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domingo, 1 de abril de 2012

O Congresso de Viena e o concerto europeu: 1815-1878.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. abr., Série 01/04, 2012, p.01-11.



O Congresso de Viena é considerado o ponto de partida que marca as modernas relações internacionais, opinião partilhada por especialistas de peso; como Paul Kennedy, autor de Ascensão e Queda das Grandes Potências, obra que reinaugurou os estudos na área; assim como por Antônio Carlos Lessa, um dos maiores especialistas em RI do Brasil; e Amado Luiz Cervo, para quem um verdadeiro sistema internacional só passou a existir depois da transição marcada pelo Império Napoleônico.

Na visão dos defensores do Congresso de Viena como marco das modernas relações internacionais, é a partir do chamado concerto entre as nações, em uma tentativa de restaurar o Antigo Regime e deter o avanço do modelo liberal, que se configura justamente o oposto, uma sociedade industrial que consolidou o liberalismo.

O que derrotou definitivamente o absolutismo e os resquícios medievais que permaneceram durante a Idade Moderna, como, por exemplo, os direitos e privilégios da nobreza.

Cabe ressaltar que a palavra concerto, derivada do verbo concertar, ao invés de conserto, não denota reparo ou emenda, significando ordem ou harmonia, passa a ideia de concórdia entre as nações participantes.

Possui o sentido de uma reação conservadora que redefiniu as fronteiras da Europa e as zonas de influencia, terminando por estimular as revoluções liberais e as independências na América Latina, mola impulsora do liberalismo.

O liberalismo, mecanismo utilizado pela Grã-Bretanha para consolidar sua hegemonia, possibilitou o surgimento das democracias republicanas, típicas da Idade Contemporânea, herdeiras da Revolução Francesa, criando uma sociedade de consumo, marcada por intenso intercambio que, para os especialistas, formou um sistema internacional interestatal; visto que, dentro desta concepção, não existiam se quer Estados Nacionais consolidados antes da Paz de Westfália.

Aqueles que não concordam com esta visão, defendem a tese de que um sistema internacional interestatal formou-se muito antes do Congresso de Viena.

O português António Pedro Barbas Homem, a exemplo de outros, delimita o inicio das modernas relações internacionais a partir da Paz de Westfália, a finalização da guerra dos oitenta anos; disputada entre Espanha e Holanda, na qual estiveram envolvidas França e Inglaterra; e da guerra dos trinta anos, luta motivada pelo antagonismo religioso entre católicos e protestantes, envolvendo, além das nações já citadas, a Alemanha, principal palco dos conflitos, na Boêmia, atual República Checa, a Suécia e a Polônia.

Dentro desta concepção, o chamado sistema Westfaliano, passou a servir de referência para guiar as relações internacionais europeias, sobretudo, durante o período compreendido entre 1648 e 1789, consolidando o conceito de Estado Nacional, em desenvolvimento, em estágios diferenciados, em Portugal, Espanha, Inglaterra e França, vinculado as Monarquias Absolutistas, desde o século XV; inaugurando o principio da soberania estatal.

Já o norte-americano Giovanni Arrighi, autor do celebre O longo século XX, recua mais no tempo para demonstrar que as origens das modernas relações internacionais estão fixadas no século XIII; quando teria se iniciado a formação dos sistemas interestatais, a partir da hegemonia genovesa, pautada pela intermediação das trocas comerciais entre Ocidente e Oriente e pelo financiamento das expedições marítimas portuguesas; depois substituída pela hegemonia holandesa, garantida pelo controle de feitorias, pontos estratégicos que garantiriam o fluxo comercial.

Ao que teria se seguido à hegemonia Britânica, caracterizada pelo controle dos mares, através de sua imensa frota naval, exercendo, portanto, domínio sobre os caminhos por onde transitavam as mercadorias; superada pela hegemonia dos Estados Unidos da América e seu controle sobre o transito de capital, apoiado, sobretudo, no poder de persuasão de seu arsenal bélico; a despeito de, já na década de 1970, data original da publicação, Arrigui defender a ideia de que a China estaria iniciando sua ascensão como nova potencia hegemônica a partir do sinal denotado pela derrota norte-americana na Guerra do Vietnã, marcando uma nova fase de reajuste do sistema capitalista.

Destarte, seja qual for o marco escolhido como referencial, para compreender a configuração das relações internacionais contemporâneas, é fundamental estudar o significado do Congresso de Viena e suas implicações; sendo, antes, necessário, recuar até seus antecedentes.





Os antecedentes: a crise do Antigo Regime e o Império Napoleônico.

A paz de Westfália condenou a Espanha a perder seu papel como potência hegemônica a rivalizar com a Inglaterra, dissolvendo o poder dos Habsburgo, representado pelo Sacro Império Romano-Germânico.

Por outro lado, fortaleceu a hegemonia inglesa na Europa, fazendo a França e a Holanda surgirem como novas rivais dos ingleses, a primeira como potencia terrestre e a última como poder naval, ambas disputando a supremacia no cenário colonial; criando uma potência menor, a Suécia.

Além disto, reduziu a relevância dos Estados alemães perante o equilíbrio do poder na Europa, uma vez que, saindo derrotada, ao lado da Espanha, a Alemanha foi arruinada e devastada pela Guerra dos Trinta Anos, fragmentada em mais de 350 Estados independentes.

Atrasando a criação de um genuíno Estado Nacional alemão até o século XIX, visto  que seus principados sofreram graves danos causados pelas pilhagens realizadas pelos soldados mercenários suecos e pelas tropas francesas.

Diante da redefinição das fronteiras européias, a França, em pleno processo de consolidação tardia de seu Estado Nacional, tardia, devido, sobretudo, a questões internas, envolvendo disputas internas pelo trono, iniciou uma política voltada a galgar uma posição de destaque entre as Nações da Europa, pelas mãos do cardeal Richelieu, imortalizado no romance Os três mosqueteiros de Alexandre Dumas.

Ministro do rei da França, Luís XIII, o cardeal Richelieu organizou um forte aparelho burocrático, responsável pelo arrecadamento de impostos, possibilitando a manutenção de um poderoso exército e de um absolutismo cercado de luxo e ostentação.

Culminado com o ápice do Antigo Regime, representado pela fabricação da imagem pública de Luís XIV (1661-1715), transformando o rei em uma criatura dotada de poderes divinos, marcando o apogeu da monarquia francesa, sintetizada pela célebre frase proferida pelo rei Sol: “O Estado sou eu”.

