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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

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quarta-feira, 9 de março de 2011

A História Social como possibilidade de relembrar a Comuna de Paris de 1871.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 09/03, 2011, p.01-08.


Nesse ano de 2011, completam-se cento e quarenta anos de nascimento e fim da Comuna de Paris, o que nos leva a repensá-la e a novamente trazer à tona as inúmeras discussões historiográficas sobre o tema.
Foram inúmeros os trabalhos escritos e publicados sobre tal experiência histórica, desde seu fim definitivo em maio de 1871, cada um deles com um enfoque teórico diferente, mas sempre buscando compreendê-la em toda a sua complexidade.
Hoje, ao relembramo-la, vale a pena pensarmos também as maneiras de estudá-la, interpretá-la e mesmo buscar formas de reescrever esta história.
Isto, no entanto, nos leva a inúmeras indagações e discussões.
Por exemplo, é muito comum lermos que a Comuna foi uma tentativa derrotada de revolução social comunista ou mesmo uma experiência pequeno-burguesa e ingênua. 
Essas interpretações, carregadas de intencionalidades tão próprias do trabalhão dos historiadores e sociólogos, são expressão da própria diversidade de pensamento e ação dos seus militantes e da forma complexa e diversa como a temática foi organizada por eles.
A Comuna de Paris foi obra de militantes de inúmeras tendências político-ideológicas, como bakuninistas, proudhonianos, blanquistas, marxistas e republicanos.
Lutaram juntos contra o armistício proposto pelo Governo Imperial e, posteriormente, Republicano.
Houve uma união após a proclamação da república, incitada pela própria população de Paris, em 4 de setembro de 1870.
Além da contribuição da guerra franco-prussiana, considerada uma traição pela maior parte do povo de Paris, que buscava também, e acima de tudo, construir uma nova forma de organização da vida política, econômica e social.
Estas tendências não defendiam os mesmos métodos e princípios de organização social.
Bakuninistas defendiam a proclamação revolucionária de uma comuna livre e igualitária, a expropriação e a coletivização dos modos de produção, das terras e do trabalho.
Proudhonianos defenderam a Comuna como forma de organização de uma sociedade de livres produtores.
Blanquistas observavam-na como a possibilidade de construir um governo esclarecido e contrário ao armistício e a invasão prussiana.
Republicanos, pensavam-na como uma república popular e de defesa da pátria da ameaça estrangeira.
Marxistas, enxergavam na Comuna a possibilidade de luta para se chegar à ditadura do proletariado e à construção do comunismo.
Historiadores e militantes destas várias tendências buscaram interpretar a Comuna de Paris desde sua hecatombe e produziram grandes trabalhos historiográficos e sociológicos sobre o tema.
Cada um deles tentando explicar seu funcionamento e, principalmente, as razões de seu fim.


O materialismo histórico e a Comuna de Paris.
As variadas tendências político-ideológicas presentes durante os dois meses de existência da Comuna de Paris influenciaram as interpretações posteriores sobre ela e a historiografia sobre o tema.
Marx e Engels, por exemplo, afirmavam a Comuna como uma obra heróica de pessoas que deram a própria vida em nome da luta.
Porém afirmavam que, para ser vitoriosa, essa experiência deveria ter seguido o processo histórico inevitável, defendido por eles no “Manifesto Comunista” de 1848.
Ou seja, a Comuna haveria fracassado por causa de “circunstâncias históricas inevitáveis” (MARX e ENGELS, 1979, p.01).
Ela não teria obedecido nem o desenvolvimento das forças produtivas, nem a preparação do proletariado.

“Para que uma revolução social possa triunfar são necessárias pelo menos duas condições: forças produtivas altamente desenvolvidas e um proletariado bem preparado. Mas em 1871 estas duas condições estavam ausentes. O capitalismo estava ainda pouco desenvolvido e a França era sobretudo um país de pequena burguesia (artesões, camponeses, lojistas, etc). Não existia partido operário; a classe operária não tinha nem preparação nem grande arrebatamento e, no seu conjunto, não tinha mesmo uma idéia muito clara das suas tarefas e dos meios de as realizar. Não havia nem uma real organização política do proletariado, nem sindicatos nem associações cooperativas de massa” (LENIN, apud: MARX e ENGELS, 1979, p.21).

Dessa forma, a Comuna de Paris não havia obedecido às etapas, que segundo Marx e seu companheiro Engels, eram essenciais à vitória da classe operária para que alcançasse seu objetivo final: a ditadura do proletariado e, posteriormente, o comunismo.
Para o autor de O Capital, o movimento contava com militantes com “energia revolucionária, mas com pouca propensão para análise das condições objetivas da sociedade” (MARX, apud: GONZÁLEZ, 1982, p.96).
A Comuna não havia esperado que as condições históricas necessárias ao processo revolucionário tivessem se desenvolvido.
Tal modelo interpretativo não dá conta dos sujeitos atuantes na Comuna, da sua pluralidade de pensamentos e ações, dos seus vários componentes ideológicos, das ações reais do dia-a-dia, da nova organização do viver de sujeitos anônimos para a sociedade da época.
Esses sujeitos atuaram e lutaram sem se submeterem a modelos e a sujeitamentos, suas lutas foram autônomas e autogeridas.
Como já afirmava Thompson (2008), historiador marxista heterodoxo e defensor da história das pessoas comuns, os sujeitos atuam nas “fissuras” das relações de poder e dominação para construírem sua cultura e seu viver.

