Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

domingo, 30 de outubro de 2011

Balanço do mês de outubro de 2011 - Para entender a história...


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume out., Série 30/10, 2011, p.01-03.


No mês de outubro recebemos 158.591 visitas, novamente um novo recorde, totalizando pouco mais de 827.000 visualizações desde 13 de agosto de 2010.
O ápice de acessos foi registrado no dia 24/10, quando tivemos 9.062 visitantes em único dia, mais um recorde.
Na verdade a média diária de visitas durante os dias uteis passaram para média superior pelo menos 6.000 visualizações.



Neste mês recebemos e publicamos quatro colaborações, respectivamente de autoria de:
1. Andreza Viviane Granzioli, com um artigo sobre a construção cultural do corpo feminino no âmbito da educação física.

2. Fabiana Antônia de Freitas Melo, discutindo a questão da motivação como fator determinante no PROEJA.

3. Jorge Donizetti Pereira, com um excelente texto sobre a estética das catedrais góticas.

4. Claudio Roberto Gavério, com um original artigo sobre o cinema filosófico.

Aproveitamos a oportunidade para agradecer, como sempre, as colaborações e parabenizar todos pelos textos, estendendo o convite aos demais leitores para remetam artigos para submissão.

Os interessados devem enviar artigos dentro dos parâmetros fixados nas normas de publicação disponíveis no link “Colaborações”.

Mudando o foco, como sempre, outro dado interessante em outubro foi o aumento no número de seguidores, subiu de 128 pessoas para 140.
Para os leitores que ainda não estão seguindo a publicação, lembramos que basta clicar no link “participar deste site” e aceitar as orientações decorrentes.
Os seguidores ficam informados sobre atualizações e ajudam a trazer maior prestigio a publicação com sua ilustre presença.

Finalizando este mês de outubro, agradecendo os leitores que votaram na publicação junto ao prêmio Top Blog, fomos classificados para a segunda fase, agora passaremos pelo julgamento de um júri técnico.
Além disto, os votos da primeira fase foram zerados, assim pedimos a gentileza de que os leitores que já votaram na fase anterior votem novamente agora.
Agradeceremos a colaboração também daqueles que ainda não votaram, basta clicar no link no inicio da página e seguir as instruções.

Neste mês de outubro, as postagens mais populares, respectivamente, com o nome do autor e numero de acessos, foram:

01. Educação, família e sociedade: Fábio Pestana Ramos (18.229).
02. 1964: o golpe de Estado e a ditadura militar: Fábio Pestana Ramos (7.205).
03. A revolução francesa foi causada pela fome: Fábio Pestana Ramos (6.674).
04. A revolução cubana e suas implicações: Eliane Santos Moreira (4.123).
05. A educação no Brasil Império: Fábio Pestana Ramos (3.652).
06. O imperialismo europeu no continente africano: Victor Mariano Camacho (3.311).
07. A passagem da antiguidade para o feudalismo: Fábio Pestana Ramos (3.071)
08. Os astecas e os sacrifícios humanos: Marcus Vinicius de Morais (3.021).
09. A formação do planeta terra: Fábio Pestana Ramos (2.294).
10. A atuação dos escravos de ganho na organização da cidade do Rio de Janeiro no século XIX: Cinthia Bourget Fortes Genestra (1.157).

A partir de novembro, muda parcialmente a sistemática de publicações, o editor publicará apenas um artigo no inicio do mês, abrindo a edição do volume, independente do dia da semana, esporadicamente publicando outros artigos aos sábados.
As segundas-feiras e terças-feiras ficam destinadas a publicação de colaborações, abrindo um espaço maior para divulgação de novos artigos de leitores.
As quartas-feiras e quintas-feiras ficam reservadas para a publicação de artigos de membros do conselho editorial e convidados.


Agradecemos os leitores e desejamos um bom divertimento.

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Editor de Para entender a história...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cinema Filosófico: a filosofia como instrumento da criação de obras cinematográficas.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume out., Série 25/10, 2011, p.01-14.


Este artigo pretende demonstrar como a filosofia está presente no cinema e como esta tecnologia pode contribuir para o conhecimento, para a sabedoria, para o bem viver!
Afirmamos que o cinema é a representação da mente humana, uma vez que não há pensamentos sem imagens.
E a representação de tais pensamentos se encontra na estrutura básica e essencial do cinema, ou seja, o roteiro.
Várias teorias filosóficas serão apresentadas como instrumento da criação de um roteiro e, concomitantemente, da obra cinematográfica denominada de filme. 
O método foi bibliográfico, com obras literárias a respeito do cinema e de filmes hollywoodianos, escritas por diversos filósofos contemporâneos.
Também diversos filmes foram pesquisados, aqueles aclamados pela opinião pública, em todos os gêneros: aventura, policial, ficção, drama, terror, etc.


Questões iniciais.
O que é o cinema?
Entretenimento, diversão, mundo da fantasia, mundo dos sonhos, mundo das ilusões? Não! O cinema camufla conceitos filosóficos.
Trata-se de uma reflexão da vida, da experiência humana neste grande universo em que vivemos.
Se escavarmos a estrutura básica e essencial do cinema, isto é, o roteiro, veremos a filosofia como instrumento da criação de histórias que atraem milhões de pessoas à grande sala escura.

São obras que disponibilizam resoluções, respostas e maneiras de ver a vida sob diferentes óticas.

Tal como a literatura, a música, o teatro, o cinema como a sétima arte do mundo contemporâneo, cumpre o seu papel de apresentar os pensamentos em imagens, em grandes imagens, que transportam o telespectador a uma projeção de sua própria existência.
Conforme afirmou Aristóteles, “Não há pensamento sem imagens”, o cinema é a representação da mente humana, tal como as máquinas, a representação do corpo humano.
O homem reproduz em seu meio aquilo que ele é.


