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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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quarta-feira, 9 de março de 2011

A História Social como possibilidade de relembrar a Comuna de Paris de 1871.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 09/03, 2011, p.01-08.


Nesse ano de 2011, completam-se cento e quarenta anos de nascimento e fim da Comuna de Paris, o que nos leva a repensá-la e a novamente trazer à tona as inúmeras discussões historiográficas sobre o tema.
Foram inúmeros os trabalhos escritos e publicados sobre tal experiência histórica, desde seu fim definitivo em maio de 1871, cada um deles com um enfoque teórico diferente, mas sempre buscando compreendê-la em toda a sua complexidade.
Hoje, ao relembramo-la, vale a pena pensarmos também as maneiras de estudá-la, interpretá-la e mesmo buscar formas de reescrever esta história.
Isto, no entanto, nos leva a inúmeras indagações e discussões.
Por exemplo, é muito comum lermos que a Comuna foi uma tentativa derrotada de revolução social comunista ou mesmo uma experiência pequeno-burguesa e ingênua. 
Essas interpretações, carregadas de intencionalidades tão próprias do trabalhão dos historiadores e sociólogos, são expressão da própria diversidade de pensamento e ação dos seus militantes e da forma complexa e diversa como a temática foi organizada por eles.
A Comuna de Paris foi obra de militantes de inúmeras tendências político-ideológicas, como bakuninistas, proudhonianos, blanquistas, marxistas e republicanos.
Lutaram juntos contra o armistício proposto pelo Governo Imperial e, posteriormente, Republicano.
Houve uma união após a proclamação da república, incitada pela própria população de Paris, em 4 de setembro de 1870.
Além da contribuição da guerra franco-prussiana, considerada uma traição pela maior parte do povo de Paris, que buscava também, e acima de tudo, construir uma nova forma de organização da vida política, econômica e social.
Estas tendências não defendiam os mesmos métodos e princípios de organização social.
Bakuninistas defendiam a proclamação revolucionária de uma comuna livre e igualitária, a expropriação e a coletivização dos modos de produção, das terras e do trabalho.
Proudhonianos defenderam a Comuna como forma de organização de uma sociedade de livres produtores.
Blanquistas observavam-na como a possibilidade de construir um governo esclarecido e contrário ao armistício e a invasão prussiana.
Republicanos, pensavam-na como uma república popular e de defesa da pátria da ameaça estrangeira.
Marxistas, enxergavam na Comuna a possibilidade de luta para se chegar à ditadura do proletariado e à construção do comunismo.
Historiadores e militantes destas várias tendências buscaram interpretar a Comuna de Paris desde sua hecatombe e produziram grandes trabalhos historiográficos e sociológicos sobre o tema.
Cada um deles tentando explicar seu funcionamento e, principalmente, as razões de seu fim.


O materialismo histórico e a Comuna de Paris.
As variadas tendências político-ideológicas presentes durante os dois meses de existência da Comuna de Paris influenciaram as interpretações posteriores sobre ela e a historiografia sobre o tema.
Marx e Engels, por exemplo, afirmavam a Comuna como uma obra heróica de pessoas que deram a própria vida em nome da luta.
Porém afirmavam que, para ser vitoriosa, essa experiência deveria ter seguido o processo histórico inevitável, defendido por eles no “Manifesto Comunista” de 1848.
Ou seja, a Comuna haveria fracassado por causa de “circunstâncias históricas inevitáveis” (MARX e ENGELS, 1979, p.01).
Ela não teria obedecido nem o desenvolvimento das forças produtivas, nem a preparação do proletariado.

“Para que uma revolução social possa triunfar são necessárias pelo menos duas condições: forças produtivas altamente desenvolvidas e um proletariado bem preparado. Mas em 1871 estas duas condições estavam ausentes. O capitalismo estava ainda pouco desenvolvido e a França era sobretudo um país de pequena burguesia (artesões, camponeses, lojistas, etc). Não existia partido operário; a classe operária não tinha nem preparação nem grande arrebatamento e, no seu conjunto, não tinha mesmo uma idéia muito clara das suas tarefas e dos meios de as realizar. Não havia nem uma real organização política do proletariado, nem sindicatos nem associações cooperativas de massa” (LENIN, apud: MARX e ENGELS, 1979, p.21).

Dessa forma, a Comuna de Paris não havia obedecido às etapas, que segundo Marx e seu companheiro Engels, eram essenciais à vitória da classe operária para que alcançasse seu objetivo final: a ditadura do proletariado e, posteriormente, o comunismo.
Para o autor de O Capital, o movimento contava com militantes com “energia revolucionária, mas com pouca propensão para análise das condições objetivas da sociedade” (MARX, apud: GONZÁLEZ, 1982, p.96).
A Comuna não havia esperado que as condições históricas necessárias ao processo revolucionário tivessem se desenvolvido.
Tal modelo interpretativo não dá conta dos sujeitos atuantes na Comuna, da sua pluralidade de pensamentos e ações, dos seus vários componentes ideológicos, das ações reais do dia-a-dia, da nova organização do viver de sujeitos anônimos para a sociedade da época.
Esses sujeitos atuaram e lutaram sem se submeterem a modelos e a sujeitamentos, suas lutas foram autônomas e autogeridas.
Como já afirmava Thompson (2008), historiador marxista heterodoxo e defensor da história das pessoas comuns, os sujeitos atuam nas “fissuras” das relações de poder e dominação para construírem sua cultura e seu viver.

