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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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sábado, 1 de setembro de 2012

Guilherme de Ockham e a legitimidade do poder temporal.


 

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. set., Série 01/09, 2012, p.01-05.

 

“O império provém, pois, de Deus conforme o terceiro modo, porque provinha de Deus, mas a ordenação humana também concorria, de tal forma que os homens que tinham o poder de conferir jurisdição temporal a alguém, a conferiam de fato ao imperador, assim como verdadeiramente lhe conferiram e transferiram de si para ele o poder de fazer as leis” (Guilherme de Ockham).

 

A disputa entre papas e imperadores, entre a ordem religiosa e o império secular, pelo poder temporal caracterizou toda a Idade Média.

O enfraquecimento do poder papal no fim do período medieval abriu caminho para o questionamento sobre o direito legitimo ao poder espiritual e temporal.

Dentro deste contexto, em 1380, Guilherme de Ockham, entre outros frades franciscanos, perseguidos pelo papa, fugirão de Avignon, então uma das três sedes do papado, pedindo proteção ao imperador.

Na ocasião o poder dos papas começava a ser contestado em virtude da disputa que fez com que três cardeais fossem nomeados papas ao mesmo tempo, um em Roma, outro em Avignon (França), além de outros pretendentes ao posto, em outras cidades, também se afirmando legitimo representante de São Pedro na terra.

Uma situação que durou até o restabelecimento de Roma como sede oficial do papado em 1414, mas que desarticulou o poder político da igreja católica.

Um movimento para qual contribui ativamente Ockham, a partir de sua fuga de Avignon, ele se dedicou a provar que o poder temporal, a legislação sobre as coisas terrenas, pertencia ao imperador e não ao papa, cabendo a este apenas o poder espiritual, administrar as coisas de Deus.

 

Brevilóquio sobre o principado tirânico.

Foi justamente tentando provar a legitimidade do poder temporal do imperador, que Guilherme de Ockham escreveu o Brevilóquio sobre o principado tirânico, referendado pelas Sagradas Escrituras, tidas como lícitas para qualquer fundamentação argumentativa.

Através de uma interpretação extremamente literal da Bíblia católica, para o filosofo, o conhecimento humano seria relativo, de modo que só a fé poderia responder a determinadas questões relacionadas à espiritualidade.

Só a teologia revelada poderia extrapolar a limitação humana, deixando transparecer os atributos de Deus e seus desígnios.

O que confirmava a autoridade espiritual do papa, porém, não garantindo a primazia sobre o governo sobre os homens no plano terreno.

O poder prometido por Cristo ao apostolo Pedro deveria excluir o direito legitimo do imperador e de outros reis, visto que o poder temporal não se oporia, portanto, aos bons costumes e à lei evangélica.

Para provar sua tese, Ockham recorre ao um tempo anterior às Sagradas Escrituras.

Sendo Deus eterno e, assim, anterior às revelações confidenciadas aos homens, sempre exerceu sua vontade e onipotência, tendo confiado o poder temporal a fiéis e infiéis indiscriminadamente, visto que imperadores existiam muito antes dos textos da Bíblia serem escritos.

Qualquer argumentação contrária colocaria a suprema bondade e onipotência de Deus em questão.

Seria ainda possível provar a legitimidade do poder temporal do imperador através da autoridade do Antigo e Novo testamento, pois Deus, em nome da natureza e da preservação de sua criação maior, teria dado aos homens o direito a propriedade.

Sendo o homem um ser político por natureza e, portanto, designado por Deus a viver em sociedade, a jurisdição temporal dos bens necessários e úteis para a vida em grupo pertenceria ao imperador.

O direito de governar deveria ser outorgado ao povo, sendo representado pelo imperador, o que ocorreria através do direito divino referendando o direito humano.


Segundo Ockham:

“De um terceiro modo diz-se que uma jurisdição ou poder provém só de Deus não quando é dado ou conferido, mas depois que é dado, isto é, de tal modo que quando é dado não provém só de Deus, como nos dois modos anteriores, mas é dado ou conferido por outro tanto como por Deus, mas depois que foi conferido depende só de Deus, de tal modo que aquele que o exerce reconhece regularmente como provindo de ninguém outro superior a si, que não Deus” (Guilherme de Ockham).

