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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

As relações internacionais entre portugueses e japoneses no século XVI.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jan., Série 10/01, 2011, p.01-11.

Quando os portugueses chegaram ao Japão, as relações comerciais entre japoneses e chineses estavam interrompidas, logo os lusos perceberam que poderia ser muito lucrativo trocar a seda e a porcelana chinesa pela abundante prata japonesa.
O que, ao mesmo tempo, teoricamente resolveria em parte um dos principais problemas enfrentados em Portugal na época: a escassez de metais preciosos.
A estratégia garantiria no Oriente uma monetarização que poderia proporcionar dividendos em quantidade suficiente para estimular trocas pacíficas na China.
Entretanto, a despeito do cabedal oferecido pelos portugueses ser mais do que bem vindo, por esta altura, o Japão encontrava-se isolado em um território compartimentado, nos primeiros contatos, os desentendimentos culturais geraram inevitáveis conflitos, constituindo um grande entrave a penetração lusitana.


A estrutura política japonesa.
País milenar, o Japão havia se constituído em terras nas quais as forças da natureza se manifestavam brutalmente com freqüência.
A região estava condicionada por um clima agressivo e violento, fazendo os japoneses voltarem-se para dentro de seu próprio território, então esfacelado politicamente, mas possuía uma religião e objetivos militares que unificavam o povo.
Na época em que os portugueses chegaram ao Japão, segundo documentos lusitanos do período, os da terra tinham um imperador, chamado de jacata, apesar deste ser oficialmente o “senhor absoluto do país”, governando na ocasião o príncipe Mikato, na realidade ele tinha o “suficiente apenas para a sua pessoa”.
O imperador não era mais do que um dos muitos senhores feudais existentes, “distribuindo e repartindo suas terras entre outros, chamados cunixu, sendo semelhantes aos condes e duques europeus”.
Cada um destes outros, inferiores ao imperador e aos cunixu, eram chamados tonos, aos olhos dos portugueses eram semelhantes aos barões.
Estava em vigor um sistema político semelhante ao feudalismo vivido ainda em alguns países da Europa no mesmo período em que Vasco da Gama chegou ao Oriente, ou seja, o imperador era mera figura decorativa, não mais que um senhor feudal com poderes um pouco estendidos dentro do âmbito das relações de sucerania e vassalagem.
O imperador Mikato era manipulado pelo generalíssimo da coroa, o shogun, ele de fato controlava e mantinha o Japão unificado em torno de si, forçando os senhores locais a respeitar a obrigação de servir e submeter seus súditos em prol da segurança do país contra os inimigos externos.
O shogun era o senhor feudal mais rico e poderoso do Japão, mantinha às suas próprias custas um grande exército.
Os outros senhores feudais deveriam, cada qual, satisfazer as necessidades de distribuição de soldados pelos pontos estratégicos definidos por ele.
Os ditos soldados deviam obediência cega unicamente ao shogun e não ao jacata.
Ao passo que, em troca, cunixus e tonos tinham total autonomia sobre suas terras, podendo castigar, exilar, matar e fazer da vida de seus súditos o que bem entendessem.


A estrutura militar japonesa.
A falta de um poder político moderador, sendo os senhores locais considerados como simples soldados, facilmente substituíveis, isto é claro desde que os substitutos honrassem a tradição de obedecer ao shogun quando requisitados, tornava freqüente as intrigas internas dentro de cada feudo.
O que levava a manutenção de uma complexa e grande estrutura militar fragmentada, embora unida pela fidelidade ao shogun.
Os assassinatos entre pais e filhos ou servidores e familiares eram comuns, assim como, igualmente, as disputas sangrentas em nome da honra entre dinastias e/ou feudos.
Tudo era tolerado desde que não interferisse na segurança do país, o que de certa maneira facilitou o trânsito de naus portuguesas, a despeito de não ter ajudado na fixação de entrepostos mercantis.
É importante ressaltar que a segurança interna do Japão estava sempre em primeiro plano, acima de quaisquer disputas internas, pois há séculos japoneses e chineses vinham se hostilizando mutuamente.
Seja como for, dentro do contexto da soberania política de cada senhor sobre seus domínios, para os lusos seria fácil encontrar senhores dispostos a permitirem o trânsito de embarcações lusitanas.
A motivação inicial seria unicamente a possibilidade de trocar produtos da China e da Índia pelo amplo poder de compra da prata japonesa.
Mesmo quando havia mudança de comando sobre um feudo, interditando o comércio, os lusos podiam explorar as rivalidades internas para obterem permissão para freqüentar zonas próximas, sem prejuízo algum.
A estrutura militar japonesa seria amplamente utilizada pelos portugueses, valendo-se das intrigas familiares para colocar no poder um senhor mais condizente com seus interesses.
Simultaneamente, ao menos pela altura da chegada dos lusos, ao contrário do que ocorria no mar da China, os japoneses não tinham qualquer tipo de marinha de guerra ou piratas agindo em seu litoral.
O que permitiu aos portugueses preencherem a demanda por embarcações que ligassem o Japão com a China.
Este vácuo havia sido criado, não pela incapacidade ou desinteresse nipônico de aperfeiçoar navios de longo curso, mas justamente pelas péssimas relações entre japoneses e chineses.


Relações nipo-chinesas.
Antes da chegada dos portugueses a região, as relações diplomáticas entre japoneses e chineses sempre tinham sido marcadas por desencontros e conflitos múltiplos.
O próprio mito do nascimento do Japão, contado pelos chineses, demonstra bem o tipo de intolerância praticado pelos dois lados.
Segundo comentários que corriam entre os chineses, em tempos remotos, havia no reino da China uma família grande e poderosa, que conspirava, por acordo secreto entre todos os seus amigos e aderentes, contra o imperador chinês.
Os conspiradores pretendiam expulsar o imperador de seu trono e matá-lo, a fim de tomar o seu lugar.
O plano falhou, mas o imperador chinês forjou por vingança manter os traidores vivos e castigá-los com uma pena melhor do que a morte, um exílio perpétuo para as ilhas do Japão, que na altura estavam despovoadas.
Embora o relato não tenha fundamento histórico, reflete uma imagem impregnada no imaginário chinês da época, expressando a inimizade nipo-chinesa que fazia ambos os povos se odiar.
Constituem fatos concretos as mútuas tentativas de invasão e pilhagem na costa japonesa e chinesa.
Graças a esta inimizade, a despeito das dificuldades enfrentadas no mar da China, os portugueses puderam se encaixar no papel de intermediários entre inimigos civilizacionais por excelência.