“[...] Revolução com autores. [...] Formaram um exército e um governo, dirigiram a cidade durante dois meses, promulgaram numerosos decretos. Exerceram o poder, desde o sufrágio universal até um póstumo ensaio de “terror”. As ideologias marcharam com o fuzil ao ombro, os fuzilados davam eles mesmos a voz de fogo, gritando “Viva a Comuna” e não faltou, à hora do testemunho final um emocionado e estranho. Viva a Humanidade” (GONZÁLEZ, 1982, p.107).


A História Social e a Comuna de Paris.
Como já observamos acima, embora sucintamente, outra maneira de se observar a e escrever a história da Comuna de Paris é a “história vista de baixo” ou das pessoas comuns - a história social.
Historiadores como Edward Palmer Thompson, Paul Thompson e o estudioso da Escola de Frankfurt, que escreveu teses sobre a história, Walter Benjamin, nos ajudam compreender essa corrente historiográfica desta experiência histórica, mesmo sem terem se dedicado ao estudo dela.
A História Social também foi utilizada pelos anarquistas das mais variadas correntes de pensamento e ação (bakuninistas, proudhonianos e comunistas) para contar a história da Comuna de 1871.
Walter Benjamin nos afirmava em seu último escrito Sobre o conceito de História (1940) que o termo História (Geschichte) “designa tanto o processo de desenvolvimento da realidade no tempo, como o estudo desse processo ou relato” (GAGNEBIN, apud: BENJAMIN, 1994, p.07).
Ou seja, designa uma realidade, um acontecimento que o historiador define como histórico e não é uma representação de algo que se apreende como um suposto real, não é somente um discurso, é o estudo de uma realidade ou de um relato sobre essa realidade realizado por um cronista que “[...] narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a História” (MENDES, 2010, p. 10).

“Pois um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois” (BENJAMIN, 1994, p.223).

O historiador, diferentemente do cronista que não é obrigado a explicar os episódios com que lida, é o responsável por buscar experiências vividas.
O historiador não se contenta em só representar as experiências, como faz um cronista, não estrutura apenas uma “transmissão pura do que está sendo narrado” (MENDES, 2010, p.10).
Ele tenta fazer uma reconstrução (e não reconstituição) de um passado que não existe mais.
Para tal, coloca sua subjetividade em ação, como colocava Paul Thompson em A voz do passado (1992).
Sob essa perspectiva, o historiador social, que busca experiências vividas nos dois meses de existência da Comuna de Paris, pode entendê-las a partir do que dizem seus militantes, através de suas memórias e relatos deixados para a posteridade.
A reconstrução da história de vida dessas pessoas deve levar em conta os ideais e concepções nas quais estavam envolvidas, nos quais buscavam explicações para suas vidas e sua militância e sobre os quais as próprias puderam imprimir suas próprias formas de pensar e agir (MENDES, 2010, p.10 e 11).
Essa constitui uma forma de deixá-las falar para se escrever uma história de um evento ora esquecido, ora estigmatizado por modelos interpretativos rígidos.
Entender as memórias pessoais e relatos do cotidiano dos participantes da Comuna significa resgatar a própria memória dessa experiência, relembrada hoje, mais de um século depois, como experiência de grande relevância histórica.
Em 26 de março de 1871 a população parisiense votou pela Comuna.
Soldados, exército e marinha entraram no edifício da Câmara Municipal com bandeiras e faixas vermelhas, assim como com o busto da República.
Dois dias depois, em 28 de março do mesmo ano, entre os intervalos dos tiros de canhão o povo proclamava a Comuna, aos gritos de “Viva a Comuna!”.
Esta população não acreditava que se deveria esperar um momento histórico específico para construir uma forma de viver de acordo com princípios de auto-organização e descentralização do poder, não foram ingênuos, nem assujeitados.
Lutaram até maio do mesmo ano, diante da implacável perseguição do governo republicano, instalado em Versalhes, empunharam armas, ergueram barricadas e organizaram uma nova estrutura de governo, descentralizado, para uma cidade já tão castigada pela guerra.

“[...] Haviam criado seus próprios espaços culturais, possuíam meios de fazer valer as suas normas, e cuidavam para receber o que lhes era devido. Talvez não fossem os direitos de hoje em dia, mas não eram sujeitos passivos da história”. (THOMPSON, 2008, p. 346).

As primeiras medidas da Comuna foram: a abolição dos cultos e proibição da venda de objetos Mont-de Pieté; a confiscação dos bens de raiz; a instituição de pensão para os federados feridos na guerra, revertendo-a para a mulher ou filho em caso de morte em combate do mesmo.



