comportamento que é imposto pela coletividade, podendo ou não constituir um padrão.
Embora, com o tempo, um fato social repetido constantemente conduza a formação de um padrão social.
Dentro deste contexto, a educação age como elemento de coerção, tanto na variante formal como informal, internalizando e transformando regras e hábitos, interferindo na formação de padrões sociais.


A crítica ao positivismo.
Apesar de Durkheim, nos seus estudos iniciais, seja identificado como positivista; após identificar os fatos sociais, procurou definir o método de conhecimento da sociologia.
Ao fazê-lo estabeleceu uma critica ao positivismo, mantendo, contudo, características muito próximas a metodologia desenvolvida por Comte.
Para Durkheim, a explicação cientifica exige que o pesquisador mantenha distância e neutralidade em relação aos fatos, deixando de lado a afetividade e os valores particulares.
O sociólogo deveria abraçar a objetividade em sua análise.
Características que, na concepção de Durkheim, o positivismo não tinha, já que a tendência defendia um envolvimento do pesquisador com seu objeto de estudo para manipular os padrões sociais.
Entretanto, semelhante ao positivismo, Durkheim reafirmou a idéia de que a metodologia sociológica deveria englobar a medição, observação e comparação.
A sociologia deveria identificar os acontecimentos gerais e repetitivos relevantes para o entendimento da sociedade, ou seja, os fatos sociais.


A sociedade como organismo vivo.
Semelhante a Comte, Durkheim achava que a finalidade da sociologia seria encontrar soluções para os problemas verificados na vida social.
Para ele, a sociedade funcionaria como um organismo vivo, apresentando estados normais (saudáveis) e patológicos (doentios).
Diferente do positivismo, Durkheim não pensava em impor ordem à sociedade, já que a organização estrutural da sociedade seria natural, funcionando ordenadamente por si só.
É neste sentido que a sociedade funciona como um organismo vivo, onde, semelhante aos órgãos, cada função social depende das outras para existir.
O que faz a “consciência individual” dar lugar a “consciência coletiva” que, por sua vez, gera os padrões sociais.
Esta concepção originou a Teoria Funcional, segundo a qual, funcionando a sociedade como uma máquina, as engrenagens defeituosas devem ser excluídas da sociedade, sendo substituídas por novas peças.
Em outras palavras, em concordância com o sistema capitalista, o funcionalismo afirma que os indivíduos que não se encaixam devem ser excluídos da sociedade, para isto existe o sistema judiciário e penitenciário.
Dentro deste contexto, Durkheim pensou em estágios de evolução social, definindo as sociedades como inferiores ou superiores.
Tendo evoluído a partir da horda, a forma mais simples e igualitária de organização, a sociedade pré-capitalista teria sido organizada através da solidariedade mecânica.
A dita solidariedade mecânica é constituída pela coerção exercida pela família, religião e tradição dos costumes, formando a consciência coletiva.
O individuo seria compelido a se comportar em concordância com que o grupo espera dele simplesmente pela pressão exercida por aqueles próximos, evidenciando um comportamento involuntário e automático.
A partir do desenvolvimento do capitalismo, a solidariedade mecânica teria evoluído para a solidariedade orgânica.
Portanto, uma divisão do trabalho que possibilita o funcionamento da sociedade a semelhança de um organismo vivo.
Através da solidariedade orgânica, interesses individuais seriam suprimidos em favor das necessidades coletivas, pois, para realizar seus interesses, ele teria que ceder às necessidades de outros.
Haveria na solidariedade orgânica maior autonomia do que na mecânica, mas a própria estrutura social reduziria a consciência individual, fazendo o sujeito adotar valores de determinado grupo, anulando sua individualidade.
Para Durkheim, os conflitos sociais seriam transitórios e poderiam ser resolvidos a partir do momento em que os indivíduos aceitassem ocupar sua função e seu lugar na sociedade, o que seria imposto pela solidariedade orgânica.