A chegada dos portugueses ao Japão.
Oficialmente, os portugueses chegaram ao Japão em 1543, sendo bem recebidos pelos habitantes laçais, embora seja provável que o primeiro contato tenha se dado muitos anos antes.
Destarte, inicialmente o comércio com o Japão esteve entregue aos particulares, motivo pelo qual, durante as primeiras décadas, os portugueses não freqüentaram sistematicamente o mesmo porto, apesar de ser corriqueiro passar pelo porto de Bungo e/ou pela ilha de Hirado.
Em um destes primeiros contatos, pela altura da primeira metade de quinhentos, aventureiros portugueses chegaram à ilha de Tanixumma, em uma cidade descrita pelos lusos como “muito nobre”, chamada Quangeparuu.
Na realidade um povoado costeiro com quinze ou vinte mil pessoas, portanto, para os padrões europeus, classificado como cidade.
Na ocasião, considerada, erroneamente, pelos lusos como sem “força para sua defesa”, uma vez que tinha “um só muro de tijolos de oito palmos de largura, uma cava de cinco braças de largo e sete palmos de fundo”.
Segundo o relato da época, os moradores da cidade eram “gente fraca e desarmada, não tendo artilharia, nem coisa que pudesse prejudicar a quaisquer quinhentos bons soldados que a cometessem.
Todavia, através dos conflitos armados que se seguiriam, os portugueses logo notariam que não passava de uma mera aparência a suposta fraqueza do Japão.


Os japoneses segundo o olhar lusitano.
No Japão, mesmo o povo comum e a gente do campo eram muito diferentes das outras nações até então encontradas pelos lusos.
Dentro da ótica portuguesa, até o mais simples camponês tinha uma boa cortesia, como se fosse educado todos os seus dias na corte de um rei.
O que os lusos não perceberam inicialmente é que todos os homens válidos, sem distinção eram grandes peritos no manejo de armas, estimando uma boa espada, feita por um mestre antigo e renomado.
Como cedo poderiam notar os portugueses, para os japoneses as espadas eram consideradas como jóias e preciosidades.
Quando os portugueses perguntavam aos japoneses por que estimavam tanto uma espada, respondiam perguntando por que os lusos consideravam de tão grande valor os diamantes, os rubis e outras pedras, que não tinham proveito nenhum e não serviam para nada a não ser para contemplar, enquanto as coisas deles tinham o seu propósito e podiam servir-lhes de uma maneira ou de outra.
Assim, como aconteceu na China, ficou evidente que o comércio com o Japão deveria ser galgado através da diplomacia.
Ao que os japoneses passaram a ser vistos com admiração, principalmente por serem muito inteligentes e apreenderem muito rapidamente.
O seu comportamento, as suas maneiras e falas, todo o cerimonial da vida e cortesia nipônico foi considerado exemplar aos olhos lusitanos, isto apesar de serem completamente opostos aos de todas as outras nações até então conhecidas.
Para os portugueses, os japoneses não podiam ser considerados tão limpos nem tão cuidadosos com as suas coisas como os chineses, satisfazendo-se com pouco, andado, porém, na maior parte das vezes bem tratados e vestidos de seda, quase como os habitantes da China.
Entretanto, a visão japonesa sobre os portugueses não atribuía qualidades tão nobres aos europeus.


Os portugueses foram tratados como mendigos pelos japoneses.
A despeito da insistência lusitana em identificarem-se como mercadores e gente boa, o estado lastimável que a vida no mar suscitava aos navegantes, fazia os portugueses, quase sempre, serem tomados pelos japoneses como mendigos.
Em certa ocasião, por exemplo, uma tripulação lusitana que passou por Tanixumaa foi interpelada por nativos que queriam ajudá-los com esmolas, como tinham por costume fazer aos pobres da terra.
Exatamente por esta razão, os lusos adotaram um hábito peculiar ao chegar a uma nova localidade, onde nunca haviam estado antes.
Diziam que eram naturais de Malaca, abastados mercadores que por oficio tratavam com fazendas do reino da China.
O que não fazia mais que aumentar a confusão, pois, simplesmente por mencionarem que vinham da China, eram tidos como ladrões que tinham vindo matar e furtar.
Procedendo assim, alguns portugueses que estiveram em Pongor, por exemplo, terminaram na prisão, onde estiveram quase dois meses, com assaz trabalho e sofrimento, até que o engano foi finalmente desfeito.


A introdução de armas de fogo no Japão pelos portugueses.
Logo nos primeiros contatos, as armas de fogo carregadas pelos lusos chamaram a atenção dos japoneses, abrindo as portas do país para as naus lusitanas.
Destarte, as armas européias, diferente do que poderia ser imaginado ou do que havia ocorrido na África e na Índia, não seriam usadas para forçar a manutenção de um comércio com o Japão pode, passariam de maneira peculiar a constituir uma moeda de troca pelo livre trânsito entre feudos.


Os japoneses não se interessariam, como os africanos, por adquirir grandes quantidades de armas e munições, proporiam um acordo diferente. 
Segundo consta, quando aventureiros portugueses estiveram em Nautaquim, por volta de 1550, tendo estabelecido relações amigáveis depois de algumas confusões, estando Diogo Zeimoto, por passatempo, atirando com uma espingarda, foi observado por japoneses que enxergaram naquilo uma feitiçaria.
Naquela terra nunca se tinha visto tiro de fogo, o que fez o português ser chamado à presença do senhor local.
Este não estava assustado, mas sim interessado no artefato como um meio para se sobrepor aos seus inimigos.
Diogo terminou vendendo uma única arma por uma grande quantidade de prata, ensinando o dito senhor japonês a fazer pólvora em troca de livre trânsito em seus domínios.
 Os japoneses de Nautaquim desmontaram a espingarda, passando a entender seu funcionamento, aperfeiçoando e industrializando sua fabricação.
Em cinco meses e meio, depois de sua introdução, havia no Japão mais de seiscentas espingardas fabricadas ali mesmo.
Acontece que, tendo se espalhado a noticia de sua utilidade, outros senhores começaram a procurar os portugueses para trocar o livre trânsito em suas terras por uma única espingarda e o segredo da fabricação da pólvora.
Em pouco tempo, quase todo o país tinha domínio sobre as armas de fogo, somente o senhor de Funcheo, por exemplo, em seis anos conseguiu produzir mais de trinta mil espingardas.
A introdução das armas de fogo no Japão terminou garantindo, ao mesmo tempo, um maior poder de barganha nas negociações nipo-portuguesas e uma enorme vantagem estratégica a alguns senhores japoneses.
O que mais tarde daria origem a unificação política do país, tornando o Japão militarmente ainda mais forte, inclusive desequilibrando o jogo de poder na Ásia em prol dos japoneses.