O homem reproduz o que ele é.
Desde a máxima do Oráculo de Delfos, “Conhece-te a ti mesmo”[i], o homem vem conhecendo seu mundo e, concomitantemente, a si mesmo.
Tenta, através dos recursos disponíveis em sua natureza, mapear sua existência, dando-lhe significados para o entendimento.
Não há mundo humano sem conhecimento, não há mundo humano sem o entendimento.
E por tratar-se de si, não há conhecimento sem antes conhecer-te a si mesmo.
O que é o homem?
Eis a pergunta que fazemos constantemente, cujas respostas nem sempre agradam e sim nos colocam sob novas perguntas, muitas sem respostas, mas perguntas que são como uma espécie de motor que nos movem neste fenômeno chamado vida!
Se levarmos em conta a história da humanidade, veremos que a experiência, colhida pelos sentidos, derrubou muitas visões que o homem tinha de sua própria existência.
Podemos citar, então, o geocentrismo derrubado pelo heliocentrismo, tirando o planeta Terra do centro do Universo – logo, o próprio homem; a versão bíblica da criação do mundo, no livro Gênesis, derrubada pela Evolução das Espécies de Charles Darwin, tirando-o do centro da criação divina; a consciência como faculdade suprema e máxima do homem pela existência do inconsciente humano descoberto por Sigmund Freud - tirando-o do centro de suas escolhas e decisões.
Também a natureza humana vista como “guerra de todos contra todos”[ii], apresentando um animal-homem que “é o lobo do homem”,  segundo Thomas Hobbes.
Interessante notar que Hobbes inspirou-se no próprio homem, como organismo vivo, para criar o Leviatã, um organismo artificial, cuja alma seria o poder soberano.
Faz uma analogia entre os súditos que tem autoridade do soberano “para instruir como para julgar o povo”, comparando-os aos “órgãos da fala num corpo natural”[iii].
Se retrocedermos ainda mais na História da Filosofia, veremos os primeiros pré-socráticos, como Tales de Mileto, que considerava a água como origem de todas as coisas.
Semelhança notável sem o estudo da medicina contemporânea que afirma que o corpo humano é composto de 80% de água, tal como o planeta Terra.
Um atlas de anatomia humana, que realça o sistema circulatório, assemelha-se a um atlas fluvial. Há semelhanças visuais bem específicas.
Platão apercebeu-se desta sabedoria interna, ao comparar as ações físicas do homem, isto é, sua ação no mundo sensível, com aquilo que este mesmo homem traz dentro de si (aqui vemos que todas as teorias a respeito do homem condizem com o que ele é; o leviatã é um organismo artificial, um reflexo do organismo natural – corpo do homem; em Tales a origem de tudo é a água e comparo com o atlas humano e o atlas fluvial da terra, e percebemos a semelhança da corrente sanguínea com a corrente dos rios; em Platão, o que pretende na república, acontece dentro do corpo humano.
O homem criou suas teorias e encontrou suas respostas quando reproduziu seu próprio corpo e sua própria mente, mesmo sem ter uma noção profunda de suas estruturas. Galileu não teria criado a teoria do heliocentrismo sem a luneta (uma ampliação do olho humano).
Charles Darwin não teria criado sua teoria da evolução das espécies sem o navio (uma ampliação do corpo humano) e pudesse viajar e observar os animais que sofriam mutações e evoluções.
Freud não teria descoberto o inconsciente humano sem o estudo dos sonhos, isto é, sem o conhecer-te a ti mesmo.
O Leviatã é o Estado criado segundo o corpo humano, com as hierarquias...
Ao pousar nossos olhos sobre a sociedade humana podemos perceber grande semelhança com o corpo humano.
Se na pólis seus cidadãos eram formados segundo suas próprias aptidões, como por exemplo, os marceneiros, os ferreiros, os pedreiros, os padeiros, os costureiros, os médicos, os filósofos, os governantes, os mercadores e etc., cada qual tinha um conhecimento específico.
Assim também encontramos no corpo humano células especializadas que desempenham suas funções segundo seus “próprios conhecimentos”; as células hepáticas, as células pancreáticas, as células cardíacas e pulmonares, as células nervosas e etc.
O homem representa no seu mundo externo o que há no seu mundo interno. “Conhece-te a ti mesmo”.
E citando o mito mais importante e conhecido da antiguidade, o Mito da Caverna de Platão, observaremos que os olhos, a visão de mundo, a percepção que seria tratada com maior acuidade pelos filósofos modernos, a epistemologia, condiz com o prisioneiro que se liberta das opiniões e crenças, como por exemplo o geocentrismo, Adão e Eva e a verdade revelada por Deus, sendo o homem responsável por todas as suas decisões (o livre-arbítrio) e ascende para o verdadeiro mundo iluminado pelo sol que, a princípio fere seus olhos – as repostas podem ser totalmente contrárias daquilo que pensamos, e nem sempre agradam - e que, com o tempo, adaptando-se com a luz, com a claridade, conhece o mundo sensível, tal como ele realmente é – as ciências decifraram grandes enigmas que pertubavam o homem, como por exemplo, o microscópio que o permitiu descobrir as bactérias e vírus causadores da maior parte das doenças, que antes eram vistas como castigo divino ou obra do diabo.
No mundo do conhecimento, do entendimento, a visão pode ser definida como a mais importante e essencial causa do conhecimento, seja no sentido conotativo, seja no sentido denotativo.
Ainda em Platão, podemos ver que o Demiurgo contempla e vê as idéias perfeitas e as reproduzem, fazendo cópias...
Na História da Filosofia Medieval, Agostinho de Hipona, afirmou: “Deus, com efeito, criou o mundo conforme a razão e, portanto, criou cada coisa conforme um modelo que ele próprio produziu com o seu pensamento, e as Idéias são justamente estes pensamentos-modelo de Deus, e como tais são a verdadeira realidade...”.  
E na História da Filosofia Moderna, René Descartes colocará em dúvida todo o conhecimento humano para chegar numa única certeza: “penso, logo existo”; observamos sua visão filosófica quando compara as construções de uma cidade e percebe que aquelas que foram edificadas por vários engenheiros não são as mais belas e harmoniosas, ao contrário, aquela construção que foi edificada por um único arquiteto, produz toda a harmonia e beleza da própria construção. Lembremos também que ele cita os argumentos dos Erros dos Sentidos, Do Sono e Da Vigília e do Gênio Maligno, que nada mais são do que visões que compõem sua dúvida hiperbólica. Conforme Aristóteles, discípulo de Platão, não há “pensamento sem imagem”.
A arte é uma manifestação desta premissa.
Como por exemplo, “a palavra pessoa é de origem latina; para os gregos, pessoa era prósopon, que significa face, ao passo que persona, em latim, significa disfarce ou aparência exterior de um homem imitado no palco... como a máscara...”[iv]. 
Vemos as obras de artes, como a literatura, a pintura, a arquitetura, a música, o teatro, a televisão e o cinema como representações externas do homem interno.  
Se antes Homero e Hesíodo cantavam seus poemas épicos, acionando na grande tela mental de seus ouvintes a história da humanidade, no decorrer dos tempos a arte imprimiu em nossa tela mental histórias que condizem com a nossa própria existência humana.
E o homem reproduziu essa façanha da mente humana em operar e mover com imagens: primeiramente com desenhos em cavernas; depois com o estilo da pintura em quadros e paredes; representando personagens no palco do teatro; registrando recortes de sua própria vida quando surgiu a câmera fotográfica; e contando diversas histórias quando surgiu a câmera televisiva.
E o cinema é ampliação da televisão.
Ambos são possíveis em nosso mundo porque o homem conseguiu imitar o olho humano, a visão humana.
Em outras palavras, representar exteriormente o que há nele próprio, imanente, ou seja, sua visão, seus olhos.
As câmeras que produzem filmes são os olhos artificiais, tais como o som, a fala, os ouvidos e a boca.
Tal tecnologia é responsável pela produção de filmes que nada mais são do representações de idéias e de pensamentos.

Citando Hobbes: “A Natureza (a arte com a qual Deus fez e governa o mundo) é imitada de tal maneira, como em muitas outras coisas, pela arte do homem, que esta pode até mesmo criar um animal artificial. E sendo a vida um movimento de membros cujo início se verifica em alguma parte dos mesmos, por que não poderíamos dizer que todos os autômatos (artefatos que se movem por si mesmos por meio de molas e rodas, como faz um relógio) têm uma vida artificial? O que é, na realidade, um coração, senão uma mola; e os nervos, senão diversas fibras; e as articulações, senão várias rodas que dão movimento ao corpo inteiro, da maneira como o Artífice o propôs? A arte vai mais além, imitando essa obra racional que é a mais excelsa da Natureza: o homem”.[v]

E o que são os olhos artificiais senão o cinema?
“Conhecer-te a ti mesmo” continua sendo a máxima do Oráculo de Delfos em nossos dias atuais, onde o conhecimento passa a ser assistido numa grande obra cinematográfica, e o Oráculo de Delfos, uma grande sala escura com uma grande “telona”...


Concluindo.
“Alguns homens residem numa caverna, com uma entrada aberta para a luz... Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa elevação, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro... Veja também ao longo deste muro homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados... Quando um dos transeuntes falasse, julgariam que era a voz das sombras...” [vi]

Tais prisioneiros acreditam que as sombras projetadas diante de si são a pura realidade, mas que na verdade e como o próprio mito exemplifica, trata-se de ilusões e concomitantemente de opiniões e crenças.
Há muitos que comparam o cinema com as projeções do fundo da caverna...
Trata-se de obras cinematográficas, filmes e, portanto, apenas histórias contadas que não tem nada haver com a realidade (com exceção de casos verídicos).
Tais como os contos de fadas, os relatos bíblicos e outros religiosos que encontramos nas diversas religiões.
No entanto, os mitos, aforismos e metáforas também são histórias contadas, fantasiosas, imaginárias, irrealistas, com elementos exagerados e que sabemos não existir na realidade cotidiana.

Porém, nas profundezas da sua simbologia encontramos verdades e fatos, bem como conhecimentos que nos dizem respeito e que nos transportam para o significado da existência humana.