 
Sendo assim, Deus designaria o povo que deveria escolher o imperador, uma vez instituído o seu governo, este deveria reportar-se somente a Deus, adquirindo o direito divino de ocupar a posição de soberano terreno.

 

A tirania do império romano e a vinda de Cristo.

Aqueles que afirmavam ter sido o império romano um principado tirânico, Ockham responde que algumas vezes tais instituições transformam-se em justas e legitimas, assim como o principado real pode se transformar em tirânico.

Cristo teria vindo a terra não para tirar ou diminuir os direitos temporais do imperador, sua missão teria sido puramente espiritual e diretamente ligada a Deus.

Usando as palavras de Cristo, o filosofo afirma: “a Deus o que é de Deus e aos romanos o que é dos romanos”.

O que confirmava literalmente que a Deus e seu representante na terra, o papa, caberia somente às coisas do espirito; aos homens seria reservado as coisas temporais, o livre-arbítrio e responsabilidade sobre seus atos.

Neste sentido, a plenitude do poder imperial incorreria na servidão dos homens e a plenitude do poder papal terminaria por incorrer no mesmo erro, daí o compartilhamento do poder entre papa e imperador, cada qual cuidando da esfera apropriada.

O papa não representaria a continuidade do império romano e Cristo nunca teria fomentado a inclusão de seu reino espiritual nas coisas mundanas.

Pelo contrário, o poder espiritual poder servir de guia para os homens, mas eles é que deveriam decidir sobre seu destino, mesmo contrariando a vontade de Deus e sendo passível de punição em outra vida.

 

Concluindo.

Guilherme de Ockham foi um dos teóricos que legitimaram o poder dos príncipes, reis e imperadores na entrada da Idade Moderna, possibilitando o surgimento dos Estados Nacionais e a desvinculação entre coisas terrenas e espirituais no campo da política.

Para ele, o poder divino e humano são complementares, mas as coisas do espirito não dizem respeito ao que acontece no plano terreno.

Visto que Deus garante o livre-arbítrio, sendo um ser divino, supremo e ilimitado, não teria a necessidade de impor sua vontade, deixando os homens operarem por sua limitada razão.

Por este motivo, o poder temporal teria sido usurpado pelos papas, os príncipes tirânicos que tentavam impor sua vontade aos homens, alegando ser a vontade de Deus.

Ao passo que Deus teria sim revelado sua vontade nas Sagradas Escrituras e através da vinda de seu filho a terra: Jesus Cristo.

No entanto, a Bíblia revelaria justamente o amor de Deus pelos homens expresso pelo direito de escolha, o livre-arbítrio, tecendo recomendações e não imposições.

Portanto, por meio deste raciocínio, a fundamentação da política circunscrita aos homens, sem intervenção do papa, garantiria aos representantes escolhidos pelo povo o direito de governar.

 

Para saber mais sobre o assunto.

HIRSCHBERGER, Johannes. História da filosofia na Idade Média. São Paulo: Herder, 1966.
OCKHAM, Guilherme. Brevilóquio sobre o principado tirânico. São Paulo: Vozes, 1988.
ROMANO, Egídio. Sobre o poder eclesiástico. São Paulo: Vozes, 1989.

 

Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

História e Poder.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 13/09, 2010, p.01-09.


Embora a história e o poder sejam como irmãos siameses, como lembrou com propriedade Francisco Falcon, a partir de 1920, principalmente com a forte critica a história política formulada pela Escola de Annales, esta vinculação passou a não ser enxergada como tão evidente pelos produtores do conhecimento histórico.

Em suas obras, os positivistas deram importância quase que absoluta à política e ao poder institucionais.

O que conduziu a denominação de história política tradicional quase como sinônimo da tendência teórica.


Este atrelamento ao poder constituído acabou por caracterizar a história como mantenedora da ideologia das categorias sociais hegemônicas, elevando seus heróis e construindo uma memória histórica que privilegiou as elites.

De fato, assim como é inviável abordar as várias faces da história, quer seja social, econômica ou cultural, sem tocar na questão do poder; é também impossível debater a história e o poder sem remeter algumas discussões à política.

O mundo contemporâneo não pode ser compreendido integralmente sem as duas temáticas analisadas simultaneamente.

Mais evidenciado pelos positivistas, o poder sempre foi explicitado durante a construção do saber histórico ao longo da história da história, mas ocultou-se após Annales, como admitiu Jacques Le Goff.

