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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 4: o segundo período presidencial (1951-1955).

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 22/09, 2010, p.01-07.

Diversamente do primeiro período presidencial, o segundo, iniciado em fins de 1951, foi marcado por uma grande crise econômica gerada pelos mais diversos fatores.
Ficou evidenciado o gigante peronismo com pés de barro, ou seja, uma estrutura frágil.
A recuperação industrial da Europa acabou com a pequena e nascente indústria argentina, a qual na verdade sempre sofreu problemas de infra-estrutura.
O governo Perón tentou solucionar a questão em 1952, mas os problemas derivaram da falta de uma indústria pesada adequada e do atraso tecnológico, principalmente no setor da energia e combustível.


Uma crise anunciada.
Durante anos o equipamento industrial, agropecuário e energético argentino sofreu um constante desgaste, os diversos setores não se modernizaram, enquanto os países europeus reconstruíram sua capacidade produtiva com a tecnologia mais moderna existente.
A indústria argentina passou a enfrenta grandes dificuldades, sentindo a falta de uma indústria pesada em seu próprio país, obrigada a comprar máquinas dos EUA a valores.
Devido à concorrência européia, os industriais argentinos só conseguiam vender sua produção em quantidade reduzida no exterior, sendo forçada a reduzir constantemente os preços.
A este contexto se somava um aumento dos gastos com a mão de obra, encarecendo os custos e reduzindo ainda mais a produtividade.
O governo peronista nada pode fazer para enfrentar a situação.
As reservas monetárias haviam acabado, tinham sido gastas em grande parte com as nacionalizações realizadas durante o primeiro período presidencial.
Dessa forma as subvenções ao consumo começam a se tornar um fardo para o governo.
A poupança interna se mostrava insuficiente, a inflação crescia, e, com ela, o desemprego.
Agravando todo este quadro, a Argentina enfrentou duas colheitas ruins seguidas.
O mercado interno se contraiu e a indústria entrou em queda desenfreada, os índices de desemprego chegaram a taxas perigosas.
O capital externo temendo investir no país, especialmente em determinadas áreas, fez sentir-se, deixando as empresas sem terem como captar recursos e, por fim, fazendo várias delas quebrarem.


O IAPI (Instituto Argentino de Promoção do Intercâmbio), órgão estatal, que monopoliza o comércio exterior de cereais, o qual durante o primeiro período presidencial havia obtido ganhos extraordinários, logo passou a acumular prejuízos.
No caso, estava obrigado a comprar colheitas a um preço superior ao do mercado internacional, passando a não ter mais condições de financiar outras atividades econômicas e muito menos o consumo.


Conseqüências da crise econômica.
Os vários fatores aglutinados em torno das questões estruturais, geraram na Argentina a impossibilidade do pagamento de salários mais elevados que pudessem fazer a economia girar, criando um circulo vicioso.
A inflação afetou não só a classe média, como também as camadas populares da cidade e do campo.
Os salários nominais dos trabalhadores forma congelados, representando uma queda no salário real.
Os índices do produto bruto, da participação industrial e do capital por habitante, permaneceram em 1955 nos mesmos patamares que em 1948.

Assim, Cresceram as reivindicações populares, justamente, em momento em que difícil o governo não tinha como atendê-las.

Tentando amenizar a situação, a CGT (ala trabalhista do partido peronista), procurou estimular a formação de mecanismos de assistência própria.
No entanto, estimulados pelas próprias empresas nacionais, estouram manifestações contrarias ao congelamento de salários por todos os lados.
A resposta do governo foi um forte aumento da repressão.
A ordem do governo peronista passou a ser produzir para o engrandecimento da nação e não fazer greves reivindicatórias.


A morte de Eva Perón e a aproximação com os EUA.
À medida que o prestigio de Perón declinava, sua vida pessoal também sofria perdas significativas, a maior dela aconteceu em 1952, foi quando morreu sua companheira Eva Perón.
Evita faleceu de câncer aos 33 anos, mais tarde sua figura terminaria se tornando símbolo da ala esquerda do movimento peronista.


O marido apaixonado mandou embalsamar o corpo da esposa, o que acabaria acarretando em uma peregrinação forçada do cadáver por diversas partes do mundo.
Devido à crise econômica, junto com a morte de Eva Perón, a orientação peronista também morreu.
 O governo mudou sua atitude com relação às empresas estrangeiras e grandes potências mundiais, aproximando-se da orbita de influência norte-americana.
Já em 1947, a Argentina havia sido praticamente obrigada, devido a pressões dos Estados Unidos, exercidas no Tratado do Rio de Janeiro, a assinar um compromisso de cooperação político-militar.
Em 1950, os argentinos conseguiram obter do “Export and Import Bank” um crédito de cento e vinte e cinco milhões de dólares, o que amenizou a crise e garantiu a Perón prosseguir no comando do país por mais alguns anos.

Em 1953, o país recebeu a visita da missão norte-americana, presidida pelo próprio presidente Eisenhower.
Foram fixadas então as bases de um crescente entendimento entre os governos da argentina e dos EUA.
No mesmo ano de 1953, uma nova lei legalizou concessões extremamente favoráveis as empresas estrangeiras.
O governo peronista fez concessões às empresas norte-americanas nos ramos automobilísticos e petrolíferos.
Cabe notar que o ramo petróleo foi uma das raras exceções, na questão da nacionalização, pois o peronismo nunca cogitou nacionalizar o setor, o qual sempre se manteve uma concessão norte-americana.
O nacionalismo havia se esgotado em si mesmo, tornava-se cada vez mais evidente a penetração norte-americana na Argentina, o que por si demonstrava que o governo peronismo estava chegando ao fim.


