Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Balanço do mês de Março de 2011 - Para entender a história...

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 31/03, 2011, p.01-03.

Neste mês de março, tivemos um recorde de acessos, recebemos 60.000 visitas, distribuídas entre mais 80 países, totalizando mais de 158.000 visualizações desde 13 de agosto de 2010.


Dentre estes visitantes que nos deram a honra da leitura dos artigos da publicação, 51.950 são brasileiros, mas 4.856 são portugueses.
O restante dos leitores foram originários, respectivamente pela ordem de maior incidência de acessos, principalmente dos Estados Unidos da América, Moçambique, Angola, Alemanha, Itália, Espanha, França e Grã-Bretanha.
O ápice de acessos foi registrado no dia 28/03, quando quase tivemos quase 4.000 visitantes em único dia.


As novidades foram muitas, entre as quais, a inclusão de boletins com noticias e eventos na área de história, filosofia e educação, publicados esporadicamente as sextas-feiras.

Juntou-se ao conselho editorial mais uma importante da área de história, com especialização em Idade Antiga.

Agora, faz também parte do conselho editorial:

1. Semíramis Corsi Silva, coordenadora do curso de história do Centro Universitário Claretiano.
Ela possui Mestrado (concluído em 2006 com bolsa CAPES) e Graduação/Licenciatura e Bacharelado (2003) em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP/Franca, onde atualmente desenvolve o Doutorado na mesma área.
Desenvolve pesquisas sobre religiosidade, magia, gênero e poder no Principado Romano.


Na seção dedicada à publicação de artigos de convidados e membros do conselho editorial, as quartas-feiras, foram publicados dois artigos da professora Mary Del Priore, um artigo do professor Marcus Vinícius de Morais e um artigo da professora Samanta Colhado Mendes.

A professora Mary Del Priore enviou a revista vários textos que serão publicados nas próximas edições.

Neste mês recebemos e publicamos o artigo do leitor Victor Mariano Camacho, um colaborador habitual, oferecendo ao nosso publico sempre textos interessantes de qualidade excepcional.

Aproveitamos a oportunidade para agradecer, como sempre, as colaborações e parabenizar todos pelos excelentes textos, estendendo o convite aos demais leitores para remetam artigos para submissão.

Os interessados devem enviar artigos dentro dos parâmetros fixados nas normas de publicação disponíveis no link “Colaborações”.

Mudando o foco, outro dado interessante em março foi o aumento no número de seguidores, subiu de 60 pessoas para 71.
Para os leitores que ainda não estão seguindo a publicação, lembramos que basta clicar no link “seguir” e aceitar as orientações decorrentes.
Os seguidores ficam informados sobre atualizações e ajudam a trazer maior prestigio a publicação com sua ilustre presença.

Neste mês de março, as postagens mais populares, respectivamente com o numero de acessos, foram:
01. História do Analfabetismo no Brasil (4.895).
02. A revolução francesa foi causada pela fome (3.943).
03. Periodização e História (2.842).
04. A passagem da antiguidade para o feudalismo (2.258).
05. História indígena na América portuguesa (1.528).
06. A organização do alto Império romano (1.231)
07. A ascensão da monarquia absolutista na Inglaterra (1.086).
08. A educação no Brasil Império (687).
09. Intelectuais, pensamento social e educação (594).
10. O imaginário popular na época dos descobrimentos (462).


Agradecemos os leitores e desejamos um bom divertimento.

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Editor de Para entender a história...

quarta-feira, 30 de março de 2011

A concepção de Ciências Humanas em Foucault: uma interpretação sobre as palavras e as coisas.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 30/03, 2011, p.01-04.


Michel Foucault, o filosofo e historiador francês que viveu entre 1926 e 1984, na obra As palavras e as coisas, publicada em 1966, dá a conhecer ao senso comum que às ciências humanas são mais que um saber.
Em sua opinião elas seriam uma prática, uma instituição.
Ao analisar a gênese e a filosofia da ciência, mostra como é recente o aparecimento do homem na história do nosso saber.
Estudou em sua obra a mudança interior da cultura, do século XVIII ao XIX, através da gramática geral, que se tornou filologia.
Utilizando também a análise das riquezas, que se tornou economia política, e a história natural, que se tornou biologia.


A estrutura de as palavras e as coisas.
A análise das ciências humanas de Foucault é posterior à publicação de História da loucura em 1961, na qual o filosofo examinou como os conceitos de saúde e loucura surgiram e se combinaram para dar origem à categoria de doença mental.

Porém, é anterior a Vigiar e punir, obra publicada em 1975, na qual são analisados os métodos de disciplina empregados nas prisões, através de relações de poder que implicam a coerção e a imposição.

Em As palavras e as coisas, reconhecendo a influência de Nietzsche no conjunto de sua obra, Foucault procede a uma arqueologia do pensamento, mostrando aquilo que faz com que as ciências humanas, contemporaneamente, tornarem-se possíveis.
Especificamente no Capitulo X, intitulado “As ciências humanas”, o pensador mostra o processo de formação destas.
O texto encontra-se dividido em seis partes:

I. O triedro dos saberes.
II. A forma das ciências humanas.
III. Os três modelos.
IV. A história.
V. Psicanálise, etnologia.
VI. Tópico sem titulo.

Neste último, Foucault conclui não só o último capítulo de seu livro, como também toda a obra enquanto conjunto.