A Escola interditou a questão por décadas na França, a reboque, influenciando com força parte da tradição historiográfica no Brasil.

Isto, a despeito de, em âmbito mundial, na Inglaterra, Itália, Alemanha e Estados Unidos da América a História Política, atrelada ao poder, ter continuado a ser desenvolvida pelos historiadores.

Fazendo com que, no Brasil, textos de cunho marxista também não deixassem totalmente de lado o debate em torno do poder.

No entanto, apesar do poder ter recentemente voltado com timidez a ser objeto da historiografia, a História Política ainda não foi totalmente reabilitada pelas ciências humanas, apesar dos esforços da antropologia política, da sociologia política e da geopolítica.

Neste contexto, o poder, sendo o centro de qualquer escrita histórica, é a chave para viabilizar uma renovação da Nova História Política dedicada às estruturas, mesclando a análise social com a sociologia e os aspectos culturais intrinsecamente relacionados.


Política e Poder: conceitos entrelaçados pela História.

Segundo Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva, a palavra política não pode ser entendida separada da idéia de poder, este último, por sua vez, não pode ser confundido com o Estado, pois está disseminado por toda a sociedade.

Apesar da política e do poder serem conceitos entrelaçados pela história, utilizados, contemporaneamente, para entender o papel do Estado perante a sociedade.


O termo política foi cunhado na atividade social desenvolvida na polis grega, adquirindo um significado otimista de ciência que estuda o sumo bem, com a finalidade de exercer uma atividade ética, assumindo uma função pedagógica de transformar os homens em cidadãos, harmonizando os interesses individuais e coletivos.


Na passagem para a Idade Moderna, Maquiavel, considerado o fundador da Ciência Política, modificou a acepção do termo, definindo política como um conjunto de estratégias, ações racionais e objetivos a conquistar.

Um significado novamente alterado por Montesquieu no século XVIII, quando a política passou a ser entendida como a organização do Estado para gerenciar os cidadãos.

Depois de intenso debate, envolvendo, entre outros, Rousseau Hobbes e Locke, em que a política foi explicitamente vinculada ao poder, portanto, a sobreposição da vontade de alguns sobre outros.

No século XIX, Marx repensou a política a partir das classes sociais e de suas contradições, popularizando e remetendo ao conceito de ações cotidianas que regulam as relações entre indivíduos e grupos.

Assim, qualquer que seja a acepção histórica escolhida para a polissêmica palavra política, seu significa sempre esteve relacionado ao poder, um conceito que também comporta, assimetricamente, múltiplos significados.

Para Hobbes, a política, como forma de atividade ou de práxis humana, estaria estreitamente ligada ao poder, já que este último seria a obtenção consciente de vantagens ou um conjunto de meios que permitissem alcançar efeitos desejados, considerando a vontade de um ou alguns sobre outros.

Neste contexto, é interessante notar que para exercer a política seria necessário fazer uso do poder, concepção em concordância com a acepção do século XIX.

Para Weber, por exemplo, o poder é uma relação entre dois atores, em que um tem a capacidade de forçar o outro a fazer algo que voluntariamente não faria, o que não gera necessariamente conflito, pois pode envolver negociação e existir alternancia de posições conforme o momento.

Relações que, segundo Foucault, extrapolam a esfera do Estado, não se limitam a governates e governados, podem ser encontradas em qualquer lugar, entre pais e filhos, professores e alunos, patrões e empregados, homens e mulheres, etc.

O que remete as várias formas de poder, tal como o poder economico ou o poder ideologico.

Concepção que se comunica com a noção de poder que regula relaçãoes entre individuos e grupos que podem ser sutis, móveis e de dificil caracterização, envolvendo não apenas meios repressivos como também persuasivos, dificilmente percebidos pelos seus próprios agentes, mas detectados pelos historiadores ao analisar o passado através da sincronia e diacronia em uma tentativa de compreensão de seu próprio tempo.

Na realidade, a história refere-se sempre a certos processos da vida humana em uma diacronia – isto é, no decurso de uma passagem pelo tempo – ou que se relacionam de outras maneiras, mas sempre muito intensamente, com uma idéia de temporalidade.

Tal como estabeleceu à lingüística, também na história os termos sucessivos se substituem uns aos outros ao longo do tempo, tornando a historicidade uma sucessão de fatos, estudados através da sincronia, o entendimento das estruturas.

