Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Tecnologia e Educação.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jan., Série 22/01, 2011, p.01-06.

Atualmente e, no futuro, cada vez mais a tecnologia e a educação caminham lado a lado.
Os cursos EAD - Educação a Distância - tem facilitado o acesso ao ensino superior, estendendo-se pelo Brasil e possibilitando alcançar regiões onde antes seria impossível alguém cursar uma universidade.
Aliás, segundo especialistas, a tendência EAD deve dominar o panorama do mercado educacional, praticamente extinguindo o ensino presencial.
Entre 2005 e 2008, a titulo de exemplo, os cursos EAD tiveram um crescimento de 600% no numero de alunos, enquanto os cursos presenciais encolheram por conta de uma concorrência predatória entre universidades privadas.
 É por isto que escolas tradicionais, como a USP e Unesp, começaram a investir em cursos EAD, seguindo uma tendência mundial adotada por universidades de ponta, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT), Berkeley e Yale.
Assim, torna-se fundamental, pensando no ensino fundamental e médio, repensar as questões em torno da gestão de TIC - Tecnologias da Informação e Comunicação.
A idéia do EAD é democratizar o acesso ao saber, mas se inserir neste meio exige do educando autodisciplina e domínio dos instrumentos necessários ao bom andamento do curso.
Portanto, é essencial que, na era da globalização, em plena sociedade da informação, o ensino elementar possibilite também o acesso a tecnologia disponível.


O conceito de tecnologia.
Existem muitas formas de compreender a tecnologia, portanto, antes, é necessário conceituar o que podemos entender por este termo.
Conceitualmente, tecnologia é qualquer artefato, método ou técnica criada pelo homem para tornar seu trabalho mais leve, sua locomoção e comunicação mais fáceis ou simplesmente sua vida mais agradável e divertida.











Formalmente, a tecnologia é o emprego de um conjunto de técnicas, mas filosoficamente, a partir da origem da palavra (tecno = técnica + logia = ciência), seria a teoria ou filosofia da técnica.
O que remete a perguntar: o que é técnica?
Por definição, a técnica é um procedimento bem definido e transmissível, destinado a produzir um resultado útil.
Neste sentido, desde os gregos antigos, reflete uma prática consciente, em oposição às atitudes tomadas ao acaso.
A partir do século XIX, a técnica passou a denotar uma sistematização do conhecimento que repousa sobre o saber cientifico, a racionalização do emprego de instrumentos e materiais.
Pensando assim, tanto em seu sentido original como contemporâneo, a tecnologia é tão antiga quanto o homem.
Isto porque um bastão de madeira, que amplifica um golpe e serve de extensão ao braço, também faz parte da tecnologia.
Modernamente, existem tecnologias que amplificam os poderes sensoriais, a percepção - como o telescópio ou o microscópio, altos falantes, etc -, melhoram a capacidade de acumular informações - indo desde o papel, a escrita e o lápis até o computador -, permitem a ampla comunicação entre os homens - telefone e internet -, encurtam o deslocamento - carros, aviões e barcos -, enfim que facilitam a vida das pessoas e a necessidade humana de subjugar à natureza para sobreviver.
No entanto, será que toda tecnologia pode ser aplicada à educação?


Tecnologia na educação.
Pensada na educação, a tecnologia é o que torna possível a transmissão e aperfeiçoamento do conhecimento.
Configura o processo educacional em sentido amplo, inclusive no âmbito que extrapola a educação formalizada nas escolas.
Isto porque podemos incluir qualquer forma de tecnologia no processo educacional, incluindo meios de comunicação, como rádio, TV e cinema, além da própria fala e escrita.
Em um sentido mais restrito, no âmbito da escola, usamos as tecnologias tradicionais, entre as quais giz, lousa, livros, cadernos, carteiras, mesas, cadeiras, etc.
Assim como podem ser usadas as tecnologias mais recentes, como vídeos, DVDs, computadores, teleconferência, lousa digital, ensino a distância e outras.
Em suma, boa parte da tecnologia humana pode ser, de uma forma ou outra, aplicada a educação.


A tecnologia em uma perspectiva histórico-cultural.
A relação entre educação e tecnologia não poderia ser mais estreita.
As tecnologias são a síntese produzida pelas relações sociais, sistematizadas em um momento histórico, de acordo com as necessidades humanas para subjugar a natureza.
A humanização só aconteceu a partir do processo educacional, a apropriação de saberes através de diferentes linguagens, formas simbólicas de mediação materializadas nas interações sócio-culturais.
Neste sentido, a tecnologia pode ser entendida como uma das linguagens que o homem utiliza na construção social para transformar as relações sócio-econômicas e culturais, além do próprio acumulo e transmissão do conhecimento, denotando as características típicas de uma civilização.
Segundo Marx, “a tecnologia revela o modo de proceder do homem com a natureza, o processo imediato de produção da sua vida material e assim elucida as condições de sua vida social e as concepções mentais que dela decorrem”.


Tecnologia e sociedade da informação.
Contemporaneamente, a globalização criou um determinismo tecnológico que subordinou às produções histórico-sociais a informação rápida e condensada, cunhando a concepção de sociedade da informação.
Os discursos que acompanham a sociedade da informação elegeram como lei o principio da tabula rasa.

Não há nada mais que seja absoluto, tudo muda rapidamente, por isto não existem respostas únicas.

Ao mesmo tempo, a informação foi coisificada, tornando-se um produto.
Na educação, a transmissão do conhecimento também se tornou uma mercadoria, o aluno se converteu em cliente e o professor em prestador de serviço.
Na realidade um processo que decorre do fordismo, a compartimentação do conhecimento, tal como em uma linha de montagens.
É neste sentido que as Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, assim definem as competências que devem ser desenvolvidas nos cursos de licenciatura e de graduação plena:
“(...) com relação ao mundo do trabalho, sabe-se que um dos fatores decisivos passa a ser o conhecimento e o controle do meio técnico-científico informacional”.
O professor foi transformado em um facilitador, animador, tutor, monitor, etc.
A primeira vista, o professor tornou-se um item dispensável, facilmente substituído pelos recursos tecnológicos.
No entanto, a tecnologia carece de pessoas para gerenciar as informações, de forma que o professor passou a ser parte indispensável do uso da tecnologia em favor da educação.
Acontece que o grande problema é que ainda existe uma grande inadequação do perfil dos profissionais da educação para lidar com as novas tecnologias e alunos diferenciados, uma discussão que passa pela questão da formação docente.


Formação docente.
Com o advento da sociedade da informação, o perfil do educando foi alterado para uma constante insatisfação com o conhecimento transmitido, tido pelos alunos como fora de propósito e sem relação com suas necessidades reais.
A internet e a facilidade de acesso a informação fez o educando passar a exigir visualização do conhecimento, de forma rápida e fácil.
O grande problema é que os cursos de formação de professores não se adequaram a preparação de competências docentes compatíveis com este novo perfil.


