Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Balanço do mês de dezembro de 2011 - Para entender a história...


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume dez., Série 31/12, 2011, p.01-03.


No mês de dezembro, como aconteceu no ano anterior, devido às férias escolares e ao período de festas, recebemos 63.430 visitas, porém, totalizando um recorde de visualizações desde 13 de agosto de 2010, mais de 1 milhão (1.000.000) de acessos em 1 ano e 5 meses de vida da publicação.
Não se trata do registro de 1 acesso por cada artigo visitado, mas, segundo o contador do Google, acessos reais à publicação, pois independente do numero de artigos visitados, o contador registra apenas uma visita por usuário.

O ápice de acessos do mês de dezembro foi registrado no dia 12, quando tivemos 3.371 visitantes em único dia.
Após esta data a média de acessos diários caiu para 1.600.

Neste mês recebemos e publicamos uma colaboração de autoria de:
1. Adriana Costa, com um artigo sobre a Revolta dos escravos de Carrancas, uma rebelião do período regencial.

No espaço reservado a publicação de artigos dos membros do conselho editorial e convidados, além do artigo mensal do editor, tivemos a participação de:
1. Profa. Dra. Mary Del Priore, membro do conselho editorial, com um ensaio questionador sobre a participação das mulheres no mercado de trabalho.
2. Prof. Bruno Albuquerque Acrignoli, convidado especial, através de um texto na sua área de especialidade, abordando a questão dos desafios atuais da tecnologia educacional.
3. Prof. Dr. Wanderlei de Oliveira Clarindo da Silva, membro do conselho editorial, com um artigo sobre o racismo em Cuba.

Aproveitamos a oportunidade para agradecer, como sempre, as colaborações e parabenizar todos que já participaram da publicação pelos textos, estendendo o convite aos demais leitores para remetam artigos para submissão.

Os interessados devem enviar artigos dentro dos parâmetros fixados nas normas de publicação disponíveis no link “Colaborações”.

Uma novidade é a vinculação da publicação com cursos extracurriculares que emitem certificado, assinados pelo editor, alguns gratuitos e outros com valores reduzidos que irão ajudar a manter o site funcionando.
Para participar de um destes cursos basta utilizar o link em vermelho que remete aos cursos no inicio da página no canto direito, abaixo do contador; ou ao final dos artigos e ainda no rodapé, antes das palavras-chave.
Contamos com a colaboração dos leitores para ajudar a manter os custos de Para entender a história...
Gradualmente mais cursos serão oferecidos, inclusive gratuitos que servem de amostra para que o leitor possa verificar a qualidade e eficácia do método pedagógico.


Mudando o foco, como sempre, outro dado interessante em dezembro foi o aumento no número de seguidores, subiu de 144 pessoas para 160.
Para os leitores que ainda não estão seguindo a publicação, lembramos que basta clicar no link “participar deste site” e aceitar as orientações decorrentes.
Os seguidores ficam informados sobre atualizações e ajudam a trazer maior prestigio a publicação com sua ilustre presença.

Finalizando este mês de dezembro, novamente agradecendo os leitores que votaram na publicação junto ao prêmio Top Blog, recebemos como premiação o selo TOP 100 na categoria educação.

Neste mês de dezembro, as postagens mais populares, respectivamente, com o nome do autor e numero de acessos, foram:

01. Educação, família e sociedade: Fábio Pestana Ramos (8.344).
02. A revolução francesa foi causada pela fome: Fábio Pestana Ramos (2.400).
03. 1964: o golpe de Estado e a ditadura militar: Fábio Pestana Ramos (957).
04. A educação no Brasil Império: Fábio Pestana Ramos (822).
05. Os astecas e os sacrifícios humanos: Marcus Vinicius de Morais (779).
06. A formação do planeta terra e características geográficas: Fábio Pestana Ramos (772).
07. A passagem da antiguidade para o feudalismo: Fábio Pestana Ramos (742)
08. A revolução cubana e suas implicações: Eliane Santos Moreira (519).
09. O imperialismo europeu no continente africano: Victor Mariano Camacho (300).
10. História e Geografia e sua importância em sala de aula (273).

Lembramos novamente que no mês de novembro a sistemática de publicações foi parcialmente alterada, o editor passou a publicar apenas um artigo no inicio do mês, abrindo a edição do volume, independente do dia da semana, esporadicamente publicando outros artigos aos sábados.
As segundas-feiras e terças-feiras ficaram destinadas à publicação de colaborações, abrindo um espaço maior para divulgação de novos artigos de leitores.
As quartas-feiras e quintas-feiras ficaram reservadas para a publicação de artigos de membros do conselho editorial e convidados.


Agradecemos os leitores e desejamos um bom divertimento.


Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Editor de Para entender a história...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Rebeliões regenciais: a revolta dos escravos de Carrancas.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume dez., Série 26/12, 2011, p.01-05.


“[...] ontem plena liberdade,
a vontade por poder...
hoje... cum’lo de maldade,
nem são livres p’ra... morrer...
prende-os a mesma corrente
— férrea, lúgubre serpente —
nas roscas da escravidão.
e assim roubados à morte,
dança a lúgubre coorte
ao som do açoite... irrisão!”
Castro Alves – Navio Negreiro


No período de 1831 até 1840 a monarquia ainda sobrevivia no Brasil, mas atravessava momentos decisivos.
Mesmo com a independência política de 1822, a produção ainda girava em torno do trabalho escravo e os interesses econômicos e políticos das elites dividiam as opiniões.

O ciclo das agitações populares reapareceu com a abdicação de Dom Pedro I.

As autoridades provinciais nomeadas pela regência foram contestadas, estabelecendo um clima de grande instabilidade em diversas regiões do país.
O que é refletido no caso da rebelião escrava pouco mencionada - porém também muito importante - ocorrida na freguesia de Carrancas, comarca do Rio das Mortes, atual Minas Gerais.


Rebelião dos escravos: a liderança de Ventura Mina.
Em Carrancas, que abarcava quase todo o sul de Minas Gerais, ocorreu uma insurreição de escravos no dia 13 de maio de 1833 que gerou um clima de pânico nos distritos vizinhos e até nos mais afastados.
A revolta começou na fazenda Campo Alegre pertencente a Gabriel Francisco Junqueira, membro de uma das mais ilustres famílias da localidade.
Nesse dia oito escravos se amotinaram e mataram o filho de Junqueira, Gabriel Francisco de Andrade Junqueira, chamado pelos escravos de “senhor moço”, que cuidava da fazenda do pai em virtude das suas atividades políticas.