Tal exemplo é o famoso Complexo de Édipo que Freud serviu-se para explicar a rivalidade do filho para com o pai. 
E aqui nos deparamos com a interpretação, com a direção do olhar, com a educação do olhar que Platão expõe no Mito da Caverna.
O filósofo seria aquele que se desvencilha das algemas e dos grilhões que o prendem desde sua infância numa caverna sombria, para a luz da verdadeira realidade, para o campo aberto, para o horizonte imenso lá fora.
O sol, a luz que permite que se vejam as coisas, a luz que permite conhecer a verdade, mas que no princípio causa dor, sofrimento, que fere os olhos, mas que com o tempo surge à adaptação e a liberdade... 
E não seriam as câmeras os olhos que filmam uma grande história, projetada numa grande tela, numa grande sala escura, que se passa por nossos próprios olhos ou então que condiciona ou educa o olhar para uma perspectiva única e singela?
Notemos, também, que as sombras são reflexos da realidade e as histórias, reflexos dos acontecimentos.
Desta maneira, podemos concluir que o cinema, embora interpretado como reflexo da realidade, a sombra de uma realidade específica, quando se trata de um filme sobre alguém ou alguma coisa, ou a sombra de uma idealização, de um sonho, de uma fantasia, não deixa de apresentar idéias e pensamentos que foram técnica e logicamente unificadas numa linha linear denominada de roteiro cinematográfico.
Mergulhar nas profundezas do cinema é deparar-se com o roteiro, onde a história e o filme estão, primeiramente, construído fisicamente.
Em outras palavras, deixou o mundo das idéias para ser um plano físico de produção – o mundo dos sentidos.
Aqui se encontra a diferença de Platão e Aristóteles, quando este afirma que só conhecemos através dos sentidos; que nossas idéias foram formadas pelos que nossos sentidos apreenderam do mundo físico.
E é isto que contém o roteiro: idéias que o roteirista formulou através dos seus sentidos.
Como todos os filósofos que representaram suas idéias através da realidade em que estavam inseridos!
O roteiro é uma estrutura.
É uma construção de idéias e pensamentos em imagens.
Foi Aristóteles o primeiro a afirmar que “o pensamento é impossível sem uma imagem”.
Se olharmos para dentro de nós mesmos e pensarmos em nossa vida, isto é, em algum fato passado ou mesmo num fato provável no futuro, observaremos que teremos uma imagem de nós mesmos fazendo alguma coisa.
Esta imagem pode ser uma fotografia, uma cena em movimento, colorida ou preto-e-branco.
A Programação Neurolinguística (PNL) expõe esse mecanismo e até ensina como alterá-lo para darmos mais significado em nossas relações internas e até mesmo modificá-las.
Assim, a estrutura do roteiro permite que todas as cenas, todas as imagens que serão filmadas, por mais diversas que sejam se tornem unificadas num todo. 
E é aqui que a lógica surge para dar sustentação e coerência na história que será contada.
Os princípios de não-contradição e identidade, o terceiro excluído e causalidade, serão relevantes na seqüência visual das ações dos personagens, conduzindo o telespectador a vivenciar uma história.
Se um desses princípios for negligenciado ou até mesmo transgredido, toda a história, o todo, será ineficiente comprometendo a razão da própria obra.
É a lógica que torna um filme bom ou ruim.
Assim, e conforme Syd Field, um dos maiores roteiristas de Hollywood, “se o roteiro é uma história contada em imagens, então o que todas as histórias têm em comum? Um início, um meio e um fim, ainda que nem sempre nessa ordem”.[vii]
São os três atos Shakespeariano: Ato I, Ato II e Ato III; Introdução, Desenvolvimento e Conclusão; Tese, Antítese e Síntese.
A linha linear do roteiro é composta de 03 atos, onde estão as três unidades de ação dramática definida por Aristóteles: tempo, espaço e ação.
Um filme hollywoodiano tem a duração, em média, de 120 minutos ou duas horas.
A história é ação, está inserida no tempo e no espaço.
Como a própria vida.
A semelhança do cinema com a vida é sutil.
No primeiro ato, o início, são apresentados os personagens, o local, o tempo e sua premissa dramática: o que o personagem irá vivenciar.
Podemos exemplificar melhor ao determinar o objetivo do personagem ou a idéia central da sua vida.
No Plot Point ou o “ponto de virada” trata-se de um evento, um obstáculo, uma dificuldade, algo que irá reverter a história em direção contrária.
Assim, se o personagem está para casar-se, este “ponto de virada” pode ser a descoberta de um passado sombrio de seu parceiro ou até mesmo a descoberta de uma traição.
O Ato II, o meio, é a confrontação.
Aqui reside a luta dos contrários de Heráclito: "Tudo se move","tudo escorre" (panta rhei), nada permanece imóvel e fixo, tudo muda e se transmuta, sem exceção”[viii].
A vida é uma constante batalha dos opostos, da vida e da morte, do bem e do mal, de alcançar os objetivos que tanto almejamos ou perder o interesse para tal, e tudo isto nos conduz à frente, ao futuro, à ação e reação, enfim, à resolução e à conclusão.
A cada obstáculo que o personagem sofre e luta, vence ou perde, enriquece sua vida através das mudanças tanto das circunstâncias quanto dele mesmo... ou não! "Não se pode descer duas vezes no mesmo rio...”[ix].

Reale e Antiseri comenta sobre esta famosa frase da seguinte maneira: “É claro o sentido desses fragmentos: o rio é "aparentemente" sempre o mesmo, mas,"na realidade", é constituído por águas sempre novas e diferentes, que sobrevém e se dispersam. Por isso, não se pode descer duas vezes na mesma água do rio, precisamente porque ao se descer pela segunda vez já se trata de outra água que sobreveio. E também porque nós próprios mudamos...”[x]

A história tem que ser lançada à frente.
Como o personagem irá resolver todas as questões que se apresentam?
Como vencerá todos os obstáculos e dificuldades?
"A guerra é mãe de todas as coisas e de todas as coisas é rainha."[xi]
Joseph Campbell, o maior mitólogo do mundo, em sua obra O Poder do Mito, disse: “Zorba diz: Dificuldade? A vida é dificuldade”.[xii]
Zorba é o personagem do romance de Nikos Kazantzaki, Zorba, o grego, interpretado no cinema por Anthony Quinn.
No filme A Volta do Todo Poderoso, com Morgan Freeman no papel de Deus, há uma cena que explica sabiamente tal conflito.
Em um restaurante está a esposa e os três filhos do “Noé de Nova York”.
Eles estão partindo, incrédulos de que Deus havia-lhe ordenado a construção de uma arca em plena Nova York e em pleno século XXI. 

Aparece o garçom (Morgan Freeman) que nada mais é do que Deus disfarçado: “Se você pedir a Deus amor, você acha que Deus vai lhe dar amor? Deus lhe dará a oportunidade para amar! Se você pedir coragem, lhe dará a oportunidade de ser corajoso! Se pedir força, lhe dará a oportunidade de ser forte!” Onde é possível desenvolver o amor senão em ambiente de ódio? Pode a coragem ser desenvolvida em ambiente tranqüilo, calmo, sereno?
A vida teria mais valor diante da morte iminente?
"A guerra é mãe de todas as coisas e de todas as coisas é rainha.".
Outra analogia que podemos utilizar é o Apeíron de Anaximandro. 
Se tomarmos a linha linear do roteiro, onde a história se mantém coesa, como um todo, podemos observar que esta unidade é o Tempo, o juiz que Anaximandro revela como aquele que decide qual dos opostos prevalecerá.

Anaximandro diz que os opostos e os contrários separaram-se do Todo, do Princípio, que ele denomina de Apeíron.

O fato sucedeu-se por que tais opostos tomaram forma determinada, individualizada e indiferenciada.