A origem das ciências humanas.
Em As palavras e as coisas, Foucault deixa claro que, antes do século XIX, as ciências humanas simplesmente não existiam.
Segundo ele, a dimensão humana só teria surgido a partir de necessidades empíricas derivadas do trietro: ciências dedutivas, ciências empíricas e reflexão filosófica.
Na verdade, em sua opinião, a filosofia teria sido a mãe de todas as ciências humanas, da qual todas derivam.
Em seguida ele delimita as matemáticas, as ciências dedutivas, enquanto formadoras da análise das riquezas e, portanto, da economia política.
Delimitando também a reflexão filosófica como formadora da filologia, através de uma gramática geral e, igualmente, a história natural como precursora da biologia.


O papel da história.
Foucault se colocava como arqueólogo do conhecimento humano e, como tal, dividiu as ciências me regiões, a exemplo da espacialidade geográfica, conferindo espaços delimitados e claros dentro do âmbito das ciências humanas.
Afirmou que a partir das três primeiras regiões epistemológicas existentes nas ciências humanas- ou seja, biologia, economia e filologia -, nasce à região psicológica e sociológica.
A história é definida como uma ciência nascida da tríade, no entanto constituindo uma área do conhecimento que não estaria descolada das demais, seria uma esfera de acolhimento ao mesmo tempo privilegiada e perigosa.
Isto porque a história teria se desenvolvido ao lado das demais ciências humanas, precisando pegar conceitos e instrumentos emprestados de outras ciências, enquanto também estaria dentro destas mesmas ciências como ferramenta auxiliar.
Daí o privilégio de interdisciplinaridade e o perigo de ser pulverizada por este mesmo motivo.


Concluindo.
Antes de encerrar a obra As palavras e as coisas, Foucault retoma a discussão concernente ao nascimento da psicanálise, bem como sua natural ligação com a etnologia.
Seriam regiões que tornaram possíveis um saber de fato real sobre o homem.
Antes, todas as outras ciências humanas eram apenas especulativas.
Este caminho foi traçado por Foucault para concluir que o homem é uma invenção recente, à medida que as ciências humanas são uma invenção que remonta ao século XIX.

Desta forma, ele dá prosseguimento às investigações acerca das origens dos conhecimentos e das formas de controle político que incorporado à vida moderna ocidental.

Pretendia, na verdade, demonstrar o caráter arbitrário das idéias e práticas sociais, dando continuidade ao estudo ao qual dedicou sua vida.
Mais tarde, seguindo esta linha de pensamento, pouco antes de falecer, Foucault publicaria a História da Sexualidade em 1980.


Para saber mais sobre o assunto.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FOUCAULT, Michel. Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
FOUCAULT, Michel. História da loucura. São Paulo: Perspectiva, 1978.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
FOUCAULT, Michel.  Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2000.
FOUCAULT, Michel.  O homem e o discurso. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
FOUCAULT, Michel. Resumo dos cursos de college de france 1970-1982. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1994.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Nascimento da Prisão. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFLCH/USP.

A indiferença contemporânea: uma reflexão sobre o quadro das sensibilidades.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 30/03, 2011, p.05-07.


Um dia desses, por alguns momentos a cidade parou.
As televisões hipnotizaram os espectadores que assistiram, sem piscar, o resgate de uma mãe e de uma filha.
Seu automóvel caíra num rio.
Assisti ao evento em um local público.
Ao acabar o noticiário, o silêncio à volta do aparelho se desfez e as pessoas retomaram as suas ocupações habituais.
Os celulares recomeçaram a tocar.
Perguntei-me: indiferença?
Se tomarmos a definição ao pé da letra, indiferença é sinônimo de desdém, de insensibilidade, de apatia e de negligência.
Mas podemos considerá-la, também, uma forma de ceticismo e desinteresse, um “estado físico que não apresenta nada de particular”, enfim, explica o Aurélio, uma atitude de neutralidade.
Conclusão?
Impassíveis diante da emoção, imperturbáveis frente à paixão, imunes à angústia, vamos, hoje, burilando nossa indiferença.
Não nos indignamos mais!
À distância de tudo, seguimos surdos ao barulho do mundo lá fora.
Dos movimentos de massa “quentes”, - (lembram-se do “Diretas Já”?) - onde nos fundíamos na igualdade, passamos aos gestos frios, onde indiferença e distância são fenômenos inseparáveis.
Neles, apesar de iguais, somos estrangeiros ao destino de nossos semelhantes.
O apagamento do conflito, a sedução do consenso oferece um painel açucarado onde não há singularidades.
Damos as voltas que forem necessárias para não toparmos com o outro, com o diferente.
Via “Embratel”, o mundo exterior nos bombardeia com a miséria, a selvageria, a violência e simultaneamente com o riso, a anedota e a festa.
Mas pelo tubo ótico, um morto é igual ao outro; uma imagem vale outra.
Mais e mais a televisão ensina o nosso olhar a perder o uso da perspectiva.
Ela apaga as asperidades e os relevos; não há mais diferença entre o real e o imaginário.
Na tela, pessoas tornam-se coisas e coisas tornam-se pessoas.
Assim, findo o resgate, mãe e filha se afogaram na nova máquina de lavar, na espuma do novo detergente, ao som do plim-plim.
E, de quadro em quadro, vamos assistindo, desencantados, a nossa posição ética frente ao mundo se anestesiar.
Não adianta trocar de canais: a mensagem é sempre a mesma.
Não sentir, não pensar, não falar ou falar, com indiferença, do que não nos toca jamais.
A modernidade, denunciaram alguns filósofos, não passa de um enorme dispositivo para nos “acostumar”: acostumar com o espetáculo diário do sofrimento televisionado, acostumar com nossa função de consumidores anônimos e apáticos.
Antes de ligar a televisão, antes mesmo de pensar em poupar energia, vou pensar nisso.


