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Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Balanço do mês de setembro de 2011 - Para entender a história...

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 30/09, 2011, p.01-03.


No mês de setembro recebemos 140.322 visitas, novamente um novo recorde, totalizando pouco mais de 669.000 visualizações desde 13 de agosto de 2010.
O ápice de acessos foi registrado no dia 20/09, quando tivemos 6.374 visitantes em único dia.
Na verdade a média diária de visitas durante os dias uteis passaram para média superior a 4.000 visualizações.



Na seção dedicada à publicação de artigos de convidados e membros do conselho editorial, as quartas-feiras, foram publicados: um artigos da professora Mary Del Priore e um artigo da professora Marilda Aparecida Soares.

Neste mês recebemos e publicamos dois excelentes colaborações, respectivamente de autoria de:
1. Aurélio de Moura Britto, com um artigo sobre a Revolução Praeira de 1848.
2. Cláudia Pestana Ramos de Alvarenga, discutindo questões em torno do físico espaço da sala de aula e sua adequação à infância.

Aproveitamos a oportunidade para agradecer, como sempre, as colaborações e parabenizar todos pelos textos, estendendo o convite aos demais leitores para remetam artigos para submissão.

Os interessados devem enviar artigos dentro dos parâmetros fixados nas normas de publicação disponíveis no link “Colaborações”.

Mudando o foco, como sempre, outro dado interessante em setembro foi o aumento no número de seguidores, subiu de 115 pessoas para 128.
Para os leitores que ainda não estão seguindo a publicação, lembramos que basta clicar no link “participar deste site” e aceitar as orientações decorrentes.
Os seguidores ficam informados sobre atualizações e ajudam a trazer maior prestigio a publicação com sua ilustre presença.

Finalizando este mês de setembro, agradecendo os leitores que votaram na publicação junto ao prêmio Top Blog, caso sejamos classificados para a segunda fase, passaremos pelo julgamento de um júri técnico.

Neste mês de setembro, as postagens mais populares, respectivamente, com o nome do autor e numero de acessos, foram:

01. Educação, família e sociedade: Fábio Pestana Ramos (13.756).
02. A revolução francesa foi causada pela fome: Fábio Pestana Ramos (8.066).
03. A passagem da antiguidade para o feudalismo: Fábio Pestana Ramos (4.500).
04. A revolução cubana e suas implicações: Eliane Santos Moreira (4.104).
05. 1964: o golpe de Estado e a ditadura militar: Fábio Pestana Ramos (3.348).
06. A educação no Brasil Império: Fábio Pestana Ramos (3.283).
07. Os astecas e os sacrifícios humanos: Marcus Vinicius de Morais (2.927).
08. O imperialismo europeu no continente africano: Victor Mariano Camacho (2.242).
09. A formação do planeta terra: Fábio Pestana Ramos (1.515).
10. A teoria do conhecimento na antiguidade: Fábio Pestana Ramos (1.221).


Agradecemos os leitores e desejamos um bom divertimento.

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Editor de Para entender a história...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Filosofia da Ciência: uma introdução a partir de considerações gerais.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 26/09, 2011, p.01-06.


Diferente da filosofia, a qual pretende alcançar a verdade; a ciência busca o entendimento da realidade.
Embora a definição de ciência comporte múltiplas explicações, tal como a afirmação de Aristóteles de que seria a busca do universal e eterno.
A partir do século XIX, a ciência passou a ser entendida como um processo de investigação para alcançar um conjunto de conhecimentos tidos como verdadeiros, por meio de generalizações verificáveis.

Mas se é assim, vale à pena insistir: afinal, qual a diferença entre filosofia e ciência?


Ciência e Filosofia.
Enquanto a filosofia busca a verdade, dentro de um sistema, inquestionável e inabalável; a ciência encontra sempre verdades provisórias.
Segundo Karl Popper, toda hipótese deve ser considerada verdadeira, obviamente, desde que fundamentada, até que outra hipótese demonstre sua falsidade.
Um principio que ficou conhecido como vericabilidade ou falseabilidade.
Conceito que foi complementado pela idéia de paradigma de Thomas Kuhn.
Segundo o qual, uma hipótese estaria circunscrita a uma base referencial sobre a qual um conjunto teórico é construído.
O paradigma não comporta contradições e, portanto, não admite paradoxos.
Quando uma contradição é verificada, isto conduziria a uma quebra, já que uma teoria se contrapondo a base teórica de sustentação leva a construção de um novo paradigma.
É o que Kuhn chamou de revolução cientifica, a quebra de paradigma e sua substituição por outro conjunto teórico referencial.
Na filosofia a quebra de paradigma não acontece, conjuntos teóricos paradoxais coexistem, a exemplo do que acontece nas ciências humanas.
No inicio da década de 1960, o francês Victor Goldschmidt escreveu um texto, hoje clássico, abordando a questão, trata-se de “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos”, presente na obra “A religião de Platão”.
Para ele, pensando na história da filosofia, haveria duas maneiras de interpretar um sistema filosófico: interrogando o texto sobre sua origem ou sobre sua verdade.
Em outras palavras, um sistema filosófico compõe uma verdade dogmática, perfeito na sua explanação lógica e na sua pretensão de ser inquestionável.
 Em outro sentido, o sistema pode ser questionado através do contexto de sua construção e pelos embates enfrentados na época de sua construção.
Igualmente, portanto, seria possível contestar um sistema filosófico através de outro, construído justamente para questioná-lo.
Questionar o sistema cartesiano por ele mesmo é impossível, Descartes tem respostas para todas as objeções através de suas obras.
No entanto, o sistema cartesiano pode ser questionado pelo empirismo.
Nasce ai o grande problema: a existência de sistemas filosóficos que se contrapõem sem causar a anulação mutua.
Estes sistemas coexistem de forma paradoxal, inclusive com novos conjuntos de pensamento que tentam conciliar as contradições, criando soluções para o paradoxo que não fazem mais que multiplicar as verdades sobre um mesmo objeto.
É o caso do sistema kantiano que, através do criticismo, conciliou o racionalismo e o empirismo.
Na ciência esta convivência de paradigmas não é possível, pois uma verdade, mesmo que provisória, anula a outra.
A despeito da ciência trabalhar com hipóteses e teses, as contradições não são aceitas, geram a quebra do paradigma, com exceção das ciências humanas é claro.
Já na filosofia a verdade é dogmática e, ao mesmo tempo, relativa.
A verdade é bem definida para determinado sistema filosófico e dentro de certos argumentos lógicos, mas esta verdade coexiste com outras.
Cada concepção filosófica espelha apenas uma visão distinta de uma mesma verdade oculta fora da caverna platônica.