No decorrer do tempo da vida, tais qualidades estarão em constante guerra e conflito para, desta forma, existirem no mundo físico e real, no mundo determinado pelo tempo. Porém, apenas uma qualidade poderá existir.
Anaximandro é claro ao afirmar que a morte do oposto é o seu retorno ao Apeíron, de onde se separou e, por isso, se fez justiça.
O Ato II do roteiro revela toda esta teoria.
Ao ouvir Deus, a esposa do “Noé de Nova York” toma seus filhos e retorna para casa.
A discórdia e a dúvida presente em sua mente morre para dar lugar à certeza provinda de tal reflexão.
Os conflitos, os obstáculos, os sofrimentos, os problemas, enfim, a guerra dos contrários e dos opostos é o que move o filme, assim como a vida.
“O ser é e não pode não ser; o não-ser não é e não pode ser de modo nenhum”[xiii], Parmênides.
No terceiro ato, resolução, vamos assistir como a história termina, se com final feliz ou não.
É no final que compreenderemos os motivos pelos quais o personagem teve que sofrer o que sofreu.
“O fim a tudo coroa”, conforme William Shakespeare.  
As razões e causas dos acontecimentos servirão aos telespectadores como uma lição de vida.
Em duas horas de filme, aproximadamente, apreendemos uma vida inteira (a do personagem) e ganhamos as suas experiências, adquirimos seus conhecimentos, opções de resolutividades e de escolhas, que poderão ser útil ou não em determinado momento de nossas vidas. Identificamos com certos personagens.
Aprendemos mais sobre nós mesmos.
Refletimos. Conforme Sócrates: “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”.  
Na Folha de São Paulo de 06 de Julho de 2010, o psiquiatra Vitor Hugo Sambati Oliva, que pesquisa cinema e psiquiatria na Faculdade de Medicina da USP, afirmou que “a arte instiga a pessoa a uma reflexão e a ajuda a se conhecer melhor...”[xiv]
O cinema, como a sétima maravilha do mundo, é esta arte! É uma reflexão da vida e da experiência e, portanto, dos pensamentos que são imagens.


Para saber mais sobre o assunto.
PLATÃO. A República. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda., 2000.
JAEGER, WERNER. Paidéia, A formação do Homem Grego. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 2003.
CAMPBELL, JOSEPH. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 27ª Edição, 2009.
FIELD, SYD. Manual do Roteiro. Rio de Janeiro: Editora Objetiva Ltda, 1995. 
CHAUI, MARILENA. Introdução à História da Filosofia – Dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Companhia das Letras, Vol. I, 2ª Edição, 2004.
CHNAIDERMAN, MIRIAM. Loucura nas Telas. Jornal Folha de São Paulo: Terça-Feira, 06 de Julho de 2010, Caderno Equilíbrio.
HOBBES, THOMAS. Leviatã. São Paulo: Editora Martin Claret Ltda, 2009.
REALE, GIOVANNI. ANTISERI, DARIO. História da Filosofia 1: Filosofia Pagã Antiga. PAULUS, 2ª Edição, 2005.


Texto: Claudio Roberto Gavério.
Aluno da Licenciatura em Filosofia do Centro Universitário Claretiano.
Técnico em Enfermagem integrado ao CAPS-AD (Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e Drogas) na cidade de Santa Rita do Passa Quatro (SP).


[i] REALE, GIOVANNI. ANTISERI, DARIO. História da Filosofia 1: Filosofia Pagã Antiga. Paulus, 2005, p.95.
[ii] HOBBES, THOMAS. Leviatã. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009, p.95.
[iii] Idem, Ibid, p175.
[iv] Idem, Ibid., p.118.
[v] Idem, Ibid, p.17.
[vi] PLATÃO. A República. São Paulo: Editora Martin Claret, 2000, p.210.
[vii] FIELD, SYD. Manual do Roteiro. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1995, p.02.
[viii] REALE, GIOVANNI. ANTISERI, DARIO. História da Filosofia 1: Filosofia Pagã Antiga. Paulus, 2005, p.22.
[ix] Idem, Ibid, p.22.
[x] Idem, Ibid, p.22.
[xi] Idem, Ibid, p23.
[xii] CAMPBELL, JOSEPH. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 2009, p.68.
[xiii] REALE, GIOVANNI. ANTISERI, DARIO. História da Filosofia 1: Filosofia Pagã Antiga. Paulus, 2005, p.33.
[xiv] CHNAIDERMAN, MIRIAM. Loucura nas Telas. In: Jornal Folha de São Paulo: Terça-Feira, 06 de Julho de 2010, Caderno Equilíbrio, p.07.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A netiqueta e a filosofia: ética e etiqueta no ambiente virtual.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume out., Série 24/10, 2011, p.01-14.


A sociedade da informação, com o advento da banda larga e a popularização do uso da internet, fomentou o surgimento de novas ferramentas educacionais baseadas em blogs, revistas eletrônicas e no ensino EAD.
Para regular as relações estabelecidas entre as pessoas surgiu o que se convencionou chamar de netiqueta, normas não oficiais de comportamento cordial.
Neste sentido caberia perguntar se esta constitui também um código de ética que pode facilitar a efetivação da virtualidade educacional, regulando relações pedagógicas na internet?
Em caso afirmativo, poderia ser estabelecido um vinculo entre netiqueta e cidadania?
As pessoas estão preparadas para lidar com a internet como meio de integração educacional?
Questões que multiplicam as perguntas.
O sistema educacional formal institucionalizado consegue lidar com a internet como ferramenta?
Onde entra a netiqueta no ensino básico e superior?
Como preparar os educandos para conviver em harmonia com outros indivíduos e a construção coletiva do conhecimento em ambiente virtual?
Baseado no método lógico dedutivo, em pesquisa bibliográfica e documental, além de constatações empíricas, propomos realizar neste artigo uma discussão inicial em torno destas questões, com o objetivo de conduzir a introdução da questão da netiqueta como reguladora das novas relações educacionais estabelecidas virtualmente pela internet.
Os resultados parciais alcançados pela pesquisa demonstram que existe uma desatualização da LDB e dos PCNs para lidar com a virtualidade educacional.
Ao passo que propomos como solução provisória a este problema a abordagem da netiqueta como conteúdo a ser integrado ao ensino de filosofia na educação básica, ensino médio e superior.


A netiqueta.
Dentro do âmbito da sociedade da informação, em um ambiente globalizado, onde o acesso as informações e a produção e divulgação do conhecimento foi democratizado, com a educação sendo cada vez mais transposta para o âmbito virtual, torna-se necessário discutir o que se convencionou chamar de netiqueta.
O termo “netiquette” foi criado pela norte-americana Judith Kallos, uma consultora do wordpress, em 1988 (Artigo Netiqueta).
Prestando serviço para empresas com negócios on-line nos Estados Unidos da América, ainda durante o advento da internet discada, ela percebeu que o mundo empresarial não estava preparado como lidar com as novas realidades promovidas pelo avanço tecnológico.
Foi assim que fundou cursos para treinar prestadores de serviços pela internet, para que as empresas pudessem participar das novas demandas abertas pela rede mundial de computadores, associando o compromisso com o próprio sucesso com um tratamento adequado do consumidor em potencial, tornando-se uma especialista em etiqueta virtual on-line pela internet (Artigo Email Etiquette Expert).
A palavra surgiu a partir da junção do termo “Net”, em referência a internet, com “Etiqueta”, passando a nomear um “conjunto de regras não-oficiais, passadas de boca em boca e site em site que tenta estabelecer um padrão de comportamento considerável desejável pelos utilizadores e para os utilizadores” (SILVA, s.d.).
Segundo Adelina Maria Pereira Silva, mestre em Relações Interculturais pela Universidade aberta de Lisboa, os objetivos destas regras poderia ser assim pontuado:

As regras da netiqueta visam tornar a Internet um lugar menos caótico e mais sadio, ensinando as pessoas que certas atitudes aparentemente inofensivas podem aborrecer, atrapalhar ou agredir outros usuários, devendo ser evitadas. O usuário que desrespeita a netiqueta, propositalmente ou não, prejudica também a si mesmo, porque é deixado de lado pelos outros utilizadores. A Netiqueta pode variar ligeiramente de acordo com o tipo de comunicação que está a ser utilizado (por exemplo: canais chat, grupos de discussão, e-mail).

