Curiosidades e tudo que você sempre quis saber...


Para entender a história... é uma publicação técnico-científica on-line independente brasileira, indexada pelo IBICT, Latindex, CNEN e LivRe; no ar desde sexta-feira 13 de Agosto de 2010.
Não possui fins lucrativos, seu objetivo é disseminar e difundir o conhecimento através de artigos com qualidade acadêmica e rigor cientifico, mas linguagem acessível ao grande publico.

Periodicidade: Semestral (edições em julho e dezembro) a partir do inicio do ano de 2013.
Mensal entre 13 de agosto de 2010 e 31 de dezembro de 2012.

Livros com preços promocionais a partir de 4,99.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Editorial - Balanço do mês de Dezembro - Para entender a história...

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume dez., Série 31/12, 2010, p.01-03.


Neste mês de dezembro, em que as pessoas estão em clima de natal e ano novo, mesmo com as férias escolares e a completa paralisação nas atividades acadêmicas, recebemos 11.331 visitas, distribuídas entre mais 70 países, inclusive Irã e Iraque, entre outros.
Depois que o blog recebeu o numero de ISSN 2179-4111, ganhando status e reconhecimento como publicação cientifica em novembro; neste mês de dezembro se consolidou como Publicação Técnico-Científica on-line.

A partir de sua indexação junto ao Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia da República Federativa do Brasil; deixou de ser um blog, passou definitivamente a uma revista cientifica independente on-line.
Cabe notar que a publicação só não é indexada pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), enquadrando-se no parâmetro QUALIS, porque a instituição só cadastra revistas que representam centros de pós-graduação universitários com programas stricto-sensu (mestrado e doutorado).
Nos outros quesitos exigidos para indexação pela CAPES, a publicação atende todos os parâmetros, possuindo, inclusive, periodicidade mais regular que a maior parte das revistas acadêmicas classificadas pela QUALIS.

No entanto, a CAPES não é o único indexador brasileiro, ao receber o ISSN, o blog ganhou status e reconhecimento como publicação cientifica, podendo ter seus artigos inseridos no currículo lattes como publicação em periódico.
Novamente lembramos que o ISSN é um número internacional normalizado para Publicações Seriadas (International Standard Serial Number), é o identificador aceito internacionalmente para individualizar o título de uma publicação seriada, tornando-a única e definitiva.
Seu uso é definido pela norma técnica internacional da International Standards Organization ISO 3297.
O ISSN é operacionalizado por uma rede internacional, e no Brasil o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia - IBICT atua como Centro Nacional dessa rede.
O IBICT somente concede ISSN para as publicações que apresentam artigos originais, atendendo o requisito de manutenção de periodicidade e expediente.
Cabe ressaltar que o IBICT não concede ISSN para publicações que apenas reproduzem textos de outros sites ou que apresentam resumos, além de negar o registro para blogs pessoais.

Já a CAPES é um indexador estritamente brasileiro que serve como referencial apenas para os estudantes de mestrado e doutorado, pois espelha somente a produção acadêmica dos centros de produção intelectual institucionalizados.

Ao criar o blog, a idéia era justamente ir na contramão do corporativismo acadêmico que deixa de publicar artigos de qualidade em nome do coleguismo e de inúmeros outros fatores nada justos.
O editor de “Para entender a história...” já publicou artigos em algumas destas revistas acadêmicas indexadas através da QUALIS e pode afirmar categoricamente que, no atual cenário, que se formou nos últimos anos, estas publicações passaram a servir fins mais políticos do que científicos.
Assim como aconteceu também com os concursos públicos para professor nas universidades publicas, com critérios subjetivos pontuando as etapas de classificação, tendo o currículo do candidato peso quase nulo, nem mesmo sendo analisado pela banca, visto os subterfúgios criados para não deixar aprovar o melhor, mas sim o mais amigo ou aquele bem relacionado politicamente com os membros do departamento.
Foi isto que fez nascer o blog: a intenção de criar um espaço realmente democrático e voltado à divulgação do conhecimento cientifico junto ao grande publico e aos especialistas, com a publicação de artigos de qualidade e mérito acadêmico incontestável.
Depois que o blog se transformou em publicação técnico-cientifica on-line indexada, esta intenção fez com fosse aberto espaço para todos os que quisessem divulgar seu trabalho de pesquisa, independente da titulação, desde que apresentassem textos inéditos e originais adequados ao perfil do periódico.

Ainda em novembro foi aberta a oportunidade de publicação de artigos aos leitores interessados em colaborar com “Para entender a história...”.

Em dezembro foi publicada a primeira colaboração, foi um texto brilhante da professora Cinthia Bourget Fortes Genestra, pós-graduanda em História Moderna na Universidade Federal Fluminense e professora da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro.

O interessante artigo “A instalação da Corte portuguesa e a intensificação do trabalho escravo na cidade do Rio de Janeiro”, de autoria da professora Cinthia foi publicado em 21 de dezembro.

Posteriormente, a professora Cinthia encaminhou mais um artigo, intitulado “A importância do papel do escravo de ganho para uma nova abordagem da escravidão”, publicado em 28 de dezembro.
Gostaríamos de expressar nosso agradecimento pela colaboração da professora e novamente estender o convite aos leitores do Brasil e de Portugal, assim como de outros países, para remetam artigos para submissão no periódico on-line “Para entender a história...”.

Os interessados devem enviar artigos dentro dos parâmetros fixados nas normas de publicação disponíveis no link “Colaborações”.
Para os iniciantes na carreira docente ou estudantes universitários, ressaltamos que é interessante publicar artigos em periódico científico indexado, tal como este, pois, ao incluir o texto no currículo lattes, este passa a contar pontos em concurso publico, em candidatura à vaga como professor universitário no setor público e privado, além do que pode ajudar a conseguir vaga em cursos de mestrado e doutorado.

Mudando o foco, outro dado interessante em dezembro foi o aumento no número de seguidores, agora são 43 pessoas seguindo a publicação.
Na verdade são poucos seguidores diante do fluxo diário de visitas, o que faz com que aproveitemos a oportunidade para convidar o leitor do blog para seguir a publicação.
Basta clicar o link seguir e aceitar as orientações decorrentes.
Os seguidores ficam informados sobre atualizações e ajudam a trazer maior prestigio a publicação com sua ilustre presença.

Neste mês de dezembro, as postagens mais populares, respectivamente com o numero de acessos, foram: A passagem da antiguidade para o feudalismo (802); Três arquivos portugueses (482); A organização social do alto império romano (385); Reflexões acerca do inicio da utilização da mão de obra africana pelos portugueses no período colonial (344); Filosofia da História (324); A ascensão da monarquia absolutista na Inglaterra (268); História indígena na América portuguesa (266); A revolução francesa foi causada pela fome (264); e Chica da Silva (230).

Agradecemos os leitores e desejamos uma boa leitura.

Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A importância do papel do escravo de ganho para uma nova abordagem da escravidão.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume dez., Série 28/12, 2010, p.01-09.