Tentativas frustradas de fixação lusitana no Japão.
Ao contrário do que aconteceu na China, a despeito das facilidades representadas pela divisão política interna e pelo poder de barganha das espingardas, no Japão os portugueses nunca conseguiram estabelecer uma base avançada.
Como se não bastasse, chegaram a ser expulsos e impedidos de freqüentar o litoral japonês em menos de dois século depois de terem aportado pela primeira vez por lá.
Tentar compreender como e porque isto aconteceu, passa justamente pelos desentendimentos culturais nipo-portugueses, pois, enquanto o Estado japonês em si não constituiu, ao menos inicialmente, um obstáculo à criação de entrepostos lusitanos, a tentativa de implantação da fé cristã, contraposta a religião do país, terminou por conduzir a um inevitável conflito que resultou em um banho de sangue.
Enquanto o ir e vir das naus portuguesas esteve restrito aos aventureiros, o pequeno número de missionários que tentaram converter os japoneses não causou dano algum.
Todavia, estes mesmos aventureiros descobriram que além da prata o Japão tinha outros produtos a oferecer, tal como ferro, aço, chumbo e estanho, que eram na altura mais do que necessários para o reparo das naus da Índia e exportação para o Brasil.
Além de poder ser obtido no Japão também salitre, enxofre, mel, cera, açúcar, e grande quantidade de gengibre muito melhor e mais perfeito que o da Índia.
Sendo encontrado também madeira de angelim, jatemar, poitão, pisuu, pinho manso, castanho, souro, carvalho e cedro, de que se poderia fazer milhares de navios nos estaleiros que estavam sendo fundados na Índia.
O que fez as autoridades de Goa recomendarem ao rei de Portugal mudanças na política com relação ao Japão, a rota se tornou um monopólio da Coroa em 1550.
Foi fundada uma Carreira, um caminho marítimo regular entre Malaca, Macau e o Japão em 1557, a partir do que a presença de religiosos nas naus foi intensificada.
Como não tinham força militar para invadir o Japão, os portugueses pretendiam exercer influência através da fé.
Um grande erro que dificultou e impediu tentativas de fixação no país.


Conflitos religiosos nipo-lusitanos.
O Padre Francisco Xavier iniciou o primeiro trabalho de evangelização sistemático em 1549, quando converteu aos cristianismo oitocentas almas nipônicas em cinco meses.
Durante este tempo foi muito afrontado pelos japoneses que defendiam suas tradições, repelindo os cristãos, o que fez ele embarcar para a China, onde foi morto por ladrões no reino de Liampoo.
Não obstante, foi através da experiência do Padre Xavier que a Coroa percebeu que para fazer os japoneses acreditarem na magnificência e grandeza da Europa, seria necessário incitá-los a fazerem-se cristãos.

Só assim seria possível garantir uma maior penetração lusitana nas ilhas do Japão e ampliar os lucros com donativos dos príncipes japoneses.

A exemplo do que havia ocorrido na China, diante de um povo preparado para repelir qualquer tentativa de invasão, os lusos optaram por tentar intensificar o comércio com o Japão através da fé.
O rei de Portugal serviu-se inicialmente dos soldados de cristo, jesuítas, para persuadir pacificamente os japoneses a converterem-se ao cristianismo, institucionalizando as relações nipo-lusitanas em busca de uma lucratividade que a Carreira da Índia começava a não mais poder proporcionar.
Para além do povo miúdo, em 1562, os jesuítas conseguiram converter o dáimo Omura Sumita, sendo então chamado de daimyô aquele que tinham um título equivalente ao de senhor feudal.
 O qual cedeu o porto de Yokoseura aos portugueses.
No entanto, este primeiro êxito não durou mais que um ano, pois, em 1563, o dito porto foi arrasado pelos próprios súditos de Sumita, em uma revolta contra a traição do dáimo a tradição de honra e hegemonia japonesa, sendo os portugueses expulsos do feudo.
A primeira tentativa parcialmente bem sucedida de fixação lusitana através da fé, embora tenha fracassado, mostrou ser possível atingir o objetivo, servindo de estímulo à intensificação da presença de clérigos no Japão.
A presença de religiosos cristãos no Japão foi incentivada e patrocinada pela Coroa portuguesa em prol de seus próprios interesses.
Após várias tentativas, em 1571 os jesuítas conseguiram se estabelecer em Nagasáqui, por meio dos quais os portugueses obtiveram, além da permissão para freqüentar o porto daquela cidade, a proteção do senhor local, ficando, contudo, o controle sobre o dito porto nas mãos de japoneses.
Destarte, os japoneses tinham a sua própria religião e seus ídolos e ministros, os quais eram chamados bonzes, sendo estes muito respeitados, alguns dos quais, após a chegada dos jesuítas, tinham sido feitos cristãos.
O que, dentro dos preceitos budistas, não fez mais que aumentar a indignação entre aqueles que se mantinham fiéis a tradicional fé japonesa, sobretudo entre os bonzo que continuavam à frente dos templos.
O combate ao cristianismo aumentou na mesma medida em que as conversões começaram a ter maior sucesso.
Depois de obterem a proteção do dáimo de Nagasáqui, em seguida, os jesuítas conseguiram batizar senhores feudais japoneses, a saber, em Bungo, Arima e Omura.
Foi quando tudo começou a degringolar, estes três senhores japoneses mandaram os seus filhos e primos com os jesuítas para a Índia, para seguirem dali para Portugal, e, assim por diante, até Roma, para jurarem obediência ao Papa.
De fato, eles saíram do Japão em 1582, viajaram para Portugal e, dali, para Madrid, onde foram recebidos com grande triunfo pelo rei e pelos fidalgos da Espanha, acolhidos honrosamente, recebendo muitas dádivas e donativos e partindo para Roma, percorrendo toda Itália.
Estes novos cristãos japoneses retornaram a sua pátria em 1587, com cartas do Papa e algumas coisas santificadas, tal como uma relíquias da cruz de Cristo, com a firme convicção de moverem uma verdadeira cruzada para converter todo o povo do Japão.
Foi o que bastou para acabar com a paciência dos líderes japoneses, que, alias, vinham até então se mostrando mais tolerantes que seus próprios súditos com as peripécias dos clérigos europeus.