O começo do fim.
O peronismo terminou por desarticular-se, traiu os seus próprios princípios e atropelou a si mesmo, rompendo com sua base de apoio.
Perón golpeou e irritou os diversos grupos sociais sobre os quais se equilibrava, gerando um clima de insegurança geral.
Entretanto, apesar da crise e da aproximação com os EUA, os peronistas passaram a alimentar a esperança de formar um bloco de poder político e econômico com Chile e Brasil (então ainda sob o governo Vargas, o qual havia a pouco retornado ao poder através do voto).
Segundo as próprias palavras de Perón, este bloco deveria formar “a unidade econômica continental, ou melhor, a formação de uma confederação latino-americana, na qual evidentemente, os Estados Unidos da América teriam de ficar a parte”.
Para ele, havia “chegado o momento de paralisar a tentativa de desagregação do pan-americanismo, por uma reiteração da fidelidade ao passado”.
Não obstante, Perón fez declarações que desestabilizam a possibilidade desta união, demonstrando uma total insensibilidade para assuntos externos, ferindo a soberania nacional brasileira e chilena.
A população do Brasil e Chile sentiu-se constrangida, incitada a manifestar-se contrária a uma união econômica com a Argentina, devido a sua pretensão hegemonia sobre seus parceiros.
Por essas e outras, começaram a ser planejadas conspirações para derrubar o governo Perón.
Em 1955 eclodiu um conflito direto com a igreja, que serviria como estopim que daria inicio a queda de Perón.


O conflito com a igreja católica.
Poderia parecer que um desentendimento do peronismo com a igreja católica em nada poderia afetar a estabilidade do governo, mas nos países de colonização espanhola, como na própria Espanha, os clérigos possuíam grande influência política e econômica.
A religiosidade da população fazia com que a voz da igreja fosse ouvida a acatada.
Acontece que a igreja católica na Argentina era proprietária de grandes extensões de terras, como em muitos outros países latino-americanos, era um dos maiores latifundiários do país.
Uma questão que entraria na pauta do governo peronista em breve.
Inicialmente, a raiz do desentendimento esteve ligada a uma proposta de separação entre Igreja e Estado.
A situação foi gravada com a revogação da lei do ensino religioso obrigatório, bem como com a implantação da lei do divorcio.
Os peronistas tentavam transformar a Igreja como bode expiatório pela crise que se intensificava.
Por outro lado, a igreja, ressentida com as medidas tomadas contra ela, culpava os peronistas pela crise, mobilizando a sociedade argentina contra o governo.
Assim, a procissão de “Corpus Christi”, de 11 de junho de 1955, terminou convertendo-se em ato político, ultrapassando os limites religiosos, um marco na luta contra o peronismo.
A Igreja, uma das maiores beneficiadas pelo peronismo, e por isso um de seus principais sustentáculos, liderou a conspiração antiperonista.


O golpe militar que derrubou Perón.
No mesmo dia 11 de junho de 1955, em que a igreja se manifestou contra o peronismo, teve lugar uma tentativa frustrada de bombardear a casa do governo e a Praça de Maio, em Buenos Aires.
O número de mortos foi elevado, mas o exército salvou momentaneamente o governo peronista, embora o equilíbrio do poder estivesse definitivamente rompido.
O apoio durou pouco, em 16 de setembro de 1955, os militares acabaram aderindo significativamente ao movimento, organizando um levante armado.
Foi na cidade de Córdoba que a rebelião começou, liderada pelo general Lonardi, futuro presidente argentino.
O exercito marchou em direção a Buenos Aires.
Diversos setores da sociedade, temendo que a crise econômica pudesse propiciar uma revolução socialista, apoiaram o golpe.
Um dos fatores responsáveis pela subida de Perón ao poder, também causou sua queda.
Em 22 de setembro de 1955, devido à chamada “Revolução Libertadora”, Perón renunciou.
Apesar de possuir grande número de tropas fiéis a sua causa, bem como elevada porcentagem de operários que se dispunham a lutar por ele, temendo que o país terminasse se tornando comunista através de uma revolução popular, descartou qualquer possibilidade de luta civil.
Perón dirigiu-se ao exílio, primeiro no Paraguai, depois na República Dominicana, para finalmente se instalar na Espanha do General Francisco Franco.
O ditador fascista argentino caiu, mas o peronismo continuou vivo.
Mesmo no exílio, Perón manteve voz ativa na política argentina, constituindo um dos casos mais singulares da história mundial.


Para saber mais sobre o assunto.
Acompanhe as próximas postagens neste blog.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 3: o primeiro período presidencial (1946-1951).

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 21/09, 2010, p.01-09.

Através das eleições de 24 de fevereiro de 1946, ex-coronel, então general Juan Domingo Perón chegou à presidência da republica Argentina.




O peronismo passou a controlar o Estado em uma época de condições econômicas muito favoráveis, pois a Argentina possuía um saldo extremamente positivo no comércio exterior, dispondo de um bilhão quatrocentos e vinte e cinco milhões de dólares em reservas acumuladas em ouro e divisas.


Perón assume o governo em uma situação econômica privilegiada.
Quando Perón se tornou presidente, a nascente indústria argentina, ainda de pequeno porte, não mais enfrentava concorrência estrangeira, a qual havia sido arrasada com a 2º. Guerra Mundial, podendo expandir-se pelo mercado interno e internacional, assegurando aos produtores e empresários altos valores agregados e enormes ganhos.

Além disso, entrou no país, de modo definitivo, grande quantidade de capital alemão pertencente aos criminosos de guerra fugidos da Europa, em geral investidos na indústria.
É obvio que nem todos os fugitivos de guerra eram detentores de capital, mas boa parte possuía uma relativa quantidade de dinheiro acumulado durante a guerra e roubado dos judeus.
Para se ter uma idéia da entrada do capital alemão na Argentina, basta dizer que durante o governo Perón havia quatro mil criminosos nazistas, somente vivendo em Buenos Aires.
É nesse sentido que a biografa de Evita Perón, Alicia Dujovne Ortiz, afirmou em entrevista para o jornal Folha de São Paulo, em 14 de maio de 1995, valendo-se dos dados acima descritos, que Buenos Aires foi a Meca dos criminosos de guerra.