O trabalho escravo foi um traço marcante no Brasil Colonial, em que houve grande e maciça participação dos negros.
Desde o começo da efetiva colonização dos portugueses até o fim da escravidão, os negros eram a principal e essencial mão-de-obra, e tornavam possíveis as atividades econômicas.

O intenso e lucrativo comércio fazia com que os maiores e mais ricos comerciantes fossem, justamente, os mercadores de escravos, haja vista que o lucro por cada escravo chegava até 300% do valor pago.


A partir dos anos 1960, a escravidão passou a ter mais espaço entre os temas estudados pelos pesquisadores.
Porém, apenas uma ótica era realmente valorizada, pois era considerado o principal setor da escravidão no Brasil, a escravidão nos latifúndios em que se desenvolvia a agricultura tendo em vista a exportação.


Uma nova perspectiva.
A partir da década de 1970, renovou-se a idéia do processo de formação de uma sociedade.
A simples relação com fatores econômicos, ou explicações de caráter teleológico, para a compreensão da construção de uma sociedade, deram lugar à idéia da multiplicidade de relações e práticas sociais, que se articulam e que nos mostram que a sociedade não é uma realidade pré-fixada, e sim produto das ações dos que nela vivem e das relações que estabelecem entre si.
Os indivíduos interagem através de relações de poder entre si, em vários âmbitos, em vários espaços e instituições sociais.
Diversas esferas da sociedade, econômica, cultural, mental, política, jurídica se entrelaçam e determinam a realidade social.
Essas novas perspectivas de estudos históricos propiciaram nos anos 1980 a problematização da escravidão urbana, em especial no Rio de Janeiro do século XIX.
Pode-se compreender que a escravidão urbana não é simplesmente determinada pela escravidão do latifúndio exportador, e sim que é um outro modelo diferenciado de escravidão no Brasil, apesar de se relacionar com essa.
Há semelhanças e diferenças entre as duas formas de escravidão.
Encontramos como similitudes como a violência como meio de controlar os escravos.
Porém, no contexto urbano, o controle social é feito também de outras formas, como será mostrado mais adiante.


Historiografia.
Entre os trabalhos que tratam da escravidão urbana no Brasil, destaca-se o trabalho de Mary Karasch.
Sua tese de doutorado concluída em 1972, que se tornou livro em 1987, abordou a escravidão no Rio de Janeiro entre os anos de 1808 e 1850.

Seu trabalho foi inovador, pois a historiadora focalizou o cotidiano dos escravos e mostrou a importância vital do trabalho destes na cidade, que melhor representava a vida escrava no contexto urbano.

Apesar de toda a exploração e violência sofrida, podemos ver o papel fundamental que o negro tem na construção da nossa sociedade.
Esta idéia derruba a visão da historiografia tradicional, que exerce influência ainda hoje no pensamento de muitas pessoas, e além de ser claramente tendenciosa, enaltece os dominadores e desconsidera totalmente aqueles que, apesar da exploração, eram importantes agentes sociais e de intercâmbio cultural.
Muitas vezes a imagem do negro está associada à questão da escravidão e do preconceito.
O objetivo da pesquisa não é o de mitificar o negro e nem de mostrar que o trabalho escravo na cidade era melhor do que o trabalho do campo, mas de refletir, as peculiaridades e características do trabalho escravo urbano, destacando o negro como um agente da cultura brasileira.
No que tange às relações sociais entre os escravos, apesar de estes terem sido enviados de diversas regiões africanas que eram fornecedoras de escravos para o Brasil, muitas vezes distantes geográfica e socialmente umas das outras, de idiomas e etnias diferentes, após algum tempo de convivência eles, mesmo sem nenhum tipo de motivação e auxílio, conseguiram se articular.
Inclusive, lendo o livro de Darcy Ribeiro, O povo brasileiro, percebe-se que quem disseminou a Língua Portuguesa na colônia, substituindo o “nheengatu”, a mescla do tupi com o português, foram os escravos, que vindos de várias partes do continente africano, e falando línguas diferentes, prestavam atenção nas falas dos capatazes e começaram a se comunicar falando português.
Não somente nas relações sociais entre escravos, mas também entre escravos e brancos e este intercâmbio cultural que acabava por ser necessário até para a exploração do trabalho do escravo.
Assim vemos a assimilação de aspectos culturais europeus pelos africanos e, ao longo de muitos anos, a assimilação também de aspectos culturais africanos.
Percebemos este fato quando vemos expressões africanas introduzidas e utilizadas rotineiramente no idioma falado no Brasil, o que deixa claro esta “mistura”.
O contato freqüente entre o escravo e o branco fez com que o escravo africano viesse a ser obrigado a incorporar a visão de mundo do branco, e o branco assimilasse alguns aspectos da cultura africana, proporcionando um verdadeiro intercâmbio cultural.
No livro A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro (1808 -1850), vemos Mary Karasch, que utilizou em suas pesquisas a análise dos escritos feitos por viajantes e estrangeiros que transitavam pela cidade, ela coloca de maneira bem clara esta relação de interdependência entre estes agentes sociais.
A análise dos escravos de ganho no início do século XIX é um ótimo exemplo que nos ajuda a desmistificar a interpretação única do “escravo coisa” ou “escravo objeto”.


Escravos de ganho e aluguel.
Devemos evitar confundir escravos de ganho com escravos de aluguel.
Como já foi visto, os primeiros eram obrigados a dar uma parte considerável do que arrecadavam aos seus senhores.
Já estes últimos, eram alugados diretamente por seus senhores ou por intermédio das agências locadoras que proliferavam na cidade, prestavam serviço aos locatários e ficavam sob sua responsabilidade, como se escravos deles fossem.
Os locatários ainda tinham a obrigação de dar-lhes comida, roupas e um lugar para dormir.
O dinheiro que os locatários pagavam pelo aluguel dos escravos ia diretamente para as mãos dos senhores locadores, com exceção daqueles que entregavam os seus cativos às agencias de aluguel, que cobravam uma comissão pela sua intermediação.
O escravo de ganho assumia uma posição diferente dos outros escravos na sociedade.
Primeiramente, porque tinha direito a receber parte do fruto do seu trabalho.
Os outros motivos que os tornavam peculiares era a livre circulação pela cidade.
Mesmo permanecendo na condição de escravo, ou seja, uma propriedade do seu dono, havia a possibilidade de acumular riquezas e adquirir bens, ainda que a formação de uma riqueza considerável fosse difícil, como também conseguir uma quantia para comprar a própria alforria.
Além disso, a liberdade não significava necessariamente uma melhoria significativa da qualidade de vida, já que livres, não tinham mais o apoio da legislação vigente em relação aos escravos, ou seja, não tinham mais a proteção legal, a liberdade, que em alguns casos isolados foi benéfica, em muitos outros casos, representou a marginalização completa do indivíduo.
Porém, a autora Mary Karasch ressaltou em seu livro A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850), que os escravos de ganho sonhavam com a formação de um pecúlio para a compra de sua liberdade, ainda que fosse difícil.