Conforme os depoimentos apontam, a revolta foi liderada por um escravo chamado Ventura Mina, que tinha grande liderança e poder de influência sobre os demais escravos da fazenda. Iniciou assim a rebelião, segundo Andrade (2008, p.05):

[...] Naquele dia, seu pai se encontrava na Corte, cuidando de suas funções no parlamento nacional. Antes do meio-dia, como de costume, foi até a roça fiscalizar o trabalho de seus escravos. Como sempre fazia, solicitou a um cativo da casa que arriasse o seu cavalo, montou-o e seguiu em direção à roça. Ao chegar na roça não percebeu nada de estranho e, como sempre, encontrou os escravos preparando a terra, cuidando das lavouras de milho e feijão. A tranqüilidade era apenas aparente. Sem condições de oferecer nenhuma reação, ainda montado em seu cavalo, Gabriel Francisco foi surpreendido por Ventura Mina, quando foi retirado à força de cima do cavalo, e juntamente com Julião e Domingos, deram-lhe várias porretadas na cabeça, levando-o à morte alguns instantes depois.

Cansados de viver em condições desumanas, segundo os autos, os escravos tinham a intenção de matar todos os brancos de Carrancas e apossar de suas propriedades. Conforme Isaías Pascoal (2008, p.05) afirma:

Os depoimentos, tanto dos escravos implicados, quanto dos livres que serviram como testemunhas, são unânimes em afirmar que desejavam matar todos os brancos das fazendas Campo Alegre, Bela Cruz, Jardim, Traituba, Sobrado, Prata, Favaxo, Santo Inácio, exterminando as famílias Junqueira, Andrade, Machado e Penha, poderosas na região.

Sendo assim, a rebelião teve início na fazenda Campo Alegre.
Dirigiram-se então para a fazenda vizinha, Bela Cruz, onde tiveram a adesão de mais escravos à rebelião. Convenceram escravos que estavam na roça a fazer o mesmo nas fazendas restantes. “Eram ao todo cerca de 35 pessoas, e perpetraram o massacre de todos os membros da família, a golpes de foice, paus e tiro” (PASCOAL, 2008, p.4).
O desejo era de matar os membros das fazendas vizinhas, exterminando assim as famílias mais poderosas da região.
Mas o plano fracassou quando um escravo de confiança avisou a família da terceira fazenda, Bom Jardim, que revidou o ataque com sucesso.


O período regencial e a revolta em Carrancas.
A importância sócio-econômica da família Junqueira é evidente devido à poderosa linhagem que se estabeleceu em várias localidades de Minas Gerais e sudoeste de São Paulo graças à concessão de terras recebidas pela Coroa portuguesa no início do século XV.
Essa importância se mantinha no século XIX devido às atividades políticas exercidas por Gabriel Francisco Junqueira, que se tornou deputado geral das províncias de Minas por várias legislaturas seguidas ao longo da década de 1830.

Dessa forma, o desenvolvimento das propriedades só fez aumentar o ritmo de trabalho e o conseqüente descontentamento dos escravos.

Outro fator bastante significativo foi as disputas políticas articuladas pela divergência de interesses entre os restauradores e os liberais conservadores que tomavam espaço no cenário social da época.
Assim, com a vitória de Gabriel Francisco Junqueira na eleição para deputado geral, em 1831, sobre o candidato do imperador, Silva Maia, criou ressentimentos na região.
A partir desse ponto, acredita-se que a revolta dos escravos teria sido articulada por um homem branco chamado Francisco Silvério Teixeira, que teria instigado os negros através do desejo de liberdade.
A figura de Teixeira aparece no processo criminal como um simpatizante (se não um militante) da causa caramuruana[i].
O libelo acusatório o liga à Sedição de Ouro Preto[ii], iniciada em março de 1833.
Sua ação teria como objetivo impedir a Guarda Nacional de combater os revoltosos em Ouro Preto, e para desviar as atenções e provocar o pânico nos senhores teria promovido esta insurreição entre os escravos, difundindo a idéia entre eles de que D. Pedro I seria a favor da libertação, mas que havia sido intimidado por opositores e por esta razão teria partido do Brasil.
Dessa maneira, a intenção de matar os senhores era de tomar possa de suas fazendas e seus bens para arrecadar dinheiro para os Caramurus que lutavam em Ouro Preto, bem como também exterminar todos os brancos que eram contrários à libertação dos escravos.
A partir deste ponto podemos observar a mescla de interesses neste conflito; pois de um lado estariam os brancos da elite envolvidos no jogo político, e de outro lado estariam os escravos interessados na libertação da sua classe.
Assim, Ventura Mina aparece como líder dos escravos (desejosos pela sua libertação) ligado a Francisco Silvério, que era pertencente ao grupo dos Restauradores; que, por sua vez, tinham interesses políticos divergentes à família Junqueira, sinalizando o real motivo ao invés da simpatia com a causa dos escravos.
“De uma forma geral, todos, livres e escravos, reconhecem em Ventura o principal executor do movimento, com a diferença de que os primeiros vêem em Silvério o maior culpado por sua ação incitadora” (PASCOAL, 2008, p. 8).
No entanto, os depoimentos revelam que esta articulação de Ventura Mina e Francisco Silvério teriam como objetivo matar os brancos e tornar livres os escravos.
Que eram impedidos de gozar a liberdade em função do egoísmo dos proprietários liberais que pretendiam criar um novo aparelho de governo, diferente daquele que D. Pedro I estabelecia.

Algumas regiões do vale do Paraíba paulista, como Areias e Bananal, foram logo informadas da insurreição em Minas Gerais. Como eram regiões com grande concentração de escravos em função da expansão da cultura cafeeira, os vereadores de Bananal foram imediatamente convocados para uma sessão extraordinária e secreta, no dia 21 de maio, onde ficou acertada uma série de medidas para que se evitassem maiores repercussões dos acontecimentos de Minas na região. (ANDRADE, 2008, p.10).