Na verdade, isto leva a perceber uma profunda identificação entre o fascismo peronista e o fascismo alemão, embora existam divergências em alguns pontos.



O que terminou atraindo grande número de fugitivos nazistas para a Argentina.
Uma prova desta identificação pode ser encontrada no relatório “Blue Book”, divulgado pelo departamento de Estado norte-americano em 1946.
O relatório dava a conhecer a vinculação de Perón e do GOU (Grupo de Oficiales Unidos) com a Alemanha Nazista.
Embora visasse desacreditar Perón frente a seu eleitorado, o relatório norte-americano demonstra como os valores fascistas estavam enraizados entre a população argentina.
Devido às condições excepcionais, o governo Perón pode manter a inflação baixa e iniciar uma política de redistribuição de renda que, no entanto, não afetou em quase nada as grandes empresas.
Durante este período a influência britânica na Argentina se tornou quase nula, por outro lado os norte-americanos começaram a iniciar sua tentativa de penetração no país, através de pressões feitas sobre a Inglaterra para que cortasse o fornecimento de carvão e petróleo.
Carecendo os ingleses do milho, trigo, linhaça, lã e outros produtos argentinos, sem os quais sofreria severas conseqüências, a Inglaterra não acatou os pelos norte-americanos, continuando a apoiar o governo Perón.
Em outra vertente, a velha oligarquia teve seu poder político debilitado, mas não destruído.
A burguesia industrial, a classes media e o proletariado tiveram aumentado o seu peso e influência e, por carecerem de ideologia e política própria, acabaram por se tornar fiéis seguidores do peronismo, acabando por constituir uma imensa massa de manobra para Perón.


Conseqüências de uma situação econômica privilegiada.
As conseqüências de assumir a presidência da republica argentina em um contexto privilegiado, produziram um equilíbrio fluente e precário entre os diversos grupos sociais, e entre o país e as grandes potências.

A figura do “Führer” argentino, Juan Perón, emergiu no cenário nacional como o grande mediador e centralizador dos mais diversos interesses presentes na sociedade argentina.

Como todo fascista que se preze, Perón manteve o equilíbrio do poder explorando o medo da diferença existente entre os diversos grupos sociais.


A estrutura de atuação do peronismo resultou da forte contradição interna presente na Argentina.
O peronismo surgiu da contradição, colocando-se como representante do sistema social argentino e da burguesia, sem, no entanto, se colocar como representante deste ou daquele setor exclusivo da sociedade.
É por isto que o peronismo dizia-se social, fazendo uso de um populismo qualitativo, onde o que valia aparentemente eram as decisões da maioria.
Apenas um verniz, pois beneficiava, dos mais diversos modos, os grupos superiores e as elites econômicas.
Neste sentido foi elitista como qualquer outro fascismo.
O próprio Perón assim definiu a necessidade de uma união nacional em torno de sua figura:

“Dentro da ordem política nosso movimento tem a finalidade básica desde seus instantes iniciais: a unidade nacional. (...) Desde 1943: Este postulado deve ser como a estrela polar para o povo argentino: a união de todos, única razão da grandeza dos povos; a unidade nacional, para que quando seja necessário sofrer, soframos todos; e quando seja necessário gozar, gozemos também todos. (...) A unidade nacional é a coincidência fundamental de todos em ordem com os princípios essenciais que devem orientar a marcha da nação” (Discurso pronunciado em 1a. de maio de 1950).

Através deste discurso podemos notar o caráter fascista da suposta união nacional, que mescla palavras como marcha e ordem com uma retórica vazia, apregoando a vida pela luta e a ordem representada pelo governo peronista.


As medidas adotadas pelo governo Perón
Logo no inicio de seu governo, em fins de 1946, Perón anunciou o Primeiro Plano Qüinqüenal, com metas espetaculares, que foram apenas parcialmente cumpridas.

O general realizou importantes obras de infra-estrutura, desenvolvendo particularmente a indústria naval.
Os primeiros anos do governo peronista foram marcados por um clima de euforia.
A Argentina vivia sob a expectativa de continuar abastecendo os países destruídos pela guerra indefinidamente, esperando que uma 3º. Guerra Mundial estourasse, em cuja hipótese Perón acreditou até os últimos dias de seu governo.
Através do IAPI (Instituto Argentino de Promoção do Intercâmbio), o governo comprava a produção primaria a preços fixos, vendendo a valores mais altos no mercado internacional, destinando os elevados ganhos resultantes ao financiamento de planos econômicos, ao apoio as empresas nacionais e ao subsidio do consumo.
Esta disponibilidade inicial de capital permitiu ao governo peronista tomar certas medidas de caráter nacionalista, tais como uma serie de nacionalizações, a expansão do setor público e o desenvolvimento da Marinha Mercante e da Aviação.

Foram nacionalizados o Banco Central, as ferrovias e grande parte dos serviços públicos, antes pertencentes ao capital externo.
Estas nacionalizações foram realizadas através do pagamento de indenizações, consumindo grande parte das dividas acumuladas durante a guerra, terminando por constituir um dos fatores responsáveis pela queda do peronismo, pois esvaziaram os cofres públicos.
Como no Brasil da mesma época, o setor publico assumiu tarefas que as empresas privadas necessitavam, porém, não podiam ou não queriam realizar por si mesmas, desta forma o governo procura incentivar a industrialização.
O Banco de Crédito Industrial e outros órgãos financiadores trataram de prover generoso apoio as grandes empresas.