Formas de resistência passiva.
Uma peculiaridade característica dos escravos de ganho era a organização de algo parecido com um “consórcio” para conseguir a liberdade.
Era comum entre os escravos que trabalhavam como estivadores no porto, já que sua jornada de trabalho era bastante exaustiva, e diminuía a expectativa de vida dos escravos que se dedicavam a esta atividade.
A organização do grupo geralmente acontecia entre escravos de mesma origem étnica.

Um grupo se reunia, sorteava ou escolhia quem deveria ser liberto, e todos do grupo trabalhavam e juntavam dinheiro a fim de comprar a alforria deste escravo.

Mesmo após ser liberto, continuava trabalhando em conjunto com o grupo, até que todos pudessem ser libertos.


Fiscalização, castigos e punições.
Um fator importante a ser considerado, é, que apesar da maleabilidade da modalidade de exploração do trabalho dos negros escravos de ganho, não houve a ausência da punição.
Muitos escravos eram punidos fisicamente ao cometer algum tipo de infração, como uma tentativa de fuga, ou por não conseguirem alcançar a meta imposta pelo seu dono.
A exploração dos escravos de ganho era regulamentada e prova disto é a documentação referente ao Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, entre os anos 1830 e 1888, que apresenta os pedidos de licença para os escravos poderem ser colocados no ganho de rua.
Nenhum senhor poderia por seus escravos para ganhar dinheiro no sistema de ganho sem a autorização da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, para onde eram encaminhados os pedidos de licença feitos pelos senhores.
As licenças, após serem aceitas, possuíam efeito durante um ano, necessitando serem renovadas após este período.
Para conseguir a licença, era necessário um pagamento de uma quantia por cada escravo que o dono desejasse tornar escravo de ganho.
Os senhores recebiam da Câmara Municipal chapas com o registro de sua data de concessão, para que os escravos carregassem sempre nas ruas.
Em caso de perda dessa chapa, os senhores deveriam pedir à Câmara Municipal uma nova chapa.
Caso algum escravo estivesse trabalhando no sistema de ganho sem a devida autorização, era levado ao Depósito Público e o seu dono pagava uma multa pela infração, e o mesmo poderia acontecer com algum escravo que não estivesse carregando a chapa registrada.
A fiscalização da Câmara Municipal interpretava o fato do escravo estar sem a chapa como desrespeito à regra, ou seja, o escravo estaria trabalhando no sistema de ganho sem a devida licença.


As relações entre senhores e escravos de ganho.
Entre os senhores dos escravos de ganho, encontravam-se pessoas que exerciam diferentes atividades, como profissionais liberais, políticos, militares, clérigos, comerciantes, funcionários públicos e muitas outras.
Porem, alguns se sustentavam com o trabalho dos escravos de ganho.
O escravo de ganho representou uma nova forma de relação que havia surgido entre o escravo e o seu senhor, diferente da comumente conhecida, de total domínio do senhor sobre o escravo.
Os escravos de ganho apesar da exploração e da opressão que sofriam, exerceram importante influência na construção da sociedade da época, revelando uma nova faceta da escravidão urbana no Brasil.
Existia uma relação de interdependência entre o senhor e seu escravo.
O senhor lucrava com o trabalho do escravo de ganho, muitos chegaram a viver dos lucros dos seus escravos de ganho, e arcavam com menos responsabilidades com os seus escravos, como por exemplo, a ausência da necessidade de alimentá-los.
Tornou-se necessário o abrandamento da opressão, através de concessões feitas por parte do dono, e o escravo de ganho, por sua vez, atendia às exigências dos seus donos, e adotavam uma postura submissa, para conseguir “privilégios” que atenuassem a condição opressora em que se encontrava.
Com o reconhecimento do o valor e da importância dos seus escravos, já que eram treinados para suas funções, e muitos adquiriram até mesmo a capacidade de se dedicar a um ofício, a violência já não era determinante para o controle de escravos.
O melhor tratamento dos escravos evitava possíveis revoltas e fugas que representariam prejuízos para os proprietários destes escravos.
Existe outra importante peculiaridade característica do sistema de ganho.
Se na relação com os seus senhores eles eram escravos, com os seus empregadores ou com os que requisitavam seus serviços eventual ou permanentemente, eles eram semelhantes a trabalhadores assalariados.
De um modo geral, apesar da maior liberdade de circulação e autonomia do escravo de ganho, a relação social entre o escravo e seu senhor permanecia opressora, o escravo continuava sendo considerado uma mercadoria, um “objeto”, utilizado para uma grande diversidade de trabalhos manuais.
Trabalhar não correspondia à posição do cidadão da corte, afinal trabalho era “coisa de preto”.
Porém, além de carregadores, operários, estivadores, cocheiros, marinheiros, remadores, barbeiros e até mesmo cirurgiões e curandeiros, muitos escravos de ganho recebiam um “salário” que lhes garantia a sobrevivência e, em alguns poucos casos, a formação de um pecúlio que lhes possibilitava a compra de sua própria alforria.
Com o seu desprezo pelo trabalho manual, esta sociedade atribuiu a esta camada social bastante numerosa, que considerava inferior, na estrutura comercial e de serviços públicos, funções vitais para o funcionamento da cidade, como acender a iluminação noturna, o saneamento da cidade, a distribuição de água, mercadorias e alimentos para serem vendidos pela cidade, colaboraram até mesmo com estudos de pesquisadores naturalistas estrangeiros.
Mas não podemos esquecer que a realidade dos escravos de ganho continuava sendo difícil, apesar das concessões feitas pelos donos, pela sua maior liberdade de locomoção e autonomia.
A formação de um pecúlio para a compra de sua alforria era praticamente impossível, sobretudo devido às altas quantias que os senhores exigiam como pagamento.
Obviamente, existiram alguns poucos escravos de ganho que, com suas economias, conseguiram comprar sua própria alforria.
Alguns deles não somente adquiriram a sua liberdade, como ainda compraram
escravos e os colocaram no ganho.
Mas para a grande maioria dos escravos de ganho, tudo isso não passava de um sonho impossível, já que era difícil guardar dinheiro, já que tinham que garantir sua sobrevivência com o que ganhavam.


Processos criminais e cotidiano.
Para demonstrar as dificuldades pelas quais os escravos passavam em seu cotidiano, é um bom exemplo o grande número de processos criminais envolvendo escravos em conflitos como roubos e assassinatos.
Os escravos eventualmente se desentendiam devido à concorrência por clientes e pontos de trabalho.

Outros se envolviam em furtos, e em alguns casos, o dinheiro proveniente do roubo não era para o escravo em si, e sim para pagar a taxa pré-fixada ao seu senhor.