Concluindo.
Em 1560, Oda Nobunaga havia iniciado a unificação política do Japão, graças ao poder de fogo da tecnologia das espingardas, então obtida com os portugueses, o que lhe garantiu uma enorme vantagem sobre seus adversários.
Quando o imperador Nobunaga faleceu, em 1582, o shogun Toyotomi Hideyoshi, concluiu a centralização.
Foi Hideyoshi que, diante da finalização da unificação política do Japão, encarou o retorno dos parentes dos senhores de Bungo, Arima e Omura, completamente entregues a um fanatismo cristão prol Portugal, como uma ameaça à centralização iniciada em 1560.
Isto culminou, depois de inúmeros apelos dos bonzo, com a decretação da expulsão dos religiosos portugueses, fossem de qualquer ordem, em 1587.
A despeito do trânsito de naus lusitanas ter continuado livre, embora o Estado japonês, para além da proteção de alguns senhores individualmente, não fornecesse qualquer tipo de garantia de segurança contra a ira dos populares.
Seja como for, a partir da expulsão dos clérigos cristãos, longe da influência dos jesuítas, segundo palavras literais da documentação da época, cresceu entre a arraia miúda a opinião de que um português não passava de um “cão fedorento, e mais pobre que todos os pobres, simplesmente um piolho que comia percevejos e carne humana de gente morta”.
Uma opinião plantada pelos bonzo, tidos pelos japoneses como pessoas que tinham uma vida santificada, gastavam a maior parte da noite em rezar, guardando perpetua castidade, não comendo peixe fresco, curando os doentes, ensinando os filhos dos homens comuns bons costumes.
Um comportamento que, mesmo para os japoneses convertidos ao cristianismo, parecia mais condizente com os ensinamentos de Cristo do que aquele praticado pelos marujos portugueses.
Para a lógica nipônica o que diziam e pregavam os lusos não parecia com o que eles praticavam, acarretando em um rápido retrocesso na presença da fé cristã no Japão, com conseqüências que, em poucas décadas, iriam trazer grandes problemas para os portugueses.
Não obstante, o Imperador Hideyoshi faleceu no ano seguinte ao decreto que determinou a expulsão dos religiosos portugueses do Japão, mergulhando o país, a partir de 1598, em uma sangrenta guerra civil.
Esta guerra só terminou quando subiu ao poder a dinastia Tokugawa, em 1603, que governaria os japoneses até 1868.
O que, de qualquer forma, estimulou alguns fidalgos e mercadores portugueses a transportarem missionários clandestinamente, em uma tentativa de reverter o quadro contrário a presença lusitana no Japão.
Infelizmente para os portugueses, existia uma vigilância acirrada dos bonzo, empenhados na tentativa de acabar com a guerra civil através da união em torno do combate a nociva presença de estrangeiros no Japão.
Os portugueses passaram a ser considerados como corruptores da tradição nipônica, o que não permitiu a volta dos clérigos cristãos, antes, eles passaram a ser perseguidos e martirizados.
Em 1596, por exemplo, dezenove japoneses e sete franciscanos foram crucificados e cento e vinte igrejas, que procuravam resistir à perseguição com ou sem europeus à frente delas, foram queimadas.
Ainda antes da unificação política do Japão, a chegada dos holandeses as ilhas nipônicas, em 1600, seguida pouco depois pela entrada dos ingleses no cenário, dificultou ainda mais a situação dos portugueses.
Os recém chegados protestantes sabiam, por meio de espiões, da intolerância japonesa para com religiosos europeus, por isto não traziam missionários a bordo de suas embarcações.
Holandeses e ingleses diziam-se inimigos dos portugueses, era o que bastava para serem bem recebidos.
Vale lembrar que vigorava na época a malfadada União Ibérica, quando a Coroa portuguesa estava nas mãos do rei de Espanha, tornando os lusos inimigos da Holanda e Inglaterra.
Pouco a pouco, a utilidade da presença de naus portuguesas no Japão foi perdendo espaço.
Depois que o inglês William Adams foi nomeado como conselheiro do shogun, substituindo um jesuíta, em 1613, no ano seguinte um novo édito de expulsão dos missionários que haviam permanecido ilegalmente no país foi promulgado.
A perseguição e os martírios se intensificaram, terminando por gerar uma onda de revoltas, cujo ápice foi atingido em 1637, quando milhares de cristãos foram martirizados.
O fato serviu de pretexto para culpar os portugueses pela confusão reinante entre os camponeses, culminado com uma ordem de expulsão de todos os portugueses do Japão em 1639.
A perda do comercio com o Japão privou os portugueses da prata nipônica, contribuindo para o declínio da Carreira da Índia.
Algo que os lusos tentaram reverter sem sucesso.
O fracasso de uma missão pacificadora, enviada em 1640 por comerciantes de Macau a Nagasáqui, acabou mal.
Os membros da expedição foram horrivelmente martirizados, em um momento em que Portugal recuperava sua independência pelas mãos de D. João IV.
O que prestou forte contribuição para que a recém restaurada monarquia portuguesa optasse por incrementar a rota do Brasil, em detrimento do Império lusitano no Oriente.
Entretanto, a presença portuguesa em Macau e Goa garantiria a sobrevida das armadas da Índia até 1865.


Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e obstáculos enfrentados pelas armadas da Índia portuguesa. 1497-1653. São Paulo: Humanitas, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2004.
RAMOS, Fábio Pestana. Por mares nunca dantes navegados. São Paulo: Contexto, 2009.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

As relações internacionais entre portugueses e chineses no século XVI.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jan., Série 03/01, 2011, p.01-13.

Ao contrário do tratamento dispensado aos indianos, quando os portugueses chegaram à China, identificaram os chineses não aos infiéis, mais sim, aos gentis, interessando-se vivamente por sua cultura.
Em 1509, após recolherem informações junto as costa indiana sobre um povo branco que há mais de 60 anos não navegava mais por aquelas águas, resolveram adentrar o mar da China.

Já existia um intercambio comercial entre chineses e indianos, realizado por mercadores guzerates, quando especiarias eram trocadas por porcelanas e seda chinesa.

Rapidamente, os portugueses perceberam que poderia ser mais lucrativo eliminar os atravessadores e eles próprios negociarem com os chineses.


A China antes da chegada dos portugueses.
Em 1125, os chineses haviam trocado o comércio terrestre pelo marítimo, por meio de um processo que tinha se iniciado em 618, transferindo a capital do império do interior setentrional para o litoral meridional.
Foi construída uma talassocracia poderosa, contudo, depois que Kubilai Cã (1214-1294), neto de Gengis Cã, exterminou a dinastia Sung, dando inicio a uma nova ordem de imperadores estrangeiros, o comércio marítimo passou a ser visto como desonroso, sendo momentaneamente abandonado.
Em 1368, os chineses conseguiram expulsar os mongóis, recolocando no trono um imperador da terra que reiniciou o expansionismo naval pelo Índico.
Por esta altura, a China chegou a possuir uma frota naval de 63 grandes juncos, tripulados por 30.000 marinheiros.
No entanto, entregue aos caprichos de um poder fortemente centralizado na figura do imperador, sujeito, portanto, a alterações bruscas quando da passagem da coroa de um soberano ao outro, em 1433 o Império chinês interrompeu novamente a expansão marítima.
A constante ameaça de invasão bárbara em suas fronteiras terrestres fez os chineses concentrarem os recursos disponíveis em terra.
Isto não significa que o mar da China tenha ficado completamente desprotegido, pelo contrário, apesar da atividade comercial marítima passar a ser considerada desonrosa novamente, quando os portugueses chegaram ao litoral chinês, a marinha de guerra estava em franca expansão.
Cada província costeira chinesa, governada por um representante direto do imperador, então chamado de Mandarim, possuía sua própria marinha de guerra que, por sua vez, patrulhava uma zona restrita, possibilitando a cada armada não tardar mais do que três a quatro dias para retornar a primeira cidade por que havia passado.