A função da filosofia.
A partir do momento que a ciência começou a tornar-se complexa, multiplicando-se e se particularizando, sua especialização passou a comportar forte influencia ideológica.
Simultaneamente, o avanço da tecnologia tornou a fé na ciência dogmática, uma contradição dentro de sua base de sustentação, tida como provisória.
Esta fé quase nunca reconhece as limitações da ciência, impedindo uma reflexão ética sobre sua utilidade e seus limites.
O contexto fordista contemporâneo, herdeiro do século XX, tornou a ciência um terreno fértil para a filosofia, originando um novo campo de trabalho para o filosofo: a filosofia da ciência.
Neste sentido, passou a ser função da filosofia analisar os fundamentos da ciência, questionando o próprio conceito de ciência ou seu papel diante do mundo, além das conseqüências das descobertas cientificas.
Cabe a filosofia, inclusive, perguntar até que ponto os cientistas realmente são neutros.
Será que o direcionamento e os resultados das pesquisas não são manipulados para atender interesses ideológicos?
Quais são os limites da ciência, até que ponto as pesquisas são benéficas à humanidade, quais os limites éticos que os avanços científicos devem respeitar?
Perguntas que conduzem a outras, tal como:
O que é a ciência?
O que pode e o que deve a ciência realizar?
Qual é o papel da ciência?
Existe neutralidade cientifica?
Até onde a ciência é confiável?
Podemos questionar a ciência?
A ciência é boa ou má para a humanidade?
Questões que multiplicam as perguntas.


História da construção da ciência.
Durante a antiguidade, filosofia e ciência eram sinônimos, confundiam-se.
Na Idade Média aconteceu o mesmo, com a diferença que os teólogos cristãos utilizaram o conhecimento filosófico para manipular o senso comum em favor da fé.
A situação só começou a mudar com Copérnico, Galileu e Descartes.
No século XV, Nicolau Copérnico contribuiu para alterar a mentalidade da humana, iniciando um processo complementado por Galileu.
O universo aristotélico geocêntrico foi deslocado para o mundo heliocêntrico e antropocêntrico, com o homem no centro da construção do conhecimento.
No século XVI, Galileu iniciou a matematização da realidade, estudada com o auxilio de instrumentos que ampliaram os sentidos, sistematizando a observação dos fenômenos para descobrir regularidades, estabelecendo leis gerais e teorias.
Descartes referendou esta tendência, compondo o método e inaugurando a modernidade.
No entanto, a ciência só adquiriu autonomia, separando-se da filosofia e da religião, no século XVIII.
Dentro do espírito da revolução francesa, os iluministas começaram a defender a neutralidade cientifica.
Eles foram responsáveis também, através da enciclopédia, pelo inicio da separação entre filosofia e ciência, uma tendência completada no século XIX pelo positivismo.
Destarte, o iluminismo, como conseqüência, acabou especializando o conhecimento humano, acelerando o progresso cientifico, a despeito dos estragos que seriam efetivados pelo fordismo no século XX.


Concluindo.
A partir do século XVIII, a ciência passou a pretender ser objetiva, neutra, isenta de influências ideológicas, voltada à construção de um conhecimento desinteressado em prol do beneficio da humanidade.
Entretanto, esquece-se que existem homens que fazem a ciência, portanto, sujeitos as influências sociais, culturais, políticas e econômicas.
Além disto, existem fatores como a pressão exercida pelos órgãos de fomento.
O que leva a questionar a possibilidade da existência de neutralidade cientifica.
Não podemos esquecer que a ciência reflete interesses os mais diversos, apresentando um modelo que pretende desvendar a realidade e que é fruto desta mesma pretensa realidade.
O contexto especifico, circunscrito ao tempo e espaço, cria os problemas analisados e as soluções, fazendo a ciência caminhar na direção que atende estes pressupostos.
O que conduz a questão da neutralidade para o campo da ética, porque em nome do progresso humano desinteressado, pesquisas que afetam milhões de pessoas são efetivadas, beneficiando concretamente uma pequena parcela destes indivíduos.
Em outras palavras, cabe questionar os limites da ciência, até que ponto determinados atos justificam os métodos e recursos empregados.
É por isto que, a partir do século XIX, a filosofia passou a discutir a questão da neutralidade cientifica e a ética do fazer ciência.
O que originou os atuais conselhos de ética cientifica, principalmente existentes quando seres humanos ou animais estão envolvidos em experiências como cobaias.