Brigavam também no momento de repartir a quantia arrecadada numa jornada de trabalho, quando trabalhavam juntos.
Não era nada fácil a vida dos escravos de ganho.
Os seus senhores não deixavam escapar nenhuma oportunidade de lhes exigir o máximo rendimento possível.
Eram obrigados há perambular o dia inteiro pela cidade com cestos ou tabuleiros de mercadorias.
Tinham que transportar pesadas cargas ou a se arriscar no mar a qualquer hora do dia ou da noite, conduzindo embarcações de pesca ou de passageiros.
Obrigados a longas e cansativas jornadas trabalhando como barbeiros, cocheiros ou operários.
Eram obrigados ate mesmo a recorrer a crimes para sobreviver e pagar a renda estabelecida pelos seus proprietários.
Ao contrário do que possa parecer em uma primeira impressão, o sistema de ganho não representou uma escravidão “suave”, apesar do número de alforrias ter crescido neste período.
Os senhores exploravam seus escravos até o seu limite, para conseguir cada vez mais lucros.
Além disso, em seu amplo estudo sobre os escravos no Rio de Janeiro, Mary Karasch mostrou que, mesmo gozando de certa facilidade de trânsito, os escravos sabiam muito bem os seus limites, que reafirmavam sua condição servil.
O feitor estava ausente, mas uma forte fiscalização policial atuava, ou seja, o papel do feitor era substituído no contexto urbano pelo poder público.


Concluindo.
Segundo os viajantes que estiveram no Brasil durante o século XIX, os escravos urbanos moravam com seus senhores.
Diferente do que se imaginava não houve menção a nenhum caso de cativo que usasse de sua autonomia para habitar locais distantes das residências de seus proprietários.
Grande parte desses viajantes ficaram horrorizados com as parcas condições materiais dos espaços destinados aos cativos que, normalmente variavam entre cubículos úmidos de pouca ventilação até esteiras jogadas no chão dos corredores das residências mais pobres.
No entanto, é inegável que a maior mobilidade da atividade ao ganho, que alargou as possibilidades de ação dos escravos, principalmente no que diz respeito às negociações e relações com outros segmentos sociais.
Numa terra onde o negro era visto como um “animal sem alma”, ser escravo de ganho era preferível a ser um escravo comum, e a liberdade de trânsito que os escravos gozavam era sem paralelo no resto do país, prova disto era que, freqüentemente, escravos fugiam para o Rio de Janeiro e por aqui ficavam perambulando pelos guetos e sarjetas da cidade, tentando passar despercebidos.
Tornou-se comum no Rio de Janeiro escravos foragidos, por causa da presença expressiva do escravo de ganho na cidade.
Muitos escravos que haviam se evadido das propriedades de seus senhores andavam pelas ruas da cidade.
Alguns escravos que conseguiram comprar sua alforria, mesmo após estarem livres e tendo seus próprios escravos, mantiveram vínculo com seus antigos donos, porque com esta relação, o negro liberto poderia continuar comercializando seus produtos, já que era através do seu senhor que o escravo mantinha relações com o restante da sociedade.
Não podemos também deixar de levar em conta que o número da população negra no Brasil e na cidade do Rio de Janeiro era elevado, o que fazia com que este senhor viesse a cercar-se de um aparato de segurança, temendo a revolta do escravo contra si. Eram capatazes, seguranças, capitães do mato.
Mas, os senhores sabiam que somente com a opressão não iriam controlar os escravos.
O escravo tinha um valor patrimonial aplicado na sua compra e no caso do escravo de ganho, este valor era maior devido ao treinamento que aquele escravo recebeu para desenvolver as respectivas tarefas e agregado a isto, tinha o traquejo para desenvolver a atividade e o senhor tinha que selecionar e treinar este escravo.
Sendo assim, por mais submisso que o escravo viesse a ser, ele sabia do seu valor, tanto que procurava angariar fundos com seu trabalho para comprar sua liberdade, de seus familiares e se possível até comprar outros escravos.
Percebe-se então, analisando a atuação do escravo de ganho, e o contexto social que o permeava, que jamais o escravo assumiu uma posição estática na sociedade da cidade do Rio de Janeiro, durante o período em questão, assim como em toda a colônia.
Apesar dos africanos e dos seus descendentes terem exercido papel fundamental na formação de nossa sociedade, em vários aspectos, hoje há muita luta para que se reconheça o valor dos negros e de sua cultura na nossa sociedade.
Vivemos, como escreveu Roberto DaMatta, em seu livro O que faz o Brasil, Brasil?, o mito da “democracia racial”.
Na verdade, a grande miscigenação da população brasileira camufla a discriminação racial.
Embora na nossa Constituição atual, esteja presente a idéia de que todos os brasileiros são iguais e tem os mesmos direitos perante a lei, ainda há muito a se fazer pelo reconhecimento do importante papel que os negros tiveram, e têm, em nossa sociedade como importantes agentes sociais e de intercâmbio cultural.


Para saber mais sobre o assunto.
ALGRANTI, Leila Mezan. O Feitor Ausente: estudo sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro 1808-1822. Petrópolis: Vozes,1988.
DEBRET, Jean-Baptiste. Caderno de viagem. Texto e organização Julio Bandeira. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.
FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1998.
KARASCH, Mary C. A vida dos escravos de no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil, tomadas durante uma estada de dez anos nesse país, de 1808 a 1818. São Paulo: Martins, 1942.
NOVAIS, Fernando. História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: período colonial. São Paulo: Editora Brasiliense, 1973.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SILVA, Marilene Rosa Nogueira da. Negro na Rua: a nova face da escravidão.São Paulo: Hucitec, 1988.
SOARES, Luiz Carlos. Os escravos de ganho no Rio de Janeiro do século XIX. Rio de Janeiro: Revista Brasileira de História, 16 (mar/ago), 1988.
SOARES, Luiz Carlos. O povo de “cam” na Capital do Brasil: A escravidão urbana no Rio de Janeiro do século XIX. Rio de Janeiro: Faperj, 2007.


Texto: Prof. Cinthia Bourget Fortes Genestra.
Pós-graduanda em História Moderna – UFF.
Professora da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

As relações internacionais entre portugueses e indianos no século XVI.

Para entender a história... ISSN 2179-4111. Ano 1, Volume dez., Série 27/12, 2010, p.01-12.

Quando os portugueses chegaram ao Oriente, navegando pelo Atlântico e Índico em 1498, encontraram uma rica e complexa rede comercial estabelecida, mas forçaram sua entrada no cenário.
No século XVI, a Carreira da Índia, a rota marítima ligando Lisboa a Goa, foi o principal meio de comunicação entre portugueses e asiáticos, marcando as relações internacionais da época.
Assim, examinar o comércio internacional europeu estabelecido com a Índia, China e Japão, entre outras nações, requer revisitar a Carreira da Índia.
A menina dos olhos da Coroa portuguesa no período quinhentista, antes que o Brasil assumisse esta posição no século XVII.