O poderio marítimo chinês.
Embora a primeira vista possa parecer que a chegada dos lusos foi o principal estimulador do incremento da marinha de guerra chinesa, na realidade isto vinha sendo levado a termo há pelo menos meio século.
O deslocamento da atenção do poder central para as fronteiras terrestres havia deixado um espaço em aberto que, rapidamente, tinha sido ocupado por piratas chineses e guzerates.
Quando estes haviam começaram a perturbar as populações litorâneas, o imperador tinha sido obrigado a descentralizar sua antiga marinha, passando a responsabilidade da patrulha costeira aos Mandarins.
Assim, quando os portugueses iniciaram o mapeamento do mar da China, para além da grande força presente em terra, toparam com armadas que patrulhavam a costa de cada província.
O que dificultou enormemente a conquista pela força das armas de qualquer ponto estratégico litorâneo que pudesse servir de trampolim ao domínio do comércio marítimo da zona.
Para se ter uma idéia do peso das armadas chinesas, quando um capitão português à frente de três naus fortemente artilhadas, por volta da metade quinhentos, esteve no mar da China à procura de seda que pretendia tomar dos nativos quase de graça, um episódio inusitado aconteceu.
Pretendendo, a exemplo do procedimento adotado na Índia, comprar barato através da intimidação pela força das armas, a simples menção de que a armada do Mandarim de Buhaquirim estava tomando mantimentos em um lugar dali sete léguas, fez os portugueses recuarem.
Principalmente porque eles sabiam ser esta armada composta por quarenta juncos grandes e vinte e cinco outras embarcações menores de remo, em que estavam presentes sete mil homens, sendo cinco mil soldados e dois mil marinheiros.


O estabelecimento de relações diplomáticas.
Quando finalmente os portugueses encontraram um povo devidamente preparado para resistir à invasão, contornaram o problema através da diplomacia.
Pela ótica lusitana não havia outra opção, uma vez que, para além de uma marinha de guerra forte e um exército terrestre numeroso, a própria forma de governo centralizada existente na China impedia que fossem encontrados aliados entre os nativos da terra.
Aparentemente não havia nada que pudessem servir de estopim a desestruturação da coesão interna, a China era um Império poderoso.
A lealdade era colocada em primeiro plano pelos chineses, quando a soberania do imperador era colocada em seque, nem os piratas aceitavam formar alianças com os portugueses, a despeito de terem existido algumas poucas.
Não possuindo o Estado chinês qualquer tipo de interesse no comércio marítimo, estando o país fechado e voltado para dentro quando os portugueses chegaram por lá, como ocorreu na Índia, à origem dos desentendimentos luso-chineses encontrou sua base nas diferenças civilizacionais.
Um obstáculo que impediu os portugueses de substituírem totalmente os piratas chineses e guzerates, assim como os mercadores de Malaca, na intermediação comercial entre a China e a Índia e, posteriormente, com o Japão.


O deslumbramento português frente à cultura chinesa.
Ao contrário do que aconteceu com outros povos encontrados pelos portugueses, desde os primeiros contatos, eles ficaram muito impressionados com a organização social chinesa, suas cidades, sua tecnologia, e, diga-se de passagem, especialmente com a tipografia, caracterizando os chineses como muito corteses.
Os relatos que chegavam a Portugal, dando conta das novidades que eram observadas na China, classificavam as obras de arquitetura como preciosas e engenhosas.
Faziam notar que as ruas, nas cidades e aldeias, eram muito formosamente empedradas e pavimentadas, todas construídas de forma perpendicular, de modo que quem estava de um lado poderia ver até o fim da rua, por mais comprida que fosse por causa da sua retidão.
As cidades portuguesas de então tinham ruas tortas, raramente eram pavimentadas e, a desorganização, fazia com que muitas não tivessem saída, dando em becos perigosos para os transeuntes, formando verdadeiros labirintos.
 As casas chinesas eram descritas pelos portugueses com admiração, pois seriam bem estruturadas, baixas, sem andares e térreas, com um interior muito espaçoso e com grandes divisões e jardins de recreio, cheias de todo o gênero de curiosidades e ornamentos.
Diante de relatos como este fica fácil imaginar o impacto que devem ter provocado em Portugal as noticias que chegavam da China.
A própria de Portugal, em se tratando das condições de saneamento, moradia e do calçamento das ruas, não chegava aos pés de uma simples aldeia chinesa e muito menos de suas principais cidades.
Lisboa era na época um amontoado de ruas enlameadas, estreitas e tortuosas, apinhadas de casas apertadas de dois a três pavimentos, onde em cada casa se aglomeravam várias famílias em condições deficitárias de higiene.
Diferente de Lisboa, Pequim, a capital da China, era conhecida como a cidade celeste, sendo cercada por muralhas que tinham a distância de uma porta a outra tão grande que um homem a cavalo não podia andar em um dia, sendo dela contado mil milagres, tamanha sua organização social e arquitetônica, exemplo basilar que demonstra as diferenças culturais que se fariam sentir nos contatos luso-chineses.
Não bastasse a arquitetura, enquanto a imensa maioria dos portugueses eram analfabetos, estima-se que mais de 90%, e o acesso aos livros era um tanto restrito em Portugal, graças ao uso difundido da tipografia, os chineses tinham muitos livros disponíveis em bibliotecas públicas.
O acesso a leitura e o numero de letrados na China, mesmo que treinados somente nos rudimentos da escrita, era tão grande que, na opinião dos lusos, os chineses chegavam a ultrapassar os antigos gregos e romanos.
O orgulho nacional chinês fazia com que os livros relatassem sobre praticamente tudo que dizia respeito ao país e sua história.
A china possuía ainda memoráveis artes, leis, decretos e, igualmente uma polícia civil e ordenações civis e governos.
Assim, encontrando um povo cuja civilização em muitos aspectos ultrapassava o que havia de melhor na Europa, os lusos chegaram a tomar a China como modelo e paradigma para uma visão crítica da própria realidade portuguesa, ficando patente a admiração pela civilização chinesa, o que influiu decisivamente no modo de lidar com outro.


A incapacidade lusitana de dominar a China pela força das armas.
Não foi apenas a admiração que influiu nas relações diferenciadas dos portugueses com os chineses.
Da mesma maneira que foram observados a arquitetura e o nível cultural da China, os lusos notaram que seria impossível vencer um povo que de tão numeroso dividia-se por quinze províncias, estando espalhado por 591 grandes cidades e 1593 cidades menores.
Isto sem contar as aldeias e povoações, algumas das quais, por menor que fossem, eram do tamanho das maiores cidades portuguesas, de onde se podia deduzir a grandeza do país.
Não bastasse o peso do efetivo militar da China, cedo os portugueses perceberam que os chineses tinham também ciência da artilharia, fabricando pólvora e munições correspondentes há já muitas centenas de anos, pelo que não faziam mais memória da sua origem.
A despeito de não conhecerem o uso de canhões, tinham outros tipos de armas de fogo, muitas das quais mais eficientes que os escassos mosquetes lusitanos.