O resultado do processo criminal foi a condenação à morte por enforcamento de 6 escravos da fazenda Campo Alegre.
Um foi absolvido por não ter qualquer participação no massacre.
Da fazenda Bela Cruz, 12 escravos foram condenados à morte na forca.
Outros envolvidos foram condenados a pena de açoites, ou foram absolvidos.
Ventura morreu em combate.
Quanto a Francisco Silvério foi absolvido por falta de provas de seu envolvimento.


Concluindo.
A crueldade com que foram executadas as mortes nas fazendas, descritas no auto de corpo de delito, certamente contribuiu para o pavor da população em relação às rebeliões escravas.
As autoridades reforçaram os mecanismos de controle e repressão mobilizando um grande esquema repressivo junto a Guarda Nacional para combater os revoltosos.
Dessa forma, ficam evidentes as disputas internas no período regencial entre liberais e restauradores.
Entretanto, quando os escravos se envolviam nessas disputas a lição da “mão pesada” do Senhor e o rigor da Justiça, ativados quando as suas autoridades são postas em questão, fazia com que a base social mais frágil (a escrava) sofresse de maneira cruel.
Assim, este período é marcado pela instabilidade de manter a ordem em um país cujos políticos ainda queriam se libertar das amarras do colonialismo.
Novos desejos e interesses eclodiam por todo o território e restava agora apenas a disputa pelo poder político, enquanto o negro continuava subjugado na sua condição de escravo.


Para saber mais sobre o assunto.
ANDRADE, Marcos Ferreira de. Rebeldia e resistência: as revoltas escravas na província de Minas Gerais. Belo Horizonte, FAFICH/UFMG, dissertação de mestrado, 1996.
ANDRADE, Marcos Ferreira de. Rebeliões escravas na Comarca do Rio das Mortes, Minas Gerais: o caso Carrancas. AfroÁsia, Salvador, n. 21-22, 1998-1999, p.45-82.
ANDRADE, Marcos Ferreira de.  Negros rebeldes nas Minas Gerais: a revolta dos escravos de Carrancas (1833). São João del-Rei: Documenta/UFSJ, 2008. Disponível em: http://www.documenta.ufsj.edu.br/modules/wfdownloads/singlefile.php?cid=8&lid=15
Acesso em: 19 de dezembro. 2011.
BOTERO, Frederico de Barros. Memórias e tradições da família Junqueira. 2 ed. São      Paulo: 1959.
PASCOAL, Isaías. Em Carrancas, sujeitos se encontram e se desencontram. Revista Fênix, ano 5, v.5, nº 4, p. 1–19, 2008.  Disponível em: http://www.revistafenix.pro.br/vol17isaias.php Acesso em: 30 de novembro. 2009.


Texto: Profa. Adriana Costa.
Licenciada em História pelo Centro Universitário Metodista do Sul IPA.
Pós-Graduanda em História Africana e Afro-Brasileira pela Faculdade Porto-Alegrense (FAPA).


[i] Composta por membros do grupo de restauradores que queriam a volta de Dom Pedro I ao Brasil. Acreditavam que a centralização do poder nas mãos do monarca poderia os favorecer na manutenção da sua autonomia social.
[ii] A Sedição de 1833, para o historiador Francisco Iglesias, foi um movimento sem consistência, resultado das intermináveis lutas  entre os defensores e inimigos da regência. Havia um  grupo que se manifestava favorável à volta de D.Pedro I, que havia abdicado em 1831. O movimento foi energicamente abafado. A capital, inclusive, foi transferida para São João del Rei enquanto Ouro Preto estava sob o controle dos revoltosos. E em 1835, o grupo foi anistiado.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Racismo e trabalhadores negros em Cuba.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume dez., Série 21/12, 2011, p.01-11.


Texto extraído da tese intitulada “Trabalho e Discriminação: inserção e ascensão de trabalhadores negros em hotéis de Havana (Cuba) no período 1990-2008”, defendida em 2009. Orientador: Prof. Dr. Luis Fernando Ayerbe.