O comércio de especiarias antes da chegada dos portugueses.
Os indianos particularmente, habituados a um comércio milenar com o resto do Oriente e com o Ocidente, via as cidades italianas e intermediários mouros, sempre mantiveram seu território aberto ao estabelecimento de entrepostos e feitorias estrangeiras.
Isto desde que os interessados tivessem ouro e prata para trocar pelas especiarias ali produzidas, contudo, quando os lusos chegaram à Índia não foram tão bem recebidos como seria esperado dentro da tradição comercial indiana.
Assim, cabe estabelecer alguns questionamentos.
O que teria alterado o modo habitual dos indianos receberem potenciais compradores?
Por que a chegada dos portugueses não foi bem vista?
E ainda, depois que entrepostos e fortalezas lusitanas foram estabelecidas, por que os nativos iniciaram uma resistência feroz a presença de portugueses em seu território?
Responder estas questões implica em mergulhar no cerne do acirramento da resistência indiana à invasão portuguesa.
Em se tratando do regime rígido de castas e da exploração de uma espécie de vassalagem pelos príncipes e sultões locais, para o grosso da população nativa pouca diferença existia entre sofrer a exploração de um poderoso da terra ou servir os portugueses.
Para o povo miúdo, a chegada de europeus e sua apropriação dos centros produtores deveria ter representado tão somente uma mudança de senhor e nada mais.
No entanto, ocorre que não foi deste modo que a presença lusitana foi encarada, estando fixado na origem do confronto militar que se seguiria.
Não obstante ao contributo da escassez de ouro e prata em posse dos lusos, justamente os desentendimentos culturais acirraram os ânimos.
Tal como havia já ocorrido na África, com a diferença que, para além da Índia, quanto mais para o leste os portugueses avançaram, foram encontrando povos melhor preparados para resistir aos desmandos de Portugal.
Entretanto, correndo o risco de recuar demais, em se tratando da Índia, quando os portugueses chegaram, os povos ali fixados tinham constituído uma civilização cujas origens remontavam ao segundo milênio antes de Cristo.
Tinham sido dominados pelos macedônios e depois pelos gregos, antes de sofrerem uma invasão muçulmana na segunda metade do século X.
A unidade destes povos se esfacelou em diversos principados e sultanatos no que se convencionou chamar de medievalismo Oriental.
No que diz respeito aos aspectos comerciais, os pequenos Estados independentes localizados na costa, chamados de malabares, dominavam o cenário político submetendo as áreas produtoras à vassalagem.
Estes mercadores indianos possuíam fortalezas e entrepostos mercantis em pontos estratégicos, servindo de passagem para caravanas ou embarcações que ligavam a Índia com a África Oriental e a China.
A permanência de feitorias estrangeiras nos domínios malabares visava facilitar a negociação de mercadorias, com a ressalva que, para qualquer compra, o dinheiro deveria ser entregue com seis meses de antecedência, senão nada feito.
Dentro deste contexto, os marinheiros e mercadores desempenhavam um papel-chave como integradores na economia e na cultura do Oceano Índico.
Ao passo que o sultanato de Guzerate dominava, desde 1396, a maior parte da intermediação comercial entre os principados indianos.
Os quais, por sua vez, controlavam a produção de especiarias, enquanto mercadores mouros ou judeus intermediavam o produto junto aos italianos.
Fazia parte deste complexo cenário à pretensão egípcia e turca de excluir e substituir os guzerates no negócio das especiarias.
Os chineses, que antes dos ditos guzerates tinham dominado a zona através do controle marítimo do Índico, há anos tinham se retirado da área, encerrando-se em um isolamento voluntário.
Portanto, embora a Índia fosse um Estado esfacelado politicamente, o comércio era o grande integrador de uma amalgama cultural e religiosa diversa que envolvia a tolerância e a convivência pacifica entre malabares indianos, mouros da religião de Maomé e judeus.
A convivência era pacifica embora tensa, a maior parte das cidades possuía tanto mesquitas como pagodes (templos hindus).
A harmonia era mantida através de uma polícia e de uma justiça respeitada por todos em nome de um lucro mútuo, a despeito de uma estrutura social rígida, nada flexível.
Porém, em curto prazo, a divisão interna entre os indianos foi, com a ajuda das fortalezas fundadas pelos portugueses, uma grande facilitadora da penetração lusitana.
A mesma característica que impulsionou as naus de Portugal em busca de cristãos e especiarias, o ideal cruzadistico cristão, em médio prazo balizou o choque cultural entre Ocidente e Oriente.
Tivessem os portugueses respeitado a tradição malabar de tolerância cultural e religiosa, certamente a vassalagem nativa teria se mantido e sido transferida aos lusos.
Tal como ocorreu, por exemplo, depois que os portugueses terminaram entregando a Índia aos ingleses.
Entre os portugueses foi à intolerância para com o modo de vida do outro que prevaleceu, incitando a intolerância nativa em todos os níveis para com a presença lusitana na Índia.
De qualquer modo, para além das relações comerciais entre malabares, guzerates, mercadores mouros e judeus, apesar do relativo isolamento chinês, antes da chegada dos portugueses, Malaca mantinha-se como porta mercantil da China.

Existia ainda certa ligação esporádica entre este entreposto comercial e o Japão.

A prata japonesa servia de objeto de troca para obter a porcelana e a seda chinesa, através de Malaca esta prata chegava até a Índia e era trocada por especiarias.
Diferente da situação presente no Malabar, tanto a China como o Japão eram Estados fortes e, não obstante o último não fosse tão coeso como o primeiro, ambos possuíam um poder centralizado e uma religião e cultura que unificavam seu povo em torno da figura de um soberano semidivino.
A penetração portuguesa seria dificultada, desde o inicio, não só pela intolerância nativa a presença de estrangeiros na pátria mãe, como também, pela noção de superioridade cultural chinesa e japonesa individualmente frente a qualquer outra cultura que não a sua.
Curiosamente, sob estas condições, seriam os portugueses que tentariam prostrar-se frente a culturas não européias como maneira de se infiltrarem em um meio hostil.
Independente das características inerentes a cada povo encontrado ao longo da aventura marítima lusitana, ao chegarem ao Índico os portugueses teriam que conviver com o choque cultural advindo de sua presença no Oriente.
Mais tarde, enfrentando já problemas de ordem interna e decorrentes da flutuação econômica internacional, teriam que encarar dificuldades originadas em meio a estes mesmos desentendimentos culturais acumulados desde a viagem inaugural de Vasco da Gama.