Entretanto, a despeito da ostentação, a continuidade da política de Richelieu pelo cardeal Mazzarino, manteve a França caracteristicamente agrária, opondo-se ao processo de industrialização inglês; arrecadando impostos insuficientes para manter o imenso aparelho burocrático, o luxo da corte sediada no Palácio de Versalhes e o numeroso exército francês.

O que criou uma situação insustentável de déficit publico, agravada após a morte de Luís XIV, a ponto de seu sucessor, Luís XV, herdar um país marcado por contradições que conduziriam a Revolução Francesa e a época Napoleônica, levando a falência da paz de Westfália e desequilibrando a balança do poder.

Um episódio mítico e emblemático, narra que, na ocasião da morte de Luís XV, o monarca teria proferido em seu leito de morte: “depois de mim, o dilúvio”, referindo-se a péssima situação em que deixava a França que seria herdada por Luís XVI.

Realmente, Luís XVI enfrentou a formação de um cenário nada favorável ao Antigo Regime que se espalhou pela Europa, ameaçando a existência das monarquias absolutistas.

A Revolução Francesa inaugurou uma nova ordem social, abolindo os direitos feudais, suprimindo as antigas ordens e privilégios, proclamando a igualdade civil, embora tenha mantido a escravidão nas colônias, influenciando levantes e revoluções na Europa e na América, criando relações conflituosas entre a França e os paises monarquistas.

A situação terminou se agravando com a subida de Napoleão ao poder, no chamado golpe Dezoito Brumário, quando, temerosos com os rumos da revolução, a alta burguesia colocou o jovem general à frente da nação.

Napoleão percorreu um longo caminho, expandindo os ideais revolucionários pela força das armas, enfrentando a oposição de varias coalizões, tornando-se na prática um monarca constitucional ao autoproclamar-se Imperador, até ser derrotado por sua própria estratégia.

O bloqueio continental imposto por Napoleão mostrou-se desastroso para a Europa, privou os paises submetidos ao domínio francês do escoamento da produção manufaturada para o Novo Mundo, bem como impediu o acesso a matéria-prima das Américas, cerceado pela poderosa frota naval inglesa, inaugurando a hegemonia britânica, garantida pelo controle do fluxo naval.

A crise econômica, provocada pelo bloqueio, obrigou o Estado francês a aumentar abusivamente os impostos e obrigações, inclusive seqüestrando bens, para manter o exército e seu aparelho burocrático, gerando inúmeras revoltas contra os desmandos do governo imperial; culminando com o fim da aliança entre franceses e russos, em uma tentativa da Rússia de recuperar sua economia.

Neste meio tempo, a Inglaterra, ao invés de ter sido prejudicada pelo bloqueio, só colhia benefícios.

Para além do comércio com suas colônias na América Central e do Norte, a presença de D. João VI no Brasil tinha aberto os portos brasileiros ao comercio direto com a Inglaterra, beneficiada com a abertura de um amplo mercado consumidor de produtos manufaturados a altos valores, por sua vez, fornecedor de produtos agrícolas de baixo custo.

Enfraquecida, em 1792, a França terminou vencida por uma coalizão da Rússia, Inglaterra e Prússia; a qual derrotou Napoleão em Leipzig, avançando até Paris, onde Napoleão foi deposto, sendo recolocada no trono a dinastia dos Bourbon, quando Luís XVIII, irmão de Luís XVI, foi empossado e obrigado a aceitar o tratado de Paris.

Enquanto Napoleão Bonaparte foi exilado na ilha de Elba, de onde fugiu em 1815, tentando retomar o poder em um governo de 100 dias, somente para ser novamente derrotado em Waterloo, na Bélgica, sendo, posteriormente, aprisionado na ilha de Santa Helena, onde morreria em 1821.

Luís XVIII restaurou os privilégios do clero e da nobreza, mas foi obrigado a aceitar alguns avanços implantados pela Revolução Francesa.

A Inglaterra emergiu como a grande potencia hegemônica mundial, passando a controlar o comercio colonial, compartilhando o equilíbrio do poder na Europa com a Rússia, Prússia e Áustria; consolidando seu papel no cenário internacional através de sua participação no Congresso de Viena, em 1815.

Embora o Congresso de Viena simbolize a restauração do sistema absolutista, antagonicamente, marcou o inicio de um período que se estendeu até 1878, caracterizado por uma onda revolucionária na América Latina.

O que conduziu ao surgimento de novos Estados Nacionais independentes de suas antigas metrópoles, assim como por levantes revolucionários na Europa que modernizaram diversas nações, conduzindo ao surgimento dos nacionalismos responsáveis pela unificação da Itália e Alemanha.

A Inglaterra esteve por trás de boa parte destes movimentos, especialmente nas colônias, atendendo aos interesses do liberalismo econômico suscitado pela Revolução Industrial; inaugurando uma nova fase nas relações internacionais que levou o mundo ao imperialismo e a disputa pela posse de territórios na África e Ásia.

A ideologia do nacionalismo e as prerrogativas imperialistas, por sua vez, despertaram as lutas anticoloniais dos africanos e asiáticos, além das raízes da primeira e segunda guerras mundiais, com a formação do moderno sistema de relações internacionais.





O concerto europeu: os termos do Congresso de Viena.

O fim do Império Napoleônico iniciou um movimento contrarrevolucionário, em meio a pretensões hegemônicas, envolvendo, sobretudo, as nações que haviam participado da coalizão que havia derrotado os franceses, nomeadamente Inglaterra, Rússia, Prússia e Áustria.

Precedida pelos Tratados de Paris, imposto a Luis XVIII e Tratados Coloniais entre Inglaterra e Holanda; sob pretexto de resolver as questões emergenciais do pós-guerra e decidir um novo arranjo de poder que nortearia as relações internacionais a partir de então; representantes das nações européias decidiram se reunir em Viena, em setembro de 1814,compondo o Congresso de Viena, o qual duraria até junho de 1815.


O congresso foi presidido pelo estadista austríaco Príncipe Klemens Wenzel von Metternich, contando ainda com a presença do seu Ministro de Negócios Estrangeiros e do Barão Wessenberg como deputado.


A Prússia foi representada pelo príncipe Karl August von Hardenberg, o seu Chanceler e o diplomata e académico Wilhelm von Humboldt.

O Reino Unido foi inicialmente representado pelo seu Secretário dos Negócios Estrangeiros, o Visconde de Castlereagh; após fevereiro de 1815 por Arthur Wellesley, Duque de Wellington e depois pelo Conde de Clancarty.