Além disto, instituíram a pensão alimentar dada as mulheres que se separassem com provas válidas; a abolição dos processos; interdição de investigações sem mandados regulares; a proibição da acumulação de empregos e fixação do ordenado máximo de seis mil francos anuais.

Para estimular a continuidade da luta promulgaram os pagamentos aos membros da Comuna de quinze francos por dia; a organização de um tribunal civil; aquisição de oficinas, abandonadas pelos donos, pelas sociedades do trabalho.
Foram mais longe ao estabelecer o pagamento de professores em dois mil francos; a derrubada da Coluna de Vendôme (erguida em homenagem a Napoleão); a proibição de multas nas oficinas; abolição de discursos políticos e profissionais; e o fim da execução dos prisioneiros de Versalhes (MENDES, 2010, p. 134) .
Não houve extinção da propriedade privada, nem expropriação dos meios de produção, como pensavam anarquistas e marxistas.
Nem por isso, seus militantes deixaram de lutar e acreditar no que até então era um sonho: a construção de uma nova sociedade.
Quando dissemos isso, não queremos dizer que se deva descartar tudo o que foi escrito até hoje sobre o período, nem os estudos baseados em modelos que afirmam a Comuna como vitoriosa ou perdedora, mas que devemos buscar novos olhares e uma história dos sujeitos atuantes, como defenderam os anarquistas, assim como historiadores Edward Palmer Thompson e Paul Thompson.
Pensar que uma experiência história somente perdeu ou venceu significaria abrir mão das vivências, da experiência histórica em sua complexidade e diversidade e, como afirmou Walter Benjamin nada do que já foi vivido pode ser considerado irrelevante para a história.
A Comuna de 1871 é um grande exemplo disso, e, por isso, buscamos relembrá-la e mesmo reescrever sua história nesse mês de março de 2011, cento e quarenta anos depois de seu surgimento.

“O historiador quer saber como viviam em tal época os membros de que se compunha tal nação, quais eram as suas crenças e os seus meios de existência, qual era o seu ideal social, e que meios possuíam para caminharem para este ideal. E pela ação de todas estas forças, outrora desprezadas, interpretará os grandes fenômenos históricos. [...] A história, depois de ter sido a história dos reinos, tende a ser a história dos povos, e, por fim, o estudo dos indivíduos”. (KROPOTKIN, 2001, p.30-31).

Certamente contar a história da Comuna significa contar a história dos indivíduos, como já defendia o anarquista Piotr Kropotkin no início do século XX.


Concluindo.
Pudemos perceber que a História da Comuna de Paris foi contada de inúmeras maneiras, assim como eram inúmeras as tendências políticas que estavam presentes nos seus dois meses de existência.
A História Social é uma dessas maneiras ela nos permite pensar a Comuna como obra de sujeitos históricos que pensaram e agiram para além das diferenças que ali estavam colocadas e guiados pelo sonho de construir uma nova forma de viver, não submissa a um governos único e aos modelos capitalistas de economia.


Para saber mais sobre o assunto.
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
GONZÁLEZ, Horácio. A Comuna de Paris - os assaltantes do céu. São Paulo: Brasiliense, 1982.
KROPOTKIN, Piotr. A anarquia: sua filosofia, seu ideal. São Paulo: Imaginário, 2001.
MARX, Karl e ENGELS, Fredrich. A Comuna de Paris. Belo Horizonte: Aldeia Global, 1979.
MENDES, Samanta Colhado. As mulheres anarquistas na cidade de São Paulo (1889-1930). Franca: Unesp, 2010. Dissertação de mestrado. disponível em: http://www.franca.unesp.br/poshistoria/samanta.pdf
MICHEL, Louise. A Comuna 1. Lisboa: Editorial Presença, 1971.
MICHEL, Louise. A Comuna 2. Lisboa: Editorial Presença, 1971.
MICHEL, Louise. Cartas a Victor Hugo. Vinhedo/São Paulo: Ed. Horizonte, 2005. 
MICHEL, Louise. Mis recuerdos de la Comuna. México. D. F: Siglo Veintiuno Editores, 1973.


Texto: Profa. Ms. Samanta Colhado Mendes.
Graduada em História e Mestre em História e Cultura Social pela Unesp.
Membro do Conselho Editorial de “Para entender a história...”

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Periodização e História.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume dez., Série 20/12, 2010, p.01-07.