A netiqueta não é só um padrão de etiqueta, pois também configura um conjunto de princípios éticos para os usuários da rede mundial de computadores.
O que conduz seus preceitos a serem pensados como elementos de regulação das relações estabelecidas na ótica educacional, à medida que; com a proliferação dos blogs especializados, revistas eletrônicas e cursos superiores baseados no Ensino a Distância (EAD); é essencial padronizar a comunicação para tornar a educação realmente efetiva na internet.
Entretanto, refletir sobre o tema leva a uma série de constatações, incitando questionamentos que levantam problemas.
Para discuti-los é preciso adentrar conceitos e definições, rever posturas, passando pela relação entre educação e tecnologia, pelo que entendemos por tecnologia em si, pela educação informal e formal, além do vinculo da netiqueta com a ética e como balizadora das relações virtuais pedagógicas.
A despeito da enorme distancia que possa parecer existir entre a netiqueta e cidadania, sua proximidade é muito maior do que poderia ser imaginada.
O entendimento da netiqueta como fomentadora da cidadania, e esta última como parte do código de ética necessário para efetivação da educação no ambiente virtual, pensando a atual legislação educacional brasileira, torna óbvia a tarefa do ensino de filosofia: é sua obrigação jurídica e moral abordar a netiqueta como parte do conteúdo filosófico.


Educação e Tecnologia.
Existem muitas formas de compreender a tecnologia, portanto, antes, é necessário conceituar o que podemos entender por este termo.
Pode ser classificado como tecnologia qualquer artefato, método ou técnica criada pelo homem para tornar seu trabalho mais leve, sua locomoção e comunicação mais fáceis ou simplesmente sua vida mais agradável e divertida.
Formalmente, a tecnologia é o emprego de um conjunto de técnicas, mas filosoficamente, a partir da origem da palavra (tecno = técnica + logia = ciência), seria a teoria ou filosofia da técnica.

O que remete a perguntar: o que é técnica?

Por definição, a técnica é um procedimento bem definido e transmissível, destinado a produzir um resultado útil.

Neste sentido, desde os gregos antigos, reflete uma prática consciente, em oposição às atitudes tomadas ao acaso.
A partir do século XIX, a técnica passou a denotar uma sistematização do conhecimento que repousa sobre o saber cientifico, a racionalização do emprego de instrumentos e materiais.
Pensando assim, tanto em seu sentido original como contemporâneo, a tecnologia é tão antiga quanto o homem (RAMOS, 2010, p.01-06).
Isto porque um bastão de madeira, que amplifica um golpe e serve de extensão ao braço, também faz parte da tecnologia.
Modernamente, existem tecnologias que amplificam os poderes sensoriais, a percepção - como o telescópio ou o microscópio, altos falantes, etc -, melhoram a capacidade de acumular informações - indo desde o papel, a escrita e o lápis até o computador -, permitem a ampla comunicação entre os homens - telefone e internet -, encurtam o deslocamento - carros, aviões e barcos -, enfim que facilitam a vida das pessoas e a necessidade humana de subjugar à natureza para sobreviver.
No entanto, será que toda tecnologia pode ser aplicada à educação?
Pensada na educação, a tecnologia é o que torna possível a transmissão e aperfeiçoamento do conhecimento.
Configura o processo educacional em sentido amplo, inclusive no âmbito que extrapola a educação formalizada nas escolas (BARRETO, 2003, p.271-286).
Isto porque podemos incluir qualquer forma de tecnologia no processo educacional, incluindo meios de comunicação, como rádio, TV e cinema, além da própria fala e escrita.
Em um sentido mais restrito, na escola, usamos tecnologias tradicionais, entre as quais giz, lousa, livros, cadernos, carteiras, mesas, cadeiras, etc.
Porém podem ser usadas na escola também tecnologias mais recentes, como vídeos, DVDs, computadores, teleconferência, lousa digital, ensino a distância e outras.
Em suma, boa parte da tecnologia humana, de uma forma ou outra, aplicada-se à educação.
Portanto, a relação entre educação e tecnologia não poderia ser mais estreita.
As tecnologias são a síntese produzida pelas relações sociais, sistematizadas em um momento histórico, de acordo com as necessidades humanas para subjugar a natureza (MANASSÉS, 1980).
A humanização só aconteceu a partir do processo educacional, a apropriação de saberes através de diferentes linguagens, formas simbólicas de mediação materializadas nas interações sócio-culturais.
Neste sentido, a tecnologia pode ser entendida como uma das linguagens que o homem utiliza na construção social para transformar as relações sócio-econômicas e culturais, além do próprio acumulo e transmissão do conhecimento, denotando as características típicas de uma civilização e sua visão de educação (MORAN, 2004, p.245-254).
Segundo Marx (2010), “a tecnologia revela o modo de proceder do homem com a natureza, o processo imediato de produção da sua vida material e assim elucida as condições de sua vida social e as concepções mentais que dela decorrem”.
O que significa que o uso que uma sociedade faz da tecnologia diz muito sobre ela e o que espera construir no futuro.
Portanto, a velocidade da incorporação das novas tecnologias na educação, a democratização de seu acesso, também simboliza a importância cultural delegada ao futuro e ao respeito ao outro dentro do que se convencionou chamar sociedade da informação.
Por outro lado, contemporaneamente, a globalização criou um determinismo tecnológico que subordinou às produções histórico-sociais a informação rápida e condensada.
Os discursos que acompanham a sociedade da informação elegeram como lei o principio da tabula rasa.
Não há nada mais que seja absoluto, tudo muda rapidamente, por isto não existem respostas únicas.
Ao mesmo tempo, a informação foi coisificada, tornando-se um produto.
Na educação, a transmissão do conhecimento também se tornou mercadoria, o aluno se converteu em cliente e o professor em prestador de serviço.
Na realidade um processo que decorre do fordismo, a compartimentação do conhecimento, tal como em uma linha de montagens.
Quando Henri Ford criou a linha de montagem no inicio do século XX, não tencionava apenas facilitar a produção em massa, mas também controlar o conhecimento, subdividindo o saber para que os indivíduos não tivessem o domínio do todo.
O fordismo educacional transformou os professores em tarefeiros, semelhante ao que ocorreu com operários em linhas de montagem, fazendo, por outro lado, o educando perder a noção do conjunto.
No entanto, de certo modo, a educação formal contém em si a informal, já que o educador não se limita a transmitir conteúdos (SAVATER, 1998).
Enquanto o professor exerce uma profissão eminentemente técnica, o educador deveria ensinar e praticar a tolerância com o outro, a convivência pacifica, instigando a curiosidade para conhecer as diferenças, ou seja, incentivando a socialização.
O grande problema é que a educação formal, sendo hierarquizada, é fruto e reflexo do fordismo, dividindo tarefas e limitando o processo de socialização.
É por isto que para o entendimento do papel da educação na socialização é necessário discutir a transmissão da cultura dentro e fora da escola.
A educação, a transmissão do saber acumulado pela humanidade, não se concretiza somente na escola, acontece também de maneira informal (sem norma ou forma), não possuindo critérios, horários, hierarquia ou sistema de avaliação (MIZUKAMI, 1986).
Onde entra justamente a questão envolta da internet e das novas tecnologias que dia-a-dia surgem.