Para saber mais sobre o assunto.
GOLDSCHMIDT, V. “Tempo histórico e tempo lógico na interpretação dos sistemas filosóficos” In: A religião de Platão. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1963, p.139-147.
LALANDE, André. Vocabulário técnico e critico da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções cientificas. São Paulo: Perspectiva, 1997.
PRADO JR, Caio. O que é filosofia? São Paulo: Brasiliense, 1997.
RAMOS, Fábio Pestana “A diversidade filosófica e a busca da verdade; qual é o papel contemporâneo da filosofia afinal?” In: Para entender a história... Ano 2, Volume 05-mai., Série 09/05, 2011, p.01-04. Disponível em: http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2011/05/diversidade-filosofica-e-busca-da.html
RAMOS, Fábio Pestana.  A história é uma ciência? A pesquisa histórica e o campo do historiador” In: Para entender a história... Ano 1, Volume ago., Série 28/08, 2010, p.01-06. Disponível em: http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/08/historia-e-uma-ciencia-pesquisa.html
RAMOS, Fábio Pestana. Comte e a construção do método sociológico: o positivismo” In:  Para entender a história... Ano 2, Volume 03-mar., Série 12/03, 2011, p.01-05. Disponível em: http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2011/03/comte-e-construcao-do-metodo.html
RAMOS, Fábio Pestana. “História, Métodos e Técnicas” In: Para entender a história... Ano 1, Volume ago., Série 31/08, 2010, p.01-05. Disponível em: http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/08/historia-metodos-e-tecnicas.html
RAMOS, Fábio Pestana. O que é filosofia?” In: Para entender a história... Ano 1, Volume out., Série 28/10, 2010, p.01-09. Disponível em: http://fabiopestanaramos.blogspot.com/2010/10/o-que-e-filosofia.html


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.
Bacharel e Licenciado em Filosofia pela Universidade de São Paulo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Entre homens e deuses: aspectos da formação histórico-social e da produção cultural na Grécia antiga.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 21/09, 2011, p.01-11.


Considerados filhos de Heleno, os gregos constituíram historicamente sua grecidade, sua identidade cultural grega, a partir das contribuições de diversos povos cuja origem nem sempre se pode precisar.
Uma divisão didática da história da Grécia antiga, apesar de ser apenas estenográfica,  pode auxiliar na compreensão e caracterização dos seus diferentes períodos, bem como de suas produções culturais.
O período arcaico compreende o intervalo temporal de c. 800 ou 750 a 500 a.C., da fixação da geografia política da Península Grega e do litoral grego da Ásia Menor até o início das Guerras Médicas.
O período clássico abrange os séculos V e IV a.C, com as cidades-estado independentes, correspondendo à fase de aperfeiçoamento cultural, talvez com as maiores realizações da história cultural de todos os tempos.
O período helenístico inicia-se com Alexandre Magno e se encerra com a conquista romana sobre a região oriental do Mediterrâneo. É a fase de expansão da cultura grega para centros de efervescência cultural, como Alexandria e Antioquia.
O período romano encerra essa passagem da história grega. A presença romana impôs-se na Grécia a partir do III séc. a.C, mas o predomínio iniciou-se quando as tropas de Cleópatra foram derrotadas por Augusto (31 a.C.), tendo permanecido enquanto durou o Império Romano do Oriente.


Sobre mitos e concepções de mundo.
Segundo os mitos gregos antigos, os seres humanos teriam surgido do desejo de Zeus, o soberano entre os deuses, e da capacidade de criação de Epimeteu e Prometeu, que esculpiram o primeiro homem, e de Hefesto e Atena, que juntos criaram a primeira mulher.
Homem e mulher seriam semelhantes aos deuses, porém sem poderes sobrenaturais ou o dom da imortalidade. Trata-se de uma alegoria a indicar que os humanos foram criados pela inspiração divina, como obras de arte, tendo beleza e capacidades, mas também fraquezas.
As crenças também fundamentavam a organização social, econômica e política, pois a tradição grega atribuía aos deuses a criação dos aristoi (melhores), homens dotados de valores morais como honra, dever e heroísmo, atributos recebidos das divindades ou herdados no nascimento, e socialmente superiores, o que justificaria a existência de uma hierarquia dominante, do ponto de vista ético, social e econômico.  
Além dos aristoi, havia os heróis (héros = guardião), filhos de mortais e deuses, portanto alguns atributos divinos e capacidades sobre-humanas.
Segundo essa mesma concepção, coexistiam homens, sátiros, górgonas, quimeras, centauros, sereias, ninfas e musas.
Perpetuava-se, por meio das narrativas mitológicas, a crença na interferência do divino – pensada como reguladora das capacidades humanas – nas concepções sobre a existência do homem e suas relações sociais.


