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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

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Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O Racionalismo Cartesiano no contexto da Teoria do Conhecimento.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume fev., Série 21/02, 2011, p.01-08.

A despeito da discussão iniciada na antiguidade, durante a Idade Moderna, René Descartes revolucionou a maneira de pensar a construção do conhecimento, podendo ser considerado o pai da moderna Teoria do Conhecimento.
A despeito de grande parte dos historiadores da filosofia considerar John Locke como o fundador da Teoria do Conhecimento, foi Descartes que, seguindo a tradição estabelecida por Parmênides, demoliu todas as certezas para reconstruí-las sob as bases solidas da razão.
Depois de um período em que, durante a Idade Média, o cristianismo interrompeu a discussão sobre a possibilidade de conhecer, o racionalismo cartesiano ousadamente retomou a temática.
O cristianismo havia distinguido verdades de fé reveladas da realidade racional, optando por demonstrar que o conhecido era apenas o permitido por Deus, quando o filosofo francês provou que sem a razão não era nem ao menos ter certeza da existência de um ser imaterial superior ao homem.


Descartes e o Racionalismo.
René Descartes (1596-1650) nasceu na França, em uma família burguesa enobrecida, estudou em colégio jesuíta, onde aprendeu autodisciplina e tomou gosto pelos estudos.
Foi neste período que notou a ausência de uma metodologia capaz de fornecer sustentação a ciência e a filosofia; instruindo, controlando e ordenando as idéias para guiar a busca pela verdade.
O que o levaria a escrever, mais tarde, o Discurso do método.
Na realidade, Descartes estabeleceu uma critica a ciência de sua época e aos ensinamentos tradicionais.
Chegou a afirmar que na filosofia não se encontrava até então uma só coisa que não fosse duvidosa.
Isto, principalmente porque reinava naquele momento a escolástica, uma tendência medieval que defendia a idéia de que a fé em Cristo e a razão deveriam ser conciliadas.
Para Tomás de Aquino, por exemplo, não poderia haver contradição entre fé e razão, sendo que Deus garantia a verdade em detrimento do obvio.
Já Santo Agostinho simbolizava a junção entre fé e razão através de um episódio que o teria levado a conversão.
Segundo ele, andando pela praia, questionando a existência de Deus, encontrou um garoto tentando encher um buraco na areia com água do mar.
Ao perguntar aquela criança sua intenção, obtém a resposta que o menino queria colocar toda a água do mar no buraco.
Chamando o garoto de louco, escuta dele que é mais fácil colocar toda água do mar no buraco na areia do que o homem, com sua razão limitada, entender o que é Deus.
Descarte se opôs, justamente, a este tipo de pensamento e forma de explicar o mundo.
Para isto, defendeu a idéia da recuperação do sentido original da matemática, uma palavra que, a partir do grego ta mathema, significa conhecimento completo ou conhecimento racional integral de ponta a ponta.
Ainda na juventude o francês já afirmava que somente a matemática poderia fundamentar com conceitos firmes e sólidos a ciência e a filosofia.
Aliás, dois conceitos que ainda se confundiam neste período e até pelos menos o século XVIII.
No entanto, Descartes deixou o colégio jesuíta desorientado, sem saber como aplicar a matemática na construção de um conhecimento de fato totalizante, estudando direito e freqüentando aulas de medicina.
Formado, viajou pela Europa, alistando-se nas tropas de Mauricio de Nassau, na Holanda, em 1618.
No ano seguinte, serviu no exercito de Maximiliano da Baviera, no que hoje é a Alemanha.
Nesta época em que foi soldado, estudou física e, depois, resolveu viajar novamente pela Europa, até se estabelecer na Holanda em 1628, quando conheceu Galileu Galilei, interessando-se pelo estudo da matemática pura.
Foi quando escreveu sua primeira obra filosófica, as Regras para a direção do espírito (1628), pesquisando e escrevendo sobre ótica, lentes, o funcionamento dos olhos humanos, a luz, anatomia e a circulação sanguínea.
Fruto destas pesquisas, publicou O mundo ou tratado sobre a luz, uma obra sobre física, além de um estudo antropológico intitulado O homem.
Entre 1633 e 1637 publicou mais um tratado de física - Meteoros, dióprica e geometria -, passando a expressar uma intensa preocupação com o problema da objetividade da razão e a autonomia da ciência em relação à onipotência de Deus.
Isto conduziu a publicação da obra O discurso sobre o método, a qual ficaria conhecida como O discurso do método, em 1637, demonstrando o caráter objetivo da razão, indicando regras para buscar a objetividade para alcançar a verdade.
Embora tenha mesclado esta intenção com fundamentos metafísicos, por razões obvias, para tentar escapar da censura da inquisição.
Este caráter metafísico do pensamento cartesiano foi ressaltado na obra Meditações sobre a filosofia primeira, conhecida como Meditações metafísicas, publicada em 1641.
Onde Deus foi apresentado como garantia da existência do mundo e da possibilidade de construção do conhecimento objetivo e concreto da realidade.
Em 1644, Descartes publicou Princípios da filosofia, uma síntese de suas concepções filosóficas e cientificas.
Dedicando-se a responder objeções de seus críticos, através de cartas remetidas a cada qual, hoje também publicadas.