“[...] Revolução com autores. [...] Formaram um exército e um governo, dirigiram a cidade durante dois meses, promulgaram numerosos decretos. Exerceram o poder, desde o sufrágio universal até um póstumo ensaio de “terror”. As ideologias marcharam com o fuzil ao ombro, os fuzilados davam eles mesmos a voz de fogo, gritando “Viva a Comuna” e não faltou, à hora do testemunho final um emocionado e estranho. Viva a Humanidade” (GONZÁLEZ, 1982, p.107).


A História Social e a Comuna de Paris.
Como já observamos acima, embora sucintamente, outra maneira de se observar a e escrever a história da Comuna de Paris é a “história vista de baixo” ou das pessoas comuns - a história social.
Historiadores como Edward Palmer Thompson, Paul Thompson e o estudioso da Escola de Frankfurt, que escreveu teses sobre a história, Walter Benjamin, nos ajudam compreender essa corrente historiográfica desta experiência histórica, mesmo sem terem se dedicado ao estudo dela.
A História Social também foi utilizada pelos anarquistas das mais variadas correntes de pensamento e ação (bakuninistas, proudhonianos e comunistas) para contar a história da Comuna de 1871.
Walter Benjamin nos afirmava em seu último escrito Sobre o conceito de História (1940) que o termo História (Geschichte) “designa tanto o processo de desenvolvimento da realidade no tempo, como o estudo desse processo ou relato” (GAGNEBIN, apud: BENJAMIN, 1994, p.07).
Ou seja, designa uma realidade, um acontecimento que o historiador define como histórico e não é uma representação de algo que se apreende como um suposto real, não é somente um discurso, é o estudo de uma realidade ou de um relato sobre essa realidade realizado por um cronista que “[...] narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a História” (MENDES, 2010, p. 10).

“Pois um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois” (BENJAMIN, 1994, p.223).

O historiador, diferentemente do cronista que não é obrigado a explicar os episódios com que lida, é o responsável por buscar experiências vividas.
O historiador não se contenta em só representar as experiências, como faz um cronista, não estrutura apenas uma “transmissão pura do que está sendo narrado” (MENDES, 2010, p.10).
Ele tenta fazer uma reconstrução (e não reconstituição) de um passado que não existe mais.
Para tal, coloca sua subjetividade em ação, como colocava Paul Thompson em A voz do passado (1992).
Sob essa perspectiva, o historiador social, que busca experiências vividas nos dois meses de existência da Comuna de Paris, pode entendê-las a partir do que dizem seus militantes, através de suas memórias e relatos deixados para a posteridade.
A reconstrução da história de vida dessas pessoas deve levar em conta os ideais e concepções nas quais estavam envolvidas, nos quais buscavam explicações para suas vidas e sua militância e sobre os quais as próprias puderam imprimir suas próprias formas de pensar e agir (MENDES, 2010, p.10 e 11).
Essa constitui uma forma de deixá-las falar para se escrever uma história de um evento ora esquecido, ora estigmatizado por modelos interpretativos rígidos.
Entender as memórias pessoais e relatos do cotidiano dos participantes da Comuna significa resgatar a própria memória dessa experiência, relembrada hoje, mais de um século depois, como experiência de grande relevância histórica.
Em 26 de março de 1871 a população parisiense votou pela Comuna.
Soldados, exército e marinha entraram no edifício da Câmara Municipal com bandeiras e faixas vermelhas, assim como com o busto da República.
Dois dias depois, em 28 de março do mesmo ano, entre os intervalos dos tiros de canhão o povo proclamava a Comuna, aos gritos de “Viva a Comuna!”.
Esta população não acreditava que se deveria esperar um momento histórico específico para construir uma forma de viver de acordo com princípios de auto-organização e descentralização do poder, não foram ingênuos, nem assujeitados.
Lutaram até maio do mesmo ano, diante da implacável perseguição do governo republicano, instalado em Versalhes, empunharam armas, ergueram barricadas e organizaram uma nova estrutura de governo, descentralizado, para uma cidade já tão castigada pela guerra.

“[...] Haviam criado seus próprios espaços culturais, possuíam meios de fazer valer as suas normas, e cuidavam para receber o que lhes era devido. Talvez não fossem os direitos de hoje em dia, mas não eram sujeitos passivos da história”. (THOMPSON, 2008, p. 346).

As primeiras medidas da Comuna foram: a abolição dos cultos e proibição da venda de objetos Mont-de Pieté; a confiscação dos bens de raiz; a instituição de pensão para os federados feridos na guerra, revertendo-a para a mulher ou filho em caso de morte em combate do mesmo.



Além disto, instituíram a pensão alimentar dada as mulheres que se separassem com provas válidas; a abolição dos processos; interdição de investigações sem mandados regulares; a proibição da acumulação de empregos e fixação do ordenado máximo de seis mil francos anuais.