Sobre a formação sócio-histórico-cultural.
Por volta de 2.000 a.C. os pelasgos, povos que viviam na região, foram submetidos pelos aqueus (dos quais faziam parte os jônios e os eólios), povos de origem indo-europeia, vindos da região balcânica, que criaram a civilização micênica e impuseram a língua grega.
Os pelasgos estavam em um nível cultural rústico: usavam machados de pedra polida, viviam em cabanas de taipa e ramagens, cultuavam divindades agrícolas, enquanto os aqueus  a Idade do Bronze, produzindo armas de metais e recorrendo a estratégias militares mais eficazes.
Entre os séculos XVIII e XV a.C., os aqueus, já dominantes e inseridos na civilização micênica, entram em contato com a cultura cretense, contratando os artistas que produziam obras arte bastante refinadas.
A influência da cultura cretense sobre a micênica mostra-se na produção artesanal e arquitetônica, mas há diferenças significativas entre ambas: a arte cretense recorre aos aspectos decorativo e religioso, enquanto a micênica expressa a preferência pelas narrativas e cenas de caça; a arquitetura cretense é labiríntica, enquanto a micênica é fortificada.
Gradativamente, a civilização micênica dominou Creta e todo o mundo em torno do Mar Egeu, estabelecendo relações comerciais e culturais com a Sicília, a Síria e o Egito.
Os aqueus estavam originalmente organizados em clãs patriarcais, ou genos, cuja autoridade suprema concentrava-se no rei, o basileus. Essa estrutura associa-se ao relevo da região, com a sociedade organizada em famílias tradicionais, ditas nobres, e separadas em núcleos autônomos, o que mais tarde contribuiu para a formação de cidades-estado autônomas, que caracterizam a antiga organização política grega, a pólis.
A autonomia e as condições naturais determinavam a busca de recursos complementares e ligações econômicas com outras regiões, de modo que as cidades formaram-se voltadas para o mar e relações com outros povos, o que levou à riqueza e, também, às disputas políticas.
Por outro lado, os contatos culturais favoreceram a apropriação e produção de novos saberes.
A partir do século XIV a.C., os dórios, povos indo-europeus, em sucessivas levas invadiram a região e, com armas de ferro, instituíram seu domínio. Somente cerca de três séculos depois se estabeleceram na região do Peloponeso, na Grécia central, em Creta e na Ásia Menor.
Com essas invasões, eólios migraram para Lesbos e jônios para Mileto e Éfeso, formando vigorosos centros econômicos e culturais gregos.
Como os grupos estavam divididos em núcleos políticos dispersos, as cidades-estado foram constituindo uma nova forma que passaria a ser característica da pólis grega: a ágora, praça pública, para debates de interesse coletivo, e templos, para práticas religiosas.
Devido à violência das invasões dóricas outros povos afluíram para a região, em um longo período de mudanças nas estruturas sociais. Surgiu, então, uma sociedade monárquica, com rígida estrutura dominada pela aristocracia (aristoi = os bem nascidos + kratos = poder).
 Do ponto de vista cultural, devido às relações comerciais, os jônios entraram em contato com os fenícios, conheceram o seu alfabeto (aleph + bet = primeira e segunda letras fenícias)  e assimilaram certos requintes na conduta social.


Crenças e práticas culturais.
Entre os séculos X e VIII a.C., surgiu na Grécia uma produção literária que incorporava os mitos e lendas dos eólios e jônios, acrescidas de um sentido heroico e fabuloso presente nas narrativas do Oriente Próximo.
No século VIII a.C., em Teogonia  (theo = deus + genea = origem), ou a Genealogia dos Deuses, ou ainda Cosmogonia, Hesíodo registrou as explicações míticas sobre a origem dos deuses e da vida.

No final do período arcaico registram-se,  os cantos e as sagas, com os poetas e suas epopeias, dos quais as produções mais famosas, e únicas preservadas, são Ilíada e Odisseia, de Homero.

As epopeias são consideradas as primeiras manifestações literárias do Ocidente. Eram cantadas pelos aedos, os poetas, que iam de cidade em cidade declamando os versos que narravam as fabulosas sagas do povo grego, suas disputas e vitórias.
Nos textos homéricos há relatos sobre a organização política, fatos do cotidiano, viagens fantásticas e, sobretudo, os mitos, constituindo uma rica produção cuja origem remonta a períodos imemoriais.
Atravessando tempos e espaços, esses registros chegaram aos dias atuais como referências documentais sobre as práticas e a mentalidade gregas.
Interessante ressaltar que os textos de Homero, mesmo mais tarde sendo contestados pelos filósofos gregos – em busca pela “verdade” – foram objetos de estudos já na Antiguidade, tendo feito parte do acervo da Biblioteca de Alexandria.
Os deuses retratados em Odisseia são descritos sob forma e sentimentos humanos, numa espécie de humanização do divino, mas com poderes extraordinários, interferindo de modo enigmático na vida terrena, nos destinos humanos, nas guerras entre os povos.
Uma passagem de Homero ilustra essa concepção:
“Pode ser que os deuses o tenham detido no caminho, porque de modo algum está morto sobre a terra o divino Odisseu, mas estará retido em algum lugar do mar, em alguma ilha cercada de corrente, onde o têm homens cruéis e selvagens que o sujeitam contra sua vontade”
De acordo com a mitologia grega, para que os homens pudessem desenvolver suas potencialidades, os deuses geraram as Musas, seres divinizados, filhas de Zeus e Mnemosine, a deusa da Memória: Clio, a história; Terpsícore, a dança; Calíope, a poesia épica e a eloquência; Polínia, a poesia lírica; Erato, a poesia erótica e a elegia; Euterpe, a música; Melpóneme, a tragédia; Tália, a comédia; Urano: a astronomia.
As Musas seriam responsáveis pelos conhecimentos e inspirações que permitem as criações, ou produções culturais, bem como por elevar o espírito humano, dotando-o de sensibilidade, saberes e talentos.


Aperfeiçoamento das produções culturais.
Os gregos desenvolveram diversos aspectos culturais associados a suas crenças.
Os Jogos Olímpicos, por exemplo, eram realizados em homenagem aos deuses, na cidade de Olimpíada, no Peloponeso.
As olimpíadas envolviam os cidadãos gregos que buscavam demonstrar força, agilidade e capacidades sobre-humanas, sendo coroados de louros após vencer tais competições.

Ao se organizarem como sociedade sexista, os jogos eram praticados pelos homens, com a coroação dos vencedores feita pelas mulheres.

Com o tempo, os jogos foram se tornando bastante conhecidos e passaram a contar com um público numeroso, razão pela qual começaram a ser realizados em espaços especialmente destinados a esse fim. Era a criação do teatro (thêo = ver + atrôn = lugar).

Como os espetáculos e cerimônias duravam dias, outros elementos culturais foram sendo inseridos: leitura de poesias, apresentação de danças e encenação de peças.