Em resumo, a formação docente ensina uma linguagem ao professor e o aluno fala outra.
Neste sentido, seria necessário que a formação docente familiarizasse o futuro professor com a tecnologia, possibilitando maior flexibilidade e rapidez de raciocínio.
Algo previsto nas Diretrizes Curriculares voltadas a formação de professores, mas dificilmente colocado em prática no ensino superior.
O resultado deste despreparo dos docentes é a substituição do professor pela tecnologia, ao invés desta se tornar um instrumento em suas mãos.


A apropriação da tecnologia pela prática pedagógica.
Levando em consideração que o processo de apropriação do conhecimento ocorre ao mesmo tempo em que os sujeitos se desenvolvem culturalmente.
A apropriação da tecnologia na prática pedagógica exterioriza esta potencialidade.
Em outras palavras, simultaneamente, a tecnologia serve a reprodução do sistema capitalista, podendo assumir um papel integrador interdisciplinar, ajudando a contornar o fordismo educacional, reelaborando o contexto cultural para transformar o mundo.
É óbvio que para isto acontecer, tanto professor como aluno, necessitam conhecer as linguagens tecnológicas e tomarem consciência do contexto em que estão envolvidas, estabelecendo criticas e até mesmo questionando esta realidade.
É necessário desconstruir ilusões forjadas por interesses políticos e econômicos.
Devemos ter em mente que a tecnologia pode mediar a aprendizagem, mas o processo educacional necessita da interação entre as pessoas.


Concluindo.
A tecnologia e a educação sempre caminharam juntas, mas, com os avanços técnicos, passou a existir uma falsa imagem que não corresponde a real demanda.
O tecnicismo da década de 1970, no Brasil, criou uma tendência que passou a tentar substituir os professores por vídeos e computadores.
No entanto, a efervescência dos cursos à distância, a partir do inicio do século XXI, tem demonstrado que docentes não são dispensáveis.
Pelo contrário, com a popularização de internet e da banda larga, quanto mais crescem os EAD, maior se torna a necessidade de profissionais capacitados para lidar com as novas tecnologias que, dia-a-dia, evoluem com extrema rapidez.
É verdade que o EAD exige dos alunos maior esforço e dedicação que os cursos presenciais, porém, carecem de suporte de educadores para que a tecnologia possa ser usada em beneficio da construção do conhecimento.
Em resumo, a tecnologia na educação, seja ela de qualquer natureza, deve estar a serviço do professor e do educando, sendo o docente um mediador.
Caso contrário, corremos o risco de desvincular esta importante ferramenta de seu propósito primeiro: servir ao progresso da humanidade.


Para saber mais sobre o assunto.
BARRETO, R. G. “As tecnologias na formação de professores” In: Educação e pesquisa, nº. 30. Jul/dez de 2003, p.271-286.
FREIRE, F. M. P. et. alli. “Implantação da informática no espaço escolar: questões emergentes ao longo do processo” In: Revista Brasileira de Informática na Educação. São Paulo: jul de 2004.
MANASSÉS, B.et. alli. Tecnologia da educação. Rio de Janeiro: Livros técnicos e científicos, 1980.
MORAN, J. M. “Os novos espaços de atuação do professor com as tecnologias” In: RUMANOWSKI et. alli. (org.). Conhecimento local e conhecimento universal. Curitiba: Champagnant, 2004, p.245-254.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Eremitas, Monges e Cônegos: um breve resumo sobre principais formas de vida religiosa da Alta Idade Média ao século XII.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jan., Série 18/01, 2011, p.01-13.


É fato irrefutável que o cristianismo foi e ainda é um dos elementos centrais da formação cultural e política da história universal, trata-se de uma religião curiosa, nascendo no Oriente próximo com um grupo marginalizado pela religião e por grande parte da sociedade judaica, ele ganha maior espaço e adquire maior força no ocidente romano, cuja cultura era totalmente inversa com uma religião politeísta.
Não é intenção fazer uma discussão a cerca da trajetória do cristianismo medieval, mas sim de um fenômeno de certa forma comum em algumas religiões.
A chamada vida religiosa não é uma particularidade do Ocidente, nem mesmo do cristianismo, temos outras formas de vida religiosa e de monacato em outras civilizações anteriores ao próprio cristianismo, como é o caso dos monges budistas na Ásia, até mesmo no próprio islã que nasce por volta do século IV com o sufismo, ora se a vida religiosa não é uma particularidade do cristianismo, ela também, por estar inserida em um contexto histórico e social, pode sofrer mutações.
Os monges e frades do século XXI, apesar de possuírem uma mesma regra criada na Idade Média e tentarem preservar toda uma tradição de séculos, não possuem uma mesma mentalidade, nem mesmo portam-se como os primeiros discípulos de seus fundadores.
Não há nada de novo neste pequeno texto, que tem por objetivo apresentar um panorama da temática que vem ganhando um espaço cada vez maior na historiografia.
Antes de iniciar a exposição do tema propriamente dita se faz necessário esclarecer alguns conceitos e nomenclaturas correntes no vocabulário monástico, mesmo talvez caindo em anacronismo, pois não se pode pensar a estrutura monástica na Idade Média semelhante à vida religiosa contemporânea.
A vida religiosa na Idade Média ocupava um lugar diferente comparado aos nossos dias, em uma sociedade em que todos os que nasciam no Ocidente eram conseqüentemente cristãos, não se pensava no conceito de religião como hoje, muito menos em opção religiosa.
Por isso, religiosos seriam estes cristãos que seguiam a Cristo de maneira mais perfeita e estariam mais próximos da salvação, isso seria um dos elementos que explicam o sucesso das ordens religiosas e a sua rápida expansão.
Acreditava-se que entrar para uma ordem ou para uma religião, que era também um dos termos utilizados, era a forma mais eficaz de alcançar a vida eterna.
No cristianismo, mais precisamente no catolicismo, chamamos de vida religiosa a ortodoxia do grupo de cristãos que pertencem a uma ordem ou congregação religiosa, professando os chamados conselhos evangélicos (votos) de castidade pobreza e obediência.
Cada ordem deu um sentido particular a estes votos de acordo com a espiritualidade difundida pelo seu fundador, a nomenclatura de clero regular é mais corrente nos manuais de história medieval, mas está restrita ao gênero masculino.


As origens da vida religiosa na Antiguidade Tardia.
“A primeira geração de cristãos acreditavam pertencer a uma elite revolucionária, idéia que os encorajava diante da perseguição e do martírio” (LITTLE, 2002, p. 226).
Depois de um período de perseguição aos cristãos por parte do império romano, com o Édito de Milão em 313 d.C, o cristianismo entrou em uma espécie de metamorfose.

Até então, com a constante coerção romana, os crentes, como forma de transparecer a glória divina e a sua condição de membro da Igreja, eram dados a um maior rigor e a prática da pregação.