Para saber mais sobre o assunto.
DEL PRIORE, Mary. A Família no Brasil Colonial. São Paulo: Editora Moderna, 1999.
DEL PRIORE, Mary. Ao sul do corpo, Condição Feminina, Maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. UNESP: São Paulo, 2009.
DEL PRIORE, Mary. “A vida cotidiana no Rio de Janeiro” In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 436, 2007, p. 313-333.
DEL PRIORE, Mary. A História das Crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999.
DEL PRIORE, Mary. “Crianças e adolescentes de ontem e de hoje” In: Helena Bocayuva e Sílvia A. Nunes. (Org.). Juventude, subjetivações e violências. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009, p.11-24.
DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2002.
DEL PRIORE, Mary. L'Histoire de la vie privée dans le monde luso-americain: l'exercice d'une nouvelle approche? In : Cahiers de L'histoire Du Brésil, Sorbonne - Paris, 2000.


Texto: Profa. Dra. Mary Del Priore.
Doutora em História Social pela USP, com Pós-Doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (Paris/França).
Lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ.
Autora de mais de cinqüenta livros e atualmente professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira - UNIVERSO/NITERÓI.
Membro do Conselho Editorial de "Para entender a história..." desde 14/01/2011.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Spencer e o Darwinismo Social.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 28/03, 2011, p.01-09.


Herbert Spencer (1820-1903) foi um filosofo e sociólogo inglês, responsável pela teoria do darwinismo social, considerado um seguidor de Comte e representante do positivismo na Grã-Bretanha.
Acreditava que a evolução seria um principio universal, sempre operante.
Muito conhecido na sua época, Spencer fez parte do circulo de amigos de Charles Darwin, autor de A origem das espécies, obra publicada em 1859.
Este último foi responsável pelo conceito de seleção natural e pela teoria da evolução a partir da lei do mais forte.
Spencer seguiu esta linha de pensamento e tentou aplicar as idéias de Darwin ao contexto da vida do homem em sociedade, originando o dito darwinismo social.
O qual influenciou o pensamento sociológico, o planejamento organizacional e o sistema educacional.


Influencias teóricas.
Além do contato direto com Darwin, Spencer sofreu influência das idéias de economistas como John Stuart Mill, Adam Smith e Thomas Malthus.
Para Mil, o sistema capitalista gera poder, este gera mais poder e dinheiro, ao passo que as energias da humanidade são canalizadas para a luta por riquezas.
Assim, dentro da ótica capitalista, as pessoas pensam prioritariamente em obter recursos monetários, o qual confere poder e se multiplica com ele, fazendo do dinheiro e do poder objetivos de vida.
Não significa que os indivíduos não tenham outras prioridades, mas sim que, para obter outras metas, necessitam primeiro buscar dinheiro e poder.
Para Smith, o governo deveria interferir o menos possível no desenvolvimento do capitalismo, pois a lei da oferta e da procura regula a economia.
Conforme existe uma grande oferta de determinado produto, seu preço tende a cair; inversamente, caso a oferta seja pequena, seu preço sobe.
Igualmente, sendo a demanda por um produto com pequena, seu valor cai; enquanto o aumento da procura faz os preços subirem.
Portanto, a dinâmica do mercado auto-regula preços e salários, não sendo necessário à interferência do Estado.
Um conceito que não considera o bem estar social das pessoas, somente as necessidades do sistema capitalista de se perpetuar.
Já para Malthus, as causas de todos os problemas da humanidade está na própria espécie humana.
O grande problema do mundo é o excesso de gente, o que faz os recursos naturais serem escassos e insuficientes para suprir a humanidade, forçando o sistema econômico a estratificar a sociedade.
Não existindo recursos que possibilitem um alto consumo por parte de toda humanidade, pois eles se esgotariam rapidamente, o capitalismo divide as pessoas em classes sociais.
Uma elite dirigente, com numero de pessoas limitado, tem acesso a um alto padrão de consumo, enquanto a maioria da população vive em condições precárias.
Neste sentido, guerras e epidemias seriam um mecanismo regulador da economia, fazendo diminuir a população, elevando os salários dos sobreviventes e o poder de consumo em geral, girando a economia, sem o risco de inflação e incapacidade industrial e agrícola de suprir as necessidades da sociedade.


As idéias de Spencer.
Spencer aplicou o darwinismo ao contexto social, partindo do pressuposto que o universo evolui e que a evolução é progresso, considerando, a exemplo de Comte, a ordem necessária para o progresso.
Para ele, todas as transformações possuem um caráter comum, compondo uma lei que, uma vez desvendada, permite prever as futuras transformações, embora esta previsão seja apenas parcial.
Acontece que toda causa produziria mais de um efeito, portanto, mais de uma modificação, constituindo novas causas e novos efeitos, multiplicados indefinidamente.
Dentro deste contexto, Spencer aplicou a lei do mais forte às estruturas sociais.
Chegou à conclusão que a seleção natural se aplicaria a sociedade quando pensada em termos de cooperação entre indivíduos em prol da supremacia de um grupo.
Assim, não se trata somente do individuo mais forte prosperar, mas do grupo mais coeso e forte tornar-se hegemônico, formando a elite dirigente de uma civilização.
Spencer explicitou estas concepções em várias obras, dentre as quais:

Princípios de sociologia (1879).
Lei e causa do progresso (1889).
Estatística social.
Sistemas de filosofia sintética.