A Rússia foi defendida pelo seu Imperador Alexandre I, embora fosse nominalmente representada pelo seu Ministro de Negócios Estrangeiros.

A França estava representada pelo seu Ministro de Negócios Estrangeiros Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord.

Portanto, as potencias envolvidas nos debates fizeram-se presentes representadas diretamente pelos seus mandatários e principais ministros, haja vista a imensa importância dos interesses envolvidos.

Em clima informal, sediadas pelo Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Fernando II, ainda estiveram presentes as discussões do congresso representantes da Espanha, Portugal, Suécia e dos Estados alemães (a Alemanha ainda não estava unificada).

Sendo oferecido aos participantes farto entretenimento entre as sessões, fato que levou  um  dos Príncipes presentes as negociações a afirmar que o congresso não andava, dançava.  

Reunidos no Pacto da Santa Aliança, a Rússia, Áustria, Prússia, Espanha e Portugal, unidos em torno do caráter conservador do regime monárquico, pressionaram o congresso a reimplantar o absolutismo, assumindo o compromisso de intervir em caso de avanço dos ideais revolucionários, o que na prática representava uma tentativa de manutenção das colônias portuguesas e espanholas nas Américas.

Enxergando uma limitação nas suas pretensões políticas e econômicas junto às zonas produtoras de matéria-prima, potenciais consumidoras de produtos manufaturados, a Grã-Bretanha exerceu pressão contrária à restauração do Antigo Regime, propondo o Pacto da Quádrupla Aliança, impondo, por sugestão francesa, o principio da legitimidade, por meio do qual cada potencia deveria voltar a possuir os mesmos limites que tivera antes de 1789.

O mapa da Europa e da América terminou sendo redesenhado, forjando um equilíbrio entre as principais potencias européias, consagrando, pela primeira vez, um entendimento entre as nações em favor da manutenção da paz, traçando diretrizes para criar um clima de estabilidade a partir de uma gestão compartilhada, negociada pelos diplomatas, visando evitar novas guerras.

Na visão de muitos autores, o Congresso de Viena representou o amadurecimento das relações internacionais praticadas pelas potencias européias, criando uma unidade orgânica, uma cultura comum com princípios específicos que passaram a caracterizar um sistema de relações regidos pela racionalidade, daí, inclusive, o emprego do termo concerto entre as nações.

Todavia, o congresso terminou por constituir dois grandes grupos hegemônicos: de um lado as potencias liberais, agregando Grã-Bretanha e França; e de outro as potencias conservadoras, compondo Rússia, Prússia e Áustria.

Consagrando uma harmonia nem sempre unitária, com histórico de divergências e decisões ora pendendo a um ou outro lado, embora mantendo a ordem mundial precariamente entre 1815 e 1848, terminando por permitir a independência dos paises da América Latina e a sobrevivência de monarquias constitucionais.

No final os interesses britânicos acabaram prevalecendo; mesmo durante o período de concerto entre as nações, movimentos de ordem liberal haviam sido  registrados em paises conservadores, a despeitos de reprimidos com sucesso; semeando o liberalismo, germinado pelo mercantilismo, fomentando o crescimento de uma economia globalizada a partir da década de 1840 e a substituição do poder compartilhado pela Pax Britannica.





Consequências: as revoluções liberais.

O liberalismo pode ser definido como uma corrente política, econômica e social, neste sentido também ideológica, que defende a liberdade individual, até os limites permitidos pelas leis, preservada pelo Estado, concordante, portanto, com um governo democrático, onde, teoricamente haveria liberdade de expressão e o pressuposto da livre concorrência, regulada, sobretudo, pela lei da oferta e da procura.

Nascido a partir de princípios defendidos na Revolução Gloriosa inglesa, em 1688, a qual depôs o rei em nome de um governo burguês, e pelo movimento iluminista; o liberalismo representa, sem dúvida, os ideais da burguesia, defendendo o direito a propriedade e a possibilidade de ascensão econômica e social a partir do mérito individual.

A educação é a equalizadora de oportunidades, enquanto os serviços públicos a disposição do cidadão comum garantiriam o bem estar social, contrariando o direito hereditário, pressupostos onde também se pode notar forte influencia das religiões protestantes.

Porém, foi também uma ferramenta empregada como sucesso pelos britânicos, visando consolidar sua hegemonia sobre o mundo.

Através de ideias difundidas pelas obras de John Locke, David Hume e, principalmente, Adam Smith, entre outros; bem como, através da própria difusão do mercantilismo pela poderosa frota naval britânica; o liberalismo terminou influenciando a Independência dos Estados Unidos da América e, na Europa, após o Congresso de Viena, uma série de revoluções de cunho liberal.

Mal os Estados alemães haviam liderado a criação da Santa Aliança, em 1815, uma associação de estudantes provocava distúrbios na Alemanha, abafado através de forte repressão as universidades e sociedades secretas, combatidas e censuradas, junto com os jornais.

Seguindo a tendência, na Espanha, em 1820, liberais contrários ao absolutismo, provocaram uma revolta que terminou impondo uma constituição ao rei Fernando VII; reprimida, em 1823, pela Santa Aliança, a qual restaurou o absolutismo espanhol.

Também em 1820, Portugal assistiu surgir um movimento de cunho liberal que ameaçou proclamar a república, a chamada Revolução do Porto, a qual exigiu o retorno de D. João VI, então no Reino Unido, a terra mãe, dissolvendo o problema com a chegada do monarca ao reino, culminando com a independência do Brasil.

O ano de 1820 foi conturbado, pois, neste mesmo ano, na Itália, a sociedade secreta dos carbonários obteve do rei das duas Sicilias uma constituição e um governo parlamentar, ambos desfeitos pela Santa Aliança, graças à intervenção da Áustria.

Antagonicamente, os austríacos estiveram por trás da independência da Grécia do Império Otomano, em 1829, apoiando um movimento liberal iniciado em 1821.

Apesar do sucesso da repressão aos movimentos liberais, o triunfo do liberalismo tornou-se cada vez mais próximo a partir de 1830, quando revoluções se propagaram pela Europa, criando um estado de crise latente que, manipulado pelos membros do Congresso de Viena, no sentido de apaziguar os ânimos, duraria até o inicio da década de 1840.

A consequência, com raras exceções, como o caso da Rússia, por exemplo, foi o surgimento de monarquias constitucionais, em substituição aos Estados Absolutistas europeus, redefinindo o mapa da Europa após 1848 e alterando novamente o equilíbrio do poder em favor da hegemonia britânica, situação que conduziria ao Imperialismo do século XIX e, no inicio do século XX, a 1º. Guerra Mundial.