O choque cultural e o confronto militar.
A despeito da tolerância cultural, esperada por parte de um povo eclético, dado a própria formação de seu país, quando os portugueses chegaram à Índia só conseguiam enxergar potenciais cristãos ou infiéis.
Demonstraram uma total falta de percepção quanto às diferenças civilizacionais, mostrando incapacidade de enxergar o outro, embora, ao contrário do que ocorreu na África, julgassem os indianos até certo ponto como homens civilizados.
Por esta altura, quase toda a Índia encontrava-se dividida em três grandes religiões.
O bramanismo, compreendendo ensinamentos esotéricos que haviam sido formulados entre os séculos VII e VI a.C., fazendo parte desta religião diversas seitas com orientação distinta, tal como o xivaísmo ou culto de Xiva e o vixenuísmo ou culto de Vixenu.
O jainismo, religião nascida a partir de Maavira Vardamana (falecido em 470 a.C.).
E finalmente o budismo, fundado pelo Buda Sáquia-Muri (585 e 483 a.C.), rapidamente tinha penetrado na China, no sudeste asiático e no Tibete, ao passo que tanto esta como o jainismo teria nascido dentro do seio do bramanismo.
Além destas três religiões, existia também uma quarta, sendo ela mais antiga até mesmo do que o bramanismo e da qual provavelmente esta última deriva, o chamado vedismo, nomenclatura tirado dos Vedas, nada mais que os livros sagrados que nortearam a criação desta fé, contendo uma crença naturalista que tinha como divindades principais: Dios, Aditi, Agni, Soma, Indra e Varuna.
Entretanto, apesar de seus adeptos serem menos numerosos, para além da tríade religiosa hinduísta e da fé que deu origem a ela, havia ainda praticantes de três outras religiões: o islamismo; o nestorianismo, na realidade um tipo de cristianismo cismático; e o parsismo, chamado também de zoroastrismo ou madeísmo, que tinha sido levado para a Índia pelos persas entre o século II a.C. e V d.C., cujo centro sagrado situava-se na cidade de Bombaim.
Isto sem mencionar os mercadores judeus que também estavam presentes esporadicamente na área, difundindo e praticando sua fé.
Assim, não obstante os lusos terem vislumbrado o outro por um prisma maniqueísta, quando chegaram à Índia encontraram um povo dividido culturalmente pela língua, pelas crenças e pelas etnias, mas de convicções firmes e habituado a certa tolerância religiosa e cultural.
Todavia, para os indianos, o ouro e a prata eram a principal medida de avaliação da índole de quaisquer estranhos que tivessem a intenção de estabelecer embaixada em suas terras.
O grande problema é que, no mesmo período, grassava em Portugal a escassez de metais preciosos.
Ao mesmo tempo em que a fama de terríveis piratas pairava sob os portugueses, então conquistada na África.
Uma imagem negativa que precedeu a chegada dos lusos.
Em carta datada no inicio de quinhentos, Álvaro de Cadaval dava conta ao Rei de Portugal que, a despeito dos nativos se mostrarem amistosos, em toda Diu não havia um só mouro de paz, pois os xeques locais mantinham contato com o Rei de Fez, através de caravanas de mercadores, conhecendo as pretensões lusitanas no Marrocos e as batalhas ali travadas, vendo com grande suspeita a chegada de cada nova nau portuguesa.
Em contrapartida, segundo palavras literais da documentação da época, existindo uma mutua desconfiança, os capelães portugueses já partiam de Lisboa com vários preconceitos, vendo figuras simbólicas de outra fé, não deixavam de escrever que eram retratos do diabo.
Os clérigos portugueses não percebiam que, segundo a ótica do outro, eles eram os adoradores do diabo, indo levar seus votos a seis mil léguas de sua pátria, para dele obter dinheiro, em uma tentativa de burlar em nome da cristandade a falta de metais preciosos exigidos em troca das especiarias ali produzidas.
Devemos fazer notar que, em um primeiro momento, alguns portugueses procuraram identificar os deuses hindus com os santos católicos, contudo, rapidamente o engano foi desfeito, passando a ser associado às religiões hindus o culto do demônio, o que deu origem a um processo de conversão forçada que incluiu a destruição de muitos templos.
Em se tratando especificamente da influência dos relatos dos portugueses que estiveram na Índia sobre o imaginário europeu, como notou Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, das vinte histórias dos estabelecimentos portugueses nas Índias, que eram conhecidas na França no século XVIII, nenhuma narrava uma palavra se quer sobre os governos desses países, as religiões, as antigüidades, os brâmanes.
As escassas noticiais que circulavam na Europa dois séculos depois da viagem de Vasco Gama ainda procuravam identificar as religiões Orientais com a adoração do diabo.
Mesclada a idealização de enriquecimento rápido e fácil, usada pela Coroa como parte de uma estratégia visando justificar o domínio pela força das armas, foi justamente esta imagem negativa da Índia que, pouco a pouco, aglutinada a outros fatores, começou a afugentar os voluntários dispostos a rumarem ao Oriente, aproximando-os da nascente Carreira do Brasil.


Desentendimentos religiosos.
Em um contexto mais amplo, o desentendimento cultural entre os europeus e os diversos povos da Ásia encontrou, em grande medida, suas raízes nas religiões praticadas por cada grupo.
No caso dos portugueses, sendo eles, em matéria de fé, extremamente conservadores, não abriram mão da imposição do cristianismo ao outro, inserindo o ideal cruzadistico como pretexto para tomar posse de mercadorias que não podiam pagar.
Diante de uma multiplicidade cultural representada pela convivência pacífica de religiões dispares na Índia, os portugueses tentaram simplesmente aniquilar toda a fé que não fosse a sua própria e com ela a cultura do outro.
Diferente do que ocorreria na América, esta atitude só tornou a resistência nativa mais eficaz.
Segundo documentação do período, graças à intolerância religiosa portuguesa, o gentio se tornou ainda mais teimoso, fazendo cada indiano eliminado ser rendido por dois outros, a despeito da dianteira tecnológica lusitana infringir pesadas perdas àqueles que se opunham aos desmandos de Portugal.
Situação que, desde o inicio, dificultou e estagnou a penetração portuguesa na Índia, representando grande trabalho e moléstia.
Além de importunações esporádicas, que muitas vezes confinaram os lusos ao interior das muralhas de suas fortalezas, principalmente, durante cercos prolongados, que, não raro, obrigavam os lusos na Índia a confessar a necessidade que tinha de socorro.
O que, contraditoriamente, estimulou os portugueses a reforçarem sua intenção de tentar destruir o outro.