Em Cuba, país objeto de nossa investigação, a questão racial não é debatida e difundida amplamente em todos os setores da sociedade.
Isso se deve, principalmente, às questões de cunho sócio-político, posto que o ideal da Revolução primou pela emancipação de todos os cubanos independente de qualquer jaez ideológico, político, religioso e étnico.
Cuba é um país com aproximadamente 12 milhões de habitantes[1], experimentando ao longo de cinco décadas um processo de transformação radical, a Revolução de 1959.
Assim, a imagem veiculada mundialmente é a de um país onde impera a igualdade racial.
Essa imagem, vista como um dos princípios revolucionários fundamentais, migrou, após a concretização da Revolução, do campo das idéias para se alojar no cotidiano de percentual expressivo da população.
Ela tornou-se, desse modo, realidade inconteste e imutável.
O que, de acordo com Fuente (1995), é levado a cabo pela voz oficial do governo e por membros do Partido Comunista.
As desigualdades existentes entre negros e brancos nos anos anteriores a 1959 eram agudas e, sem sombra de dúvida, as políticas implementadas pelo presidente Fidel Castro após a tomada do poder proporcionaram à população negra resultados sociais positivos indiscutíveis.
Essas políticas não possuíam o objetivo de beneficiar apenas um segmento da população, mas sim, a todos.
Nesse sentido, ao longo dos anos, os benefícios auferidos pela população no que tange o acesso à educação e à saúde, por exemplo, tem sido mantido, mesmo naqueles momentos de profundas crises econômicas.
As restrições impostas aos cubanos, decorrentes do exercício do poder instituído pela supremacia norte-americana, obrigam a população a viver, na contemporaneidade, em permanente privação, no que se refere, sobretudo, ao acesso a determinados bens de consumo.
O peso das políticas restritivas e o bloqueio econômico instaurado pela nação norte-americana sobre Cuba se tornaram mais danosos a partir do desmantelamento dos países do bloco socialista, os quais foram, durante anos, os principais parceiros econômicos da ilha.
Com essa mudança drástica, as políticas adotadas pelo governo cubano até então tiveram de ser reformuladas.
Entretanto, os investimentos nos setores considerados como “bens de cidadania[2]”, mesmo em circunstâncias adversas (leia-se, contextos econômicos menos favoráveis) foram mantidos, ainda que oferecidos em níveis menores àqueles existentes em períodos de franca estabilidade.
Essa situação de limitações econômicas provocou o crescimento dos investimentos externos até então controlados pelo governo.
A injeção de capital estrangeiro na economia inicia-se em 1982, sendo ampliada a partir de 1991.
Até esse momento, a medida era restrita ao setor do turismo; porém, posteriormente, passou a incrementar outros setores importantes, como o da biotecnologia e dos fármacos (Cano, 2000).
O setor de turismo assumiu durante os anos noventa um papel de suma importância para a economia cubana, posto que se converteu no setor mais dinâmico do mercado (Cepal, 1997).
Os postos de trabalho deste setor passaram a ser almejados por muitos cubanos, pois as atividades exercidas em bares, hotéis e restaurantes possibilitavam o acesso a divisas[3], o que, consequentemente, traria melhoria no nível de bem-estar.
Vale ressaltar que a disponibilidade de dólares permite ao cubano adquirir, por exemplo, bens de consumo que seriam dificilmente obtidos apenas com a posse da moeda nacional, visto que há em Cuba dois mercados distintos: um em moeda conversível (CUC) e outro em moeda nacional (peso cubano).
Nesse cenário, verifica-se que há, no país, uma nítida separação entre aqueles que não têm acesso a dólares e aqueles que têm.
Os dólares serão trocados por CUC nos bancos e podem ser adquiridos, entre outras formas, por meio das remessas emitidas por parentes residentes no exterior ou pela inserção empregatícia nos setores da economia que proporcionem o recebimento de divisas.
Apesar do discurso formal de igualdade racial, a inserção e ascensão dos negros nesses postos de trabalho não ocorrem de maneira equânime com a população branca.
Ao contrário do que ocorre no Brasil[4], por exemplo, não há em Cuba nenhuma diferença no que se refere ao nível de formação educacional capaz de justificar a não participação dos trabalhadores negros em igualdade de condições com os trabalhadores brancos no setor do turismo.
No caso de Cuba, esse “monopólio social”, no que tange ao campo educacional, foi extinto após o triunfo da Revolução.
Portanto, a diferença no grau de escolarização não pode ser utilizada como justificativa para explicar a predileção por brancos na ocupação dos vários postos de trabalho existentes no setor do turismo.
Nesse sentido, nossa pesquisa teve como foco investigar como e por que isso ocorre na contratação de trabalhadores para o mercado turístico, nomeadamente para os hotéis de Havana.
O período que compreende este estudo recobre a faixa de 1990 a 2008.
Sobre isso, é importante esclarecer que, diante da importância dos acontecimentos ocorridos em épocas anteriores aos anos delimitados, nosso trabalho se apóia em referências históricas consideradas relevantes.
A opção em colocar como marco os anos de 1990 decorre do fato de ter sido esse período, principalmente os anos iniciais da década, marcado por uma forte crise econômica provocada pela extinção da parceria entre Cuba e os países do bloco socialista, o que, entre outras coisas, provocou o surgimento e posterior acirramento da concorrência pelos postos de trabalho existentes no setor do turismo.
Vale ressaltar que, nessa investigação, juntamente com o respaldo de obras dedicadas ao estudo do tema pesquisado foram realizadas entrevistas com trabalhadores negros cubanos.


Questões econômicas e intensificação das desigualdades raciais[5].
Os recursos disponíveis para manter os níveis de bem-estar conquistados se tornavam escassos e o governo foi impelido a realizar mudanças, visando o não estancamento da economia.
Entre elas, figuravam a autorização para o exercício de diferentes formas de trabalho por conta própria e a captação de investimentos estrangeiros.

As medidas tomadas começaram a apresentar pequenos resultados a partir de 1995, porém as autoridades reconheciam que isso havia acarretado certo custo social.

Essa nova situação desenhada pelas políticas econômicas provocou o descontentamento da população que havia se acostumado a viver em uma sociedade igualitária.

Como aponta Fuente:
Isto criará diferenças entre as pessoas, maiores que as que temos agora e maiores que as que estamos acostumados a ter desde a Revolução... a desigualdade ou privilégio que possam surgir são realidades permitidas por nós. As medidas adotadas não coincidiam com as aspirações de igualdade que havia regido o país desde o triunfo revolucionário de 1959 (2000:434).