Isto, no intuito de expandir a fé e alcançar a vida eterna através do martírio, uma vez que não havia mais a eminente ameaça de prisão ou morte, nem de repressão ao culto.
Os fiéis não enxergavam a necessidade de sacrifícios físicos, mas as metamorfoses do cristianismo tornam-se mais nítidas com a adoção do cristianismo como religião oficial do império.
Ocorreu uma fusão entre o cristianismo e a cultura romana, as antigas igrejas em que viveram os apóstolos, com base nas sagradas escrituras e na partilha do pão, transformaram-se em basílicas suntuosas e colossais.
Foi criada uma liturgia complexa, estética e ao mesmo tempo imponente, cada vez mais distante dos fiéis de origem mais simples.
O episcopado passou a ser, além de uma função espiritual, um importante e disputado cargo político.
É neste contexto que alguns fiéis, no intuito de buscar um maior rigor e fidelidade aos princípios da fé, refugiaram-se nos deserto e montanhas, afastados dos grandes centros urbanos da antiguidade tardia.
A vida religiosa no Oriente entre os primeiros séculos do cristianismo possuía um caráter de extrema penitência e mortificação, com jejuns intensos e orações interruptas, no intuito de afugentar toda e qualquer tentação do maligno.
Era a busca pela perfeição e a tentativa de alcançar a garantia de vida eterna.
Nos desertos da África, sobretudo no Egito, predominaram religiosos que viveram uma vida de penitência, oração e ascese de forma solitária, afastando-se dos elementos que levavam ao pecado, chamados de eremitas.
O deserto era uma espécie de paradoxo, local do encontro com Deus, mas, ao mesmo tempo, propício às tentações.
O eremita estaria, portanto, em uma constante batalha espiritual, oscilando entre o êxtase do contato com o divino e as investidas do diabo.
Muitas vezes o demônio “aparecia” sob a forma de uma mulher, nascendo então à misoginia entre os religiosos do gênero masculino.
A misoginia é um pensamento de aversão ao feminino que acabou tornando-se uma das principais características, não só do movimento monástico, mas de vários grupos do Ocidente medieval.
No caso dos monges, o feminino representava a tentação e a mulher seria a maior responsável em desviar o monge do caminho de Deus.
Por isso, nas primeiras hagiografias, por volta do séc. V e VI, a figura do pecado estava associada à mulher, criando um distanciamento e até mesmo repúdio a ícones femininos, com exceção a Virgem Maria
O que é ilustrado por um fragmento do texto hagiográfico sobre a vida de Santo Antão ou Antônio do Egito, escrito por Santo Atanásio, morto por volta do ano 373.

“O inimigo queria sugerir-lhe pensamentos baixos, mas ele os dissipava com orações; procurava incitá-lo ao prazer, mas Antão, envergonhado, cingia seu corpo com sua fé, orações e jejuns. Atreveu-se então o perverso demônio a disfarçar-se em mulher e fazer-se passar por ela em todas as formas possíveis durante a noite, só para enganar a Antão. Mas ele encheu seus pensamentos de Cristo, refletiu sobre a nobreza da alma criada por Ele, e sua espiritualidade, e assim apagou o carvão ardente da tentação. E quando de novo o inimigo lhe sugeriu o encanto sedutor do prazer, Antão, enfadado com razão, e entristecido, manteve seus propósitos com a ameaça do fogo e dos vermes (cf Jd 16,21; Sir 7,19; Is 66,24; Mc 9,48) (20). Sustentando isto no alto, como escudo, passou por tudo sem se dobrar”. (Vida de Santo Antão)

Antônio do Egito, mais conhecido como Santo Antão, foi um dos primeiros casos de que se têm registro no eremitismo oriental, está inserido no grupo dos chamados padres do deserto.
Este grupo, segundo a tradição cristã católica, comporia os primeiros eremitas e cenobitas que habitavam nos desertos do Oriente.
Santo Antão, com seu exemplo de devoção e penitência, além de seus supostos dons taumaturgos, começou a atrair os primeiros discípulos que se agrupam em pequenas celas rústicas no deserto.
Ele não era sacerdote, os eremitas raramente participavam da vida eclesiástica local, o eremita, como aponta Bolton fazia um protesto velado a toda a instituição clerical que se criou durante o processo de desintegração do mundo romano e ascensão do cristianismo, rejeitando a intervenção humana dos bispos e patriarcas, alguns chegam a crer que tinham sido ordenados pelo próprio Cristo.
Em um segundo momento, Pacômio, discípulo de Palimão, fundou, no Egito, uma das primeiras comunidades monásticas do Oriente com um conjunto de normas de conduta.
A regra criada era bem rígida, de caráter militar, prezando a disciplina, no entanto não ganhou muitos adeptos na região, predominando o rigoroso modo de vida eremítico.
Por volta de 391, Agostinho, bispo de Hipona, em sua sede episcopal fundou uma comunidade religiosa, em um sítio na região onde atualmente situa-se a Argélia, no norte da África.
Posteriormente, o bispo viu a necessidade de criar um texto normativo para o grupo.
A regra de Santo Agostinho teve maior difusão no Ocidente, por volta do século XI, com a vida canônica, entre os chamados cônegos regulares, dos quais falaremos mais a frente.


A expansão monástica no Ocidente.
Voltemo-nos primeiramente para a experiência irlandesa, por volta do ano 430, com as missões de São Patrício.
A região da Irlanda não absolveu a estrutura da igreja romana, as missões dos primeiros monges acabaram por implantar um cristianismo um tanto quanto anômalo, comparado com o romano.
Os monges que haviam chegado para cristianizar a região haviam herdado um cristianismo com características orientais, como não havia uma estrutura administrativa semelhante a dos bispados das regiões do antigo Império Romano, a igreja irlandesa acabou organizando-se em torno da cultura monástica.
Alguns dos monges eram padres, no entanto, deviam obediência ao abade, muitas vezes os próprios abades tornaram-se ou fizeram o papel de bispos locais.
O monacato irlandês acabou ganhando uma característica itinerante e missionária, contribuindo para a expansão do cristianismo no Ocidente.
Promovendo missões nas regiões da Escócia e Inglaterra, em 590, São Columbano, um dos ícones do monacato irlandês, juntamente com seus discípulos chegou à região da Gália, trazendo uma proposta espiritual.
Afirmava que o melhor remédio contra o pecado seria a penitência, para os leigos a salvação da alma era garantida caso entrassem no mosteiro, não sendo possível, deveriam associar-se aos monges através de doações.
Segundo Peter Brown, o monacato irlandês começou a difundir a figura do médico das almas, o que, depois, transformou-se na confissão auricular com o sacerdote.
As penitências variavam de acordo com o estado de vida de cada um, no caso dos monges, muitas vezes se davam através de jejuns, orações e flagelações, no caso dos leigos as punições eram mais rígidas e poderia resultar até mesmo no exílio.
A vida religiosa no Ocidente, assim como no Oriente, continuava a ser uma espécie de resistência a organização da Igreja latina.
Por volta do ano 490, teria nascido o pai do monacato ocidental, que é sem dúvida Bento, nascido em Núrsia, na Itália, na região da Úmbria.