A imposição da hegemonia lusitana através da fé.
Em concordância com a política de arrasar para conquistar, uma das primeiras providencias tomadas quando os portugueses instalavam uma feitoria ou fortaleza era erguer em seu interior um pequeno hospital, uma escola e uma igreja.
Os lusos pretendiam não só criar condições de vida semelhantes ao que era encontrado nas melhores cidades da Europa, como também, demonstravam claramente sua intenção de transformar os nativos em bons cristãos e súditos da Coroa.
Ofereciam saúde, educação e conforto espiritual aos indianos que estivessem dispostos a abandonarem sua cultura em prol da cultura européia.
Entretanto, apesar dos esforços dos religiosos portugueses e do apoio militar dos capitães, as conversões na Índia tocaram apenas os elementos pertencentes às castas inferiores.
Converteram-se ao cristianismo notoriamente aquelas que tinham atividades ligadas ao mar, uma vez que, socialmente a luz do direito hindu, por estar regrado que o contacto com o mar significava impureza, abraçar a fé representava a possibilidade de uma maior mobilidade social, algo que seria impossível dentro do sistema indiano rígido de castas.
Um dos primeiros segmentos convertidos na Índia foi justamente a dos Paravas, casta de pescadores de pérolas e aljôfar da costa da Pescaria, uma faixa litoral de cerca de 70 léguas no cabo Comorim, no extremo sul da Península Indostânica.
O que por si demonstra que as conversões representavam para a Coroa portuguesa, mais que uma questão de fé, um valor estritamente estratégico.
Neste caso, por exemplo, a conversão dos paravas adquiriu uma conotação especial porque estes dominavam sete portos de grande importância e valor estratégico para a penetração portuguesa na área.
Seja como for, não obstante a brilhante idéia da Coroa portuguesa de dominar a Índia através da fé, já que pela força das armas unicamente isto era quase impossível, o fato desta estratégia ter sido executada sem levar em consideração a cultura do outro, inviabilizou seu sucesso.
A maioria dos sacerdotes nem ao menos conheciam as línguas locais, o que dificultava muito a comunicação.
Somente com a chegada dos jesuítas a Índia, cuja corporação tornou-se juridicamente oficial em 1540, é que a política de conversões começou a ter algum sucesso.
Em 1541, eles foram responsáveis pela fundação do Colégio de São Paulo, em Goa, inaugurando o primeiro seminário de Teologia e Filosofia de toda a Ásia, sendo destinado tanto ao clero local quanto aos escolares jesuítas.
Todavia, embora estivessem inseridos em um contexto mais amplo, arquitetado pela Coroa, que visava utilizar a fé como meio de dominação, os jesuítas foram responsáveis por uma das poucas tentativas de compreensão da cultura do outro, isto não só na Índia como também na China e no Japão.
Eles se instalavam no seio das comunidades locais, aprendendo a língua e os costumes, tentando convencer por meio da persuasão pacífica os nativos a converterem-se a fé cristã, obtendo um relativo sucesso, apesar de, em algumas ocasiões, terem sido assassinados pelos populares locais ou por seus lideres temerosos de perderem sua influência junto à população.
Porém, todo o trabalho realizado pelos jesuítas no Oriente sofreu um retrocesso com o estabelecimento do Tribunal do Santo Oficio na Índia, sediado em Goa em 1560.
Foi quando então os portugueses passaram a fazer, cada vez mais, o uso da força para converter os indianos.
Os portugueses simplesmente deixaram de apelar à persuasão, adotando o método da pura imposição.
O que fez com que nem mesmo as comunidades cristãs nestorianas conseguissem suportar os cânones de Roma.
Os nestorianos haviam sido os únicos que tinham visto com bons olhos a chegada dos portugueses e, contando por esta altura com umas trinta mil famílias, depois de terem descido da Serra do Malabar para abrigarem-se nas fortalezas lusitanas, diante da intolerância de alguns de seus hábitos, voltaram a se espalhar em mais de mil povoados.
Impondo sua fé pela violência aos indianos, considerados, ao contrario dos africanos, como potenciais cristãos, os portugueses só conseguiram despertar o ódio e a resistência a sua presença no Oriente.
O que fez, pouco mais tarde, com que nativos passassem a apoiar os inimigos de Portugal e suas pretensões de substituírem os lusos como senhores do Índico.
A despeito de nações como a Inglaterra e a Holanda não possuírem qualquer respeito para com a cultura do outro, como protestantes, tinham ao menos certa tolerância religiosa, facultando aos povos dominados uma liberdade espiritual muito maior do que a permitida pelos portugueses.


Alianças e violência.
Pensando na penetração lusitana na Índia, fica óbvio que, mais do que os desentendimentos culturais, a intolerância religiosa, a vontade de impor ao outro pela violência a sua própria fé, fez com que os portugueses enfrentassem dificuldades redobradas.
Este foi um dos fatores que levou a Carreira da Índia a entrar em declínio, uma vez que tudo que a intolerância lusitana conseguiu foi intensificar as dificuldades.
Estando longe de Portugal, os súditos da Coroa presentes na Índia dependiam substancialmente da proteção dos navios da Carreira da Índia para poderem se impor sobre os nativos.
Em terra a vantagem era dos indianos, sendo que, quando estes navios eram forçados a retornarem ao Reino, carregados com especiarias, ficavam as fortalezas e feitorias lusitanas entregues a mercê do assédio indiano tanto por terra como por mar.
Cedo esta deficiência foi notada, sendo que a Coroa procurou de quando em vez deixar algumas embarcações da Carreira da Índia, por períodos mais longos que o habitual, andando em armada pelo Índico.
As gigantescas naus da Índia patrulhavam principalmente o litoral malabar e a costa Oriental da África, quando então os efetivos militares Orientais não podiam se equiparar ao poder das embarcações portuguesas.
Simultaneamente, também cedo, a Coroa notou que a chave para garantir sua presença na Índia estava no estabelecimento de uma base avançada ali, encaixando-se Goa perfeitamente neste papel.
Nada adiantava ter um centro de apoio logístico sem antes artilha-lo a altura, o que começou a ser concretizado com canhões recuperados de naus naufragadas.
Este dito centro tampouco de nada serviria sem que uma armada de guerra estivesse ali alocada para, em conjunto com as naus da Carreira da Índia, proteger sua sede e prestar socorro as zonas que necessitassem.
Uma questão que foi solucionada com a construção de uma armada de galés.
Estratégia que surtiu um bom efeito até a chegada dos ingleses e holandeses, isto ao menos no que diz respeito ao controle das áreas produtoras de pimenta, o principal produto intermediado pelos lusos para a Europa.
Não possuindo recursos que fizessem frente ao poder de fogo das naus e fortalezas lusitanas, diante da intolerância cultural e religiosa cristã, príncipes e sultões indianos procuraram se mostrar abertos a eventuais alianças.
Procuravam aproveitar a força dos lusos para galgar uma posição de maior destaque e derrotar os inimigos, isto apesar de soberanos que se julgavam mais fortes terem tentado lutar em vão contra a presença portuguesa, tal como procedeu, por exemplo, o Samorim, o Senhor da cidade de Goa.
Diante do terror provocado pelos canhões das naus portuguesas, tamanha foi a busca da aliança com Portugal que, quando não tinham nenhum beneficio do ponto de vista logístico ou zonas produtoras de especiarias para oferecerem aos portugueses em troca de proteção, desesperados, muitos governantes chegavam a tentar comprar a amizade dos lusos com ouro ou outras mercadorias.
Assim procedeu o rei de Ormuz em 1510, o qual, vendo a frota portuguesa próxima de sua cidade, apressou-se em assentar paz a troco de um pesado tributo angariado entre os mercadores ali presentes.
Mesmo entre seus aliados, os portugueses freqüentemente eram vistos como presunçosos e perigosos.
Diante do menor desentendimento a aliança era facilmente desfeita, tal como ocorreu depois que Pedro Álvares Cabral, capitão-mor da armada de 1500, estabeleceu uma feitoria em Calecute, quando os indianos destruíram a feitoria fundada por ele, massacrando a maioria dos portugueses que ali prestavam serviço.
Na verdade, para além da resistência nativa gerada pelo confronto cultural, a má fama dos portugueses fazia com que fossem ao mesmo tempo temidos e combatidos.
Quando Vasco da Gama, pela segunda vez, sob o comando da armada de 1502, chegou à Índia, diante da noticia do massacre dos portugueses em Calecute, sua primeira atitude foi confirmar a má fama.
Após impor condições de comércio extremamente desfavoráveis aos indianos, diante da impossibilidade de encontrar uma resposta positiva para suas exigências, ordenou que enforcassem trinta e quatro nativos, deixando-os pendurados nos mastros de sua nau para que fossem vistos enquanto bombardeava a cidade.
Não satisfeito com a carnificina, anoitecendo, mandou que tirassem os enforcados e que lhes cortassem as cabeças, as mãos e os pés, depois, deitar os toros dos corpos ao mar, remetendo todos os outros membros para a sua nau, os quais fez embarcar em uma almadia, uma embarcação pesqueira local que tinha sido aprisionada.
Enviou os pedaços aos indianos, mandando escrever uma mensagem na língua dos nativos que foi colocada junto aos restos humanos:
“Eu vim a este porto com boa mercadoria para vender, comprar, e pagar os vossos géneros; estes são géneros desta terra; eu vo-los envio de presente, como também a El-rei. Se quereis a nossa amizade, tendes que principiar por pagar o que roubastes neste porto, debaixo de vossa palavra e seguro, depois pagareis a pólvora que constar nos fizestes gastar; e se depois de isto feito quiserdes a nossa amizade, seremos amigos”.
Embora a violência fosse algo corriqueiro na Europa medieval, diante da incapacidade de tolerar e tentar compreender a cultura do outro, os portugueses fizeram dela uma estratégia de conquista.