O Teatro e as expressões moralizantes.
O teatro foi uma das grandes produções dos antigos gregos, com as suas duas formas clássicas: a tragédia e a comédia.
A comédia (komoidía, de kômos = festa + oidós, cantor) apresentava situações ridículas, absurdas e ofensivas nas quais os estereótipos tinham a função de crítica social e política, tendo uma função moralizante e de correção das condutas.
Ao utilizar recursos como o imprevisto e a surpresa, os comediantes provocavam o riso, ridicularizando as atitudes que não eram consideradas éticas para a vida em sociedade.
As comédias eram apresentadas com cânticos, primeiramente, nas festividades em homenagem a Dionísio, tendo, portanto, uma relação com o sagrado. Mas, com o passar do tempo, foram se dessacralizando e se tornaram um subgênero teatral, com a presença da música, do coro e das máscaras disformes.
Os textos trágicos expressavam a diferenciação entre deuses e homens.
A palavra tragédia (tragos = bode + ode = canto) tem um significado associado às práticas culturais e às representações do povo grego.
Nas cerimônias religiosas, ou cultos cívicos, os gregos ofereciam esses animais em sacrifício aos deuses. Uma vez escolhido, o animal seria necessariamente sacrificado, momento em que emitiria um som de dor, como um canto triste. Assim a palavra tragédia está ligada à ideia de um fim inevitavelmente aniquilador, “trágico”.
As tragédias gregas foram e ainda são objetos de estudos literários, artísticos, jurídicos e psicanalíticos, como é o caso de Édipo Rei, de Sófocles, que narra a história de um jovem cujo destino foi anunciado pelo oráculo antes do seu nascimento.
Os oráculos eram comuns na antiga Grécia, sendo mais famoso o da cidade de Delfos. De acordo com os registros deixados pelos gregos, a predição dos acontecimentos era possível quando sacerdotes iniciados entravam em um transe sagrado e revelavam o futuro.
Outra tragédia exemplar é a que se passa em meio à Guerra de Tróia. Segundo as narrativas, Príamo, rei de Tróia, assim como o pai de Édipo, procurou o oráculo para obter notícias sobre o filho que esperava. Tendo-lhe sido revelado que o filho seria portador de tragédias para Tróia, Príamo decidiu desfazer-se da criança.
Ao nascer, o menino chamado Páris, foi afastado de Tróia e criado por outra família, que lhe cuidou com valores morais, de tal modo que quando adulto, era considerado, além de belo, um homem de bom senso.
A face trágica desse mito liga-se às vaidades e disputas entre divindades femininas. Em certa ocasião Discórdia não foi convidada para uma festividade e, portanto, usando sua invisibilidade resolveu vingar-se lançando um fruto dourado com a inscrição “para a mais bela”: era o “pomo da discórdia”.
Afrodite, Hera e Atena entraram em disputa, colocando o Monte Olimpo em desarmonia. Zeus, então, escolheu Páris para arbitrar o conflito.
Por fim, Páris foi seduzido pela promessa de Afrodite, a deusa do amor, de que se ele a escolhesse seria presenteado com o afeto da mais bela mortal. Assim seu destino estava definitivamente marcado.
Hera, a rainha dos céus, e Atena, a deusa da justiça e da guerra, inconformadas com a decisão de Páris, lançam sobre ele a maldição de realizar seu desejo, pois a mais bela mulher era Helena, esposa de  Menelau, rei da  Grécia.
Em viagem à Grécia, Páris e Helena se conhecem e se apaixonam, fugindo posteriormente para Tróia, sendo responsáveis pela cruel e duradoura guerra, pela aniquilação da família de Príamo e pelo fim do seu reinado, juntamente com a grandeza e glória de Tróia. Era a concretização da profecia do oráculo.
Esse é o conteúdo da tragédia e sua finalidade moralizante.


A Poesia e as narrativas.
Como a mitologia estava presente desde tempos imemoriais na sociedade grega, influenciou na organização social e política, na Literatura, na Arte, na Arquitetura e mesmo na Filosofia.
A Arte grega é avaliada como um conjunto de expressões muito sofisticadas, em que se buscava representar as formas e sons com a máxima perfeição, uma vez que os artistas eram entendidos como aqueles que receberam a inspiração das Musas e deuses.
Os poetas eram considerados como iniciados nos conhecimentos de Mnemosine, a deusa da Memória, e sua fala tida como reveladora da beleza sagrada e, com consentimento divino, também da verdade.
Nos versos de Hesíodo encontramos:
“Por cetro deram-me um ramo, a um loureiro viçoso / colhendo-o admirável, e inspiraram-me um canto / divino para que eu glorie o futuro e o passado / impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos / e a elas primeiro e por último sempre cantar".
Assim, o aedo, é um iniciado que cultua a Memória, tanto no sentido religioso como no sentido prático, fato que o eleva acima dos reis e outros senhores gregos. Seu canto e sua palavra são veículos de saberes inspirados por Mnemosine e pelas Musas. Portanto, é considerado um propagador da arte e da sabedoria.
A palavra poesia (poiesis = criação) tem um sentido muito próximo ao de arte, em grego techné (também criação). Mas esse sentido para os gregos era mais amplo, não representando apenas a elaboração de um poema (texto produzido em versos), mas a capacidade criadora, em sentido amplo.
Os poemas eram apresentados publicamente. Em tais apresentações, os versos eram cantados com o acompanhamento da lira e, às vezes, passos de dança.
Além de retratar deuses e a vida da elite, há outras produções, como Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo, narrando o cotidiano camponês e apresentando o trabalho como virtude.
A partir da obra de Hesíodo podemos saber que os trabalhadores do campo organizavam suas tarefas de acordo com as épocas do ano: em novembro e dezembro eles aravam a terra; em fevereiro e março, ceifavam as vinhas; em maio e junho faziam colheita; em julho e agosto, a separação dos grãos; em setembro fabricavam o vinho; em outubro podavam as árvores.
Na Grécia antiga, poesia, canto, música e dança se manifestavam juntas, e assim permaneceu por muito tempo. Somente a partir da Idade Moderna é que foram se separando, pensados como formas autônomas de arte.