Ele se dedicou aos estudos da cultura clássica, mas acabou manifestando certa aversão a tal ensino.

O jovem Bento acabou retirando-se como eremita no monte Subíaco, depois de uma viagem pelo Oriente, durante três anos se entregou a uma vida semelhante a dos padres do deserto, com intensos jejuns e asceses.
 Neste contexto, seu modo de vida começou a chamar a atenção nas redondezas, acabando por integrá-lo a uma comunidade monástica como abade, não sem sobressaltos.
Segundo a hagiografia, escrita por Gregório Magno, Bento teria sido vítima de uma tentativa de homicídio por envenenamento, retirando-se novamente e fundando uma comunidade cenobítica.
Este último termo designa os primeiros grupos de monges ou religiosos formados durante o inicio da Idade Média.
Apesar de viverem em grupo e sob a autoridade de um superior, procuravam isolar-se mesmo do resto da comunidade.
Apesar disto, ainda não constituíam uma ordem propriamente, pois não possuíam elementos característicos das ordens religiosas como a regra e a estrutura edificada do mosteiro.
No caso de Bento, sua fama despertou inveja por parte do poder secular.
Partindo com alguns discípulos, dirigiu-se para o Monte Cassino, na Itália, edificando um mosteiro no alto da montanha, do qual após ter sido destruído pelos lombardos em 580, depois por um terremoto, em 1349 e finalmente durante a Segunda Guerra Mundial pelos americanos em 1944, foi imponentemente reconstruído.
Além disto, Bento fundou outro mosteiro em Terracine, morrendo em 547.
Para André Váuchez, um dos elementos que deram ao monacato beneditino tanto sucesso, não teria sido a figura do seu fundador, mas sim a sua regra.
A regra criada por Bento estava expressa em um texto conciso, equilibrado e sereno, descrevendo de forma clara como deveria ser o comportamento de um monge durante todas as horas do dia.
No texto da regra existe a clara preocupação com o trabalho que também seria uma forma de ascese.
Do mesmo modo, a sua insistência no trabalho manual, em particular nos campos, procede de uma adaptação as novas condições econômicas.
Escrita no momento em que esmorecia definitivamente a prosperidade da Itália antiga, a regra beneditina visava criar comunidades religiosas autônoma.
A oração para S. Bento era também uma forma de trabalho, não é por acaso que tem o nome de ofício, organizando o saltério que seria utilizado por toda a cristandade tanto entre o clero regular como secular.

Dividia os 150 salmos durante os vários dias da semana, organiza os hinos e quando deveriam ser entoados.

O trabalho e a oração (ora et labora) são os dois pólos da vida monástica beneditina.
Assim como Antão e Pacômio, Bento não era presbítero e, como seus antecessores, de certo modo,enxergava no sacerdócio um elemento que merecia cautela dentro da vida monástica.
O sacerdócio poderia trazer para o monge certo status dentro da abadia, alimentando o orgulho e ostentação, o que era repudiado no pensamento monástico.
 A regra de Bento trazia com clareza o lugar do sacerdote dentro da comunidade monástica:

“ Se o Abade quiser pedir que alguém seja ordenado presbítero ou diácono para si, escolha dentre os seus, quem seja digno de desempenhar o sacerdócio. Acautele-se o que tiver sido ordenado contra o orgulho ou soberba e não presuma fazer senão o que for mandado pelo Abade, sabendo que deverá submeter-se muito mais à disciplina regular. E não se esqueça, por causa do sacerdócio, da obediência e da disciplina da Regra, mas progrida mais e mais para Deus”.

No segundo fragmento a seguir, dava instruções de como deveriam ser recebidos os sacerdotes pelo abade do mosteiro:

“Se alguém da ordem dos sacerdotes pedir para ser recebido no mosteiro, não lhe seja concedido logo; mas, se persistir absolutamente nessa súplica, saiba que deverá observar toda a disciplina da Regra e não se lhe relaxará nada, de modo que lhe seja dito, como está escrito. "Amigo, a que vieste?". Seja-lhe concedido, entretanto, colocar-se depois do Abade, dar a bênção e celebrar Missa, mas se o Abade mandar. Em caso contrário, não presuma fazer coisa alguma, sabendo que é súdito da disciplina regular; antes, dê a todos exemplos de maior humildade”. (Fragmentos da Regra de São Bento)

Os dois fragmentos refletem não apenas uma resistência a clericalização eclesiástica, mas também certa tentativa de afastar os monges de uma atividade secular paroquial, destinada aos padres e bispos da cristandade.
Ainda segundo Váuchez,  um outro elemento que explica a grande expansão monástica devia-se ao fato dos poderes seculares, tanto laicos quanto eclesiásticos, verem na regra de São Bento um instrumento de unificação.
Este era há muito tempo um dos problemas centrais no Ocidente, notado já por Gregório Magno, um dos papas de maior expressão da era medieval, o qual tinha compreendido que deveria conseguir uma união religiosa na Europa apor meio de um fator agregador.

Gregório teria vivido com alguns monges na região da Itália e absorvido a cultura monástica.

Durante seu pontificado, entre o ano 590 e 604, começou a promover a unificação da vida monástica, todos os mosteiros deveriam aderir à regra de São Bento.
Os beneditinos que possuíam um caráter de estabilidade e reclusão acabaram fazendo o papel de missionários, promovendo a expansão do cristianismo no Ocidente.
Durante o período de preeminência dos francos, sobretudo na era carolíngia, Carlos Magno, no intuito de conseguir a restauração de um império, finalmente iria impor a todos os mosteiros a Regra de São Bento.
Esta unificação pretendia conseguir coesão religiosa, mas acabou também promovendo uma marginalização dos eremitas que ainda insistiam em viver isolados, resistindo à organização da Igreja Ocidental.


Apogeu e crise do monacato na Idade Média central.
Ao final do Império Carolíngio, com a ascensão do feudalismo, como aponta André Váuchez, o mundo ocidental entrou em um processo de secularização, entre os séculos X e XI.
O que acabou por se estender ao próprio clero, quando os bispos ganharam o poder de verdadeiros senhores feudais.
Muitos nobres vindos da aristocracia acabaram ocupando cargos eclesiásticos.
Através de prestígio e influências políticas, o clero rural foi formado, em grande parte, por servos libertos, os quais muitos eram casados ou até mesmo viviam maritalmente, exercendo algum tipo de ofício como forma de sustento, além de não possuírem formação intelectual ou mesmo espiritual, bastava muitas vezes saber as orações e fórmulas próprias das celebrações.
Nos mosteiros, tornaram-se comuns abades leigos, que proviam da nobreza, como no caso dos bispos, conquistando o cargo através de prestígio.
Apesar da secularização, os mosteiros se sobressaíram como os grandes centros da vida espiritual, os locais mais próximos do divino.
Simultaneamente, as próprias abadias se tornaram fortalezas, cada vez mais fechadas ao mundo exterior.
Os mosteiros se fecharam, criando um pensamento de divinização da figura dos monges, formando uma imagem no imaginário popular que eles seriam, dentre todos os cristãos, aqueles que estariam mais próximos da salvação.