Reflexos: as independências na América Latina.

Um reflexo direto dos acordos firmados no Congresso de Viena, intimamente relacionado com a falência do concerto entre as nações participantes, a partir de 1848, é, sem dúvida, as independências das colônias latino-americanas, parte integrante da crise do Antigo Regime, fomentadas pela Revolução Francesa e a independência dos Estados Unidos da América.

O apoio da Espanha as pretensões napoleônicas, na ocasião governada pelo irmão de Napoleão, José Bonaparte, colocado no trono pelas tropas francesas em 1808, havia estimulado o contrabando e o comercio direto com a Inglaterra, em uma tentativa de burlar o Pacto Colonial que beneficiava o desenvolvimento da Metrópole em detrimento da colônia e, simultaneamente, em apoio ao legitimo rei deposto.

Dentro deste panorama, as colônias espanholas insurgiram-se contra o Pacto da Santa Aliança que propunha uma intervenção coletiva dos países participantes, onde e quando fosse necessário intervir para restabelecer a ordem, já que, pelo principio da legitimidade, firmado em Viena, as fronteiras deveriam ser restauradas conforme sua anterioridade ao ano de 1789, incluindo os domínios coloniais, o que na prática representava um retrocesso, com a perda de varias conquistas referentes aos direitos dos colonos perante a Metrópole.

Fomentado pela Grã-Bretanha e gozando da proteção da chamada Doutrina Monroe, impetrada pelo presidente norte-americano James Monroe, cujo lema era “a América para os americanos”, pela qual seria considerada uma ação hostil aos Estados Unidos da América qualquer tentativa de recolonizar a América Latina.

Começaram a pipocar movimentos de ordem liberal pelas colônias espanholas, conduzindo a uma série de lutas que culminaram com vários processos de independência que esfacelaram o antigo Império Colonial da Espanha em diversos Estados soberanos.

No caso do Brasil, a presença do príncipe regente tinha elevado a colônia à categoria de Reino Unido, provocando uma situação diferenciada, a partir da Revolução do Porto que exigiu o retorno do rei a Portugal, devido às relações estabelecidas entre portugueses e ingleses desde longa data; acabando por criar uma nação soberana, formada por colonos, governada por um príncipe português; o que garantiu a unidade territorial da ex-colônia.

Em ambas situações, o concerto entre as nações e a alternância de decisões, ora pendendo para o lado liberal, ora conservador, criou espaço para; em meio a medidas estabelecidas pelo Congresso de Viena para tentar restaurar a ordem do Antigo Regime e a preocupação com a manutenção da paz na Europa; estimular e permitir as independências na América Latina, fortalecendo o liberalismo inglês e abrindo caminho para a ascensão da hegemonia ingleses e, posteriormente, norte-americana.





Concluindo: o triunfo do liberalismo e a hegemonia Britânica.

Graças ao fortalecimento do liberalismo, apoiado nas independências latino-americanas, iniciadas na década de 1820, com a criação de amplas zonas consumidoras de produtos manufaturados e produtoras de matéria-prima.

A hegemonia britânica foi sendo construída, em detrimento da gestão compartilhada, inaugurada pelo concerto entre as nações, estabelecido pelo Congresso de Viena; embora o moderno sistema de relações internacionais, regido pela racionalidade e diplomacia, tenha sobrevivido.

Em 1846, uma seca causou uma crise agrícola na Europa, aumentando o preço dos alimentos, empobrecendo os camponeses e, conseqüentemente, baixando o consumo de tecido, arrastando as fabricas para o cenário de crise, com a paralisação da produção e a dispensa de operários.

Embora a crise tenha variado de país para país, mais grave na Itália e Irlanda, por exemplo, e mais leva na Inglaterra e França; o clima de convulsão social contribuiu para o aparecimento das chamadas Revoluções de 1848, as quais marcaram, ao mesmo tempo, o triunfo do liberalismo e o inicio de complicações nas relações internacionais entre os Estados europeus.

À medida que a Grã-Bretanha consolidava sua posição hegemônica sobre o mundo, apoiada em sua influencia sobre a América Latina e no controle do fluxo comercial através do controle dos mares.

O sucesso do liberalismo inglês fomentava a eclosão de revoltas liberais, cunhando o nacionalismo, proposto para unir politicamente os povos de uma mesma origem e cultura; assim como seu reverso, o socialismo, com seu ideal de igualdade social e econômica, mediante reformas radicais.

Em 1848, dois aglomerados de Estados independentes, com uma cultura em comum, iniciaram processos de unificação, originando a Itália e a Alemanha.

Antagonicamente, o Império Austríaco, formado por muitos povos diferentes, começava a constituir o Império austro-húngaro; enquanto na França os ideais da Revolução Francesa ressurgiam, conduzindo ao governo de Napoleão III, a Comuna de Paris e, depois, a proclamação da republica.

Em meio ao apogeu do liberalismo, nascia o Imperialismo, a disputa dos países europeus por zonas de influencia na Ásia e África; marcado por mudanças nas relações entre patrões e empregados e por um reajuste do sistema capitalista, uma fase de transição que colocaria em cheque a hegemonia britânica em favor da norte-americana e a reorganização dos parâmetros a nortearem as relações internacionais.





Para saber mais sobre o assunto.

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ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. São Paulo: Unesp, 1996.

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BETHENCOURT, Francisco. História das Inquisições. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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LEFEBVRE, G. 1789: o surgimento da revolução francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

LESSA, Antônio Carlos. História das Relações Internacionais. Petrópolis: Vozes, 2005, p.53-83.

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MICHELET, Jules. História da Revolução Francesa: da queda da Bastilha à Festa da Federação. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias: o império da pimenta e do açúcar. São Paulo: Contexto, 2004.

SARAIVA, José Flávio Sombra (org.). História das Relações Internacionais Contemporâneas. São Paulo: Saraiva, 2007, p.41-65.





Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

As relações internacionais entre portugueses e chineses no século XVI.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume jan., Série 03/01, 2011, p.01-13.

Ao contrário do tratamento dispensado aos indianos, quando os portugueses chegaram à China, identificaram os chineses não aos infiéis, mais sim, aos gentis, interessando-se vivamente por sua cultura.
Em 1509, após recolherem informações junto as costa indiana sobre um povo branco que há mais de 60 anos não navegava mais por aquelas águas, resolveram adentrar o mar da China.