Muitas vezes, os alunos mais atentos do ensino médio e fundamental, ao notarem que determinados fatos não se encaixam aos contextos padronizados pelos períodos tradicionais da história, terminam elaborando questões embaraçosas.
Perguntam ao professor, por exemplo, por que determinada região da Europa ainda possuía castelos e feudos no século XVI, já que a Idade Moderna marca o fim do feudalismo.
Sendo a história uma ciência que estuda a experiência humana, é óbvio que compartimentar o conhecimento simplifica fenômenos que são complexos.
No entanto, para refletir sobre o passado para tentar entender o presente e preparar para o futuro; é fundamental dividir o tempo para sistematizar e organizar a análise.
Assim, embora nem sempre seja possível categorizar o objeto do estudo dentro do âmbito de um tempo especifico, o historiador é sempre forçado a trabalhar com períodos para organizar seus estudos.
Por outro lado, está realidade complexa que precisa ser transformada em discurso para que possamos discuti-la, sempre gera confusão na hora de delimitá-la em períodos.
O estudante brasileiro possui dificuldade em localizar cada era na linha do tempo, fica perdido nas datas e fatos que simbolizam cada época.
Mesmo alunos no ensino superior, em muitos casos, não têm noções claras em mente.
Percebemos isto ao lecionar ao longo de dez anos em diversas faculdades e, comprovando esta hipótese, podemos afirmar que até alunos do primeiro ano curso de história ainda fazem confusão com a cronologia.
Assim, é interessante retomar alguns conceitos, como a questão da periodização na história, mostrando o porquê das datações.
Pretendemos aqui, portanto, contribuir com alunos e professores no entendimento mais aprofundado da história, despertando o gosto pela grande aventura que representa.


A periodização na história.
A cronologia é a ciência da contagem do tempo, permitiu elaborar os calendários e, por sua vez, organizar o trabalho humano, possibilitando a evolução da espécie.
A divisão cronológica da história, tal como conhecemos hoje, foi desenvolvida a partir do século XIX.
Visava facilitar o estudo das ações do homem através dos tempos, sendo baseada então no calendário cristão, uma vez que foi criada a partir da cultura européia Ocidental grego-romana.
Obviamente, o tempo passou a ter como marco zero o nascimento de Cristo, ou ao menos o ano que se supunha Jesus teria nascido.
É interessante ressaltar que outras culturas possuem diferentes marcos iniciais para o inicio de seu calendário.
Os gregos antigos tinham como ponto de partida os primeiros jogos olímpicos, os romanos a mítica fundação da cidade de Roma.
Os muçulmanos ainda contam o tempo a partir da data da fuga de Maomé da cidade de Meca para Medina, o que aconteceu no ano 622 pelo nosso calendário, o que faz com que eles estejam muito atrás do ano 2.000, seiscentos anos.
Igualmente, os chineses e judeus também contam o tempo diferente do mundo Ocidental.
De qualquer forma, o calendário cristão dividiu o tempo em séculos, períodos de cem anos.
O que serviu de base para que a cronologia dividisse o tempo em grandes períodos, com inicio e final marcados por fatos significativos para a humanidade.


A pré-história.
Para designar o período da história da humanidade que escrita ainda não existia e que, portanto, não possui registro dos fatos e acontecimentos, convencionou-se chamá-la de pré-história.
Uma época em que, teoricamente, não existiria ainda história, já que não haveria registros escritos, sendo este o que caracteriza a história propriamente dita.
Entretanto, apesar da nomenclatura estar convencionada e a ser adotada cientificamente, este um conceito está ultrapassado, pois muitas sociedades que não possuíram escrita, nem por isto não deixaram de ter história.
 Os indígenas da América do Sul, por exemplo, não conheciam a escrita, mas preservavam sua história oralmente.
Os arqueólogos são responsáveis pela coleta de indícios matérias destas sociedades sem escrita, recompondo sua história.
A rigor, a pré-história abarca desde o surgimento dos ancestrais supostamente mais antigos do homem, cerca de um milhão de anos a.C até o aparecimento da escrita entre 6.000 a.C e 3.500 a.C.


A Idade Antiga.
A antiguidade só passou a ser considerada assim posteriormente, é claro que quando os gregos viveram não se consideram antigos, na sua ótica eles eram contemporâneos.
No entanto, foi convencionado chamar de Idade Antiga o período da história em que se desenvolveram as primeiras civilizações.
Por este último termo devemos entender a formação de uma cultura mais complexa, com componentes sociais, políticos e econômicos; onde o trabalho começou a ser organizado em beneficio da humanidade, implicando na construção de cidades e no entrelaçamento de redes comerciais e intercâmbios de várias ordens entre os povos.
Existe uma controvérsia para delimitar o inicio da antiguidade, alguns teóricos defendem o ano 3.500 a.C, quando surgiram as primeiras civilizações Ocidentais.
Esta é a datação mais aceita, aquela ensinada nas escolas e presente nos livros didáticos.
Porém, outros consideram o ano 6.000 a.C como o inicio da antiguidade, quando surgiram as primeiras civilizações na Mesopotâmia e a escrita cuneiforme.
Já com relação à data que marca o final da Idade Antiga existe um consenso, é o ano 476, quando a cidade de Roma foi invadida pela primeira vez pelos chamados bárbaros.
Uma data importante que simboliza o fim do Império romano, apesar da influência romana e vários de seus domínios terem continuado existindo depois deste ano.
Trata-se apenas de uma data que tenta ajudar a delimitar o fim da antiguidade, embora não deva ser entendida literalmente como o final do período romano, pois houve, como no caso de qualquer da passagem de uma era a outra, um longo período de transição.
De qualquer modo, antiguidade é cronologicamente dividida em três períodos.
Primeiro a antiguidade Oriental, até 400 anos a.C.
Depois a antiguidade Clássica, o período do predomínio da cultura grega e parte da romana, com delimitação controversa, em geral fixada entre 400 anos a. C até o ano 300 d.C.
 E finalmente a antiguidade Tardia, um período de transição que ultrapassa a Idade Antiga e entra na medieval, vai do ano 300 até o inicio do século VI, note que 476, final do século V, é o marco do fim da antiguidade.