Em 1649, quando publicou As paixões da alma, onde abordava a relação entre corpos e alma, o problema da moral e do livre-arbítrio; desgostoso com a proibição de suas obras em várias universidades em diferentes pontos da Europa, resolveu aceitar o convite da rainha Cristina da Suécia para integrar sua corte.

A estadia na Suécia foi curta, o hábito da rainha de se reunir com seus protegidos para discutir filosofia às cinco horas da manhã, no inverno rigoroso, diante de sua saúde debilitada e o clima rígido, levou Descartes à morte por pneumonia em dois de fevereiro de 1650.

Após a sua morte, obras póstumas foram publicadas, demonstrando sua imensa genialidade, incluindo suas mencionadas cartas e um tratado de música.


O método.
Para Descartes, a razão era a única capaz de construir uma ciência segura que conduzisse a verdade, possibilitando certezas matemáticas, inserindo-se no contexto da matemática universal cartesiana.
Isto porque a razão seria o único elemento comum a todos os homens, sendo imutável no tempo e espaço, portanto, universal.
Para a realização deste projeto, Descartes defendeu a idéia de que a ciência e filosofia precisavam de um método universalmente aplicável para fornecer alicerces seguros para a construção do conhecimento.
O método foi definido como um conjunto de regras que, observadas com exatidão, conduziriam à certeza, “ensinando a não tomar o falso por verdadeiro e aumentando, progressivamente”, o conhecimento.
Neste sentido, o método adquiriu o significado que possui ainda entre nós hoje: um conjunto de operações, de regras para alcançar um resultado.
Este método universal deveria ser critico, para contestar e evitar erros; e positivo, forçando a acreditar que é possível chegar à verdade, mesmo que provisória.

O método cartesiano defende três princípios:
1. Clareza: só aceitar aquilo que se a apresenta imediatamente ao espírito; o que surge por meio da intuição direta e é entendido só ao ser observado.
2. Distinção: só aceitar como verdadeira uma idéia que não se confunda com nenhuma outra, sem possibilidade de dúvida.
3. Evidência: aquilo que é claro e distinto; o que pode ser expresso pela máxima de só aceitar como verdadeira a idéia que se apresenta de imediato e sobre a qual não existe dúvida, não havendo como confundi-la com outra.

Portanto, para encontrar a verdade, seria necessário um esforço para não aceitar como certo aquilo que não seja claro e distinto, assim evidente; afastando preconceitos, precipitações, situações emocionais e psicológicas que conduzem ao erro.

Para atingir esta intenção, Descartes pensou em quatro regras que compõem seu método:
1. Evidência: só tomar como verdadeiro aquilo que se apresenta de forma clara e distinta.
2. Análise: dividir problemas complexos em partes menores para solucionar cada questão e, portanto, resolver o problema maior.
3. Síntese: conduzir o pensamento de forma ordenada, organizando do mais fácil para o mais difícil, do simples para o complexo.
4. Enumeração ou Revisão: retomar o pensamento em busca da falhas, encontrando erros reiniciar todo processo.

Neste contexto, para tornar o método uma matemática universal (mathema universalis) seria necessário ainda usar dois elementos:
1. Intuição: uma operação ou processo racional que permite a apreensão imediata e instantânea de uma evidência.
2. Dedução: a operação ou processo racional pelo qual, a partir de verdades conhecidas, poderíamos extrair outras verdades, pois as verdades estariam ligadas, encadeadas de forma progressiva.