Para estimular a continuidade da luta promulgaram os pagamentos aos membros da Comuna de quinze francos por dia; a organização de um tribunal civil; aquisição de oficinas, abandonadas pelos donos, pelas sociedades do trabalho.
Foram mais longe ao estabelecer o pagamento de professores em dois mil francos; a derrubada da Coluna de Vendôme (erguida em homenagem a Napoleão); a proibição de multas nas oficinas; abolição de discursos políticos e profissionais; e o fim da execução dos prisioneiros de Versalhes (MENDES, 2010, p. 134) .
Não houve extinção da propriedade privada, nem expropriação dos meios de produção, como pensavam anarquistas e marxistas.
Nem por isso, seus militantes deixaram de lutar e acreditar no que até então era um sonho: a construção de uma nova sociedade.
Quando dissemos isso, não queremos dizer que se deva descartar tudo o que foi escrito até hoje sobre o período, nem os estudos baseados em modelos que afirmam a Comuna como vitoriosa ou perdedora, mas que devemos buscar novos olhares e uma história dos sujeitos atuantes, como defenderam os anarquistas, assim como historiadores Edward Palmer Thompson e Paul Thompson.
Pensar que uma experiência história somente perdeu ou venceu significaria abrir mão das vivências, da experiência histórica em sua complexidade e diversidade e, como afirmou Walter Benjamin nada do que já foi vivido pode ser considerado irrelevante para a história.
A Comuna de 1871 é um grande exemplo disso, e, por isso, buscamos relembrá-la e mesmo reescrever sua história nesse mês de março de 2011, cento e quarenta anos depois de seu surgimento.

“O historiador quer saber como viviam em tal época os membros de que se compunha tal nação, quais eram as suas crenças e os seus meios de existência, qual era o seu ideal social, e que meios possuíam para caminharem para este ideal. E pela ação de todas estas forças, outrora desprezadas, interpretará os grandes fenômenos históricos. [...] A história, depois de ter sido a história dos reinos, tende a ser a história dos povos, e, por fim, o estudo dos indivíduos”. (KROPOTKIN, 2001, p.30-31).

Certamente contar a história da Comuna significa contar a história dos indivíduos, como já defendia o anarquista Piotr Kropotkin no início do século XX.


Concluindo.
Pudemos perceber que a História da Comuna de Paris foi contada de inúmeras maneiras, assim como eram inúmeras as tendências políticas que estavam presentes nos seus dois meses de existência.
A História Social é uma dessas maneiras ela nos permite pensar a Comuna como obra de sujeitos históricos que pensaram e agiram para além das diferenças que ali estavam colocadas e guiados pelo sonho de construir uma nova forma de viver, não submissa a um governos único e aos modelos capitalistas de economia.


Para saber mais sobre o assunto.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
GONZÁLEZ, Horácio. A Comuna de Paris - os assaltantes do céu. São Paulo: Brasiliense, 1982.
KROPOTKIN, Piotr. A anarquia: sua filosofia, seu ideal. São Paulo: Imaginário, 2001.
MARX, Karl e ENGELS, Fredrich. A Comuna de Paris. Belo Horizonte: Aldeia Global, 1979.
MENDES, Samanta Colhado. As mulheres anarquistas na cidade de São Paulo (1889-1930). Franca: Unesp, 2010. Dissertação de mestrado. disponível em: http://www.franca.unesp.br/poshistoria/samanta.pdf
MICHEL, Louise. A Comuna 1. Lisboa: Editorial Presença, 1971.
MICHEL, Louise. A Comuna 2. Lisboa: Editorial Presença, 1971.
MICHEL, Louise. Cartas a Victor Hugo. Vinhedo/São Paulo: Ed. Horizonte, 2005. 
MICHEL, Louise. Mis recuerdos de la Comuna. México. D. F: Siglo Veintiuno Editores, 1973.


Texto: Profa. Ms. Samanta Colhado Mendes.
Graduada em História e Mestre em História e Cultura Social pela Unesp.
Membro do Conselho Editorial de “Para entender a história...”

terça-feira, 8 de março de 2011

A questão do cristianismo e do trabalho compulsório na América Portuguesa.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 08/03, 2011, p.01-10.


O presente trabalho pretende fazer uma análise da questão do catolicismo e a escravidão indígena no Brasil colonial, fazendo uma pequena reflexão a cerca das práticas adotadas pela Igreja representada pelos jesuítas no intuito de converter os índios e os objetivos dos colonos em aproveitar-se da mão-de-obra indígena disponível para o trabalho em plantações e extração de pau-brasil.
Para esta reflexão utilizamos textos de historiadores e antropólogos que propõem uma revisão das relações entre jesuítas colonos e índios, promovendo uma discussão dos diversos aspectos que permearam a questão do cristianismo e do escravismo no Brasil colonial entre os séculos XVI ao XVIII.
Não temos por objetivo provar ou demonstrar alguma teoria a respeito do tema, nem mesmo propor uma abordagem inédita, para isto seria necessária além de uma bibliografia mais completa sobre a temática, uma exaustiva pesquisa e análise de fontes documentais.