O fascismo peronista.
Ao mesmo tempo em que incentivou a industrialização e defendeu os interesses da burguesia, o governo peronista limitou sua força política e sua manifestação de independência.

Criou um poderoso aparato sindical, ampliando os direitos trabalhistas, e, de modo demagógico, iniciou um movimento antiimperialista e anti-oligarquico, exaltando o papel do proletariado e do povo em geral, embora beneficiasse de fato os grandes capitalistas argentinos.
O imperialismo foi fixado como o grande inimigo externo, fazendo com que o povo em passasse a sentir-se humilhado, incitando ao ódio contra ingleses, norte-americanos e brasileiros.
Assim, o peronismo operou uma centralização do poder em torno da figura do líder, a exemplo do que ocorreu em todos os Estados aonde regimes fascistas chegaram ao poder.
 Após as eleições, Perón dissolveu o Partido Laborista, criando em seu lugar o Partido Único da Revolução, o qual posteriormente passaria a ser chamado Partido Peronista.
Ele organizou o partido em três setores: a ala masculina e feminina (estas última sob inspiração de Eva Perón) e a CGT (ala sindical).

Foi justamente na CGT que canalizou esforços centrados totalmente em sua figura mitificada, tendo como secretário geral um homem de extrema confiança e devoção.

O peronismo não dissolveu os sindicatos, mas os manteve mais do que atrelados ao Estado e ao seu líder supremo: Perón.

Apenas mais subterfúgio, uma variante do fascismo, com instrumentos capazes de controlar as tendências anarquistas e comunistas das massas.
Em outra vertente, o peronismo, tomou medidas extremamente arbitrárias com relação a Corte Suprema e Universidade.
Desde 1943 estas instituições estavam questionando a constitucionalidade de alguns decretos peronistas.
Em represaria, Perón abriu inquéritos contra quatro dos cinco membros da Corte Suprema, afastou juízes e boicotou os universitários.
 Em represaria aos questionamentos que partiam das Universidades, Perón criou uma entidade estudantil oficial, em oposição à Federação Universitária Argentina, perseguindo professores e estudantes.


A reforma constitucional e o aparato policial.
Para dar um caráter legal ao seu governo, Perón reformulou a Constituição, vigente desde 1853, promulgando a Constituição Justicialista em 1a. de maio de 1949 (dia do trabalho). 

A nova constituição passou a permitir a reeleição presidencial, até então não permitida, fato, o que na ocasião gerou a retirada da bancada oposicionista da Assembléia Constituinte, impedindo os trabalhos de conclusão.
Nada que não pudesse ser facilmente contornado, a nova Constituição foi terminada apenas pela bancada majoritária peronista.
Como todo regime fascista, o peronismo montou um aparato de controle policial e militar, dando aos seus membros um tratamento privilegiado, vinculando sua fidelidade ao líder supremo da nação.
Desta forma a oposição política não foi totalmente suprimida, embora fortemente restringida através da intimidação.
 O peronismo não hesitou em valer-se da perseguição, do encarceramento e até mesmo da tortura, como forma de fazer calar a oposição.


Como parte do aparelho de repressão montado pelo Estado peronista, surgiu em anexo instituições fortemente centralizadoras da propaganda, representadas e coordenadas pela Secretária de Imprensa da Presidência da República, então diretamente vinculada à Perón.
No decorrer de 1948 o governo adquiriu as radio difusoras privadas, o que impediu vozes dissidentes no radio, garantindo uma divulgação dos fatos sempre de acordo com os interesses peronistas.
Além disso, ainda em 1948, o Estado fechou o semanário socialista “La Vanguardia”, que vinha recebendo apoio financeiro do Departamento de Estado norte-americano.
Depois, restringiu à circulação postal de todos os jornais, limitando o acesso as cotas de papel, o que diminui a tiragem e o tamanho das edições.
Em 1950, o governo peronista liquidou centenas de pequenos jornais oposicionistas do interior do país, através de uma comissão parlamentar, que havia sido formada para averiguar denúncias de torturas.
O peronismo, como todo regime fascista, faz calar toda e qualquer oposição.


A ampliação dos poderes ditatoriais de Perón.
Em Setembro de 1951, o Congresso sancionou o chamado “estado de guerra interno”, motivado por um levante militar frustrado contra o governo peronista, liderado pelo General Benjamin Menéndez.

Esta sanção permaneceu até a queda de Perón em 1955, servindo de pretexto para a ampliação, de forma definitiva, de seus poderes presidenciais, restringindo a liberdade individual e política, permitindo intensificar as perseguições políticas.
A exemplo de Hitler e Mussolini, Perón se tornou, por meios legais, senhor da Argentina, um verdadeiro “Führer” argentino.
No entanto, como todo ditador fascista, começou a temer por sua vida, mantendo um avião de plantão 24 horas por dia, caso fosse necessário sair do país às pressas.


Conclusões parciais.
Não obstante o governo peronista dizer-se progressista, mostrou-se, com relação à ordem social, extremamente tradicionalista.

As medidas de caráter popular se destinaram apenas a ganhar o apoio das massas, combatendo o comunismo através da amenização das contradições que continuaram gritantes, assim como a miséria e a pobreza.
Valendo-se das aspirações da burguesia e da classe operaria, bem como de suas frustrações, Perón obteve o apoio de que necessita para dar prosseguimento à implantação de um fascismo genuinamente argentino.
Os trabalhadores argentinos trocaram sua liberdade pela estabilidade econômica, a exemplo do ocorrido na Itália e na Alemanha fascista.
Em 1951 terminou o primeiro mandato peronista, mas nada mais poderia impedir Perón de continuar no poder.
Controlando toda a maquina do Estado, o peronismo tinha em suas mãos os meios para se perpetuar no poder.
Em 11 de novembro de 1951, Perón foi reeleito com pouco mais de quatro milhões e meio de votos contra dois milhões e trezentos mil na chapa opositora, formada por Balbin-Frondizi.