Seja como for, a partir do racionalismo cartesiano, todo conhecimento cientifico passou a carecer de metodologia para ser considerado ciência.
O método se tornou o alicerce, a base de sustentação de qualquer teoria.


A dúvida cartesiana.
A dúvida cartesiana funda a moderna Teoria do Conhecimento, estabelecendo uma doutrina que suspende o juízo provisoriamente por não saber se uma proposição é verdadeira ou falsa.
Uma idéia defendida por Descartes nas obras Discurso do método (1637), Meditações metafísicas (1641) e Princípios da filosofia (1644).

Através da dúvida, ele pretendia encontrar a verdade sobre a possibilidade de conhecer, utilizando como primeiro argumento o gênio maligno.


O filosofo pretendia aplicar seu método ao saber tradicional, fornecido pelo mundo sensível, pelos sentidos, para ver se existia alguma verdade naquilo que julgamos real.

Supondo que não existe Deus, mas sim um gênio maligno, enganador, afirma que todas as coisas exteriores podem ser apenas ilusões e enganos.
O gênio maligno pode iludir a pensar que determinado objeto é real, quando não existe além da mente.
Em seguida, pensando nas experiências sensíveis, lembra que os sentidos enganam, lançando mão do argumento do erro dos sentidos.
Cita como exemplo uma vara dentro da água, a qual parece entortar ou ficar mais curta para o observador, mas continua igual.
Nem mesmo a razão escapa da dúvida, pois boa parte do saber se fundamenta na razão.
Também este elemento parece duvidoso, a partir do argumento do sono e da vigília, o qual demonstra que o raciocínio erra.
Descartes relata que muitas vezes está diante da lareira aquecendo-se, mas, de repente, acorda e se vê sobre a cama debaixo das cobertas; ou seja, sua mente enganou seu raciocínio.
Neste momento, retoma o argumento do gênio maligno, admitindo a possibilidade da existência de Deus, tornando a dúvida hiperbólica através do argumento do Deus enganador.
Supondo que Deus existe, ele poderia estar me enganando, brincando com o homem, levando a sentir ou pensar coisas que não são reais.
A dúvida se torna hiperbólica porque não há nada certo no mundo, até a matemática e a teologia são colocadas em dúvida.
No entanto, a dúvida cartesiana não é a mesma dos céticos, que negavam a possibilidade de chegar à verdade, é apenas uma etapa para eliminar os entraves que atrapalham a construção do verdadeiro conhecimento racional.
A dúvida serve para afastar o que não é evidente e chegar à verdade, o que é alcançado através do cogito.


O cogito.
Permanecendo a dúvida nunca seria possível construir qualquer tipo de conhecimento, inviabilizando a filosofia e a Teoria do Conhecimento.
A superação deste estado conduz a descoberta do cogito.
Ao duvidar, enquanto duvido, eu penso, logo, existindo pensamento, é necessário que exista quem pense, nem que esta existência do ser seja apenas enquanto ser pensante.

Daí a máxima cartesiana: “cogito ergo sun”, uma expressão em latim que pode ser traduzido como “penso, logo existo”.

Entretanto, não há experiência ou dados fornecidos pelos sentidos, somente intuição, o que é evidente; conduzindo a uma única certeza inquestionável: eu existo como ser pensante.

A realidade do outro ou do mundo exterior já é outra coisa, pois, quanto a isto, a dúvida permanece.
Para que este pensamento não caia no solipsismo - a doutrina que afirma que o eu é a única certeza real e segura no mundo - passa a ser necessário provar a existência de algo fora de mim mesmo, fora do ser pensante.
Até este momento, o eu cartesiano é puro pensamento, res cogitans (ser pensante), já que no caminho da dúvida, a realidade do corpo foi colocada em suspenso.
A res extensa (coisa ou ser extenso, ser material) pode ser apenas imaginada pela razão.
É a prova ontológica da existência de Deus que garante a realidade externa ao eu.
O que possibilita a construção de conhecimentos seguros e a especulação filosófica e cientifica.
Cabe lembrar que a ontologia é a parte da filosofia que especula sobre o ser enquanto ser, estudando as substâncias para além das aparências, em outras palavras, busca conhecer a essência das coisas.
Descartes prova a existência de Deus, justamente, através de sua suposta essência, a partir da idéia de perfeição e infinitude, mostrando pela matemática que o infinito não cabe dentro do que tem fim.
Portanto, a idéia de Deus não pode nascer da mente humana, finita, só pode ter origem externa, fornecida pelo ser infinito, ou seja, Deus.
A existência de Deus, por sua vez, demonstra como a realidade exterior não é ilusão, o que leva, também, a admitir que existem idéias inatas, que são exteriores ao ser pensante e que já nascem com o homem.
Isto mostra que a idéia de corpo é inata e que a res extensa existe concretamente, sendo a realidade possível de ser conhecida através da razão.