Além destes livros, uma obra publicada em 1861, mas que ganhou destaque somente em 1927, após a morte do autor, influenciou decisivamente a educação britânica e mundial.
Trata-se de Educação intelectual, moral e física, onde Spencer defendeu a idéia de que era necessário preparar os indivíduos para serem uteis a sociedade, ao mesmo tempo, possibilitando uma formação adequada a sua sobrevivência no âmbito do sistema capitalista.
O que implicaria em desenvolver conhecimentos técnicos e científicos junto com uma formação moral doutrinadora do patriotismo, além de condições físicas saudáveis para os futuros operários e soldados da nação.
A partir de onde surgiram duas disciplinas ainda não integradas aos currículos escolares: Educação Moral e Cívica; e Educação Física.


A influência do darwinismo social no Brasil.
O darwinismo social influenciou fortemente os intelectuais brasileiros no século XIX e inicio do XX.
As idéias de Spencer foram incorporadas na obra Os sertões de Euclides da Cunha e nos estudos do médico legista Nina Rodrigues, a reboque, influenciando a historiografia brasileira que analisou a Guerra da Canudos.
O jornalista Euclides da Cunha, representando o jornal O Estado de São Paulo, participou como correspondente de guerra da campanha do exército brasileiro, em 1897, contra Canudos.
Observou tudo e registrou suas impressões em um livro que depois se tornou um clássico da literatura.
Canudos era o nome de uma comunidade que foi originada a partir de um movimento popular, liderado por um beato chamado Antônio Conselheiro, que durou de 1893 a 1897.
Conselheiro andou pelo sertão da Bahia, pregando contra a recém proclamada República.
Para ele o anticristo, defendendo que os sertanejos deixassem de pagar os exorbitantes impostos e não aceitassem a autoridade do governo federal, inclusive considerando um pecado o casamento civil.
A verdadeira autoridade residiria somente na igreja e na monarquia.

O beato obteve um sucesso tão grande em sua pregação que chegou a ter 25.000 seguidores, foi quando fundou o arraial do Bom Jesus de Belo Monte, nos arredores da fazenda Canudos.


O povoado cresceu rapidamente, praticando os preceitos do cristianismo primitivo, dividindo tudo igualmente entre seus moradores e formando uma guarda católica para proteger seus moradores.
Muitos jagunços das fazendas vizinhas; os quais faziam parte da chamada guarda nacional, braço armado dos latifundiários e, teoricamente, representantes do exército brasileiro na região; abandonaram seus coronéis para se juntar a Antônio Conselheiro.
Obviamente, o movimento irritou os fazendeiros da Bahia e repercutiu no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.
Os sertanejos de Canudos foram considerados rebeldes monarquistas que lutavam contra a República, embora tão somente estivessem se colocando contra as mazelas do coronelismo e buscando apenas uma vida mais digna.
O governo federal enviou quatro expedições militares contra Canudos.

A primeira composta por efetivos da policia locais, foi facilmente derrotada pela guarda católica de Conselheiro.

A segunda, comandada pelo major Febrônio de Brito, agregando soldados das milícias locais, também foi derrotada, tendo seus equipamentos, armas e munições tomadas pelos sertanejos.
Melhor armados, a comunidade de Canudos conseguiu resistir à terceira expedição, liderada pelo coronel Antônio Moreira Cesar, considerado um herói na repressão ao movimento separatista Farroupilha no Rio Grande do Sul, apelidado “o corta cabeças”, pois tinha fama de mandar degolar os inimigos capturados.
A tropa federal, vinda diretamente do Rio de Janeiro, contando com 1.300 soldados, abusou do excesso de confiança e avançou, após longa marcha, sem analisar a topografia do terreno.
Foi derrotada pelos habitantes da Canudos, ajudando a deixá-los fortemente armados.
A quarta expedição foi formada quando as derrotas repercutiram fortemente na Capital, sendo composta por 4.000 soldados de infantaria e artilharia pesada, comandados pelo general Artur Oscar Guimarães.
Ocasião em que Euclides da Cunha se juntou as tropas como correspondente de guerra.
Após denuncias de corrupção, desvio de verbas e uma crise de abastecimento das tropas federais, os habitantes de Canudos foram derrotados depois de sete meses de combates.
Antônio Conselheiro já estava morto e enterrado, em decorrência de uma crise de disenteria, quando, em 5 de outubro de 1897, o arraial se rendeu sob promessa de que a sua população não sofreria represarias.
O cadáver de Conselheiro foi exumado e sua cabeça decepada com uma facada, a qual foi enviada para analise de Nina Rodrigues no Rio de Janeiro.
Os sobreviventes do sexo masculino foram sumariamente executados, mulheres e criança, feitos prisioneiros, tiveram que marchar a pé até o Rio de Janeiro, onde foram liderados e entregues a própria sorte.
O episódio impressionou fortemente Euclides da Cunha, que sob influencia das idéias de Spencer, passou a conceber a história como uma área do conhecimento linear, sem rupturas, voltada para um futuro industrial que iria acabar com as características rurais do Brasil.
Baseado em suas observações sobre Canudos, Euclides da Cunha assimilou os ensinamentos de Spencer, remetendo a análise da realidade brasileira em Os sertões.
Para ele, o episódio de Canudos representava o evolucionismo darwiniano, o sertanejo seria um aprimoramento da raça brasileira, em oposição ao negro e ao índio do litoral.
As três primeiras expedições a Canudos teriam fracassado porque eram compostas, primordialmente, por descendentes de negros e indígenas, enquanto os mais fortes, os sertanejos teriam triunfado.
O sertanejo seria forte porque é miscigenado, a miscigenação seria para Euclides da Cunha a força da nação.
A mistura de raças deveria constituir uma prioridade e um projeto nacional que levaria o Brasil a alcançar a sonhada ordem e progresso positivista e republicana.
Uma opinião totalmente oposta a de Nina Rodrigues, outro representante do darwinismo social no Brasil.
O médico legista que analisou o crânio de Antônio Conselheiro, publicou a obra Mestiçagem, desgenescência e crime, inclusive citando o caso de Canudos como exemplo.
Professor de Antropologia e psiquiatra, ele afirmava que a presença de negros e mestiços era a causa do atraso brasileiro, sendo a elite constituída naturalmente pelos brancos de origem ariana.
Em termos civilizacionais, os brasileiros seriam fracos, não tendo coesão interna enquanto grupo, compondo uma sociedade patológica, doente, daí o predomínio hegemônico de outros países guiando o Brasil.
Com base nesta concepção, nasceu no final do século XIX uma tendência que defendia o branqueamento da população brasileira e a marginalização de negros e mestiços.
Um tipo de pensamento que causou um grande estrago na mentalidade brasileira, que encontra absurdamente ainda hoje seguidores, sobrepondo-se a proposta de Euclides da Cunha, depois retomada por Gilberto Freire na década de 1930, com a publicação de Casa Grande e Senzala.
Nina Rodrigues revestiu teorias racistas de uma pseudo cientificidade, vinculando o darwinismo social com o conceito de raça, um erro teórico grosseiro, já que a coesão dos grupos não está relacionada nem sequer com etnia.
A coesão grupal, na acepção pensada por Spencer envolve aspectos culturais e não raciais.
Aliás, diga-se de passagem, o conceito de raça é atualmente considerado ultrapassado, pois estudos recentes indicaram que todos descendemos de uma Eva genética que viveu no leste da África há 150.000 anos.
Trata-se uma mulher negra da qual todos os seres humanos descendem, não que houvesse apenas esta única mulher sobre a terra, mas em virtude de seus descendentes terem sido aqueles que prosperaram e sobreviveram.