Revisando a relação entre Índios e colonos.
A historiografia brasileira, comparando a outras temáticas, pouco se debruçou sobre a questão específica do indígena, são poucas as informações a cerca das sociedades indígenas no Brasil pré-colonial, esta lacuna se dentre outros elementos, se deve a um violento processo de dizimação dos povos nativos.
Este fator levou a formação de uma espécie de axioma sobre a questão dos povos indígenas e a coroa portuguesa, consolidando a idéia de uma história maniqueísta e bipolar, onde os colonos europeus são tratados como vilões, mesquinhos e dissimulados cujo único objetivo seria explorar as terras conquistadas a todo e qualquer custo, através de seu cristianismo intolerante.
Quanto aos povos ameríndios, foram tratados como seres inocentes sem qualquer tipo de ação, pacíficos, chegando a uma espécie de “idiotia”, esta visão quase angelical dos índios durante anos impediu aos pesquisadores de entenderem o funcionamento e a dinâmica das sociedades indígenas, tratados de forma homogênea, ignoraram-se as diversas sociedades, culturas e dialetos existentes nos povos nativos.
Esta visão bipolar transferida aos livros didáticos produziu no imaginário popular o arquétipo do índio brasileiro como aquele que andava nu e se alimentava unicamente de caça e de uma agricultura de subsistência (nômade), hoje sabemos que em várias regiões do país houve sociedades extremamente complexas.
Ao mesmo tempo, a visão do índio brasileiro como uma cultura inferior comparada as sociedades da América pré-colombiana nas regiões dos Andes e do México, fora durante muito tempo predominante tanto entre historiadores quanto antropólogos e arqueólogos.
Dentro de uma teoria de países de primeiro e terceiro mundo, criou-se o tradicional esquema de colônias de exploração e colônias de povoamento, logo a condição do Brasil como um país subdesenvolvido, teria sua origem na organização primitiva das sociedades nativas, bem como a sua colonização ibérica de exploração, onde os europeus buscavam somente a acumulação de riquezas.
Entretanto, com a evolução de alguns conceitos e pesquisas dentro da historiografia tanto brasileira quanto de outros países, observou-se que ao funcionamento das relações sociais do Brasil entre os séculos XVI a XVIII ultrapassava a idéia de uma mera luta de classes.
Dentro desta dinâmica, o cristianismo representado pela Igreja Católica Romana tem um papel fundamental, Igreja esta, cujo principal ícone nas primeiras décadas Brasil colonial se apresenta pela figura dos missionários jesuítas fundados por Inácio de Loyola.
Quem eram afinal os jesuítas, anjos ou demônios?

Algumas correntes defendem que os religiosos foram responsáveis pela extinção da cultura indígena ao inserir valores e crenças religiosas européias entre os nativos, o que é válido.


Por outro lado, a própria tentativa de infiltração utilizada pelos missionários acaba relativizando uma teoria maquiavélica por dos jesuítas.
Aprenderem o tupi-guarani e elaborarem uma gramática para entenderam o dialeto dos índios não sugere uma forma de respeito dos jesuítas a cultura indígena?
Se faz necessário uma discussão a cerca da implantação do cristianismo na colônia e a próprio problema da escravidão indígena no Brasil.


Os jesuítas na colônia.
No século XVI Portugal ainda com mentalidades e instituições “medievais”, mantinha práticas como a inquisição na perseguição de cristãos novos (judeus), as cruzadas contra os mouros, desde o século XIII, o primeiro Estado da Europa possuía uma religiosidade intensa e peculiar comparado aos outros países do Ocidente.
Durante o século XVI, com a explosão da reforma protestante e o Concílio de Trento, a Igreja busca reconquistar a sua hegemonia abalada pelo nascimento de seitas na Alemanha, Suíça e Inglaterra, o catolicismo que antes era restrito a Europa, passa a ser difundido nas regiões do Extremo Oriente e do Novo Mundo.
A cristandade por seu turno, contava com uma das ordens mais arrojadas e organizadas da história da Igreja, os jesuítas fundados por Inácio de Loyola possuíam uma organização meticulosa quase militar, os religiosos ao se lançarem a uma missão, acreditavam estar numa batalha pela Igreja e pela causa de Cristo.
Quando a frota de Tomé de Souza chega ao Brasil trás consigo os primeiros missionários jesuítas, anteriormente, a missão de converter os índios fora confiada aos frades franciscanos, entretanto, estes não conseguindo alcançar os objetivos da coroa portuguesa, logo à ordem não obteve êxito na evangelização dos nativos.
Os métodos jesuítas talvez agradassem de forma mais direta aos objetivos do rei de Portugal para a Terra de Santa Cruz.
Sabemos que no século XVI, não se pode separar colonização de evangelização ou mesmo Estado e Igreja, para o rei, ter índios cristãos era o mesmo que ter vassalos e fidelidade a coroa e a Igreja.
Segundo o antropólogo John Monteiro, os jesuítas diferentes dos colonos em sua política de dizimação das sociedades indígenas, buscavam controlar os índios enquanto trabalhador produtivo em aldeias oferecendo um método alternativo de conquista e assimilação dos povos nativos, esta estratégia adotada pelos religiosos acabou levando a um conflito entre colonos e a companhia de Jesus.
Dentre os motivos principais, apontados pelo autor, o que acabou ganhando mais peso foi à própria questão do trabalho indígena.
Os jesuítas tentavam proteger os nativos através do argumento que eram cristãos, logo não poderiam ser submetidos ao trabalho compulsório, os colonos diante de uma realidade econômica que necessitava de mão-de-obra nativa, acabaram muitas vezes driblando as normas e leis estabelecidas pela coroa, como trataremos mais adiante.
A estratégia adotada pelos religiosos através dos aldeamentos, levava a uma conversão mais eficaz, uma vez longe de suas tribos, reunidos em aldeias os jesuítas conseguiam afastá-los de práticas consideradas pagãs como a bigamia e abominada antropofagia.
As aldeias eram locais onde se colocava em prática o projeto de “civilização” e conversão dos nativos, promovendo a assimilação de práticas européias e cristãs, no entanto, estes espaços serviram para a dissolução de uma identidade cultural, os índios descidos do sertão juntavam-se como outros nativos de várias tribos, uma vez reunidos, aos poucos as características culturais desapareciam sendo substituídas pelo cristianismo.