A opinião dos chineses sobre os portugueses.
Enquanto os portugueses viam os chineses com admiração, e, não fosse à diferença religiosa, até mesmo como potenciais aliados, por outro lado, segundo palavras literais da época, a imensa maioria dos chineses enxergava os portugueses como gente de mal titulo.
Uma opinião sustentada devido ao receio de uma invasão bárbara e o espanto que causava ter contato com mar, no caso, vale lembrar, cujos indivíduos eram considerados inferiores, além é claro dos choques culturais que se seguiram a cada contato luso-chinês.
O primeiro embaixador português enviado a China foi assassinado por ladrões e preso a mando de representantes do Imperador por mendigar.
Os primeiros contatos entre chineses e portugueses haviam sido até certo ponto cordiais, mas os lusos foram sempre recebidos com desconfiança.
Depois que a armada de Simão de Andrade chegou a Cantão, em 1519, e, diante de noticias de piratas nativos agindo no local, resolveu iniciar a construção de uma fortificação, pratica comum entre os portugueses, mas que era contra o sentimento de hegemonia chinês, as relações luso-chinesas entraram definitivamente em declínio.
Na ocasião, para além da construção da fortaleza lusitana, Simão de Andrade enforcou um dos seus marinheiros e impediu mercadores estrangeiros de comercializarem antes dele próprio concluir seus negócios.
O que causou indignação entre os oficiais chineses, pois na ótica deles o capitão português procurava exercer poderes que só cabiam ao Imperador.
Não por acaso, o título do rei da China era o de rei e senhor do mundo e filho do céu, sendo considerado quase como um deus por seus súditos e se considerando ele mesmo como tal.
O que na ótica portuguesa era inaceitável, uma vez que cabia somente ao Rei de Portugal, cujos navegantes haviam sido guiados pelo verdadeiro Deus à Índia, decidir sobre os rumos do Oriente.
Ao passo que na visão dos chineses deveria ser o Imperador chinês, na qualidade de senhor do mundo civilizado, o único a decidir pelo destino da China e dos bárbaros com quem o país tivesse contato.
Nestas condições nada seria mais natural que um confronto direto entre chineses e portugueses que, certamente, teria culminado com a derrota dos últimos e talvez até mesmo com a expulsão das naus de Portugal do Índico.
No entanto, quando Simão de Andrade cometeu seus desatinos, governava o Imperador Wu-Tsung, homem velho e mais afeito a diplomacia do que a guerra, sendo que os portugueses, por sua vez, já tinham percebido que a força militar dos chineses não podia ser vencida por um país com falta de gente e recursos como Portugal.
O resultado foi o inicio de um entendimento pacifico, os chineses permitiriam o livre comércio em suas terras e os portugueses passariam a respeitar a soberania chinesa administrada pelos Mandarins, freqüentando o litoral da China sem tentarem fundar feitorias ou fortalezas.


A morte do imperador e mudanças nas relações diplomáticas.
Quando Wu-Tsung faleceu, tudo mudou, oficialmente o novo imperador proibiu os portugueses de comercializarem em suas águas.

As negociações que apenas engatinhavam foram por água abaixo, a partir de então, por mais respeitosos que fossem, graças à má fama adquirida na África e na Índia e confirmada por Simão de Andrade, segundo documentos lusitanos da época, os portugueses passaram a ser tratados por toda a China sempre com ingratidão e descortesia.

Exatamente por este motivo, a Coroa resolveu entregar o comércio com a China aos particulares, aos aventureiros dispostos a se arriscarem, isto ao menos até que Macau fosse entregue aos portugueses em 1557, e, antes disto, o comércio luso-chinês fosse finalmente autorizado pelo Imperador em 1554.
Seja como for, no período em que os portugueses estiveram proibidos de navegar no mar da China, os aventureiros lusitanos conseguiam freqüentar apenas três cidades: “Sanchoão, Liampó e Lampacau.
Eram os únicos portos onde as autoridades chinesas aceitavam suborno para fazer vista grossa, talvez até mesmo com a conivência do imperador.
Todavia, mesmo nestas zonas o ódio aos portugueses imperava e os nativos não eram dignos de confiança.
Em certa ocasião, depois de fazer negócio e trocar especiarias por seda, o capitão português Antônio de Faria foi ludibriado por um Mandarim de Liampó.
Percebendo que a cobiça poderia ser a chave para fazer os portugueses se autodestruírem, isto sem que fosse necessário aos chineses erguerem um único dedo, o Mandarim indicou o rumo de uma cidade que supostamente teria interesse em comercializar com os lusos.
O capitão português seguiu as indicações seguro de chegar ao destino por dois meses e meio, só então passando a ficar desconfiado do que lhe dissera o chinês, passando a ficar muito arrependido daquela viagem, justamente em um momento em que o navio estava tão enfiado em águas perigosas e que tudo que restava a fazer era senão encomendar-se a Deus.
O episódio resultou em um miserável naufrágio e posterior aprisionamento dos sobreviventes lusitanos em uma estéril prisão, com grilhões nos pés, algemas nas mãos e colares nos pescoços, nos arredores de Nanquim.
Estes portugueses, como ordinariamente acontecia com aqueles apanhados infringindo a proibição de comercializar na China, forma muito maltratados com açoites e fome, em um miserável trabalho.


O assédio de piratas chineses aos navios lusitanos.
Depois de 1554, ano que marca a liberação do comércio na China aos portugueses, tendo ficado mesmo assim interditado freqüentar outros portos além de Macau, a imensa maioria dos piratas chineses, que antes saqueavam indistintamente o litoral de seu próprio país, passaram a priorizar a caça as naus portuguesas.
Primeiro porque o butim era muito mais proveitoso, depois porque, mesmo entre este estamento, o senso de patriotismo passou a clamar pelo combate aos bárbaros, aqueles que eram considerados como não mais que ladrões que roubavam as gentes do mar.
Por isto mesmo os portugueses eram considerados como as pessoas mais baixas, inferiores aos chineses impuros que lidavam com o mar.
Procurando contornar este assédio, muitos contrabandistas portugueses deixaram de lado o uso de naus, passando a servir-se de embarcações nativas para tentarem passar despercebidos, o que nem sempre funcionou.
Pela altura da metade do século XVI, por exemplo, Fernão Mendes Pinto, navegando em uma lanchara de remo, depois de ser atacado por piratas e sair vitorioso, encontrou na embarcação aprisionada quatro portugueses que não haviam tido a mesma sorte.
Estes portugueses tinham sido atacados pelos mesmos piratas, isto apesar de terem sido pegos a bordo de um junco.
Pela manhã seguinte, Fernão Mendes Pinto avistou gente que se perdera no mar, flutuando sobre pedaços de paus.
Na realidade quatorze portugueses que haviam sobrevivido ao naufrágio de outro junco causado também por um ataque de piratas chineses.
Embora na maioria das vezes tenham sido os portugueses a saírem derrotados, tendo chegado o assédio dos piratas nativos a ser considerado como o maior inimigo que os portugueses tiveram no mar da China, em algumas ocasiões conseguiam repelir o assédio.