Já existia um intercambio comercial entre chineses e indianos, realizado por mercadores guzerates, quando especiarias eram trocadas por porcelanas e seda chinesa.

Rapidamente, os portugueses perceberam que poderia ser mais lucrativo eliminar os atravessadores e eles próprios negociarem com os chineses.


A China antes da chegada dos portugueses.
Em 1125, os chineses haviam trocado o comércio terrestre pelo marítimo, por meio de um processo que tinha se iniciado em 618, transferindo a capital do império do interior setentrional para o litoral meridional.
Foi construída uma talassocracia poderosa, contudo, depois que Kubilai Cã (1214-1294), neto de Gengis Cã, exterminou a dinastia Sung, dando inicio a uma nova ordem de imperadores estrangeiros, o comércio marítimo passou a ser visto como desonroso, sendo momentaneamente abandonado.
Em 1368, os chineses conseguiram expulsar os mongóis, recolocando no trono um imperador da terra que reiniciou o expansionismo naval pelo Índico.
Por esta altura, a China chegou a possuir uma frota naval de 63 grandes juncos, tripulados por 30.000 marinheiros.
No entanto, entregue aos caprichos de um poder fortemente centralizado na figura do imperador, sujeito, portanto, a alterações bruscas quando da passagem da coroa de um soberano ao outro, em 1433 o Império chinês interrompeu novamente a expansão marítima.
A constante ameaça de invasão bárbara em suas fronteiras terrestres fez os chineses concentrarem os recursos disponíveis em terra.
Isto não significa que o mar da China tenha ficado completamente desprotegido, pelo contrário, apesar da atividade comercial marítima passar a ser considerada desonrosa novamente, quando os portugueses chegaram ao litoral chinês, a marinha de guerra estava em franca expansão.
Cada província costeira chinesa, governada por um representante direto do imperador, então chamado de Mandarim, possuía sua própria marinha de guerra que, por sua vez, patrulhava uma zona restrita, possibilitando a cada armada não tardar mais do que três a quatro dias para retornar a primeira cidade por que havia passado.


O poderio marítimo chinês.
Embora a primeira vista possa parecer que a chegada dos lusos foi o principal estimulador do incremento da marinha de guerra chinesa, na realidade isto vinha sendo levado a termo há pelo menos meio século.
O deslocamento da atenção do poder central para as fronteiras terrestres havia deixado um espaço em aberto que, rapidamente, tinha sido ocupado por piratas chineses e guzerates.
Quando estes haviam começaram a perturbar as populações litorâneas, o imperador tinha sido obrigado a descentralizar sua antiga marinha, passando a responsabilidade da patrulha costeira aos Mandarins.
Assim, quando os portugueses iniciaram o mapeamento do mar da China, para além da grande força presente em terra, toparam com armadas que patrulhavam a costa de cada província.
O que dificultou enormemente a conquista pela força das armas de qualquer ponto estratégico litorâneo que pudesse servir de trampolim ao domínio do comércio marítimo da zona.
Para se ter uma idéia do peso das armadas chinesas, quando um capitão português à frente de três naus fortemente artilhadas, por volta da metade quinhentos, esteve no mar da China à procura de seda que pretendia tomar dos nativos quase de graça, um episódio inusitado aconteceu.
Pretendendo, a exemplo do procedimento adotado na Índia, comprar barato através da intimidação pela força das armas, a simples menção de que a armada do Mandarim de Buhaquirim estava tomando mantimentos em um lugar dali sete léguas, fez os portugueses recuarem.
Principalmente porque eles sabiam ser esta armada composta por quarenta juncos grandes e vinte e cinco outras embarcações menores de remo, em que estavam presentes sete mil homens, sendo cinco mil soldados e dois mil marinheiros.


O estabelecimento de relações diplomáticas.
Quando finalmente os portugueses encontraram um povo devidamente preparado para resistir à invasão, contornaram o problema através da diplomacia.
Pela ótica lusitana não havia outra opção, uma vez que, para além de uma marinha de guerra forte e um exército terrestre numeroso, a própria forma de governo centralizada existente na China impedia que fossem encontrados aliados entre os nativos da terra.
Aparentemente não havia nada que pudessem servir de estopim a desestruturação da coesão interna, a China era um Império poderoso.
A lealdade era colocada em primeiro plano pelos chineses, quando a soberania do imperador era colocada em seque, nem os piratas aceitavam formar alianças com os portugueses, a despeito de terem existido algumas poucas.
Não possuindo o Estado chinês qualquer tipo de interesse no comércio marítimo, estando o país fechado e voltado para dentro quando os portugueses chegaram por lá, como ocorreu na Índia, à origem dos desentendimentos luso-chineses encontrou sua base nas diferenças civilizacionais.
Um obstáculo que impediu os portugueses de substituírem totalmente os piratas chineses e guzerates, assim como os mercadores de Malaca, na intermediação comercial entre a China e a Índia e, posteriormente, com o Japão.