A Idade Média.
O conceito de Idade Média remete a um período que estaria entre um e outro, foi pensado para separar uma era de ouro, no caso a antiguidade, da retomada do crescimento do progresso humano na modernidade.
Um erro teórico que não é mais aceito pelos historiadores, pois o período medieval foi tão ou mais rico de realizações que a antiguidade, registrando importantes avanços técnicos e culturais.
As universidades, por exemplo, surgiram na Idade Média.
Em todo caso, a medievalidade está intimamente relacionada com a história da Europa, marcada pelo feudalismo no Ocidente, ignorando outros povos que viveram em contextos distintos e com avanços mais significativos.
Teoricamente o inicio da Idade Média é delimitada pelo ano de 476, a queda de Roma, indo até 1453, quando caiu Constantinopla, portanto, o fim do Império romano do Oriente, chamado de bizantino.
Na ocasião, Constantinopla foi invadida pelos otomanos, permanecendo em seu poder até 1922, quando a cidade foi renomeada como Istambul e passou a pertencer à Turquia.
A Idade Média costuma ser dividida em dois períodos cronológicos.
Temos primeiro a chamada Alta Idade Média, um período que vai de 476 até o ano 1.000, marcado pelo feudalismo em boa parte da Europa.
Depois a Baixa Idade Média, a qual marca o colapso do sistema feudal e a transição para a modernidade, incluindo o Renascimento.
Este último, um termo que designa uma retomada da antiguidade a partir do século XIII, com diversos avanços artísticos e culturais, ultrapassando a Idade Média, indo até o século XVII.


A Idade Moderna.
Dentro do âmbito do renascimento, a Idade Moderna é chamada assim por ser considerada como um período de resgate da antiguidade, depois de um suposto período de trevas, no caso a Idade Média.
O termo modernidade remete a grandes mudanças que possibilitaram a aceleração do desenvolvimento humano na Idade Contemporânea.

O inicio desta era é repleto de controvérsias quanto sua periodização, vários historiadores defendem marcos diferentes para o começo e o fim do período.

A corrente francesa, aquela que acabou cunhando a data tradicionalmente aceita para o inicio e final da Idade Moderna, defende 1453, a queda de Constantinopla.
No entanto, datas mais significativas são defendidas como marco inicial por outras vertentes teóricas.
Entre elas 1415, a conquista de Ceuta pelos portugueses, uma cidade no norte da África inserida no comercio de especiarias intermediadas do Oriente para a Europa.
Um marco que denota o começo da expansão ultramarina e o incremento do sistema capitalista nascente, através do mercantilismo.
Também inserido no contexto das especiarias é o ano de 1497, data em que Vasco da Gama chegou à Índia navegando pelo Atlântico, um feito que permitiu ampliar as fronteiras social, econômicas e culturais da Europa.
Outra data é 1492, com a descoberta da América por Cristovão Colombo, algo que alterou profundamente o panorama do mundo conhecido.
Podemos notar que qualquer que seja o marco escolhido, a semelhança das outras periodizações, a cronologia é eurocentrista.
A controvérsia também existe com relação à datação do final da Idade Moderna.
A corrente francesa delimita o fim da modernidade em 1789, ano da queda da Bastilha, prisão política do poder absolutista, um tradicional marco tido como inicio da Revolução Francesa.
Porém, existem historiadores que defendem 1760 como uma data mais apropriada, pois é o ano que tem começo a Revolução Industrial, alterando o ritmo da evolução tecnológica da humanidade.
Existem aqueles que preferem ainda 1776, quando foi assinada a declaração da independência dos Estados Unidos da América, em quatro de julho na Virginia.
Destarte, apenas uma minoria, em geral historiadores norte-americanos, considera a data significativa em termos globais.
Uma visão eurocêntrica tem como proposta 1814, data do Congresso de Viena, quando as fronteiras políticas da Europa foram redefinidas, o que, alongo prazo, conduziria a primeira e segunda guerra mundial.
O ponto de discórdia, com relação à Idade Moderna, não se limita a datação do inicio e final da modernidade.
Existe uma corrente historiográfica inglesa que prefere trabalhar com o conceito de Tempos Modernos ao invés de Idade Moderna, dividindo as sociedades em pré-industriais e indústrias.
Simultaneamente, a historiografia marxista tende a estender o conceito de Idade Média até as revoluções liberais que terminaram com o poder absolutista dos reis, considerando o mercantilismo e o comercio de especiarias como parte das cruzadas.
Os marxistas deslocam a Idade Moderna para o período chamado tradicionalmente de Contemporâneo.
Devido a esta confusão, justifica-se iniciar o estudo da história moderna a partir da crise do sistema feudal, enfatizando a formação do sistema capitalista, encerrando com os processos de independência das colônias americanas e o Congresso de Viena.