A Dança e a religiosidade.
De acordo com a mitologia grega, a criação das Musas introduz as linguagens artísticas como manifestações divinas, pois os deuses teriam pedido a Zeus a criação de divindades que pudessem narrar seus grandes feitos e manter viva essa memória.
Terpsícore era a Musa criadora da dança, mas de acordo com a Teogonia, todas as musas dançavam e cantavam em volta da fonte de água inesgotável e do altar de Zeus.
Como seres invisíveis, durante a noite cantam e dançam, evocando, relembrando e reforçando os poderes dos deuses das diferentes gerações.
Para os gregos antigos a dança era a expressão da alegria e da celebração religiosa, como nas festas denominadas “dionisíacas”, pela fertilidade e em homenagem ao deus Dionísio que a representava.
Nos cultos religiosos a dança e o canto exercem uma função extática, colocando o iniciado em contato com a divindade.
Segundo as narrativas homéricas, as danças eram realizadas por homens e mulheres e comuns em diferentes ocasiões, inclusive nas cerimônias de casamento, em que a fertilidade e a prosperidade eram evocadas.
Com o passar do tempo, as danças começaram a ser acompanhadas por cânticos dos coros e passos ritmados, expressando sempre a alegria e a religiosidade.


A Escultura e as experiências estéticas.
A escultura grega é expressão estética que sobrevive como mostra da perfeição tanto das formas representadas, quando da técnica usada pelo artista.
Em uma passagem da narrativa de Ovídio, poeta romano, esse senso é relatado. Pigmalião, rei de Chipre e um renomado escultor, cria Galatea (palavra de origem controversa, podendo significar “como leite” ou “elegância”), estátua de mármore branco, com tamanha perfeição que se apaixona por ela, pedindo à Afrodite que a transforme em ser humano.
No mito, o diário de Pigmalião relata:
“A obra está avançando admiravelmente, ainda que a custo de muita concentração. Durante cinco dias estive entregue à tarefa de dotar a minha estátua de um rosto superior a todos os outros. Não tenho tido tempo nem ânimo para desviar os olhos da minha obra. [...] Não sei exatamente como explicar; há nele um encanto que combina o ar sonhador oriental com o ar de ponderada reflexão das mulheres mais sábias da minha terra. Não fosse o rosto de uma estátua, diria que estou apaixonado por ele”.
Nessa passagem, explicita-se o sentido da experiência estética: a contemplação da extrema beleza, que leva o ser humano a sentimentos profundos.
A escultura grega pode ser representada pela obra de Fídias, famoso escultor do século V a.C., contratado por Péricles, governante ateniense, para realizar as mais belas obras em homenagem aos deuses do panteão grego, e que esculpiu a magnífica estátua de Palas Atenas, já desaparecida, cuja réplica encontra-se no Museu do Louvre, em Paris.
A arquitetura também buscou a beleza, a perfeição, a proporção e harmonia das formas, especialmente nas construções dos templos e edifícios públicos, com suas colunas, capitéis e frontões triangulares, que ainda na Antiguidade foram incorporados pelos romanos; na Idade Moderna, pelo estilo renascentista; na Idade Contemporânea pelos movimentos neoclássico e art nouveau; e, nos dias atuais, ainda presentes em construções de caráter público ou privado.


Filosofia e História.
A civilização representou uma evolução em termos culturais, com a criação da Filosofia, da Democracia e o redimensionamento da cultura e da arte, que passam a ser valores do povo grego, ou sinônimo de grecidade e, posteriormente, valores da civilização ocidental.
Dentre as mais significativas criações da Grécia Clássica destaca-se a Filosofia, com sua busca incessante de conhecimento sobre a realidade material ou imaterial, e a concepção de História como um campo do saber, ambas a partir do distanciamento das concepções mitológicas.
A palavra história (o que procura saber, derivada de  histor = testemunha) ganhou o sentido de investigação com bases em fatos concretos e identificáveis, por meio de estudos e documentos.

Tratava-se de uma tentativa de superar as explicações contidas nas narrativas tradicionais do povo grego.
Dos expoentes dessas investigações destacam-se Tucídides, Hecateu de Mileto e Heródoto, que publicou suas Histórias, investigações, em um conjunto de capítulos intitulados com os nomes das nove Musas, nos quais relata as ações de gregos e persas. Vejamos o trecho de abertura das Histórias de Heródoto:
Heródoto de Túrio expõe aqui suas investigações, para impedir que o que fizeram os homens, com o tempo, se apague da memória e que as grandes e maravilhosas realizações, levadas a cabo tanto pelos bárbaros, quanto pelos gregos, cessem de ser renovadas, em particular, o que foi a causa de que gregos e bárbaros entrassem em guerra uns com os outros. [...]
Tratava-se de uma clara distinção entre as crenças, os mitos, e as práticas sociais, especialmente em uma tentativa de superação da narrativa homérica, mas, ainda assim, referia-se à memória e as musas.
Muitos estudiosos consideram que talvez não tenha existido um poeta chamado Homero, e que Ilíada e Odisseia seriam apenas compilações das narrativas dos inúmeros aedos que viviam na região. Outros apontam os textos como compilações das pesquisas feitas por Hecateu de Mileto. Outros, entretanto, afirmam que Homero provavelmente nasceu na Ilha de Quios, e que quanto se tornou conhecido estava em idade avançada e já não enxergava.
Mas, o fato é que por meio desses textos pode-se conhecer o modo de vida dos gregos em uma parte de sua história, assim como muitas de suas concepções de mundo e existência.
Por outro lado, concretizou-se o projeto de Heródoto, pois seu modelo de narrativa histórica perpetuou-se ao longo dos séculos, sendo reproduzido, questionado, negado ou atualizado.
A Filosofia e seus ramos de investigação na Grécia antiga são referenciais para a problematização e compreensão do mundo e da existência humana, perpetuando-se em múltiplas menções em todos os campos do saber.