O deslumbramento português frente à cultura chinesa.
Ao contrário do que aconteceu com outros povos encontrados pelos portugueses, desde os primeiros contatos, eles ficaram muito impressionados com a organização social chinesa, suas cidades, sua tecnologia, e, diga-se de passagem, especialmente com a tipografia, caracterizando os chineses como muito corteses.
Os relatos que chegavam a Portugal, dando conta das novidades que eram observadas na China, classificavam as obras de arquitetura como preciosas e engenhosas.
Faziam notar que as ruas, nas cidades e aldeias, eram muito formosamente empedradas e pavimentadas, todas construídas de forma perpendicular, de modo que quem estava de um lado poderia ver até o fim da rua, por mais comprida que fosse por causa da sua retidão.
As cidades portuguesas de então tinham ruas tortas, raramente eram pavimentadas e, a desorganização, fazia com que muitas não tivessem saída, dando em becos perigosos para os transeuntes, formando verdadeiros labirintos.
 As casas chinesas eram descritas pelos portugueses com admiração, pois seriam bem estruturadas, baixas, sem andares e térreas, com um interior muito espaçoso e com grandes divisões e jardins de recreio, cheias de todo o gênero de curiosidades e ornamentos.
Diante de relatos como este fica fácil imaginar o impacto que devem ter provocado em Portugal as noticias que chegavam da China.
A própria de Portugal, em se tratando das condições de saneamento, moradia e do calçamento das ruas, não chegava aos pés de uma simples aldeia chinesa e muito menos de suas principais cidades.
Lisboa era na época um amontoado de ruas enlameadas, estreitas e tortuosas, apinhadas de casas apertadas de dois a três pavimentos, onde em cada casa se aglomeravam várias famílias em condições deficitárias de higiene.
Diferente de Lisboa, Pequim, a capital da China, era conhecida como a cidade celeste, sendo cercada por muralhas que tinham a distância de uma porta a outra tão grande que um homem a cavalo não podia andar em um dia, sendo dela contado mil milagres, tamanha sua organização social e arquitetônica, exemplo basilar que demonstra as diferenças culturais que se fariam sentir nos contatos luso-chineses.
Não bastasse a arquitetura, enquanto a imensa maioria dos portugueses eram analfabetos, estima-se que mais de 90%, e o acesso aos livros era um tanto restrito em Portugal, graças ao uso difundido da tipografia, os chineses tinham muitos livros disponíveis em bibliotecas públicas.
O acesso a leitura e o numero de letrados na China, mesmo que treinados somente nos rudimentos da escrita, era tão grande que, na opinião dos lusos, os chineses chegavam a ultrapassar os antigos gregos e romanos.
O orgulho nacional chinês fazia com que os livros relatassem sobre praticamente tudo que dizia respeito ao país e sua história.
A china possuía ainda memoráveis artes, leis, decretos e, igualmente uma polícia civil e ordenações civis e governos.
Assim, encontrando um povo cuja civilização em muitos aspectos ultrapassava o que havia de melhor na Europa, os lusos chegaram a tomar a China como modelo e paradigma para uma visão crítica da própria realidade portuguesa, ficando patente a admiração pela civilização chinesa, o que influiu decisivamente no modo de lidar com outro.


A incapacidade lusitana de dominar a China pela força das armas.
Não foi apenas a admiração que influiu nas relações diferenciadas dos portugueses com os chineses.
Da mesma maneira que foram observados a arquitetura e o nível cultural da China, os lusos notaram que seria impossível vencer um povo que de tão numeroso dividia-se por quinze províncias, estando espalhado por 591 grandes cidades e 1593 cidades menores.
Isto sem contar as aldeias e povoações, algumas das quais, por menor que fossem, eram do tamanho das maiores cidades portuguesas, de onde se podia deduzir a grandeza do país.
Não bastasse o peso do efetivo militar da China, cedo os portugueses perceberam que os chineses tinham também ciência da artilharia, fabricando pólvora e munições correspondentes há já muitas centenas de anos, pelo que não faziam mais memória da sua origem.
A despeito de não conhecerem o uso de canhões, tinham outros tipos de armas de fogo, muitas das quais mais eficientes que os escassos mosquetes lusitanos.


A opinião dos chineses sobre os portugueses.
Enquanto os portugueses viam os chineses com admiração, e, não fosse à diferença religiosa, até mesmo como potenciais aliados, por outro lado, segundo palavras literais da época, a imensa maioria dos chineses enxergava os portugueses como gente de mal titulo.
Uma opinião sustentada devido ao receio de uma invasão bárbara e o espanto que causava ter contato com mar, no caso, vale lembrar, cujos indivíduos eram considerados inferiores, além é claro dos choques culturais que se seguiram a cada contato luso-chinês.
O primeiro embaixador português enviado a China foi assassinado por ladrões e preso a mando de representantes do Imperador por mendigar.
Os primeiros contatos entre chineses e portugueses haviam sido até certo ponto cordiais, mas os lusos foram sempre recebidos com desconfiança.
Depois que a armada de Simão de Andrade chegou a Cantão, em 1519, e, diante de noticias de piratas nativos agindo no local, resolveu iniciar a construção de uma fortificação, pratica comum entre os portugueses, mas que era contra o sentimento de hegemonia chinês, as relações luso-chinesas entraram definitivamente em declínio.
Na ocasião, para além da construção da fortaleza lusitana, Simão de Andrade enforcou um dos seus marinheiros e impediu mercadores estrangeiros de comercializarem antes dele próprio concluir seus negócios.
O que causou indignação entre os oficiais chineses, pois na ótica deles o capitão português procurava exercer poderes que só cabiam ao Imperador.
Não por acaso, o título do rei da China era o de rei e senhor do mundo e filho do céu, sendo considerado quase como um deus por seus súditos e se considerando ele mesmo como tal.
O que na ótica portuguesa era inaceitável, uma vez que cabia somente ao Rei de Portugal, cujos navegantes haviam sido guiados pelo verdadeiro Deus à Índia, decidir sobre os rumos do Oriente.
Ao passo que na visão dos chineses deveria ser o Imperador chinês, na qualidade de senhor do mundo civilizado, o único a decidir pelo destino da China e dos bárbaros com quem o país tivesse contato.
Nestas condições nada seria mais natural que um confronto direto entre chineses e portugueses que, certamente, teria culminado com a derrota dos últimos e talvez até mesmo com a expulsão das naus de Portugal do Índico.
No entanto, quando Simão de Andrade cometeu seus desatinos, governava o Imperador Wu-Tsung, homem velho e mais afeito a diplomacia do que a guerra, sendo que os portugueses, por sua vez, já tinham percebido que a força militar dos chineses não podia ser vencida por um país com falta de gente e recursos como Portugal.
O resultado foi o inicio de um entendimento pacifico, os chineses permitiriam o livre comércio em suas terras e os portugueses passariam a respeitar a soberania chinesa administrada pelos Mandarins, freqüentando o litoral da China sem tentarem fundar feitorias ou fortalezas.


A morte do imperador e mudanças nas relações diplomáticas.
Quando Wu-Tsung faleceu, tudo mudou, oficialmente o novo imperador proibiu os portugueses de comercializarem em suas águas.

As negociações que apenas engatinhavam foram por água abaixo, a partir de então, por mais respeitosos que fossem, graças à má fama adquirida na África e na Índia e confirmada por Simão de Andrade, segundo documentos lusitanos da época, os portugueses passaram a ser tratados por toda a China sempre com ingratidão e descortesia.