A visão do outro.
Segundo a documentação da época, a ótica dos indianos via os portugueses como uma raça de gentes muito brancas e formosas, que usavam botas e chapéus de ferro, e nunca se detinham em parte alguma, que comiam uma espécie de pedra branca e bebiam sangue.

Um relato cingalês, o Rajavali, diz que gente estranha possuía canhões que produziam um ruído semelhante ao trovão e uma bala disparada por qualquer deles, depois de percorrer uma légua, seria capaz de destruir um castelo de mármore.

Frente à imagem aterrorizadora dos portugueses, quando D. Lourenço, governador português da Índia, filho do primeiro vice-rei, na primeira década do século XVI, chegou a cidade de Colombo, os navios ali ancorados foram imediatamente abandonados pelas tripulações receosas das conseqüências.
Como os nativos da América, muitos indianos veriam os portugueses como seres místicos invencíveis, enxergando eles ao mesmo tempo como inimigos civilizacionais por excelência.
Todavia, a despeito da violência ser o principal método de conquista empregado pelos portugueses na Índia, quando Afonso de Albuquerque assumiu o cargo de vice-rei em 1509, paralelamente a esta faceta violenta que continuou a ser emprega como meio de intimidação, procurou estimular os casamentos inter-raciais.
Fez casar alguns soldados com mouras, segundo palavras literais empregadas na documentação quinhentista, mulheres alvas de bom parecer, que tinham sido capturadas.
Visando integrar a cultura indiana com a portuguesa, na realidade não mais que absorve-la, mas, como acontece sempre na história da humanidade, os conquistadores involuntariamente terminariam sendo influenciados pela cultura que tentaram destruir.
A complexidade das relações envolvia ainda traições entre os aliados e mesmo dentro das próprias tropas lusitanas.
Algumas cidades indianas fingiram aceitar a amizade portuguesa, paradoxalmente, incentivando e prestando apoio aos rebeldes que lutavam contra a presença lusitana e punindo aqueles que colaboravam com os invasores.
Na primeira década de quinhentos, na época em que o rei de Cochim era aliado dos portugueses, três indianos que venderam vacas aos portugueses, animal considerado sagrada para os hindus, foram “presos e executados pelas autoridades locais.
O que aconteceu não só por desrespeitarem a religião hindu como também por darem de comer aos lusos.
Segundo um relato português, mau os indianos que haviam vendido as vacas aos portugueses foram ter com o rei de Cochim, sem nenhum processo ou julgamento, foram empalados vivos da seguinte maneira:
“Espetaram um pau pelos rins a cada um, que lhe passava pelo peito; e com a cabeça para cima os encravaram na terra, ficando altos do chão coisa de uma lança, e com os braços e pernas abertas, atados a quatro paus, não podendo correr para baixo porque havia uma travessa que os embaraçava”.
Entretanto, um relato, descrevendo os indianos que procuraram resistir ao domínio português, dá conta que os nativos eram muito soberbos, mentirosos e traidores, agindo com ousadia na batalha e pelejando sem medo.
Por esta ótica, os nativos não estavam preparados para tentar resistir, usavam como principais armas boas lanças compridas de ferro, de folha de oliveira sem espigão, e muitas vezes adagas e zarabatanas com que atiravam flechas de palmo ervadas, além de arcos compridos de corno de búfalo de duas peças.
De acordo com este mesmo relato, os asiáticos não estimavam a vida por matarem um grão senhor e, adoecendo, prometiam a Deus de tomarem outra morte mais honrada se lhe desse saúde, conduzindo uma guerra santa contra os portugueses.
Estando sadios, iam pelo lugar onde moravam matando todos quantos topavam, até que os matassem.
Ao que os portugueses atribuíam a disposição dos indianos para guerra, o fato de serem grandes monteiros e caçadores, possuindo muitos cavalos e cães de caça.
Apesar de na maior parte das vezes fazerem uso de armas rudimentares, ao menos para os padrões europeus, alguns eram muito engenhosos em ofícios mecânicos e grandes artilheiros, fabricando sua própria pólvora.


Concluindo.
Como ocorreu na África, a resistência nativa foi responsável pelo confinamento dos portugueses no interior das muralhas ao redor dos pontos controlados por eles e a alguns poucos locais circunscritos as proximidades de fortalezas e feitorias.
O poder de fogo das naus portuguesas permitiu apenas um controle eficiente das zonas litorâneas e acessadas por via fluvial, possibilitando, a reboque, até a chegada dos ingleses e holandeses, o domínio sobre as áreas produtoras de pimenta.
Não podemos deixar de notar que o confronto cultural e militar entre portugueses e indianos foi um dos fatores que, junto com o alto índice de naufrágios na Carreira da Índia e o sofrido cotidiano ali vivenciado, contribuiu para o declínio da rota em benefício da Carreira do Brasil.
Não bastando à resistência indiana, o confronto da cultura lusitana com a chinesa gerou problemas mais difíceis de serem contornados, quando a proteção de muralhas ou naus artilhadas não foi suficiente para garantir uma presença européia duradoura.
Mas está já é outra história.


Para saber mais sobre o assunto.
RAMOS, Fábio Pestana. Naufrágios e obstáculos enfrentados pelas armadas da Índia portuguesa. 1497-1653. São Paulo: Humanitas, 2000.
RAMOS, Fábio Pestana. No tempo das especiarias. São Paulo: Contexto, 2004.
RAMOS, Fábio Pestana. Por mares nunca dantes navegados. São Paulo: Contexto, 2009.


Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.