Violência simbólica e tecnologia.
A educação informal é produzida a partir das necessidades imediatas da vida, configurando o conhecimento conforme as exigências requeridas para a sobrevivência do individuo e de seu grupo.
Está vivamente presente na internet e nos meios de comunicação que utilizam as novas tecnologias.
Pensando nesta concepção, o saber escolar muitas vezes se distancia da realidade, impedindo a assimilação democrática do conhecimento e excluindo várias categorias sociais, portanto, limitando o acesso ao saber que confere poder.
A escola manipula o educando, ocultando uma violência simbólica, tal como pensado por Bourdieu e Passeron (2001).
A violência está no fato da escola se revestir de uma aparência de neutralidade, quando na verdade condiciona o educando de acordo com os interesses das elites que controlam o sistema educacional.
É simbólica devido ao seu caráter não material, portanto, circunscrito a esfera mental.
Dentro deste contexto, insere-se o capital cultural, a competência cultural e lingüística herdade, sobretudo, da família, facilitador do bom desempenho escolar.
Usando uma linguagem e cultura pertencentes à elite, o padrão culto, a escola comete uma violência ao impor, ao conjunto da sociedade, valores de um único grupo.
A educação legitima o domínio da elite, impedindo o acesso daqueles que não possuem o necessário capital cultural a estamentos mais elevados, doutrinando para o fracasso.
Entretanto, a modernidade tecnológica trouxe outras formas de violência simbólica, tal como a tecnológica, pois a escola, ao ignorar as novas tecnologias, realiza uma dupla violência simbólica.
Primeiro nega a incorporação do vocabulário tecnológico e suas ferramentas como recurso pedagógico para chegar até o aluno.
Depois, para aqueles que não tem domínio sobre as novas tecnologias, não propicia a construção de um conhecimento necessário a vida em sociedade no mundo tecnologicamente globalizado.
A escola é uma instituição, como tal possui normas e padrões, impostos por aqueles que controlam o sistema educacional, visando organizar seu funcionamento (FOUCAULT, 2000).
Diferente da educação informal, o conhecimento escolar é sistematizado, transmitido a partir de critérios e métodos, composto por um saber científico, dogmático.
Embora a idéia, teoricamente, seria a escola criar uma proximidade com a realidade concreta, possibilitando uma flexibilidade de conteúdos, utilizando a tecnologia para facilitar a proximidade entre formalizada e informalidade (RODRIGUES, 2002).
É neste sentido que as Diretrizes Curriculares para a Formação de Professores da educação básica, assim definem as competências que devem ser desenvolvidas nos cursos de licenciatura e de graduação plena: “(...) com relação ao mundo do trabalho, sabe-se que um dos fatores decisivos passa a ser o conhecimento e o controle do meio técnico-científico informacional”.
Porém, na prática o professor é transformado em um facilitador, animador, tutor, monitor, etc.
A primeira vista, o professor torna-se um item dispensável, facilmente substituído pelos recursos tecnológicos.
No entanto, a tecnologia carece de pessoas para gerenciar as informações, de forma que o professor passou a ser parte indispensável do uso da tecnologia em favor da educação (FREIRE, 2004).
Por outro lado, o perfil do educando foi alterado para indivíduos com uma constante insatisfação com o conhecimento transmitido, tido como fora de propósito e sem relação com suas necessidades reais.
A internet e a facilidade de acesso a informação fez o educando passar a exigir visualização do conhecimento, de forma rápida e fácil (RAMOS, 2011, p.01-06).
Assim, blogs, revistas eletrônicas e outros meios de comunicação e construção coletiva do conhecimento tornaram-se importantes ferramentas educacionais.
Disponíveis não só aos professores como a qualquer interessado em construir ou partilhar o conhecimento.
Não obstante, não existem leis ou normatizações formais para balizar as relações educacionais estabelecidas entre os sujeitos pela internet, inclusive com a proliferação freqüente do anonimato.
O que acompanha também a proliferação de uma enorme quantidade de informações nem sempre verificáveis e, em muitos casos, com conceituações equivocadas que distorcem fontes confiáveis, passando uma falsa imagem de confiabilidade.
É por esta razão que se torna necessário iniciar uma ampla discussão sobre a netiqueta, uma possível balizadora informal das relações educacionais on-line, garantidora da veracidade e da construção sadia de novos conhecimentos partilhados na internet.
Dentro deste contexto, será que poderíamos pensar a netiqueta também como código de ética?
O que conduz à outra discussão inicial em volta dos conceitos que envolvem justamente a ética.


Netiqueta e ética.
Para Pekka Himanen (2002, p.66), existiria uma distinção entre netiqueta e nética, este último, um termo que nomearia a ética entre usuários da internet, incluindo hackers.
Entretanto, o conceito de ética remete ao que se entende por netiqueta.
Em linhas gerais, o comportamento ético é aquele que colabora com a busca da felicidade, normatizando racionalmente as relações entre as pessoas.
No entender de André Lalande (1993, p.348), a ética é a “ciência que tem por objeto o juízo de apreciação (...) à distinção entre bem e o mal”.
Embora ética e moral tenham a mesma raiz etimológica, com ambas palavras significando a mesma coisa, uma em grego e outra em latim, a saber: normas de conduta, padrão de comportamento ou hábitos.
Kant acabou separando as acepções no século XVIII, colocando a primeira acima da segunda (LALANDE, 1993, p.349).
A partir deste momento o conceito de ética evoluiu, e, hoje, significa também um conjunto de regras de convivência no interior de um grupo.
Enquanto os conceitos morais seriam definidos por uma época e sociedade, tendo como norteador uma série de fatores aglutinados que impõem padrões de comportamento como corretos, em oposição a atitudes condenadas como erradas e punidas com o isolamento social.
Em muitos casos, sendo estas regras não escritas transformadas em legislação, convertidas em leis e ratificadas juridicamente.
A ética é mais ampla por ser uma ciência filosófica normativa e teórico-prática, possuindo caráter de investigação moral, contraposta a racionalização dos comportamentos, tendo como centro a busca da idoneidade e dignidade humana.
No entanto, pode ser entendida também como mais estreita que a moral, pois a ética diz respeito também a consciência sobre o comportamento humano, individualizando normas de comportamento aplicadas a conjuntos de pessoas que constituem grupos (MENEZES, 2010, p.07).
O que faz a ética nem sempre corresponder às determinações morais.
Vender um dado produto, promovendo seu consumo é, por exemplo, ético para o conjunto dos publicitários, mas, dependendo da mercadoria, sendo ela comprovadamente maléfica à saúde, pode ser considerado imoral pelo conjunto da sociedade.

Dentro desta acepção de ética, pensando no significado de etiqueta, “conjunto de cerimônias usadas (...) no trato de muitas pessoas” (BUENO, 1976, p.463), a nética e a netiqueta se confundem e confluem para os mesmos objetivos e objetos.

Portanto a etiqueta pensada para facilitar a convivência na internet é também um código de ética norteador das relações e usos da rede mundial de troca de dados e informações.

Todavia, pensada no sentido educacional, a netiqueta pode auxiliar na construção do conhecimento?
Seus princípios podem facilitar de fato as trocas virtuais e tornar mais cordiais as relações professor/aluno, educar/educando ou pessoa/pessoa?



A netiqueta nas relações virtuais pedagógicas.
Levando em consideração que o processo de apropriação do conhecimento ocorre ao mesmo tempo em que os sujeitos se desenvolvem culturalmente.
A apropriação da tecnologia na prática pedagógica exterioriza esta potencialidade (BOUSSUET, 1985).
Em outras palavras, simultaneamente, a tecnologia serve a reprodução do sistema capitalista, podendo assumir um papel integrador interdisciplinar, ajudando a contornar o fordismo educacional, reelaborando o contexto cultural para transformar o mundo.
Uma idéia que não é nova, está presente, por exemplo, no pensamento de Illich. 
Amigo e contemporâneo de Paulo Freire, o austríaco Ivan Illich, na década de 1970, fez uma critica a educação institucionalizada.
Em seu livro Sociedades sem escola (ILLICH, 2003), defendeu a idéia de que a escola impede o ser humano de desenvolver todo seu potencial.
Para ele, a escola fragmentava o saber e incentiva o consumismo e a reprodução das desigualdades.
Tentando contornar esta situação, propôs substituir as escolas por redes de comunicação e convivência, onde as pessoas pudessem trocar informações e experiências diretamente, através de uma rede de computadores, correios, anúncios de jornais, etc.