Para saber mais sobre o assunto.
Acompanhe as próximas postagens neste blog.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 2: as origens.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 20/09, 2010, p.01-12.

Como Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália, Perón chegou ao poder na Argentina através de meios legais.


Para entender como isto foi possível, devemos recuar até a crise mundial de 1929, causada pela quebra da bolsa de Nova York.


A crise afetou toda a Europa, inclusive a Inglaterra, principal compradora dos produtos agropecuários argentinos.

O agravamento da crise econômica possibilitou a ascensão do partido nazista na Alemanha.
O qual na época, por causa de uma tentativa frustrada de golpe que ficou conhecido como “putsh da cervejaria” e a consecutiva prisão de Adolf Hitler, encontrava-se em fase de declínio.
Assim a quebra da bolsa de Nova York, foi responsável diretamente pela revitalização do apelo popular da ideologia fascista.


A crise de 1929 na Argentina.
Na argentina, a crise de 1929, automaticamente diminuiu a demanda externa por produtos agropecuários.

Os quais foram responsáveis por uma relativa prosperidade vivida nos anos que antecederam a crise.
Diminuindo os preços e, conseqüentemente, a produção agropecuária, os argentinos passaram a sentir os efeitos da quebra da bolsa, já que existia uma forte dependência do capital estrangeiro.
Subordinada aos interesses dos produtores de carne e cereais, a Argentina assistiu então ao golpe de 6 de setembro de 1930.
O governo de Hipolito Yrigoyen foi derrubado.
O presidente representava a União Cívica Radical, caracterizada pela oposição ao Estado Oligárquico e por suas reivindicações de caráter liberal e democrático.

O Golpe foi ministrado pelo Tenente General José F. Uriburu e terminou representando uma volta ao poder dos tradicionalistas.
Além disto, acabou servindo aos interesses da Inglaterra, uma vez que sob o governo de Hipolito Yrigoyen, os interesses imperialistas ingleses vinham encontrando grande resistência.
O governo Hipolito havia se negado a estabelecer um acordo proposto pelos ingleses, no qual entre a Inglaterra sairia beneficiada pela compra de equipamentos ferroviários e de cereais.
Este acordo foi vetado pelo presidente, pois a Argentina ficaria obrigada importar muito mais do que teria capacidade de exportar, desequilibrando a balança comercial.


Conseqüências do golpe.
Nos anos 30, o golpe que derrubou o presidente Hipolito Yrigoyen, estabeleceu na Argentina condições extremamente favoráveis aos interesses ingleses.
Os militares convocaram eleições logo após o golpe, elegendo de forma fraudulenta o General Agustin Justo em 1931.  

Uma das primeiras medidas foi costurar um acordo com a Inglaterra.
Foi estabelecido o Pacto Roca-Runciman em 1933, através do qual a Argentina se comprometia a fazer inúmeras concessões de ordem tarifaria e no âmbito dos transportes e câmbio aos ingleses.
Em troca passava a existir uma condicional manutenção das quotas de importações inglesas de carnes, mas a Inglaterra passava a ter o direito de restringi-las quando lhe conviesse.
Portanto, era um acordo que beneficiava a Inglaterra em detrimento da Argentina, satisfazendo os interesses dos grandes pecuaristas, mas desagradando enorme parcela da população.
O grande problema é que devido às fraudes eleitorais, a população clamava por novas eleições, na qual certamente o governo pró-pecuaristas seria derrubado.
A questão foi solucionada através de novas fraudes eleitorais, com a eleição de Roberto M. Ortiz em 1937, o qual falece em 1940, sendo substituído por seu vice-presidente Ramón Castilho.
Durante este período houve um relativo crescimento industrial interno, estimulado pelo declínio do comércio internacional. 
A indústria de alimentação, têxtil e de metalurgia leve cresceu enormemente, embora a agricultura de exportação e a criação de gado de corte tenham continuado senso a base da economia argentina.


Um novo golpe militar.
O Pacto Roca-Runciman sofreu criticas ferozes no interior do próprio grupo conservador, sobretudo entre militares.

Os pecuaristas foram acusados de vender a pátria aos ingleses, demonstrando que uma nova mentalidade estava se formando dentro do circulo militar.
Começava a se instalar no espírito de alguns militares um ódio ao inimigo externo, representado pela Inglaterra e pelo Brasil.
As razões que conduziam parte das elites a culparem os ingleses pela situação precária da economia argentina são obvias, contudo, com relação ao Brasil, o que motivava o sentimento era um clima de competitividade pela hegemonia militar na América do Sul.

Foi assim que em 1942 se organizou o GOU (Grupo Obra de Unificación ou Grupo de Oficiales Unidos), caracterizado pelo nacionalismo e por pretensões do estabelecimento de uma hegemonia argentina na América do Sul.
Ocorre que este grupo era declaradamente simpatizante do nazifascismo.

O GOU terminou por apoiando e constituindo a base do golpe militar de 4 de junho de 1943, liderado pelo General Rawson.
Na calada da noite do dia 3 de junho, dez mil soldados do Campo de “Mayo” e as guarnições de “Liniers” marcham sobre Buenos Aires.
O General Arturo Rawson foi investido presidência da republica, sendo substituído pelo General Pedro Pablo Ramirez, dois dias depois, em virtude de disputas internas.
Logo no inicio de seu governo, o novo regime, deixou bem claro seu caráter fascista, dissolveu todos os partidos políticos.
No entanto, devido a pressões norte-americanas, rompeu relações diplomáticas com a Alemanha e o Japão, países então fascistas. 