Para o autor, ainda que os privilégios e as desigualdades tivessem de ser tolerados, as autoridades cubanas certamente não esperavam que a crise impactasse fortemente na dimensão racial.
Os níveis relativamente altos de igualdade e integração racial que a sociedade cubana alcançou durante os anos de 1980 deveriam impedir que as forças de mercado atingissem o espectro racial.
De acordo com essa perspectiva, os indivíduos seriam atingidos segundo a posição social e o tipo de emprego, sem levar em consideração a raça.
No entanto, os indicadores revelam que, sob o chamado “período especial”, a desigualdade racial e as tensões sociais racialmente definidas progrediram em escala exponencial.
De acordo com Fuente (2000), as mudanças econômicas afetaram vários setores da sociedade, acarretando redução no nível dos serviços disponibilizados à população, a exemplo dos setores de saúde e educação.
No entanto, algumas das reformas introduzidas pelo governo afetam de forma desigual os grupos sociais e raciais.
O exemplo inquestionável é o da legalização da obtenção de dólar, que provocou uma divisão na sociedade.
De um lado, os que têm acesso a dólares e, do outro, os que não têm. 
Em sua maioria, os cubanos recebem dólares de duas fontes principais: das remessas de familiares e amigos e dos setores dinâmicos da economia, como o turismo e as empresas mistas e de capital estrangeiro sediadas na ilha.
Os trabalhadores de alguns setores produtivos também recebiam pagamentos em dólares, porém essas quantidades eram muito pequenas comparadas àquelas obtidas no setor de turismo e com as remessas do exterior.
Alguns artistas, artesãos, escritores e intelectuais também recebem dólares por meio do seu trabalho.
As remessas familiares são, certamente, a fonte mais importante para a maioria dos cubanos.
De acordo com estimativas, as remessas anuais somaram, em 1997, aproximadamente 800 milhões de dólares.
O acesso dos negros é limitado, como mostra o censo realizado nos Estados Unidos em 1990.
A imigração negra em relação à branca foi muito menor.
Além disso, ocorreu tardiamente e, no geral, sem apoio do país receptor, submetendo quem chega a exercer atividades mal remuneradas.
Vale salientar que a composição racial da imigração de cubanos para os Estados Unidos é de 85% de brancos, 5% de negros e 10% de mestiços.
Como ensinam os números, as remessas enviadas para Cuba são realizadas majoritariamente por brancos, procedentes muitas vezes da antiga burguesia ou da classe média (Fuente, 2000; Domínguez, 2007).
Embora esses dados não tenham relação direta com a questão racial, eles, de certa forma, refletem como as diferenças sociais ligam-se a um viés racial.
Nesse caso, os autores comentam que, dada a limitada participação nas remessas, as oportunidades que os negros têm em participar da economia orquestrada pelo dólar se reduzem à inserção no competitivo setor do turismo, basicamente.
A conveniência e os atrativos dos trabalhos turísticos são tão expressivos que levou um grande número de profissionais a abandonar suas atividades para buscar emprego nessa área, considerada a mais promissora e lucrativa da economia da ilha.
O turismo é um setor em que os negros deveriam ter mais acesso, já que nos anos de 1980 representavam uma proporção considerável da força de trabalho empregada nos hotéis, restaurantes e serviços similares.
Conforme os dados do censo realizado em 1981, 38% dos empregados nesse setor eram negros ou mulatos.
Um percentual ligeiramente superior a sua representatividade na população[6].
No entanto, há cada vez mais indicações de que os negros estão sub-representados no setor de turismo e enfrentam sérios obstáculos para encontrar trabalho e, quando isso acontece, para ascender na escala de cargos e funções.
Todavia, a questão não se resume apenas ao fato de os negros enfrentarem sérios obstáculos para a ascensão profissional, mas também tem relação direta com a redução desse segmento no contingente de profissionais do setor turístico ao longo dos anos.
Os trabalhadores negros não têm que enfrentar somente os preconceitos causados pelos gerentes compatriotas, mas também por aqueles provocados pelos dirigentes de hotéis de outras nacionalidades.
Entretanto, esse enfrentamento traz diversas complicações, posto que os investidores internacionais são de suma importância para o sucesso das políticas de desenvolvimento empreendidas pelo governo.
O governo tem pleno interesse em proporcionar aos investidores estrangeiros um ambiente harmônico, o quanto possível.
Ainda que sejam utilizados organismos oficiais para intermediar as contratações, fica a cargo do administrador do hotel realizar a seleção, contratação e eventual dispensa do trabalhador.
Nesse caso, o governo não possui condições de intervir para que não haja nenhuma exclusão de trabalhadores baseada em critérios raciais.
Dois fatores ajudam a fomentar os efeitos racialmente diferenciados da crise e a aumentar as desigualdades raciais presente no período especial.
Devido à alta concentração de negros em bairros de alta densidade populacional e cujos imóveis apresentavam um estado de deterioração, a abertura de restaurantes familiares, que na época era permitida, não era economicamente possível para as famílias negras.
Outro setor lucrativo, mas em que os negros estão infimamente representados é o agrícola privado.
Nesse período, os brancos representavam 98% dos agricultores privados e 95% dos membros das cooperativas agrícolas.
Esse dado explica o constante aumento do índice de urbanização dos negros (Fuente, 2000).
De acordo com Fuente, a maioria dessas assimetrias que prejudicam o negro cubano não é causada intencionalmente e escapa ao controle governamental.
Para ele, as políticas governamentais implementadas para enfrentar a crise provocaram a polarização social, incluindo uma crescente desigualdade dos rendimentos.
A dolarização da economia, por exemplo, multiplicou os diferenciais de rendimentos segundo a raça, porém o governo não possui nenhum controle sobre a distribuição das remessas que a comunidade cubana residente nos Estados Unidos, como já explicitado, na sua maioria composta por brancos, envia anualmente aos seus parentes e amigos residentes em Cuba.
De qualquer forma, isso não explica a pouca representatividade dos negros no setor de turismo e nas corporações estrangeiras, visto que eles têm atingido os mesmos níveis educacionais que os obtidos pelos brancos, além do que ambos os segmentos compartilhavam, na década de 1980, dos empregos que exigiam maior qualificação.
Em outras palavras, a pouca representatividade de negros no setor de turismo não pode ser explicada em função de condições estruturais.
Em momentos de grandes dificuldades e de extrema disputa por melhores ocupações, as ideologias racistas têm servido para deixar a população negra à margem dos benefícios oferecidos pelos setores mais pungentes da economia.
Apesar da sua posição anti-discriminatória e de suas políticas sociais igualitárias, o governo revolucionário não obteve o sucesso que almejava na criação de uma sociedade sem diferenças raciais, como havia vislumbrado no final da década de 1950.
O silêncio oficial sobre a raça contribuiu para a sobrevivência, reprodução e criação de ideologias racistas e de estereótipos em uma sociedade que, particularmente nos anos sessenta, não se caracterizava como igualitária.
Essa questão, suprimida pelo discurso oficial, ganhou forma e encontrou um terreno fértil nos espaços privados, onde o tópico racial continuou a permear as relações sociais entre colegas de trabalho, amigos, vizinhos e até nos núcleos familiares.
A exemplo do que ocorre no Brasil, os cubanos brancos responsabilizam a história, a escravidão ou qualquer influência externa pelo racismo e discriminação existentes.
A participação parcimoniosa dos negros nos setores mais dinâmicos da economia explica a sua expressiva representatividade no setor informal, que se dá, em grande medida, na ilegalidade. 
Essa crise vivida nos anos de 1990 teve como resultado tensões raciais e sociais crescentes.
Valendo-se de idéias racialmente definidas como a “boa presença” e o “nível cultural”, muitos dos responsáveis pelas contratações têm negado aos negros as mesmas oportunidades dadas aos brancos para exercerem atividades nos setores importantes da economia.
Como ocorre com freqüência, a intensidade dos preconceitos raciais está intimamente relacionada ao grau de importância que é dada ao trabalho desejado.
Ou seja, quanto maior a disputa, maior a evidência em torno do fosso racial (Fuente, 2000).
Existe como comenta Domínguez (2002) uma alta competitividade pelos postos de trabalho de melhor remuneração; competitividade essa inexistente até a primeira metade da década de 1980.
Tal mudança tem gerado a exclusão de negros e mulatos[7] e que pode ser explicada pela manutenção de conceitos classistas ainda não superados na sociedade cubana.
Nesse sentido, a cor da pele tem sido utilizada como um fator histórico herdado das sociedades precedentes para relacionar as pessoas com a pobreza ou a riqueza.
Conforme explicita o autor, um fator que contribui para o exercício do racismo, da discriminação e do preconceito, é o acesso que cada indivíduo tem ao poder[8].
Ele considera que o fato de não existir racismo institucionalizado em Cuba, não isenta a sociedade de praticá-lo, já que cada cidadão possui uma cota de poder; por mais ínfima que seja essa cota lhe capacitará a exercer formas de dominação.
A esse modo, o exercício da discriminação não está relacionado com o poder formal, mas sim, com as redes informais.
E é dessa maneira que ocorrem o “sociolismo”, o “amiguismo” e o “clientismo”.   
Em pesquisa realizada por Malachias (1996) sobre a juventude negra brasileira e cubana, o problema da discriminação sofrida pelos negros cubanos na busca por trabalho teve especial abordagem.
A autora comenta que ouviu várias reclamações a respeito.
Na mesma direção, as entrevistas realizadas por nós em 2004 são esclarecedoras.