De modo que, a escrita da história termina estabelecendo escolhas que denotam posicionamentos interpretativos de análise do homem como ser histórico, entrelaçando o poder e a política inseparavelmente, contextualizando a passagem do tempo, refletindo sobre a essência das mudanças e permanências.


Poder e Política na escrita da História.

O poder e a política foram objetos centrais da narrativa histórica desde suas primeiras tentativas de estabelecimento disciplinar, estando intimamente relacionados com o estudo das guerras, sedições e da diplomacia.

Heródoto iniciou suas Investigações pela epígrafe: “Heródoto de Halicarnasso apresenta aqui os resultados de sua investigação (historiê), para que o tempo não apague os trabalhos dos homens (erga) e para que as grandes proezas, praticadas pelos gregos ou pelos bárbaros não sejam esquecidas”.


Segundo François Hartog, ao compor a epígrafe, Heródoto expressou uma visão política, com o despotismo bárbaro de um lado e do outro o mundo dito civilizado, demonstrando as relações de poder envolvidas nas Guerras Médicas, com implicações diplomáticas e culturais.

Assim, desde o inicio formal da história, a política foi encarada como principal instrumental para o entendimento do passado humano, enquanto, por sua vez, o poder e as relações estabelecidas a sua volta param a servir de referência para a investigação da política.

Compondo o que Francisco Falcon chamou de História Política Tradicional e que pretendia representar a memória.

Esta abordagem política tornou o Estado o principal foco de atenção dos historiadores, fazendo figurar na historiografia a vida de monarcas, generais, noções gerais sobre a legitimidade dos enunciados políticos, etc.

Quando na verdade, a política, em si, demandava discussões mais amplas.

As narrativas históricas, durante a Antigüidade Clássica, focavam apenas uma classe, a dominante, e suas relações com o corpo social.

Na Grécia e em Roma, a vida pública envolvia a vida religiosa, fazendo dos deuses sujeitos da história.

Qualquer exame das relações da economia ou da cultura com as instituições e os grupos sociais não se fazia presente, pois estas esferas ainda não eram percebidas pelos historiadores.

O esfacelamento do mundo romano pouco modificou o núcleo da escrita da história, o foco permaneceu o mesmo.

É verdade que o pensamento cristão inseriu um novo fator, a teleologia divina ou escatológica, na qual a Igreja Católica era a única intérprete de Deus, decifrando os enigmas da vida na Terra.

A história continuou narrando apenas relatos sobre a vida pública, sobre as guerras e a vida eclesiástica, como fornece exemplo Santo Agostinho, com a “cidade dos homens” e a “cidade de Deus”.

Mesmo assim, a despeito da ausência de analises mais aprofundadas, a Idade Média continuou inserida na tradição de investigação da história política, emersa em questões que conduziam a discutir o poder temporal ou divino dos indivíduos e instituições, legitimando a ordem estabelecida na Europa.

O humanismo e a Renascença promoveram uma verdadeira revolução nos mais variados campos do conhecimento humano, porém, esta reviravolta não atingiu substancialmente a história em sua inclinação para política.

A renovação renascentista iniciou uma discussão erudita sobre as fontes e a supressão definitiva do divino e do sobrenatural na história, mas a sua escrita continuo vinculada com a política e o poder.

Entretanto, este refinamento do método erudito renascentista criou ciências auxiliares da história – tais como a paleografia, a diplomática, a heráldica, a numismática, a genealogia etc – fundamentais para a posterior consolidação científica positivista da história no século XIX.

De posse destes novos instrumentais, alguns historiadores passaram a não relatar mais os feitos marcantes dos poderosos e buscaram feições mais amplas do corpo social.

Entre os séculos XVI e XVIII, começaram a surgir às primeiras agremiações de historiadores profissionais, ora para legitimar o poder do príncipe sobre seus súditos com lições históricas, englobando outras categorias sociais, ora para tentar reafirmar o poder espiritual da Igreja Católica, esfacelada pela Reforma Protestante.

A história continuou entrelaçando política e o poder, assim como, paradoxalmente, também continuou sendo resultado deste cruzamento de olhares.

Em decorrência desta concepção, o povo, a massa de marginalizados pela historiografia tradicional, só começou a ganhar voz com o advento da Revolução Francesa.