Em 26 de janeiro de 1944, ironicamente, a Argentina, sob um governo de orientação fascista, foi obrigada a declarar guerra ao Eixo, já quase derrotado, como condição para que pudesse fazer parte da ONU.
Note-se que, ao contrário do Brasil, não tendo sofrido prejuízos materiais ou humanos com a 2º. Guerra Mundial, esperou até o ultimo momento para declarar guerra aos países fascistas, inclusive recebendo e acobertando criminosos nazistas posteriormente.
Seja como for, rompendo com o Eixo, o General Ramirez foi forçado a renunciar, oito meses apôs ter tomado posse, a favor de seu então vice-presidente, o General Edelmiro Farrell.
Foi neste momento que Surgiu no cenário político o coronel Juan Domingo Perón, antigo adido militar argentino na Itália fascista de Mussolini.


Surge Perón.
Quando o GOU foi criado, Perón foi um dos seus fundadores, sendo peça fundamental no golpe de 1943.


Ligado há muito tempo ao novo presidente, o General Farrell, em 2 de dezembro de 1943, Perón passou a acumular o cargo de Secretario do Trabalho e Previdência com o de ministro da Guerra e vice-presidente da República.

Na ocasião Perón assim se pronunciou:
“Sempre espectador, como tenho sido, em minha vida de soldado, da evolução da economia nacional e das relações entre patrões e trabalhadores, nunca me foi possível acreditar na idéia, tão corrente, de que os problemas que tal relação origina sejam matéria privativa das partes diretamente interessadas”

Perón era um soldado profissional, identificado profundamente com a instituição militar, dotado de um talento excepcional para avaliar de forma fria e realista as forças em jogo e os fatores de poder político.
Sua personalidade era caracteristicamente autoritária, era ele um homem ambicioso, altamente condicionado a condução e organização, através do estudo dos métodos e instituições do fascismo italiano.
Ele soube utilizar com maestria os cargos acumulados para preparar sua subida ao poder.

Logo de inicio deixou claro seu caráter fascista, como se pode notar através de seu discurso de posse, ao pregar o intervencionismo do Estado e a centralização do poder.
Utilizando o apoio das Forças Armadas, da Igreja, da polícia e da burocracia governamental, gozando do apoio inglês, apesar de não nutrir nenhuma simpatia pela Inglaterra, Perón procurou ganhar o apoio dos trabalhadores industriais e das massas pobres da cidade e do campo.
Isto, a exemplo do que haviam feito seus pares na Itália e na Alemanha.
Perón organizou os trabalhadores em torno de si.
Até então a categoria estava carente de experiência sindical e política, bem como de uma ideologia própria.
Os operários se encontravam frustrados e carentes de necessidades materiais e psicológicas a serem satisfeitas, enxergando em Perón um líder a ser seguido e cultuado.

Os nascentes movimentos de esquerda foram desarticulados pela atração exercida pela figura que surgia.
Para garantir que os socialistas e comunistas não atrapalhassem seus planos, Perón livrou-se dos rivais pela repressão ou suborno, tomando medidas de caráter popular para se aproximar das massas.
A mentalidade de Perón na Secretária do Trabalho e Previdência pode ser sintetizada através de alguns de seus discursos pronunciados na época, tais como:

“Não tenho o costume de prometer, sim de fazer. Por isso não venho a prometer nada. Vocês verão através do tempo as realizações que nós executaremos; irão vendo dia a dia o progresso a respeito dos problemas que as classes trabalhadoras de nosso país vivem tentando vencer desde vinte ou trinta anos, sem nenhum resultado.”

“Seria inútil que eu tratasse de explicar como temos cumprido com este postulado, que encerra todo o conteúdo social da Revolução. Eu prefiro seguir como até agora, sustentando que melhor que dizer é fazer, e melhor que prometer é realizar.”

“(...) não sou mais que um argentino; e não tenho outra ideologia que o povo da minha pátria, nem outro partido político que minha pátria...”.

“Por isso o exercito tem exposto a vida e a carreira de seus integrantes sem outro interesse que não o bem do país, que é o bem de todos.”

“Afortunadamente, nós não somos homens importantes, somos modestos soldados que nos temos dedicado a servir uma causa e não temos a pretensão de fazê-lo todo bem porém sim de fazê-lo com honradez e com boa vontade. E assim como pensamos que cada homem deve servir a seus semelhantes, pensamos do mesmo modo que o povo não está para servir ao governo, e sim o governo para servir ao povo. (...) Não queremos nada, não tememos nada; porém aspiramos a que ninguém possa dizer jamais que a Secretária do Trabalho não trabalhou com justiça e com honradez.”

“Nós não falamos dos trabalhadores com conhecimento teórico. Recebemos a vossos filhos e a vossos irmãos. Conhecemos vossos pesares e vossas desgraças. Sabemos como vivem os homens da Pátria.”

Como certamente pôde ser notar, o discurso do nascente movimento peronista estava em concordância com as varias características protofascistas.


O nascimento do fascismo peronista.
Perón procurou explorar a frustração coletiva e individual do trabalhador argentino, inflamando o nacionalismo e dizendo ser ele social.

Embora nada prometesse além da irracional ação pela ação, incentivava o apoio popular ao culto do nascente herói dos trabalhadores, seu líder, ele próprio, Perón, valendo-se de um populismo qualitativo.
Para tal não poupou esforços para reprimir seus inimigos, encarando qualquer discordância como sinônimo de traição.
Além disso, colocou lado a lado o exercito, um de seus principais sustentáculos até então, e o povo, como se fossem um só.
Uma postura que, aliás, pode ser perceber em alguns discursos:

“O exercito, que se responsabiliza pela coisa pública, o faz por uma circunstancia especial. Ele que é a força moderadora dos Estados na época presente, fez custodia da Nação em um momento em que não havia quem assegurasse todos os aspectos da justiça no país (...) Ele nos permitiu encarnar a massa trabalhadora, realizando assim uma conjunção indispensável ao Estado moderno, porque representam, em seus aspectos qualitativos, a massa da Nação.”
           