Portanto, a oração dos monges, dentre todas as outras, seriam as mais eficazes.

Os mosteiros, mais do que alto-suficientes, seriam locais de verdadeira riqueza e opulência, bem distantes do ideal proposto pelo fundador.
Um dos elementos que possibilitou a circulação de riquezas no mosteiro, proveio dos dotes, cada vez mais altos, pagos por nobres que enviavam seus filhos ainda meninos para as abadias, para receberem estudo.
Alguns muitas vezes, estes jovens entravam para a vida religiosa monástica.
A prática de doar dotes a comunidade estava prevista na própria regra de São Bento, porém, com o crescente número de nobres entrando para os mosteiros, ocorreu uma espécie de hierarquização na comunidade.
Por um lado, ingressavam na vida religiosa monástica filhos de nobres, mas por outro, também ingressavam camponeses de condição simples, desejosos de alcançar a salvação.
Todavia, estes indivíduos humildes acabavam se tornando uma espécie de monges de segunda categoria, eram obrigados a realizar os trabalhos braçais e ocupavam um lugar diferenciado dentro da comunidade.
Os ingressantes de origem nobre se dedicavam a formação intelectual.
Por volta do ano 910, nasceu na região Borgonha um dos movimentos monásticos mais influentes da cristandade e que ilustra as características citadas.


O império de Cluny.
Fundada por uma doação do Duque Guilherme de Aquitânia, a abadia de Cluny iria se tornar a ordem exemplar, ou como diriam a maioria dos historiadores, o império de Cluny.
Para que não sofresse influências externas, tanto do clero secular quanto de nobres, o mosteiro se colocou sob a obediência unicamente do papa, a própria basílica foi dedicada a São Pedro e São Paulo, como aponta Jérôme Baschet, fazendo frente à própria sé pontifical.
O mosteiro de Cluny começou a se estender, fundando filiais por várias regiões da Europa, nascendo uma ordem meticulosamente organizada que devia obediência ao mosteiro sede de Cluny, bem como ao seu abade geral, o qual adotava uma administração semelhante à monárquica.
No que diz respeito à oração, os monges de Cluny deram importância maior a liturgia, o ora ganhou maior importância que o labora, em síntese, orar e estudar ao invés de trabalhar.
Na regra original de São Bento, estava prescrito rezar os 150 salmos semanalmente, em Cluny rezavam-se, cerca de 215 salmos diariamente, além de quatro horas para a leitura orante da Bíblia, contra seis horas de trabalho.
Os ofícios se transformaram em verdadeiros espetáculos sonoros e visuais, a oração monástica procurava agradar os sentidos humanos.
A visão com a exuberância de paramentos confeccionados em ouro e outros tipos de metais nobres, das vestes douradas usadas pelos abades, além da beleza e imponência das igrejas conventuais.
O olfato com um uso compulsório de incenso que queimava nos turíbulos durante as celebrações litúrgicas, tanto do ofício divino, quanto das missas que chegavam a ter duas por dia, além das missas pelas almas uma das principais fontes de riqueza das abadias.
Por último, a audição, com o canto gregoriano, que se tornou a melodia padrão das igrejas da cristandade, afastando, com seu elitismo eclético, cada vez mais clérigos e leigos da participação ativa da vida espiritual.
A ordem de Cluny, mesmo fechada na clausura, influenciava nos vários negócios temporais da cristandade, seus membros participaram das cruzadas, conseguindo uma quantia generosa pelos seus serviços de “especialistas em oração”, rezando pelas almas de fiéis em ofícios divinos e missas votivas.


Conseqüências da elitização da vida monástica e tentativas de reforma.
O pensamento predominante seria de que o mosteiro seria o local onde Deus era adorado por excelência, onde deveria promover a purificação interior e a salvação pessoal.
Este intimismo, predominante na espiritualidade monástica da primeira idade feudal, levou a um crescente desprezo do estado de vida laico e até mesmo contra o clero secular.
O monge seria uma espécie de cavaleiro em luta constante contra as tentações, suas armas seriam ao invés de espada, armadura e cavalo, a oração, o jejum e mortificação.
O acesso a vida religiosa se tornou cada vez mais restrito, bem como o entendimento dos próprios leigos em relação à doutrina, o que acabou por fomentar o retorno do eremitismo no Ocidente e mesmo, posteriormente, a formação de grupos heréticos.
A proposta inicial de Cluny era de uma reforma do monasticismo beneditino, afastando-se da influência secular, mas os mosteiros eram os últimos locais da cristandade que refletiam pobreza e austeridade.
Foi com Pedro, o Venerável, abade de Cluny, entre 1122 e 1156, que procurou fazer uma tentativa real de reforma, porém, seus estatutos não ganharam muitos adeptos na ordem, cujos membros preferiam acomodar-se na vida de opulência e ostentação.
O crescente afastamento de Cluny dos ideais monásticos incentivou a criação de outras formas de vida religiosa, como os cônegos regulares, numa tentativa de criar entre o clero uma espiritualidade monástica.
Grupos de clérigos se associaram em pequenas comunidades ou em grandes conventos, no intuito de também viverem sob a orientação de uma regra.
Diferentes dos monges, os cônegos não tinham a intenção de fugir do mundo ou mesmo dos grandes centros urbanos dos finais do séc XI e inícios do séc XII, dedicavam-se ao serviço pastoral em paróquias, na assistência espiritual aos fiéis com a cura das almas, além da ajuda a órfãos e viúvas, desempenhando também um importante papel na educação com escolas para leigos.
Em 1090, o papa Urbano II reconheceu oficialmente a vida canônica, no século XII foi adotada a Regra de Santo Agostinho, diferente da Regra beneditina não tinha um caráter imperativo e nem uma rigidez nos costumes dos religiosos.
O texto original não compunha uma regra, mas sim um conjunto de orientações elaboradas pelo bispo para uma antiga comunidade feminina que passava por uma crise interna.
Era mais uma exortação do que uma regra, mas, depois de algumas mudanças, como a adaptação do texto aos religiosos do gênero masculino, tornou-se praticamente um manual para a vida monástica austera.
Destarte, os cônegos não tinham pudores em receber doações ou propriedades, embora, contraditoriamente, devessem buscar uma vida de pobreza e simplicidade.
Embora, como elucida Brenda Bolton, apesar de sua considerável expansão e êxito, os cônegos não tiveram a mesma importância que os monges de seu tempo, estabeleceriam um modo de vida intermediário entre o monacato tradicional e o movimento mendicante.
Além do surgimento da vida canônica, os cistercienses constituíram, dentro do monaquismo beneditino, um dos movimentos de reforma mais emblemáticos da Idade Média.
Por volta do final do século XI, começando por um mosteiro, fundado por Roberto de Molesme em Cister, nasceu esta nova proposta, que pretendia um retorno verdadeiro ao espírito da Regra de São Bento.
O grupo começou a crescer com monges vindos de Cluny, que aderiram à proposta do abade, mas seu adepto mais famoso e influente, responsável pela expansão da ordem, foi Bernardo de Claraval.
Ao querer uma vivência mais fiel à regra, os cistercienses acreditavam que seria necessário afastar-se ao máximo do mundo e dos homens.
A administração da ordem era mais democrática, o abade, em geral, era eleito através do voto de todos os irmãos.
No entanto, seus adeptos também acabaram por abandonar a austeridade que haviam abraçado inicialmente.
A questão da alto suficiência dos mosteiros, obrigou os monges a adquirirem terras cada vez mais afastadas, com o crescimento urbano, os camponeses acabam migrando para regiões de periferia, sendo banidos pelos monges que só acumularam mais terras.
A questão do acumulo agrário visava garantir estabilidade de riqueza para as abadias cada vez maiores.
Não podemos deixar de citar a própria postura de seu maior abade, Bernardo de Claraval, envolveu-se com as várias questões políticas de seu tempo, interferindo nas decisões do papado e pregando as Cruzadas, adotando um discurso de condenação a seus rivais em Cluny.
Ele elaborou críticas ácidas a monges, padres, bispos e nobres, alimentando uma atitude de puritanismo e hipocrisia.
Na verdade era uma tentativa de transformar o mundo em uma espécie de mosteiro e tentar manipular o pensamento, obrigando a ascese, penitência e oração, embora esta intenção dependesse do inverso de tudo isto.