Concluindo.
René Descartes desconstrói o mundo, a realidade, antes assegurada pela revelação divina, mostrando que nada é certo, tudo é questionável.
Para em seguida, demonstrar que não é Deus que garante a possibilidade de conhecer, mas sim a razão.
É claro que, sendo um homem de sue tempo, acaba tendo que encaixar Deus em algum lugar, terminando por utilizá-lo como garantia da realidade exterior ao eu.
No entanto, o Deus cartesiano não é exatamente o mesmo Deus cristão; é antes de tudo uma entidade superior, que poderia ser até um deus astronauta.
Descartes errou feio ao afirmar que a glândula pineal fazia a comunicação entre ser pensante e extenso, podendo conferir um sexto sentido ao homem, possibilitando transitar entre realidade física e pensamento.
Mas acertou ao tornar o cogito uma certeza inabalável, tendo como guia um método seguro e universal, permitindo entender a realidade e construir o conhecimento.
Como mostra o filme Matrix, talvez a realidade não passe daquilo que imaginamos, porém, com certeza o pensamento contido no racionalismo cartesiano garante que existe uma possibilidade de conhecer concreta.
Assim, funda a moderna Teoria do Conhecimento.


Para saber mais sobre o assunto.
ALQUIÉ, F. et alli. Galileu, Descartes e o mecanismo. Lisboa: Gradiva, 1987.
KOYRÉ, A. Considerações sobre Descartes. Lisboa: Presença, 1963.
KUJAWSKI, G. M. Descartes existencial. São Paulo: Edusp, 1969.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Teoria do Conhecimento na antiguidade: contribuições para o pensamento filosófico na Idade Moderna.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jan., Série 17/01, 2011, p.01-08.

Modernamente, a Teoria do Conhecimento é um ramo da filosofia que estuda a possibilidade e a capacidade humana de conhecer a realidade, opondo-se a metafísica.
Neste sentido, utiliza a axiologia (do grego axios = valor), questionando a construção dos valores humanos.
Uma postura fundada por René Descartes, o pai do racionalismo, embora exista uma corrente teórica que defende John Locke como sendo o verdadeiro fundador da moderna Teoria do Conhecimento.
No entanto, apesar de não existir ainda nominalmente, as questões em torno da Teoria do Conhecimento remontam a antiguidade.
Foi quando se estabeleceram as bases que permitiriam aprofundar o debate sobre a possibilidade de conhecer a realidade.
Entretanto, para os gregos antigos a Teoria do Conhecimento era chamada de epistemologia.
Uma palavra derivada a partir de outra, do grego episteme, que significa ciência, conhecimento ou discurso.
Portanto, a análise da construção do discurso e, simultaneamente, o estudo da construção do conhecimento.
Nada mais natural, até porque é próprio da filosofia considerar qualquer teoria como não mais que um discurso bem construído, não possuindo necessariamente correspondência com a realidade.
Uma concepção um pouco diferente da moderna Teoria do Conhecimento, a qual considera a observação da realidade, enquanto um ponto de intersecção entre verdade e senso comum, para tentar entender como o conhecimento é construído.
É interessante notar que a ciência é outro ponto de intersecção possível entre verdade e senso comum, assim também fazendo parte da Teoria do Conhecimento.