A entrevistada relata que: 
(...) geralmente quem irá selecionar não é um negro. Por séculos e séculos quem está na cúpula é o branco. Isso acontecia antes do triunfo da Revolução e agora ainda é assim. Quando selecionam, selecionam a pessoa afim. Aí não há socialismo e sim sociolismo. Se os sócios de quem irão selecionar é branco, então irão selecionar outro branco. E aí os cargos que não possuem divisas serão ocupados pelos negros (Silva, 2004:26).


Relatos de trabalhadores negros cubanos.

Ao longo da pesquisa, os autores referenciados expuseram as condições a que negros e brancos estão submetidos em relação a vários aspectos da vida social cubana.
As entrevistas realizadas trouxeram à baila questões relevantes apontadas pelos entrevistados.

Com relação aos motivos que os levaram a ingressar como trabalhadores no setor de turismo algumas das respostas dadas foram:

Sou professora. No início dos anos 90, as coisas ficaram difíceis, muito difíceis. Tenho dois filhos e o salário que eu recebia não dava para fazer muita coisa. Tinha alguns companheiros que já tinham deixado a escola para trabalhar aqui. Todo mundo queria uma vida melhor. Todo mundo quer ter uma vida melhor. Nós cubanos não podemos reclamar das coisas que temos. Temos educação, temos saúde e não pagamos nada por isso. Sei que em outros lugares as pessoas chegam até a morrer por não ter médicos para atendê-los quando precisam. Aqui, em meu país, não acontece isso. Mesmo assim, a gente não vive só disso. Eu, meus filhos, meus companheiros, meus amigos, queremos ter uma vida melhor. Naquele momento de grandes dificuldades, um jeito de sofrer menos era trabalhar num lugar de maior possibilidade. Onde eu pudesse ganhar dólar, ganhar propina. Queria dar para os meus filhos, mais que os meus pais conseguiram me dar. Meus pais sempre fizeram o que era possível. Tenho seis irmãos e não foi fácil para o meu pai e para a minha mãe cuidar de todo muito, mesmo assim estamos todos aqui. Todos estudaram. No bairro onde eu vivo: Havana Velha, tem muita pobreza. As pessoas passam muita dificuldade. Eu fico triste de ver as pessoas passando por todas essas dificuldades, mas eu não posso fazer muita coisa para ajudar. Quando eu posso, eu faço. Nós cubanos somos assim, vivemos com muitas restrições, mas nos ajudamos uns aos outros... (Entrevistada 1).



Sou formado em eletromecânica. Nos anos 80 eu fui para a Tchecoslováquia. Vivia muito bem lá. Eu era jovem e minha família estava toda aqui. Não tinha motivo para não voltar. Hoje me arrependo por ter voltado. Ter conseguido um trabalho nesse hotel foi muito bom. Você já viu como vive a maioria dos cubanos? Tem muita dificuldade. As pessoas nas ruas estão rindo, mas por dentro elas estão sofrendo. A vida para o cubano é muito difícil. Quem trabalha em um hotel tem muita sorte. Não só quem trabalha em um hotel, mas quem trabalha no setor de turismo, me entende? Não importa se é em um hotel, em um restaurante ou como motorista que atende os turistas. Trabalhando aqui, você é rei. Você sabe quanto ganha um cubano? O que o cubano ganha mal dá para comer. Nós cubanos dormimos pensando como será amanhã. Amo meu país, mas se eu pudesse iria viver em outro lugar. O cubano não vive. Todo mundo fala que temos tudo, saúde, educação, mas, ao mesmo tempo não temos nada, entende? Sou grato a Fidel e a Revolução por tudo que fizeram para Cuba, mas nem tudo é como deveria ser. Consegui trabalho aqui e faço de tudo para não perder. Tenho uma vida melhor, porque trabalho aqui. Vejo as pessoas que vivem no mesmo bairro que eu vivo. Elas sofrem. Todos nós sofremos... (Entrevistado 2).



Sou cozinheiro, formado pela Escola de Altos Estudos do Turismo. Não foi fácil conseguir trabalho aqui, mas não desisti de conseguir. Trabalhar aqui é muito importante para mim. Minha vontade era ir para outro país, mas não é fácil. Trabalhando aqui consigo ter uma vida melhor e dar coisas para os meus pais que eles não teriam condições de ter se eu não estivesse aqui. Todo cubano quer ter mais possibilidades. Não tenho muito dinheiro, mas o que eu ganho aqui deixa a minha vida muito, mas muito melhor que a da maioria dos cubanos. Em outro trabalho, eu não teria como receber propina. Com a propina posso fazer muita coisa. Não ganho a mesma propina que uma pessoa que trabalha em outro setor de hotel. Fico aqui dentro por isso, só consigo receber as propinas coletivas. Quem trabalha arrumando os apartamentos consegue mais coisas, porque pode, além de receber a propina individual, receber a indireta. Eu, algumas vezes recebo a propina indireta e faço com ela o que quero. Essa também é uma maneira de conseguir coisas melhores. Não estou infeliz aqui, mas não deixo a minha ideia de ir para outro país. Tenho uma profissão. Tenho educação. Sei falar inglês e francês, e acho que isso me ajudará muito em outro país. Sei que saindo daqui terei uma vida ainda melhor e poderei ajudar ainda mais a minha família, principalmente meus pais. Tenho amigos na Espanha que estão tentando me ajudar. Também tenho a possibilidade de conseguir sair pelo meu trabalho, se receber um convite para trabalhar num outro hotel da empresa em outro país. Quero conhecer outros lugares. Quero ser livre para ir onde eu quiser e aqui em Cuba, nós cubanos não temos condições para fazer isso. Isso é muito triste... (Entrevistado 3).