Exatamente por este motivo, a Coroa resolveu entregar o comércio com a China aos particulares, aos aventureiros dispostos a se arriscarem, isto ao menos até que Macau fosse entregue aos portugueses em 1557, e, antes disto, o comércio luso-chinês fosse finalmente autorizado pelo Imperador em 1554.
Seja como for, no período em que os portugueses estiveram proibidos de navegar no mar da China, os aventureiros lusitanos conseguiam freqüentar apenas três cidades: “Sanchoão, Liampó e Lampacau.
Eram os únicos portos onde as autoridades chinesas aceitavam suborno para fazer vista grossa, talvez até mesmo com a conivência do imperador.
Todavia, mesmo nestas zonas o ódio aos portugueses imperava e os nativos não eram dignos de confiança.
Em certa ocasião, depois de fazer negócio e trocar especiarias por seda, o capitão português Antônio de Faria foi ludibriado por um Mandarim de Liampó.
Percebendo que a cobiça poderia ser a chave para fazer os portugueses se autodestruírem, isto sem que fosse necessário aos chineses erguerem um único dedo, o Mandarim indicou o rumo de uma cidade que supostamente teria interesse em comercializar com os lusos.
O capitão português seguiu as indicações seguro de chegar ao destino por dois meses e meio, só então passando a ficar desconfiado do que lhe dissera o chinês, passando a ficar muito arrependido daquela viagem, justamente em um momento em que o navio estava tão enfiado em águas perigosas e que tudo que restava a fazer era senão encomendar-se a Deus.
O episódio resultou em um miserável naufrágio e posterior aprisionamento dos sobreviventes lusitanos em uma estéril prisão, com grilhões nos pés, algemas nas mãos e colares nos pescoços, nos arredores de Nanquim.
Estes portugueses, como ordinariamente acontecia com aqueles apanhados infringindo a proibição de comercializar na China, forma muito maltratados com açoites e fome, em um miserável trabalho.


O assédio de piratas chineses aos navios lusitanos.
Depois de 1554, ano que marca a liberação do comércio na China aos portugueses, tendo ficado mesmo assim interditado freqüentar outros portos além de Macau, a imensa maioria dos piratas chineses, que antes saqueavam indistintamente o litoral de seu próprio país, passaram a priorizar a caça as naus portuguesas.
Primeiro porque o butim era muito mais proveitoso, depois porque, mesmo entre este estamento, o senso de patriotismo passou a clamar pelo combate aos bárbaros, aqueles que eram considerados como não mais que ladrões que roubavam as gentes do mar.
Por isto mesmo os portugueses eram considerados como as pessoas mais baixas, inferiores aos chineses impuros que lidavam com o mar.
Procurando contornar este assédio, muitos contrabandistas portugueses deixaram de lado o uso de naus, passando a servir-se de embarcações nativas para tentarem passar despercebidos, o que nem sempre funcionou.
Pela altura da metade do século XVI, por exemplo, Fernão Mendes Pinto, navegando em uma lanchara de remo, depois de ser atacado por piratas e sair vitorioso, encontrou na embarcação aprisionada quatro portugueses que não haviam tido a mesma sorte.
Estes portugueses tinham sido atacados pelos mesmos piratas, isto apesar de terem sido pegos a bordo de um junco.
Pela manhã seguinte, Fernão Mendes Pinto avistou gente que se perdera no mar, flutuando sobre pedaços de paus.
Na realidade quatorze portugueses que haviam sobrevivido ao naufrágio de outro junco causado também por um ataque de piratas chineses.
Embora na maioria das vezes tenham sido os portugueses a saírem derrotados, tendo chegado o assédio dos piratas nativos a ser considerado como o maior inimigo que os portugueses tiveram no mar da China, em algumas ocasiões conseguiam repelir o assédio.


Atritos com as autoridades chinesas.
Em ocasiões em que os lusos contaram com o apoio de piratas chineses que constituíram exceções a regra, já que deixaram clamar mais alto o dinheiro do que o patriotismo, na verdade tripulações mistas formadas por chineses e guzerates, os lusos entraram em batalhas contra autoridades chinesas, saindo vitoriosos, apesar de mais cedo ou mais tarde terem sofrido represarias.
Em um episódio emblemático, servindo de perfeito exemplo dos desentendimentos culturais luso-chineses, o já citado capitão Antônio de Faria se envolveu em um confronto direto com o Mandarim de Nouday.
Ele comandava em nome do imperador uma pequena cidade costeira, sem grande importância estratégica, estando por isto mesmo quase desprotegida.
Por isto mesmo os portugueses obtiveram a vitoria, mas, como há pouco relatamos, levaram o troco ao ser ludibriado pelo Mandarim de Liampó, quando então terminaram sendo presos e levados a presença do imperador da China para responder pelos seus crimes.
Tudo aconteceu porque o Mandarim de Nouday fez cativos cinco portugueses, ao passo que, tendo sido Antônio de Faria encarregado pela Coroa de negociar a libertação destes, teria bastado ele escolher mal as palavras, quando pediu uma audiência com o Mandarim, para agravar a situação.
Entre outras coisas, dizia seu pedido de audiência:
“(...) que elle era hum mercador estrangeyro portuguez de nação, que hia de veniaga para o porto de Liampo, onde avia muytos mercadores estantes na terra com suas fazendas que pagavão seus direitos costumados, sem nunca fazerem nella roubos nem males como [se] dezia [e que] (...) el Rey de Portugal seu senhor era com verdadeira amizade irmão de el Rey da China, vindo elles a sua terra, como tambem os Chins por este respeito costumavão yr a Malaca, onde erão tratados com toda a verdade, favor, e justiça, sem se lhes fazer agravo nenhum”.
Na verdade, as diferenças civilizacionais fizeram com que os signos de amizade e cordialidade expressos pelos portugueses fossem interpretados como a mais pura grosseria.
Escutando estas palavras dos interpretes enviados por Antônio de Faria, o Mandarim mandou açoitar os dois que levaram a carta e cortar as orelhas, tornando a mandar como resposta, escrita em um papel roto que dizia:
“Bareja triste, nascida de mosca encharcada no mais sujo monturo que pode aver em mazmorras de presos que nunca se alimparão, quem deu atrevimento a tua baixeza para perafusar nas cousas do Ceo? Porque mandando eu lèr a tua petição, em que, como o Senhor me pedias que ouvesse piedade de ty que eras miseravel e pobre, à qual eu, por ser grandioso, já me tinha inclinado, e estava quase satisfeito do pouco que davas, tocou no ouvido de minhas orelhas a blasfemia de tua soberba, dizendo que o teu Rey era irmão do filho do sol, lião coroado por poderio increivel no trono do mundo debaixo de cujo pé estão sometidas todas as coroas dos que governão a terra com real cetro e manto, servindo lhe contino de brochas de suas alparcas, esmagados na trilha do seu calcanhar, como os escritores das brallas do ouro testemunhão na fè de suas verdades em todas as terras que as gentes habitão. E por esta tamanha heresia mandey queimar o teu papel, representando nelle por cerimonia de cruel justiça a vil estatua de tua pessoa, como desejo fazer a ty tambem por tamanho pecado, pelo qual te mando que logo e logo, sem mais tardar faças á vella, porque não fique maldita do mar que em sy se sostenta”.
Vendo-se acuado, não possuindo os dotes diplomáticos requeridos, uma vez que era, como ele mesmo caracterizou, apenas um mercador, ao invés de tentar corrigir o erro, Antônio de Faria optou por se aliar ao pirata chinês Quiay Panjão.
Enxergando na ocasião a oportunidade ideal de saquear seu próprio povo e colocar a culpa exclusivamente nos portugueses, o pirata chinês atacou a cidade de Nouday com trezentos homens, dos quais setenta eram portugueses e os demais escravos e marinheiros.
Além é claro da gente de Quiay Panjão, dos quais cento e sessenta eram arcabuzeiros e outros lanças e chuças, usando bombas de fogo e outras muitas maneiras de armas a moda chinesa para destruir a cidade a partir do mar.
Após desembarcarem, com fervor da vitória, os portugueses e seus aliados se arremeteram à porta de Nouday, nela acharam o Mandarim seiscentos homens consigo.
O representante do imperador estava em cima de um bom cavalo, vestido com umas couraças de veludo roxo de cravação dourada do tempo antigo.
Segundo o relato da época, um moço português derrubou o Mandarim do cavalo com uma espingarda que lhe deu pelos peitos.
Os chineses ficaram tão assombrados que, todos juntamente, voltaram logo às costas, começando a se recolher sem nenhuma ordem pelas portas dentro, abrindo espaço para que os lusos derrubassem todos às lançadas, invadindo a cidade.
Cabe ressaltar que causa estranheza este caso em que os portugueses saíram vitoriosos, isto a despeito de constituir uma exceção a regra.
O sucesso deve ser tributado também à incomum aliança com piratas chineses, pois, como dá conta um soldado português que serviu no Oriente, os lusos tinham práticas militares da idade media.
Entre os portugueses imperava a desordem e indisciplina, o que, contraposto a rígida e milenar disciplina militar chinesa, deixa claro a ineficiência de possíveis tentativas lusitanas de conquista de pontos do litoral chinês.
Mesmo no caso há pouco descrito, quando os portugueses conseguiam invadir o litoral da China, a vitória era apenas momentânea, uma vez que reforços sempre terminavam por expulsar os invasores.
O que explica a inexistência de feitorias ou fortalezas portuguesas na costa chinesa, isto é claro com exceção de Macau, local onde os portugueses conseguiram se fixar apenas porque foram autorizados pelo imperador da China.