Concluindo.
A vida religiosa desempenhou, durante grande parte da Idade Média, uma influência política, econômica e cultural, apesar das constantes crises e reformas que se deram nas várias formas de vida criadas ao longo do período em questão.
Os mosteiros, mesmo sendo formados por um grupo de pessoas enclausuradas e afastadas do mundo, assumiram uma função notadamente política.
Em contrapartida, percebia-se, por parte da sociedade, uma espécie de adesão ao pensamento monástico.
Desde os primórdios do cristianismo, os religiosos formaram uma espécie de vanguarda no seio da Igreja e na sociedade Ocidental, como percebemos ao longo de movimentos como os mendicantes, no séc XIII, os próprios jesuítas, no séc XVII.
O que dizer da própria Reforma Protestante, mesmo que tenha se tornado um movimento anticatólico, muitos historiadores concordam em dizer que o cônego regular Martinho Lutero não pretendia inicialmente uma ruptura com a Igreja, mas sim uma reforma e um retorno a verdadeira doutrina cristã.
Algo talvez inerente ao pensamento dos religiosos da época, envolvendo a tentativa, sempre mal sucedida, de constante retorno as origens e busca de uma vivência cristã mais fiel ao evangelho.


Para saber mais sobre o assunto.

Fontes Medievais:
- Regra de São Bento. Disponível no site: http://www.osb.org.br: acessado em 12 de novembro de 2009
- Regra de Sto. Agostinho. Disponível no site:
http://dominicanos.pmeevolution.com acessado em 15 de novembro de 2009
 - Vida de Sto. Antão de Sto. Atanásio bispo de Alexandria. Disponível no site: http:// www.padresdodeserto.net.
- Vida de São Bento de São Gregório Magno. disponível no site: www.voltapracasa.com.br: acessado em 15 de novembro de 2009.

Manuais:
BASCHET, Jérôme. A civilização feudal: do ano mil a colonização da América. São Paulo: Editora Globo, 2006.
BERLIOZ, Jacques.Monges e religiosos na Idade Média. Lisboa. 1994.
BOLTON, Brenda. A Reforma na Idade Média: século XII. Lisboa: Edições 70, 1983
BROWN, Peter. A ascensão do cristianismo no Ocidente, Lisboa: Terramar, 1999.
CHADWICK, Henry & EVANS, G. R. Igreja Cristã. Oxford: Edições Folio, 2007.
LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval, Bauru: EDUSC, 2005.
LITTLE, Lester. Monges e religiosos. In: LE GOFF, Jacques; SCHIMIT, Jean Claude. Dicionário Temático do Ocidente Medieval: vol II, São Paulo: EDUSC, 2002, pg 226.
LOYN, Henry. R. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
METTHEW, Donald. A Europa Medieval: Raízes da cultura moderna, Madrid: Edições Del Prado, 1996.
PERROY, Édouard, A Idade Média: tomo III preeminências das civilizações orientais. São Paulo: DIFEL, 1974.
ROUCHE, Michael. A alta Idade Média ocidental. In; ÀRRIÉS, Philipe. DUBY, Georges. História da vida privada: vol 1 do Império Romano ao ano mil, São Paulo: Cia das letras, 2009.     
VÁUCHEZ, André. A espiritualidade na Idade Média ocidental. Lisboa: Estampa, 1999.
VÁUCHEZ, André. São Bento e a revolução dos Mosteiros. In; BERLIOZ, Jacques. Monges e Religiosos na Idade Média, Lisboa: Terramar, 1994.


Texto: Victor Mariano Camacho.
Graduando do sétimo período do curso de licenciatura em História na Uniabeu Centro Universitário (Nilópolis - Estado do Rio de Janeiro).

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Teoria do Conhecimento na antiguidade: contribuições para o pensamento filosófico na Idade Moderna.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jan., Série 17/01, 2011, p.01-08.

Modernamente, a Teoria do Conhecimento é um ramo da filosofia que estuda a possibilidade e a capacidade humana de conhecer a realidade, opondo-se a metafísica.
Neste sentido, utiliza a axiologia (do grego axios = valor), questionando a construção dos valores humanos.
Uma postura fundada por René Descartes, o pai do racionalismo, embora exista uma corrente teórica que defende John Locke como sendo o verdadeiro fundador da moderna Teoria do Conhecimento.
No entanto, apesar de não existir ainda nominalmente, as questões em torno da Teoria do Conhecimento remontam a antiguidade.
Foi quando se estabeleceram as bases que permitiriam aprofundar o debate sobre a possibilidade de conhecer a realidade.
Entretanto, para os gregos antigos a Teoria do Conhecimento era chamada de epistemologia.
Uma palavra derivada a partir de outra, do grego episteme, que significa ciência, conhecimento ou discurso.
Portanto, a análise da construção do discurso e, simultaneamente, o estudo da construção do conhecimento.
Nada mais natural, até porque é próprio da filosofia considerar qualquer teoria como não mais que um discurso bem construído, não possuindo necessariamente correspondência com a realidade.
Uma concepção um pouco diferente da moderna Teoria do Conhecimento, a qual considera a observação da realidade, enquanto um ponto de intersecção entre verdade e senso comum, para tentar entender como o conhecimento é construído.
É interessante notar que a ciência é outro ponto de intersecção possível entre verdade e senso comum, assim também fazendo parte da Teoria do Conhecimento.