“Já terminou a época em que os políticos punham o exercito frente ao povo. Hoje, o exercito e o povo marcham na mesma direção e pelo mesmo caminho (...)  A Secretária do Trabalho e Previdência não é um organismo estatal mas, sim a casa dos verdadeiros trabalhadores, a casa que os defende e sustenta contra qualquer injustiça do passado, do presente e do porvir. É, em outras palavras, a garantia de que este país não voltara a produzir o drama da classe trabalhadora ludibriada pelos poderes públicos e enganada pelos políticos durante mais de cinqüenta anos.”

Desse modo, à medida que podemos identificar a ideologia peronista com o protofascismo, podemos percebê-la como propriamente fascista, embora adequada a realidade argentina e provida de características próprias.
Tanto é que o discurso peronista é muito aproximo do discurso nazista presente no “Mein Kampf”, a bíblia do nazismo, o que demonstra uma nítida influência das idéias de Hitler sobre Perón.


As estratégias fascistas de Perón.
Como Secretario do Trabalho, Perón concretizou o Estatuto do Peão no campo, reconhecendo o valor dos humildes, sem, no entanto, alterar substancialmente as relações entre patrões e trabalhadores.

Na verdade era apenas uma forma de impedir que os camponeses fossem influenciados por idéias anarquistas ou comunistas.

Nas cidades concedeu aumentos salariais e institucionalizou leis trabalhistas já existentes há alguns anos em outros países da América Latina, como o Brasil.


Criou, por exemplo, o chamado “aguinaldo”, uma espécie de 13a. salário.
Além disso, criou também os tribunais do trabalho, regulamentando as associações profissionais e unificando o sistema de previdência social, ampliando para todos os trabalhadores os benefícios.
Embora tais medidas possam parecer inovadoras, países como a Alemanha Nazista, a Itália de Mussolini e a Espanha franquista lançaram mão deste mesmo artifício, para ganhar o apoio popular, muito antes de Perón.
Espelhando-se nas reformas trabalhistas, levadas a cabo por países fascistas, inicialmente Perón conseguiu uma adesão unanime a sua política junto às massas.
Através da justificativa de que tal política era a única forma de garantir o controle e a ordem sobre a massa trabalhadora, assim como o crescimento das grandes atividades industriais e comerciais; também a elite aderiu ao nascente peronismo.

Tal como Hitler, Perón conseguiu o apoio das elites assustando a classe com o perigo do comunismo.
No contexto da época, à esquerda, do ponto de vista capitalista, representava uma ameaça concreta aos industriais e latifundiários, dada as latentes contradições internas presentes na sociedade argentina, que poderiam levar a população humilde a realizar uma revolução a qualquer momento.
No entanto, as medidas sociais implantadas por Perón terminam não agradando certos setores da classe dominante, sobretudo, ligados aos interesses imperialistas ingleses, e, portanto, beneficiários da política anterior.
Alguns latifundiários e grandes pecuaristas começaram a se opor as medidas adotadas por Perón, ainda apenas Secretario do Trabalho e Previdência, ministro da Guerra e vice-presidente da República.


Enfrentando a oposição de setores da direita e esquerda.
Além da oposição de grandes pecuaristas e latifundiários, Perón enfrentou também uma forte oposição de socialistas e comunistas.

Eles haviam sido afetados por suas medidas de força, perdendo apelo popular.
Na realidade, certos setores da sociedade argentina começavam a perceber o caráter nitidamente fascista do nascente peronismo, encarado como um perigo.
O governo norte-americano, ciente das tendências fascistas do novo governo, sabia que o responsável pela tendência era mais Perón do que o General Edelmiro Farrell, este último a rigor o presidente da republica.
Temendo seu caráter nacionalista, não propriamente suas tendências fascistas, os EUA incitaram certos setores da sociedade argentina contra Perón.
Cabe notar que, mesmo na Europa, os norte-americanos somente se opuseram aos regimes fascistas depois que esses começaram a ameaçar seu controle econômico no continente.
Os EUA chegaram ao ponto de até mesmo apoiar estes regimes quando lhes convinha, uma vez que o fascismo era útil para combater o comunismo.

Prova disto é que o regime fascista de Franco, na Espanha, resistiu à queda de Mussolini e Hitler, unicamente por ser útil aos norte-americanos e não ameaçar a hegemonia capitalista dos EUA.
Assim, os norte-americanos tramaram a queda de Perón, procurando incentivar o Brasil a invadir a Argentina, armando o país e oferecendo até mesmo pilotos norte-americanos para lutarem ao lado dos brasileiros.
Um plano chegou a ser elaborado pelo Pentágono, defendendo a tese de que o Brasil não deveria enviar soldados a África ou a Europa para lutar contra o fascismo, mas sim combater o nascente fascismo sul americano, representado por Perón.
O governo Vargas, que nutria até certo ponto simpatias pelos regimes fascistas, recusou-se a levar o plano adiante.