O iluminismo voltou-se para o terceiro estado e para o povo, fez intervir as “massas humanas” no mesmo título que os heróis e os grandes desse mundo, e chegou inevitavelmente a interessar-se pelas estruturas sociais e pelas mentalidades coletivas, como procederam Rousseau, Mostesquieu, Gibbon, depois, mais tarde, Tocqueville ou Fustel de Coulanges.


A contraposição do movimento iluminista veio com o romantismo, que, no início do século XIX, apregoava o abandono das fórmulas de composição e a maneira de escrever dos autores clássicos para valorizar o individualismo, o lirismo, a sensibilidade e a intuição em detrimento do racionalismo exagerado.

O romantismo tinha por objetivo a criação de vínculos afetivos dos indivíduos com os Estados nacionais, entendidos como comunidades imaginadas.

Em termos historiográficos, o romantismo trouxe algumas novas posições e a revitalização de outras, como a valorização do Estado Nacional e do povo, introduzindo neste panorama o nacionalismo, com o rigorismo erudito e o entendimento historicista da história como o singular coletivo.

As relações entre poder e política tornaram-se ainda mais evidentes nas narrativas dos historiadores, a próprio história assumiu uma roupagem técnica que passou a refletir concepções teóricas e metodológicas, dentro do ideal romântico, conduzindo ao aparecimento da Escola Metódica e Positivista no século XX.

Momento em que, sem sombra de dúvida, a história tornou-se sinônimo de análise do entrelaçamento entre o poder e a política.


O Poder Político.

No século XIX, o Positivismo Histórico, procurou encontrar, no estudo da história, leis que regulassem o desenvolvimento humano, permitindo contextualizar os fatos do presente, originando uma atitude e uma narrativa presentista.

Já a escola metódica, encabeçado por Von Ranke, supervalorizou os documentos oficiais.

A história transformou-se na narrativa dos fatos políticos e da vida das grandes personalidades, suscitando uma série de criticas que conduziam a outras propostas teóricas.

Em larga medida, este conceito reduziu o estudo do poder a apenas uma de suas variantes, o poder político, transformando a memória expressa pela história, paradoxalmente, na escrita da memória oficial.

O passado converteu-se em ferramenta utilizada para legitimar as ações do presente, isto porque a seleção das fontes conferiu aos documentos um alcance político e ideológico, tornando a visão do passado distorcida pela sua utilização por aqueles que estavam no poder.

A narrativa da história foi transformada em memória oficial ensinada nas escolas.

A historiografia passou a evocar o passado, ativando recordações regidas por uma temporalidade linear, ordenando os acontecimentos de forma que as pessoas se lembrassem apenas dos fatos e eventos que interessam aos grupos hegemônicos.

Os historiadores na maior parte das vezes estavam também inseridos neste contexto, construindo modelos de comportamento que ditavam as normas do conhecer e agir.

Esta escrita da história compôs o que se convencionaria chamar História Política Tradicional, tendo o poder como seu centro em duplo sentido: motor de sua composição e objeto de sua análise.

Os historiadores demorariam décadas até perceberem que o mundo moderno estava em pedaços e a história se assemelhava a um amontoado de ruínas, sendo impossível para o homem reconquistar a unidade perdida.

A salvação estaria em recolher os cacos, não para reencontrar o passado como ele foi e sim para buscar o que foi esquecido e abafado pela violência dos grupos no poder.


A critica a História Política Tradicional.

A Escola de Annales constituiu uma reação critica as concepções históricas do século XIX, notadamente rejeitando a ênfase positivista e metódica em política, diplomacia e guerras, assim como a abordagem economicista do marxismo.

Annales se propôs a problematizar a história, contrariando a coleção de fatos perpetuada pela História Política Tradicional.

Esta condenação da História Política não implicou, porém, na exclusão do político, sobretudo em relação ao conceito poder.

Novas perspectivas foram abertas ao estudo da política e do poder e ao caráter relativo da Historia Política Tradicional.

Entretanto, a terceira geração de Annales apontou a confusão entre História Tradicional e História Política, defendendo múltiplas histórias, a exemplo da renovação do estudo da política proposto por Arendt, Norbert Elias, Chartier e Foucault.

Um relativismo que pode ser entendido pela influencia que exerceu em outras tendências, dando novo fôlego para a tendência marxista na década de 1970.