Educação e darwinismo social.
Aplicadas a educação, as idéias de Spencer estão vinculadas como uma critica ao ensino clássico.
Pelo prisma do darwinismo social, seria necessário introduzir nos currículos escolares conhecimentos uteis, entendidos como voltados à formação dos homens de negócios e a organização de uma vida dita civilizada.

Para Spencer não seria possível estudar tudo que a humanidade já desenvolveu, em termos de conhecimento, tornando-se necessário estabelecer os conteúdos mais valiosos e uteis.


Dentre estes estariam incluídas as verdades sobre a saúde humana, a biologia, os costumes que possibilitassem uma vida regrada, a psicologia e as ciências exatas.

A idéia era formar o cidadão, o que fazia com que a sociologia fosse incluída como conhecimento útil.
As artes e humanidades, tal como a literatura, deveriam ser dispensadas em favor do que Spencer considerava a verdadeira ciência.
Entretanto, em concordância com a tendência dominante entre os ingleses desde o século XVII, o empirismo, junto com o ensino voltado a construção de conclusões individuais via observação e experiência, seria necessário disciplinar e moralizar.
Como positivista, Spencer acreditava que os indivíduos deveriam ser doutrinados pela educação.
A escola deveria preparar as pessoas para enfrentar a difícil concorrência com o outro, ao mesmo tempo, ensinando que só a cooperação garante a sobrevivência do grupo e, assim, dos indivíduos inseridos em grupos.
O que ele chamou de organicismo, um conceito bem próximo ao desenvolvido por Durkheim, segundo o qual o funcionamento da sociedade se assemelha a um organismo vivo.
Um conceito que insere Spencer entre os funcionalistas.


Concluindo.
A semelhança de Comte e Durkheim, Spencer queria preservar a sociedade burguesa da qual fazia parte, conservando a reprodução do sistema capitalista através da educação, o que no seu extremo acabou originando os regimes totalitarios facistas, dentre os quais o nazismo.
Porém, diferente de Comte, era contra o oferecimento de uma educação publica e gratuita custeada pelo Estado.

O darwinismo social ditava que o papel do Estado deveria ser limitado, tal como defendia Adam Smith, cabendo a lei da oferta e da procura regular a sociedade, cabendo aos socialmente mais aptos procurarem oportunidades de ensino.

Aos mais fracos caberia perecer, uma idéia malthusiana.

Esta concepção reafirmava a crença nas instituições sociais como reguladoras da ordem, mas revela uma descrença no potencial humano.
Para Spencer, o problema da humanidade estava na natureza defeituosa dos indivíduos, que não conseguindo se adaptar, corrompe as tradições.
Para resolver esta natureza defeituosa, inerente a todo ser humano independente da etnia ou de fatores culturais, seria necessário moralizar através das instituições sociais.
No entanto, embora a educação fosse uma instituição com papel importante na moralização humana, devido aos custos, não era a única escolha.
Outras instituições como o poder judiciário, a policia e legislação, em concordância com a teoria funcional, deveriam auxiliar na moralização.
Uma idéia que chegou ao Brasil pelas mãos de Rui Barbosa, para quem, não obstante, a educação deveria ser o principal mecanismo de disciplinar.
O mesmo jurista que, quando por ocasião da abolição da escravatura, mandou queimar todos os certificados de propriedade de escravos, evitando que, futuramente, processos fossem movidos pedindo reparação dos danos aos escravizados e seus descendentes.
Ele pensou o sistema educacional brasileiro enquanto formador de indivíduos aptos para o trabalho, com hábitos de consumo e poupança.
Por isto introduziu nos currículos a educação moral e cívica, destinada a formar um espírito patriótico e, a reboque, maior coesão interna.