A Idade Contemporânea.
O período contemporâneo denota aquele que vivemos hoje, daí o termo, sendo caracterizado pelo capitalismo norteando as ações do Estado, com o liberalismo e o neoliberalismo em seu interior.

Obviamente começa com o final da Idade Moderna e segue até nossos dias, não tem uma data que delimite seu fim, já que estamos ainda vivendo a contemporaneidade.

No entanto, existe uma discussão em volta da demarcação de seu fim, implicando em rediscutir a tradicional cronologia que atualmente delimita os períodos históricos.


Concluindo.
A primeira vista pode parecer pouco relevante conhecer os marcos que delimitam as eras históricas e a discussão ao redor de datas alternativas.
Porém, ao adentrar a rica aventura da humanidade desde seus primórdios até os dias atuais, é interessante conhecer a cronologia para que possamos nos situar no tempo.
Localizando as Idades da história podemos passear por ela mais facilmente, contextualizando tempo e espaço.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

sábado, 25 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 7 (Final): indicações para leitura.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 25/09, 2010, p.01-03.

No Brasil, as obras que tratam o tema peronismo são raras e escassas.
Um dos motivos se deve a estrema proximidade do fenômeno peronista de nossos dias, o que termina por torná-lo atual.
Além disso, as poucas obras existentes em português acabam sempre classificando erroneamente o peronismo como populismo, o que exige do leitor certo senso crítico.
De qualquer modo, concernente ao estudo do peronismo pode ser consultada a obra de Maria Lígia Coelho Prado, “O populismo na América Latina”, da coleção “Tudo é História” da editora Brasiliense.
Apesar de classificar o peronismo como populismo, pode servir de ponto de partida ao estudo sobre o fenômeno.
Igualmente, uma boa fonte inicial de consulta é o livro de Murmis e Portantiero, “Estudos sobre as origens do peronismo”, também da editora Brasiliense, embora ele caia no mesmo erro do anterior.
Estas obras podem ser mescladas com textos que tratam do fascismo propriamente dito, possibilitando identificar o peronismo como fenômeno de caráter fascista.
Sobre o fascismo são textos de consulta obrigatória: a “Introdução ao Fascismo” de Leandro Konder, da Graal;  a “Psicologia de massas do fascismo” de Wilhelm Reich, da Martins Fontes; e “Ascensão e queda do III Reich” de William Shirer, em 4 volumosos tomos, editado pela Civilização Brasileira.
Podendo ser consultadas também as obras: “Minha Luta” escrita pelo próprio Adolf Hitler; “Hitler” de Joachim Fest; e o “Fascismo Italiano” de Angelo Trento.
Sobre o fascismo espanhol e as condições em que surgiram as revoluções populares e, por sua vez, o fascismo como resposta imediata a tais revoluções, pode ser consultada a obra do eminente professor francês Pierre Broué, “A revolução espanhola: 1931-1939”, que esteve no Brasil em setembro de 1996, participando do Simpósio Guerra Civil Espanhola: 60 anos, realizado na Universidade de São Paulo.
Sobre as relações entre Brasil, Argentina e Estados Unidos, pode ser consultada a obra de Moniz Bandeira, “Estado Nacional e política internacional na América Latina: o continente nas relações argentina - Brasil (1930-1992)”, da Editora Ensaio.
Aqueles que desejam realmente se aprofundar o estudo do peronismo podem ainda ler alguns textos em espanhol: “La política de los militares argentinos: 1900-1971” de Dario Canton; “História Argentina: la democracia constitucional y sus crisis” de Canton e Moreno; “Perón o muerte: los fundamentos discursivos del fenómeno peronista” de Sigal e Verón; e “Gobierno peronista y política del petroleo en Argentina: 1946-1955” de Marcos  Kaplan.
Para complementar este estudo pode ser consultada a obra “As razões do iluminismo” de Sérgio Paulo Rouanet.
Entre outros assuntos ele dá uma pincelada sobre questão do irracionalismo do fascismo, que se esconde sobre a aparência de racional.



Para saber mais sobre o assunto.
BANDEIRA, Moniz. Estado Nacional e política internacional na América Latina: o continente nas relações Argentina - Brasil (1930-1992). São Paulo: Editora Ensaio, 1993.
BROUÉ, Pierre. A Revolução Espanhola: 1931-1939. São Paulo: Perspectiva, 1973.
CANTON, Dario. La política de los militares argentinos: 1900-1971. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Argentina Editores, 1971.
CANTON, Dario; Moreno, J. L. & CIRIA, A. Historia Argentina: la democracia constitucional y sus crisis. Buenos Aires: Paidós, s.d.
FEST, Joachim. Hitler. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1976.
HITLER, Adolf. Minha Luta.  São Paulo: Editora Moraes, 1983.
LACLAU, Ernest. Política e ideologia marxista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
MURMIS, M. & PORTANTIERO, J. C. Estudos sobre as origens do peronismo. São Paulo: Brasiliense, 1973.
PRADO, Maria Lígia. O populismo na América Latina. São Paulo: Brasiliense, 1981.
REICH, Wilhelm. Psicologia de massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1972.
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KONDER, Leandro.  Introdução ao Fascismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977.
UMBERTO ECO em colóquio organizado no dia 24 de abril de 1995, pelo departamento de italiano da Columbia University, publicado pelo jornal “Folha de São Paulo” em 14 de maio de 1995.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Peronismo – Parte 6: o exílio e a volta triunfal.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume set., Série 24/09, 2010, p.01-07.