Os índios diante do cristianismo.
Partindo do princípio de que os índios eram cristãos, logo seriam considerados vassalos do rei e membros do Império português, como fora mencionado anteriormente e que no século XVI não se pode separar colonização de conversão, o processo de conquista do Novo Mundo pela Península Ibérica esteve imbuído de um cristianismo pós-concílio de Trento, de uma Igreja que sente a necessidade de se expandir além da Europa.
A conversão dos índios tratava-se de uma questão complexa para os primeiros séculos de colonização da América Portuguesa, a necessidade de uma mão-de-obra eficaz para o trabalho em “plantations” esbarrava no princípio de que os índios sendo cristãos seriam como iguais.
A aceitação dos nativos a nova religião trazida pelos europeus não se dava de forma homogênea ou momentânea, o trabalho dos jesuítas não se restringia a administração dos sacramentos ou mesmo a leitura de textos bíblicos, por se tratar de uma religião totalmente nova, a conversão dos ameríndios fora um problema constante a ser resolvido pelos missionários da Companhia de Jesus.
De acordo com John Monteiro, os jesuítas durante muito tempo acreditaram no efeito “milagroso” das águas do batismo, ao invés de uma catequização prévia antes da administração dos sacramentos, os religiosos num primeiro momento batizavam os nativos, desta forma acreditavam que estes passariam a ser cristãos:

Os jesuítas, como os demais europeus, contavam ingenuamente com a adesão cega ao cristianismo de seu rebanho brasileiro: não faltavam, nos relatos quinhentistas, batismos em massa, os supostos milagres e as dramáticas declarações de fé por parte das lideranças indígenas. Mas seus esforços nem sempre surtiam efeito, e mesmo a conversão de um chefe não garantia a adesão de seus seguidores. Nóbrega, por exemplo, citando um caso na Bahia, relatou que um chefe chegou a “estar mal com todos seus parentes” por ter aceito a conversão e colaborado com os padres. (Monteiro, 1994, p.47)

Como podemos perceber muitas vezes os nativos retornavam as suas práticas pagãs, reação talvez inesperada pelos religiosos, Monteiro cita o caso de um chefe tupinambá que confessa aos jesuítas que a prática da antropofagia tratava-se de uma questão de tradição, embora, ele o chefe, soubesse que ia contra os princípios do cristianismo, a antropofagia acabou sendo mantida pelo conselho dos anciãos da tribo.
Diante dos entraves surgidos no processo de conversão dos gentios, os jesuítas percebem que a melhor forma de promover a sua missão seria eliminar a figura dos pajés, e dos feiticeiros, pelo fato de serem as lideranças da tribo e muitas vezes pregarem certa hostilidade contra a pregação dos missionários.
Para promover um processo de conversão e colonização eficaz, a coroa portuguesa passa então a conquistar primeiramente os chefes, valorizando as lideranças, os europeus perceberam que se fazia necessário inserir características da sociedade do Antigo Regime, incentivando a criação de uma nobreza indígena como aponta Maria Regina Celestino de Almeida ao citar o caso específico do cacique Araribóia.
O personagem, após liderar um grupo de índios contra os franceses colocando-se ao lado dos portugueses na batalha de conquista do Rio de Janeiro, recebera títulos de nobreza como cavaleiro da Ordem de Cristo, entretanto Almeida chama atenção que antes de se lançarem a guerra contra os franceses, os índios na verdade acreditavam estar combatendo sua tribo inimiga que por sinal eram aliados dos franceses.
O chefe fora condecorado com o título de cavaleiro da Ordem de Cristo, o chefe é elevado à categoria de nobre e vassalo do Rei, entretanto, Araribóia tomando consciência de sua posição social dentro da colônia a passa a exigir da coroa certas regalias.
Percebemos que os nativos, também possuíam estratégias perspicazes de garantir seus interesses através dos recursos e elementos oferecidos pelos europeus.
Logo, segundo Almeida, a idéia do índio como um ser ingênuo diante da colonização européia cai por terra, diante desta dinâmica, alguns índios se beneficiaram dos aldeamentos promovidos pelos jesuítas, no entanto como já fora apontado anteriormente, existia entre os religiosos e os colonos uma constante tensão por conta da questão do trabalho indígena na economia colonial.


Cristianismo e trabalho compulsório indígena.
A conquista de novas terras trazia consigo a necessidade de uma mão de obra dinâmica para a produção e enriquecimento da coroa, os jesuítas como aponta Monteiro, ofereciam um contraponto na produção agrícola e lucratividade dos colonos.
Entretanto, mas se no século XVI colonização não estava dissociada de cristianização tais elementos acabaram criando um problema para a coroa.
Segundo Beatriz Perrone-Moisés:

“Os gentios cuja conversão justificava a própria presença européia na América eram a mão-de-obra sem a qual não se podia cultivar a terra, defendê-la de ataques de inimigos tanto europeus quanto indígenas, enfim, sem a qual o projeto colonial era viável” (Moisés, 1992, p. 116).