Para saber mais sobre o assunto.
CUNHA, Euclides da. Os sertões: campanha de Canudos. São Paulo: Atelie Editorial, 2009.
GOMES, Candido Alberto. A educação em novas perspectivas sociológicas. São Paulo: EPU, 2005.
GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
KRUPPA, Sônia. Sociologia da educação. São Paulo: Cortez, 2002.
MARTINS, Carlos B. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1985.
RODRIGUES, Nina. “A loucura epidêmica de Canudos: Antonio Conselheiro e os jagunços” In: Revista brasileira, 3 (12). Rio de Janeiro: 1897, p.129-144.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFCH/USP.

sábado, 26 de março de 2011

Fundamentos Históricos e Filosóficos da Educação: problematizações sobre a ação educativa.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 2, Volume mar., Série 26/03, 2011, p.01-10.


Quando pensamos em educação é inevitável discutir seu papel socializador e seu aspecto representativo da cultura.
O que implica em analisar os fundamentos históricos e filosóficos, já que a educação, em si, só é possível através da transmissão do conhecimento ao longo do tempo, por meio do dialogo, do contato entre as pessoas.
Sem socialização, contextualizada no âmbito escolar, não existe educação.
Sendo necessário, portanto, discutir como e se a educação realmente sociabiliza e se este deve ser o seu principal objetivo.
Uma questão amplamente debatida e ainda não esgotada que originou várias tendências pedagógicas, além de inúmeras propostas de direcionamento educacional.
Antes de entrar nesta esfera, no entanto, é necessário debater o âmago do que torna a educação possível, a socialização e sua relação com a educação.


Socialização e educação.
O que é socialização afinal?
A socialização pressupõe a interação social, a capacidade de integrar-se a um grupo, assimilando padrões sociais.
O que interfere na maneira como o sujeito percebe o mundo, o outro e a si mesmo.
O processo de interação, a socialização, inicia-se no nascimento do sujeito e só se encerra com a morte, fazendo uso da linguagem para interagir e integrar os indivíduos.
Um filme que conta um caso real ilustra bem isto, trata-se do Enigma de Kasper Hauser.
Em sentido amplo, a linguagem, através da cultura, constrói significados, embora a equação inversa também seja verdadeira.
Podemos afirmar que o ser humano, neste sentido, só se humaniza a partir da socialização e da assimilação da cultura.
O que conduz a perguntar o que é cultura?
Poderíamos definir a cultura como um conjunto de valores que une e dá identidade a um grupo, espelhando o conhecimento acumulado por gerações.
Assim, sendo a educação a transmissão e assimilação de conhecimentos, cabe perguntar qual é o papel da educação para que a integração entre as pessoas se efetive?
Responder esta questão conduz a outro tema correlato: o papel da educação em sentido amplo e sua distinção dentro e fora do processo de escolarização institucionalizado.


Educação formal e informal.
Para entender o papel da educação na socialização é necessário discutir a transmissão da cultura dentro e fora da escola.
A educação, a transmissão do saber acumulado pela humanidade, não se concretiza somente na escola, acontece também de maneira informal (sem norma ou forma), não possuindo critérios, horários, hierarquia ou sistema de avaliação.
Neste sentido, a educação informal é produzida a partir das necessidades imediatas da vida, configurando o conhecimento conforme as exigências requeridas para a sobrevivência.
Pensando nesta concepção, o saber escolar muitas vezes se distancia da realidade, impedindo a assimilação democrática do conhecimento e excluindo várias categorias sociais, portanto, limitando o acesso ao saber que confere poder.
A escola é uma instituição, como tal possui normas e padrões, impostos por aqueles que controlam o sistema educacional, visando organizar seu funcionamento.
Diferente da educação informal, o conhecimento escolar é sistematizado, transmitido a partir de critérios e métodos, composto por um saber científico, dogmático.
Embora a idéia, teoricamente, seria a escola criar uma proximidade com a realidade concreta, possibilitando uma flexibilidade de conteúdos.
 O grande problema é que a educação formal, sendo hierarquizada, é fruto e reflexo do fordismo, dividindo tarefas e limitando o processo de socialização.
O fordismo educacional transforma os professores em tarefeiros, semelhante ao que ocorreu com operários em linhas de montagem, fazendo, por outro lado, o educando perder a noção do conjunto.
No entanto, de certo modo, a educação formal contém em si a informal, já que o educador não se limita a transmitir conteúdos.
Enquanto o professor exerce uma profissão eminentemente técnica, o educador deveria ensinar e praticar a tolerância com o outro, a convivência pacifica, instigando a curiosidade para conhecer as diferenças, ou seja, incentivando a socialização.