Sobre os modos pelos quais os trabalhadores conseguem emprego no setor de turismo, Dominguez (2007) afirma que as informações fornecidas por Ruiz (2003) apontam que os brancos, mais que os negros, conseguem trabalho por intermédio de amigos ou familiares.

A esse respeito, outros entrevistados disseram:

Não foi fácil conseguir esse trabalho. Tenho uma amiga que já trabalhava no setor de turismo, então pedi a ela para me ajudar. Todo mundo quer ter a chance de entrar e cada um procura a melhor maneira para conseguir.  Eu sou advogada e, por isso, foi mais difícil. O governo não aceita que um profissional deixe seu centro de trabalho para trabalhar em outro. Você só consegue se tiver quem ajude você. Aqui em Cuba têm coisas que não se fala, mas todo mundo sabe que acontece e sabe como tem que fazer para conseguir. Aqui se você tiver dinheiro, você consegue muita coisa, entende?. Têm pessoas que até pagam outras para conseguir as coisas. Eu não precisei fazer isso, porque minha amiga me ajudou, mas a gente sabe que muita gente faz isso. Eu demorei três anos para conseguir trabalho no hotel. Como eu trabalhava em outro centro de trabalho, minha chefe teve de dar uma autorização, dizendo que a minha saída não ia prejudicar o desenvolvimento do outro trabalho. Isso também é importante, porque se a pessoa que é sua chefe não aceita a sua saída, você é prejudicado... (Entrevistada 4).



Comecei a trabalhar no hotel em 2003 e não quero sair mais de lá. Só quero sair desse emprego se for para ter uma coisa melhor. Aqui em Cuba, eu não vou consegui nada melhor. Por isso, se eu sair desse emprego é para ir para outro país. Eu quero muito poder conhecer outros lugares. No hotel, a gente vê muita gente diferente, cada pessoa de um lugar, e eu quero poder conhecer outros lugares. Eu procurei trabalho aqui de todas as maneiras. Eu fui à agência empregadora e também falei com muitos companheiros e amigos. Eu sei falar inglês e falar outro idioma ajuda muito. Eu não sou licenciada em nada, eu fiz o ensino profissionalizante de enfermagem e depois estudei na Escola de Altos Estudos. Para trabalhar lá eu não preciso ser licenciada. Eu trabalho arrumando os apartamentos e tenho uma vida melhor que um engenheiro, um professor ou um advogado que trabalha numa empresa estatal.... Eu fui selecionada pela agência empregadora antes de um amigo ou companheiro conseguir uma vaga para mim. Conseguir emprego pela agência é mais difícil que conseguir pela ajuda de alguém. Quem já trabalha aqui conhece os chefes e se você for apresentado por alguém fica mais fácil. Eu não posso reclamar de nada, porque não passo por muitas restrições. Quem tem possibilidades de receber divisa não pode reclamar. A maioria dos cubanos não tem essa possibilidade. O trabalho no turismo é uma mina de ouro para todo mundo, por isso, ninguém quer perder o trabalho quando consegue. A gente recebe propina (gorjeta) e isso ajuda muito. Antes era melhor porque a propina que você recebia era só sua, agora ela é coletiva. Uma parte da propina coletiva é destinada aos setores despossuídos[9] da sociedade... (Entrevistada 5).



Trabalho na recepção do hotel. Consegui o trabalho no hotel com a ajuda de um parente. Ele não trabalha diretamente no hotel. Ele é motorista e trabalha perto do hotel e conhece muita gente que trabalha lá. Ele é uma pessoa muito extrovertida e por isso todo mundo conhece ele e ele conhece todo mundo. Sempre eu falava com ele para conversar com algum companheiro dele para conseguir um trabalho para mim. Ele conversou com o gerente do hotel que é amigo dele e o gerente disse para eu ir até lá e preencher uma ficha. Eu fui e conversei com o gerente também. Eu achei que não ia conseguir porque demorou muito para me chamar, demorou oito meses. Agora, tem três anos que trabalho no hotel. Lá, tem poucos companheiros que começaram a trabalhar sem a ajuda de algum conhecido. Você pode conseguir um trabalho no hotel pela agência, mas fica mais difícil. O cubano não pode ficar esperando muito para conseguir o que quer, porque as dificuldades são grandes e a gente sempre procura uma coisa melhor. A gente sempre procura ter uma vida melhor. Aqui a gente passa muita restrição e todo mundo quer trabalhar no turismo ou numa firma, por isso, todo mundo busca conseguir isso. Se você tem como conseguir mais depressa, melhor. Quando você consegue, tem de fazer tudo para não ser mandado embora. Se você faz alguma coisa errada e é mandado embora, todo mundo trata você como se tivesse cometido um delito... (Entrevistado 6).