O problema do cristianismo e do trabalho indígena levaram a coroa portuguesa a elaborar uma lei mais sistemática a cerca das regras sobre a escravização indígena na colônia.
Moiséis chama atenção que durante muito tempo a lei fora interpretada pelos historiadores como contraditória e hipócrita, tendo o intuito de agradar tanto jesuítas quanto colonos. Entretanto, não seria viável para a coroa apenas submeter de forma violenta os índios a escravidão, uma vez que estes eram necessários para a colonização da Terra de Santa Cruz, logo se fazia necessária certa “tolerância” e negociação por parte tanto dos jesuítas quanto dos colonos para não despertar a hostilidade das tribos.
Segundo Moisés, a lei criada pela coroa seguia alguns critérios rigorosos quanto à escravização dos índios, primeiramente os índios uma vez trazidos as aldeias e catequizados seriam livres e senhores de suas terras, sendo cristãos eram vassalos do rei.
O trabalho dos mesmos era feito mediante pagamento de salários e deveriam ser bem tratados, para isto os índios primeiramente deveriam ser descidos do sertão para as aldeias portuguesas onde estes “índios amigos” tornavam-se indispensáveis para a defesa, sustentação e reconhecimento da colônia.
Os portugueses utilizavam-se da persuasão para trazerem os índios aos povoados, se por ventura os mesmos recusassem, o descimento não seria forçado, ao mesmo tempo, os jesuítas que dominavam a língua dos nativos procurariam convencê-los de que abraçar a fé cristã e ir para as aldeias era positivo e benéfico, pois alcançariam a salvação.
Antes mesmo, sendo considerados vassalos, a prioridade era dada a catequese dos índios, uma vez aceitando os princípios da fé cristã eram aliados.
A coroa portuguesa enviava periodicamente procuradores, afim de, garantir o cumprimento da lei, indivíduos que muitas vezes eram tratados com hostilidade pelos próprios colonos.
Por outro lado, como aponta Moisés, aqueles índios que por ventura recusassem aceitar a fé cristã e se mostrassem agressivos, eram considerados “índios inimigos”, adotando o princípio da guerra justa, os portugueses submetiam os mesmos a escravidão, o princípio da guerra justa fora adotado na Península durante as Cruzadas contra os mouros.
Os índios que impedissem a pregação da fé seriam punidos, entretanto, se os índios mesmo depois de terem sido batizados e descidos permanecessem no paganismo ou se mostrassem arredios, seria adotado como último recurso para a salvação da alma a escravidão, logo os jesuítas adotavam em certos momentos a violência como único meio de converter.
O princípio da guerra justa e da conversão levava alguns colonos a criarem supostos inimigos entre os índios, no intuito de garantir mão-de-obra para seus negócios, por isso, a coroa acabou proibindo a simples iniciativa de guerra contra as populações indígenas.
A escravidão também era considerada lícita em casos de resgates: isto se aplica aos índios salvos de serem mortos por antropofagia, estes seriam submetidos ao trabalho compulsório com tanto que se garantisse a catequese e a civilidade, a escravidão por resgate terminava quando o nativo pagasse sua “dívida” como cativo, entretanto poderíamos levantar a hipótese de que muitas vezes este suposto tempo não era respeitado.
A lei criada pela coroa portuguesa parecia justa e coerente para a época em que fora escrita, entretanto, nem sempre fora cumprida.
Os entraves criados pela coroa e a presença dos missionários, incomodavam os colonos, de acordo com Jonh Monteiro com o passar do tempo os aldeamentos jesuítas acabaram mostrando-se ineficazes, a disseminação de doenças provindas da Europa combinada com a aglomeração de tribos contribuía para a morte de vários nativos.
Simultaneamente muitos índios acabaram-se colocando ao lado dos jesuítas, recusavam-se a trabalhar para os colonos afirmando que só receberiam ordens dos padres.
Tais elementos acabaram levando a uma “vitória” definitiva dos colonos, a coroa acabou fazendo “vista grossa” ao trabalho compulsório, sem o controle pleno da escravidão indígena.
Já no século XVIII, na era pombalina a própria expulsão e extinção da Companhia de Jesus no Brasil abriu caminho para uma exploração efetiva dos colonos da mão-de-obra indígena, os jesuítas com seu trabalho de catequese e civilização dos índios levaram a uma dissolução da cultura indígena bem como uma passividade dos mesmos, facilitando a dominação portuguesa na colônia.