A chamada “Revolução Libertadora”, encabeçada pelo general Eduardo Lonardi, derrubou o general Juan Domingo Perón, em 16 de setembro de 1955.

No entanto, o peronismo sobreviveu à queda de Perón.
Logo depois de ser destituído, ele partiu para o exílio no Paraguai, ficando no país até 6 de novembro do mesmo ano, quando então foi recebido no Panamá.
Em 8 de agosto de 1956, partiu para Caracas, capital da Venezuela, onde foi protegido pelo ditador Pérez Giménez, cuja queda do poder, obrigou Perón a se exilar na República Dominicana.
Finalmente, em 26 de janeiro de 1960, conseguiu asilo na Espanha do ditador fascista, general Francisco Franco, a quem os nazistas haviam ajudado a colocar no poder pouco antes do inicio da 2º. Guerra Mundial.
De longe, Perón organizou um movimento para tentar retornar a Argentina e retomar a direção da nação.


Enquanto Perón estava na Espanha.
Na Europa, Perón teve sua residência fixada inicialmente nas Ilhas Canárias, instalando-se depois em Madri, de onde regressaria para a Argentina somente em 27 de novembro de 1972.

Ao longo de todo o período do exílio, que durou exatamente dezessete anos e dois meses, Perón continuou a ter voz ativa na política argentina.
Tamanha a influencia de Perón entre os argentinos que o governo que o substituiu proibiu lemas e canções do partido peronista.
Chegou até a proibir que se pronunciassem termos como: Perón, peronismo, justicialismo e Eva Perón.
Isto só fez proliferarem os eufemismos para fazer referência a sua pessoa e ao período peronista, tais como: “o tirano prófugo”, “o tirano deposto”, “a segunda tirania”.

Demonstrando, por outro lado, que os próprios peronistas tinham consciência do caráter fascista do movimento.
Acontece que grande parte dos peronistas não consideravam uma ofensa serem taxados de fascistas, mas uma honra.
Foi dentro deste contexto que os membros da esquerda peronista começavam a ficar insatisfeitos com a orientação fascista.
Destarte, as várias leis que ficaram conhecidas como decretos da “Revolução Libertadora”, colocando o peronismo na clandestinidade, não conseguiriam fazer calar os peronistas.
Mesmo na clandestinidade e rachado, o partido peronista continuou se articulando para trazer de volta ao país o seu líder.
A imagem do peronismo, enquanto movimento sectário, fortemente associado a um período de abundância do país, continuou enraizado no imaginário popular argentino.

Sendo transmitido de pai para filho, dando origem a “juventude peronista”, a qual constituiria uma nova massa de manobra para Perón.
A crise política e econômica se agravou em 1966, chegando ao seu ápice em 1968, abrindo a oportunidade que os peronistas precisavam para trazer à tona a ausente figura de Perón.
Ele foi transformado em um messias capaz de restaurar a unificação nacional.
Os militares já não conseguiam mais controlar a situação do país, quando, em julho de 1972, temendo uma revolução popular, começaram a enxergar em Perón uma saída.
 Grupos de guerrilheiros de esquerda proliferavam por toda a América Latina, Perón parecia então o único capaz de evitar a chagada dos vermelhos a Argentina.
Os militares iniciam o processo de abertura, colocando restrições para impossibilitar a candidatura de Perón à presidência.
Ele finalmente pode retornar do exílio em 17 de novembro de 1972, chegou no famoso avião preto, o qual havia sido objeto dos sonhos dos peronistas durante longos anos.


A volta triunfal.
Perón retornou a Argentina em meio a um grande caos político e econômico, assumindo uma atitude conciliadora.

Estando impedido de concorrer às eleições, indica como seu candidato Héctor Cámpora, concorrendo à presidência pela “Frente Cívica da Libertação Nacional”.
Héctor Cámpora representava a ala ligada a extrema direita do movimento peronista, principalmente a juventude peronista, o que causou forte oposição da esquerda, mas a candidatura acabou oficializada em janeiro de 1973.
Em 11 de maio deste mesmo ano, os candidatos peronistas, Cámpora e Vicente Solano Lima foram eleitos, respectivamente, presidente e vice-presidente da república Argentina, com 49,5% dos votos.
O que representou mais a volta triunfal do peronismo ao poder, além da vitória do setor mais radical do movimento, nítida e declaradamente fascista.