O estudo do suicídio.
Durkheim se interessou pelo tema por enxergar nas altas taxas de suicídio, registradas na Europa no final do século XIX, um amplo campo que poderia fornecer material para consolidar a sociologia como ciência.
O culto a morte chegou a ser tão difundido no século XIX, glorificado na literatura pelo romantismo gótico, que o suicídio ficou conhecido como mal do século.
Estudando a elevação da taxa de suicídio em determinados anos, Durkheim observou que o principal fator que conduzia ao ato era a solidariedade social.
A solidariedade pode ser caracterizada como um sentimento de simpatia e identificação.
Enquanto, por um lado, o fracasso individual conduz o sujeito a sentir que falhou com o grupo, quando sua vida perde a razão de ser; por outro, níveis de interação social muito elevados também conduzem ao suicídio.
Neste ultimo caso, estes níveis de interação originam o chamado suicídio altruísta, como é o caso dos pilotos japoneses kamikazes na segunda guerra mundial, fazendo a vida do individuo, igualmente, perder sentido frente aos interesses da sociedade.
O altruísmo se refere ao sentimento que um individuo dá ou outro, importando-se mais com a coletividade ou com os outros do que com ele próprio, gerando atos desinteressados de beneficio a sociedade.
No entanto, segundo Durkheim, o caso mais comum de suicídio é aquele em que o sujeito não sente corresponder aquilo que o grupo espera dele, refletindo em uma sensação de exclusão social.
Ao mesmo tempo, o suicídio poderia ser motivado pelo fato do sujeito sentir que o grupo espera seu sacrifício, neste caso a exclusão aconteceria se o suicídio não fosse efetivado, a morte é que matéria o vinculo.
É o caso dos homens bomba.
Assim, tanto uma ausência de integração quanto uma integração intensa poderiam gerar o suicídio.
Os estudos de Durkheim inspiraram outros a continuarem o seu trabalho em torno do suicídio.
Viktor Frankl, por exemplo, aprofundou a pesquisa, dando origem a logoterapia, segundo a qual somente o sentimento de que outros dependem de dado individuo pode impedir tendências suicidas.
A palavra logoterapia, a partir do grego, significa terapia do mundo.
Um termo em concordância com o método de Frankl para testar se seu paciente estava curado.
Ele perguntava ao paciente o porquê ele se considerava curado, caso a resposta fosse de encontro a qualquer outra que não a relação de dependência e vinculo com o mundo, com outros indivíduos, o argüido não era liberado do tratamento.


Concluindo.
Em seus estudos, Durkheim termina admitindo que, embora a ordem seja natural, as rápidas mudanças provocadas pelo sistema capitalista, acabam gerando um estado de anomia, a ausência de norma.
Os indivíduos ficam desorientados frente esta característica da vida moderna.
Pensando na questão, afirmou que seria necessário estabelecer um sistema educacional que incentivasse a noção de disciplina, dever, respeito as leis e hierarquia.
Somente assim seria possível ajudar os indivíduos a se inserirem na sociedade, estruturando a coletividade a partir da exclusão dos elementos considerados doentes socialmente.
Porém, valorizando o funcionalismo, Durkheim esqueceu de avaliar o papel dos conflitos no interior da sociedade, também necessários para sua evolução, uma analise que seria iniciada por Karl Marx.


Para saber mais sobre o assunto.
CORTELLA, Mario Sérgio. A escola e o conhecimento. São Paulo: Cortez, 1988.
GOMES, Candido Alberto. A educação em novas perspectivas sociológicas. São Paulo: EPU, 2005.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
KRUPPA, Sônia. Sociologia da educação. São Paulo: Cortez, 2002.
MARTINS, Carlos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1985.
PETER, Ricardo. Viktor Frankal: A antropologia como terapia. São Paulo: Paulus, 1999.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFCH/USP.