Concluindo.
Como pudemos perceber ao longo de nosso trabalho, a questão do cristianismo na América Portuguesa acabou transformando-se em um contraponto para a política de colonização da coroa.
Ao promoverem a conversão dos índios, os portugueses esbarravam num princípio moral de que os nativos, uma vez batizados eram irmãos, a escravidão portanto, ia contra o cristianismo, por outro lado, podemos perceber por parte dos europeus o reconhecimento da importância do índio nas engrenagens da dinâmica da conquista territorial, logo não seria viável uma dizimação pura e simples ou mesmo uma escravidão homogênea, como durante muito tempo se defendeu.
Voltando a questão de uma historiografia maniqueísta, não podemos restringir a História entre índios e colonos como uma dialética entre dominadores e dominados.
Os índios por seu turno, como seres humanos, raciocinam com malícia, desta forma não cabe mais uma visão quase “animalesca” do indígena que predominou na historiografia durante anos, de uma criatura pacífica, desprovida de pensamento totalmente submissa ao europeu, diante da nova realidade que se desenhava com a colonização, os índios ofereceram formas de resistência, mas em muitos momentos oportunos, utilizaram-se dos benefícios que os europeus traziam ou mesmo a estratégia da negociação.
Quanto ao cristianismo que foi a questão central de nosso trabalho, sendo um dos, se não o principal elemento que levou ao processo de colonização do Novo Mundo não pode ser tratado pelos pesquisadores como o catolicismo do século XXI, poderíamos afirmar que seria um anacronismo acusar os religiosos jesuítas de intolerantes quando no século XVI não havia a noção de religião como a conhecemos hoje, nem de respeito à diversidade cultural ou mesmo pluralidade de crenças, para o europeu, mesmo que muitas vezes contestasse alguns aspectos dogmáticos e da política eclesiástica, havia somente uma fé verdadeira e um único deus que era Cristo e a sua Igreja.
Para o português recém saído da Idade Média, o cristianismo era um axioma, logo todos aqueles que ainda não haviam aderido à fé cristã estavam fadados a condenação divina ou tornavam-se inimigos infiéis.
O maior desafio dos historiadores é entender o imaginário de seu objeto de pesquisa, como não é possível fazê-lo, pois história não é apenas sinônimo de passado, e pelo fato de sermos seres do século XXI, esforcemo-nos para promover uma análise coerente de nossas origens.

 
Para saber mais sobre o assunto.
ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.
MONTEIRO, John Emanuel. Negros da Terra: Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Cia das Letras, 1994.
MOISÉ, Beatriz Perrone. “Índios livres e índios escravos: os princípios da legislação indigenista do período colonial (séculos XVI a XVIII)” In: CUNHA, Manoel Carneiro (org). História dos índios no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1992.
RAMINELLI, Ronald. Imagens da colonização. A representação do índio de Caminha a Vieira. São Paulo/Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.


Texto: Victor Mariano Camacho.
Graduando do sétimo período do curso de Licenciatura em História da Uniabeu - Centro Universitário.

segunda-feira, 7 de março de 2011

O que é Sociologia? - Reflexões sobre o nascimento e desenvolvimento da área.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 07/03, 2011, p.01-06.


No contexto contemporâneo, a sociologia tem se tornado um instrumental para diversas áreas do conhecimento humano, abarcando uma amplitude enorme de aplicações, passando pela educação, administração de empresas e história.
Porém, à medida que a sociologia penetra em outras áreas, especialmente a partir de sua introdução nos anos iniciais dos cursos superiores, faz-se grande a confusão conceitual quanto à natureza do conhecimento sociológico.
A base que deveria acompanhar o estudante universitário a partir do ensino médio não é solida, carece de tratamento teórico apropriado, sua noção do que é a sociologia, em geral, é equivocada.
Assim, pretendemos aqui abordar, justamente, o cerne do que deveria ser o ponto de partida para estudar a sociologia nas mais deferentes vertentes: O que é Sociologia?
O que implica em transitar pelo nascimento e desenvolvimento da área.


O que afinal é sociologia?
A sociologia poderia ser definida como uma área do conhecimento humano que tenta compreender o comportamento dos indivíduos quando integrados à sociedade.
Ao contrário da psicologia, que tenta alcançar a compreensão dos mecanismos que regem o comportamento de cada indivíduo, a sociologia estuda a interação entre os indivíduos e os mecanismos que possibilitam a integração e convívio entre as pessoas.
Neste sentido, assim como a sociologia é uma ciência auxiliar de outras áreas, também utiliza ciências auxiliares para analisar o desenvolvimento e fixação de padrões sociais alocados através de séculos de experimentação que, por sua vez, marcam consciente ou inconscientemente, normas de conduta coletiva.

É interessante notar que estas normas são seguidas por todos os indivíduos, ou pelo menos pela maioria, visando facilitar o convívio em grupo.
A idéia de Padrão Social foi desenvolvida por Durkheim.
Segundo ele, os indivíduos inseridos em sociedade tendem a reproduzir os atos das gerações mais velhas, através da imitação, criando padrões de comportamento.
A sociedade seria formada por estamentos, compondo uma pirâmide social, onde aqueles que estão no topo adotam os padrões de conduta formados historicamente ao longo de gerações.
Aqueles que estão em estamentos inferiores, além deste componente, tenderiam a reproduzir padrões de conduta das camadas superiores, demonstrando o desejo de deslocar sua realidade.
Ao usar o termo estamento, ao invés de classe, não estamos, obviamente, nos referindo a poder de confuso; mas sim a posição social norteada pelo status.
O que pode ser determinado pela classe social, embora, igualmente, pelo nível educacional, prestigio e uma série de outros fatores.
Portanto, a noção de estamento é mais ampla e genérica do que de classe social.
De qualquer forma, estudando a história do desenvolvimento dos padrões sociais, por exemplo, a sociologia colabora para o entendimento das questões do presente, tal como a pobreza, os maus tratos às crianças, a discriminação social ou o processo de escolarização.
É por isto que, diante de um desenvolvimento abrangendo quase dois séculos, a utilidade da sociologia foi elevada a múltiplos campos do saber.
Através da sociologia é possível entender a formação de padrões sociais e utilizar estas leis para facilitar o convívio social, amenizando possíveis conflitos.
Ou seja, a sociologia é uma tremenda ferramenta nas mãos de administradores de empresas, educadores e todos aqueles que lidam com pessoas.