Os pré-socráticos.
Os pré-socráticos, notadamente três pensadores que viveram na Grécia do século IV. a.C, iniciaram a discussão em torno da Teoria do Conhecimento, sob a égide da epistemologia: Heráclito, Parmênides e Demócrito.
Para Heráclito, seria impossível conhecer a realidade concreta, pois existiria uma diferença entre o que percebemos e o que temos a capacidade de entender.
Isto porque a natureza está em fluxo perpétuo, tudo se modifica mais rápido do que temos a capacidade de entender.
A partir deste raciocínio, ele criou a teoria do Devir, uma palavra que em grego significa mudança constante, usando a famosa analogia do rio.
Um homem não pode atravessar o mesmo rio duas vezes, pois as águas já não são as mesmas, já que o liquido corre, assim como o homem não é o mesmo, pois ele também se modifica.
Parmênides chegou à mesma conclusão por um caminho diferente, embora parecido.
Para ele só seria possível conhecer aquilo que permanece imutável, pois estando o mundo em constante mudança, o que o pensamento entende já não corresponde à realidade, já passou.
Em outras palavras, ao beber a água de um rio, é impossível dizer se dita água é boa, pois ao fazer esta afirmação, a água que corre pelo rio já não é a mesma que foi ingerida.
Portanto, só podemos dizer o que foi e não o que é.
Uma conclusão diferente da idéia defendida por Heráclito, uma vez que, para este, o que a razão entende não é o que passou, mas sim algo que não corresponde à realidade porque reflete o que os sentidos percebem como real, sem que exista correspondência com a realidade.
No entanto, para Parmênides, observando o que está por trás das aparências é possível entender a realidade, o que implica em descobrir a essência das coisas perguntando: “O que é?”
É a partir desta premissa que Parmênides criou a teoria do ser, segundo a qual toda mudança é ilusória, pois a essência do ser é sempre a mesma, permanece imutável.
É por isto que o ser é definido simplesmente como aquilo que é.
Dentro deste raciocínio, Parmênides dizia que tudo é ser e não ser, a despeito de existir também o vir a ser; ou seja, os sentidos enganam, mas a razão pode identificar o que é ou não e deduzir o que pode se tornar.
Entretanto, Heráclito e Parmênides chegaram a uma mesma conclusão: existe um descompasso entre a realidade e o entendimento, seja este tributário dos sentidos ou da razão.
Na realidade, com estes pensadores, são fundadas duas tradições: a partir de Heráclito baseada na confiança nos sentidos, o que seria continuado pelos empiristas na entrada da modernidade; enquanto Parmênides estabelece a centralização na razão, um prelúdio do racionalismo cartesiano.
Diferente dos dois, Demócrito estabeleceu a teoria conhecida como atomismo, à realidade constituída por átomos, aquilo que não pode ser dividido.
Para ele, sendo o mundo constituído por diferentes átomos, os quais são imutáveis, o mundo e o conhecimento dele é concreto, portanto real.
Temos a impressão de mudanças conforme os átomos sofrem re-arranjos de combinações, mas os átomos permanecem os mesmos.
A percepção não é ilusória, os sentidos percebem aquilo que realmente é, embora somente o pensamento, a razão, seria capaz de observar os reajustes dos átomos e a realidade.
Em certa medida, Demócrito funda a tradição que seria seguida por Kant no século XVIII, ao mesmo tempo, também seguida pelo iluminismo.


Os sofistas e o pensamento socrático.
Os sofistas foram os primeiros políticos e advogados do mundo Ocidental, compunham um grupo que cobrava para ensinar e defender pontos de vista, sendo considerados guardiões da democracia em Atenas e os primeiros professores remunerados.
Dentre os sofistas, destacaram-se Protágoras, Górgias e Isócrates.
Todos viveram na Grécia do século V. a.C.
Refletindo sobre o antagonismo entre os filósofos anteriores, os sofistas terminaram concluindo que o conhecimento é relativo, podendo refletir múltiplas opiniões, isto porque essência da realidade não pode ser conhecida.
Górgias, por exemplo, colocou-se contra Parmênides, afirmando que o ser não existia, pois seria impossível determinar a essência das coisas.
Para ele não é possível dizer o que uma coisa é ou não é, já que poderia ser muitas coisas ou nada.
Na opinião dos sofistas, tudo era apenas uma questão de retórica, linguagem manipulada para modificar a percepção da realidade, os interlocutores percebem o mundo de acordo com a construção do discurso.
Os sofistas defendiam o relativismo, Protágoras cunhou a frase “o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”.
Tentava expressar a idéia de que tudo é conhecido de forma particular por cada um, não existindo conceito absoluto.
Dentro deste contexto, Górgias se notabilizou por responder questões, sem preparo algum, usando apenas a arte da retórica, defendendo idéias absurdas e fazendo os ouvintes chegarem à conclusão de que eram possíveis.
Ele persuadia o interlocutor usando o controle das emoções, envolvendo os sujeitos para convencer.
Isócrates também usou a arte da retórica para persuadir, utilizando a mitologia para validar sua argumentação, inaugurando a manipulação política do povo pelo orador, fundando uma escola de eloqüência.
Um estilo de construção do raciocínio que iludia as pessoas, levando a aceitar fatos totalmente destoantes da realidade.
Justamente diante da utilização política da linguagem pelos sofistas, o pensamento socrático tencionava demonstrar como a realidade era mais complexa do que aparentava.
Para conhecer a realidade, seria necessário afastar as ilusões perpetuadas pela linguagem e os sentidos, o que é expresso pela famosa alegoria do mito da caverna.
O personagem Sócrates duvidava que a filosofia pudesse ser ensinada, como propunham os sofistas, achava que as inquietações deveriam brotar de dentro de cada um.
Também ao contrário dos sofistas, a tradição socrática buscava um conhecimento absoluto e inquestionável, julgando que era possível sim conhecer a realidade, bastava sair da caverna, buscar a verdade por trás das aparências.
Neste sentido, o conhecimento só era limitado pela própria ignorância do sujeito.
O que é expresso pela frase: “só sei que nada sei”.
Simbolismo que significa que quanto mais aprendemos, mais percebemos saber pouco, pois ainda resta muito a conhecer.
A idéia é que, ao sentir-se ignorante, o sujeito se coloca em uma postura de constante aprendizado, sendo possível conhecer realidades provisórias que vão se substituindo e expandindo o conhecimento acumulado.
Na realidade um principio básico que iria forjar o que entendemos por ciência hoje, afinal o que são teorias se não verdades provisórias adotadas até que outras venham substituí-las.