A ineficiência militar lusitana.
Conforme registrou o soldado Francisco Rodrigues Silveira, quando atacavam, os portugueses arrancavam logo todos contra a praia, repartidos por duas ou três bandeiras sob seus respectivos cabos.
O capitão-mor ia à frente da bandeira de Cristo, na qual avultava a imagem da cruz, mas o comando era puramente nominal.
Em terra o capitão dava a voz, porém cada um, sem se importar nem de chefe nem de camaradas, rompia avante, guiando-se em toda a refrega pelos próprios impulsos.
Esta avançada vertiginosa era quase sempre irresistível, entrando na povoação, todo ser vivo era metido à espada - velhos, mulheres, crianças e até os animais -, não só por crueldade, próprio do século, como por ser este o costume entre os portugueses.
Em casos raros a cadeia de comando era respeitada, quase sempre quando um nobre de sangue estava à frente de uma companhia.
Exatamente por ser um fidalgo, comandava com maior autoridade e era respeitado por sua posição.
No entanto, mesmo assim a situação era tão caótica como se não houvesse comandante algum, pois, como ocorria com relação a cargos de confiança a bordo das naus, muitas vezes o privilégio de liderar uma tropa era conseguido mediante relações de parentesco ou simplesmente através da compra do cargo.
O resultado era um completo desastre, como seria esperado em uma sociedade onde a liderança era conseguida pelo nascimento ou suborno e não pelo mérito.
Diferente dos portugueses, entre os chineses não havia senhores com títulos, tais como condes, duques ou outros semelhantes, nem qualquer um que tivesse vassalos, domínios, jurisdição ou propriedades, a não ser dados pelo imperador de sua livre vontade.
Acontece que os títulos, não sendo hereditários, eram recebidos conforme o merecimento, sendo que, quando estes morriam, tudo voltava de novo para imperador e este, se quisesse, podia tirar aos filhos, deixando o título nas mãos deles apenas quando tinham capacidade para tal.
O que garantia uma cadeia de comando eficiente e fiel ao Imperador, fornecendo lideres verdadeiramente respeitados por seus comandados, frente aos quais os portugueses não conseguiam se sobrepor.


Concluindo.
Enquanto os portugueses procuravam o lucro pessoal, o enriquecimento fácil, servindo-se do falso pretexto de servir o rei e Deus, a imensa maioria dos chineses vivia realmente para servir seu imperador e a grandeza da China.
Os chineses tinham um rígido código de conduta militar e moral, seguido em maior ou menor grau conforme o estamento de cada indivíduo, haja vista até mesmo os piratas chineses, a despeito de algumas exceções, terem incutido um ódio mortal a presença dos lusos no mar da China.
Este ódio foi tão intenso, talvez estimulado pela noticia das crueldades praticadas pelos lusos, que tornou-se uma diversão entre os piratas chineses, quando aprisionavam portugueses, mandar lançar os miolos fora com uma tranca, como fez o pirata Similau a Gaspar de Mello.
Seja como for, apesar das dificuldades, o comercio com a China foi um negócio lucrativo que incrementou os produtos transportados pela Carreira da Índia e, depois de seu declínio, chegou até mesmo a garantir a sobrevivência da rota.
Não obstante, enquanto o Estado chinês foi o grande dificultador de uma maior penetração portuguesa na China, no Japão os portugueses entrariam em confronto direto com as lideres religiosos japoneses.
No Japão provocariam um tipo de conflito cultural, em alguns aspectos, muito semelhante ao ocorrido na Índia, com a diferença que os japoneses, a exemplo dos chineses, se mostrariam mais preparados para repelir a invasão lusitana.
Mas esta já é outra história.


Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e obstáculos enfrentados pelas armadas da Índia portuguesa. 1497-1653. São Paulo: Humanitas, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2004.
RAMOS, Fábio Pestana. Por mares nunca dantes navegados. São Paulo: Contexto, 2009.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.