Os pré-socráticos.
Os pré-socráticos, notadamente três pensadores que viveram na Grécia do século IV. a.C, iniciaram a discussão em torno da Teoria do Conhecimento, sob a égide da epistemologia: Heráclito, Parmênides e Demócrito.
Para Heráclito, seria impossível conhecer a realidade concreta, pois existiria uma diferença entre o que percebemos e o que temos a capacidade de entender.
Isto porque a natureza está em fluxo perpétuo, tudo se modifica mais rápido do que temos a capacidade de entender.
A partir deste raciocínio, ele criou a teoria do Devir, uma palavra que em grego significa mudança constante, usando a famosa analogia do rio.
Um homem não pode atravessar o mesmo rio duas vezes, pois as águas já não são as mesmas, já que o liquido corre, assim como o homem não é o mesmo, pois ele também se modifica.
Parmênides chegou à mesma conclusão por um caminho diferente, embora parecido.
Para ele só seria possível conhecer aquilo que permanece imutável, pois estando o mundo em constante mudança, o que o pensamento entende já não corresponde à realidade, já passou.
Em outras palavras, ao beber a água de um rio, é impossível dizer se dita água é boa, pois ao fazer esta afirmação, a água que corre pelo rio já não é a mesma que foi ingerida.
Portanto, só podemos dizer o que foi e não o que é.
Uma conclusão diferente da idéia defendida por Heráclito, uma vez que, para este, o que a razão entende não é o que passou, mas sim algo que não corresponde à realidade porque reflete o que os sentidos percebem como real, sem que exista correspondência com a realidade.
No entanto, para Parmênides, observando o que está por trás das aparências é possível entender a realidade, o que implica em descobrir a essência das coisas perguntando: “O que é?”
É a partir desta premissa que Parmênides criou a teoria do ser, segundo a qual toda mudança é ilusória, pois a essência do ser é sempre a mesma, permanece imutável.
É por isto que o ser é definido simplesmente como aquilo que é.
Dentro deste raciocínio, Parmênides dizia que tudo é ser e não ser, a despeito de existir também o vir a ser; ou seja, os sentidos enganam, mas a razão pode identificar o que é ou não e deduzir o que pode se tornar.
Entretanto, Heráclito e Parmênides chegaram a uma mesma conclusão: existe um descompasso entre a realidade e o entendimento, seja este tributário dos sentidos ou da razão.
Na realidade, com estes pensadores, são fundadas duas tradições: a partir de Heráclito baseada na confiança nos sentidos, o que seria continuado pelos empiristas na entrada da modernidade; enquanto Parmênides estabelece a centralização na razão, um prelúdio do racionalismo cartesiano.
Diferente dos dois, Demócrito estabeleceu a teoria conhecida como atomismo, à realidade constituída por átomos, aquilo que não pode ser dividido.
Para ele, sendo o mundo constituído por diferentes átomos, os quais são imutáveis, o mundo e o conhecimento dele é concreto, portanto real.
Temos a impressão de mudanças conforme os átomos sofrem re-arranjos de combinações, mas os átomos permanecem os mesmos.
A percepção não é ilusória, os sentidos percebem aquilo que realmente é, embora somente o pensamento, a razão, seria capaz de observar os reajustes dos átomos e a realidade.
Em certa medida, Demócrito funda a tradição que seria seguida por Kant no século XVIII, ao mesmo tempo, também seguida pelo iluminismo.