Concluindo.
Pelo grande valor histórico e artístico, muitas produções gregas foram preservadas e podem ser admiradas nos museus mais importantes do mundo, como no Louvre,  o baixo relevo denominado Procissão das Panateneias (445-438 a.C.), feito em mármore, encontrado ao pé do Parthenon na acrópole de Atenas, representando as túnicas que compunham a vestimenta característica da época; ou a estátua denominada Vênus de Milo (fins do séc. II a.C.), encontrada na Ilha de Milo, nos arredores do teatro, apresentando uma figura feminina com busto desnudo e grande sensualidade, uma mostra da sofisticação e do estilo artístico desenvolvidos no final do período helenístico.
O Renascimento foi um período em que as tradições greco-romanas retornaram como inspiração e temática de grandes artistas, de modo que na pintura, escultura e arquitetura, do final da Idade Média e início da Idade Moderna, produziram-se obras que relembravam a mitologia e os valores do mundo grego antigo, como vistos nas obras de Botticelli (Primavera, O Nascimento de Vênus, Vênus e Marte), Ticiano (Baco e Ariadne), Velásquez (Os Bêbados ou o Triunfo de Baco, A forja de Vulcano, Vênus ao Espelho), Antonio del Pallaiolo (Apolo e Dafne), Lucas Cranach (Vênus e Cupido), Peter Paul Rubens (O Julgamento de Páris), Pietro Perugino (Apolo e Mársias), Lambert Sustris (Vênus e o Amor), e tantas outras de inestimável significado.
Os gregos influenciaram os romanos, formando a cultura greco-romana; e os persas, formando a cultura helenística; os romanos dominaram e influenciaram os europeus, difundindo seu padrão cultural; os europeus, por sua vez, buscaram meios para transplantar seus valores para a América, contribuindo para a introdução de um novo molde civilizatório, no qual o padrão grego – associado aos valores medievais e modernos e acrescidos da influência de ameríndios e africanos – constituíram um novo processo de formação histórico-social.


Para saber mais sobre o assunto:
AYMARD,  A. e AUBOYER, J.  O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: DIFEL, 1977.
BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da mitologia: (a idade da fábula): histórias de deuses e heróis. São Paulo: Ediouro, 2000.
COULANGES, Fustel de. A cidade antiga. Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. eBookBrasil, 2006. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/cidadeantiga.pdf.
DEL DEBBIO, Marcelo. Enciclopédia de Mitologia. São Paulo: Daemon, 2008.
FINLEY, M. I. Os gregos antigos. Lisboa: Edições 70, 1963.
FRANCHINI, A. S. e SEGANFREDO, C. As 100 melhores histórias da mitologia. Deuses, heróis, monstros e guerras da tradição greco-romana. 6ª ed. São Paulo L&PM, 2003.
GRILLO, José Geraldo Costa. O sacrifício de Políxena nos vasos áticos dos séculos VI-V a.C. 2009. Disponível em: http://www.nea.uerj.br/publica/e-books/mediterraneo1/DOC/Jose%20Geraldo%20Costa%20Grillo.pdf.
HESÍODO. Teogonia. A origem dos deuses. Estudo e tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1995.
HOMERO. Odisea. eBookBrasil, 2003. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/odisea.pdf


Texto: Profª Drª Marilda Aparecida Soares.
Doutora em História Social – FFLCH/USP.
Professora das Faculdades Integradas de Ribeirão Pires – FIRP.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Reestruturando o espaço da sala referência – uma proposta que privilegie o direito a infância.


Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume set., Série 20/09, 2011, p.01-05.


Contemporaneamente torna-se, cada vez, mais necessário discutir o espaço sala de aula como referência que privilegie o direito da criança a uma educação de qualidade e, simultaneamente, lugar de viver a infância.
“A organização do espaço da escola é o resultado dos nossos saberes sobre a infância, por isso, reflete a cultura de quem o organiza, expressa o que pensamos sobre a criança e a infância” (MELLO, 2003).
O curso de pós-graduação em educação infantil (USP 2010/2011) nos trouxe novos saberes e o espaço da sala de aula, ou melhor, sala referência já que na educação infantil não damos aulas e não temos alunos e sim crianças.
Os espaços que foram organizados na imensa maioria se não totalidade das EMEBs de educação infantil, dentro do âmbito do período parcial das redes municipais, não serve mais.
Não contempla a nova concepção de criança, infância, escola e educação, que temos agora, diante de novos conhecimentos, pautados na teoria histórica-social de Vygostky.


Novos e velhos espaços.
O velho espaço, organizado com mesas e cadeiras (de quatro em quatro) para todos, para que fiquem sentados, passivamente, realizando as mesmas atividades, não juntos, mais ao mesmo tempo, esperando as comandas do educador, chega a incomodar.
Agora sabemos e temos clareza que “... a bandeira do direito das crianças à creche e à pré-escola, ou seja, o direito das crianças ao cuidado e à educação em espaços coletivos intencionalmente organizados pelos adultos para garantir que as crianças se apropriem das máximas qualidades humanas criadas pelos homens e mulheres que nos antecederam ao longo da historia” (MELLO, 2003).
“A defesa da educação coletiva das crianças pequenas fundamenta-se na compreensão de que, no convívio com outras crianças, quando atribuem significado ao mundo da cultura e da natureza que vão conhecendo, as crianças produzem uma cultura própria da infância: a cultura infantil” (MELLO, 2003).
Apresentar esta cultura é o grande papel da educação infantil.
Quando dizemos apresentar, não se trata de apenas mostrar e sim deixar manusear, vivenciar, explorar, entortar, subir, procurar possibilidades...
Mas como se explora a cultura?
Através de seus objetos, da maneira para qual foi criado.
Assim, se apropria da panela, brincando de casinha, da escrita, brincando de escrever com seus objetos, lápis e papel, mas não preenchendo folhas de forma mecânica e repetitiva.
Aprender envolve explorar, fazendo de conta que se escreve em momentos onde a escrita é utilizada no mundo.
Escrevendo uma lista de compras (brincando de casinha), a receita do médico (brincando de médico)...
É desta maneira que segundo Vygostky se desenvolve a inteligência, na “busca pela máxima formação das qualidades humanas, através das funções psicológicas superiores, memoria, linguagem, pensamento, atenção, percepção” (MELLO, 2003).
Formar para a inteligência, é esta, ou deveria ser, a função máxima da escola.