A contribuição de Platão.
Platão viveu em Atenas, na Grécia, no século V. a. C., era de origem nobre, descendia da alta aristocracia; viajou pelo Egito e Península Itálica, acabando escravizado em Siracusa, onde foi comprado e libertado por um amigo, quando voltou para sua cidade natal.
Seu verdadeiro nome era Arístocles, Platão era um apelido, que significava ombros largos, um atributo considerado muito atraente entre os gregos na época.
Em Atenas, de volta da aventura, fundou a Academia, uma escola que seria conservada funcionando pelos próximos mil anos.
Platão demonstrou grande preocupação pelo cárcere representado pelo corpo, defendendo a idéia de que a morte era a libertação definitiva de um mundo ilusório.
Para ele, a realidade percebida pelos sentidos é apenas uma cópia imperfeita daquilo que existe no pensamento, já que o percebido não passa de aparência.

Existiriam dois mundos diferentes:
1.      Mundo Sensível, o qual muda constantemente, puro devir, percebido pelos sentidos, onde se passam os fenômenos, sendo apenas uma cópia imperfeita da realidade.
2.      Mundo Inteligível ou das Idéias, livre de mudanças e presente no pensamento, refletindo a verdadeira realidade, enxergando por trás das aparências.

Esta concepção faz parte da hierarquização do mundo presente na essência de todo o pensamento platônico, já que existiriam graus de conhecimento entre o mundo sensível e inteligível.
A matemática estaria no grau mais puro e verdadeiro do conhecimento da realidade, pertencendo completamente ao contexto das idéias, sendo pura abstração.
Platão tentou resolver a oposição entre Heráclito e Parmênides, buscando uma solução para a oposição entre a idéia de que tudo é movimento e de que isto é uma ilusão, pois a essência não muda.
Para isto elaborou uma teoria gnosiológica (gnosis = conhecimento), demonstrando preocupação com a validade da construção do conhecimento.
Pensou na afirmação de Heráclito de que é impossível dizer o que é uma árvore, uma vez que ela muda conforme cresce existem muitas espécies.
Contraposta a idéia de Parmênides de que a árvore muda desde a semente até morrer, existindo muitas espécies, mas sua essência é ser árvore.
Platão resolveu a questão de forma diferente de Demócrito, não usando o subterfúgio do átomo.
Para ele, a árvore muda porque não é apenas uma idéia, mas uma representação do pensamento, uma cópia imperfeita da realidade.
Platão usa um mito para explicar este conceito, supondo que, antes de nascer, a alma vivia em uma estrela, onde se localizavam as idéias.
Ao nascer, o impacto leva ao esquecimento, mas a anamnesis (reminiscência) conduz a recordar a partir das cópias imperfeitas da realidade.
Portanto, é impossível conhecer a realidade vivendo neste plano térreo de existência, o que pensamos saber é apenas uma sombra da verdade.
O conhecimento mais próximo da realidade concreta está apenas no mundo das idéias, daí inclusive a expressão amor platônico significando originalmente que o verdadeiro amor pertence aquilo que é imaginado e não ao vivido.
Uma vez que o imaginado é real para quem imagina, enquanto o vivido pode parecer real para mim, mas não ser para o outro.


As idéias de Aristóteles.
Aristóteles nasceu em Estagira no século IV. a. C., filho do médico pessoal do rei da Macedônia, na Grécia, indo para Atenas aos dezesseis anos de idade para estudar na Academia de Platão.
Mais tarde, foi professor de Alexandre, o Grande, filho do rei da Macedônia de quem o pai de Aristóteles foi médico.
O pensamento aristotélico parte do mesmo principio hierarquizado das idéias platônicas, distinguindo graus de conhecimento que transitam entre o mundo sensível e inteligível.
No entanto, diferente de Platão, Aristóteles afirma que a realidade é formada pelo acumulo de graus.
Embora as idéias expressem a verdade, este conhecimento é inútil, pois a realidade é uma junção de graus.
Isto porque, além da razão e dos sentidos, para conhecer é necessário usar a intuição, um raciocínio inconsciente, uma suposição sobre o que pode ser.
A matemática insere-se, neste contexto, como grau mais puro de conhecimento.
Diferente de Platão, Aristóteles não considera que a matemática pertence ao mundo das idéias, sendo puramente intuitiva, precisando da soma dos graus para existir como conhecimento.
A matemática necessitaria da razão, dos sentidos e da intuição como instrumentos que ajudam a pensar sem equívocos.
O que, por sua vez, originou a idéia de que não é possível encontrar a essência das coisas.
Assim, a questões éticas não seriam possíveis de aplicação prática, já que não é possível definir “o que é”.
Para estas questões, Aristóteles encontrou como solução a repetição das ações para garantir a ordem das coisas e atingir a felicidade.
Não sendo possível dizer o que é imutável, como definir, por exemplo, o que é a virtude?
O virtuoso se torna o que está convencionado pela repetição dos atos.
O que originou o silogismo, a demonstração do raciocínio dedutivo por meio de operações do pensamento, envolvendo premissas que permitem chegar a uma conclusão.
Um raciocínio que, segundo Aristóteles, permite se aproximar do conhecimento da realidade.


Concluindo.
A despeito da discussão iniciada na antiguidade, durante a Idade Média, o cristianismo interrompeu o debate em torno da possibilidade de conhecer.
Isto porque o cristianismo medieval distinguiu as verdades de fé, reveladas, e a realidade racional.

Em outras palavras, a realidade passou a ser aquela que Deus permite conhecer, revelada pelo poder eclesiástico.

Esta forma de enxergar o mundo só começou a mudar a partir da contestação de alguns pensadores, entre eles, nos século XVII, René Descartes na França e John Locke na Inglaterra.
Os dois, conforme a corrente teórica, são considerados fundadores da moderna teoria do conhecimento.
Entretanto, Descartes segue uma tradição iniciada na antiguidade por Parmênides, baseada na razão, representando o racionalismo.
Locke continuou a vertente iniciada por Heráclito, baseada nos sentidos, originando, junto com outros filósofos de sua época, empirismo.
Assim, ao observar o pensamento filosófico na Idade Moderna, devermos ter em mente a forte contribuição de uma discussão densa iniciada na antiguidade.


Para saber mais sobre o assunto.
ALQUIÉ, F. et. alli. Galileu, Descartes e o mecanismo. Lisboa: Gradiva, 1987.
CHAUI, M. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 1984.
KOYRÉ, A. Considerações sobre Descartes. Lisboa: Presença, 1963.
KUJAWSKI, G. Descartes existencial. São Paulo: Edusp. 1969.
MACIEL JR, A. Pré-socráticos: a invenção da razão. São Paulo: Odysseus, 2007.
PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.
SANTOS, J. Do empirismo a fenomenologia. São Paulo: Loyola, 2010.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.