Illich pensou em quatro redes educacionais:

1. Serviços de consulta a objetos educacionais (bibliotecas, laboratórios, museus, teatros, etc);
2. Intercâmbio de habilidades (troca de conhecimentos entre as pessoas).
3. Encontro de colegas (formação de parcerias de pesquisa, comunidades de pessoas que interagem para buscar conhecimento).
4. Consulta a educadores (orientadores na busca pelo conhecimento).

Assim, Illich foi o precursor da internet e das redes sociais pensadas como ferramenta de troca de informações e do ensino a distância on-line.
Porém, por razões óbvias, sua proposta nunca foi colocada integralmente em prática.
Para estabelecer uma relação pedagógica é necessário a presença de pelo menos dois elementos: professor e aluno, educador e educando.
Somente o dialogo entre as pessoas constrói uma relação pedagógica, onde o saber é coletivamente cultivado, mas, igualmente, sempre carece de direcionamento.
A educação institucionalizada, a escola, possui muitos defeitos e vícios, muitos dos quais advindos do sistema capitalista e estrutura social, o que não invalida sua importância e caráter coletivo de partilha do conhecimento acumulado pela humanidade.
O professor, em sala de aula pode contornar as barreiras, um fator não considerado por Illich.
Cabe ao educador profissional realizar um trabalho de formiguinha, tornando-se agente multiplicador.
Sozinhos somos nada, somos fracos; juntos seremos tudo, seremos fortes e poderemos mudar o mundo através da educação.
O que, por si, exige a institucionalização da educação.
Uma vez que a passagem da heteronomia para a autonomia necessita do domínio de técnicas que servem de instrumento aos profissionais da educação.
Sendo assim, como incorporar a informalidade na educação formal?
Para isto acontecer, em primeiro lugar, tanto professor como aluno precisam conhecer as linguagens tecnológicas e tomar consciência do contexto em que estão envolvidas, estabelecendo criticas e até mesmo questionando esta realidade (PAPERT, 1994).
É necessário desconstruir ilusões forjadas por interesses políticos e econômicos.
Devemos ter em mente que a tecnologia pode mediar a aprendizagem, mas o processo educacional necessita da interação entre as pessoas.
Esta interação só é garantida através de uma convivência cordial que crie um clima propicio ao dialogo, uma discussão que permita construir e reconstruir o conhecimento, compondo um saber de domínio público, vivamente presente em blogs e publicações eletrônicas.
Mecanismos de democratização do acesso ao saber, embora não ao status representado por um diploma universitário.
Destarte, até mesmo no que diz respeito à formalização da educação institucionalizada, que confere certificados e títulos, devemos ressaltar que o ensino caminha em direção à virtualização, tornando necessária a presença da netiqueta.
Atualmente e, no futuro, cada vez mais a educação e a internet caminharam lado a lado.
Os cursos EAD - Educação a Distância - tem facilitado o acesso ao ensino superior, estendendo-se pelo Brasil e possibilitando alcançar regiões onde antes seria impossível alguém cursar uma universidade.
Aliás, segundo especialistas, a tendência EAD deve dominar o panorama do mercado educacional, praticamente extinguindo o ensino presencial.
Entre 2005 e 2008, a titulo de exemplo, os cursos EAD tiveram um crescimento de 600% no numero de alunos, enquanto os cursos presenciais encolheram por conta de uma concorrência predatória entre universidades privadas.
É por isto que escolas tradicionais, algumas universidades públicas, começaram a investir em cursos EAD, seguindo uma tendência mundial adotada pelo ensino superior de ponta, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT), Berkeley e Yale.
Assim, torna-se fundamental, pensando no ensino fundamental e médio, repensar as questões em torno das relações pedagógicas virtuais estabelecidas no contexto educacional.
Até porque a popularização da internet e da banda larga, à medida que crescem os EAD, aumenta a necessidade de profissionais capacitados para lidar com as novas tecnologias que, dia-a-dia, evoluem com extrema rapidez, e, igualmente sejam capazes de se transformarem em agentes multiplicadores.
É verdade que o EAD exige dos alunos maior esforço e dedicação que os cursos presenciais, porém, carece de suporte de educadores para que a tecnologia possa ser usada em beneficio da construção do conhecimento.
O que torna uma obrigação do educador ensinar normas de comportamento que facilitem a convivência virtual entre as pessoas.
Algo operacionalizado pelo exemplo próprio e fomento à discussão conceitual e prática em torno da netiqueta.
Segundo Jocelma Almeida Rios (2008, p.19), a netiqueta, no âmbito da EAD, deveria balizar a construção de uma maior proximidade entre educador e educando, auxiliando a humanizar o espaço educacional virtual através da afetividade.
Em resumo, a tecnologia na educação, seja ela de qualquer natureza, deve estar a serviço do professor e do educando, sendo o docente um mediador (LÉVY, 1993).
Caso contrário, corremos o risco de desvincular esta importante ferramenta de seu propósito primeiro: servir ao progresso da humanidade.
A idéia do EAD é democratizar o acesso ao saber, mas a inserção neste meio exige do educando autodisciplina e domínio dos instrumentos necessários ao bom andamento do curso.
Portanto, é essencial que, na era da globalização, em plena sociedade da informação, o ensino elementar possibilite também o acesso a tecnologia disponível e a netiqueta enquanto código de ética.
A formação da cidadania, apregoada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), passa necessariamente pela formação ética, ao passo que o acesso a internet, em qualquer esfera, exige do utilizador a adoção de parâmetros mínimos de cordialidade para o bem estar virtual de si mesmo e do outro.
Conceitos que se cruzam e entrelaçam com a educação em acepção ampla, fazendo nascer uma interdependência com a netiqueta.
Onde reside outro problema: a desatualização dos Parâmetros Curriculares Nacionais brasileiros, diante da rede mundial como mecanismo educacional. Conduzindo a perguntar se não seria o caso de rever a LDB, em vista do avanço das tecnologias e meios de informatização do conhecimento.


Cidadania, educação e netiqueta.
A redemocratização do Brasil, em 1985, conduziu a um fomento do sentimento de cidadania, onde a formação do cidadão foi colocada como principal objetivo da Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) - lei 9394/96.
Porém, a cidadania não foi conceituada pela LDB promulgada em 1996, sua definição ficou subentendida como conceito liberal, pertinente a república representativa, que trás em si a idéia de contrato social (CHAUI, 1994, p.403).
A discussão do que se deve entender por cidadania ficou entregue a filósofos, sociólogos, historiadores e educadores.
Alguns destes pontuaram o nascimento do cidadão na antiguidade, entre o século XII a VIII a.C, apesar da democracia grega ser muito distinta da concepção contemporânea, já que era praticada somente entre alguns poucos privilegiados, excluindo mulheres e escravos, estes últimos a imensa maioria da população.
O cidadão foi conceituado como aquele que “pode e deve atuar na vida pública independente da origem familiar, classe ou função”, transmitindo a visão de que “todos são iguais, tendo o mesmo direito à palavra e à participação no exercício do poder” (ARANHA & MARTINS, 1992, p.153).
Esta definição de cidadania atendeu o que senso comum entende pelo termo, aquilo que a mídia apregoa e massifica.
Acontece que a cidadania foi abordada de forma genérica, tornando sua definição etérea e pouco conhecida integralmente.
Para Andrew Edgar & Peter Sedgwik, o cidadão é “um agente humano a quem são dadas características sociais especificas, com significados políticos codificados (...) que são questões de seus interesses privados e (...) de interesse público” (EDGARD & SEDGWICK, 2003, p.55).
Segundo Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva (2006, p.47), a cidadania é um conceito histórico e complexo, atribuída “aos indivíduos que integram uma Nação”, abrangendo “direitos políticos, sociais e civis”, mas também “direitos e deveres”.
Conceito que remetem a Revolução Francesa, com seu ideal de igualdade, liberdade e fraternidade, sendo este último item de suma importância, já que pressupõe o abandono do individualismo consumista, incentivado pela ótica capitalista, em favor da busca do bem estar do outro em prol da coletividade.
Dentro desta concepção, será que a netiqueta não poderia ser pensada como conteúdo formador da cidadania?
Acontece que atualmente a LDB não considera adequadamente os espaços virtuais como mecanismos educacionais.
A reboque, os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs -, as diretrizes elaboradas pelo governo federal para orientar a educação no Brasil, seguindo a LDB de 1996 e reafirmando a importância da formação da cidadania, também não abordam a internet como elemento educativo.
Tanto a LDB como os PCNs esquecem que a interdisciplinaridade apregoada como fomentadora da cidadania poderia ser alcançada contextualizando conteúdos, em sentido transversal, por meio da internet.
Como lembrou Saviani, uma pedagogia coerente e eficaz está atrelada “com o problema da compreensão do homem; que tipo de homem pretendemos nós atingir através da educação” (SAVIANI, 2004, p.47).
Para realizar a tarefa de formar o cidadão o século XXI, é necessário repensar o que entendemos por educação e tentar atender as necessidades da modernidade virtual, um conceito complexo e, simultaneamente, abrangente.
Seja qual for a definição, o cidadão não existe sem criticidade, consciência de si mesmo e do mundo que o rodeia.
O que acompanha a inclusão digital e, ao mesmo tempo, a introdução do educando na netiqueta, pensando no respeito pelo outro como a si mesmo.
Assim, a netiqueta conduz de volta ao objetivo educacional da construção da cidadania, assumindo uma postura formadora de uma postura ética, outro elemento importante dentro do conceitual do modelo de cidadão ideal.
O que exige repensar qual educação queremos para o Brasil e, portanto, a reformulação da LDB e dos PCNs.
Além é claro da questão da formação dos professores, pois em sua maioria, no ensino presencial, em qualquer nível, nunca ouviram falar em netiqueta e sequer sabem utilizar a internet como ferramenta educacional.
Como poderiam os professores constituir então uma categoria multiplicadora do acesso a educação através da internet e de preceitos éticos nas relações virtuais pela netiqueta?