O paradigma do consenso e do conflito.
A socialização é o centro de duas visões distintas do que se entende como função da escola, configurando duas abordagens clássicas: o paradigma do consenso e do conflito.
A noção de paradigma envolve um modelo que serve de base a construção da ciência.
Ambos os paradigmas balizam a construção de teorias e tendências pedagógicas e representam pontos de referência e lógicas de pensamento.
Representado por Durkheim, Comte e Spencer, para o paradigma do consenso os valores em comum e a cooperação entre professores e alunos é essencial para que a escola cumpra seu papel socializador, a palavra chave é integração.
Além de ensinar conteúdos, a escola deveria moralizar e, para tal, punir infrações as normas.
Pressuposto que gerou o “mito do controle coercitivo”, segundo o qual, à medida que as sanções coercitivas são usadas conscientemente e de forma rápida, contra os transgressores, a ameaça por si só é suficiente para manter a ordem.
Inversamente, a impunidade gera desordem.
Segundo esta tendência, outros autores, tal como Parson, conceberam a sala de aula como uma agência de socialização, por meio da qual as personalidades individuais são preparadas para o desempenho de papeis sociais, conferindo status conforme os méritos individuais.
Em resumo, o paradigma do consenso busca a conservação da sociedade, a reprodução das estruturas existentes, principalmente a reprodução do sistema capitalista.
O grande defeito do paradigma do consenso é não enxergar os conflitos.
Tentando contornar este problema, representado por Marx, paradigma do conflito enxerga a escola como uma instituição que impõem valores e que, portanto, gera conflitos entre professores e alunos.
Estes conflitos seriam essenciais para mudar a estrutura da sociedade.
Dentro desta concepção, alguns autores, como Waller, descreveram a escola como um centro de difusão dos padrões culturais dos grupos mais amplos, sobrepondo-se as comunidades locais e gerando um conflito permanente entre professores e alunos.
O que aconteceria porque os professores representam a cultura dominante, ligada a erudição, enquanto os educandos teriam domínio apenas sobre a cultura popular e de massa, desmotivando a aprendizagem.
Exatamente por isto, a escola necessita exercer controle sobre os jovens e crianças para efetivar o processo cognitivo, mas este controle cria um conflito que ameaça a existência da escola.
Este processo origina um circulo, pois, diante da ameaça de conflito permanente, a escola acirra o controle para garantir sua existência.
Pensando na questão, dentro do âmbito do paradigma do conflito, Lery defendeu a tese de que a escola educa para o fracasso e para a aceitação deste fato, gerando conflitos.
Assim, o paradigma do conflito é útil para revelar as tensões e oposições dentro da escola.
Entretanto, tende a ver apenas oposições, esquecendo-se que existem também concordâncias.
A escola é socialmente complexa, alunos e professores compartilham situações conflituosas comuns, que terminando unindo ao invés de separar.
Em outras palavras, o professor monda sua classe, mas é também moldada por ela, o que tanto gera conflito como consenso.
Pensando de forma mais ampla, caberia, inclusive, perguntar se o consenso ou conflito é gerado a partir da relação professor/aluno ou pela natureza da estrutura do sistema educacional, ou ainda pelo contexto social.


O paradigma do consenso no Brasil.
O paradigma do consenso influenciou intensamente a educação no Brasil, sobretudo a partir de 1930, representado pelas idéias de Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira.
Começou a penetrar no Brasil graças a crescente industrialização, iniciada em 1920, quando a necessidade de preparar o desenvolvimento levou um grupo de intelectuais brasileiros a se interessar pela educação, vista como elemento central para remodelar a realidade.
Em 1932, durante o governo Vargas, um grupo de vinte e seis intelectuais se reuniu para redigir O manifesto dos pioneiros da educação nova, o qual defendia a educação como função essencialmente pública, gratuita, obrigatória, laica e única.
Isto, do jardim da infância a universidade, dos quatro aos dezoito anos de idade.
Dentro deste contexto, Fernando de Azevedo, o principal representante do pensamento de Durkheim no Brasil, enxergava a escola como miniatura da sociedade.
A complexidade da sociedade exigiria coesão social, imposta por valores transmitidos pela escola.
Á medida que o individuo percorre o sistema educacional da base ao topo, passaria da educação comum, de natureza coercitiva, até as experiências diversificadas, possibilitando a manutenção da ordem capitalista.
Assim, deveria ser função da escola estabelecer uma articulação com o meio social, coordenando, disciplinando e consolidando as experiências fragmentadas colhidas no ambiente da criança, servindo de modelo para a sociedade.
No entanto, para Fernando de Azevedo, a escola teria um papel limitado diante do poder coercitivo de outra instituição, a família, responsável pela formação de grande parte dos padrões sociais.
A despeito desta característica, o educador deveria ser um agente social, servindo de exemplo e elemento de ligação do educando com a realidade e a construção do conhecimento.
Seguindo esta mesma linha de raciocínio, Anísio Teixeira defendeu a reestruturação da educação com o objetivo de propagar e aperfeiçoar a democracia, propondo trabalhar conteúdos de forma a discutir benefícios para a coletividade.
Para realmente integrar e socializar, a escola deveria ser integral e municipalizada, visando atender os interesses de cada comunidade, sendo por ele fiscalizada.


Os estudos de Althusser.
Althusser pertence a um conjunto teórico conhecido como neomarxismo, uma corrente que mescla o marxismo com outras bases teóricas, como o estruturalismo, fazendo uso da dialética e do materialismo histórico.
Cabe lembrar que o estruturalismo se propõe a analisar sistemas, portanto, estruturas.
A preocupação central de Althusser era tentar entender como as condições de produção, no âmbito capitalista, conseguem se reproduzir; já que o sistema capitalista seria injusto e prejudicial à maioria.
Pensando na questão, o autor chegou à conclusão que a dinâmica de trabalho, assegurada pelo salário, seria o principal fator a reproduzir o sistema, comprando a lealdade de indivíduos em favor da ideologia capitalista.
Para garantir a submissão dos indivíduos ao sistema capitalista, o Estado faria uso de aparelhos de Estado:

1. Aparelhos de Estado: constituído pelo governo e a administração publica.
2. Aparelhos Ideológicos de Estado: o meio de exercer controle sobre o pensamento, através de instituições como igreja, escola, sindicatos, meios de comunicação e até livros didáticos, mascarando e vendendo o domínio das elites.
3. Aparelhos Repressivos de Estado: instituições que exercem domínio por meio da violência, da coerção, tal como policia, justiça, prisões, forças armadas, etc.