Quando contribuições vieram de novas correntes para a restauração dos estudos políticos, com conceitos herdados de Gramsci, Bourdieu e Althusser.

O conceito de pressão social pelo autocontrole, do sociólogo Nobert Elias, por exemplo, tornou-se uma ferramenta de pesquisa, ao lado da teoria do controle de Foucault, cuja obra Vigiar e Punir, foi adotada como modelo de análise.

Já o filosofo, tido também como sociólogo e antropólogo, Pierre Bourdieu, contribuiu com o conceito de campo, a teoria da prática, a idéia de reprodução cultural e a noção de distinção; conduzindo ao estudo da lingüística como instrumental e a adoção da literatura como fonte para o entendimento da história.

A interdisciplinaridade, proposta por Annales, trouxe novos rumos para História Política, nasceram áreas correlatas que passaram a depender do cruzamento de olhares entre várias esferas do conhecimento com a política e o poder, tal como o estudo sociológico da histórica da cultura, a sociologia histórica do poder e da política, a antropologia cultural, a antropologia política e a etnohistória.

Todas contribuíram para o aparecimento da Nova História Política.


Concluindo.

Depois de intenso debate, na década de 1980, sobre as perspectivas da Nova História Política, a maior parte dos historiadores considerou este aspecto da história resgatado por outras áreas e conceitos do conhecimento histórico, tal como pelas Representações.

No entanto, no século XXI, muitos historiadores passaram a rejeitar as análises que predominaram nas décadas anteriores, voltando seus focos para a narrativa das vidas privadas, do cotidiano das pessoas comuns e dos acontecimentos diários; deixando de lado novamente os aspectos políticos.

Por outro lado, alguns autores também passaram a discutir o progresso da concepção de cultura política na ciência política, na sociologia, na história e na antropologia, expondo-a como um complexo de ações, convicções e sensibilidades que ordenam e atribuem significados a métodos políticos diferentes.

Estes autores colocaram em destaque a teoria do conceito de cultura política, segundo o qual as respostas a situações de interação social se dão através de orientações mediadas pela avaliação subjetiva que o ator faz dessas situações.

Não obstante, os trabalhos dentro do âmbito da cultura política sofreram uma alteração teórica e metodologicamente, acarretando mudanças no objeto de estudo.

As investigações passaram a destacar quase sempre apenas as condições que afetam a eficiência das instituições públicas, levando em conta os interesses públicos, esquecendo que a política permeia todas as esferas da realidade histórica.

Neste sentido, a incorporação da investigação dos mecanismos do poder pode ser a chave para renovar a Nova História Política, conscientizando os historiadores de que todas as relações são relações de poder, inclusive aquelas que se relacionam à institucionalização da memória exercitada pela construção das narrativas históricas.

Como ressaltou René Rémond, a esfera política existe, sobressaindo-se das demais instâncias da realidade social, ela é exclusiva e autônoma, “imprimindo sua marca e influindo no curso da história”.


Para saber mais sobre o assunto.

ANDRADA, Bonifacio de. Ciência política: ciência do poder. São Paulo: LTR, 1998.

ARISTOTELES. A Política. São Paulo: Martins Editora, 2006.

BOBBIO, Norberto et. Ali. Dicionário de Política. Brasília: UNB, 1991.

BOURDIEU, P. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1987.

CARNEIRO, L. P & KUSCHNIR, K. “As dimensões subjetivas da política: cultura política e antropologia da política” In: Estudos Históricos, v.13, n.24. Rio de Janeiro: 1999, p.227.

FALCON, Francisco. “História e Poder” In: CARDOSO, Ciro Flamarion & VAINFAS, Ronaldo (org.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997, p.61-89.

FOUCAULT. Michel. Microfisica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003.

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Editora, 2003.

LE GOFF, Jacques. “A política será ainda a ossatura da História?” In: LE GOFF, Jacques. O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval. Lisboa: Edições 70, 1983, p.215-235.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

PINSKY, Jaime & PINSKY, Carla Bassanezi (orgs.). História da cidadania. São Paulo: Contexto, 2001.

SILVA, Karina Vanderlei & SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2006, p.335.

STEIN, Ernildo. A cidade de Deus e a cidade dos homens: de Agostinho a Vico. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005.

RÉMOND, R. “Por que a história política?” In: Estudos Históricos, v.7, n.13. Rio de Janeiro: 1994, p.07.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.