Um novo governo peronista e problemas a vista.
A posse de Cámpora, em 25 de maio de 1973 desencadeou a revolta das bases operárias, gerando um conflito direto e físico, chegando ao enfrentamento armado entre operários e a juventude peronista.

Órgãos estatais, universidades, hospitais e outras instituições públicas tornam-se palco de conflitos sangrentos.
Um conflito que pode ser explicado pelo fato da ausência de Perón do país durante o exílio ter aberto espaço para modificações na base operária peronista.
Ela havia se transformado de fascista em socialista.
Estava então mais consciente do que no passado, os operários não acreditavam mais em discursos e propaganda.
Não bastava mais apenas dizer-se social, sem assumir de fato uma postura de luta pela igualdade de classes.
A população saiu às ruas gritando palavras de ordem como “Cuba e Perón, um só coração”; exigindo que Perón assumisse um novo posicionamento, não mais de direita, mas uma guinada a esquerda.
Verdadeiramente, o movimento peronista se encontrava rachado; de um lado a extrema direita exigia o expurgo do “trotskismo”; de outro a esquerda exigia o aniquilamento do caráter fascista.
Perón começou a perceber que, apesar da volta triunfal, sua base estava visivelmente debilitada.


Novamente o começo do fim.
Visando tentar sanar o racha entre peronistas, através de uma nova ilusão das massas, Perón alterou seu discurso, passando a dirigir-se não mais aos operários, mas aos descamisados.

O artifício falhou, ele não conseguiu convencer os operários, agora extremamente politizados.
No entanto, este novo governo peronista contava com aliados poderosos, havia chegado ao poder com o apoio dos Estados Unidos da América, representado pela CIA.
O mundo se encontrava em pleno clímax da guerra Fria, o peronismo parecia aos norte-americanos à única coisa que poderia impedir os comunistas de tomarem a Argentina.
Orientado por Perón, Cámpora endureceu o combate ao comunismo.

Centenas de pessoas foram mortas, muitas vezes em confrontos diretos com a juventude peronista, que havia se tornado uma organização paramilitar a semelhança das SA e SS de Hitler.
Confrontos diretos com a polícia massacraram manifestações; a tortura e o encarceramento sem fundamentação jurídica tornaram-se comum.
Em meio à confusão inicial, Perón, um tanto transtornado e perdido, alternou períodos em que estava presente no país, com períodos em que procurou se auto-exilar em Madri.
Ele deixou uma brecha que foi explorada tanto pela esquerda como pela direita, ora associando sua imagem a uma ou outra tendência.


O fim ou seria o começo.
Pouco a pouco, Perón procurou deixar clara sua posição pró-direita e declaradamente fascista.

Em outubro de 1973, o governo passou a ser acompanhado mais de perto por Perón justamente porque estava a frente dele depois de ter sido eleito presidente.
Em represaria as tendências de esquerda da ala sindical do movimento peronista, Perón iniciou uma reforma na lei sindical, com vistas a manter um controle mais rígido sobre os sindicatos.
Em meio ao tumulto surgiu o grupo terrorista de esquerda “ERP” (Exercito da Revolução Popular).
Através de atentados este grupo procurou se opor ao peronismo.
Em janeiro de 1974, o “ERP” lançou um atentado à bomba a uma guarnição militar.
Mais uma vez deixando claro seu caráter fascista, Perón obrigou o governador da província a renunciar, já que tinha sido incompetente.


Iniciou em seguida um novo endurecimento no combate ao comunismo, entrando em choque direto com os sindicatos.
A reação não tardou, em 1a. de maio de 1974, tradicional dia de comemoração da ala sindical do partido peronista, dia do trabalho, a oposição organizou uma enorme manifestação na “Praça de Maio”, em Buenos Aires.
Como no passado os argentinos manifestaram a insatisfação com o governo peronista; obtendo o apoio de diversos setores da sociedade, chegando a contar com cinqüenta mil pessoas.
Pouco depois, em 1a. de julho de 1974, Perón faleceu; assumiu o governo a vice-presidente, no caso a terceira esposa do presidente morto, Maria Estela Martinez de Perón, cujo verdadeiro nome era Isabel.

Ocupando o governo da Argentina em condições internas deterioradas, a nova presidente enfrentaria o agravamento da crise, com um aumento da inflação que chegou a 920% ao ano em 1976.


A ausência definitiva de Perón do cenário argentino fez aumentar os atos de terror e violência.
Os quais ganharam a proporção de uma verdadeira guerra civil.
Tornam-se comuns os combates e atos de terror provocados pela “Triple A” (Alianza Anticomunista Argentina) e pelo “Comando de la Arganización”, que assassinam militantes e líderes de esquerda.
Estas organizações rivalizavam com o “Ejército Revolucionario del Pueblo” (de origem Trotskista).
Enquanto, por sua vez, a juventude peronistas continuou atuante, agravando o caos e instabilidade social.
A viuva de Perón em breve seria derrubada da presidência por uma novo golpe militar.


Para saber mais sobre o assunto.
Acompanhe a próxima postagem neste blog.
Amanhã a última parte sobre a temática peronismo, abordando indicações de leituras.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.