Os sofistas e o pensamento socrático.
Os sofistas foram os primeiros políticos e advogados do mundo Ocidental, compunham um grupo que cobrava para ensinar e defender pontos de vista, sendo considerados guardiões da democracia em Atenas e os primeiros professores remunerados.
Dentre os sofistas, destacaram-se Protágoras, Górgias e Isócrates.
Todos viveram na Grécia do século V. a.C.
Refletindo sobre o antagonismo entre os filósofos anteriores, os sofistas terminaram concluindo que o conhecimento é relativo, podendo refletir múltiplas opiniões, isto porque essência da realidade não pode ser conhecida.
Górgias, por exemplo, colocou-se contra Parmênides, afirmando que o ser não existia, pois seria impossível determinar a essência das coisas.
Para ele não é possível dizer o que uma coisa é ou não é, já que poderia ser muitas coisas ou nada.
Na opinião dos sofistas, tudo era apenas uma questão de retórica, linguagem manipulada para modificar a percepção da realidade, os interlocutores percebem o mundo de acordo com a construção do discurso.
Os sofistas defendiam o relativismo, Protágoras cunhou a frase “o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”.
Tentava expressar a idéia de que tudo é conhecido de forma particular por cada um, não existindo conceito absoluto.
Dentro deste contexto, Górgias se notabilizou por responder questões, sem preparo algum, usando apenas a arte da retórica, defendendo idéias absurdas e fazendo os ouvintes chegarem à conclusão de que eram possíveis.
Ele persuadia o interlocutor usando o controle das emoções, envolvendo os sujeitos para convencer.
Isócrates também usou a arte da retórica para persuadir, utilizando a mitologia para validar sua argumentação, inaugurando a manipulação política do povo pelo orador, fundando uma escola de eloqüência.
Um estilo de construção do raciocínio que iludia as pessoas, levando a aceitar fatos totalmente destoantes da realidade.
Justamente diante da utilização política da linguagem pelos sofistas, o pensamento socrático tencionava demonstrar como a realidade era mais complexa do que aparentava.
Para conhecer a realidade, seria necessário afastar as ilusões perpetuadas pela linguagem e os sentidos, o que é expresso pela famosa alegoria do mito da caverna.
O personagem Sócrates duvidava que a filosofia pudesse ser ensinada, como propunham os sofistas, achava que as inquietações deveriam brotar de dentro de cada um.
Também ao contrário dos sofistas, a tradição socrática buscava um conhecimento absoluto e inquestionável, julgando que era possível sim conhecer a realidade, bastava sair da caverna, buscar a verdade por trás das aparências.
Neste sentido, o conhecimento só era limitado pela própria ignorância do sujeito.
O que é expresso pela frase: “só sei que nada sei”.
Simbolismo que significa que quanto mais aprendemos, mais percebemos saber pouco, pois ainda resta muito a conhecer.
A idéia é que, ao sentir-se ignorante, o sujeito se coloca em uma postura de constante aprendizado, sendo possível conhecer realidades provisórias que vão se substituindo e expandindo o conhecimento acumulado.
Na realidade um principio básico que iria forjar o que entendemos por ciência hoje, afinal o que são teorias se não verdades provisórias adotadas até que outras venham substituí-las.


A contribuição de Platão.
Platão viveu em Atenas, na Grécia, no século V. a. C., era de origem nobre, descendia da alta aristocracia; viajou pelo Egito e Península Itálica, acabando escravizado em Siracusa, onde foi comprado e libertado por um amigo, quando voltou para sua cidade natal.
Seu verdadeiro nome era Arístocles, Platão era um apelido, que significava ombros largos, um atributo considerado muito atraente entre os gregos na época.
Em Atenas, de volta da aventura, fundou a Academia, uma escola que seria conservada funcionando pelos próximos mil anos.
Platão demonstrou grande preocupação pelo cárcere representado pelo corpo, defendendo a idéia de que a morte era a libertação definitiva de um mundo ilusório.
Para ele, a realidade percebida pelos sentidos é apenas uma cópia imperfeita daquilo que existe no pensamento, já que o percebido não passa de aparência.

Existiriam dois mundos diferentes:
1.      Mundo Sensível, o qual muda constantemente, puro devir, percebido pelos sentidos, onde se passam os fenômenos, sendo apenas uma cópia imperfeita da realidade.
2.      Mundo Inteligível ou das Idéias, livre de mudanças e presente no pensamento, refletindo a verdadeira realidade, enxergando por trás das aparências.

Esta concepção faz parte da hierarquização do mundo presente na essência de todo o pensamento platônico, já que existiriam graus de conhecimento entre o mundo sensível e inteligível.
A matemática estaria no grau mais puro e verdadeiro do conhecimento da realidade, pertencendo completamente ao contexto das idéias, sendo pura abstração.
Platão tentou resolver a oposição entre Heráclito e Parmênides, buscando uma solução para a oposição entre a idéia de que tudo é movimento e de que isto é uma ilusão, pois a essência não muda.
Para isto elaborou uma teoria gnosiológica (gnosis = conhecimento), demonstrando preocupação com a validade da construção do conhecimento.
Pensou na afirmação de Heráclito de que é impossível dizer o que é uma árvore, uma vez que ela muda conforme cresce existem muitas espécies.
Contraposta a idéia de Parmênides de que a árvore muda desde a semente até morrer, existindo muitas espécies, mas sua essência é ser árvore.
Platão resolveu a questão de forma diferente de Demócrito, não usando o subterfúgio do átomo.
Para ele, a árvore muda porque não é apenas uma idéia, mas uma representação do pensamento, uma cópia imperfeita da realidade.
Platão usa um mito para explicar este conceito, supondo que, antes de nascer, a alma vivia em uma estrela, onde se localizavam as idéias.
Ao nascer, o impacto leva ao esquecimento, mas a anamnesis (reminiscência) conduz a recordar a partir das cópias imperfeitas da realidade.
Portanto, é impossível conhecer a realidade vivendo neste plano térreo de existência, o que pensamos saber é apenas uma sombra da verdade.
O conhecimento mais próximo da realidade concreta está apenas no mundo das idéias, daí inclusive a expressão amor platônico significando originalmente que o verdadeiro amor pertence aquilo que é imaginado e não ao vivido.
Uma vez que o imaginado é real para quem imagina, enquanto o vivido pode parecer real para mim, mas não ser para o outro.