Segundo Althusser, a escola teria um papel primordial moldando mentalidades, mas dentro deste aparelho ideológico também haveria aparelhos repressivos, representados por mecanismos de punição e exclusão.
Caso a escola não consiga moldar as mentalidades, fazendo os indivíduos se conformarem com sua posição modesta na sociedade, jogando o sujeito na marginalidade, os aparelhos repressivos dariam conta de excluir o infrator da sociedade.
Uma visão em concordância coma teoria funcional, segundo a qual a sociedade funciona como uma máquina, sendo as pessoas engrenagens.
No caso de uma peça defeituosa, que não se encaixa no que esperado dela, bastaria substituí-la.


Os estudos de Bourdieu e Passeron.
Também pertencentes ao conjunto teórico neomarxista, Bourdieu e Passeron concentraram sua atenção sobre a mesma questão trabalhada por Althusser: o entendimento da reprodução da estrutura social do sistema capitalista.
Para os autores, a escola é a principal estrutura objetiva que molda mentalidades e comportamentos, garantindo a manutenção de privilégios através do status que confere.


Neste sentido, a escola manipula o educando, ocultando uma violência simbólica.

A violência está no fato da escola se revestir de uma aparência de neutralidade, quando na verdade condiciona o educando de acordo com os interesses das elites que controlam o sistema educacional.

É simbólica devido ao seu caráter não material, portanto, circunscrito a esfera mental.
Dentro deste contexto, insere-se o capital cultural, a competência cultural e lingüística herdade, sobretudo, da família, facilitador do bom desempenho escolar.
Usando uma linguagem e cultura pertencentes à elite, o padrão culto, a escola comete uma violência ao impor, ao conjunto da sociedade, valores de um único grupo.
A educação legitima o domínio da elite, impedindo o acesso daqueles que não possuem o necessário capital cultural a estamentos mais elevados, doutrinando para o fracasso.


A proposta de Gramsci.
O italiano Antônio Gramsci criticou o sistema educacional capitalista, apontando caminhos para democratizar o acesso ao conhecimento, buscando tornar a sociedade mais justa.
Os textos de Gramsci influenciaram o pensamento socialista na Europa, refletindo no Brasil na década de 1970 e 1980, possibilitando o moderno conceito de educação voltada para a formação da cidadania.
Para ele, toda relação social é necessariamente pedagógica, já que todo o processo de interação é uma relação de aprendizagem.
Defendia a idéia de que a massa só poderia chegar ao poder através de uma mudança de mentalidade e não pela violência, centralizando esta mudança, principalmente, no instrumento escola, responsável pela construção da cidadania.
Por cidadania, Gramsci entendia a orientação voltada para a elevação da cultura das massas, a libertação do senso comum e a aquisição de uma postura critica.
Para levar a termo esta intenção, ele propôs uma escola unitária, onde todos, independente da classe social, tivessem acesso ao mesmo tipo de conhecimento, no caso a cultura erudita, baseada nos clássicos.
Porém, considerava que a educação deveria seguir o modelo tradicional, para conduzir o educando da heteronomia para a autonomia.


A crítica de Illich.
Amigo e contemporâneo de Paulo Freire, o austríaco Ivan Illich, na década de 1970, fez uma critica a educação institucionalizada.
Em seu livro Sociedades sem escola, defendeu a idéia de que a escola impede o ser humano de desenvolver todo seu potencial.

Para ele, a escola fragmenta o saber e incentiva o consumismo e a reprodução das desigualdades.


Tentando contornar esta situação, propôs substituir as escolas por redes de comunicação e convivência, onde as pessoas pudessem trocar informações e experiências diretamente, através de uma rede de computadores, correios, anúncios de jornais, etc.

Illich pensou em quatro redes educacionais:

1. Serviços de consulta a objetos educacionais (bibliotecas, laboratórios, museus, teatros, etc).
2. Intercâmbio de habilidades (troca de conhecimentos entre as pessoas).
3. Encontro de colegas (formação de parcerias de pesquisa, comunidades de pessoas que interagem para buscar conhecimento).
4. Consulta a educadores (orientadores na busca pelo conhecimento).

Assim, Illich foi o precursor da internet e das redes sociais pensadas como ferramenta de troca de informações e do ensino a distância on-line.
No entanto, sua proposta nunca foi colocada integralmente em prática.


Concluindo.
A educação institucionalizada, a escola, possui muitos defeitos e vícios, muitos dos quais advindos do sistema capitalista e estrutura social; porém, o professor, em sala de aula pode contornar estas barreiras.
Cabe a cada professor realizar um trabalho de formiguinha, tornando-se um educador e agente multiplicador.
Sozinhos somos nada, somos fracos; juntos seremos tudo, seremos fortes e poderemos mudar o mundo através da educação.


Para saber mais sobre o assunto.
ADORNO, T. W. Textos Escolhidos. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
ARANHA, M. L. A. Filosofia da Educação. São Paulo: Moderna, 1996.
ARANHA, M. L. A. & MARTINS, M. H. P. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 2004.
AUGUSTA, N. F. B. Fragmentos de Uma Obra Inédita: Notas Biográficas. Brasília: UNB, 2001.
CHAUI, M. S. Convite a Filosofia. São Paulo: Ática, 2004.
FILHO, L. M. Introdução ao Estudo da Escola Nova: Bases, Sistemas e Diretrizes da Pedagogia. Rio de Janeiro: Eduerj, 2002.
GUIRALDELLI JR, P. Filosofia da Educação. Rio de Janeiro: Graphia, 1999.
MIZUKAMI, M. G. N. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: EPU, 1986.
RODRIGUES, N. Elogio à Educação. São Paulo: Cortez, 2002.
SAVATER, F. O valor do educar. São Paulo: Martins Fontes, 1998.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.
Doutor em História Social pela FFCLH/USP.