Concluindo.
Dentro do âmbito da globalização, onde as informações estão fortemente disponíveis pela rede mundial de computadores, a Internet; onde a comunicação entre as pessoas foi facilitada pela informática, aproximando e derrubando fronteiras; a inclusão social passa necessariamente por este meio.
Assim, um objetivo e desafio primordial da Educação, dentro da rede virtual, é a facilitação do acesso a construção do conhecimento e ao saber acumulado pela humanidade.
Entretanto, para isto, é necessário familiarizar o educando e instrumentalizá-lo para integrar a sociedade da informação, o que inclui o conhecimento da netiqueta como facilitadora das relações educacionais virtuais.
É neste sentido que, mais que meio ou recurso didático, o uso do computador e da internet deveria sensibilizar o educando para que se perceba como parte de um contexto mais amplo, instigando a curiosidade e a vontade de aprender por si só.
O que encontra respaldo nas teorias de Dewey, Paulo Freire, Piaget, Skinner e Vigotsk.
Além de fomentar o autodidatismo, essencial a sobrevivência do individuo no mundo globalizado, o acesso as informações disponibilizadas na internet, em seu sentido educacional, objetiva estimular a interdisciplinaridade, quebrando o paradigma fordista, para tentar retomar a tendência humanista dos renascentistas.
Estimulando a reflexão interdisciplinar, o compartilhamento de conhecimentos pela internet pretende transmitir conteúdos de uma forma mais leve e instigante, desenvolvendo o raciocínio lógico do educando.
Mas para se efetivar como educação precisa ser regulada por normas de convivência ética, garantidas pela netiqueta, auxiliando, ao mesmo tempo, na formação da cidadania.
O que exigiria repensar a educação no Brasil, reescrever a LDB e os PCNs.
No entanto, enquanto isto não acontece, como tentar contornar os problemas existentes e crescentemente ampliados pelo descompasso brasileiro com a modernidade virtual?
Poderíamos iniciar as mudanças pelo menor elo do sistema educacional institucionalizado e, por isto mesmo, o mais importante: o professor.
Porém, não estando os docentes, eles também, devidamente preparados para lidar com a educação instrumentalizada pela internet, como realizar esta façanha?
Após tantas constatações, verificações de problemas e multiplicação de questões, surge aqui uma proposta factível de aplicação prática imediata: por que não transformar a internet em ferramenta e a netiqueta em conteúdo através do ensino de filosofia?
A filosofia serve exatamente para isto, formar o senso crítico, o autodidatismo, fomentar o questionamento, a interação entre as pessoas em busca de uma construção coletiva do conhecimento e um olhar para fora de si mesmo, de volta ao interior do próprio sujeito e transformador da realidade.
Pensada pela Nova LDB, no Capitulo II, Seção IV, Artigo 36, junto com a sociologia, a filosofia é definida como “[conhecimento] (...) [necessário] ao exercício da cidadania”, embora seja recomendada apenas para o ensino médio.
Quanto ao ensino fundamental, no mesmo Capitulo, Seção I, Artigo 22, quando são definidas as intenções da educação básica, é feita menção “a finalidade [de] desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”.

No entanto, na Seção III, que trata especificamente do ensino fundamental, a filosofia não é citada diretamente, embora seja mencionado, no Artigo 32, o “objetivo a formação básica do cidadão, mediante (...) o fortalecimento (...) dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social”.

Uma definição que, sem intenção concreta, penetra no âmago do que é a filosofia e nas possibilidades abertas por seu ensino na educação básica, no nível médio e nas instituições de nível superior.


Transdisciplinar e interdisciplinar, como agregadora de todos os conhecimentos, pensando na utilização da internet como ferramenta educacional, o ensino de filosofia poderia abordar a netiqueta como conteúdo.

Repensar a ética seria agregado pelo âmago do que se entende por netiqueta, ao mesmo tempo, cumprindo as propostas colocadas no âmbito da disciplina pela LDB e os PCNs vigentes.

O professor de filosofia, pegando um termo emprestado de Victor Goldschmidt (1963, p.146-147), precisa tomar consciência de sua “responsabilidade filosófica”, criando um ambiente onde “o pensamento se experimenta e se lança, sem ainda determinar-se”, podendo “prevalecer contra a obra, para corrigi-la, prolongá-la ou coroá-la”.
É obrigação do professor de filosofia, dentro da proposta da formação da cidadania pela LDB, incentivar rupturas, questionamentos, mas também formar o educando dentro de ideais éticos.
Não se trata somente de promover o dialogo e a interdisciplinaridade, como pensam a maioria dos gestores educacionais e intelectuais.
O ensino de filosofia precisa ser formador de um ambiente propicio ao dialogo em qualquer instancia, inclusive e, dado a contextualização dos indivíduos na sociedade da informação, no ambiente virtual.
Segundo os PCNs, o ensino de filosofia deveria “desenvolver a tradução do conhecimento das Ciências Humanas em consciências críticas e criativas, capazes de gerar respostas adequadas a problemas atuais e a situações novas”.
Junto com outras disciplinas, o saber filosófico “implica o conhecimento, o uso e a produção histórica dos direitos e deveres do cidadão e o desenvolvimento da consciência cívica e social, que implica a consideração do outro em cada decisão e atitude de natureza pública ou particular”.
Assim, o ensino de filosofia tem a obrigação jurídica e moral de abordar a netiqueta como conteúdo, oferecendo uma solução imediata aos questionamentos aqui colocados, apesar de constituir uma resposta provisória. Simultaneamente, talvez promovendo maiores discussões para aprofundar mudanças na maneira de enxergar a educação no Brasil e suas possíveis interações com a internet como ferramenta educativa.


Para saber mais sobre o assunto.
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Temas de filosofia. São Paulo: Moderna, 1992.

BARRETO, R. G. “As tecnologias na formação de professores” In: Educação e pesquisa, nº. 30. Jul/dez de 2003, p.271-286.

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Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela USP.
MBA em Gestão de Pessoas.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.




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