Atritos com as autoridades chinesas.
Em ocasiões em que os lusos contaram com o apoio de piratas chineses que constituíram exceções a regra, já que deixaram clamar mais alto o dinheiro do que o patriotismo, na verdade tripulações mistas formadas por chineses e guzerates, os lusos entraram em batalhas contra autoridades chinesas, saindo vitoriosos, apesar de mais cedo ou mais tarde terem sofrido represarias.
Em um episódio emblemático, servindo de perfeito exemplo dos desentendimentos culturais luso-chineses, o já citado capitão Antônio de Faria se envolveu em um confronto direto com o Mandarim de Nouday.
Ele comandava em nome do imperador uma pequena cidade costeira, sem grande importância estratégica, estando por isto mesmo quase desprotegida.
Por isto mesmo os portugueses obtiveram a vitoria, mas, como há pouco relatamos, levaram o troco ao ser ludibriado pelo Mandarim de Liampó, quando então terminaram sendo presos e levados a presença do imperador da China para responder pelos seus crimes.
Tudo aconteceu porque o Mandarim de Nouday fez cativos cinco portugueses, ao passo que, tendo sido Antônio de Faria encarregado pela Coroa de negociar a libertação destes, teria bastado ele escolher mal as palavras, quando pediu uma audiência com o Mandarim, para agravar a situação.
Entre outras coisas, dizia seu pedido de audiência:
“(...) que elle era hum mercador estrangeyro portuguez de nação, que hia de veniaga para o porto de Liampo, onde avia muytos mercadores estantes na terra com suas fazendas que pagavão seus direitos costumados, sem nunca fazerem nella roubos nem males como [se] dezia [e que] (...) el Rey de Portugal seu senhor era com verdadeira amizade irmão de el Rey da China, vindo elles a sua terra, como tambem os Chins por este respeito costumavão yr a Malaca, onde erão tratados com toda a verdade, favor, e justiça, sem se lhes fazer agravo nenhum”.
Na verdade, as diferenças civilizacionais fizeram com que os signos de amizade e cordialidade expressos pelos portugueses fossem interpretados como a mais pura grosseria.
Escutando estas palavras dos interpretes enviados por Antônio de Faria, o Mandarim mandou açoitar os dois que levaram a carta e cortar as orelhas, tornando a mandar como resposta, escrita em um papel roto que dizia:
“Bareja triste, nascida de mosca encharcada no mais sujo monturo que pode aver em mazmorras de presos que nunca se alimparão, quem deu atrevimento a tua baixeza para perafusar nas cousas do Ceo? Porque mandando eu lèr a tua petição, em que, como o Senhor me pedias que ouvesse piedade de ty que eras miseravel e pobre, à qual eu, por ser grandioso, já me tinha inclinado, e estava quase satisfeito do pouco que davas, tocou no ouvido de minhas orelhas a blasfemia de tua soberba, dizendo que o teu Rey era irmão do filho do sol, lião coroado por poderio increivel no trono do mundo debaixo de cujo pé estão sometidas todas as coroas dos que governão a terra com real cetro e manto, servindo lhe contino de brochas de suas alparcas, esmagados na trilha do seu calcanhar, como os escritores das brallas do ouro testemunhão na fè de suas verdades em todas as terras que as gentes habitão. E por esta tamanha heresia mandey queimar o teu papel, representando nelle por cerimonia de cruel justiça a vil estatua de tua pessoa, como desejo fazer a ty tambem por tamanho pecado, pelo qual te mando que logo e logo, sem mais tardar faças á vella, porque não fique maldita do mar que em sy se sostenta”.
Vendo-se acuado, não possuindo os dotes diplomáticos requeridos, uma vez que era, como ele mesmo caracterizou, apenas um mercador, ao invés de tentar corrigir o erro, Antônio de Faria optou por se aliar ao pirata chinês Quiay Panjão.
Enxergando na ocasião a oportunidade ideal de saquear seu próprio povo e colocar a culpa exclusivamente nos portugueses, o pirata chinês atacou a cidade de Nouday com trezentos homens, dos quais setenta eram portugueses e os demais escravos e marinheiros.
Além é claro da gente de Quiay Panjão, dos quais cento e sessenta eram arcabuzeiros e outros lanças e chuças, usando bombas de fogo e outras muitas maneiras de armas a moda chinesa para destruir a cidade a partir do mar.
Após desembarcarem, com fervor da vitória, os portugueses e seus aliados se arremeteram à porta de Nouday, nela acharam o Mandarim seiscentos homens consigo.
O representante do imperador estava em cima de um bom cavalo, vestido com umas couraças de veludo roxo de cravação dourada do tempo antigo.
Segundo o relato da época, um moço português derrubou o Mandarim do cavalo com uma espingarda que lhe deu pelos peitos.
Os chineses ficaram tão assombrados que, todos juntamente, voltaram logo às costas, começando a se recolher sem nenhuma ordem pelas portas dentro, abrindo espaço para que os lusos derrubassem todos às lançadas, invadindo a cidade.
Cabe ressaltar que causa estranheza este caso em que os portugueses saíram vitoriosos, isto a despeito de constituir uma exceção a regra.
O sucesso deve ser tributado também à incomum aliança com piratas chineses, pois, como dá conta um soldado português que serviu no Oriente, os lusos tinham práticas militares da idade media.
Entre os portugueses imperava a desordem e indisciplina, o que, contraposto a rígida e milenar disciplina militar chinesa, deixa claro a ineficiência de possíveis tentativas lusitanas de conquista de pontos do litoral chinês.
Mesmo no caso há pouco descrito, quando os portugueses conseguiam invadir o litoral da China, a vitória era apenas momentânea, uma vez que reforços sempre terminavam por expulsar os invasores.
O que explica a inexistência de feitorias ou fortalezas portuguesas na costa chinesa, isto é claro com exceção de Macau, local onde os portugueses conseguiram se fixar apenas porque foram autorizados pelo imperador da China.


A ineficiência militar lusitana.
Conforme registrou o soldado Francisco Rodrigues Silveira, quando atacavam, os portugueses arrancavam logo todos contra a praia, repartidos por duas ou três bandeiras sob seus respectivos cabos.
O capitão-mor ia à frente da bandeira de Cristo, na qual avultava a imagem da cruz, mas o comando era puramente nominal.
Em terra o capitão dava a voz, porém cada um, sem se importar nem de chefe nem de camaradas, rompia avante, guiando-se em toda a refrega pelos próprios impulsos.
Esta avançada vertiginosa era quase sempre irresistível, entrando na povoação, todo ser vivo era metido à espada - velhos, mulheres, crianças e até os animais -, não só por crueldade, próprio do século, como por ser este o costume entre os portugueses.
Em casos raros a cadeia de comando era respeitada, quase sempre quando um nobre de sangue estava à frente de uma companhia.
Exatamente por ser um fidalgo, comandava com maior autoridade e era respeitado por sua posição.
No entanto, mesmo assim a situação era tão caótica como se não houvesse comandante algum, pois, como ocorria com relação a cargos de confiança a bordo das naus, muitas vezes o privilégio de liderar uma tropa era conseguido mediante relações de parentesco ou simplesmente através da compra do cargo.
O resultado era um completo desastre, como seria esperado em uma sociedade onde a liderança era conseguida pelo nascimento ou suborno e não pelo mérito.
Diferente dos portugueses, entre os chineses não havia senhores com títulos, tais como condes, duques ou outros semelhantes, nem qualquer um que tivesse vassalos, domínios, jurisdição ou propriedades, a não ser dados pelo imperador de sua livre vontade.
Acontece que os títulos, não sendo hereditários, eram recebidos conforme o merecimento, sendo que, quando estes morriam, tudo voltava de novo para imperador e este, se quisesse, podia tirar aos filhos, deixando o título nas mãos deles apenas quando tinham capacidade para tal.
O que garantia uma cadeia de comando eficiente e fiel ao Imperador, fornecendo lideres verdadeiramente respeitados por seus comandados, frente aos quais os portugueses não conseguiam se sobrepor.