Algumas considerações.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) assegura às crianças o direito a brincadeira, à atenção individual, à convivência em um ambiente aconchegante, seguro e estimulante.
O direito a desenvolver a sua curiosidade, imaginação e capacidade de expressão; o direito à proteção, ao afeto e à amizade; o direito ao movimento em espaços amplos; o direito a expressar seus sentimentos, a uma especial atenção durante seu período de adaptação à escola; a desenvolver sua identidade cultural; a uma alimentação sadia e ao contato com a natureza.
Como garantir tudo isto em um pequeno espaço, lotado de mesas e cadeiras que atrapalham a mobilidade dos adultos e crianças, com um grupo de 25, 28 crianças com três anos, tendo um adulto referência?
Mudar é essencial, começando pelo espaço.
Além da inteligência, “nossos pequenos estão formando sua Personalidade, através da formação da identidade, através do domínio da vontade, pelo controle da própria conduta e pela formação dos sentimentos, das emoções e dos valores”(MELLO, 2003).
Para se autocontrolar é necessário um mínimo grau de autonomia, afinal não é necessário autocontrole infantil em um ambiente já super controlado pelo adulto.
Controlar o quê, se tudo estiver sob controle?
Sabemos que “a criança aprende desde que nasce e porque aprende, forma para si as qualidades humanas – que não são naturais dos seres humanas, mas foram criadas pelas gerações que nos antecederam ao longa da historia e foram armazenadas nos objetos externos da cultura humana e que, por isso, devem ser aprendidas pelas novas gerações, num processo que costumamos chamar de desenvolvimento, mas que é efetivamente em processo de educação”. (LEONTIEV, 1978)
Segundo Vygostky, este processo de aprendizagem é sempre ativo por parte de quem aprende.
Seja imitando ou experimentando.
A atividade é essencial para a aprendizagem.


Concluindo.
Atividade, no sentido pleno palavra, implica em ser ativo corporal e cognitivamente e não apenas em fazer, reproduzir, seguir ordens.  
“O que torna o fazer uma atividade é o grau de envolvimento do sujeito que o realiza. O grau de envolvimento da criança tem relação direta com o sentido que a atividade tem para ela: quanto mais a atividade responde a uma necessidade ou desejo da criança, mais envolvida veremos a criança e maior a emoção positiva que ela demonstra ligada à atividade. Essa emoção é condição para a aprendizagem.” (MELLO, 2003)
Assim a intencionalidade do educador torna-se essencial para a formação das máximas qualidades humanas.
Esta intenção não começa no planejamento da atividade, é anterior a isso.
Inicia na organização do espaço.
Que tipo de interações eles suscitam?


Com o adulto, com outras crianças, com os objetos da cultura?
Que movimentações podem ocorrer?
As crianças podem reorganizá-lo? Participam desta organização?
São ouvidas, através da observação do educador?
Segundo Vygostky, a formação de todas as funções psicológicas superiores envolve sempre e inicialmente o exercício social e coletivo da função como uma ação externa que, pouco a pouco e pela experiência coletiva, vai sendo internalizada pela atividade da criança.
Para potencializar estes momentos sociais e não apenas coletivos a reestruturação do espaço é essencial.
Há de se convir: muitas mesas e cadeiras, em um pequeno espaço, onde colocar-se outros materiais é impossível (não sobra espaço), relações efetivamente sociais entre as crianças, como as que se tem no mundo, são no mínimos raras.
Se a escola “apresenta” a cultura construída pela humanidade para as crianças irem aprendendo, desenvolvendo as qualidades humanas, inteligência, personalidade... deve representar esta cultura.
E onde, nos espaços sociais humanos, se encontram salas com mesas e mesas, cadeiras e cadeiras, crianças e crianças e o educador?
Só na escola.


Para saber mais sobre o assunto.
MELLO, Suely Amaral. Algumas implicações pedagógicas da Escola de Vygotsky para a educação infantil. s.d.
MELLO, S.A. Linguagens infantis – Outras formas de leitura. d.d.
MELLO, S. A. “Queremos um diplodocus” In: Revista In-fan-cia. Barcelona: 2004.
MELLO, S.A. O espaço do escola e a imagem da crianço. UNESP/Marilia: s.d.
MELLO, S.A. Direito à Infância e Práticas de Educação Infantil. UNESP/Marilia: 2003.
MUKHINA, Valéria. Psicologia da idade pré-escolar. s.d.
VYGOSTKY. Lev Seminovich, O Problema do Meio. s.d.
ZACHLOD, Michelle G. Espaço para crescer in revista Educacional leadership. s.d.


Texto: Cláudia Pestana Ramos de Alvarenga.
Pedagoga pela Fundação Santo André.
Pós-graduanda em Educação Infantil pela USP.
Professora da rede municipal de ensino de São Bernardo do Campo.
Professora no Colégio São José de São Bernardo do Campo.