Concluindo.
O melhor momento para a economia do país foi aquele em que o governo cubano firmou acordos comerciais com os países do campo socialista.
Nesse período, Cuba ficou entre duas potências.
A norte-americana, que empenhava todos os esforços para desestabilizar o governo, e a URSS, que dava condições para a sobrevivência e autonomia da ilha.
Os anos de parceria entre Cuba e a URSS foram os mais afortunados que o país viveu, nos quais o desenvolvimento social e econômico foi atingido de maneira incontestável.
Nos anos iniciais da década de 1990, o bloco socialista se desmantelou e, com ele, a estabilidade da economia cubana.
O fim da URSS serviu para explicitar a dependência da ilha em relação a seus parceiros.
Os impactos foram rapidamente sentidos nos âmbitos econômicos e sociais, já que uma crise sem precedentes atingiu com grande força o país, provocando a queda do Produto Interno Bruto, a redução da atividade comercial e a desaceleração das políticas sociais.
Nesse novo cenário, uma nova postura política e econômica teve de ser adotada pelo governo.
Com isso, entre outros pontos, foi iniciada uma abertura econômica, a qual possibilitou a entrada de capital estrangeiro na ilha.
Naquele momento, a captação de recursos internacionais era de suma importância para a luta contra a estagnação total da economia e para amenizar as perdas sociais sofridas pela população.
Neste novo contexto, o setor do turismo se tornou peça chave para se atingir os objetivos pretendidos.
A atenção dada ao turismo internacional foi significativa, já que o maior volume de recursos seria conseguido, primordialmente, por essa via.
Com isso, foram criadas empresas mistas com corporações pertencentes a vários países, gerando essas associações um grande dinamismo para a atividade.
Além da abertura no setor de turismo, foi permitido o desempenho das atividades autônomas, e uma outra forma de captação de recursos, a remessa recebida por parentes e amigos residentes no exterior deixou de ser penalizada, já que o montante recebido pelos cidadãos são extremamente importantes para a economia nacional. 
O desenvolvimento das atividades turísticas acarretou para o país um dinamismo na economia, uma vez que os investimentos ocorridos no setor provocaram o incremento de outras áreas importantes da economia.
No período de maior dificuldade enfrentado pela sociedade cubana, o chamado “período especial”, a busca por melhores condições de vida foi, destacadamente, o objetivo da maioria da população.
Daí porque os postos de trabalho existentes no turismo, os quais se configuravam e se configuram em importante instrumento para obter melhores condições de vida, se transformaram em um dos principais mecanismos para se enfrentar as restrições vividas por numeroso percentual da população.  
Foi nesse momento que ressurgem desigualdades entre negros e brancos.
Os autores dos quais nos valemos para referenciar nosso trabalho apontam que as desigualdades, após 1959, continuaram existindo, mas o que as diferencia daquelas dos anos anteriores, é o fato de estarem suplantadas pela ideologia que propaga a igualdade entre todos. 
Neste sentido, uma questão que é colocada por Esteban Morales Dominguez é a importância dada pela população negra para a identidade individual e nacional.
Ao iniciar-se o governo revolucionário, a diversidade racial foi eliminada e todos, sem restrições, passaram a ser cubanos.
Entretanto, como pode ser observado, a cor da pele é um diferencial entre os nascidos na ilha.


Para saber mais sobre o assunto.
CANO, W. Soberania e política econômica na América Latina. São Paulo: UNESP, 2000.
CEPAL. La economía cubana: reformas estructurales y desempeño en los noventa. México: Fondo de Cultura Económica, 1997.
DOMÍNGUEZ, E. M. “Un modelo para el análises de la problemática racial cubana contemporánea” In: Catauro (Revista cubana de antropologia) n°6, ano 4. La Habana: Fundación Fernando Ortiz, 2002, p.52-93.
DOMÍNGUEZ, E. M. Desafios de la problemática racial en Cuba. La Habana: Fundación Fernando Ortiz, 2007.
FUENTE, A de L. “Raça e desigualdade em Cuba, 1899-1981” In: Estudos Afro-Asiáticos n°27. Rio de Janeiro: UCAM, 1995, p.07-43.
FUENTE, A. de L. Una nación para todos: raza, igualdad y política en Cuba, 1900-2000. Madrid: Editorial Colibri, 2000.
MALACHIAS, R. Ação transcultural: a visibilidade da juventude negra nos bailes black de São Paulo (Brasil) e Havana (Cuba). São Paulo: USP. Dissertação (Mestrado), 1996.
RUIZ, J.S. Los efectos sociales de la crisis en Cuba. La Habana: INIE, 2003.
SILVA, W.C. Oportunidades e barreiras: o negro no contexto social brasileiro e cubano. São Paulo: USP, 2004. Dissertação (Mestrado).
ZARUR, G. Nação e multiculturalismo em Cuba: uma comparação com os Estados Unidos e o Brasil. 2011. Disponível em http://www.georgezarur.com.br/pagina.php/101 Acesso em 07/11/2011.


Texto: Prof. Dr. Wanderlei de Oliveira Clarindo da Silva.
Doutor em Sociologia pela Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP. Pesquisador do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro da Universidade de São Paulo (NEINB/USP).
Membro do Conselho Editorial de Para entender a história...



[1] Em 1981, foi realizado em Cuba um censo demográfico no qual configurava o quesito cor/raça. Nele, os números demonstravam que: 67% eram brancos e 33% eram negros. Os demais censos realizados posteriormente não continham tal informação. Atualmente, esses números não condizem com a realidade, conforme pude perceber por meio dos relatos feitos por cubanos no período em que estive em Havana coletando dados e informações para compor a dissertação. De acordo com informações obtidas, foi realizado um censo em 2002, no qual o quesito cor/raça foi novamente incluído. Dados fornecidos por Domínguez (2007) em relação ao censo de 2002 apontam que: 10,1% são negros e 24,9% são mulatos.
[2] São considerados “bens de cidadania” educação, saúde e habitação.
[3] Pagamentos em moeda conversível ou a possibilidades de se receber gorjetas em dólares.
[4] Cf. Quadros (2003) que menciona a questão da crescente exigência de escolarização para que o trabalhador tenha êxito na sua inserção e ascensão naqueles segmentos do mercado de trabalho considerados como os melhores. Ao prosseguir em sua análise, o autor complementa dizendo que isso vem de encontro a uma trajetória histórica de “monopólios sociais”, ou seja, que reserva aos membros das classes mais abastadas um percurso escolar mais prolongado e de qualidade.
[5] Nesta seção nos valemos fundamentalmente dos escritos de Fuente (2000).
[6] Domínguez (2007) diz que os dados disponibilizados pelo censo de 1981 não são confiáveis, visto que a maneira como foi realizado levanta várias suspeitas.
[7] Para Zarur (2011), “a raça poderá voltar a ser um ‘não problema’, em função das novas oportunidades abertas a todos com a recuperação da economia cubana”.
[8] Na definição de Zarur, poder é: “a capacidade de um indivíduo, grupo ou classe para fazer valer seus interesses. Não é necessário que a pessoa, grupo ou classe se encontre em uma posição institucional de poder para estar com capacidade de exercer a discriminação” (2011:8).
[9] De acordo com a entrevistada, esses setores despossuídos concernem aos centros de reabilitação. Geralmente, um percentual das propinas (gorjetas) coletivas é destinado aos centros que ficam nas proximidades do hotel.