Concluindo.
Enquanto os portugueses procuravam o lucro pessoal, o enriquecimento fácil, servindo-se do falso pretexto de servir o rei e Deus, a imensa maioria dos chineses vivia realmente para servir seu imperador e a grandeza da China.
Os chineses tinham um rígido código de conduta militar e moral, seguido em maior ou menor grau conforme o estamento de cada indivíduo, haja vista até mesmo os piratas chineses, a despeito de algumas exceções, terem incutido um ódio mortal a presença dos lusos no mar da China.
Este ódio foi tão intenso, talvez estimulado pela noticia das crueldades praticadas pelos lusos, que tornou-se uma diversão entre os piratas chineses, quando aprisionavam portugueses, mandar lançar os miolos fora com uma tranca, como fez o pirata Similau a Gaspar de Mello.
Seja como for, apesar das dificuldades, o comercio com a China foi um negócio lucrativo que incrementou os produtos transportados pela Carreira da Índia e, depois de seu declínio, chegou até mesmo a garantir a sobrevivência da rota.
Não obstante, enquanto o Estado chinês foi o grande dificultador de uma maior penetração portuguesa na China, no Japão os portugueses entrariam em confronto direto com as lideres religiosos japoneses.
No Japão provocariam um tipo de conflito cultural, em alguns aspectos, muito semelhante ao ocorrido na Índia, com a diferença que os japoneses, a exemplo dos chineses, se mostrariam mais preparados para repelir a invasão lusitana.
Mas esta já é outra história.


Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e obstáculos enfrentados pelas armadas da Índia portuguesa. 1497-1653. São Paulo: Humanitas, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2004.
RAMOS, Fábio Pestana. Por mares nunca dantes navegados. São Paulo: Contexto, 2009.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Editorial - Balanço do ano de 2010 - Para entender a história...

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jan., Série 01/01, 2011, p.01-03.


A publicação ainda é jovem, não completou nem um ano de vida, mais precisamente tem pouco mais de quatro meses.
Foi iniciada como um blog e se tornou uma publicação técnico-cientifica on-line, depois que recebeu o numero de ISSN 2179-4111, ganhando status e reconhecimento como publicação cientifica em novembro.

Começou timidamente em 13 de agosto de 2010, uma emblemática sexta-feira treze, recebendo apenas 563 visitas em seu primeiro mês de vida, publicando na ocasião 19 textos – 18 artigos e 1 editorial.
Em setembro, surpreendentemente, o numero de visitas subiu para 10.001 visualizações, quando foram publicados 27 textos – 26 artigos e 1 editorial.
Em outubro nova surpresa, foram 15.342 visitantes, sendo publicados 9 textos – 7 artigos e 2 editoriais.
Mas foi em novembro que a publicação atingiu o pico de visitas no ano, simplesmente 26.177 visualizações, contrapondo-se aos 7 textos publicados – 6 artigos e 1 editorial.
Mesmo em dezembro, período em que a maioria das pessoas está ocupada com outras atividades e as festas de final de ano, “Para entender a história...” recebeu 11.358 visitantes, publicando 7 textos – 6 artigos e 1 editorial.



Assim, no ano de 2010, segundo dados do Google, o periódico totalizou 63.441 visitas em exatos quatro meses e dezenove dias de vida, publicando 70 textos – 63 artigos e 7 editoriais.

Estes artigos percorrem 114 assuntos diferentes, entrecruzando em temáticas múltiplas, conforme catalogação por palavras-chave.
Embora pessoas de mais de 70 países tenham visitado os textos, as visualizações mais freqüentes partiram respectivamente do Brasil (54.471), Portugal (7.011), Estados Unidos (435), França (129), Espanha (117), Grã-Bretanha (81), Angola (62), Alemanha (56), Cabo Verde (46) e México (43).

Os artigos mais visitados foram: A Revolução Francesa foi causada pela fome! (6.362); A passagem da antiguidade para o feudalismo (4.573); A organização social do Alto Império Romano (2.778); História indígena na América Portuguesa (2.701); A vida privada entre escravos africanos no Brasil (2.473); Intelectuais, pensamento social e educação (2.300); Três Arquivos Portugueses (1.688); História e Poder (1.599); Reflexões acerca do inicio da utilização da mão de escrava africana (1.451); e Chica da Silva (1.413).
Segundo dados do Google, o trafego de visitas a publicação partiu principalmente das seguintes páginas e buscadores: www.google.com.br (36.363); www.google.pt (5.206); www.google.com (1.663); images.google.com (439); search.conduit.com (201); images.google.com.br (89); www.orkut.com.br (83); sga.claretiano.edu.br (75); search.babylon.com (60); e www.google.fr (58).
As palavras pesquisadas mais recorrentes que conduziram os leitores a publicação foram: chica da silva (56); jacques le goff (38); a política colonizadora na America (17); torre do tombo (11); região e espacialidade (10); feudalismo (09); e iluminismo (07).
Dados que demonstram que a maioria dos leitores se tornaram assíduos e, tendo chegado até a publicação uma vez, passaram a vista-la diretamente, dirigindo-se ao endereço eletrônico ao invés de buscá-lo por palavras-chave ou utilizar outro site para acessá-lo.

As visualizações por navegador mais recorrentes foram registradas a partir dos seguintes sistemas: Internet Explorer (34.059 - 53%); Firefox (14.534 - 22%); Chrome (13.648 - 21%); Safari (807 - 1%); Opera (174 - 1%); Chromeframe (81 - 1%); Konqueror (41 - 1%); Java (40 - 1%); Iceweasel (20 - 1%); e Jakarta Commons-HttpClient (18 - 1%).
Enquanto os sistemas operacionais mais usados pelos leitores foram: Windows (60.759 - 95%); Unix (1.744 - 2%); Macintosh (820 - 1%); Linux (44 - 1%); iPhone (30 - 1%); iPad (17 - 1%); Playstation (10 - 1%); Nokia (8 - 1%); e BlackBerry (5 - 1%).

Neste ano de 2011 manteremos a mesma periodicidade regular de publicações de artigos e editorias, sempre zelando pela qualidade do texto e facilitação do acesso, como fizemos em 2010.

Agradecemos os leitores, desejando uma boa leitura e um bom inicio de 2011.

Forte Abraço:
Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.