Antecedentes para entender o nascimento da sociologia.
Recuando no tempo, poderíamos perceber que a sociologia só pôde se constituir-se como ciência a partir do pensamento de Copérnico, quando o eixo teocêntrico foi deslocado para o antropocentrismo, quando Deus deixou de ser o centro do universo para dar lugar ao homem.
Copérnico defendeu, no século XVI, a hipótese de que o universo aristotélico geocêntrico talvez estivesse errado, com todos os astros girando em torno da terra, centro da criação.
Segundo a teoria heliocêntrica defendida por ela, o sol seria o centro de um único sistema de planetas, dentre vários outros.
Uma conclusão obvia para nós, mas que constituiu na época uma tese controversa que, depois, seria também defendida e popularizada por Galileu.
Junto com Copérnico, o filosofo francês René Descartes, abriu caminho para o aparecimento da sociologia ao escrever O discurso do método, onde afirmava que toda ciência precisava possuir uma metodologia que a fundamentasse, propondo a divisão de problemas complexos em várias partes para facilitar a solução.
No entanto, seria graças a Revolução Francesa, no século XVIII, que a sociologia se tornaria uma realidade um século depois.
A sociologia surgiu, no século XIX, a partir do conhecimento acumulado e desenvolvido pelos iluministas.
Os filósofos ilustrados do século XVIII, a reboque das transformações advindas com o longo processo da Revolução Francesa, começaram a questionar o mundo ao seu redor, sistematizando e racionalizando todas as áreas do conhecimento.
Ao aplicar e criar instrumentos de caráter científico para entender o mundo natural, descobriram que o universo era regido por leis e padrões.
Além disto, dentro do intuito de iluminar o mundo através do conhecimento, organizaram a enciclopédia, subdividido o que antes era filosofia em várias outras áreas, organizando o saber, daí, inclusive, os iluministas serem também chamados de filósofos ilustrados.
Esta subdivisão do conhecimento continuaria a se especializar até originar a sociologia.


O nascimento da sociologia.
Dentro da tradição iluminista, em simultâneo a Revolução Francesa, depois da Revolução Industrial, surgiu à necessidade de entender como o mundo, então em acelerado processo de transformação, havia se configurado, como e porque a sociedade estava modificando seu comportamento.

Na Grã-Bretanha, a Revolução Industrial havia expulsado o homem do campo, tornando as cidades cheias de gente aglomerada em espaços pequenos para suprir as fabricas com mão de obra barata.

Foi dentro deste contexto que surgiram cortiços, com pequenas casas partilhadas por várias e numerosas famílias.
O que criou, inclusive, a necessidade de entendimento do comportamento das pessoas em sociedade para melhor organizar e manipular a população, otimizando sua força de trabalho.
A tentativa de racionalizar o comportamento social cientificamente, possibilitando o entendimento e, em alguns casos, o controle do comportamento dos indivíduos quando colocados dentro do seio da sociedade, fez surgir à sociologia enquanto ciência no século XIX.
O francês August Comte, autor da obra Regras do método sociológico, é considerado o pai da sociologia, isto porque foi o primeiro a definir a sociologia como a ciência que estuda a sociedade.
Entretanto, ao lado dele, outros teóricos estabeleceram as bases da teoria sociológica, tal como Spencer, Durkheim, Marx e Weber.
Estes nomes constituem os pioneiros e desenvolvedores da sociologia.


O desenvolvimento da sociologia.
A partir de um forte inicio na Europa, sobretudo na França, Alemanha e Inglaterra; a sociologia chegou aos Estados Unidos da América no inicio do século XX, assumindo uma função tipicamente norte-americana, condicionada a sua utilidade prática.
Foi quando a sociologia assumiu a função de mantenedora da ordem capitalista em funcionamento.

Depois que a sociologia perdeu credibilidade como ciência, entre 1900 e 1919, provou sua utilidade na década de 1920, ganhando novamente prestigio.

Neste período, várias pesquisas desvendaram os mecanismos de funcionamento da sociedade, estudando questões como a família, a educação, a religião e o funcionamento das instituições sociais.
A partir da década de 1960, a sociologia se tornou mais especializada, ampliando e compartimentando o leque de seus estudos para entender as questões do mundo moderno.
Na década de 1980, chegou ao extremo de focar sua atenção sobre os estudos das relações sociais dentro das organizações, visando facilitar o convívio forçado entre as pessoas para otimizar a produção, originando a sociologia organizacional.


Concluindo.
Para facilitar o convívio, a sociedade acabou se organizando naturalmente segundo uma hierarquia, compondo uma estrutura social.
Buscando entender os mecanismos de funcionamento desta estrutura, nasceu a sociologia no século XIX.
Constantemente questionada por teóricos da área de exatas, muitas vezes tratada como pseudociência, a sociologia está se mostrando hoje essencial para o entendimento do mundo contemporâneo.
Os clássicos tem sido revisitados e revitalizados, enquanto novas concepções trazem luzes sobre questões atuais.


Para saber mais sobre o assunto.
MARTINS, Carlos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1985.
CORTELLA, Mario Sérgio. A escola e o conhecimento. São Paulo: Cortez, 1988.
GOMES, Candido Alberto. A educação em novas perspectivas sociológicas. São Paulo: EPU, 2005.
KRUPPA, Sônia. Sociologia da educação. São Paulo: Cortez, 2002.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.