Por esses e outros motivos, organizou-se em 19 de setembro de 1945 a chamada “Marcha de la Constitución y la Liberdade”, com o intuito de destituir Perón de seus cargos.
Participam da marcha estudantes, profissionais liberais, comerciantes e alguns segmentos da classe média.
A massa trabalhadora, formada por operários, obviamente se recusou a participar, ao inverso, manifestando seu apoio a Perón.
As pressões continuam até 12 de outubro de 1945, com o apoio do embaixador norte-americano Spruille Braden.
Graças à adesão dos militares, que temiam uma invasão brasileira ou norte-americana, Perón terminou preso e enviado à ilha de Martin Garcia.
Em 10 de outubro de 1945, quando Perón foi obrigado a renunciar a seu cargo na Secretária do Trabalho e Previdência, assim se dirigiu as massas:

“Estamos empenhados em uma batalha que ganharemos porque é o mundo que marcha em sua direção. Há que se ter fé nessa luta e nesse futuro. (...) Ao deixar o governo, peço uma vez mais a vocês que se despojem de todo outro sentimento que não seja o de servir diretamente a classe trabalhadora. Desde esta noite, devido ao meu alejamento da função pública, tem corrido em alguns círculos a versão de que os operários estão agitados. Eu peço aos que estão nesta luta que me escutem. Não se vence com violência; se vence com inteligência e organização. Por isso lhes peço que conservem calma absoluta e cumpram o nosso lema de sempre: do trabalho para casa e de casa para o trabalho (...) Recordem e mantenham gravado o lema ‘de casa para o trabalho e do trabalho para casa’ e com isso venceremos.”


Nasce o peronismo.
Devido à pressão popular, no dia 17 de outubro de 1945, preso em local isolado e incomunicável, Perón terminou transferido para o Hospital Militar de Buenos Aires, de onde assistiu uma calorosa manifestação de apoio na “Plaza de Mayo”; organizada por sua equipe política, sob o comando do Coronel Domingo Mercante e por sua segunda esposa, Eva Perón.


A manifestação foi apoiada abertamente pela polícia, pela burocracia governamental e pela liderança sindical.


Aos gritos de “Perón, Perón”, a massa exigiu sua libertação e restituição ao governo.
A manifestação chegou a mobilizar mais de trezentas mil pessoas, paralisando a capital e parte do país.
Fabricas, lojas e até mesmo os serviços públicos paralisam suas atividades, liberando espontaneamente os trabalhadores para se unirem a massa peronista. 
O protesto não consegue que Perón fosse restituído aos seus antigos cargos, mas tornou-se um prelúdio do que estava por vir.

Em 24 de outubro de 1945 fundou-se o Partido Laborista (PL), através do qual Perón seria eleito presidente em 24 de fevereiro de 1946.
Durante a campanha eleitoral o PL deixou claro em seu programa seu caráter fascista ao pregar o nacionalismo, a modernização, a ordem social e a luta contra o inimigo externo (no caso o imperialismo ianque), assim como contra o perigo do comunismo.
Seu programa possuía itens de caráter populista, tais como a recuperação das indústrias fundamentais, a eliminação do latifúndio e divisão das terras, amplas reivindicações de previdência social, participação dos trabalhadores nos lucros das empresas e um imposto sobre a renda.
Não obstante era também nítida a orientação fascista.


Não por acaso, o embaixador norte-americano na Argentina, Spruille Braden, alertou seu governo para o fato, afirmando que estava interessado na derrota do nacionalismo, contrário aos interesses dos EUA.

Na época, Braden foi um dos principais defensores da tese de que o golpe militar de 1943, imediatamente após as derrotas da Alemanha em Stalingrado e no norte da África, não era mera coincidência.
Segundo o embaixador norte-americano, os militares a frente do golpe contaram com o apoio de consultores militares nazistas, que julgavam necessária a tomado do poder na Argentina, com o intuito de conservar uma base ideológica que pudesse servir de abrigo aos oficiais nazistas, caso a Alemanha perdesse a guerra.



Realmente, uma organização secreta nazista, que se auto-intitulava “Odesa”, esteve por traz do golpe de 1943, auxiliando financeiramente os militares argentinos que se propunham a proteger os oficiais nazistas, sobretudo os oficiais da “SS”, visando preparar um abrigo seguro para a fuga do capital alemão roubado dos judeus.
O Partido Laborista de Perón saiu vitorioso nas eleições mais limpas e isentas de qualquer suspeita de fraude que conheceu a Argentina até então, obtendo um milhão quatrocentos e setenta e oito mil votos contra os um milhão duzentos e doze mil votos da recém formada União Democrática.
Esta última foi uma coalizão partidária que congregava o setor majoritário da UCR (Junta Renovadora), os Partidos Socialista, Comunista e Democrático Progressista.

Mesmo com o apoio de dez milhões de dólares, fornecido pela Embaixada Americana, através de Branden, a UCR não conseguiu derrotar Perón, embora ele tenha terminado vencendo por uma margem estreita, apenas duzentos e sessenta seis cotas a mais.
Mesmo pregando o nacionalismo, habilmente, Perón soube fazer uso da rivalidade entre norte-americanos e ingleses, para com o apoio inglês, conseguir garantir sua volta ao poder.
 Dessa forma procurou garantir o apoio setores da sociedade que o haviam anteriormente derrubado.
O apoio inglês não foi gratuito, visou combater os interesses norte-americanos na Argentina em favor dos seus próprios.


Concluindo.
Devemos notar que, ironicamente, sem este apoio, talvez Perón não conseguisse vencer as eleições e, caso fosse eleito sem gozar do apoio inglês, poderia ter sido derrubado pelos norte-americanos, quiçá assassinado pela CIA.

Seja como for, o população argentina se posicionou diante da questão colocada pelo próprio Perón, em resposta as provocações do embaixador americano: “Branden ou Perón?”.
A massa optou pelo fascismo representado por Perón.
Apesar dele não gostar de ser rotulado como fascista, que é o modo como Branden tentava provocá-lo, na verdade não foi outra coisa se não fascista.
Perón foi um fascista não do tipo italiano, alemão, ou espanhol, mas sim argentino... um peronista.
Nesta medida, sua eleição representou, sem duvida, uma resposta imediata de certos setores da sociedade a ameaça vermelha na Argentina.


Para saber mais sobre o assunto.
Acompanhe as próximas postagens neste blog.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.