As idéias de Aristóteles.
Aristóteles nasceu em Estagira no século IV. a. C., filho do médico pessoal do rei da Macedônia, na Grécia, indo para Atenas aos dezesseis anos de idade para estudar na Academia de Platão.
Mais tarde, foi professor de Alexandre, o Grande, filho do rei da Macedônia de quem o pai de Aristóteles foi médico.
O pensamento aristotélico parte do mesmo principio hierarquizado das idéias platônicas, distinguindo graus de conhecimento que transitam entre o mundo sensível e inteligível.
No entanto, diferente de Platão, Aristóteles afirma que a realidade é formada pelo acumulo de graus.
Embora as idéias expressem a verdade, este conhecimento é inútil, pois a realidade é uma junção de graus.
Isto porque, além da razão e dos sentidos, para conhecer é necessário usar a intuição, um raciocínio inconsciente, uma suposição sobre o que pode ser.
A matemática insere-se, neste contexto, como grau mais puro de conhecimento.
Diferente de Platão, Aristóteles não considera que a matemática pertence ao mundo das idéias, sendo puramente intuitiva, precisando da soma dos graus para existir como conhecimento.
A matemática necessitaria da razão, dos sentidos e da intuição como instrumentos que ajudam a pensar sem equívocos.
O que, por sua vez, originou a idéia de que não é possível encontrar a essência das coisas.
Assim, a questões éticas não seriam possíveis de aplicação prática, já que não é possível definir “o que é”.
Para estas questões, Aristóteles encontrou como solução a repetição das ações para garantir a ordem das coisas e atingir a felicidade.
Não sendo possível dizer o que é imutável, como definir, por exemplo, o que é a virtude?
O virtuoso se torna o que está convencionado pela repetição dos atos.
O que originou o silogismo, a demonstração do raciocínio dedutivo por meio de operações do pensamento, envolvendo premissas que permitem chegar a uma conclusão.
Um raciocínio que, segundo Aristóteles, permite se aproximar do conhecimento da realidade.


Concluindo.
A despeito da discussão iniciada na antiguidade, durante a Idade Média, o cristianismo interrompeu o debate em torno da possibilidade de conhecer.
Isto porque o cristianismo medieval distinguiu as verdades de fé, reveladas, e a realidade racional.

Em outras palavras, a realidade passou a ser aquela que Deus permite conhecer, revelada pelo poder eclesiástico.

Esta forma de enxergar o mundo só começou a mudar a partir da contestação de alguns pensadores, entre eles, nos século XVII, René Descartes na França e John Locke na Inglaterra.
Os dois, conforme a corrente teórica, são considerados fundadores da moderna teoria do conhecimento.
Entretanto, Descartes segue uma tradição iniciada na antiguidade por Parmênides, baseada na razão, representando o racionalismo.
Locke continuou a vertente iniciada por Heráclito, baseada nos sentidos, originando, junto com outros filósofos de sua época, empirismo.
Assim, ao observar o pensamento filosófico na Idade Moderna, devermos ter em mente a forte contribuição de uma discussão densa iniciada na antiguidade.


Para saber mais sobre o assunto.
ALQUIÉ, F. et. alli. Galileu, Descartes e o mecanismo. Lisboa: Gradiva, 1987.
CHAUI, M. Convite a filosofia. São Paulo: Ática, 1984.
KOYRÉ, A. Considerações sobre Descartes. Lisboa: Presença, 1963.
KUJAWSKI, G. Descartes existencial. São Paulo: Edusp. 1969.
MACIEL JR, A. Pré-socráticos: a invenção da razão. São Paulo: Odysseus, 2007.
PLATÃO. A república. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.
SANTOS, J. Do empirismo a fenomenologia. São Paulo: Loyola, 2010.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.